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Lendas do sul

Chapter 17: X
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About This Book

A sequence of folk narratives gathers oral legends from the Rio Grande do Sul countryside, retelling supernatural episodes and moral parables shaped by landscape and communal memory. Tales interweave Iberian, Guaraní and Christian-Arabic motifs, portraying luminous serpents, floods, mourning over lost lives, and haunting searches for buried wealth; recurring images — spectral lights, animal portents and miraculous interventions — reflect local customs and speech. Presented as compact vignettes, the pieces preserve vernacular tone and vary in mood from eerie to lamenting, emphasizing how popular tradition adapts and reshapes mythic material across generations.

VII

Na troteada para o posto em que morava, um ranchote de beira chão tendo como porta um couro —, Blau rumeou para uma venda grande que sortia aquele vizindário, mesmo a troco de courama, cerda ou algum tambeiro; e como vinha de garganta seca e a cabeça atordoada mandou botar uma bebida.

Bebeu; e puxou da guaiaca a onça e pagou; era tão mínima a despesa e o câmbio que veio, tanto, que pasmou, olhando para ele, de tão desacostumado que andava de ver dinheiro tanto, que chamasse seu…

E de dedos engatanhados socou-o todo para dentro do afogado.

Calado, montou de novo, retirando-se.

No caminho foi pensando nas todas cousas que carecia e que iria comprar. Entre aperos e armas e roupas, um lenço grande e umas botas, outro cavalo, umas esporas e embelecos que pretendia, andava tudo por uma mão cheia de cruzados; e a si próprio perguntava se aquela onça encantada, dada para indez, teria mesmo o condão de entropilhar outras muitas, tantas como as que precisava, e mais ainda, outras e outras que seu desejo fosse despencando?!…

Chegou ao posto, e como homem avisado, não falou do que fizera durante o dia, apenas do boi barroso, que campeiou e não achou; e no seguinte, logo cedo saiu a campeiar a prova do prometido.

Naquele mesmo negociante ajustou umas roupas tafulonas; e mais uma adaga de cabo e bainha com anéis de prata; e mais as esporas e um rebenque de argolão.

Toda a compra passava de três onças.

E Blau, as frontes latejando, a boca cerrada, num aperto que lhe fazia doer o carrinho, piscando os olhos, a respiração atropelada, todo ele numa desconfiança, Blau, por debaixo do seu balandrau remendado começou a gargantear a guaiaca… e caiu uma onça… e outra… e outra!… As quatro, que por agora eram tão de jeito!…

Mas não caíram duas e duas ou três e uma, ou as quatro, juntas, porém sim de uma a uma, as quatro, de cada vez só uma…

Voltou ao rancho com a maleta atochada, mas como homem avisado, não falou do acontecido.

No outro dia seguiu a outro rumo, para outro negociante mais forte e de prateleiras mais variadas. Já levava alinhavado o sortimento que ia fazer, e muito em ordem foi encomendando o aparte das cousas, tendo o cuidado para não querer nada de cortar, só peças inteiras, que era para, no caso de falhar a onça, recuar da compra, fazendo um feio, é verdade, mas não sendo obrigado a pagar estrago algum. Notou a conta, que andava por quinze onças, uns cruzados p’ra menos.

E outra vez, por debaixo do seu balandrau remendado, começou a gargantear a guaiaca, e logo lhe foi caindo na mão uma onça… e segunda… outra… e quarta, mais outra, e sexta… e assim de uma em uma, as quinze necessárias!

O negociante ia recebendo e alinhando sobre o balcão conforme vinham minando da mão do pagador, e quando estavam todas disse, entre risonho e desconfiado:

— Cuê-pucha!… cada das onça das suas parece que é um pinhão, que é preciso descascar à unha!…

No terceiro dia passou na estrada uma cavalhada; Blau fez parar a tropa e ajustou uma quadrilha, apartada por ele, à sua vontade, e como facilitou o preço, fechou-se o trato.

Ele e o capataz, sós no meio da cavalhada iam fazendo mover-se os animais; no apinhado de todas Blau marcava a cabeça que mais lhe agradava pelo focinho, pelos olhos, pelas orelhas; com um sovéu fino, de armada pequena, reboleava por dentro e ia, certo, laçar o bagual escolhido; se ainda, sem ovas e bons cascos, aprazia-lhe, tirava-o então, como seu, para o potreiro do piquete.

Olho de campeiro não errou vez alguma na escolha e trinta cavalos, a flor, foram apartados custando quarenta e cinco onças.

E enquanto a tropa verdeava e bebia, os tratistas foram para a sombra duma figueira que havia na bira da estrada.

Blau por debaixo do seu balandrau remendado, ainda desconfiado, começou a gargantear a guaiaca… e foi logo aparando onça por onça, uma, três, seis, dez, dezoito, vinte e cinco, quarenta, quarenta e cinco!…

O vendedor, estranhando aquela novidade e demora, não se conteve e disse:

—Amigo! As suas onças parecem todas de gerivá, que só cai uma de cada vez!…

Depois desses três dias de prova, Blau acreditou na onça encantada.

Arrendou um campo e comprou o gado, p’ra mais de dez mil cabeças, aquerenciando.

O negócio era muito acima de três mil onças, a pagar no recebimento.

Aí o coitado perdeu quase o dia inteiro a gargantear a guaiaca e a aparar onça a onça, uma atrás da outra, sempre uma a uma!…

Cansou-lhe o braço; cansou-lhe o corpo; não falhava golpe, mas tinha de ser como martelada, que não se dá duas ao mesmo tempo…

O vendedor, à espera que Blau completasse a soma, saiu, mateou, sesteou; e quando sobre à tarde voltou à ramada, lá estava ele ainda aparando onça traz onça…

Ao escurecer estava completo o ajuste.

Começou a correr a fama da sua fortuna. E todos espantavam-se, por ele, gaúcho despilchado de ontem, pobre, que só tinha de seu as chilcas, afrontar os abonados, assim, do pé para a mão… E também era falado do seu esquisito modo de pagar — que pagava sempre, valha a verdade — só de onça por onça, uma depois de outra e nunca ao menos duas, acolheradas!…

Aparecia gente a propor-lhe negócio, ainda de pouco preço, só para ver como aquilo era; e para todos era o mesmo mistério…

Mistério para o próprio Blau… muito rico… muito rico… mas de onça em onça, como tala de gerivá, que só cai de uma vez… como pinhão da serra, que só descasca de um a um!…

Mistério para Blau, muito rico… muito rico… mas todo dinheiro que ele recebia, que entrava das vendas feitas, todo dinheiro que lhe pagavam a ele, todo desaparecia, guardado na arca de ferro, desaparecia como desfeito em ar…

Muito rico… muito rico das onças que precisasse, e nunca faltaram para gastar no que lhe parecesse: bastava-lhe gargantear a guaiaca, e elas começavam a pingar;… mas nem uma das que recebia lhe ficava, todas evaporavam-se, como água em tijolo quente…

IX

Então começou a corre um boquejo de ouvido para ouvido… e era que ele tinha parte com o diabo, e que o dinheiro dele era maldito porque, todos com quem tratava e recebiam das suas onças, todos entravam ao depois a fazer maus negócios e todos perdiam em prejuízos exatamente a quantia igual à de suas mãos recebida.

Ele comprava e pagava e pagava à vista, é certo; o vendedor contava e recebia, é certo, mas o negócio empreendido por esse valor era prejuízo, garantido.

Ele vendia e recebia, é certo; mas o valor recebido, que ele guardava e rondava sumia-se como um vento, e não era roubado nem perdido; era sumido, por si mesmo…

O boquejar foi alastrando, e já diziam que aquilo, por certo, era mandinga arrumada na salamanca do Jarau, onde ele foi visto mais de uma feita… e que lá é que se jogava a alma contra a sorte…

E os mais vivarachos já faziam suas madrugadas sobre o Jarau; outros mais sorros, p’ra lá tocavam-se ao escurecer; outros, atrevidaços iam à meia-noite, outros ainda ao primeiro cantar dos galos…

E como nesse carreiro de precatados cada um fazia por ir de mais escondido, sucedeu que como sombras se pechavam entre as sombras das reboleiras, sem atinar co’a salamanca, ou sem topete para, na escuridão, quebrar aquele silêncio, chamando o santão, num grito alto…

No entanto, Blau começou a ser tratado de longe, como um chimarrão rabioso…

Já não tinha com quem pautear; churrasqueva solito, e mateava, rodeado dos cachorros, que uivavam, às vezes um, às vezes todos…

A peonada foi saindo e conchavando-se noutras partes; os negociantes nada compravam-lhe e negaceavam para vender-lhe; os andantes cortavam o campo, para não pararem em seus galpões…

Blau deu em cismar, e cisma foi que resolveu acabar com aquele cerco de isolamento, que o ralava e esmorecia…

Montou a cavalo e foi ao serro. Na trepada sentiu nos dois lados barulho nos bamburrais e nas restingas, mas pensou que seria alguma ponta de gado chucro que disparava e não fez caso; foi trepando, nem guaraxaim corrido, nem tatu vadio; era gente, que se escondia uns dos outros e dele…

Assim que chegou à reboleira do mato, tão sua conhecida e recordada, e como chegou, deu de cara com o vulto de face branca e tristonha, o sacristão encantado, o santão.

Ainda desta vez, como era ele que chegava, a ele competia louvar; saudou, como da outra:

— Laus’ Sus’ Cris’!…

— Para sempre, amém! respondeu o vulto.

Então Blau, de a cavalo, atirou-lhe ao* pés a onça de ouro, dizendo:

— Devolvo! Prefiro a minha pobreza dantes à riqueza desta onça, que não se acaba, é verdade, mas que parece amaldiçoada, porque nunca tem parelha e separa o dono dos outros donos de onças!… Adeus! Fica-te com Deus, sacristão!

— Seja Deus louvado! disse o vulto e caiu de joelhos, de mãos postas, como numa reza.

Pela terceira vez falaste no Nome Santo, tu, paisano, e com ele quebraste o encantamento!… Graças! Graças! Graças!…

E neste mesmo instante, que era o da terceira vez que Blau saudava no Nome Santo, neste mesmo momento ouviu-se um imenso estouro, que retumbou naquelas vinte léguas em redor; o Serro do Jarau, tremeu de alto a baixo, até as suas raízes, nas profundas da terra, e logo em cima, no chapéu do espigão, apareceu, cresceu, subiu aprumo-se, brilhou, apagou-se uma língua de fogo, alta como um pinheiro, apagou-se e começou a sair fumaça negra, em rolos grandes, que o vento ia tocando para longe, por cima do encordoado das coxilhas, sem rumo feito, porque a fumaceira inchava e desparramava-se no ar, dando voltas e contravoltas, torcendo-se, enroscando-se em altos e baixos, num desgoverno, como uma tropa de gado alçado, que espirra e se desmancha como água passada em regador…

Era a queima dos tesouros da salamanca, como dissera o sacristão.

Sobre as caídas do Serro levantou-se um vozerio e tropel: eram os maulas que andavam rastreiando a furna encantonada e que agora fugiam desguaritados, como filhotes de perdiz…

X

Para os olhos de Blau o serro ficou como vidro transparente, e então viu ele o que lá dentro se passava: os brigões, os jaguares, os esqueletos, os anões, as lindas moças, a boicininga, tudo, torcido e enovelado, amontoado, revolvido, corcoveava dentro das labaredas que subiam e apagavam-se dentro dos corredores, cada vez mais carregados de fumaça… e urros, gritos, tinidos, silbidos, gemidos, tudo se confundia no tronar da voz maior que estrondeava no cabeço empenachado do serro.

Ainda uma vez a velha carquincha transformou-se na teiniaguá… e a teiniaguá na princesa moura… a moura numa tapuia formosa;… e logo o vulto de face branca e tristonha tornou à figura do sacristão de S. Tomé, o sacristão, por sua vez, num guasca desempenado…

E assim, quebrado o encantamento que suspendia fora da vida das outras aquelas criaturas vindas do tempo antigo e lugar distante, aquele par, juntado e tangido pelo Destino,10 que é o senhor de todos nós, aquele par novo, de mãos dadas como namorados, deu as costas ao seu desterro, e foi descendo a pendente do coxilhão, até a várzea limpa, plana e verde, serena e amornada pelo sol claro, toda bordada de boninas amarelas, de bibis roxas, e malmequeres brancos, como uma cancha convidante para uma cruzada de ventura, em viagem de alegria, a caminho de repouso!…

Blau Nunes também não quis mais ver; traçou sobre o seu peito uma cruz larga, de defesa, na testa do seu cavalo outra, e deu de rédea e despacito foi baixando a encosta do serro, com o coração aliviado e retinindo como se dentro dele cantasse o passarinho verde…

E agora estava certo de que era pobre como dantes que comeria em paz e seu churrasco…; e em paz o seu chimarrão, em paz a sua sesta, em paz a sua vida!…

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Assim acabou a salamanca do Serro do Jarau, que aí durou duzentos anos,11 tantos se contam desde o tempo das Sete Missões, em que estas cousas principiaram.

Anhangá-pitã, também, desde aí, não foi mais visto. Dizem que desgostoso, anda escondido, por não haver tomado bem tenência que a teiniaguá era mulher…

*Elucidação*

*1 Serro do Jarau* —Na Coxilha Geral de Sant’Ana, sobre a linha divisória com a República do Uruguai.

Fica um pouco ao N. da cidade de Quaraí, em campos da família Assumpção, de Pelotas. É o ponto culminante (…metros) daquela zona, sendo avistado de muito longe. No fim da guerra do Farrapos (1845) notaram-se sobre o espigão do Serro, e parecendo dele sair, grossos rolos de fumaça. É essa a primeira notícia que há do fenômeno.

Outras combustões registraram-se depois, notadamente por 1904, em que se disse mesmo que havia expulsão de vapores ígneos.

*2 Salamanca* —Furna encantada; provém a denominação da cidade de Salamanca, na Espanha, onde existia, diz-se, uma célebre escola de magia, no tempo dos Mouros. A seguir a tradição local, o célebre caudilho Bento Manoel deveu a sua sorte guerreira, política, de fortuna ao conchavo que ajustou na salamanca do Jarau. Antes dele, alguns, mas depois, nenhum outro aí obteve mais nada, desde — “que o serro pegou fogo” — quando acabou o encantamento.

*3 Laus’ Sus’ Cris’!* —Forma abreviada e estranha, é certo, porém expressiva da saudação — Louvado seja Jesus Cristo! Ouvimo-la inúmeras vezes, em nossa infância.

*4 Boi barroso* —É a vaga relembrança de um boi encantado, que aparecia porém nunca era encontrado por mais procurado que fosse; e também denominação de uma antiga dança camponesa, cuja música era ornada de versos que eram cantados durante o folguedo.

*5 Anhangá-pitã* — Literalmente, do tupi-guarani: diabo vermelho.

*6 Teiniaguá* — Idem: lagartixa. A teiniaguá encantada também era chamada — carbúnculo, farol — e trazia engastada na cabeça “uma pedra preciosa que cintilava como brasa e de cor de rubim…

Semelhante animal nunca puderam apanhar nem vivo nem morto, porque por suas irradiações desvia os olhos e mãos dos perseguidores”. (Rev°. C. Teschauer, S. J. na Rev. do Instº. do Ceará, 1911).

*7 Zaorís* — V. adiante a lenda referente.

*8 Charruas* — Tribo guerreira, indômita, acantonada sobre a Coxilha de Aedo, e dominando o rio Quaraí até o Uruguai e para L. até o rio Negro. As guerras e contínuas correrias que desde 1750 até mais de um século depois afligiram o Rio Grande e o Estado Oriental dizimaram esta tribo (como a outras) hoje por bem dizer, extinta. Desse quase acabamento e a deturpação das lendas que entre tais gentes floresceram.

*9 Cidade de Santo Tomé* — Na Argentina; sobre o Uruguai, entre o Rio Icamaquã e a cidade rio-grandense de S. Borja. “Destruídas as reduções do Guaíra e expulsos pelos mamelucos, estabeleceram-se os missionários primeiro no centro do Rio Grande do Sul entre os rios Pardo e Jacuí. Mas só por poucos anos. Mais tarde, outra vez perseguidos e expulsos pelos mesmos,

refugiaram-se uns para as hodiernas Sete Missões, os outros para a margem direita do Uruguai, encorporando-se à redução de Santo Tomé, de cujas ruínas se levantou depois a cidade do mesmo nome, quase em frente de S. Borja”. (Revo. C. Teschauer, citado) Existe no arrabalde de S. Tomé a famosa sanga, que aponta como prova do acontecimento e poder da teiniaguá encantada.

*10 ,… tangido pelo Destino* — É característico este traço no indivíduo rio-grandense, que até por hábito doméstico emprega como vulgares as expressões — sorte, destino, fado — Na gente inculta torna-se curiosa a indistinta veneração prestada ao divino e ao diabólico, como forças superiores que atuam sobre os homens.

*11 …aí durou duzentos anos, etc.* — Coincide com a lamentação do sacristão encantado a era do período do mais calmo das missões sobre o rio Uruguai, 1650, em que formou-se a lenda.

*O NEGRINHO DO PASTOREIO* A Coelho Netto

Pelotas — 1 de janeiro, 1907

Meu caro patrício Sr. J. Simões Lopes Netto.

Venho agradecer-lhe a dedicatória da lenda “O Negrinho do pastoreio” publicada no Correio Mercantil” de 26 de dezembro. Já conversamos sobre a necessidade que, todos quantos nos interessamos pela tradição temos de coligir as trovas e narrativas do velho tempo. Elas representam o sonho dos que passaram, são a bem-dizer o rastro das almas. Entendem muitos escritores que devem corrigir a afabulação e a forma de tais relíquias tirando-lhe o caráter ingênuo, o sabor suave que elas trazem de origem. O meu amigo não incorreu em tal culpa—procedeu como o file celta que, chamado para referir aos da “clan” as histórias dantanho, dizia-as repetindo com respeitosa observância da tradição tal como as ouvira dos maiores. E o que, sobretudo encanta no lindo raconto que me ofereceu, no qual transparece bem a alma do povo pastoral, é a simplicidade.— Lendo-a tive a impressão de estar ouvindo contada, em tom lento, por uma dessas velhinhas que são as conservadoras de muito primor da Poesia popular, tão rica em nossa pátria e tão desestimada.

Reiterando os meus agradecimentos peço-lhe que continue a respigarem tão rica seara trazendo-nos outros presentes como o que me ofereceu com tanta generosidade.

Muito seu agradecido

Coelho Neto

O NEGRINHO DO PASTOREIO

Naquele tempo os campos ainda eram abertos, não havia entre eles nem divisas nem cercas; somente numas volteadas se apanhava uma gadaria chucra e os veados e as avestruzes corriam sem empecilhos…

Era uma vez um estancieiro, que tinha uma ponta de surrões cheios de onças e meias doblas e mais muita prataria; porém era muito cauíla e muito mau, muito.

Não dava posada a ninguém, não emprestava um cavalo a um andante; no inverno o fogo de sua casa não fazia brasas, as geadas e o minuano, podiam entanguir gente, que a sua porta não se abria; no verão a sombra dos seus umbus só abrigava os cachorros; e ninguém de fora bebia água das suas cacimbas.

Mas também quando tinha serviço na estância, ninguém vinha de boa vontade dar-lhe um ajutório; e a campeirada folheira não gostava de conchavar-se com ele, porque só dava para comer um churrasco de tourito magro, farinha grossa e erva caúna e nem um naco de fumo… e tudo, debaixo de tanta somiticaria e choradeira que parecia que era o seu próprio couro que ele estava lonqueando…

Só para três viventes ele olhava nos olhos: era para o filho, menino cargoso como uma mosca, para um baio de cabos negros, que era o seu parelheiro de confiança, e para um escravo, pequeno ainda, muito bonitinho e preto como carvão e a quem todos chamavam somente o —Negrinho.

A este não deram padrinhos nem nome; por isso o Negrinho se dizia afilhado da Virgem, Senhora nossa, que é a madrinha de quem não a tem.

Todas as madrugadas o Negrinho galopeava parelheiro; depois conduzia aos avios do chimarrão e à tarde sofria os maus tratos do menino, que o judiava e se ria.

***

Um dia, depois de muitas negaças, o estancieiro atou carreia com um seu vizinho. Este queria que a parada fosse para os pobres; o outro que não, que não! que a parada devia ser do dono do cavalo que ganhasse. E trataram: o tiro era trinta quadras, a parada, mil onças de ouro.

No dia aprazado, na cancha da carreira havia gente como em festa de santo grande.

Entre os dois parelheiros a gauchada não sabia se decidir, tão perfeito era e bem balançado cada um dos animais. Do baio era fama que quando corria, corria tanto, que o vento assobiava-lhe nas crinas; tanto, que só se ouvia o barulho, mas não se lhe viam as patas baterem no chão… E do mouro era voz que quanto mais cancha, mais agüente, e que desde a largada ele ia ser como um laço que se arrebenta…

As parcerias abriram as guaiacas, e aí no mais já se apostavam aperos contra rebanhos e redomões contra lenços.

— Pelo baio! Luz e doble!…

— Pelo mouro! Doble e luz!…

Os corredores fizeram suas partidas à vontade e depois as obrigadas; e quando foi a última na última, fizeram ambos sua senha e se convidaram. E amagando o corpo, de rebenque no ar, largaram, os parelheiros menando cascos, que parecia uma tormenta…

— Empate! Empate! gritavam os aficionados ao longo da cancha por onde passava a parelha veloz, compassada como n’uma colhéra.

— Valha-me a Virgem madrinha, Nossa Senhora! gemia o Negrinho. Se o sete léguas perde meu senhor me mata! Hip! hip! hip!…

E baixava o rebenque, cobrindo a marca do baio.

—Se o corta-vento ganhar é só para os pobres! retrucava o outro corredor. Hip! hip!

E cerrava as esporas no mouro.

Mas os fletes corriam compassados como numa colhéra. Quando foi na última quadra, o mouro vinha arrematado e baio vinha aos tirões… mas sempre juntos, sempre emparelhados.

E a duas braças da raia, quase em cima do laço, o baio assentou de sopetão, pôs-se em pé e fez uma cara-volta,, de modo que deu ao mouro tempo mais que preciso para passar, ganhando de luz aberta! E o Negrinho, de em pelo, agarrou-se como um ginataço.

—Foi mal jogo! gritava o estancieiro

—Mau jogo! secundavam os outros da sua parceria.

A gauchada estava dividida: mais de um toreana coçou o punho da adaga, mais de desapresilhou a pistola, mais de um virou as esporas para o peito do pé… Mas o juiz, que era um velho do tempo da guerra de Sapé-Tiaraiú, era um juiz macanudo, que já tinha visto muito mundo. Abanado a cabeça branca sentenciou, para todos ouvirem.

—Foi na lei! A carreira é de parada morta; perdeu o cavalo baio, ganhou o cavalo mouro. Quem perdeu, que pague. Eu perdi cem gateadas; quem as ganhou venha buscá-las. Foi na lei!

Não havia o que alegar. Despeitado e furioso o estancieiro pagou a parada, à vista de todos atirando as mil onças de ouro sobre o poncho do seu contrário, estendido no chão.

E foi um alegrão por aqueles pagos, porque logo o ganhador mandou distribuir tambeiros e leiteiras, covados de baetas e baguais e deu de resto, de mota, ao pobrerio. Depois as carreiras seguiram com os changueiros que havia.

***

O estancieiro retirou-se para sua pobre casa e veio pensando, pensando, calado, em todo caminho. A cara dele vinha lisa, mas o coração vinha corcoveando como touro de banhado laçado e meia espalda… O trompaço das mil onças tinha-lhe arrebentado a alma.

E conforme apeou-se, da mesma vereda mandou amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho.

Na madrugada saiu com ele e quando chegou no alto da coxilha falou assim:

— Trinta quadras tinha a cancha da carreira que tu perdeste: trinta dias ficarás aqui pastoreando a minha tropilha de tordilhos negros… O baio fica de piquete na soga e tu ficarás de estaca!

O Negrinho começou a chorar, enquanto os cavalos iam pastando.

Veio o sol, veio o vento, veio a chuva, veio a noite. O Negrinho, varado de fome e já sem força nas mãos, enleiou a soga num pulso e deitou-se encostado a cupim.

Vieram então as corujas e fizeram roda, voando, paradas no ar e todas olhavam-no com os olhos reluzentes, amarelos na escuridão. E uma piou e todas piaram, como rindo-se dele, paradas no ar, sem barulho nas asas.

O Negrinho tremia, de medo… porém de repente pensou na sua madrinha Nossa Senhora e sossegou e dormiu.

E dormiu. Era já tarde da noite, iam passando as estrelas; o Cruzeiro apareceu, subiu e passou; passaram as Três Marias; a estrela d’alva subiu… Então vieram os guaraxains ladrões e farejaram o Negrinho, e cortaram a guasca da soga. O baio sentindo- se solto rufou a galope, e toda tropilha com ele, escaramuçando no escuro e desaguaritando-se nas canhadas.

O tropel acordou o Negrinho; os guaraxains fugiram, dando berros de escárnio.

Os galos estavam cantando, mas nem o céu nem as barras do dia se enxergava: era a cerração que tapava tudo.

E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou.

***

O menino malévola foi lá e veio dizer ao pai que os cavalos não estavam. O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe uma surra de relho.

E quando era já noite fechada ordenou-lhe que fosse campear o perdido. Regulando, chorando e gemendo, o Negrinho pensou na sua madrinha Nossa Senhora e foi ao oratório da casa, tomou o coto de vela aceso em frente da imagem e saiu para o campo.

Por coxilhas e canhadas, na beira dos lagoões, nos paradeiros e nas restingas, por onde o Negrinho ia passando, a vela benta ia pingando cera benta no chão: e de cada pingo nascia uma nova luz, e já eram tantas que clareavam a terra e as manadas chucras não disparavam… Quando os galos estavam cantando, como na véspera, os cavalos relincharam todos juntos. O Negrinho montou no baio e tocou por diante a tropilha, até coxilha que o seu senhor lhe marcara.

E assim o Negrinho achou o pastoreio. E se riu…

Gemendo, gemendo, o Negrinho deitou-se encostado ao cupim e no mesmo instante apagaram-se as luzes todas; e sonhando com a Virgem, sua madrinha, o negrinho dormiu. E não apareceram nem as corujas agoureiras nem os guaraxains ladrões; porém pior do que os bichos maus, ao clarear o dia veio o menino, filho do estancieiro e enxotou os cavalos, que se dispersaram, disparando campo fora, retouçando e desguaritando-se nas canhadas.

O tropel acordou o Negrinho e o menino maleva foi dizer ao seu pai que os cavalos não estavam lá…

E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou.

***

O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos, a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho… dar-lhe até ele não mais chorar nem bulir, com as carnes recortadas, o sangue vivo escorrendo do corpo… O Negrinho chamou pela Virgem sua madrinha e Nossa Senhora, deu um suspiro triste, que chorou no ar como uma música, e pareceu que morreu…

E como já e para não gastar a enxada em fazer uma cova, o estancieiro mandou atirar o corpo do Negrinho na panela de um formigueiro, que era para as formigas devorarem-lhe a carne e o sangue e os ossos… E assanhou bem as formigas; e quando elas, raivosas, cobriram todo o corpo do Negrinho e começaram a trincá-lo, é que então ele se foi embora, sem olhar para trás.

Nessa noite o estancieiro sonhou que ele era ele mesmo, mil vezes e que tinha mil filhos e mil negrinhos, mil cavalos baios e mil vezes mil onças de ouro… e que tudo isto cabia folgado dentro de um formigueiro pequeno…

Caiu a serenada silenciosa e molhou os pastos, as asas dos pássaros e a casca das frutas.

Passou a noite de Deus e veio a manhã e o sol encoberto.

E três dias houve cerração forte, e três noites o estancieiro teve o mesmo sonho.

***

A peonada bateu o campo, porém ninguém achou a tropilha e nem rastro.

Então o senhor foi ao formigueiro, para ver o que restava do corpo escravo.

Qual não foi o seu grande espanto, quando chagado perto, viu na boca do formigueiro o Negrinho de pé com a pele lisa, perfeita, sacudindo de si as formigas que o cobriam ainda!… O Negrinho, de pé, e ali ao lado o cavalo baio e ali junto, a tropilha dos trinta cordilhos… e fazendo-lhe frente, de guarda ao mesquinho, o estancieiro viu a madrinha dos que não a tem, viu a Virgem, Nossa Senhora, tão serena, posada na terra, mas mostrando que estava no céu… Quando tal viu, o senhor caiu de joelhos diante do escravo.

E o negrinho, sarado e risonho, pulando de em pelo e sem rédeas, no baio, chupou o beiço e tocou a tropilha a galope.

E assim o Negrinho pela última vez achou o pastoreio. E não chorou, e nem se riu.

***

Correu no vizindário, a nova do fadário e da triste morte do
Negrinho, devorado na panela do formigueiro.

Porém logo, de perto e de longe, de todos os rumos do vento, começaram a vir notícias de um caso que parecia um milagre novo…

E era, que os posteiros e os andantes, os que dormiam sob as palhas dos ranchos e os que dormiam na cama das macegas, os chasques que cortavam por atalhos e os tropeiros que vinham pelas estradas, mascates e carreteiros, todos davam notícia — da mesma hora — de ter visto passar, como levada em pastoreio, uma tropilha de tordilhos, tocada por um Negrinho, gineteando de em pelo, em um cavalo baio!…

Então, muitos acenderam velas e rezaram o Padre-nosso pela alma do judiado. Daí por diante, quando qualquer cristão perdia uma cousa, o que fosse, pela noite velha o Negrinho campeava e achava, mas só entregava a quem acendesse uma vela, cuja luz ele levava para pagar a do altar da sua madrinha, a Virgem, Nossa Senhora, que o remiu e salvou e deu-lhe uma tropilha, que ele conduz e pastoreia, sem ninguém ver.

***

Todos os anos, durante três dias, o Negrinho desaparece: está metido em algum formigueiro grande, fazendo visita às formigas, suas amigas; a sua tropilha esparramava-se; e um aqui, outro por lá, os seus cavalos retouçam nas manadas das estâncias. Mas ao nascer do sol do terceiro dia, o baio relincha perto do seu ginete; o Negrinho monta-o e vai fazer a sua recolhida; é quando nas estâncias acontece a disparada das cavalhadas e a gente olha, olha, e não vê ninguém, nem na ponta, nem na culatra.

***

Desde então e ainda hoje, conduzindo o seu pastoreio, o Negrinho, sarado e risonho, cruza os campos, corta os macegais, bandeia as restingas, desponta os banhados, vara os arroios, sobe as coxilhas e desce às canhadas.

O Negrinho anda sempre à procura dos objetos perdidos, pondo-os de jeito a serem achados pelos seus donos, quando estes acendem um coto de vela, cuja luz ele leva para o altar da Virgem Senhora, madrinha dos que não a têm.

Quem perder suas prendas nos campos, guarde a esperança: junto de
algum moirão ou sob os ramos das árvores, acenda uma vela para o
Negrinho do pastoreio e vá lhe dizendo — Foi por aí que eu perdi…
Foi por aí que eu perdi… Foi por aí que eu perdi!…

Se ele não achar… ninguém mais.

*ARGUMENTO DE OUTRAS LENDAS MISSIONEIRAS E DO CENTRO E NORTE DO BRASIL.*

*MISSIONEIRAS*

*1* *A mãe do ouro*

O que é hoje serra de pedra já foi gente vivente: foi gente num tempo antigo, e por um castigo do céu, escureceu de repente e caída ficou onde estava…

Onde estavam sozinhos ficaram serros e serrotes; onde estavam apinhoscados ficou a serrania encordoada.

E os ossos aí estão acimentados, em pura pedra virados; a carne que os cobria deu terra negra; os cabelos são os matos, matos que bebem o sangue, que nos parece a nós apenas cascatinhas e vertentes; os lugares ocados que aparecem são os buracos do seu corpo, da sua boca e olhos, do seu nariz e ouvidos… As veias deram em ferro, e os nervos, como parte delicada, viraram-se ouro e são os veeiros amarelos que se entranham por aí abaixo, adentro da crosta, tal e qual os nervos estão entranhados na carnadura da gente.

Mas o que governa tudo, que não se sabe o que é, que é a Alma, que não morreu, essa é que é a Mão do Ouro, porque ela não entrou no castigo, e que defende os nervos dos castigados, os veeiros da fortuna, para que no dia do Perdão cada um ache o que seu é…

Aí está porque, quando troveja, tantos raios caem sobre sobre certos serros e tanto ventarrão esbarra neles:… é a Mãe do Ouro que chama socorro…

Às vezes rebenta um serro destes com estrondo grande; se é de noite, no fogo que se vê sair, vai a cuidadeira de mudança para outro; se é de dia, é sempre no pino do meio dia, e na luz do sol que encandeia os olhos, apenas sente-se o rumo que ela toma, só o rumo, mas não o lugar novo em que ela vai fazer morada nova.

*2* *Serros Bravos*

Dos mortos por seu castigo, alguns não ficaram bem mortos e ainda estrebucham, curtindo dores.

E como ainda estão meio vivos, quando algum vivente quer tirar para sua cobiça o ouro — que é os seus nervos e que doem — os Serros, esses, enfurecem-se, e por força de encantamentos somem-se, rasos, ou atiram de uns para outros, temporais tão medonhos, que eriçam o cabelo e prendem o passo dos homens, mesmo os mais desabusados.

E se eles teimam, morrem.

*3* *A casa de M’bororé*

Dentro do mato grosso, mato velho e crescido, sem plantas pequenas dentro, aí, só há uma luz pouca, tirante a verde e a cinzento: e nenhuma árvore faz sombra, porque a ramaria de todas faz peneira por onde passa o sol, que nunca enxerga o chão…

Dentro desse mato, no mais tupido dele, há uma lombada redonda, como uma casca de caramburé; aí, em cima dela, há uma casa de pedra branca, branca como se encaliçada, e sem porta em nenhum lado nem janela em nenhuma altura.

Dentro da casa branca as salas estão lastradas de barras de ouro e barras de prata, do peso que é preciso dois homens para mover cada uma; e todas as juntas das pilhas estão tomadas de poeiras finas…

Por cima de tudo estão, em montes, tocheiros de ouro maciço e cálices e resplendores de santos; e salvas de prata e turíbulos e cajados.

Nos corredores, como prontos para içar para as cangalhas das mulas de carga, prontos, com as suas alças, estão lotes de surrões, socados de moedas de ouro, separadas em porções, metidas em bexigas de rês…

O rondador da casa branca anda dia e noite em redor dela; é um índio velho, cacique que foi, M’bororé, de nome, amigo dos santos padres das Sete Missões da serra que dá vertentes para o Uruguai.

Os padres foram tocados p’ra longe, levando só a roupa do corpo… mas a casa branca já estava feita, sem portas nem janelas… e M’bororé, que sabia tudo e era cacique, de noite, e precatado, com os seus guerreiros, carregou de todos os lugares para aquele as arrobas amarelas e as arrobas brancas, que não valiam a caça e a fruta do mato e a água fresca, e pelas quais os brancos de hoje matavam os nascidos aqui, e matavam-se uns aos outros.

M’bororé desprezava essas arrobas; mas como era amigo dos santos padres das Sete Missões, guardou tudo e espera por eles, rondando a casa branca, sem portas nem janelas.

Ronda e espera…

*4* *Zaorís*

Nosso Senhor Jesus Cristo Louvado Seja Para Sempre! Amém!

Ele foi preso na quarta-feira, sentenciado na quinta e crucificado na sexta.

E neste mesmo dia de sexta-feira, houve no Céu o julgamento dos carrascos de Nosso Senhor, e logo desceu à Terra o arcanjo S. Miguel com a ordem de castigar aos judeus; e o arcanjo passou essa ordem aos anjos que estavam de guarda à Cruz, onde Nosso Senhor estava pregado e morto.

Enquanto S. Miguel esteve na Terra deixou sobre ela muito brilho da sua couraça de couro e das suas armas, e muita ventania das suas asas de prata.

A gente já nascida estava condenada, pelo pecado de ter maltratado e morto Jesus Cristo. Mas as crianças ainda não nascidas não podiam sofrer castigo, porque não tinham culpa alguma. Porém os anjos da guarda da Cruz não sabiam disso e iam castigá-los da mesma forma, porque o arcanjo S. Miguel esquecera-se de avisar sobre as crianças que nascessem naquela dia, que era justamente o da sentença de Deus.

Por isso, a Virgem Maria, que sabia do esquecimento de S. Miguel, em memória Jesus não deixou os anjos da guarda da Cruz castigarem as crianças nascidas nessa Sexta-feira, e então, para diferenciá-las das outras, fez um milagre: e mandou que a ventania das asas de prata do arcanjo ventasse sobre o olhos dos que fossem nascendo nesse dia santo, e ao brilho das armas de ouro, que brilhasse sobre eles.

E desse jeito todos ficaram assinalados e puderam ser diferenciados dos nascidos na véspera, e bem diferençados, porque podiam ver através a água até o seu fundo e através as muralhas e montanhas até o outro lado delas, porque tudo ficou transparente para eles.

E como a Virgem Maria não disse que subisse outra vez ao céu a ventania das asas de prata do arcanjo nem o brilho das suas armas de ouro, esse dons ficaram na terra, e em todas as sextas-feiras santas procuram os olhos das crianças recém-nascidas, que então ficam com o dom de ver no escuro e através qualquer parede de pedra, madeira, ou ferro…

Para esses, nada existe escondido ou enterrado que seus olhos não vejam, como os dos outros homens, de dia claro; e isso porque nasceram em sexta-feira santa: os Zaorís…*

* Em relação ao argumento destas lendas — 1. 4 — reportamo-nos ao raciocinado estudo do Sr. Pe. C. Teschauer sob o título — Lenda do Ouro — (Rev. do Instº. do Ceará, tom. XXV-1911).

*5* *O Angoéra*

O Angoéra, enquanto foi pagão, chamava-se desse nome; era um índio grande, forçudo e valente; mas era triste, carrancudo e calado.

Quando os Padres de Jesus, entraram no sertão da serra, corridos que vinham doutro rumo, foi Angoéra, o tapejara, que conduziu sem erro a companhia; e quando os padres sentaram pouso, batizou-se.

E foi padrinho M’bororé, que era cacique e já amigo, muito, dos padres. O nome de Angoéra, pagão, ficou sendo Generoso, nome cristão.

E foi como cobra que deixa a casca…

Angoéra, que era triste, deixou a casca da tristura, e como
Generoso, nome bento ficou prazenteiro.

E ajudou a botar pedra no alicerce de todas as igrejas dos Sete Povos. E durou anos, esse ofício!… E ele sempre risonho e cantador.

Um dia, chamou o padre-cura, confessou-se e foi ungido de óleo santo e morreu.

Generoso morreu contente, pois a cara do seu cadáver guardou ar de riso; e foi muito chorado, porque tinha a estima de todos, por ser mui prazenteiro e brincador.

De forma que a sua alma saiu-lhe do corpo, de jeito alegre; e então, invisível, entrava nas casas dos conhecidos, passeava nos quartos e salas, e para divertir-se fazia estalar os forros do teto e os barrotes do chão, e também os trates novos, e os balaios de vime grosso; e se achava dependurada uma viola, fazia sonar o encordoamento, para alegrar-se com a lembrança das suas cantigas, de quando era vivo e cantava…

Outras vezes assobiava nas juntas das portas e janelas, espiando por elas os moradores da casa; e quando os homens, rodeavam a candeia, pitando, ou as crianças, brincando, ou as donas costuravam ou faziam nhanduti, o Generoso, — a alma dele, p’r’o caso — soprava devagarzinho sobre a chama da luz, fazendo-a requebrar-se e balançar-se, que para a sombra das cousas também mudar de estar quieta…

E muitas vezes — até o tempo do Farrapos —, quando se dançava o fandango nas estâncias ricas ou a chimarrita nos ranchos do pobrerio, o Generoso intrometia-se e sapateava também, sem ser visto; mas sentiam-lhe as pisadas, bem compassadas no rufo das violas… e quando o cantador do baile era bom e pegava bem de ouvido, ouvia, e por ordem do Generoso repetia esta copla, que ficou conhecida como marca de estância antiga: sempre a mesma…

“Eu me chamo Generoso,
“Morador em Pirapó:
“Gosto muito de dançar
“Co’as moças de paletó…”

…………………………………………………….

*6* *Mãe mulita*

— O tatu, mais a mulita,
— É lei da sua criação:
— Sendo macho, não pode ter irmã;
— Sendo fêmea, não pode ter irmão.
(Cancioneiro Guasca.)

Este bicho foi mandado ficar assim desde que o rei dos judeus mandou matar duas mil crianças e a Virgem Maria fugiu para o Egito, para salvar o Menino Jesus, fugindo num carro pequeno, puxado por um burro petiço…

A certa altura do caminho a comitiva foi alcançada por uma comitiva do rei, com ordem de matar o Menino e algemar seus pais; porém Nossa Senhora, com os seus rogos e lágrimas conseguiu abrandar o centurião que comandava; e deu-lhe de presente, o burro.

Depois a Virgem Maria e S. José, com muito custo, lá foram empurrando o carro onde ia dormindo, muito sossegado, o Menino Jesus. E foram andando… andando… andando…

A escolta já ia seguir seu caminho, de volta, porém parou, porque o burro tinha-se empacado… Embalde o centurião chicoteou o animal; depois bateu-lhe com o pau da lança; depois com a bainha do espadão; nada!… o burro, sempre empacado!…

Os soldados todos, um por um, espancaram-no: o burro, sempre empacado!…

Todos os soldados juntos e ao mesmo tempo, espancaram-no; o burro sempre empacado!…

Então o centurião ficou furioso, dizendo-se enganado pela Virgem, que lhe dera tão ruim animal. E resolveu perseguir e prender os fugitivos, para seu castigo.

A Virgem e S. José não viram o que atrás deles se passava, somente ouviam o rumor das pancadas que os soldados davam no burro e as blasfêmias do centurião… E assustados, apuravam as forças, empurrando o carrinho.

Então o Menino Jesus acordou-se e teve fome; mas com muito cansaço e sofrimentos, o seio de Maria não apojou…

Ele chorava, de pesar… e o Menino pegou a chorar, de fome…

Nisto apareceu uma mulita e Nossa Senhora disse-lhe:

— Mulita, se tens filhos, dá-me uma gota do leite para o meu filho!…

E a mulita parou-se e deu a gota de leite; mas era muito pouco e o Menino continuou chorando, com fome…

Nossa Senhora chorou de pesar e tornou a dizer:

— Mulita, chama tuas filhas, para cada uma dar uma gota de leite para o meu filho!…

— Senhora Virgem, respondeu a mulita, minha ninhada é grande, porém nele as filhas são poucas…

E chamou as suas poucas filhas, e cada uma deu uma gota de leite para acalmar a fome do Menino, que calou-se, farto.

Depois cada mulitinha tomou seu rumo, no deserto; só ficou a mulita mãe, acompanhando.

Quando iam já muito longe, avistaram a escolta que vinha em sua perseguição; e à frente, ameaçador, o centurião!…

Então a Virgem, muito aflita, disse:

— Mulita, dá-me a tua força, para puxar o carro do meu filho!…

E a mulita puxou; mas era tão pouca sua força, que o carro quase nada adiantava.

E a escolta cada vez mais perto!…

E Nossa Senhora chorou, de medo, e tornou a dizer:

— Mulita, chama os teus filhos, para darem a sua força e correrem, puxando o carro do meu filho!…

— Senhora Virgem, respondeu a mulita, a minha ninhada é grande, porém nela os filhos são poucos…

E chamou os seus poucos filhos, que começaram a correr, puxando o carrinho, do Menino Jesus…

E a escolta cada vez mais perto!…

Mas o carro, agora puxado pelos filhos da mulita ia sempre andando depressa.

Mas os cavalos são maiores que as mulitas e por isso vencem mais terreno… e já a escolta estava perto… perto…, quando levantou- se um medonho temporal de areia, que obrigou e o centurião a dispersarem-se entre gritos de raiva…

Então, quando viram que o Menino estava salvo, cada mulitanho tomou seu rumo no deserto; só ficou a mulita mãe, acompanhando.

Então Nossa Senhora tornou a dizer:

— Mulita, em memória das gotas de leite das tuas filhas, em memória da força dos teus filhos, deste dia em diante, de cada vez que deres ninhada, será sempre ou só de fêmeas ou só de machos!…

E a mulita respondeu:

— Pois que assim seja a vossa vontade, Senhora Virgem! Porém eu peço que ordeneis que o mesmo seja para a minha boa comadre, a tatua…

— Pois será, também!

Então a mulita tomou seu rumo, no deserto, e foi levar a nova a sua comadre tatua, que ficou muito contente…*

* O argumento destas duas lendas — 5, 6 — está desenvolvido baseado na tradição longínqua, e é de notar a acomodação bizarra dos elementos do seu entrecho.

*7* *São Sepé*

“*Arroio S. Sepé* — no município de Caçapava; nasce a coxilha de Babiroquá e deságua no Vacacaí. *Deve o nome, que lhe foi posto pelos Jesuítas, ao célebre chefe índio José Tiaraiú, conhecido por Sepé*, vencido e morto na batalha de 7 de fevereiro de 1756, no sopé da Coxilha de Sta. Tecla, perto de Bagé.

Era à margem deste arroio que existia a sepultura do referido índio, indicada por uma grande cruz de madeira, com uma inscrição — *meio em latim, meio indiático* —, que quer dizer o seguinte:

† Em Nome de Todos os Santos † No ano de Cristo Jesus de 1756 A 7 de Fevereiro morreu combatendo O grande chefe guarani Tiaraiú em um sábado santo † Subiu ao Céu dias antes do que † o grande chefe da taba do Uruguai que morreu em 10 de fevereiro em quarta-feira combatendo contra um exército de 15000 soldados. † Aqui enterrado † A 4 de Março mandou levantar-lhe esta cruz o padre D. Miguel Descansa em paz †

“Conforme a homenagem prestada pelos Jesuítas na inscrição e na denominação do arroio, e não havendo no calendário católico santo de nome — Sepé — temos de concluir que as virtudes, o mérito do grande chefe índio foram forais para a sua estranha — canonização — no entretanto perdurável e popularizada.

Foi sob tal aspecto que recordamos aqui este curioso fato ……………………” (Cancioneiro Guasca).

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*O Lunar de Sepé*

Eram armas de Castela
Que vinham do mar de além;
De Portugal também vinham
Dizendo, por nosso bem:
Mas quem faz gemer a terra…
Em nome da paz não vem!

Mandaram por serra acima
Espantar os corações;
Que os Reis Vizinhos queriam
Acabar com as Missões,
Entre espadas e mosquetes
Entre lanças e canhões!…

Cheiravam as brancas flores
Sobre os verdes laranjais;
Trabalhavam-se na folha
Que vem dos altos ervais;
Comia-se das lavouras
Da mandioca e milharais.

Ninguém a vida roubava
Do semelhante cristão
Nem a pobreza existia
Que chorasse pelo pão;
Jesus Cristo era contente
E dava sua benção…

Por que vinha aquele mal,
Se o pecado não havia?
O tributo se pagava
Se o vizo-rei pedia,
E, até sangue se mandava
Na gente moça que ia…

Eram armas de Castela
Que vinham do mar de além;
De Portugal também vinham,
Dizendo, por nosso bem:
Mas quem faz gemer a terra…
Em nome da paz não vem!

Os padres da encomenda
Faziam sua missão:
Batizando as criancinhas,
E casando, por união,
Os que juntavam os corpos
Por força do coração…

Do sangue dum grão Cacique
Nasceu um dia um menino,
Trazendo um lunar na testa,
Que era bem pequenino:
Mas era — cruzeiro — feito
Como um emblema divino!…

E aprendeu as letras feitas
Pelos padres, na escritura;
E tinha por penitência,
Que a sua própria figura
De dia, era igual às outras…
E diferente, em noite escura!…

Diferente em noite escura,
Pelo lunar do seu rosto,
Que se tornava visível
Apenas o sol era posto;
Assim era — Tiaraiú —,
Chamado — Sepé, — por gosto.

Eram armas de Castela
Que vinham do mar de além;
De Portugal também vinham
Dizendo, por nosso bem:
Mas quem faz gemer a terra…
Em nome da paz não vem!

Cresceu em sabedoria
E mando dos povos seus;
Os padres o instruíram
Para o serviço de Deus
E conhecer a defesa
Contra os males do ateus…

Era moço e vigoroso,
E mui valente guerreiro:
Sabia mandar manobras
Ou no campo ou no terreiro;
E na cruzada dos perigos
Sempre andava de primeiro.

Das brutas escaramuças
As artes e artimanhas
Foi o grande Languiru
Que lh’ensinou; e as façanhas,
De enredar o inimigo
Com o saber das aranhas…

E, tudo isto, aprendia;
E tudo já melhorava,
Sepé — Tiaraiú, chefe
Que o Sete Povos mandava,
Escutado pelos padres,
Que cada qual consultava.

Eram armas de Castela
Que vinham do mar de além;
De Portugal também vinham
Dizendo, por nosso bem:
Mas quem faz gemer a terra…
Em nome da paz não vem!

E quando a guerra chegou
Por onde os Reis de além,
O lunar do moço índio
Brilhou de dia também,
Para que os povos vissem
Que Deus lhe queria bem…

Era a lomba da defesa,
Nas coxilhas de I-bagé,
Cacique muito matreiro
Que nunca mudou de fé;
Cavalo deu a ninguém…
E a ninguém deixou de a pé…

Lançaram-se cavaleiros
E infantes, com partazanas,
Contra os Tapés defensores
Do seu pomar e cabanas;
A mortandade batia,
Como ceifa de espadanas…

Couraças duras, de ferro,
Davam abrigo à vida
Dos muitos, que, assim fiados,
Cercavam um só na lida!…
Um só, que de flecha e arco,
Entra na luta perdida…

Eram armas de Castela
Que vinham do mar de além;
De Portugal também vinham
Dizendo, por nosso bem:
Mas quem faz gemer a terra…
Em nome da paz não vem!

Os mosquetes estrondeam
Sobre a gente ignorada,
Que, acima do seu espanto,
Tem a vida decepada…;
E colubrinas maiores
Fazem maior matinada!…

Dócil gente, não receia,
As iras de Portugal:
Porque nunca houve lembrança
De haver-lhe feito algum mal:
Nunca manchara seu teto…;
Nunca comera seu sal!…

E de Castela tampouco
Esperava tal furor;
Pois sendo seu soberano,
Respeitara seu senhor;
Já lhe dera ouro e sangue,
E primazia e honor!…

A dor entrava nas suas carnes…
Na alma, a negra tristeza,
Dos guerreiros de Tiaraiú,
Que pelejavam defesa,
Porque o lunar divino
Mandava aquela proeza…

Eram armas de Castela
Que vinham do mar de além;
De Portugal também vinham
Dizendo, por nosso bem:
Mas quem faz gemer a terra…
Em nome da paz não vem!

E já rodavam ginetes
Sobre os corpos dos infantes
Das Sete Santas Missões,
Que pareciam gigantes!…
Na peleja tão sozinhos…
Na morte tão confiantes!…

Mas, o lunar de Sepé
Era o rastro procurado
Pelos vassalos dos Reis,
Que o haviam condenado:…
Ficando o povo vencido…
E seu haver… conquistado!

Então, Sepé, foi erguido
Pela mão do Deus — Senhor,
Que lhe marcara na testa
O sinal do seu penhor!…
O corpo ficou na terra…
A alma, subiu em flor!…

E subindo para as nuvens,
Mandou aos povos — benção!
Que mandava o Céus — Senhor
Por meio do seu clarão…
E o — lunar — da sua testa
Tomou no céu posição…

Eram armas de Castela
Que vinham do mar de além;
De Portugal também vinham
Dizendo, por nosso bem:
Mas quem faz gemer a terra…
Em nome da paz não vem!

Esta melopéia (?), ouvi-a em 1902, sofrivelmente recitada por uma velhíssima mestiça — Maria Genoria Alves — moradora na picada que atravessa o rio Camaquã, entre os municípios de Cangussu e Encruzilhada.

Aparte as deturpações aberrantes dos vocábulos e a difícil colocação, concatenada dos versos, conservei a forma original, difusa, opaca e, do mesmo passo ingênua e amorável, dentro da qual porém, sente-se que estremece uma idealização, tendente a aureolar a figura do chefe índio, superiorizando-a por um signo misterioso — o lunar —, mandado divino…

Deixei de parte alguns versos cujo sentido disforme e expressão eram de impossível entendimento e acomodação neste grupo. Relembrança popular do heróico guarani é esta (e procedência?…) a única que até hoje hei encontrado em não pequena perambulação.

*8* *O Caapora*

É um espírito com forma de homem, gigante, peludo e muito tristonho, que comanda as varas de porcos do mato e anda sempre montado sobre um deles.

Quem topar com o Caapora daí em diante arrastará consigo a infelicidade (caiporismo), para todo o resto da sua vida; se era bom torna-se mau caçador, pescador; dará topadas no caminho, espinhar-se-á nas roçadas, perderá objetos, andará atrasado, apoquentado…

Os animais domesticados também sentem a sua má influência, e entecarão, terão gogo, sofrerão bicheiras… No entanto o Caapora protege a caça bravia dos matos.

*9* *O Curupira*

É o espírito malfazejo do mato, que enreda os trilhos do caminho para enganar os andantes e sugar-lhes o sangue.

Andam sempre em casal e moram no oco dos paus de lei; aparecem de repente, fazem os seus embustes e escondem-se, à tocaia, rindo-se em silêncio.

O Curupira é como um tapuio pequeno; tem os dentes verdes e os pés colocados às avessas.

Quando perseguido pelo curupira, o melhor meio de fugir-lhe é atirar-lhe e ir deixando pelo caminho cruzes e rodilhas de cipó, entrançadas; ele entretém-se a examinar o achado e a destrançá-lo, e enquanto isso, o perseguido escapa-se.

*10* *O Saci*

Era um caboclinho, dum pé só, muito ágil, que saltava na garupa dos cavalos dos viajantes. Gostava das picadas e das encruzilhadas das estradas sombreadas. Outros diziam que o Saci, apenas era manco de um pé e tinha uma ferida em cada joelho; que usava um barrete feito das marrequinhas (flores da corticeira), e que era ele que governava as moscas importunas, as mutucas, os mosquitos.

*11* *A Oiára*

“A Oiára — ou Mãe-d’água — é um demônio macho-fêmea dos rios. É um tapuio ou tapuia de rara beleza, morador do fundo dos rios ou lagos, e que fascina aquele que cai em seu poder, induzindo a pessoa fascinada a lançar-se n’água. O indivíduo fascinado pelas Oiáras, se não chega afogar-se, ao ser retirado da água, declara ter visto palácios encantados, no fundo do rio, tendo sido acompanhado nesse passeio por uma bela mulher (se é homem, e por dois belos tapuios se é mulher).

Ao voltar à terra as Oiáras o soltam e de novo vão para o rio, mas deixando em seu lugar pequenos tapuios para guardar o enfermo. Estes pequenos tapuios devem impedir que outros espíritos se apoderem da vítima.”

*12* *O Jurupari*

É um espírito mau, que à noite aperta a garganta das crianças e até dos homens, para trazer-lhes aflição e maus sonhos, principalmente por haverem comido muito antes de se deitarem. É ele que faz o pesadelo nas criaturas.

*13* *O Lobisomem*

Diziam que eram homens que havendo tido relações com as suas comadres, emagreciam; todas as sextas-feiras, alta noite, saíam de suas casas transformados em cachorro ou porco, e mordiam as pessoas que tais desonras encontravam; estas por sua vez ficavam sujeitas a transformarem-se em lobisomens…

*14* *A Mula sem cabeça*

Diziam que as mulheres de má vida, relacionadas com padres, se transformavam, tarde da noite, em mula, sem cabeça, e conduzindo na cauda um facho de fogo, que nenhum vento ou chuva apagava antes de romperem as barras do dia…

*15*

A lenda referente aos — enterros — (dinheiro, jóias, baixelas enterradas) tem a sua origem na crença das almas do outro mundo — os espíritos — “A alma de quem morreu sem deixar notícias do dinheiro que tinha escondido ou guardado em tal e tal lugar, anda penando. As luzes azuladas que se observam de noite nos campos e em redor das povoações, que volteiam e afinal se desvanecem, não são senão almas penadas.

“Só quando um cristão descobrir o — enterro — é que hão de cessar de aparecer e de penar”

Se o — enterro — está da habitação ouve-se ruídos, pancadas, gemidos… são as casas — mal assombradas. —

***

A lenda da — Lagoa brava — é apenas uma variante da dos Serros bravos e tem a sua contextura na da Oiára. A da lagoa do Iberá, bem como a dos salamanqueiros, do nhandu — tatá e outras, são mais do acervo rio-platense-andino.

***

Há ainda, de formação local, muitas histórias ingenuíssimas e curiosas, tais como a dorme-dorme (ave vespertina); porque a pomba não sabe fazer seu ninho; porque a capivara é rabona (sem cauda); a do anu, ladrão do ninho alheio; a do João barreiro, e outras muitas, para adormecer crianças…*

* O argumento das lendas desta série — 8, 14 — consta do livro — Cancioneiro Guasca — do autor. (Edit. Echenique & C. — 1910) A sua versão e influência correram, aliás mui fracamente entre as gentes antigas da campanha rio-grandense.