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Lendas e Narrativas (Tomo I) cover

Lendas e Narrativas (Tomo I)

Chapter 9: UMA BARREGAN RAINHA.
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About This Book

Coletânea de narrativas e lendas curtas que reconstituem episódios e ambientes medievais da Península Ibérica, reunidas a partir de publicações periódicas. As peças alternam cenas de conflito e devoção, descrições de paisagens e povoações e esboços de personagens inseridos em contextos históricos, com atenção ao clima e aos costumes. A prosa revela traços de ensaio: enredos concisos, diálogos contidos e contornos por vezes rústicos, procedentes de tentativas iniciais no género histórico. Vários textos foram revistos para publicação conjunta, formando um mosaico de contos históricos ligados por temática e tom.

[9] Textual.—Veja-se Fernão Lopes, Chr. de D. Fernando, cap. 61.

MIL DOBRAS PÉ-TERRA E TREZENTAS BARBUDAS

Mal Fernão Vasques travára do braço do conde de Barcellos, e a grita popular começára a atroar a praça, Fr. Roy, escoando-se ao longo da parede do mosteiro, dobrára a quina que voltava para a Corredoura[1], e seguindo seu caminho por viellas torcidas e desertas, chegára á porta do ferro, d'onde, atravessando o contiguo e malassombrado terreirinho, em que os raios do sol apenas rapidamente passavam, embargados ao nascer pelos agigantados campanarios da cathedral, e ao declinar pelos pannos e torres da muralha mourisca, chegára esbaforido a S. Martinho. A porta do paço estava fechada; mas a da igreja estava aberta. Entrou. Ao lado direito uma escada de caracol descia da tribuna real para a capella-mór, e a tribuna communicava com o palacio por um passadiço que atravessava a rua. O beguino olhou ao redor de si, e escutou um momento: ninguém estava na igreja. Subindo rapidamente a escada, Fr. Roy atravessou o passadiço e encaminhou-se, sem hesitar no meio dos corredores e escadas interiores, para uma passagem escura. No fim della havia uma porta fechada. O monge vagabundo parou, e escutou de novo. Dentro altercavam tres pessoas: Fr. Roy bateu devagarinho tres vezes, e pôz-se outra vez a escutar.

Ouviram-se uns passos lentos que se aproximavam da porta; e uma voz esganiçada e colerica perguntou;—Quem está ahi?"

"Eu:—respondeu o beguino.

"Quem é eu?—replicou a voz.

"Honrado D. Judas, é Fr. Roy Zambrana, indigno servo de Deus, que pretende falar a elrei ou á mui excellente senhora D. Leonor, para negocio de vulto."

"Abre, D. Judas, abre!"—disse outra voz, que pelo metal parecia feminina, e que soou do lado opposto do aposento.

A porta rodou nos gonzos, e o ichacorvos entrou.

Era o logar em que Fr. Roy se achava uma quadra pequena, allumiada escaçamente por uma fresta esguia e engradada de grossos varões de ferro, a qual dava para uma especie de saguão, ainda mais acanhado que o aposento. A abobada deste era de pedra; de pedra as paredes e o pavimento: ao redor viam-se por unico adereço muitas arcas chapeadas de ferro. O monge entrára na casa das arcas da corôa—do recabedo do regno. As duas personagens que ahi estavam, afóra a que abríra a porta, eram D. Fernando e D. Leonor. Elrei, de pé, curvado sobre uma das arcas, com a fronte firmada sobre o braço esquerdo, folheava um desconforme volume de folhas de pergaminho, cujas guardas eram duas alentadas taboas de castanho, forradas exteriormente de couro cru de boi, ainda com pello[2].

D. Leonor, tambem em pé por detraz d'elrei, olhava attentamente para as paginas do livro. O que abrira a porta era o thesoureiro-mór D. Judas, grande affeiçoado de D. Leonor e valido d'elrei. O judeu apenas voltára a ponderosa chave, sem volver sequer os olhos para o recem-chegado, tornára immediatamente para ao pé da arca a que elrei estava encostado, e proseguíra a vehemente conversação, cujos ultimos ecchos Fr. Roy ouvíra ao aproximar-se…

"Mil dobras pé-terra e trezentas barbudas são todo o dinheiro que o vosso fiel thesoureiro vos póde apurar neste momento, respigando como a pobre Ruth no campo do vosso thesouro, ceifado, e bem ceifado (aqui o judeu suspirou) por aquelles que talvez menos leaes vos sejam. Jurar-vos-hei sobre a toura, se o quereis, que não fica em meu poder uma pogeia."

Elrei não o escutava. Apenas Fr. Roy entrára, D. Leonor se havia encaminhado para o ichacorvos, e, lançando-lhe um olhar escrutador, lhe perguntára com visível anciedade:

"Beguino, a que voltaste aqui?"

"A cumprir com minha obrigação, apesar de vós me terdes dado hontem por quite e livre. Vim a dizer-vos que a estas horas talvez tenha já corrido sangue no rocío de Lisboa, e que é espantoso o tumulto dos populares contra os do conselho, e contra os senhores e fidalgos da casa e valia d'elrei."

Fôra á palavra sangue que D. Fernando havia cessado de attender á voz esganiçada do thesoureiro-mór, que continuava em tom de lamentação:

"Bem sabeis, senhor, que tenho empobrecido em vosso serviço, e que hoje sou um dos mais mesquinhos e miseráveis entre os filhos d'Israel. Aonde irei eu buscar dous mil maravedis velhos d'Alemdouro, que são em moeda vossa trezentos e noventa mil soldos?[3]"

"Sangue, dizes tu, beguino?—exclamou elrei—Oh, que é muito!
A quem se atreveram assim esses populares maldictos?"

"Eu proprio vi o nobre conde de Barcellos travar-se com Fernão Vasques; mui grande numero de bésteiros, e peões armados de ascumas rodeavam já o alpendre de S. Domingos, e os clamores de morram os traidores atroavam a praça."

"Que me dêem o meu arnez brunido, a minha capelina de camal, e o meu estoque francez:—gritou D. Fernando escumando de colera.—Eu irei a S. Domingos, e salvarei os ricos-homens de Portugal, ou acabarei ao pé delles. Pagens! onde está o meu donzel d'armas?"

"O teu donzel d'armas, rei D. Fernando,—interrompeu com voz pausada e firme D. Leonor—segue com os outros pagens caminho de Santarem, montado no teu cavallo de batalha. Aqui só tens a mula de teu corpo[4] para seguires jornada."

"Mas o conde de Barcellos! O meu leal conselheiro, deixa-lo-hei despedaçar pelos peões desta cidade abominavel? Lembra-te de que é teu tio; que foi o teu protector, quando o braço de D. Fernando ainda se não erguêra para te coroar rainha."

"Rei de Portugal, és tu que deves lembrar-te delle, quando o dia da vingança chegar. Então cumprirá que os traidores e vis te vejam montado no teu ginete de guerra. Hoje não podes senão deixar entregue á sua sorte o nobre D. João Affonso e os senhores que são com elle; mas não te esqueça que se o seu sangue correr, todo o sangue que derramares para o vingar será pouco, como serão poucas todas as lagrymas que eu verterei sem consolação sobre os seus veneraveis restos. Combateres? Ajudado por quem, n'uma cidade revolta? Os homens d'armas do teu castello quebraram seu preito, e tumultuam na praça: muitos de teus ricos homens estão conjurados contra ti: teu proprio irmão o está. Partir! partir! Ha quantas horas sabes tu que a ultima esperança está no partir breve? Porque, depois de tantas hesitações, ainda hesitar uma vez? Asseguremos ao menos a vingança, se não podermos salvar aquelles que, leaes a seu senhor, se foram expôr á furia de homens refeces e crús, para esconder nossa fuga… fuga; que é o seu nome!"

O furor e o despeito revelavam-se nas faces e labios esbranquiçados da adultera, e a afflicção e o temor comprimidos n'uma lagryma que lhe rolou insensivelmente dos olhos. Era uma das rarissimas que derramára na sua vida.

Elrei tinha escutado immovel. Desacostumado a ter vontade propria, desde que (como dizia o povo) esta mulher o enfeitiçára, ainda mais uma vez cedeu da sua resolução, se não de homem cordato, ao menos de valoroso, e respondeu em voz sumida:

"Partamos. E seja feita a vontade de Deus!"

"Amen—murmurou o ichacorvos.

"Beguino,—interrompeu D. Leonor, voltando-se para Fr. Roy—corre já ao rocío, e dize em voz bem alta aos populares amotinados, que me viste partir com elrei caminho de Santarem. Talvez assim o conde seja salvo, porque a furia desses vis sandeus se voltará contra mim. Dize-o, que dirás a verdade: quando lá houveres chegado, o meu palafrem terá já transposto as portas da cruz. Guardae-vos, mesquinhos, que elle a torne a passar com sua dona. Ichacorvos! esse dia será aquelle em que a adultera pague todas as suas dividas!"

Fr. Roy sentiu pela medula dorsal o mesmo calafrio que sentíra na noite antecedente; porque o olhar que Leonor Telles cravou nelle era diabolico, e a palavra—adultera—proferida por ella, soava como um dobrar de campa, e vinha como involta n'um halito de sepulchro: o beguino arrependeu-se desta vez mui seriamente de ter sido tão miudo e exacto na parte official que apresentára na vespera. Calou-se, todavia, e saíu com o seu ademan do costume, cabeça baixa e mãos cruzadas no peito.

Os tres ficaram outra vez sós.

"D. Judas, meu bom D. Judas:—disse elrei com um gesto de afflicção—eu não entendo estas embrulhadas letras mouriscas da tua arithmetica. Estou certo de que não deves ao thesouro real uma unica mealha, e de que nas arcas do haver não existe senão o que tu dizes: mas de certo não queres que um rei de Portugal caminhe por seu reino como um romeiro mendigo. Ao menos os dois mil maravedis de ouro…"

"Ai!—suspirou o thesoureiro-mór—juro a vossa real senhoria que me é impossivel achar agora outra quantia maior que a de mil dobras pé-terra e trezentas barbudas."

"Fernando—atalhou Leonor Telles—ordena aos moços do monte que ahi ficaram que enfreiem as mulas: devemos partir já. É tão meu affeiçoado D. Judas, que com duas palavras eu obterei o que tu não podeste obter com tantas rogativas."

Ella sorriu alternativamente com um sorriso angelico para elrei e para o thesoureiro-mór. D. Fernando obedeceu, e, alevantando o reposteiro que encobria uma porta fronteira áquella por onde entrára o beguino, desappareceu. O thesoureiro ía a falar; mas ficou com a bôca semi-aberta, o rosto pallido, e como petrificado, vendo-se a sós com D. Leonor. Era que já a conhecia havia largos tempos.

"D. Judas,—disse esta em tom mavioso—tu has-de fazer serviço a elrei para esta jornada. Darás os dous mil maravedis velhos."

"Não posso!—respondeu D. Judas com voz trémula e afogada.

"Judeu!—replicou D. Leonor, apontando para um cofre pequeno, que estava no canto mais escuro do aposento, coberto de tres altos de pó—o que está naquella arca?"

O thesoureiro-mór hesitou um momento, e depois balbuciou estas palavras:

"Nada … ou para falar verdade… quasi nada. Bem sabeis que d'antes eu alli guardava algumas mealhas que me sobejavam da minha quantia, mas ha muito que nem essas poucas mealhas me restam."

"Vejamos, todavia:—tornou D. Leonor, cujo aspecto se carregava.

"Misericordia!—bradou D. Judas com indizivel agonia. Mas reportando-se, por um destes arrojos que inspiram os grandes perigos, procurou disfarçar o seu susto, continuando com um riso contrafeito:

"Misericordia, digo; porque fôra mais facil achar entre os amotinados do rocío um homem leal a seu rei, do que eu lembrar-me agora do logar onde terei a chave de uma arca ha tanto tempo inutil e vazia."

"Perro infiel! eu te vou recordar quem póde dizer onde as havemos de achar."

"Estaes hoje, mui excellente senhora, merencoria e irosa:—replicou o thesoureiro-mór, trabalhando por dar ás suas palavras o tom da galantaria, mas visivelmente cada vez mais enfiado e trémulo,—Assim chamaes perro infiel ao vosso leal servidor, por causa d'uma chave inutil que se perdeu? Todavia, dizei quem sabe della, e eu a irei procurar."

"Generoso e leal thesoureiro!—interrompeu D. Leonor, imitando o tom das palavras do judeu, como quem gracejava—não te dês a esse trabalho, por tua vida. Quem póde faze-la apparecer é um velho cão descrido, que mora na communa de Santarem. Eu sei de um remedio que lhe restituirá á lingua a presteza d'uma lingua de mancebo de vinte annos. O seu nome e Issachar. Conhéce-lo?"

"Alta e poderosa senhora, vós falaes de meu pobre pae!—respondeu o thesoureiro-mór, redobrando-lbe a pallidez.—Mas tractemos agora do que importa. Com mil e quinhentas dobras pé-terra e trezentas barbudas, que eu disse a meu senhor el-rei estarem prestes…"

D. Leonor lançou para o judeu um olhar d'escarneo, e proseguiu:

"Do que importa é que eu tracto. Sabes tu, meu querido D. Judas, que sejam as tuas dobras mil, ou mil e quinhentas, ámanhan a estas horas eu D. Leonor Telles, a rainha de Portugal, estarei em Santarem? Ouviste já dizer que, em não sei qual das torres do alcacer, ha um excellente potro capaz de desconjuntar n'um instante os membros do mais robusto villão? Veiu-me agora a idéa que o velho Issachar amarrado a elle deve ser gracioso, porque tendo vivido muito, constrangido a falar, ha-de contar cousas incriveis, quanto mais dizer onde está uma chave, cujo paradouro elle não póde ignorar. Não achas tu tambem que é folgança e desporto digno de qualquer rainha o vêr como estouram os ossos carunchosos de um perro de noventa annos?"

Um suor frio manou da fronte de D. Judas, cujas pernas vacillantes se recusavam a suste-lo. Quando D. Leonor acabou de fazer as suas atrozes perguntas, o judeu tinha cahido de joelhos aos pés della.

"Por mercê, senhora,—exclamou elle n'um trance horroroso de angustia—mandae-me açoutar como o mais vil servo mouro: mandae-me rasgar as carnes com os mais atrozes tormentos; mas perdoae a meu velho pae, que não tem culpa da pobreza de seu filho. Se eu tivera ou podéra alcançar mais que as duas mil dobras e as quinhentas barbudas que offereci a meu senhor elrei…"

"Judeu!—atalhou D. Leonor—tu deves saber tres cousas: a primeira é que os tractos do potro são intoleraveis; a segunda é que eu costumo cumprir as minhas promessas; a terceira é que se neste momento de aperto eu te podesse applicar o remedio, não o guardaria para a ossada bolorenta de um lebréu desdentado."

"Vendido cem vezes,—proseguiu o thesoureiro-mór lavado em lagrymas, e procurando abraça-la pelos joelhos—eu não poderia apresentar neste momento mais que a somma já dicta de duas mil e quinhentas dobras, e quinhentas barbudas, ainda que vossa mercê me mandasse assar vivo."

"És um louco, D. Judas!—interrompeu Leonor, affastando de si o judeu com um gesto de brandura.—Por uma miseria de pouco mais de quinhentas pé-terra consentirás que Issachar, que teu pae, honrado velho! pragueje nas ancias do potro contra o Deus de Abraham, de Jacob e de Moysés?"

O thesoureiro-mór conservou-se por alguns momentos calado, e na postura em que estava. Depois, passando o braço de revés pelos olhos, enxugou as lagrymas e ergueu-se. A resolução que tomára era a de um desesperado que vae suicidar-se.

"Aqui estarão, senhora,—murmurou elle—os dous mil maravedis quando os quizerdes. Procurarei obte-los; mas ficarei perdido. Agora podeis dar ordem á vossa partida."

"Adeus, meu mui honrado D. Judas:—disse D. Leonor sorrindo.—Não perderás nada em ter cedido aos meus rogos."

Dicto isto, saíu pela mesma porta por onde saíra elrei.

O judeu estendeu os braços com os punhos cerrados para o reposteiro que ainda ondeava, levou-os depois á cabeça, d'onde trouxe uma boa porção de melenas grisalhas. Feito isto, tirou da aljubeta uma chave, abriu o cofre pequeno e pulverulento, sacou para fóra um saquitel pesado, sellado e numerado, e os dous mil maravedis rolaram sobre o grande livro, que ainda estava aberto sobre uma das arcas. Contou-os quatro vezes, empilhou-os aos centos, e como se as forças se lhe tivessem exhaurido no espantoso combate que se passava na sua alma, atirou-se de bruços sobre a pequena arca, e abraçado com ella desatou a chorar.

"Meu pobre thesouro, juncto com tanto trabalho!—exclamou por fim entre soluços.—Guardei-te neste cofre com medo de te vêr roubado, e os salteadores vim encontra-los aqui! Mas que se livrem de eu tornar a receber os direitos reaes das mãos dos mordomos. Meus ricos dous mil maravedis de bom ouro, não voltareis sósinhos quando vos tornardes a ajunctar com os vossos abandonados companheiros!"

Esta idéa pareceu consolar de algum modo D. Judas. Levantou-se, tornou a contar os dois mil maravedis: desconfiou de que havia engano, e que eram dois mil e um: tornou-os a contar, e quando elrei entrou no aposento, já prestes para cavalgar, tinha o bom do judeu obtido a certeza de que não dava uma pogeia de mais da somma que lhe fôra requerida em nome do potro da torre de Santarem[5].

"Oh,—exclamou elrei, lançando os olhos para cima do desalmado folio, sobre cujas paginas amarelladas estava empilhado o dinheiro —temos os dous mil maravedis?!"

"Saiba vossa real senhoria que felizmente tinha em meu poder uma somma pertencente a Jeroboão Abarbanel, o mercador da porta do mar, e de que não me lembrava: ao basculhar as arcas dei com ella: a quantia está completa, e o honrado mercador não levará por certo mais de cinco por cento ao mez, emquanto os ovençaes de vossa senhoria não vierem entregar no thesouro o producto dos direitos reaes vencidos. Então pagar-lhe-hei, até á ultima mealha, a quantia e seus lucros, se vossa senhoria não ordena o contrario."

"Faze o que entenderes, D. Judas:—respondeu elrei, que não o ouvira, attento a metter n'uma ampla bolça de argempel, que trazia pendente do cincto, os dous mil maravedis.—Tudo fio de ti, honrado e Seal servidor."

E recolhidos os maravedis, saíu. O judeu ficou só.

"No inferno ardas tu com Dathan, Coré e Abiron, maldicto nazareno!…—murmurou elle.—Porém não antes de eu haver colhido os dous…quero dizer, os tres mil e duzentos maravedis, que me tiraste com lanta consciencia quanta póde ter a alma tisnada de um christão."

Feita esta jaculatoria ao Deus de Israel, D. Judas aferrolhou interiormente a porta do reposteiro, atravessou o aposento, saíu pela porta fronteira, que tambem aferrolhou, e a bulha de seus passos, que se alongavam, soou através dos corredores por onde passára Fr. Roy, até que por aquella parte do palacio tudo caíu em completo silencio.

[1] A Corredoura era uma rua, que, passando ao sopé do monte do Castello, e por detraz de S. Domingos, dava passagem do centro da cidade para Valverde, (hoje passeio publico e Salitre).

[2] Para não enfadarmos os leitores com um sem numero de notas declarâmos por uma vez que todos os costumes e objectos que descrevemos são exactos e da epocha, porque para taes descripções nos fundámos sempre em documentos ou monumentos.

[3] O maravedi velho de ouro ou de Alem Douro (chamado assim para o distinguir do maravedi de 15 soldos, que era aquelle pelo qual se regulavam as quantias dos que vingavam soldo ou maravedis, a que se chamava da Estremadura) valia 27 soldos, isto é, menos de libra e meia das antigas, cada uma das quaes era igual a 20 soldos. A dobra de ouro conhecida pelo nome vulgar de pé-terra, mandada lavrar por D. Fernando, tinha o valor legal de 6 libras, e, portanto, era mui superior nominalmente ao antigo maravedi, excedendo em preço mais de quatro vezes. Todavia, bem pelo contrario, o valor real d'uma dobra pé-terra era inferior ao maravedi velho na razão de 20 para 32 1/2. A alteração da moeda feita por D. Fernando no principio do seu reinado confundiu e transtornou completamente o antigo systema monetario: as barbudas, das quaes havia 53 em cada marco da lei de 3 dinheiros, vinham a ser iguaes ás libras novas deste rei, porque, produzindo até ahi um marco da lei de 11 dinheiros 27 libras, ficou em a nova moedagem produzindo 165, o que dada a differença do toque entre o marco de lei e o marco das barbudas, tornava cada uma destas a mesma cousa que a libra. Por outra parte, equivalendo cada libra a 20 soldos, moeda sem valor intrinseco, vinha o marco de lei a ser representado por 3.900 soldos, e assim o antigo maravedi d'ouro correspondente á vigesima parte de um marco de prata, correspondia realmente a 195 soldos, ao passo que cada pé-terra, sendo o mesmo que 6 libras, não valia mais de 120 soldos, isto é, ficava para aquella moeda na razão de 20 para 32 1/2.

[4] Os cavalleiros quando se punham a caminho costumavam cavalgar em mulas, como animaes mais rijos e possantes que os cavallos; nestes montava um pagem ou donzel. Veja-se principalmente a lei de D. Afonso III sobre os que vão a cas de elrei.

[5] Aquelles que não conhecerem as opiniões, estado de civilisação, e costumes da idade média, medirão o thesoureiro-mór D. Judas por um ministro de fazenda moderno, como, se não nos engana a memoria, lhe chama com uma ignorancia deliciosa o marquez de Pombal em uma lei sobre os christãos-novos, e acharão inverosimil a scena antecedente, posto que esteja bem longe d'isso. A falta de christãos habilitados para tractarem materias de fazenda publica, obrigou os reis portuguezes a despresarem a lei das côrtes de 1211, que os inhibia de empregarem judeus no seu serviço. Mas esta necessidade não podia destruir o profundo desprezo em que se tinha esta raça, olhada como abominavel em consequencia das convicções politicas e religiosas daquelles tempos, despreso que em grande parte assentava em bons fundamentos. A idéa que se fazia de um judeu na idade média acha-se expressa na lei 23.ª daquellas côrtes, e pinta melhor o pensar dessas eras a similhante respeito do que tudo quanto podessemos aqui escrever. "Os quaes judeus (diz o legislador) assy como testemunho da morte de Jesu-Christo devem a seer defesus, solamente porque som homeês." Juncte-se a isto o caracter cruel, hypocrita e cubiçoso de D. Leonor Telles, tão excellentemente pintado pelo grande poeta chronista Fernão Lopes, e poder-se-ha então avaliar devidamente a verosimilhança desta scena de imaginação no meio de outras scenas da vida real desses tempos.

MESTRE BARTHOLOMEU CHAMBÃO

Fr. Roy, saíndo da casa das arcas, atravessára os corredores vizinhos; mas, em vez de seguir o que dava para o passadiço de S. Martinho, tomára por uma escadinha escura aberta no topo da estreita passagem anterior a elle. Esta escadinha descia para o atrio do paço. O beguino, habituado pelo seu ministerio a entrar na morada real ás horas mortas, e a saír nas menos frequentadas, sabia por diuturna experiencia que a porta principal devia estar aberta, mas ainda erma, ao mesmo tempo que a igreja, por onde entrára, já começaria a povoar-se de fiéis, porque, como é facil de suppôr, as igrejas eram naquella epocha mais frequenfadas que hoje. Desceu, pois, com passo firme, resolvido a encaminhar-se ao rocío, e a espalhar entre os amotinados a noticia da partida d'elrei.

Mas uma difficuldade imprevista lhe embargou os passos. Ou fosse que os acontecimentos da vespera obrigassem a maiores cautelas, não havendo ainda então exercito permanente, nem guardas pagas para defensão da pessoa real, cuja melhor protecção estava na propria espada, ou fosse por qualquer outro motivo, a porta ainda se não abríra! O beguino hesitou se devia retroceder para sair pela igreja, se esperar. As considerações que o tinham movido a seguir este caminho o obrigaram a ficar. Mettido no estreito e escuro vão da escada, o ichacorvos assemelhava-se, involto nas suas roupas de burel, e reluzindo-lhe os olhos á meia luz que dava o pateo interior, a um moderno funccionario, que hoje, nesses mesmos paços, e n'um desvão igual, talvez no mesmo sitio, mostra aos que entram o rosto banhado na hediondez da sua alma, esperando que a vindicta publica o convide a algum banquete de carne humana, e no esperar atroz rodêa com as garras os ferros do seu covil, como um tigre captivo. O espia era alli, por assim dizer, uma preexistencia, uma harmonia pre-estabelecida do algoz.

Passára obra de meia hora, e o beguino começava a impacientar-se mui seriamente quando sentiu pés de cavalgadura no pateo interior do edificio. D'ahi a pouco um donzel, trazendo na mão uma desconforme chave, e as rédeas de uma valente mula enfiadas no braço, chegou á porta e começou a abri-la. Era um dos donzeis d'elrei. Costumado a disfarçar a sua frequente entrada no paço sob a capa da mendicidade, e habituado a estender a mão á espera de alguns soldos que devotamente lhe atiravam senhores, cavalleiros e escudeiros, ao que elle retribuia com a longa lenda das suas orações em aleijado latim, Fr. Roy era acceito a quasi todos os moradores da casa d'elrei, que respeitavam a sua apparente sanctidade. Por isso, saindo do seu desvão, encaminhou-se para a porta.

"A madre Sancta Maria vos guarde de máu olhado, de feitiços e de ligamentos:—disse elle, chegando-se ao donzel, e fazendo sobresair esta ultima palavra.

"Vós aqui, Fr. Roy. por estas horas?—replicou o donzel, voltando-se admirado.

"Que quereis!—tornou o beguino.-Quando hontem os maldictos burguezes accommetteram os paços reaes com sua grita e revolta, estava eu aqui. Ai que medo tive! Escondi-me naquelle desvão, e quando se fecharam as portas achei-me encurralado cá dentro como um emparedado em seu nicho. A minha profissão de paz e de religião não me consentia passar por meio de homens possuídos do espirito de colera, e inspirados por Belzebuth, nem o susto me deixava animo desaffogado para ir roçar o burel do meu santo habito pelos trajos empestados dos filhos de Belial. Tambem a humildade e mortificação christan se oppunham a que eu subisse a pedir gasalhado a algum de vós outros os moradores da casa de nosso senhor elrei. Assim, louvando a Deus por me conceder uma noite de padecimento, alli me deixei ficar sohre as lageas humidas, sobre as duras e agudas arestas dos degráus daquella escada. Agora, que a revolta é finda, consolado com as dores que me traspassam os ossos, e confiado na providencia de Jesu-Christo, vou-me ao meu gyro diario para vêr se obtenho da caridade dos devotos a pitança usual com que possa matar a fome de vinte e quatro horas, pela qual dou mil louvores ao justo juiz, que reina eternalmente nos altos céus."

O beguino revirou beatificamente os olhos, e fez uma visagem entre afllicta e resignada, levando ao mesmo tempo a mão ao joelho, como se alli sentisse uma dor agudissima.

"Veneravel Fr. Roy!—atalhou o donzel com as lagrymas nos olhos—se tivesseis procurado o aposento dos donzeís, nós vos dariamos ao menos um almadraque para repousar, e repartiriamos comvosco da nossa cêa. Mas o mal esta feito, e o peior é que para hoje não vos posso offerecer abrigo. Vós crêdes, sancto homem, que a revolta é finda, e nunca ella esteve mais accesa. Sua senhoria vae partir já da cidade …"

"Sancta Maria val! Sancto nome de Jesus! Accorrei-nos, virgem bemdicta!—interrompeu Fr. Roy.—Pois os populares teimam em sua assuada, e elrei deixa-nos aos coitados de nós, humildes religiosos e cidadãos pacificos, entregues ao furor dos peões?"

"E que remedio, bom Fr. Roy?!—replicou tristemente o donzel.—Sem cavalleiros, escudeiros e bésteiros não se faz guerra, nem se desfazem assuadas, e nada d'isto tem elrei. Agora vou eu ao rocío avisar os senhores do conselho, os privados e fidalgos que lá estão, que sigam caminho de Santarem, sob pena de incorrerem em caso de traição se ficarem em Lisboa, por signal que elrei me recommendou procurasse avisar primeiro que ninguém sua mercê o infante D. Diniz."

"No rocío, dizeis vós?—tornou o beguino arregalando os olhos.—Confesso que vos não entendo."

Durante este dialogo o donzel tinha acabado de destrancar a porta do paço, cavalgado na mula que trazia de rédea, e saído ao terreiro seguido de Fr. Roy, que coxeava, estorcia-se, e suspirava dolorosamente de quando em quando. Passo a passo, e sofreando a mula, caminho da sé, o pagem narrou ao beguino todas as particularidades succedidas aquella manhan, as quaes Fr. Roy sabia melhor do que elle. Chegados defronte dos paços do concelho, o pagem tomou pelo sopé da alcaçova e Fr. Roy pela porta do ferro, não sem terem primeiro saído da bolça do donzel para a manga do beguino alguns pilartes[1], e da bôca deste para os ouvidos daquelle alguns latinorios pios devidamente escorchados.

Apenas passára o largo da sé e transpozera a velha e soturna porta do ferro, Fr. Roy se achára perfeitamente sarado do seu tão agudo rheumatismo. Ligeiro como um galgo, desceu por entre as antigas terecenas reaes, e em menos de tres credos estava no pelourinho[2] Ahi viu cousa que o fez parar. Um homem vestido de valencina, e coberta a cabeça com um grande feltro, arengava a um troco de bésteiros e peões armados de lanças ou ascumas, de almarcovas ou cutellos: tinha nas mos um desconforme montante, e na cincta uma espada curta: a turba ora o escutava attentamente, ora prorompia em gritos confusos e estrondosos. Fr. Roy chegou-se. O homem do feltro amplo era o mestre tanoeiro Bartholomeu Chambão, que enthusiasmado proseguia o seu vehemente discurso sem reparar no beguino:

"Já vo-lo disse: d'aqui ninguém bóle pé antes d'elrei nosso senhor saír para S. Domingos. Nada de bulha fóra de sazão, que lá estão os esculcas. Daremos mostra ao paço quando ahi fôr só a adultera. Se, como hontem, nos fecharem as portas, isso é outro caso. É preciso que isto se desfaça. A cobra peçonhenta deve saír da toca. Não digo que então não seja possivel esmagar-se-lhe a cabeça… N'um brandir de ascuma… Mas cautela, não haja sangue!… Pelo menos de innocentes… Leaes e esforçados cidadãos desta mui leal cidá… Sáfa, bruto!"

Esta peroração inesperada com que mestre Bartholomeu interrompêra o seu discurso, que se ía elevar ao ápice da eloquencia, procedêra de lhe ter descido a grossa e espaçosa mão do ichacorvos sobre o hombro, que lhe vergára como se houvessem descarregado em cima delle uma aduella de cuba. A Fr. Roy occorrêra uma idéa abençoada, a de communicar a mestre Bartholomeu a nova que D. Leonor lhe recommendára espalhasse entre os amotinados; a nova da sua partida de Lisboa com elrei. O mendicante sabía que o tanoeiro era homem de bofes lavados, e que dentro de meia hora a noticia teria corrido toda a cidade. Assim se esquivava não só a ser visto no rocío pelo donzel, de quem naquelle instante se apartára, mas tambem a achar-se involvido em qualquer desordem que semelhante noticia poderia produzir, attenta a irritação dos animos. Além d'isto a lembrança do arripio dorsal, que as ultimas palavras de D. Leonor lhe tinham causado, lhe fazia quasi desejar que o tanoeiro, encarregado (segundo percebêra do fim da sua arenga) da commissão, que, na taberna de Folco Taca, Diogo Lopes incumbíra a Fernão Vasques, podesse ainda desempenha-la, atalhando a fuga de D. Leonor. Estas considerações que lhe haviam passado rapidamente pelo espirito, e o vêr que mestre Bartholomeu não levava geito de acabar, o moveram a falar ao tanoeiro, que só o sentíra quando elle lhe descarregára sobre o hombro a ponderosa mas amigavel palmada.

"Com mil e quinhentos satanazes!—exclamou mestre Bartholomeu, voltando-se e vendo ao pé de si o beguino.—Sabia que a mão da sancta madre igreja era pesada; mas não pensava que o fosse tanto! Que me quereis, Fr. Roy?"

"Dizer-vos que podeis mandar saír vossos esculcas de sua atalaia; porque poderiam chegar a curtir o inverno ahi antes de verem elrei chegar e passar para S. Domingos."

"Fr. Roy,—replicou o tanoeiro, fazendo-se vermelho de colera—para interromper-me com uma de vossas bufonerias não valia a pena de me aleijardes este hombro!"

"Tomae como quizerdes as minhas palavras; chamae-me o que vos aprouver, bufão ou mentiroso, mas a verdade é que não será hoje que os populares falarão com elrei."

"Pois quê, morreu dos feitiços da adultera, ou lornou-o invisivel algum encantador seu amigo?"

"Nem uma cousa nem outra: mas com estes olhos de grande peccador (aqui o ichacorvos fez o gesto habitual de cruzar as mãos sobre o peito) eu o vi sair para a banda da portada cruz…"

"Fr. Roy, olhae que estes honrados cidadãos vos escutam, e que o auto é mui grave para gastar truanices."

"Já disse, mestre Bartholotmeu, que falo verdade. Pelo bento cercilho do sancto-padre vos juro que hoje elrei não dormirá em Lisboa, segundo o geito que lhe vejo. Elle cavalgava uma possante mula de caminbo; n'outra ia uma dona coberta com um longo véu: seguiam-no donzeis, falcoeiros e moços de monte. Ao passar ainda lhe ouvi estas palavras:—olhae aquelles villãos traidores como se junctavam: certamente prender-me quizeram, se lá fora[3]!—Não pude perceber mais nada. Que mais, porém, é preciso? Deixastes fugir a prêa: agora catae-lhe o rasto."

"Traidor é elle, que nos ha mentido como um pagão!—bradou o tanoeiro sopesando o montante.—Mas que se guarde de outra vez trazer a Lisboa a adultera! Rainha ou barregan, arrancar-lhe-hemos os olhos. A arraya-miuda foi escarnida; mas não o será em vão. Que dizeis vós outros, honrados burguezes?"

"Escarnidos, escarnidos!—respondeu com grande grila o tropel.—Mas à fé que nunca a adultera será rainha de Portugal. Morra a comborça!"

E no meio da alarida, as pontas das lanças e os largos ferros das almarcovas agitadas nos ares scintillavam aos raios do sol oriental como um vasto brazido.

"Ao rocío! ao rocío!—gritou mestre Bartholomeu.—Vamos, rapazes: já que não fazemos aqui nada, ao menos que o povo não seja por mais tempo burlado!"

E pondo o montante ás costas, mestre Bartholoraeu tomou por uma das ruas que davam para a banda de Valverde, seguido da turbamulta, e sem fazer caso de Fr. Roy, que procurava rete-lo, ponderando que ainda poderia alcançar elrei e fazê-lo retroceder. O tanoeiro, porém, não tinha valor para affrontar-se face a face com D. Fernando, e por isso fingiu não ouvir o beguino, que dentro de alguns minutos se achou só no meio do terreiro calado e deserto.

Entretanto juncto a S. Domingos, se bem que a rixa começada entre os nobres partidários de Leonor e Fernão Vasques se houvesse desvanecido, a agitação dos populares, cujo numero crescia continuamente, não tinha diminuido. Encostado a um dos pilares do alpendre, o alfaiate ora lançava os olhos de revés para os senhores da côrte e conselho, que, esperando por elrei, passeiavam de um para outro lado, ora os espraiava por aquelle mar de vultos humanos, que elle sabía poder agitar ou tornar immoveis com uma palavra ou com um simples aceno. Semelhante á hora que precede a procella, em que apenas se vêem correr na atmosphera abalada os castellos encontrados de nuvens densas e negras, e se ouve o estourar dos trovões roufenhos e prolongados, aquella hora que então passava era espantosa e ameaçadora de estragos, sobretudo quando, após um rugido terrivel do tigre popular, se fazia na praça apinhada de gente um silencio ainda mais temeroso e tetrico.

Foi n'uma destas interrupções do motim que um pagem, saíndo ao galope do lado da corredoura, veio apear-se juncto do alpendre, e tirando da cincta um pergaminho aberto o entregou ao infante D. Diniz.

Este fitou os olhos na escriptura, descórou subitamente, e entregou o pergaminho a Diogo Lopes, dizendo-lhe ao mesmo tempo em voz baixa:

"Estamos perdidos!"

Diogo Lopes leu o conteúdo naquelle escripto fatal, e no mesmo tom respondeu ao infante:

"O caminho de salvação que nos resta é o de Santarem. Obediencia e circumspecção!"

O pergaminho passou rapidamente de mão em mão: os fidalgos, letrados, e cavalheiros fizeram um circulo no meio do alpendre: e, depois de o haverem lido, fitaram uns nos outros olhos desassocegados. Todos receiavam falar. O manhoso Pacheco foi o primeiro que se atreveu a isso, aproveitando habilmente a hesitação dos outros fidalgos e conselheiros.

"Vistes a ordem d'elrei. Como um dos mais velhos entre nós, direi meu parecer. Embora o risco seja grande achando-nos cercados de povo armado e furioso, o nosso dever é pôr a vida por obedecer a nosso senhor elrei."

"Mas,"—atalhou o doutor Gil d'Ocem, que por mui letrado e prudente era ouvido como oraculo pelos cortezãos—"o caso é grave: o povo se nos vir retirar enviar-se-ha a nós: se lhes dizemos o motivo da nossa partida é capaz de desconcertos maiores que os já commettidos."

"Sua senhoria não devêra ter-nos emprasado para este auto, se a sua intenção era não dar resposta aos populares."

Visivelmente o doutor em leis e degredos estava tomado de medo, no que não levava vantagem á maior parte dos outros membros do conselho real.

O conde de Barcellos guardava silencio. Não podia conceber como D. Leonor o não avisára a tempo, e por isso preoccupava-o a indignação, ignorando que a resolução da fuga fôra tomada mui tarde. Na vespera elle aconselhara a elrei que cedesse a tudo quanto o povo quizesse; porque dissolvido o tumulto, facil era chamar á côrte os senhores e cavalleiros de mais confiança, acompanhados de gente do guerra, com que seria sopitado qualquer motim, se os populares ousassem oppôr-se de novo á vontade de seu rei e senhor. D. Fernando aceitára o conselho, que, se não era o mais leal, era ao menos o mais seguro; mas as revelações do ichacorvos, que o conde ignorava, tinham mudado, como o leitor viu, a situação do negocio.

A reflexão de Gil d'Ocem estava em todas as cabeças, e por isso os cortezãos ficaram outra vez em silencio, como buscando um expediente para sair daquelle difficultoso passo: a incerteza, o despeito, o receio pintava-se nos rostos demudados de muitos.

E as vagas do oceano, que ameaçava traga-los, encapellavam-se aos pés deites: o povo, vendo os fidalgos erguidos e mudos n'um circulo, apinhava-se cada vez mais basto ao redor da alpendrada. Isto fazia crescer o temor, e o temor perturbava demais os animos para não poderem achar um expediente acertado.

Era por isso que esperava o astuto Pacheco.

"De um lado a colera do povo: do outro os mandados delrei—disse, apertando com a mão a fronte, o velho conselheiro de Affonso ÍV.—Resta-nos só um arbitrio."

"Dizei, dizei!—clamaram a um tempo todos, á excepcão do conde de Barcellos, que fitou nelle os olhos desconfiados.

"É necessário que annunciemos a nova da partida d'elrei, e que sejamos os primeiros a affeíar este procedimento: é necessário que vamos adiante da indignação dos peòes. Depois dir-lhes-hemos que, burlados como elles, nada fazemos aqui. Então apartar-nos-hemos sem susto, e sairemos da cidade como podérmos, na certeza de que não serei eu o ultimo, apesar de velho, que cruze as portas da alcaçova de Santarem."

"Mas quem ha-de falar em nosso nome?—perguntou Gil d'Ocem.

"No vosso, mestre Gil das Leis!—interrompeu o conde de Barcellos.—Nem o receio das affrontas do alguns milhares de sandeus, nem o da propria morte me obrigaria a cuspir maldicções sobre o nome daquelle a quem uma vez jurei preito e leal menagem."

"Viram impendere vero nemo tenetur"—replicou Gil d'Ocem—"ou, como quem o dissesse por linguagem, ninguém é obrigado a deixar-se matar por amor da verdade ou de seu preito. Vós fazei o que vos aprouver."

Á auctoridade de um texto latino trazido assim a ponto por um tão insigne doutor, não havia resistir. Os fidalgos e conselheiros approvaram quasi unanimente o alvitre de Diogo Lopes.

"Mas quem ha-de falar ao povo?—insistiu o mestre em leis, que não parecia excessivamente inclinado a incumbir-se dessa gloriosa tarefa.

"Eu, se assim o quizerdes"—replicou immediatamente Diogo Lopes.

O manhoso cortesão vira claramente que a partida d'elrei transtornava todos os seus desenhos: todavia calculára n'um momento como, sem suscitar a indignação de Fernão Vasques, e por consequencia alguma revelação perigosa, podia salvar-se e ao infante. Logo que elrei se esquivára á influencia do povo, de cuja ousadia o velho esperava tudo, o casamento de D. Leonor era inevitavel, e ainda suppondo, o que não era de esperar, que o tumulto fosse avante, que Lisboa se rebellasse claramente contra D. Fernando, o resultado da guerra civil tinha muito maior probabilidade de ser favoravel a elrei, senhor do resto de Portugal, que ao povo, desprovido naquella conjunctura dos principaes meios com que poderia sustentar uma lucta intestina. Assim, o alvitre que offerecêra para a salvação dos cortezãos era só para se haver de salvar a si, conservando ao mesmo tempo a affeição dos cabeças da revolta, sem que o meio que para isso devia empregar o fizesse decahir da graça de D. Fernando.

Para os calculos de Diogo Lopes faltáro, porém, um elemento: era a delação do beguino; e era justamente, esta falta que os destruia todos. Assim é a politica.

O sacrifício de Diogo Lopes foi geralmente recebido com approvação e agradecimento. Então elle, saíndo do circulo, aproximou-se a Fernão Vasques, que de quando em quando volvia os olhos inquietos para a pinha dos fidalgos e cavalleiros.

"Falhou a traça:—disse o velho cortezão em voz sumida ao alfaiate.—Elrei acaba de saír da cidade."

Fernão Vasques recuou, e poz-se a olhar espantado para Diogo Lopes, como quem não acreditava o que ouvia.

"O que vos digo é a verdade,—continuou Pacheco.—Mas não affrouxar! Elrei de Castella é por nós, e bom numero de fidalgos portuguezes o são tambem. Mais; são por nós a maior parte dos que ora aqui vêdes presentes. Conservae o bom animo do povo, e fiae o resto de mim e … de quem vós sabeis."

Ao pronunciar estas palavras, Diogo Lopes lançou de relance os olhos para D. Diniz.

"Mas elrei tomará por mulher D. Leonor—acudiu o alfaiate aterrado:—voltará a Lisboa com seus cavalleiros e homens d'armas, e então coitados de nós!"

"Não temaes: o matrimonio adultero será condemnado pelo papa. Vós já tereis ouvido contar o que succedeu a elrei D. Sancho: a D. Fernando póde succeder o mesmo. Tambem os fidalgos de Portugal têem homens d'armas. Podeis estar certo de que não vos abandonaremos. Agora resta uma cousa. Coube-me a mim dar esta triste nova aos bons e leaes burguezes, que tão ousadamente se oppozeram á deshonra da sua terra e de seu rei, e eu devo ser ouvido por elles. Mandae-lhes que façam silencio."

Fernão Vasques obedeceu: o ruído dos populares, que não descontinuára durante esta scena, acalmou a um aceno do alfaiate.

Diogo Lopes fez então um largo discurso, com o qual não cansaremos os leitores, que pouco mais ou menos terão previsto como seria. Misturando amargas reprehensões contra D. Fernando com lisonjas aos populares, procurou persuadi-los, posto que indirectamente, de que toda a fidalguia estava cheia de indignação. Alludiu á resistencia por armas que elrei podia encontrar entre os ricos-homens de Portugal contra o seu casamento, e no caso de vir este a cabo, a probabilidade de ser annullado pelas censuras da igreja. Emfim, sem nunca lhes dizer claramente que insistissem na revolta, e tractassem, se fosse preciso, de defender a cidade contra o poder real, suscitou todas as idéas que podiam levar os populares a este excesso. Faltava o ponto difficultoso; o da partida dos fidalgos. Pacheco soube com a mesma ambiguidade dar esperanças aos peões de que elles se encaminhavam para suas alcaidarias e honras com o louvavel intento de se aperceberem em soccorro dos burguezes de Lisboa, e com tal arte o fez, que os senhores e cavalleiros que se achavam em S. Domingos, sem exceptuar o proprio conde de Barcellos, não viram nas suas palavras senão uma feliz inspiração para os salvar da colera da arraya-miuda.

Durante aquella larga arenga esta guardára silencio, interrompido a espaços por um desses borborinhos, que são como os annuncios das erupções do volcão popular. Pacheco, emfim, concluiu: mas o espectaculo que tinha diante de si o fez ficar immovel por alguns momentos; e estes foram terriveis. Aquelles centenares de olhos avermelhados, scintillantes de furor, eravados nelle e nos outros fidalgos; aquellas bôcas semi-abertas prestes a proromper em brados de morte, eram como um pesadello diabolico, como uma vertigem de loucura. Os populares pareciam ainda escuta-lo, e não poderem acreditar a deslealdade de D. Fernando de Portugal.

Os fidalgos aproveitaram este instante de torpor moral que precedia a procella. Desceram da alpendrada, e montando nas suas possantes mulas, encaminharam-se vagarosamente para a banda da corredoura. No meio da cavalgada, e rodeado dos cavalleiros mais bemquistos do povo ía o conde de Barcellos, e Diogo Lopes com os seus pagens fechava o sequito. Se houvessem atravessado a praça, o conde teria corrido grande risco; porque, ao dobrar o angulo do mesteiro, ja os doestos grosseiros e violentos voavam contra elle do meio do povo apinhado, e até dois virotes de bésta pareceu sibilarem por cima da sua cabeça. Mas apertando os acicates, os cavalleiros seguiram ao longo da corredoura, em quanto Diogo Lopes, victoriado pelas turbas, a quem com sorrisos retribuia aquellas mostras de affécto, obstava a que as ondas populares rodeassem o diminuto numero de cortezãos, alguns dos quaes tinham fundados motivos para receiar a irritação desses animos ferozes, exaltados pela fuga d'elrei.

A cavalgada linha desapparecido, quando um troço de bésteiros e peões desembocou do lado da rua nova. Eram mestre Bartholomeu e a sua gente, que vinham confirmar a nova dada por Diogo Lopes Pacheco.

Mas as palavras que Fr. Roy dissera ter ouvido proferir a elrei, lançadas entre os amotinados como um facho sobre montão de lenha por onde lavra ha muito fogo occulto, levaram o tumulto a um ponto medonho. As affrontas, que até ahi quasi só se encaminhavam contra Leonor Telles e seus parciaes, voltaram-se contra D. Fernando. As maldieçòes, as pragas, os nomes de traidor e covarde se ajunctavam ás mais violentas ameaças. Uns juravam que nunca mais elle entraria em Lisboa; outros propunham que se lançasse fogo aos paços reaes. Debalde Fernão Vasques trabalhava por aquieta-los; nem já escutavam o seu idolo. Furiosos espalhavam-se pelas ruas, que atroavam com gritos, brandindo as armas; e por certo que se neste momento D. Fernando lhes tivesse apparecido, não teriam talvez respeitado a vida do filho do seu tão querido D. Pedro I, o mais popular de todos os nossos reis, chamados da primeira dynastia.

Este motim sem objecto, sem resistencia, e sem resultado, acalmou nesse mesmo dia. Ao anoitecer, a cidade tinha cahido no seu habitual silencio, e pouco a pouco os fidalgos e cavalleiros, atravessando as portas da cruz, seguiam caminho de Santarem. O systema militar dos antigos parthos dera a victoria a elrei: elle vencêra fugindo!

O povo adormeceu: os cabeças da revolta estavam irremediavelmente perdidos.

[1] Moeda de prata de cinco soldos.

[2] As terecenas ou taracenas reaes, isto é o deposito dos aprestos das galés, de guerra, eram juncto ao sitio em que hoje vemos a igreja da Magdalena: o pelourinho velho ou Açougues era um terreiro que ficava pouco mais ou menos no fim da rua da Praia.

[3] Nom quis alla hir e partiose da çidade com D. Lionor, ho mais escusamente que pode, e hi a dizendo pello caminho; "Oulhaae, &c."—Fernão Lopes, chr. de D. Fernando c. 61.

UMA BARREGAN RAINHA.

O Douro é bem carregado e triste! A sua corrente rapida, como que angustiada pelos agudos e escarpados rochedos que a comprimem, volve aguas turvas e mal assombradas. Nas suas ribas fragosas raras vezes podeis saudar um sol puro ao romper da alvorada, porque o rio cobre-se durante a noite com o seu manto de nevoas, e através desse manto a atmosphera embaciada faz cahir sobre a vossa cabeça os raios do sol semi-mortos, quasi como um frio reflexo de lua, ou como a luz sem calor de uma tocha distante. É depois de alto dia que esse ambiente, semelhante ao que rodeava os guerreiros de Ossian, vos desopprime os pulmões, onde muitas vezes tem depositado já os germens da morte. Então, se, trepando a um pinaculo das ribas, espraiaes os olhos para a banda do sertão, lá vêdes como uma serpente immensa e alvacenta, que se enrosca por entre as montanhas, e cujo colo esta por baixo de vossos pés: é o nevoeiro que se acama e dissolve sobre as aguas que o geraram. O horisonte até ahi turvo, limitado, indistincto, expande-se ao longe, contornêa-se dos cimos franjados das montanhas engastadas na cortina azul do horisonte, e a terra, a perder de vista, parece-nos um mar de verdura violentamente agitado; porque em desenhar as paizagens do Douro a natureza empregou um pincel semelhante ao de Miguel Angelo: foi robusta, solemne e profunda.

Como sobre um circo convertido em naumachia, o Porto ergue-se em amphitheatro sobre o esteiro do Douro, e reclina-se no seu leito de granito. Guardador de tres provincias, e tendo nas mãos as chaves dos haveres dellas, o seu aspecto é severo e altivo, como o de mordomo de casa abastada. Mas não o julgueis antes de o tractar familiarmente. Não façaes cabedal de certo modo aspero e rude que lhe haveis de notar; trazei-o á prova, e achar-lhe-heis um coração bom, generoso e leal. Rudeza e virtude são muitas vezes companheiras; e entre nós, degenerados netos do velho Portugal, talvez seja elle quem guarde ainda maior porção da desbaratada herança do antigo caracter portuguez no que tinha bom, que era muito, e no que tinha mau, que não passava de algumas demasias de orgulho.

Nos fins do seculo decimo-quarto o Porto ía ainda longe da sorte que o aguardava. O fermento da sua futura grandeza estava no caracter dos seus filhos, na sua situação e nas mudanças politicas e industriaes que depois sobrevieram em Portugal. Posto que nobre, e lembrado como origem do nome desta linhagem portugueza, os seus destinos eram humildes comparados com os da theocratica Braga, com os da cavalleirosa Coimbra, com os de Santarem a cortezan, com os de Evora a romana e monumental, com os de Lisboa, a mercadora, guerreira e turbulenta. Quem o visse coroado da sua cathedral, semi-arabe, semi-gothica, em voz de alcacer ameiado; soltoposta, em vez de o ser á torre de menagem, aos dous campanarios lisos, quadrangulares e macissos, tão differentes dos campanarios dos outros povos christãos, talvez porque entre nós os architectos arabes quieram deixar as almadenas das mesquitas estampadas como um ferrete da antiga servidão na face do templo dos nazarenos; quem assim visse o burgo episcopal do Porto, pendurado á roda da igreja, e defendido antes por anathemas sacerdotaes, que por engenhos de guerra, mal pensaria que desse burgo submisso nasceria um emporio de commercio, onde dentro de cinco seculos, mais que em nenhuma outra povoação do reino, a classe então fraca e não definida, a que chamavam burguezia, teria a consciencia da sua força e dos seus direitos, e daria a Portugal exemplos de um amor tenaz d'independencia e de liberdade.

A populosa e vasta cidade do Porto, que hoje se estende por mais de uma legua desde o Seminario até além de Miragaia, ou antes até a Foz, pela margem direita do rio, entranhando-se amplamente para o sertão, mostrava ainda nos fins do seculo decimo-quarto os elementos distinctos de que se compoz. Ao oriente o burgo do bispo, edificado pelo pendor do monte da sé, vinha morrer nas hortas, que cobriam todo o valle onde hoje estão lançadas a praça de D. Pedro e as ruas das Flores e de S. João, e que o separavam dos mosteiros de S. Domingos e de S. Francisco. Do poente a povoação de Miragaia, assentada ao redor da ermida de S. Pedro, trepava já para o lado do Olival, e vinha entestar pelo norte com o couto de Cedofeita, e pelo oriente com a villa ou burgo episcopal. A igreja, o municipio, e a monarchia entre esses limites pelejaram por seculos suas batalhas de predominio, até que triumphou a corôa. Então a linha que dividia as tres povoações desappareceu rapidamente debaixo dos fundamentos dos templos e dos palacios. O Porto constituiu-se a exemplo da unidade monarchica.

Era neste burgo ecclesiastico, nesta cidade nascente, que por um formoso dia de janeiro da era de Cesar de 1410 (1372) se viam varridas e cobertas de espadanas e flores as estreitas e tortuosas ruas que pela encosta do monte guiavam ao burgo primitivo fundado ou restaurado pelos gascões, se não mentem memorias remotas[1]. Na rua do Souto, já assim chamada, talvez pela vizinhança de algum bosque de castanheiros[2], como principal entrada da povoação, andavam as danças judengas e folias mouriscas com musicas e trebelhos ou jogos, por entre o povo vestido de festa, o que era indicio evidente de que se esperava elrei, cuja vinda a qualquer povoação era o unico motivo legal para fazer dançar e foliar judeus e mouros, que de certo não folgavam com estes forçados e dispendiosos signaes de contentamento publico.

Com effeito uma numerosa e esplendida cavalgada viha da banda do bailiado de Leça, Elrei D. Fernando ajunctára em Santarem os seus ricos-homens e conselheiros: amestrado por Leonor Telles na arte de dissimular, recebêra com todas as mostras de boa-vontade o infante D. Diniz e Diogo Lopes Pacheco, ao qual, para maior disfarce, não escaceára mercês[3]. Depois em folgares e caçadas vagueára pelo reino com D. Leonor, até que em Eixo fizera um como manifesto da resolução que tomára de a receber por mulher, o que neste dia cumpríra na antiga igreja daquella celebre commenda dos Hospitalarios. Era, pois, para celebrar este matrimonio adultero, agourado pelas maldicções populares, que o bispo D. Affonso, menos escrupuloso que o povo de Lisboa ácerca de adulterios, vestia de festa o seu mui canonico burgo[4].

A cavalgada, que se víra descer ao longo do valle, já atravessava o rio da villa pela ponte do Souto[5] e encaminhava-se para uma antiga porta da povoação primitiva, porta conhecida ainda hoje, como então, pelo nome de Vandoma. Ao lado direito d'elrei ia D. Leonor, a rainha de Portugal: elle montado em um cavallo de guerra; ella em um palafrem branco, levado de redea desde a entrada da ponte pelo infante D. João, que familiarmente falava e ria com a formosa cavalleira. Da banda esquerda o bispo D. Affonso, curvado e enfraquecido pela velhice, oscillava e fazia cortezias involuntarias a cada passada da mansissima e veneranda mula episcopal. Juncto ao velho prelado o infante D. Diniz caminhava em silencio, e no aspecto melancholico do mancebo se divisava que uma profunda tristeza lhe consumia o coração, vendo-se como atado ao carro triumphal da mulher que pouco a pouco se convertêra em sua irreconciliavel inimiga. Após estas principaes personagens via-se uma grande multidão de cavalleiros, clerigos, cortezãos, conselheiros, juizes da côrte, companhia esplendida, por entre a qual brilhava o ouro, a prata, e as variadas côres dos trajos de festa, que sobresaiam no chão negro das vestiduras roçagantes dos magistrados e clerigos. Adiante d'elrei as danças dos mouros e judeus volteavam rapidas ao som da viola ou alaude arabe, das trombetas e das soalhas. Segundo o antigo uso seguiam-se ás danças córos de donzellas burguezas, que celebravam cora seus cantos o amor e a ventura dos noivos[6].

Mas esse canto tinha o que quer que era triste na toada. Triste era tambem o aspecto dos populares, que sem um só grito de regosijo se apinhava para vêr passar aquelle prestito real. Mil olhos se cravavam no infante D. Diniz, cujo rosto melanclholico revelava que os seus pensamentos eram accordes com os do povo, que por toda a parte não via neste consorcio senão um crime e uma fonte de desventuras. Os cortezãos, porém, fingiam não perceber o que passava á roda delles, e pareciam transbordar de alegria. Muitos eram daquelles que mais contrarios haviam sido aos amores d'elrei, mas que vendo emfim D. Leonor rainha, voltavam-se para o sol que nascia, e calculavam já quantas terras, e que somma de direitos reaes lhes poderia render da parte de um rei prodigo a sua mudança de opinião.

Entre elles não se via o tenaz e astuto Pacheco. Habituado ao tracto da côrte por largos annos, experimentado em todos os enredos dos paços, habil em traduzir sorrisos e gestos, palavras avulsas e discursos fingidos, não tardára em perceber que as mercês e agrados d'elrei e de D. Leonor encobriam intentos de irrevogavel vingança. Conhecendo que a sedição popular fôra inutil, e que, ainda renovada com mais furia, não poderia resistir ás armas de D. Fernando, havia-se affastado da côrte, e posto que só nos fins desse anno elle passasse a servir o seu antigo protector e amigo D. Henrique de Castella, buscára entretanto esquivar-se ao odio da nova rainha, conservando ao mesmo tempo a boa opinião entre o vulgo.

Abandonado assim do seu guia, o infante D. Diniz soffrêra resignado um successo que não podia embargar; mas, digno filho de D. Pedro, conservára intacta a sua má vontade a D. Leonor. Abandonado dos seus parciaes, vendo, se não trahida, ao menos quasi morta, e inactiva a alliança de Pacheco, e, para maior desalento, seu irmão mais velho o infante D. João ligado com essa mulher, da qual este principe mal pensava então lhe viria a ultima ruina; no meio de tanto desamparo, o infante, a principio timido e irresoluto, sentira crescer a ousadia com os perigos; sentíra girar-lhe nas veías o sangue paterno. Obrigado a seguir a corte, nunca D. Leonor achára um sorriso nos seus labios; nunca o víra conter diante della um só signal de despreso. Assim a colera d'elrei contra seu irmão havia chegado ao maior auge, e os calculos de fria e paciente vingança estavam resolvidos no animo de Leonor Telles.

A cavalgada tinha subido a encosta, atravessado a porta de Vandoma, que em parte ainda subsiste, e passado em frente da sé, juncto da qual se dilatavam os paços episcopaes. Ahi as danças e folias pararam e fizeram por um momento silencio: então o infante D. João, tomando nos braços a formosa rainha, apeou-a do palafrem: após ella elrei saltou ligeiro do seu fogoso e agigantado ginete. Dentro em pouco toda a comitiva tinha desapparecido no profundo portal dos paços, e os donzeís conduziam os elegantes cavallos, as mulas inquietas e os mansos palafrens para as vastas e bem providas cavallariças do mui devoto e poderoso prelado da antiga Festabole[7].

O aposento principal dos paços, quadra vasta e grandiosa, estava de antemão ornado para receber os hospedes reaes do velho bispo D. Affonso. Um throno com dous assentos de espaldas indicava que a elle ia subir tambem uma rainha. D. Leonor entrou seguida das cuvilheiras e donzellas da sua camara; elrei de todos os principaes cavalleiros. Viam-se entre estes o alferes-mór Ayras Gomes da Silva, ancião veneravel, que fôra seu aio, o orgulhoso mordomo-mór D. João Affonso Tello, Gil Vasques de Resende, aio do infante D. Diniz, o prior do hospital Alvaro Gonçalves Pereira, e muitos outros fidalgos que ou seguiam a còrte, ou tinham vindo assistir ás bodas reaes.

Guiada por D. Fernando, Leonor Telles subiu com passo firme os degraus do throno. Como o navegante, que, affrontando temporaes desfeitos por mares incognitos e aparcellados, e chegando ao porto longinquo, quasi que não crê pisar a terra de seus desejos, assim esta mulher ambiciosa e audaz parecia duvidar da realidade da sua elevação. A alma sorria-lhe a míl esperanças; a vida trasbordava nella. A seu lado um rei, a seus pés um reino! Era mais que embriaguez; era delirio. Ella sentia um novo affecto, um como desejo de perdão aos seus inimigos! Tremeu de si mesma, e convocando todas as forças do coração, salvou a sua ferocidade hypocrita, que parecia querer abandona-la. Era severo o seu aspecto quando esses pensamentos estranhos lhe passaram pelo espirito; mas o sorriso tornou a espraiar-se-lhe no rosto, quando o instincto de tigre pôde faze-la triumphar desse momento em que a generosidade costuma accommetter com violencia as almas vingativas e ferozes, o momento em que se realisa a summa ventura por largo tempo sonhada.

Do alto do throno e em pé, D. Fernando estendeu a mão: o tropel de cortezâos e cavalleiros, de donas e donzellas formaram aos lados da espaçosa sala fileiras esplendidas, immoveis e silenciosas: elrei volveu olhos lentos para um e outro lado, e disse:

"Ricos-homens, infançôes, e cavalleiros de Portugal, um dos mais nobres sacramentos que Deus neste mundo ordenou foi o matrimonio: como para os outros homens, para os reis se instituiu elle; porque por elle as corôas se perpetuam na linhagem real. É por isso que eu desposei hoje a mui illustre D. Leonor, filha de D. Affonso Tello, descendente dos antigos reis, e ligada com os mais nobres d'entre vós pelo divido do sangue. Assim a rainha de Portugal será mais um laço que vos una a mim como parentes, que de hoje ávante sois meus. Leaes como tendes sido a vosso rei pelo preito que lhe fizestes, muito mais o sereis por este novo titulo. Em que pez a traidores, D. Leonor Telles é minha mulher! Fidalgos portuguezes, beijae a mão á vossa rainha.[8]"

O velho alferes-mór Ayras Gomes aproximou-se então do throno á voz do seu moço pupillo; ajoelhou e beijou a mão a D. Leonor; mas o olhar que lançou para elrei era como o de pedagogo que de mau humor se accommoda ao capricho infantil de um principe. Ao volver d'olhos do ancião, D. Fernando córou e voltou o rosto.

O infante D. João, porém, dobrando o joelho aos pés da formosa rainha, parecia trasbordar de alegria: contemplando-o Leonor Telles deixou assomar aos labios um daquelles ambiguos e quasi imperceptiveis sorrisos que, vindos della, sempre tinham uma significação profunda. Por ventura que no infante D. João ella já não via mais que o precursor da humilhação de D. Diniz, do seu capital inimigo.

Após o infante os fidalgos vieram successivamente curvar-se ante D. Leonor. Boa parte delles eram como os capitães vencidos seguindo ao capitolio um triumphador romano. Podia-se com effeito dizer que, mau-grado desses que se rojavam a seus pés, ella conquistára o throno.

Toda a comprida fileira de nobres e officiaes da corôa tinha passado e ajoelhado no estrado real. Faltava um; e era este, que, menosprezando tantas frontes illustres por valor ou sciencia, por fidalguia ou riqueza, inclinadas perante ella, a mulher orgulhosa e implacavel esperava, cogitando no momento em que o mancebo ainda impubere, sem renome, sem poderio, celebre só por seu berço e pelo desgraçado drama da morte de D. Ignez, viesse tributar homenagem á que representava um papel analogo ao daquella desventurada, salvo na sinceridade do amor e na innocencia da vida.

Mas esse para quem D. Leonor mais de uma vez volvêra rapidamente os olhos, considerava com os braços cruzados aquelle espectáculo em perfeita immobilidade, de que unicamente saíra quando Gil Vasques de Resende, que estava a seu lado, se affastára, caminhando para os degraus do estrado. O mancebo apertára a mão do idoso aio, trémula da idade, com a mão ainda mais trémula de colera. Na conta de pae o tinha; venerava-o como filho, e a idéa de o vêr prostituir os seus cabellos brancos aos pés de uma adultera o levára a esse movimento involuntario; involuntario, porque elle, naquella postura e naquella hora, não fazia mais que colligir todas as forças da alma para salvar a honra do nome de seus avós, do nome dos reis portugueses, esquecida por um de seus irmãos, e talvez mercadejada por outro em troco de valimento infame. O velho entendeu o que significava este convulso apertar de mão: duas lagrymas lhe cahiram pelas faces; mas obedeceu a elrei.

Só faltava D. Diniz, que continuára a ficar immovel. Houve um momento de silencio sepulchral na vasta sala, e este silencio era para todos indefinido, mas terrivel.

D. Fernando poz-se a olhar fito para seu irmão, enleiado, ao que parecia, em scismar profundo.

Pouco a pouco todos os fidalgos que povoavam aquella immensa quadra se poderiam crer petrificados como as columnas gothicas, que sustinham as voltas ponteagudas do tecto, se não fosse o respirar anciado e rapido que lhes fazia ranger sobre os peitos e hombros os seus ricos briaes[9].

Os labios d'elrei tremeram, como a superficie do mar encrespada pela leve e repentina aragem que precede immediatamente o tufão. Depois entreabrindo-os, com os dentes cerrados, murmurou:

"Infante D. Diniz, beijae a mão á vossa rainha!"

Foi um só o volver de todos os olhos para o moço infante: o sussurro das respirações cessára.

D. Diniz não respondeu; encaminhou-se para o meio do aposento: parou defronte do throno, e olhando em redor de si, perguntou com sorriso de amargo escarneo:

"Onde está aqui a rainha de Portugal?"

"Infante D. Diniz!—disse elrei, cujo rosto o furor mal reprimido demudára.—Soffredor e bom irmão tenho sido por largo tempo: não queiraes que seja hoje só juiz inflexível do filho querido daquelle que tambem me gerou! Infante D. Diniz! beijae a mão da mui nobre e virtuosa D. Leonor Telles, como fez vosso irmão mais velho, de quem devereis haver vergonha.[10]"

"Nunca um neto do D. Affonso do Salado—replicou o infante com apparenle tranquillidade—beijará a mão da que elrei seu irmào e senhor quer chamar rainha. Nunca D. Diniz de Portugal beijará a mão da mulher de João Lourenço da Cunha. Primeiro ella descera desse throno e virá ajoelhar a meus pés; que de reis venho eu, não ella."

"De joelhos, dom traidor!—gritou D. Fernando, pondo-se em pé e descendo dous degraus do estrado.—De joelhos, vil parceiro de reveis sandeus! Se a taberna de Folco Taca vos ouviu fazer preito infame aos peões de Lisboa, quebra-lo-heis diante de vosso rei: quebra-lo-heis, que vo-lo digo eu!"

D. Diniz viu então que todos seus passos estavam descobertos: achava-se por isso â borda de um abysmo. Hesitou um momento; mas lembrou-se de que era neto do heroe do Salado, e precipitou-se na voragem.

"Vil é a mulher barregan e adultera, e essa é ambas as cousas.
Traidor seria um rei de Portugal que assentasse o adulterio no
throno, e vós o fizestes, rei deshonrado e maldicto de vosso
Deus e do vosso povo! Quem neste logar é o vil e o traidor?"

O infante, acabando de proferir estas palavras, abaixou a cabeça e deixou descahir os braços. Elle bem sabia que se seguia o morrer.

Apenas elrei se alevantára, D. Leonor, cujas faces se haviam tingido da amarellidào da morte, tinha-se erguido tambem. Naquelle rosto, semelhante ao de uma estatua de sepulchro, apenas se conhecia o viver no profundar, cada vez maior, das duas rugas frontaes que se lhe vinham junctar entre os sobr' olhos.

Ouvindo as derradeiras e fulminantes palavras de D. Diniz, elrei soltára um destes rugidos de desesperação e colera humana, que nem o rugido da mais brava fera póde igualar; grito de ventriloquo, que é como o estridor de todas os fibras do coração que se despedaçam a um tempo; gemido como o do rodado ao primeiro gyro do instrumento do supplicio; rugido, grito, gemido, conglobados n'um só hiato, fundidos n'um som unico pela raiva, pelo odio, pela angustia: brado que só terá eccho pleno no bramido que ha-de soltar o reprobo quando no derradeiro juízo o julgador dos mundos lhe disser:—para ti as penas eternas.

O brado de D. Fernando fizera tremer os mais esforçados cavalleiros que se achavam presentes: o movimento que o seguiu fez gelar o sangue em todas as veias.

Como um relampago elle tinha arrancado da cincta o agudo bulhâo, e com os olhos desvairados encaminhava-se para o meio da sala, onde seu irmâo o esperara immovel, com a mâo sobre o peito, como se dissesse: aqui!

Mas D. Fernando nâo pôde offerecer nas aras do adulterio um fratricidio: uma barreira se tinha alevantado a seus pés. Era um velho de fronte calva, e de longas melenas brancas e desbastadas pelos annos: era aquelle que lhe fôra mais que pae, e que elle respeitava mais que a memória deste: era o seu alferes-mór, o venerável Ayras Gomes, que ajoelhado lhe clamava com vozes truncadas de soluços e lagrimas:

"Senhor! que é vosso irmão!"

"É um covarde traidor, que deve morrer! Irmão!? Mentes, velho!
Elle já não o é!"

Á palavra—mentes!—um relampago de vermelhidão passou pelas faces cavadas do antigo cavalleiro: abaixou os olhos, e correu-os pela espada. Fôra esta a primeira vez que ella ficára na bainha depois de tão funda affronta. Mas aquelle era o momento dos grandes sacrificios. Ayras Gomes replicou, alimpando as lagrymas:

"Nunca vos menti, senhor, nem quando ereis na puericia, nem depois que sois meu rei. Sabei-lo. Criminoso ou innocente, D. Diniz é filho de meu bom senhor D. Pedro. A vosso pae servi com lealdade; por vós já me andou arriscada a vida. Hoje tendes por defensores todos os cavalleiros de Portugal: elle é que não tem um só. Senhor rei, ficae certo de que para assassinar vosso irmão vos é mister passar por cima do cadaver de vosso segundo pae."

Atalhado assim o primeiro impeto, o caracter do moço monarcha revelou-se inteiro neste momento. Commoveu-o a postura do venerando ancião, que pela primeira vez via a seus pés; e com a irresolução pintada nos olhos fitou-os em Leonor Telles.

Por uma reflexão instantânea a hyena previra que o sangue derramado pelo fratricida não cahiria sómente sobre a cabeça deste, mas também sobre a della. Naquelle rosto, então semelhante ao de uma estatua, D. Fernando não pôde ler a sentença do infante, bem que lá no fundo do coração ella estivesse escripta com sangue.

Entretanto os cortezãos, que no furor rompente d'elrei haviam ficado estupefactos e quedos, vendo-o vacillar, rodearam o infante. O velho Gil Vasques de Resende, que ia interpor-se também entre D. Diniz e elrei, quando este arrancára o punhal, parára ao ver a heróica resolução do alferes-mór; mas ao hesitar de D. Fernando corrêra a abraçar-se com o seu pupillo, que, no meio de tantos animos agitados por paixões diversas, era quem unicamente parecia tranquillo e alheio ao terror que se pintava em todos os semblantes.

Finalmente elrei metteu vagarosamente o punhal no cincto, e com voz pausada, mas trémula e presa, disse:

"Que esse malaventurado sáia d'ante mim."

O tom com que estas poucas palavras foram proferidas fez vergar o animo de D. Diniz, cujo coração antes d'isso parecêra de bronze. Os olhos arrasaram-se-lhe de agua. Sentira que até então era uma cólera cega, repentina, insensata, que o ameaçava: agora, porém, no modo e na expressão de D. Fernando vira claramente que era um amor de irmão que expirára.

Com a cabeça pendida em cima do hombro de Gil Vasques de Resende saiu do aposento.

Era talvez o velho o unico amigo que lhe restava no mundo.

D. Leonor levou ambas as mãos ao rosto, e via-se-lhe arquejar o collo formoso por mal contido suspiro.

"Coração compadecido e generoso!—pensou lá comsigo o alferes-mór, que havia pouco a tractára pela primeira vez.

"Hora maldicta e negra, em que perdi metade de minha tão esperada vingança!—pensava Leonor Telles, e o chôro rebentou-lhe com violencia.

"Não te afllijas, Leonor:—disse D. Fernando, apertando-a ao peito.—Que nunca mais eu o veja, e viva, se podér, em paz!"