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Livro de Consolação: Romance cover

Livro de Consolação: Romance

Chapter 13: XIII
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About This Book

This work presents a narrative that explores themes of love, loss, and the complexities of human emotions through a series of reflections and experiences. It delves into the trivialities of everyday passions and the impact of societal norms on personal relationships. The author employs a contemplative tone, inviting readers to consider the deeper meanings behind seemingly mundane interactions. The structure is characterized by a blend of introspective passages and descriptive prose, creating a rich tapestry of thoughts that resonate with the reader's own experiences of affection and sorrow.

XI

Qualquer honesta se abala,
Como sabe que é querida.

CAMÕES.Filodemo.

Observou Venceslau Taveira que o seu amigo, ouvindo lêr a complacente carta do commendador, manifestou mais que moderadamente o seu contentamento. Estranhando-lhe a quasi indifferença, perguntou-lhe se a noticia lhe era desagradavel, e se a conformidade do pae ao amor da filha despoetisava a noiva.

Respondeu Eduardo, alteando a fronte, que a injuria da despedida era muito recente, e a honra da readmissão pouco desejada.

Taveira obtemperou com a sobranceria do seu amigo. Pareceu-lhe bem aquelle pundonor: achou até natural que os brios e o coração se digladiassem dentro do nobre peito do rapaz. Isto, porém, não impediu que elle desculpasse o velho e resalvasse a menina da responsabilidade, a fim de amolentar as asperezas timbrosas de Eduardo, o qual se considerava offendido em sua justa{138} hombridade de plebeu pela propria mulher que talvez imaginasse descer os degraus de sua gerarchia para lhe dar a mão. É o que elle dizia, encaracolando o bigode e avincando a testa.

Insistiu Taveira declinando da amorosa menina as queixas do plebeu irritado. Teve que fazer. A ralé, se traja ao bizarro, e se tem nos miolos o fervilhar das aspirações, destampa em orgulhos desmesurados: faz saudades do barão feudal. Dava-se em Eduardo, ao que parecia, o sangrar da ferida antiga. O viuvo da filha dos Portugaes tinha nas cavernas da alma latibulos de rancor ás raças, aos pergaminhos, e nomeadamente aos paes que lhe não offereciam as filhas e os vinculos. De mais a mais, além d'estes pontos-de-honra, outras procellas lhe emborrascavam o animo quando elle, de subito, fez esta pergunta:

—Que dote tem ella?

—Eu sei lá!...—respondeu o outro enleado.

—Eu devia ter indagado...

—Sim, tu, e não eu, a dever ser algum. Se casas com o dote, começas pelo fim. Devias estudar o archivo do commendador, antes de pôr a sonda ao coração da filha, acho eu.

—Fallemos serios—volveu o galan dos olhos tristes e das palpebras morbidas.—Parece-te inutil isto de saber-se com quanto um homem póde contar, quando se constitue chefe de familia?

—Parece-me util; é sem duvida util mercantilismo. Mas o util nem sempre se combina com o agradavel,{139} como aconselha o poeta romano. E, n'este caso, essa averiguação, sobre ser desagradavel, é extemporanea. Já te disse: acabas por onde devias principar. Suppõe tu que farejas os contadores de Francisco Vaz, e não achas lá aroma de vintem! Que fazes? Retiras o requerimento á mão da menina, visto que a menina se não presume herdeira?

—Se retiro o requerimento? Eu não requeri nada... não a pedi...

—É verdade, não a pediste... Fui eu quem a pediu para ti, por me haveres dito que ella se suppunha amada, e não embaida por velhacaria de mercador que anda de armazem para armazem comparando e apalavrando fazenda. Entretanto, respeito a dote, não te informes comigo. Como vês, tens aberta a porta do commendador: pergunta-lh'o. E, se elle te disser que é pobre, e as lavaredas do amor se apagarem no teu peito, suicida-te.

—Que me suicide?!—bradou espantado o sugeito, que annos antes andára a metter-se nas tezouras da parca.

—Sim, homem—voltou Venceslau tregeitando no sorrir um gesto de aborrecimento, se não era de menospreço.—Mata-te por egoismo. O amor proprio de um homem de bem deve ministrar-lhe o veneno ou o punhal suicida, quando se lhe está abrindo um abysmo de... de... não me lembra a palavra...

—É pena que te não lembre...—acudiu ironicamente o outro.{140}

—Ah!... lembrou: de infamia.

—Mercês!—redarguiu Eduardo—se fosses um qualquer homem, respondia-te no campo da honra; mas ao amigo, que comprou com os seus favores o direito de me aviltar, digo: obrigado!

—Ao campo da honra vão os honrados—concluiu Venceslau, erguendo-se de golpe, e tomando o chapéo.—Tenho que fazer... Não me dá Deus horas baldias para palestras d'esta especie.

E sahiu arrebatadamente.

Eduardo seguiu, deu-lhe o braço já na rua, e disse-lhe em tom de muita brandura:

—Nunca te imaginei condição tão brava, Taveira! A tua honra tem espinhos...

—Pois não te firas, Eduardo... Temos duas estradas. Segue uma das duas por onde nunca possamos encontrar-nos.

—Ao menos permitte que hoje á noite nos encontremos em casa do commendador.

—Como te aprouver... adeus.

Venceslau foi para as côrtes, e Eduardo para casa de D. Julia de Miranda.

—Parabens!—exclamou ella, quando entrou á sala, onde era esperada pelo noivo de D. Anna Vaz.—Quem diria? Olhe que bonito e rapido desfecho teve o romance, que parecia complicar-se em tenebrosos enredos!

—É verdade, minha senhora!...

—Tambem me dou a mim os emboras pela auspiciosa{141} intervenção que tive n'estes bem-logrados amores!

—Obrigado, snr.ª D. Julia—respondeu elle glacialmente.

—Que seccura, santo Deus! que frieza a sua, snr. Eduardo! E eu a imaginal-o doido de alegria como todos os que amam anjos com o rosto e o coração da minha Annica! Ai! se ella agora o visse decerto...

—Me não amava?

—Decerto abafava de mágoa de o ter amado... Que tem? que genio é o seu? que é isso?!

—É a fatalidade—respondeu funeralmente o joven pallido.

—Não sei o que é a fatalidade... Explique-se.

—Quer V. Ex.ª que eu lhe diga o que é a fatalidade?... Ah! não queira ouvir...

—Quero... diga... Preciso entender o enigma da sua alma...

—A fatalidade é o calix intransmissivel. É a attracção do abysmo. É o resvalar por despenhadeiro onde não ha aresta de rocha em que se recravem os dedos. É o supplicio de Tantalo, a braza viva nos labios e a torrente da agua a derivar por diante da enorme agonia da sêde. É o tormento de Mezencio: o vivo enleiado ao cadaver. A fatalidade é o abutre que roía o figado immortal do acorrentado do Caucaso. É o estanque de lagrimas onde se afogam as esperanças, apenas nascidas. É o clamor incessante d'uma alma, que sóbe até o céo nas azas da fé, e desce até ao inferno{142} abatida com o pezo das suas maldições. É duvidar de Deus, quando a face bate nas lageas do templo, e o coração se confrange e arde sem aura refrigerante. A fatalidade é o holocausto forçoso da vida n'um altar onde a victima não leva sequer a compaixão dos que sabem que alli se está suicidando um homem. É a vacillação incomportavel de quem balanceia entre matar-se para esquecer e sacrificar-se para que o não deshonrem as vaias das multidões. A fatalidade, snr.ª D. Julia, é não ter eu morrido quando me atirei á bayoneta e ás balas no fragor das pelejas. A fatalidade é ter eu olhos e alma, e o torturar da vaga esperança, quando a imagem d'uma mulher predestinada me appareceu a apontar-me a voragem onde eu devia engolphar-me. A fatalidade, emfim, senhora, é tel-a eu visto; é... tel-a eu amado.

Esbofada a vulcanica declamação, D. Julia ergueu-se placidamente, soberanamente, hirta, severa, formosa de magestosos assomos, e disse:

—Se é o snr. Eduardo Pimenta quem está em casa de Julia de Miranda, amiga de Anna Vaz, peço-lhe que se esqueça de ter aqui entrado.

—Perdão, minha senhora!—balbuciou o galan, como quem não trazia mais diamantes no thesouro da memoria.—Perdão!

—Perdoei, porque... esqueci.

—Perdôa—volveu elle com alguma felicidade—perdôa, porque... matou. Eu vou ser marido de D. Anna Vaz, snr.ª D. Julia. Ha de vêl-a feliz...

—Praza a Deus... mas... duvído.{143}

—Ha de vêl-a feliz... ha de vêl-a sorrir para mim sem suspeitar que lhe sorri nos meus labios a morte... o sorrir do martyr para o cutello, a palavra indulgente do Christo para os seus verdugos. Agora, uma supplica... Segredo, minha senhora! Que ella o não saiba... Não me prive da gloria de ser eu só desgraçado. Se ella vê em mim o coração que se abraza do seu amor, deixe-a ser feliz; diga-lhe que eu a amo... prometto a V. Ex.ª que nunca a desmentirei...

—Mas... enganou-a... mentiu-lhe... para quê? objectou D. Julia, enredada nos amphiguris d'aquellas tiradas de Arlincourt.

—Não a enganei... forçou-me a fatalidade a adoral-a...

—E então?... Que incomprehensivel!... que indecifravel adoração!... Pois não me diz que adorava a minha amiga? Por que deixou de adoral-a?!

—Porque a mão do anjo negro me trouxe, desde o tumulo da primeira mulher que amei, até ao segundo calvario onde eu devia amar a segunda, mostrou-me... V. Ex.ª Eu disse tudo, senhora! Agora odeie-me; mas não me denuncie. O seu silencio ha de deixar-me agonisar lentamente; a sua denuncia... fulminar-me-ha... A minha morte é desnecessaria á sua glorificação.

Disse e sahiu.

Não era odio o mais caustico sentimento que Eduardo incutiu no animo de Julia. Tambem não era asco nem sequer desprezo. A fidalga ficára agitada, mas não febril dos estos da indignação. Viu-se escarlate no espelho,{144} e nenhuma das hypotheses explicativas da congestão sanguinea das faces lhe pareceu realmente ser pudor. Vêr-se ao espelho seria acaso; curiosidade de remirar o seu aspecto rubente de colera é que não era. Ella não sabia que estava iracunda e rubra. Fulgurou-lhe no espirito um relampago de electricidade tão offuscante que fechou os olhos. Teve pejo de si:—pudenda alma que se sentia estremecer no lapso da candura ao indecoro! Atirou-se a uma cadeira estofada, e abarcou o rosto nas mãos convulsas. Quando se levantou, as lagrimas embebiam-se no ardor das faces. Aquellas lagrimas eram as perolas que o seu bom anjo derramava sobre o seio onde os latejos do coração respondiam aos clamores da consciencia. N'este lance, enclavinhou os dedos das mãos, e comprimiu com ellas o arfar do peito. E, depois, tirando um profundo gemido, murmurou: «Se eu podesse amar um homem!»{145}

XII

       Deus organisou
O homem que vemos...

ANTONIO PRESTES.Auto da Ave-Maria.

Estavam todos melancolicos, á feição de amigos que se ajuntam em casa do dorído, na noite seguinte á do passatempo.

O commendador Vaz dirigia ao seu futuro genro palavras de contrafeita amabilidade.

Venceslau Taveira lia o diario das camaras e tirava notas. O conego das digestões morosas esperava o chá na espectativa silenciosa, ouvindo o rugir das proprias entranhas. O capellão da fidalga contemplava o conego, censurando mentalmente que as murças se déssem a sugeitos estupidos. D. Julia, no desvão da sacada, ciciava com a sua amiga um dialogo apparentemente gélido e remoto do interesse que era de presumir em tão festivo sarau.{146}

Durante o chá, animou-se aquelle palco da comedia humana. O prebendado contou os antigos faustos da patriarchal de D. João V. O commendador abriu ensejo ao capellão para que demonstrasse que D. João V, orando em Odivelas, não fôra mais util á religião dos pobres que os chantres da patriarchal gosmando psalmos na real basilica. Venceslau Taveira fez a apologia de Ferreira Borges e Manoel Fernandes Thomaz. Eduardo Pimenta descreveu a batalha da Roliça, azando ao conego breves, mas energicos protestos contra Bonaparte, e a vigesima edição de suas crenças politicas, que fundavam todas na paz e concordia entre os principes christãos e extirpação das herezias—votos sinceros, senão eloquentes, que influiam no cerebro do capellão filtros soporiferos.

Em amor ninguem fallou.

Soára meia noute: era a hora costumada de se apartarem.

Francisco Vaz, aproximando-se de Eduardo, disse-lhe a meia voz:

—Queira dizer a Venceslau que fique e V. S.ª ficará tambem alguns minutos.

D. Julia sahiu com os dois clerigos; D. Anna não voltou á sala; e o commendador fallou assim a Eduardo, na presença do deputado.

—Tive noticia de que o snr. Pimenta préza minha filha. É sua intenção esposal-a?

—Eu não podia ter outra intenção.

—Costumam alguns paes extremosos pedir aos noivos{147} de suas filhas que sejam bons, meigos e carinhosos para ellas. O amor santo dos pobres velhos desculpa-os d'este pedido banal. É respeitavel a supplica, porque Deus sabe como se cerra e estorce o coração do pae que separa de si ao fim de dezeseis annos a creança, que se fez mulher, e todavia lhe falla ainda na alma com a mesma ternura dos vagidos da infancia. Um pae vê sua filha senhora, e cuida sempre que ella lhe está sorrindo no berço. Não lhe pedirei, pois, snr. Pimenta, que ame sua esposa, porque eu a estremeço e adoro. Peço-lhe só que m'a receba como excellente creatura que ella é. Outra coisa que muito desejo me não esqueça. Queixei-me austeramente ao snr. Venceslau das intelligencias affectuosas que V. S.ª contrahiu com minha filha. Não m'o leve a mal. Um pae treme de susto e ira quando de repente sabe que lhe tentam usurpar as alegrias unicas da sua vida: é como o avarento a quem ameaçam espolial-o do cofre onde tem o sangue e a alma. Queixei-me; depois, abri os olhos, vi o mundo como elle foi sempre, vi minha filha como todas as filhas, e vi no snr. Pimenta um homem como eu fui, como são todos. Resignei-me. Algum sedimento de despeito e intolerancia sahiu nas lagrimas. Estou preparado para a renunciação, para a soledade, e para um fim de velhice mais triste do que eu imaginara entre a minha Anna e o retrato de sua mãe. Não sei qual é a tenção de V. S.ª depois de casado. Ella disse-me que não se apartava de mim; porém...{148}

—Em quanto o snr. commendador quizer acceitar a estimação sincera do marido de sua filha, eu não pensarei jámais em sahir de sua companhia.

—Agradeço!—disse o velho, estendendo-lhe a mão com vehemente transporte; e proseguiu, feita breve pausa:—O homem, que se casa, deve avançar vinte annos a dentro do futuro e prefigurar-se ahi pae de familias, rodeado de canceiras, cuidadoso e perplexo com o porvir de seus filhos. O amor opera prodigios de desinteresse, mas não faz que os bens da fortuna surjam miraculosamente. Parece-me util que V. S.ª saiba qual é o patrimonio de minha filha. Tenho uma commenda que me rende dois mil cruzados, e duas quintas que me dão outro tanto rendimento. Esta mediania tem bastado á modestia do nosso tracto. Não frequento bailes ha muitos annos, porque não posso retribuil-os. Alheei-me da sociedade faustuosa dos meus parentes, porque minha filha apenas poderia occupar dignamente o posto que lhe dá o seu nascimento; mas decerto, a equipar-se das pompas que as damas de hoje estadeam nas salas, o seu dote ser-lhe-hia muito desfalcado, e, no andar dos annos, muito custoso lhe havia de ser trajar vestidos de chita, quem os desperdiçára de sêda. Além de que, fartas vezes tenho previsto que os dois mil cruzados da commenda correm perigo de ser absorvidos pela liberdade, inimiga de tudo que é antigo, sem catar dos direitos que, sendo justos, não deviam postergar-se. Espero, porém, que os sacerdotes da liberdade, se todos forem{149} da condição do snr. Taveira, curem primeiro de desentranhar as riquezas do paiz, antes de arrebanharem as migalhas herdadas dos antigos conquistadores da Asia e Africa.

Venceslau correspondeu com um aceno de complacencia ao sorriso do commendador, que proseguiu:

—Na hypothese, portanto, de que tenho pouco e menos poderei ter d'um momento para outro, não receio melindrar o snr. Pimenta, aconselhando-lhe, já como amigo e já como pae de sua esposa, que procure empregar-se, como tantos emigrados que o não egualam em meritos de serviços e intelligencia. Se lhe não quadra a vida militar, que renunciou, ha encargos civis honrados e lucrativos. Na sua edade e com tanta capacidade, a vida ociosa deve dar-lhe tédios, fadigas sem actividade que as explique, dissabores e quebrantos que volvem aborrecida a monotonia do viver cazeiro. Eu, em quanto o vigor me ajudou, fui agricultor; depois fiz-me o mestre de meus filhos; e li quanto achei e pude entender para acreditar que Cicero, escrevendo louvores da velhice, não sophismava o desanimo frio e inerte d'este inverno sem sol, em que a luz dos olhos de minha filha me dava mais calor que as ardentes apologias do orador romano. Basta. É tarde, meus amigos. São horas de repouso. O snr. Pimenta recebe ámanhã a certidão de edade de sua noiva para os reclames. Boas noites. Minha filha não vem á sala, porque está recolhida.

—Que bello caracter de homem!—dizia Eduardo, intimamente compenetrado da honrada simpleza do commendador.—Parecia{150} um pae dos tempos patriarchaes! Começo a sentir doçuras imprevistas n'este enlace! Adquiro uma esposa adoravel, e um pae venerando! Achei o santo aconchêgo da familia que nunca tive!... Não vou ser rico; mas quantos centenares de contos daria Cressus pelas delicias domesticas no seio de tal familia?... Mas tambem não vou ser pobre...

—Decerto, não—assentiu Venceslau, reparando na subitanea passagem das tradições patriarchaes á vulgaridade moderna da riqueza.—Quanto tens de teu?

—Quatorze mil cruzados, pouco mais ou menos.

—Ouço dizer que os empregos se compram. Emprega o teu capital n'essa veniaga, ou augmenta os rendimentos do casal comprando predios rusticos. Podes viver desafogadamente com cinco ou seis mil cruzados annuaes, se continuares a parcimónia e resguardo de teu sogro. Tens a felicidade de casar com senhora não acostumada a bailes nem ás fatuidades do toucador. Só isso de per si vale um dote dos mais cubiçaveis.

—Dizes bem; mas—objectou Eduardo—bem sabes que eu não posso conformar-me aos habitos de meu sôgro, nem quero que minha mulher passe as noutes todas a ouvir discutir o tio conego com o capellão de Julia. Uma vez por outra, hei de leval-a ao baile, ao theatro, ao passeio, á convivencia das damas da sua parentella. Isto não desbarata os bens, acho eu; ao mesmo passo que aligeira os cuidados da lida domestica, e reveza umas sensações por outras, tomando-as todas apraziveis. Não te parece?{151}

—Sim... parece-me que a indole constrangida é o germen de grandes desgostos. O commendador não levará a mal que sua filha gose os prazeres que não conhece; mas, se tu visses que ella é ditosa desconhecendo-os, serias bom e discreto deixando-a na feliz ignorancia d'esses vistosos fructos das cidades arrasadas da Palestina, as quaes tinham cinzas envoltas em formosa casca...

—Ahi estás tu encarecendo perigos!—tornou Eduardo, adocicando a facecia.—O noviciado em Tibães deixou-te uns longes de frade em missão. Se te não desfradas, destampavas em Jeremias, e a esta hora alta da noute havia de ser lugubre ouvir-te por aqui a declamar: «Converte-te, Lisboa! Fazei penitencia, peraltas!»—E, voltando ao tom serio, ajuntou:—Eu, a dizer-te verdade, tenho precisão de ar, de sol, dos esmaltes da existencia, das coisas sublimes que Deus poz como matizes de oiro sobre o negro pano da vida. Caso-me para unir á minha uma alma, que me duplique o sentimento do bello. Dois corações identificados devem receber em dobro a sensação das alegrias honestas. Bem sabes que escura mocidade tive. Dôres sobre dôres. O horisonte fechado por um tumulo. A repulsão da familia e da patria. A perseguição dos poderosos. A pobreza no desterro. Beneficios de Deus recebi só um: a tua amisade, a mão que me desviava do seio o punhal suicida. Quem assim viveu até aos trinta annos tem direito a sahir d'este lethargo, e a commungar dos prazeres que não desdouram nem arruinam. Não é assim?{152}

—É.

—Dizes é por condescendencia?

—Digo.

—Mas não digas; discute.

—Boa hora para discutir, aqui, na rua dos Fanqueiros, se os prazeres desdouram e arruinam! Isso é questão philosophica de grande folego, meu amigo. Eu, por mim, em philosophia moral, conheço uma só palavra, que é o lemma d'uma eschola: Abstem-te e soffre.

—Isso não é philosophia: é uma questão de temperamento...

—E de temperatura cá para mim... Está muito frio... Adeus, até ámanhã.

Venceslau entrou na modestissima sobre-loja onde morava na calçada do Caldas; e Eduardo, recolhido aos confortos do seu gabinete no hotel-francez da rua de S. Paulo, sentou-se á banca da escrivaninha, e escreveu vinte e sete vezes a palavra Julia, inflorando as hastes do J e do l com recortes de muito ingenho. Durante esta obra-prima de caligraphia, o seu espirito desenhava na tela que lhe offerecia o demonio de Fausto, uns hediondos esboços de romance, que elle não tirou a limpo, e eu, por desventura minha, hei de restaurar no pano delido por lagrimas.

Depois, deitou-se no colchão de pennas, e adormeceu como raras vezes dormem os justos.

E ao mesmo tempo, quando a aurora já repontava do seu leito de neblinas frigidissimas, Venceslau concluia o seu artigo do Astro, friccionára as mãos gelidas,{153} deitava-se no enxergão ingrato ao longo repouso, e não podia conciliar o somno com a febre cerebral do longo trabalho.

Ah! os justos dormem bem quando... não tem que fazer.{154}
{155}

XIII

Sempre bom, sempre douto, sempre amigo
        Da honra e da virtude.

FILINTO ELYSIO.Ode.

«Se eu podesse amar um homem!»—verbo de recondito mysterio que passou nos labios de Julia, por entre umas crispações, que tanto podiam ser nervosas como sanguineas.

Estas mesmas palavras repetiu ella á sua amiga D. Anna Vaz, um mez depois de celebrado o casamento.

Vieram ellas de molde no seguinte dialogo:

—Diz o meu Eduardo que tu não amaste nunca meu mano Antonio.

—Ora essa! O teu Eduardo não tem senso commum! Em que funda elle essa calumnia?

—Diz que tem estudado o teu genio; que te não acha nos olhos, nem nas palavras a doçura e tom de mulher,—a meiguice que elle chama feminilidade. Disse{156} mais que tens uns ares varonís, e umas attitudes fortes, inflexiveis e refractarias á ternura.

Julia soltou uma cascalhada de riso, exclamando entre froixos de tosse:

—Teu marido é admiravel! Não tem graça, mas faz-me rir! Com que então tenho ares varonís! Espera talvez que eu, se os francezes voltarem a Portugal, vista a armadura da donzella de Orleans para salvar a patria! Desconfia provavelmente que eu trago na algibeira do vestido a faca de Carlota Corday! Ai, filha, dize-lhe que não! Assevera-lhe que eu dou um grito pavoroso quando vejo uma carocha...—Continuou a casquinar e a dizer:—Estas más qualidades do sexo forte em que m'as viu elle? Nos olhos sem doçura, e nas palavras... sem quê? Não te lembras?... Ah! sem tom de mulher. Olha que injustiça, ó Annica! O timbre da minha voz é feio de fino que é; e os meus olhos, na opinião da gente que me faz favor de olhar para mim, são tristes e ternos. Não sei quem foi que me chamou antilopa de olhos scismadores... Ainda hontem ao Venceslau Taveira ouvi que nos meus olhos brilhava uma congelação de lagrimas. Vê tu, meu amor, que opiniões tão oppostas!

—Ai! a proposito... Sabes o que Eduardo me disse, Lulu?

—Que o Taveira me fazia a côrte?

—Isso... como adivinhas tu, feiticeira?—perguntou D. Anna maravilhada.

—Como adivinho eu!... Isto não é feitiçaria, é raciocinio.{157} Elle que diz que eu não posso amar, é porque sabe que os meus pretendentes indefiridos são muitos. Ora, sendo Taveira o unico sugeito com quem fallo na presença de teu marido, este ha de ser por força o meu namorador rejeitado...

—Mas elle ama-te decerto?—contraveiu D. Anna Pimenta.

—Ó menina, a pergunta é seria?

—É, Lulu... Quem me déra vêr-te casada e tão feliz como eu sou!...

—És realmente feliz?...

—Porque duvídas?!

—Isto não é duvidar, minha filha... é o vivo jubilo que sinto quando me repetes todos os dias que o teu Eduardo é o ente digno de ti. Queres tu saber? Teu pae estava hontem triste e só na sala, quando eu entrei: Perguntei-lhe que tinha... e elle...

—Ah! eu te digo... O Eduardo lembrou-se de dar um baile para festejar os meus annos. O papá observou-lhe que os annos de uma pessoa querida festejavam-se em familia, e que o prazer de festas vaidosas e estrondosas era cerceado pela canceira de quem dava bailes em que os divertidos eram os de fóra. Eduardo ficou descontente; mas não respondeu. O que elle particularmente me disse não o soube o pae.

—Que foi?...

—Desculpa-me, Lulu... não t'o digo... prometti segredo...

—Desculpa-me tu a curiosidade, minha querida{158} amiga. Foi uma inadvertencia que a tua amisade me releva... Mas então não me illudi... A tristeza do teu papá tinha relação comtigo; e por isso insisti em perguntar se...

—Mas—atalhou a filha do commendador—ias contar-me a respeito do Venceslau...

—Ah! sim... O Venceslau é um rapaz que merece ser admirado. É serio e melancolico. Tem certa graça contrafeita no rir, quando se alegra por condescender. Em outro homem, cuidaria eu que a sua grave compostura e madureza intempestiva é artificio. N'elle, não. Eu sei o que é... A sua paixão é a politica; os seus namoros são os livros; a sua noiva é a Liberdade; e o seu céo ou inferno é a gloria. Homens assim não amam mulheres feminís nem mulheres varonís; podes dizer isto ao teu Eduardo. Dize-lhe mais que eu não repellí a declaração do Taveira. Ainda lhe não ouvi palavra que me assuste nem lisongeie...

—Mas se elle te dissesse que te amava?...—inquiriu com malicioso tregeito D. Anna.—Que fazias?

—Eu sei!... Forte aperto!—respondeu ridentissima D. Julia, a deplorativa Arthemisa do defuncto emigrado.

—Ah!... entrei-te no coração, Lulu!... Cuidas que me enganas?

—Enganar-te!... Quando te menti eu, filha? Perguntaste-me se me elle amava, disse-te que não. Perguntas-me se eu o amaria... Olha, minha amiga... se eu podésse amar um homem...{159}

—Ainda agora te ouvi dizer que se elle declarasse que te amava...

—Que mais ouviste?

—As reticencias... o embaraço... aquelle eu sei!

—Sim, eu sei! Provavelmente ouvia-o com senhoril delicadeza, pedia-lhe que me deixasse pensar, e depois...

—Que dizias depois?

—Se eu ainda não pensei para responder a elle, como hei de responder a ti! Que indagadora! Se não fechassem a inquisição no anno passado, e fosses varoníl como eu, vestias a tunica dos dominicos, e ias interrogar judeus e feiticeiros!

—Vou fazer-te uma prophecia—disse solemnisando o gesto de sibylla a esposa de Eduardo.

—Vá, sóbe á cadeira, já que não temos tripode, e prophetisa de lá, na certeza de que és oraculo por tal modo transparente que eu já sei o que vaes vaticinar.

—Casarás com Venceslau Taveira!—exclamou D. Anna, alongando o braço em postura esculptural.

—Era isso mesmo. Desce o braço, propheta! podes apagar a chamma divina que te alumia o futuro, e convida-me para jantar comtigo, visto que o teu homem foi jantar com o general Sepulveda, e podemos parolar toda a tarde... Olha, não gósto d'estas deserções que faz teu marido a jantares alheios. Casado ha um mez, e jantar fóra...

—Que tem isso?

—Eu não no consentia a meu marido.{160}

—Pois sim... eu tambem não gósto; mas o papá deseja que elle se empregue, e o general Sepulveda prometteu-lhe não sei quê no commissariado. Diz o Eduardo que é preciso fazer a côrte ao general. Ora agora, tu, que tens quinhentos mil cruzados, se casasses, não consentias que teu marido fizesse a côrte aos que dispõem dos empregos. Olha, casa com o Taveira, e verás que elle janta sempre em casa...

—O Taveira? olha quem!... O Taveira jantaria comigo, se a santa Liberdade o não convidasse a comer o caldo negro dos spartanos. A politica é uma amante que supplanta as esposas. Em quanto houvesse leis que fazer e costaneiras que rabiscar para vestir a Liberdade, com trapos reduzidos a papel sujo, meu marido apenas me daria a honra de me lêr os seus artigos e discursos. Venceslau ha de ser um bom esposo, se a Liberdade morrer; mas depois tambem a mulher, que o acceitasse viuvo de tamanha deusa, corria o perigo de o ir procurar aos sertões da America, onde ha tanta liberdade, sem constituição nem hymno, que toda a gente faz o que quer e traja o mais livremente que é possivel.

N'este estylo, que denota frescura, desafogo e irrisão, proseguiu D. Julia de Miranda até á chegada do commendador. A pratica, durante o jantar, correu á conta do soberbo discurso que Venceslau proferira n'aquelle dia, captando o assombro das galerias, e consolidando a reputação de primeiro orador, em tão verdes annos. Francisco Vaz, á medida que realçava os{161} talentos do deputado, vibrava de esconso á filha uns olhares expressivos de mágoa e censura, como se quizesse d'esta sorte arguil-a de ter-se esquivado a consultar o pae na escolha do marido.

—Que brilhante futuro aguarda este rapaz!—insistiu o enthusiasta, apezar da voragem que o deputado abria para sorvedoiro das commendas rendosas.—Dizia-se ha pouco no Rocio que é bem de esperar que elle seja chamado ao governo. Que admira? Quando o talento se allia á honra, que monta a falta dos cabellos brancos! Vida immaculada com profunda sciencia combinam o grande prodigio, n'estes tempos de muito vicio com muitissima ignorancia! Ó snr.ª D. Julia, que homem aquelle quando o fogo do genio e a consciencia da justiça lhe alumiam a fronte! Tenho pena que as damas portuguezas se considerem tão alheias dos negocios publicos. Se a instrucção mulheril ou a moda levassem senhoras ao parlamento, quantas não sahiriam de lá hoje, não direi convencidas pela oração, mas apaixonadas pelo orador!...

Ao gracejo do velho respondeu D. Julia:

—É bom que as senhoras não frequentem o parlamento. Pobre deputado, se as apaixonadas o assaltassem á sahida da camara, a repucharem-no cada uma de seu lado, e elle a defender-se d'essas mulheres de Pharaó, com argumentos de irreprehensivel rhetorica! O pobre rapaz havia de julgar-se novo Orpheu dilacerado pelas donzellas da Thracia.

O commendador franziu a epiderme da testa, revelando{162} assim o desgosto que lhe causavam as demasias de sal, com que a sua hospeda, desde certo tempo, polvilhava as facecias.

—As damas portuguezas—tornou o commendador sisudamente—quando admiram os bons ingenhos não os assaltam na rua; e, se os prézam, não se desprezam a si mesmas.

—Perdão, snr. commendador,—emendou D. Julia, despeitada pela censura—eu respondi gracejando, por me parecer que V. S.ª não calculava com a maior seriedade o numero das damas apaixonadadas pelo orador. Eu tenho a honra de ser uma das leitoras, que admiram Venceslau Taveira, e já n'esta casa o ouvi improvisar luminosos discursos; porém...

—Não se apaixonou...—accudiu o velho.

—Não, senhor. As mulheres portuguezas, em geral, não têm a sensibilidade erudita que se extasia e captiva de discursos politicos. Comprehende-se que um poeta leve de poz a sua lyra mulheres, como Amphião levava pedras. A poesia é musica, e a musica, não sei onde li isto, fascina cobras e outras alimarias ferozes. Mas um discurso sobre a liberdade de imprensa e a egualdade perante a lei não seria capaz de me arrebatar grandemente.

—Desconheço-a, minha amavel senhora!... replicou o commendador, alongando os beiços, e tomando na mão um prato, cujos relevos japonezes parecia examinar em quanto fallava.—Essa linguagem, adubada de chistes e epigrammas, d'onde lhe veiu? A menina,{163} d'antes, conversava em termos ingenuos, modestos e familiares: revia candura no pensar e no dizer. Hoje, porém, e n'estes dous ultimos mezes, as suas phrases têm novidade, que me desconsola. Ouço dizer que os emigrados trouxeram de França uns livros que apagam os lumes do coração e accendem os fogos fatuos do espirito... Dar-se-ha caso que a minha Juliazinha haja lido muito?

—Leio desde os quinze annos, como V. S.ª sabe—respondeu com altiva seriedade a fidalga.—Meu pae era rapaz quando o Pombal expulsou os jesuitas e abriu as barreiras aos livros francezes. Meu pae estudou então, e mandou-me ensinar a mim o que lhe pareceu bom que eu soubesse. Li muito, durante os annos que estive inclausurada em castigo de amar seu filho. Lia para distrahir-me, e arrancar das presas da desesperação a alma que eu guardava para elle. Os livros, que li então, são os livros que hoje recordo. Dos que ultimamente vieram com os emigrados não conheço nenhum que me abraze nem que me géle. Ha todavia para mim dois optimos exemplos de que os ares que os emigrados respiraram não impestam. Bem lidos e sabios da sciencia dos francezes devem ser Eduardo e Venceslau; não obstante, elles são homens de bons costumes e excellente porte.

—São...—murmurou o commendador.—Não duvido... não devo duvidar que sejam...

E, balbuciando como se as palavras resistissem á{164} repressão da vontade, levantou-se da mesa, onde se havia demorado, concluido o jantar.

N'este acto, annunciou-se Venceslau Taveira.

D. Julia deu-lhe os emboras do seu triumpho que elle recebeu com um silencioso gesto de respeitosa gratidão.

Perguntou por Eduardo; e, como lhe dissessem que jantára com Sepulveda, a quem empenhára na sua collocação, disse:

—Eu obtive o despacho de Eduardo...

—Mas ninguem lhe tinha pedido esse favor, meu amigo!—disse com jubilosa commoção o velho.

—Não, senhor. Eduardo nada me pediu; vi na secretaria o requerimento. É bem de crêr que o ministro o attendesse; mas com as delongas usuaes. Ora, como eu melhor do que ninguem podia depôr do merecimento e probidade do meu amigo, fallei ao secretario de estado, e alcancei sem esforço que o decreto seja lavrado.

—Nobilissima alma!—exclamou o commendador, abraçando-o.

D. Anna apertou-lhe tambem a mão com vehemente agrado; e, n'este lance, disse alegremente o deputado:

—Dou-lhe os parabens, snr.ª D. Anna, porque, despachado o nosso Eduardo, não terá V. Ex.ª o desgosto de jantar sem elle. O emprego é sempre uma felicidade na vida intima, quando traz a uma esposa extremosa mais duas horas de convivencia com seu marido.

—Mas tem percalços o officio...—disse D. Julia.{165}

—Qual officio, minha senhora, o de chefe do commissariado?

—Esse ou qualquer outro que involva nas alternativas da politica o socego de Eduardo.

—D'accordo, minha senhora; mas o socego é um egoismo improprio do homem que deve ao pobre paiz o obulo da sua actividade e talentos.

—A mulher, primeiro—redarguiu a dama.

—A esposa primeiro nas prerogativas do coração—obviou Venceslau—mas nos dons do espirito a humanidade, o commum de nossos concidadãos, que constituem a patria. Eduardo Pimenta deve arrotear os maninhos em que seus filhos hão de colher as messes. Aos fundadores da familia corre maior obrigação de desaffrontar os herdeiros do seu nome dos vexames do despotismo e da ignorancia d'este paiz, para que não hajam de envergonhar-se os que nasceram n'elle...

—Vês, Anna?—disse Julia intencionalmente á sua amiga.—Não é isto que eu te dizia ha pouco?

Venceslau, olhando alternadamente para as duas senhoras, disse:

—Vê-se que eu tive a honra de ser discutido por V. Ex.as...

—Foi—tornou a fidalga das Amoreiras.—Dizia Anna Vaz que V. S.ª, se fosse casado, nunca deixaria de jantar com sua esposa; e dizia eu que a sua esposa teria de succumbir rivalisando-se com os interesses da patria.

—V. Ex.as ambas tinham razão. Se eu fosse casado,{166} deixaria de jantar com minha mulher, quando as obrigações indeclinaveis de cidadão me não deixassem jantar n'outra parte. Se esse infortunio, porém, acontecesse muito repetido, e eu deixasse de jantar alguns dias successivos, minha mulher choraria amargamente quando lhe restituissem o cadaver do marido morto de fome... no altar da patria.

Riram as duas senhoras da facecia expressada com seriedade despretenciosa; mas o commendador que entreviu no dizer engraçado uma indirecta censura ao genro, murmurou:

—Democrito dizia eternas verdades, rindo.

—Não me dê foros de philosopho, meu bom amigo—volveu o deputado, atinando com o intuito do velho.—Verdade é que, se a philosophia é ou foi officio de gente mal enroupada e mal alimentada, eu, pelo que toca ao alimento, estou a ponto de professar o stoicismo dos famintos mais celebres da Grecia e Roma. São seis horas e não jantei ainda. Recebo as ordens de V. Ex.as

—Se recebe as nossas ordens—disse D. Julia—ámanhã irá jantar comnosco á sua casa das Amoreiras.

—Beijo as mãos de V. Ex.ª por tamanha honra...

—Mas se a patria o impedir?—tornou ella.

—É vão o receio, minha querida senhora. A patria por em quanto janta, e deixa jantar os seus filhos. Não se trata de lhe matar a fome; da indigestão de lautos banquetes é que eu e outros mezinheiros a queremos curar.{167}

XIV

Cuida que as namora todas.

SA DE MIRANDA.Egloga.

Desde que o desembargador do paço Paulo Henrique Henriques de Miranda fallecera, os candelabros e serpentinas nunca mais illuminaram as salas luxuosamente estofadas com as alfaias dos Tavoras. A herdeira, porque vivia magoada e era só, esquivou-se a receber as antigas relações de seu pae, e até dos proprios parentes se desonerou, não pagando visitas além das cerimoniosas. Poucas horas do dia demorava na sombria casa; e o restante d'ellas e o mais da noute eram de Anna Vaz e do commendador que ella considerava sua familia.

O capellão, padre instruido, que devia ordenação e bens de fortuna ao desembargador Paulo, muito tempo lidou com D. Julia, instando-a a casar-se, a fim de repôr aquella casa no esplendor antigo, aviventar as salas{168} desertas, dar vozes áquelles corredores funebres, e crear os netos do illustre desembargador, cujos parentes lateraes elle desadorava por immensamente brutos. «Se esta casa—dizia quasi iracundo o padre Manoel Ferreira—resvalava aos grandes abysmos de ignorancia em que jazem seus primos, receio bem, fidalga, que seu pae a maltratasse no céo, embora V. Ex.ª lá subisse virgem, e, de mais a mais, martyr das suas quimeras. Caze-se, minha senhora! caze-se!»

D. Julia galhofava com o capellão, e dizia-lhe:

—Não se afflija, padre Manoel, que eu hei de casar. Vá pensando no noivo, que eu faço o mesmo. Que seja galante, gentil, poeta... ouviu?

—Poeta!—resmuneava o clerigo com reprovativo esgar.—V. Ex.ª não sabe o que são poetas em Portugal? Aqui não ha Horacios nem Racines, nem Virgilios nem Delillos, honrados pelas musas, e coevos dos grandes reis na immortalidade. Cá, os poetas são os ebrios do café das Parras e do Nicola do Rocio. É o ex-frade corruptissimo Macedo, era o virulento Bocage, é o safadissimo histrião José Daniel, e quem mais? Poetas!... Poeta era o snr. desembargador do paço, a quem o meu amigo Francisco Manoel do Nascimento mandou lá do desterro odes puro horacianas em resposta d'outras; pois saiba, exc.ma snr.ª, que seu pae, sendo poeta que não invejava Garção, nunca admittiu ás suas salas esses poetastros, que por ahi ornejam a trocar sonetos magros pelas sopas gordas d'uns Mecenas dignos d'elles. Olhe-me o Tolentino... aquelle pedintão...{169}

—Está bom, padre Manoel!—suspendia D. Julia—não me leccione a historia dos poetas que detesta; mas escolha-me um que faça odes como Horacio, e Georgicas como o seu Virgilio: ache-m'o que eu prometto devorciar-me d'elle se me obrigar a ouvir-lhe os poemas.

O bom do padre, a rir e a tabaquear, citava alguns versos latinos, já quando a fidalga ía longe do supplicio de ouvir-lh'os.

Isto veiu ao ponto de se dizer agora que o capellão se alegrou devéras quando viu sentados á mesa grande—que estivera devoluta no lapso de nove annos,—o commendador Vaz, sua filha, o genro, e, sobre todos lhe dava prazer infinito, Venceslau Taveira, o moço em quem elle venerava virtudes sem alardo e conhecimentos ponderosos da latinidade classica.

Ao primeiro convite seguiram-se outros para banquetes em que reverberavam a baixela antiga, os cristaes da Saxonia, as louças indiaticas, a opulencia dos Henriques de Miranda, herdadas d'um celebrado avô, ministro e valido, que tão funesta e deshonestamente privára com Affonso VI.

Venceslau Taveira, constrangido pela urbanidade, concorria ás festas da sumptuosa dama.

Aos jantares lautos seguiram-se os bailes; onde a nobreza ostentava aos olhos reflexivos do deputado a incuria desleixada do seu porvir, a serodia soberba da stirpe,—o tronco secular corroido pela ignorancia, com{170} alguma folhagem nas vergonteas ressequidas pelo sol ardente dos novos tempos.

Não contribuia Venceslau com a sua parte de contentamento para os prazeres da liberal hospedeira. Se ella o buscava entre os que jogavam, dançavam ou zumbiam amoriscados á volta das colmeias, não o via. Perguntava a Eduardo se o seu amigo lhe teria sido levado de casa pela mãe patria. Ia o marido de D. Anna em demanda do philosopho, e encontrava-o na bibliotheca e mais o padre Manoel Ferreira folheando um Tibullo de 1465, commentado por Vulpus, ou quejando estafermo embalado no berço da arte typographica.

Reconduzido ás salas, Taveira esforçava-se por aquinhoar da alegria contagiosa dos outros, e, á força de fingir-se alegre, simulava um provinciano emparvecido na contemplação dos collos despeitorados, das espaduas brancas como as faces destingidas de rubente pejo, dos minuetes mais ridiculos que lascivos, da refinação assucarada dos colloquios, e do ar, nem sempre fragrante de todas aquellas vaporações de flores desbotadas e de epidermes escandecidas.

Mas a cortezia era inefficaz a violental-o. Assim que os olhos da fidalga o desfitavam, elle ahi ia á sala onde alguns magistrados anciãos satyrisavam os máos costumes da geração nova, não levando em conta que a geração arguida era a dos seus filhos, educados por elles. Venceslau tractava-os com veneração, cedia-lhes a vantagem nos debates politicos, e captivava d'esta arte a estima dos mais testudos absolutistas.{171}

Quem o seguia sempre com admiração e amisade era padre Manoel, para quem o reboliço dos bailes já seria intoleravel, se Venceslau Taveira, de vontade ou sem ella, os não frequentasse. E, ao mesmo tempo que este affecto entranhado lhe deliciava as noites mal dormidas, uma paixão inversa o inquietava. O capellão aborrecia Eduardo Pimenta, em tanto extremo que o malsinava de ignorante, de vaidoso da sua profissão de petimetre, de bonifrate sem proposito de marido, olhando para todas as damas com tregeitos e galanices de piza-verdes, cacarejando uns dizeres improprios de homem casado, e apenas perdoaveis aos que andam de amoríos com quantas levianas fazem barato das suas finezas. Esta censura não era elle homem que a calasse comsigo. Sempre que lhe cahia a talho, desembuchava as azías do animo nos ouvidos de D. Julia, que lh'as ouvia indulgente por saber que o padre derivava sempre a objurgatoria em louvor de Venceslau Taveira.

A opinião do clerigo era n'alguns pontos injusta. O genro do commendador, se não ia á bibliotheca pasmar-se nas edições quinhentistas, e antes se queria nas salas a extasiar-se na nitidez dos typos do seculo XIX—era iniquidade acoimal-o de ignorante. Estylo, fórma, geito dramatico, attitudes ao romantico, verbo e nervo como á moderna se diz, isso tinha elle, como raros do seu tempo. E a menos valiosa d'estas qualidades bastaria, nas salas, a sobrepujal-o ao seu amigo Venceslau, o misantropo, que entre as Thais e as Dydimas de Lisboa era importuno decerto com as suas, ainda bem que{172} silenciosas, austeridades de Timão atheniense. Que o chefe do commissariado andasse galanteando as damas dos bailes de D. Julia é menos verdadeiro. O capellão, a tal respeito, sabia menos que a dona da casa. Se alguem podia queixar-se era ella.

Mas não se queixava.

O silencio, nas mulheres dignas, quando a impertinencia da paixão immoral as ultraja, é virtude superior. As que medem a grandeza dos dissabores que resultam de repudiarem á vista de testemunhas as finezas d'um homem desvairado, mantêm-se honradamente affectando que o não percebem em publico, e defendendo-se em particular com o desprezo.

Pouco mais ou menos era assim que D. Julia de Miranda procedia com Eduardo Pimenta.

Devia de ser, todavia, descommunal o sentimento que esporeára o marido da formosa Anna, tres mezes depois de casado, a entremetter nas paginas de um livro, que Julia andava lendo, uma carta phraseada a sabor de lagrimas, as mais commoventes que podem sahir de peito ferido pelo primeiro amor!

O immediato pensamento que assaltou Julia foi retirar-se a uma das suas quintas no Alto Minho; mas semelhante fuga, sem causa justificativa na sociedade que a cortejava, pareceu-lhe covardia, ao mesmo tempo que o temerario galan teria motivo a lisongear-se do expediente, reputando-o vacillação.

Não fugiu. Fechou a carta, lacrou-a, enviou-a á repartição em que Eduardo era certo em determinadas{173} horas. Elle abriu, releu-a de espaço, e quando chegou ao fim, encontrou duas linhas de pulso estranho que rezavam assim: Não lerei outra; mas, se ella vier, pedirei á minha amiga D. Anna Pimenta que m'a leia.

Ao outro dia a fidalga foi jantar com o commendador: ia alegre, contentissima de seu nobre feito. Máo agouro! Mulher que, em lances analogos, crê praticar um heroismo, e d'isso se compraz em sua consciencia, ha de faltar-lhe o folego para subir muitos degráos na escada da virtude.

Eduardo assistiu melancolico ao jantar, e respondeu friamente ás caricias da esposa. O commendador olhava-o de esconso, e fitava olhos piedosos na filha assustada. Julia fingia-se despreoccupada; e, a seu pezar, mais que nunca, n'aquelle dia, se recolheu n'uma concentração desacostumada.

A noite d'este dia passou vagarosa e triste. Não obstante, as assembleias aos domingos continuaram no palacio das Amoreiras.

Eduardo Pimenta, desatinado ou precavido, fez praça de namorado a varias senhoras, que lhe não estremaram os galanteios das attenções e obsequiosas lisonjas, como era de esperar d'um cavalheiro amestrado na polidez estrangeira. Á excepção de uma ou duas, ou talvez tres, menos conscias da cortezia parisiense, e portanto portuguezas da lei antiga n'isto de amar quem as amava, as restantes senhoras, se deram suspeitas a padre Manoel Ferreira, sahiram impollutas. D. Anna, porém, affligia-se secretamente dos modos cortezãos do{174} marido, porque não via tão azougados os moços solteiros á volta das mulheres e reparava nos sorrisos que ellas entre si trocavam, ao passo que a olhavam de travez lastimando-a ou escarnecendo-a.

Neste desatino do homem preponderava o estulto despique do amor despeitado. Beliscar a vaidade de Julia, melindrar-lhe o amor proprio, irrital-a, dar-lhe a certeza de que outras mulheres mais viçosas e não menos fidalgas o não desdenhavam: tal era a manha trivial do sugeito. Julia, por sua parte, dissimulava o azedume que lhe fazia aquelle vil artificio em sua propria casa, e dizia muitas vezes á sua consciencia que todo o seu despeito era isso, e de modo nenhum o orgulho de ser comparada. Como quer que fosse, e por mais protestos que fizesse de si para comsigo, é certo que ella, relampagueando olhares severos a uma ou outra condessa, que reclinava a face languida ao hombro de Eduardo, segredava á sua amiga a baixa conta em que tinha a moralidade das suas parentas. Depois, repêza da inconsiderada confidencia, affligia-se, desmentia-se, pedia á esposa de Eduardo que não desse valor aos sustos proprios da amisade; e occultasse do marido as suspeitas que lhe ella infundia por excesso de zelo, e receio de dissabores domesticos.

Que desconchavadas incongruencias!

Estas torvações de entendimento precedem a cegueira da alma, á semelhança d'aquelles pontos escuros que se enredam e prenunciam a cegueira dos olhos. A medicina chama a estes prodromos da amorose «moscas»:{175} a linguagem do povo diz que as nevoas da vista da alma, em crise de cegar, são «peneiras».

D. Julia de Miranda, um dia, desceu a luz da razão aos arcanos da sua alma. Córou de si; retranziu-se de pejo; porque vira passar diante da dignidade abatida, a imagem soberba de Eduardo, e não podéra odial-o.

Desde esta hora, a amiga de Anna Vaz meditou na salvação da sua honra já denegrida. D'esta vez o alvitre da fuga cedeu o passo a outro mais sereno e estavel. Pensou em casar-se, pensou em amar, em transferir o seu coração a peito alheio que lh'o defendesse das injurias d'uma paixão ignominiosa. Louvavel deliberação!

Padre Manoel Ferreira viu a fidalga melancolicamente reconcentrada, e, com instancias repetidas, arrancou-lhe estas palavras que ella exclamava pela terceira vez:

—Se eu podesse amar um homem!{176}
{177}