XV
Flor la vimos primero, hermosa y pura,
Luego....FRANCISCO DE RIOJA.—Epist. moral.
—O homem que V. Ex.ª ha de amar—disse padre Manoel, inculcando-se inspirado de cima, e accentuando de pausas solemnes as syllabas da prophecia—o homem que V. Ex.ª ha de amar é o mais digno de ser amado: chama-se Venceslau Taveira.
Era a segunda vez que D. Julia ouvira e adivinhára tal presagio; uma, quando os labios de Anna se entreabriram ao interno ephta de illuminada; outra, quando o padre, carregando os dedos de rapé, e silvando chromaticamente a pitada, espiritava no cerebro a previdencia dos matrimonios acertados. E como a fidalga o escutasse silenciosa, sem levantar olhos do recosto da cadeira, onde apoiava o cotovêllo, o capellão proseguiu:
—Minha senhora, vou dar-lhe conta da missão de que V. Ex.ª me não encarregou...
—Que missão!?—perguntou ella, erguendo o rosto.{178}
—Circumvagando eu os olhos por quantos cavalheiros, ha tres mezes, frequentam esta casa—respondeu o padre compassando as vozes—e, procurando, entre tantos, um que merecesse ser o esposo da filha do snr. desembargador Paulo Henrique, encontrei-o. E porisso que ás perecedouras riquezas da fortuna cega não quiz Deus ajuntar sempre as riquezas immortaes da virtude, acontece que o homem mais digno de V. Ex.ª, seja o mais pobre que vem a esta casa.
—Bem...—atalhou D. Julia—; mas deixe-me interrompel-o com uma observação que devia anteceder o seu cuidado de me procurar marido. O snr. padre Manoel não devia escolher entre as pessoas que vem a minha casa; mas sim entre as pessoas que me tivessem dado signaes do seu amor. Venceslau Taveira é homem de quem nunca ouvi palavra mais affectuosa do que é costume dizer-se ás pessoas que se respeitam ou simplesmente se estimam. O snr. padre Manoel sabe que elle, n'esta casa, o que mais conhece é a livraria; e em quanto á volta de mim ou do meu patrimonio se dispendem as lisonjas, está o sabio a lêr os amores dos poetas latinos. Estou convencida ha muito da honradez de Venceslau. Estou até em crêr que a sua indifferença não seja orgulho do talento. Convenho na distincção que o snr. padre Manoel lhe dá; mas não são essas qualidades as que promettem um bom marido. A mulher, que se casa, aprecia a sciencia e a virtude do esposo; mas, além de tudo isso, deseja ser amada. Quem lhe disse que Venceslau me ama? foi elle?{179}
—Não, minha senhora.
—Ora ahi está!... Que quer então, padre Manoel? Que eu vá pedir-lhe o obsequio de me conceder o seu amor?
—Eu ainda não disse a V. Ex.ª a minha missão—replicou o padre.—Se dá licença...
—Diga então.
—Ha muitos dias que eu andava sondando o espirito de Venceslau a respeito de V. Ex.ª
—O espirito ou o coração?
—Deixemo-nos d'essas distincções romanescas, minha senhora! O coração é um orgão do apparelho do sangue. O espirito ou alma é o motor das nossas cogitações. Não estou fallando poetica nem rhetoricamente. Se eu quizesse dizer que procurava aneurismas ou outras irregularidades de circulação, diria que sondei o coração de Venceslau; mas, se o meu intuito era indagar actos puramente moraes, digo que lhe sondei o espirito.
—Está bom: fico sciente. Ora conte lá o que sondou.
—Sondei que elle sentia por V. Ex.ª profunda estima, e aquelle grande respeito que se deve a uma dama bella, nova, rica, e sobre tudo honradora da memoria do primeiro e unico homem que amou. Dizendo-lhe eu que não cessava de instar com V. Ex.ª para que tomasse estado, advertiu-me elle que seria difficil o meu desejo, porque a fidalga não poderia amar alguem, depois de ter amado Antonio Vaz, que Deus tem. Tornei eu, redarguindo-lhe que Antonio Vaz, ao sahir d'este{180} mundo, lhe entregára o retrato da sua adorada noiva, por ser elle—o confidente de tantas angustias e saudades—alma digna de receber as lagrimas do amigo que morria, e as de V. Ex.ª que o ficava carpindo. Logo, conclui eu, se ha homem digno de ser amado pela snr.ª D. Julia, minha senhora, é aquelle que Antonio Vaz julgou digno das suas confidencias e da mensagem do moribundo para a sua amada.
—Que disse elle?...—interrompeu a curiosa vivacidade da senhora.
—Disse que V. Ex.ª o honrava com a sua amisade, e que este sentimento era o maximo galardão que elle devia esperar da fraternal cordialidade com que aliviára algumas mágoas de Antonio Vaz.
—Isso é amor?
—Queira V. Ex.ª esperar... Passados alguns dias, chamei a pratica ao mesmo assumpto; e, quando elle menos esperava, perguntei-lhe ex-abrupto: «Se a snr.ª D. Julia escolhesse para esposo o snr. Venceslau Taveira?» Elle poz-me os olhos espantados, e tartamudeou esta resposta: «O snr. padre Manoel Ferreira tem illusões proprias de quem as não gastou em desenganos.»—Que quer isso dizer?—voltei eu bastante esperançado n'uma resposta que me servisse de itenerario n'esta peregrinação até ao arco do altar.—«Quer dizer (respondeu o modestissimo moço) que a snr.ª D. Julia de Miranda tem quinhentos mil cruzados; tem provavelmente adoradores que façam consistir toda a sua actividade em adoral-a; tem a alma preza á saudade de{181} outra que alguma vez a visita e enlucta em meio das pompas dos seus bailes. Um homem pobre—continuou elle—circumscripto aos deveres que contrahiu com a patria, sujeito a perseguições d'odios politicos, ameaçado com o desterro, e até com a morte no campo da batalha ou no patibulo, tal homem seria o involuntario algoz da felicidade d'uma senhora que o acceitasse para os gosos da vida intima, cercada por tantos perigos.» Dito isto, Venceslau foi procurado por ordem de V. Ex.ª, que o mandava chamar á sala, para o apresentar a seu tio o snr. conde de Villa-Cova. Eu segui-o, e espionei-lhe os olhos n'aquella noite. E que vi eu com interior satisfação, minha senhora? que elle andava por entre os reposteiros a contemplar V. Ex.ª, e que, ás vezes, se se affastava para a sala dos retratos, era para estar só, mergulhado em funda meditação. Eis-aqui, exc.ma snr.ª, o que ha passado. Digne-se agora dizer-me se eu tenho precisão de lh'o ouvir confessar, para saber que elle a ama?!
—Precisa—respondeu ella prompta e serenamente.
—Preciso? Perguntar-lh'o-hei.
—Não pergunte. O padre Manoel tracta isto de casamentos pelo systema antigo da Biblia. O patriarcha mandava recado á matriarcha; e, quadrando a resposta, casavam.
—O povo de Deus era assim.
—Concordo; mas a gente, de hoje em dia, não...
—Não é de Deus?—atalhou o padre.
—Estou que é; mas Deus é que não manda o seu{182} divino espirito presidir aos casamentos da freguezia dos Martyres ou de Santa Justa.
—Ah! não se me faça espirito-forte, fidalga!—exclamou sombriamente o padre.—Aquelles livros de seu pae... aquelles livros de Rousseau... a Encyclopedia... etc., etc!... Olhe que Venceslau, posto que sapientissimo e sectario da liberdade, e lido em tudo que o seculo XVIII escreveu contra Deus, entra nos templos, ajoelha, ora, e crê que a alma de sua mãe lhe radía de sua luz celestial nas escuras veredas da vida!...
—E eu então sou atheista? Não creio em Deus, porque entendo que não é bonito ir o meu capellão perguntar a um sugeito se elle me ama? Ah padre, padre! a sua intelligencia tem ás vezes uns eclipses que nem por isso o tornam comparavel ao sol...—disse ella rindo com o consenso do clerigo que tambem escancarou as mandibulas em sincera gargalhada.
E, no tocante a casamento nada mais tractaram, porque D. Anna Pimenta vinha desde a sala de espera chamando Julia acceleradamente.
—Que é, filha!!—exclamou a amiga, indo recebêl-a nos braços.
—Manda embora o capellão—disse-lhe ella ao ouvido.
O padre retirou-se antes de avisado, porque viu grande afflicção no rosto de D. Anna.
A esposa de Eduardo, trémula, offegante, e incendida de febril anciedade, disse entre soluços:
—Olha que venho afflictissima... Deixa-me respirar...{183} Depois que Eduardo sahiu, fui á escrivaninha d'elle, e achei, pela primeira vez, uma gaveta fechada. Como ando muito suspeitosa de que elle corteja a tua prima Nazareth, desconfiei que n'aquella gaveta devia estar alguma carta d'ella...
D. Julia empallideceu. Arfava-lhe o coração, com o terror de ter sido encontrada a carta que ella devolvera, com duas linhas de sua lettra; e, posto que a justificação lhe sahisse facil e digna, a sua posição em tal conflicto era má.
D. Anna desattenta ao gesto denunciativo da amiga, proseguiu:
—Procurei uma chave que servisse, e achei-a. Abri a tremer a gaveta, e vi estas tres folhas de papel, dobradas em carta, mas sem sobrescripto. Li-as, e fiquei certa de que Eduardo está ardentemente apaixonado por uma mulher quem quer que seja... Lê tu, vê se podes adivinhar a quem essa carta é escripta; mas lê depressa, que eu quero ir repôl-a na gaveta antes que Eduardo venha da repartição.
Julia, com tremente voz, leu a carta. Logo no primeiro periodo se lhe acclarou o destino, por estas palavras: Se V. Ex.ª cumprir a ameaça que me escreve—se me denunciar, fará duas victimas. Mata uma innocente, e ordena ao criminoso que se suicide: será obedecida.
—Que quererá isso dizer?!—perguntou Anna.—Quem será essa innocente e esse criminoso?... E que ameaça lhe faria a tal mulher?... Podes decifrar isso?
—Eu não, filha... Que mysterio!...—balbuciou{184} Julia. E continuou lendo, e relançando a furto os olhos em toda a extensão da lauda, buscando perturbada alguma inicial que a denunciasse.
O conteudo da longa carta era vago, declamatorio, tiradas funebres de prosa campanuda com muito lardo poetico de céos, infernos, furias, anjos precitos, archanjos da morte, calices de fel, esponjas de vinagre, golgothas, estrangulação de suicida, almas devastadas, arestas d'abysmos, e o mais que cabe nas cavernas lôbregas d'um peito romantico, onde uma vez entraram as novellas de Anna Radcliffe.
Lida a carta, Julia suspirou desafogadamente o seu sobresalto, e disse enternecida:
—E tu que fazes agora, filha?
—Que hei de eu fazer?! nada...
—Então vaes fechar a carta onde a encontraste?
—Vou...
—E não dizes nada a teu marido?
—Acho que não... porque, se lh'o digo, ha desordem grande em casa, e meu pobre pae morre de paixão. Tu não vês como elle já está soffrendo só de me vêr triste, e de o vêr a elle tão descuidado de nós?...
—Nem a teu pae dizes nada?...
—Deus me livre!... Se elle via esta carta, estalava de dôr...
—Tu és uma sancta!—exclamou D. Julia, abraçando-a arrebatadamente.
—O que eu sou é uma grande desgraçada!—emendou Anna.—Que me dizes então, Lulu?{185}
—Que queres que te diga, se o teu plano está feito? Quem a si mesma se aconselha com tanta dignidade, não tem necessidade de conselho.
—O que eu queria era que tu descobrisses quem é a mulher; e, se ella fosse tua relação, a expulsasses d'esta casa, ou me não convidasses a mim...
—Dizes-me isso tão desabridamente, filha! Não te convidar a ti!...
—Digo-t'o com amargura, mas sem desabrimento, minha amiga. Que gosto posso eu ter em vir a uma casa onde sei que ha uma mulher que me escarnece...
—Bem vês, menina, que a mulher a quem esta carta foi escripta não póde escarnecer-te... Não vês que ella despreza teu marido!
—Sim? despreza?
—Pois que diz essa carta? É um desesperado queixume contra a mulher que o repelliu. Tomáras tu, meu amor, que todas assim procedessem, quando elle as requestar...
—Tens razão, Julia! tens razão! Olha que eu nem tive socego de espirito para entender a carta... Olha, vou mais contente... Póde ser que elle a esqueça... Mas esta carta assim apaixonada, se ella vem a recebel-a, talvez que...
—O ame?
—Sim...
—Não, filha, não receies. A mulher de coração ama sem este mixtiforio de maravalhas, e a mulher de intelligencia zomba d'estes estrondos de palavras. Sabes tu{186} outra coisa? Teu marido leu maus romances, e principia a escrevel-os peores. Deixa-o sangrar a veia do genio que não vá morrer apopletico. Não faças caso d'isso... Ai! já me esquecia!... Não te vás sem uma novidade...
—Que é?
—Vou casar-me.
—Sim? com...
—Com o teu vaticinado. Adivinhaste.
—Venceslau?
—Sim.
—Não t'o disse eu?!... Mas ainda hontem estiveste comigo á noite, e nada me disseste!
—Resolução tomada hoje.
—Veiu cá elle?
—Não... Eu te contarei tudo... Vae praticar a heroica virtude de fechar a carta, que não esteja eu a privar-te da benção de tua santa mãe... Adeus, até á noite.{187}
XVI
Melius est pubere, quàm uri.
Melhor é cazar-se do que queimar-se.S. PAULO.
Seguidamente procurou D. Julia o capellão no seu escriptorio e disse-lhe:
—Snr. padre Manoel, mande sahir a traquitana, e vá á camara dos deputados convidar o snr. Venceslau Taveira a jantar hoje comigo. Peço á sua probidade nunca desmentida que lhe não diga a conversação que tivemos.
—Que tem V. Ex.ª? o seu espirito está desasocegado!—notou o padre com a mágoa do muito que lhe doía vêl-a estranhamente agitada.
—Vá! não me pergunte nada agora... Eu me confessarei á sua boa alma, quando me sentir mais tranquilla.
—Bem sei...—murmurou o padre—bem sei...{188}
E ella, fixando-o maviosamente parecia dizer: «se sabe...»
A improvisa deliberação de Julia é lance que nos revela indole generosa, mas precipitada; alma capaz de virtudes impetuosas, mas raras vezes encaminhadas á direita vereda por onde ellas conduzem á felicidade estavel. Convém saber que ha logica de ferro, pauta rigorosa nos actos encadeados da vida estreme de romance. As phantasias energicas e destemperadas que partem aquella cadeia, conhecem mais tarde que os élos quebrados eram a parte mais solida por onde a esperança devia prender-se á realidade.
De prompto occorre á sizuda leitora d'este livro que D. Julia resolveu repentinamente casar, quando a sua amiga lhe pedia conselho—a ella, unica pessoa que sabia o segredo da paixão de seu marido. Affastal-o de repellão, fulminar-lhe as esperanças, defender-se do ultraje com a respeitabilidade de esposa, e esposa de Venceslau Taveira—o amigo e bemfeitor de Eduardo—este foi o sentimento elevado que a impulsou a decidir do seu destino, como se os destinos impendessem d'estas determinações instantaneas. Foi um relampago que lhe allumiou o futuro; mas, se o fulgor electrico abrange dilatada circumferencia, densa escuridade se tece depois aos que apalpam rochas áridas que a luz azulejára como kioskes.
De mais d'isso, o reverso da ideia irreflectida não offerece contraste que a desdoira, sendo parte n'ella a vaidade, por não dizer soberba? Dispor de antemão da{189} condescendencia de homem tal como Venceslau, era fiar talvez de mais no iman dos seus quinhentos mil cruzados, ou illudir-se muito com a já desluzida belleza dos seus vinte e nove annos, ou então enlaçar presumpçosamente essas duas prendas ás graças do espirito que, em verdade, lhe davam a primazia entre as suas contemporaneas.
Se o padre Manoel, syndico do animo do deputado, se houvesse illudido nas suas analyses; se Venceslau nos sahir mais austero philosopho que o divino Socrates—para quem Aspazia e Lais eram espectaculos dignos da admiração do universo—a vaidade de Julia será derrotada irrisoriamente aos olhos de Eduardo; e o cahir de tamanha altura, onde ella se fantasiou alçada pela honra, dará o estrondo d'um escandalo ridiculo nas salas de Lisboa.
Antes da chegada de Venceslau Taveira já a tortura da incerteza flagelava D. Julia de Miranda, a ponto de sentir-se desvigorosa de espiritos para honestamente abrir conferencia de tanto melindre.
N'este desanimo dessimulado pela viveza propria do temperamento, a encontraram o deputado e o clerigo.
No semblante de Venceslau transparecia tambem a turvação das conjecturas. Aquelle convite era o primeiro, particularissimo, e subitamente resolvido. Até aqui havia chegado a confidencia do padre, cujo contentamento extraordinario devia ter mysteriosa significação nas perplexidades do convidado.{190}
Observou o hospede que D. Julia, a só com elle, denotava acanhamento desacostumado. A conversação esfriava no trivial. A politica era chamada á pratica, por ella mesma que tantas vezes a matraqueára, pedindo ao orador que deixasse a noiva em casa a fazer leis, quando lhe désse a honra de a visitar.
Quando um criado entrou á sala a saber se a fidalga mandava servir o jantar, D. Julia deu o braço a Venceslau Taveira, e foi dizendo:
—Somos sós, e mais o capellão. Ainda bem que na pessoa de padre Manoel Ferreira está symbolisada toda a academia real das sciencias. Eu concedo que fallem latim, e convidem para a meza todos os classicos romanos da minha livraria. Sinto não ter um triclinio para offerecer a Horacio; mas sentar-se-ha no collo do padre. Cicero, se vier; irá para o collo do snr. Taveira.
—Convidaremos Corinna, para que V. Exc.ª tenha alguem no regaço, disse o deputado.
O capellão, que já os estava esperando, ouviu a fineza do politico, e acudiu logo:
—Fallam da infiel amante de Ovidio?
—Não, senhor—disse Venceslau—fallavamos da poetisa grega...
—Rival de Pindaro—ajuntou o padre—a qual cinco vezes foi premiada nos jogos olympicos...
—Primeiro discurso academico!—atalhou D. Julia.—Não lh'o disse eu, snr. Taveira? Padre Manoel, continue, que eu sirvo-o de sôpa, se o snr. Venceslau não quizer acceitar o meu logar.{191}
—Ó minha senhora, apresso-me a receber tamanha honra...—disse Taveira.
—Gosto de o vêr ahi, snr. futuro secretario de estado...—disse o capellão.—Está na cadeira do snr. desembargador do paço Paulo Henrique. Nove annos esteve empacotada; e, tirante a snr.ª D. Julia, ninguem mais occupou essa cadeira. Não ha ainda quarenta e oito horas que eu perguntei a S. Ex.ª: «quando verei alli sentado seu marido?»
D. Julia córou, e o deputado tambem; mas padre Manoel, que não córava nos banquetes sem poder explicar o pudor com a alcoolisação do seu rico sangue, continuou:
—Voltando a Corinna, se viessem fallando da celebre amada do desterrado do Ponto, citar-lhes-hia a canção do banquete em que o poeta lhe impropéra a perfidia...
—Má iguaria nos banqueteava, padre Manoel!—contraveiu D. Julia.—Antes uma canção de amor fiel, quando a censura do crime não tem auditorio a quem possa aproveitar. Eu fico pela lealdade do snr. Venceslau aos seus mais caros affectos...
—E eu serei o fiador de V. Ex.ª—acudiu o deputado—mas se eu abono a lealdade de quem ama uma saudade, V. Ex.ª fica pelo vago amor de quem namora uma esperança. A favor da snr.ª D. Julia está o passado que funda em provas incontestaveis; eu, de mim, não posso consentir que V. Ex.ª me abone, sendo coisa tão incerta o futuro.{192}
—Eu referia-me ao seu amor privativo da patria—explicou a dama.
—A patria é como aquelle pão de que o homem não póde unicamente alimentar-se, na phrase do Evangelho—retorquiu Venceslau.—Varias vezes V. Ex.ª e a snr.ª D. Anna Vaz, motejando com bondosa graça a diligente assiduidade com que tento cumprir meus deveres, me tem dado fóros de selvagem desconversavel e alheio da lei commum do amor, que tanto influe no sybarita como no estoico. O gracejo era uma lisonja, visto que eu merecia as amaveis censuras de SS. Ex.as, mas, em verdade, minha senhora, se eu me vangloriasse de ser o que as minhas amigas imaginam, tarde ou cedo as faria rir da minha enfatuada insensibilidade.
—Pois quê?!—exclamou o padre—snr. Taveira, bebo á sua saude. Nunc est bibendum. Gósto d'essa franqueza! Homo sum et nihil a me alienum, etc.
—Estamos em casa de Mecenas—disse, sorrindo, D. Julia.—Entrou Horacio, e lá está a discretear com o padre.
—O latim é de Terencio—illucidou o erudito—e quer dizer que o snr. Venceslau Taveira é homem como os outros... Como os outros, quero dizer, os raros que se lhe assemelham na virtude e na sabedoria, na modestia e na moral, na vida illibada e...
—Pelo amor de Deus—interrompeu o deputado.—Parece que me está dictando a necrología, snr. padre Ferreira! Não usurpe aos mortos essas hyperboles... Veja os meus defeitos para que eu me considere tambem{193} examinado nas imperfeições menores. Já não é pequeno aleijão moral o defeito de coração que me censuram...
—Pois que quer?—volveu D. Julia—como hei-de eu julgar a sua indifferença em meio de tantas damas formosas e espirituosas que frequentam esta casa? Nenhuma o impressionou?
—Admirei-as... e passei, sem que ellas me vissem.
—Mas admirar...
—Admirar não é amar. As estatuas do Louvre admiram-se, e não se amam. A mãe que nos affaga, ama-se e não se admira. O amor brota da alma. A admiração forma-se no entendimento. Uma coisa tem muito d'arte; a outra deve ser espontaneamente natural.
—Materia estranha é essa em que não tenho voto—disse padre Manoel, engatilhando a pitada ao nariz.
—O homem do Evangelho não é o de Terencio—assentiu Venceslau.
—Mas—voltou o clerigo—posto que o Evangelho me não ensine nem consinta que eu aprenda experimentalmente o processo do amor, sei que Jesus Christo, instituindo o Sacramento que cinge com indissoluvel nó duas almas, santificou o amor que as identifica. D'este sacratissimo amor percebo eu; não se me importa saber se vem antes ou se vem depois da admiração; se é espontaneo da alma, se a alma é estimulada por affectos de natureza menos psycologica. Ha opiniões. Grammatici certant.{194}
Venceslau sorriu, sem encarar em D. Julia, que provavelmente não entendeu a phrase nem o sorriso.
E o padre seguiu n'este dizer mesurado e solemne:
—Ha de haver trinta e seis annos que o snr. doutor Paulo Henrique era solteiro e eu estudante in minoribus, já então familiar d'esta hospedeira casa, onde me fiz gente. Bem que eu fosse filho do mordomo do fidalgo, a honra de me sentar a esta mesa já vem d'esse tempo. O joven doutor folgava de me ouvir recitar versos dos poetas cezarios, e dava-me a honra de lhe ouvir os seus magnificos hexametros. Fallavamos um dia de outros assumptos menos litterarios, mas não menos poeticos. Conversavamos de amores, mas amores honestos como a mocidade de então os tratava theorica e praticamente, eis que o snr. doutor me disse, respeito a casamento: «Olha, Ferreira, eu não ando por salas em damarias de peralvilho; abomino os insulsos requebros com que os namorados parecem noviciar antes de professarem votos tantas vezes quebrantados. Se eu encontrar mulher que me deixe viva saudade, e desejo de tornar a vêl-a, indago-lhe da vida; e se as informações m'a derem ao sabor da ideia que fórmo da esposa excellente, pergunto-lhe se me quer para marido. Se me responder que sim, a minha mulher ha de ser essa.» Pouco tempo depois, na cadeira em que está sentada a snr.ª D. Julia, estava a snr.ª D. Maria das Dores Mascarenhas, mãe de V. Ex.ª, exemplar de todas as virtudes conjugaes, tão amada na vida, quanto chorada na morte.{195} Sendo já fallecida sua Ex.ma mãe, estava V. Ex.ª, menina de nove annos, no logar onde a vejo, eu estava onde estou, e o snr. desembargador alli. Recordamos então com lagrimas a nossa pratica passada nove annos antes; e seu pae, correndo-lhe a mão pelas faces, disse: «permitta o céo que esta creança seja amada como foi sua mãe; e que as galanterias das salas e os fumos da lisonja lhe não offusquem o entendimento na escolha de marido.» Contava quinze annos esta senhora, quando Antonio Vaz, cadete de cavallaria, a cortejou. O snr. desembargador foi avisado. Soube cujo filho era o moço. Não lhe desfez na geração honrada e antiga; mas, averiguando qualidades proprias—que eram o essencial para o snr. desembargador—descobriu que Antonio Vaz, tendo amado uma filha segunda, formosa e todavia pobre, se esquivára de compromissos havidos com ella para requestar a rica herdeira, a snr.ª D. Julia. Tal foi a origem dos dissabores que lhe amarguraram os derradeiros annos, e vestiram de pesado lucto a mocidade da constante senhora, sacrificada não ao capricho, mas á moral sublime de seu pae. Prézo-me de fazer justiça á memoria do meu bemfeitor, sem apoucar nos merecimentos de Antonio Vaz. Elle era digno de tal esposa, desde o momento que ella o considerou digno de si...
—Mal cabidas reminiscencias...—murmurou D. Julia magoada.
—Tristes...—observou Venceslau—mas sempre bemquistas da alma que não as quer nem póde esquecer. Entretanto, sendo ambas as memorias veneraveis,{196} uma do pae que foi illudido, outra, a do primoroso moço que não podia mentir-me, peço á snr.ª D. Julia que respeite por egual a memoria do seu pae, que viu a infelicidade atravez das nevoas do seu affecto paternal, e a memoria do coração que se deliu nas lagrimas do primeiro amor, flagellado por quantos supplicios podia consagrar uma sepultura.
Susteve-se, compenetrado da impertinencia do logar com a funeral memoria, e disse commovido:
—Absolva-me V. Ex.ª d'esta indiscrição... Eu hei de ser sempre o homem inculto, que se deixa levar para onde a alma o leva, sem vêr quando a tristeza ou a alegria competem ás occasiões.
—A culpa não é sua—desculpou D. Julia—quem nos deu este quarto de hora escuro, foi o snr. padre Manoel Ferreira... nem eu sei para quê...
—Primeiro para commemorar—respondeu o imperturbavel capellão—o profundo juizo do pae de V. Ex.ª respectivamente a casamentos; segundo para lhe defender a memoria, em presença de sua filha, da arguição iniqua, mas involuntaria, que lhe fez o snr. Venceslau Taveira, quando ha dias me disse que o snr. desembargador tolhera a felicidade da snr.ª D. Julia. Enganaram-no, meu honrado amigo. O snr. desembargador, amando extremadamente sua filha, teve da bondade divina o dom da previsão, e anteviu que, depois de sua morte, viria guiado pela Providencia a esta casa o homem predestinado a ser esposo e pae de sua filha, esposo pelo amor e pae pela seriedade do seu porte e madureza{197} de juizo. Ora, o homem previsto e vaticinado pelo pae d'esta senhora... era Venceslau Taveira.
Não espere o leitor que se lhe dê o esboço de grandes assombros e perturbações. Se elles não se espantaram do remate do discurso, é justo que eu me contenha nos limites do mais moderado espanto. D. Julia rozou-se, abriu um sorriso pudibundo, que lhe agraciou angelicalmente os labios silenciosos; mas fitou os olhos no prato, onde depozera o talher, e só os levantou, quando Venceslau Taveira principiou fallando.
Vão vêr que nas palavras d'elle transluz amor; mas amor sem o enthusiasmo pautado e obrigado em casos d'esta natureza. É alma sincera e rija, que opéra sem o complicado apparelho nervoso com que se fabricam os extasis e os spasmos que a natureza copía dos palcos. Tem o coração subordinado ao raciocinio. Faltam-lhe ahi as fragrancias e as musicas que perfumam a palavra e lhe dão o rythmo apaixonado. Mas não é isso a esterilidade, o desapego, a aridez que imbebe as lagrimas improductivas como areal onde os orvalhos não verdejam uma hervinha. É indole corrigida pela severidade dos costumes, prevalecimento da razão sobre os sentimentos que a fantasia não desabotoou na razão propria. Venceslau orçava pelos trinta annos. N'esta edade, o amor, pela primeira vez experimentado, não abrolha em luxuosas florescencias. O arrebol do coração encontra já o meio-dia do espirito. Quasi que uma luz serena e egual neutralisa os incertos esplendores da outra. E, se ha escuridade no intimo sentir d'essa edade, a luz{198} ideal resvala pelo seio frio do gear da desgraça, e não o aquece. A condição do deputado não era bem esta; mas tambem não era optima para exuberar delicias no coração de mulher que o amasse ambiciosa das idolatrias do amor virginal. Talvez coubesse aqui averiguarmos se Julia o amava; protrahiremos a penosissima resposta: ella que responda opportunamente. Pelo emtanto, vejamos que sahida elle deu áquelle passo angustioso, de que o leitor e eu nos tirariamos tartamudeando lyrismos dignos de mais levantada historia.
—O silencio da snr.ª D. Julia convence-me de que o snr. padre Manoel Ferreira deu ás suas palavras o espirito de respeito que se deve a V. Ex.ª, e o de sinceridade que ouso pedir para mim. O que vou dizer, minha senhora, será dito sem commoção. A felicidade alvoreceu na minha vida pela primeira vez; mas, não tendo eu visto senão homens desgraçados pelo amor, a experiencia das dôres alheias faz que o raio da luz nova toque já menos ardente na minha alma, tendo de atravesar a frialdade da razão. Ouça-me V. Ex.ª: eu vi-a no exilio espelhada nas lagrimas de Antonio Vaz; vi-a ajoelhada ao pé da vala onde eu ajudei a descer o caixão; vi-a nos dias eternos de oito annos de proscripto, e procurava nos olhos do seu retrato a scintillação do pranto. Ha muito tempo, pois, que V. Ex.ª vive nas minhas meditações, na minha poesia triste;—porque tambem eu fui poeta, não para cantar amores ou saudades e ainda menos esperanças, mas para me enlevar nos espectaculos do soffrimento a que assisti. O poeta adopta{199} as imagens da sua fantazia e com ellas fórma a ideal convivencia em regiões de luz ou de trevas; eu tambem vesti de crepe uma suave e pallida imagem de mulher, unica em minhas contemplações: era V. Ex.ª Interrogando o meu coração, impunha-lhe violentamente o preceito de me enganar; amordaçava-o para que me elle não dissesse que eu poderia apagar a saudade de Antonio Vaz, e renovar no seio puro d'outro affecto um segundo amor. Além d'isto, retrahia-me o escrupulo da deslealdade ás cinzas do meu amigo: parecia-me que era ultrajar-lh'as afoitar-me a pedir para mim a felicidade que elle anhelou, e mais acerba lhe fez a desesperação que aos olhos embaciados pela morte se mostra ainda a negrejar e a sumir-se no abysmo do passado. Descendo do alto ponto d'estas considerações ao vulgar e mais positivo do juizo social, vi que muitos homens abastados, e ao mesmo tempo prendados de amaveis dons, rendiam a V. Ex.ª o preito de seus affectos, sem todavia lhe perturbarem a serenidade da sua heroica renunciação. Ao mesmo tempo, olhando em mim, com a reflexão que me esclarece os meritos alheios, via-me pobre, desvalido das qualidades que dispensam a riqueza, incapaz de pedir ao artificio os donaires e geitos que modificam a rudeza natural, peorada pela soledade do gabinete e preoccupação de estudos incompativeis com as finas graças da cortezia. Se algumas vezes, um intimo alvoroço me dizia que V. Ex.ª me honrava com estranhas distincções, eu mandava immudecer o amor proprio, e explicava a mim mesmo a{200} estima de V. Ex.ª pelo sentimento de gratidão ao confidente de Antonio Vaz—ao homem que lhe trouxera no retrato d'elle o ultimo lampejo dos olhos que a tinham contemplado. Iria mal a meu caracter franco fingir-me surprezo por este imprevisto abalo. Hoje, quando o snr. padre Manoel Ferreira me convidou a jantar com a snr.ª D. Julia, experimentei a nunca sentida impressão que produz os ineffaveis estremecimentos do susto, da vaidade, do orgulho, do jubilo das creanças—felicidade febril que eu sentia nas palpitações do coração. O amor que a tantos homens se manifesta em commoções, que augmentam de intensidade, com intercadencias de despeitos, com irritações de ciumes, com o remorso até das injustiças que se commettem—o amor, que nasce já santificado pela pureza do seu destino, esse, minha senhora, o deposíto aos pés de V. Ex.ª
D. Julia offereceu-lhe a mão tremula de poetico enthusiasmo. E d'amor? Ai! eu não sei. Venceslau ergueu-se, aproximou-a dos labios. Padre Manoel Ferreira apertou nas suas as mãos dos noivos, e disse a D. Julia:
—Eu sonhava esta felicidade desde que o pae de V. Ex.ª, na sua hora final, me balbuciou estas palavras: «Abençôe minha filha em meu nome, se ella não deshonrar a memoria de sua mãe.» Eu não ouso abençoal-a; mas curvo o joelho para lhe agradecer em nome das duas almas que a inspiraram. Snr. Venceslau, aqui tem o anjo que Deus envia aos virtuosos.{201}
XVII
Oh desenho temerario
Que tal perigo intentava!...JORGE F. DE VASCONCELLOS—Memorial.
Quando, na noite d'aquelle dia, D. Julia entrou em casa do commendador, a esposa de Eduardo estava no seu quarto; e o pae, curvado sobre a jardineira, com a face entre as mãos, meditava abstrahido. Espertado pelo fremito de sedas e rangir de passos na sala proxima, ergueu-se rapido e foi ao encontro de Julia.
—Esperava-a anciosamente para lhe dar os parabens—disse elle.—Eu quiz ir de tarde procural-a; mas minha filha asseverou-me que V. Ex.ª vinha aqui. Vai ser feliz, D. Julia; se eu me engano, são falsos todos os prognosticos que podemos tirar em materia de casamento. Eu não devia hoje fallar-lhe d'outro assumpto; mas...{202}
—Onde está a Annica?—interrompeu Julia.
—Na cama.
—Doente?
—Febril. Chorou muito...
—Porquê?
—Não sei, não m'o diz; o marido sahiu antes de jantar, e não voltou. Vá lá, vá a minha querida Julia consolar essa nova dôr que eu ignoro... Olhe que infortunio este! casados ha cinco mezes! Onde irá isto findar com taes começos!... Metti em casa o verdugo de minha filha... V. Exc.ª verá que a pobresinha vai muito cedo unir-se á mãe, que a está chamando para si...
—Que imaginação a sua, snr. commendador!... Deixe-me lá ir, que estou inquieta... mas espero que isto não passe de alguma passageira tempestade de ciumes...
—Pois sim, será; mas n'essas tempestades é que naufragam as mulheres do coração... as desgraçadas que amam, e preferem morrer martyres a viver vingadas... Vá, vá, seja o anjo amparador d'essa creança... que ninguem quiz salvar... ninguem... Eu só... eu só previ este desastre; mas succumbi ao receio de a perder...
D. Julia foi recebida sem a costumada expansão. Anna Vaz estava recostada ao espaldar do leito; e ao lado da cama a sua creada de quarto enchugava as lagrimas.
—Que tens, filha?—perguntou Julia.{203}
—Que hei de ter?... a minha sorte a cumprir...
A creada sahiu.
Anna pediu á sua amiga que fechasse a porta á chave, pegou-lhe das mãos com vibração nervosa, e disse-lhe:
—Vou contar-te tudo... has-de ouvir-me tudo sem te magoares, sim?
—Tudo, filha...—balbuciou D. Julia traspassada por dolorosa suspeita.
—Olha que meu marido... ama-te.
—Jesus!—exclamou a noiva de Venceslau affectando naturalissimo pavor.—Tu deliras, Anna!
—Não deliro, infelizmente não deliro... Eduardo ama-te... Queres saber como eu descobri esta desgraça que nunca me resvalou pelo espirito, apesar das palavras que me elle dizia de ti, e todas agora me lembram para me atormentarem?... Olha... quando elle hoje ás quatro horas chegou da repartição, perguntou-me se eu tinha sahido, porque me viu vestida como fui a tua casa. Respondi-lhe que estivera comtigo e recebera a inesperada nova do teu casamento com Venceslau. Não te posso pintar o transtorno das suas feições! Fitou-me com os olhos espavoridos, e perguntou-me em tom desabrido: «Que historia extravagante é essa?»—Isto não é historia—disse-lhe eu—é a noticia que me deu Julia. Mas ficaste assombrado! Estás pallido! Que tens? que te importa que Julia case ou que não case?—«Não me importa nada...—respondeu elle, disfarçando miseravelmente a agitação—não me importa... mas o espanto{204} é, n'este caso, bem natural!... Pois hontem ainda estive com o Taveira, e com ella... e nada me disseram...» Continuamos a conversar sobre o assumpto, sem elle poder dominar a ancia em que estava de se esconder aos meus olhos... Chamaram para a meza...; e Eduardo n'esta occasião, muito perturbado, tira o relogio, vê as horas, e diz: «não janto cá hoje... Hei de estar infallivelmente ás quatro horas em casa do Sepulveda... Desculpa-me... que não posso faltar.» E, quasi sem esperar que eu o contrariasse, sahiu com os olhos desvairados como um ebrio... e não voltou ainda. Aqui tens a minha enorme desventura... aqui me tens na angustia que nunca podia prever a minha alma preparada para as maiores provações... Até hoje, eras tu a minha consoladora... Que has de ser tu para mim de hoje em diante?
—O que fui sempre...—disse Julia com firmeza. Se as tuas suspeitas são verdadeiras, o desatino de teu marido ha de ser curado com a vergonha de me ter querido vêr na plana d'algumas infames que elle terá conhecido.
—Pois sim; mas não serei eu a victima?
—Não, minha filha; se houver alguma victima, não o serás tu...
—Então quem?
—Elle...
—Como?... Não te comprehendo...
—Será a victima do seu opprobrio... Perderá a estima de todas as pessoas de bem, e a tua...{205}
—A minha? não! não que o amo...
—Has de odial-o, quando a sociedade o abominar... Mas não antecipemos as consequencias d'essa loucura... Se ella é verdadeira, lembra-te que vou casar com o homem que teu marido mais respeita. Eduardo, se ousar erguer os olhos para mim, ha de baixal-os envergonhados. Se é uma paixão... Paixão!—repetiu ella falseando n'um sorriso a dissimulada duvida.—Paixão!... não creias que tal sentimento possa nascer n'um homem que me respeita e deve conhecer que o desprezarei... se se atrever a manifestal-o...
—E nunca t'o manifestou?...
—Porque me fazes tal pergunta?
—Mas dize, Julia, nunca t'o manifestou?
—Não...—respondeu sem turvação a interrogada, rosto a rosto.—Que lembrança a tua!
—É verdade... Lembrou-me se seria para ti a carta que eu hoje te mostrei...
—A carta?!
—Sim, Julia; e, quando fosse, o teu nobre procedimento está bem justificado n'aquella carta. Eduardo queixa-se de ter sido repellido... Que outra coisa podia esperar eu de ti? Queixar-me porque m'o não disseste, seria fazer injustiça á tua prudencia... Todo o teu empenho de boa amiga devia ser que eu ignorasse a indigna tentativa de Eduardo... Permittisse Deus que elle me não désse rivaes com menos virtude...
—Rivaes!—contradisse Julia irritadamente.—Rivaes são as que acceitam a competencia... É preciso{206} que duas mulheres amem o mesmo homem para que se chamem rivaes. Em quanto eu desprezasse as declarações de teu marido, não devias dar-me nome tão injurioso...
—Então confessas que era para ti a carta?
—Se confesso!...—tartamudeou Julia.
—Sim... tu não pódes enganar-me... Vejo-te a alma nos olhos, e a perturbação nas palavras... Tens piedade de mim, não tens? Então dize-me que meu marido te escreveu... que tu lhe respondeste como devias... e que elle te mandava depois aquella carta...
D. Julia apertou ao seio a face lagrimosa de D. Anna, balbuciando:
—É verdade... é atrozmente verdade que teu marido me escreveu... Não te peço perdão, porque não tenho de quê. Na resposta, que lhe dei em duas linhas escriptas na sua mesma carta, ameacei-o de te mostrar a segunda, se m'a elle enviasse... Lembra-te das palavras.
—Que eu não pude entender... bem me recordo... Se V. Ex.ª cumprir a ameaça que me escreve, se me denunciar, fará duas victimas. Mata uma innocente, e ordena ao criminoso que se suicide... Era isto; mas—proseguiu Anna em pranto desfeito—o meu infortunio ainda assim fica sendo enorme... Se te elle ama com tamanha paixão, e te vê casada, e perdida para sempre, onde o levará o desespêro...
—Paixão!...—repetiu Julia motejando a palavra.
—Paixão, sim... pois, se o não fosse, Eduardo teria a fraqueza de alterar-se a tal ponto? Sahiria de casa{207} como louco? Teria escripto uma carta em que tantas vezes falla no suicidio?...
—Ó filha, essa palavra em cartas de namoro não tem significação assustadora...—replicou Julia jovialmente.—Creio que não recebi uma só carta das muitas que devolvi, em que essa funebre responsabilidade me não fosse imputada; e nenhum dos muitos que me escreveram se matou...
—E como tu pódes rir, sendo tamanha a minha infelicidade, ó Julia!...
—Não exageres, creança!—animou a noiva de Venceslau Taveira com incrivel frieza de animo.—Teu marido ha de voltar para ti curado pela reflexão e melhorado pelo remorso de te haver sacrificado á mais estupida vaidade que podia desnortear o tino d'um homem intelligente.
—Mas não te magôa vêr que é necessario acabarem as nossas relações?
—Como? acabarem...—acudiu D. Julia espantada.
—Sim... acabarem... Com que alma hei de eu estar na tua presença e na de meu marido?!
—Então queres dar ao caso as proporções do escandalo?—replicou Julia altivamente.—Dirás a teu pae que Eduardo me fez a côrte? Obrigar-me-has a dizer a Venceslau que as nossas relações se romperam, porque teu marido me namorava? Permittes que a nossa sociedade me considere a infame que te amou o marido,{208} e a ti a honesta dama que me expulsou de sua casa, e não quiz manchar-se no descredito da minha?
—Jesus! onde tu vaes!—exclamou D. Anna—pois, se eu deixar de ir a tua casa, é forçoso que se publiquem estes desgostos que ninguem sabe?
—É: ha de sabêl-o teu pae, ha de sabêl-o o homem que não será meu marido... nem eu o quero... com tal condição. E, depois, tu tens força para a lucta horrivel que vaes travar com teu marido, se publicares a sua deploravel fraqueza? E não temes que teu pae, já tão quebrado de forças, morra de pena de ti, odiando o homem, que eu, tão enganada pelos teus olhos, affirmei havia de ser um excellente esposo?
—Que hei de eu então fazer, Julia? Aconselha-me...
—Fazes o que eu te pedir?
—Se podér...
—Pódes... ha de custar-te, mas pódes... Todas as victorias são difficeis, filha; mas as da paciencia, nas tuas circumstancias, são sempre seguras... Finge que tudo ignoras. Não profiras o meu nome com azedume, não dês côr suspeitosa ao que de mim disseres. Recebe-me com o mesmo amor, que cada vez t'o mereço mais extremoso. Vae a minha casa; e, na presença de teu marido, falla-me sem a minima reserva, e não procures surprehender nos olhos d'elle a intenção com que me olha. Se fizeres isto, restituo-te Eduardo com o juizo restaurado.
—Mas, se não poderes...{209}
—Se não podér, vou viajar, ou sósinha ou casada, e só voltarei a Portugal, quando me tu disseres que teu marido recuperou a honra perdida.
Anna Vaz beijou ardentemente a face da sua amiga, e exclamou:
—Espera... deixa-me levantar que eu vou comtigo para a sala... Quero que o meu pobre pae me veja sorrir... Vae dizer-lhe que me estou erguendo, e que estou boa... Inventa qualquer coisa...
Já estava na sala Venceslau Taveira recebendo os emboras do commendador, e explicando os pormenores da sua imprevista alliança. Ao tempo que D. Julia entrava, acabava de dizer o commendador ao noivo:
—Mas que é isso?! Acho-o extraordinariamente triste!... Narrou-me em termos tão gélidos uma historia para tantas alegrias!... Que não vá o meu querido amigo enganar-se com o seu coração ferido de sobresalto... Agouro não sei quê... Eu queria-o vêr mais contente... mais rapaz... mais noivo!... Os homens da sua têmpera parece-me que têm uma só familia—a patria, e uma só paixão—a das conquistas da felicidade para o genero humano...
Venceslau escutava ainda o écco das palavras do velho que se lhe repetiam na alma, quando Julia entrou, incendida no rosto da violenta crise em que as interrogações de Anna Vaz a mortificaram.
—Está febril minha filha, não está?—perguntou o commendador.{210}
—Está levantando-se... Não tem febre, e vem ahi já.
—Mas que era?...—volveu Francisco Vaz.
—O que eu lhe disse...
—Ciumes?...
—Sem fundamento... Apprehensões de quem muito ama...
—Torturas...—emendou o velho; e voltando-se para Taveira, continuou:—O tedio, o enôjo em esposos de cinco mezes, o que será aos cinco annos, snr. Taveira?
—Póde ser que seja a felicidade de ambos, a reciproca e serena confiança, quando os zêlos fundam em leviandades passageiras.
—Conhece muito as sciencias que o espirito humano creou; mas sabe pouco do coração do homem, snr. Taveira—contrariou o commendador.—A mulher que, ao quinto mez de casada, nova e bella, apaixonada e incapaz de comprehender a perfidia, se vê trahida, perdôa, se é honesta; mas o homem, capaz de arrependimento, e de ajoelhar aos pés da esposa generosa, se algum existe, não é Eduardo. Na vida d'este mal-fadado ha condão funesto...
—Ha apenas, e quando muito, uma preoccupação...—disse o deputado.—Esteve hontem comigo, e causou-me estranheza. Fallou-me em sahir de Lisboa com licença de seis mezes para uma quinta. Suspeito que a frequencia dos bailes lhe haja colorido falsamente os quadros que elle não examinou quando era moço... Espero{211} que o mentiroso prisma se lhe quebre, logo que a mão da lealdade contricta lhe desperte a consciencia...
Chegou D. Anna.
A palestra d'aquella noite foi mais trivial que nunca. Venceslau Taveira conversou nos assumptos habituaes—politica, e congresso dos reis em Verona, o juramento da constituição e a suspeita de que a rainha D. Carlota recusaria jural-a, etc.—materia duvidosamente lyrica para noivo.
Á hora do costume, o deputado sahiu, bem que o commendador Vaz lhe désse a perceber que muito desejava elle podesse encontrar-se com Eduardo n'aquella noite.
—Ámanhã o procurarei—disse Venceslau, em quanto Anna e Julia se trocavam um lance de olhos que significava a incompetencia do mediador escolhido pelo velho.—Hoje tenho ainda trabalhos de escripta e estudo que me devem levar a noite toda.—Accrescentou o deputado.
—Está a chegar o dia do repouso...—observou o commendador alludindo ao casamento, d'onde lhe resultaria a inercia dos ricos.
—O dia do repouso é o primeiro da morte—contraveiu Venceslau.—Ninguem repousa n'esta vida; e, a meu juizo, os espiritos mais trabalhados, e talvez mais infelizes, são os que se agitam em inutil actividade. A riqueza, que convida ao ocio, é pessima, quando por ella trocamos o thesouro dos bens da alma.
Eis-aqui maximas stoicas não vulgares em noivos,{212} salvo se elles são philosophos; mas a raridade d'esta especie é já grande; e algum Socrates que ainda apparece a maridar-se, é contar com elle bem castigado por Xantipas.
Na ausencia de Venceslau Taveira, contou D. Julia concisamente ao commendador o breve prefacio do seu projectado casamento; porém—rasoavelmente lh'o advertiu o velho—tão desenthusiasta expunha ella como expozera o noivo aquelle importante e solemnissimo acto.
—Eu bem sei...—dizia o commendador—que entre pessoas sisudas o casamento é passo para mui serias meditações; mas, logo que a deliberação está feita, parecia-me natural vêl-os muito alegremente fallarem do seu futuro...
D. Julia sahiu á meia noute. Ia triste, e perguntando a si mesma: «Estarei eu enganada com elle e comigo? Este sentimento de estima será bem o amor que preciso hoje mais do que nunca alimentar no ardente coração de um homem?... Com que frieza elle fallava de politica, olhando para mim hoje como hontem, como sempre, como se eu alli não fosse mais do que uma das costumadas pesssoas do seu auditorio... Mas...»
Proferia ella mentalmente aquella conjunção—aquelle mas, que daria as melhores dez paginas d'este livro, quando a traquitana, desembocando da rua da Patriarchal, atravessava o largo do Rato, em direitura ao palacio das Amoreiras.
Parou subita a sege. O bolieiro, reconhecendo a{213} pessoa que sahira á frente da parelha, bradando que parasse, obedeceu.
—Que é?—perguntou D. Julia com receio, por entre as cortinas, que afastou.
—Não se assuste, minha senhora—disse Eduardo Pimenta no mais baixo tom de voz que podia ser, abrindo mais as cortinas para ser conhecido.
—Aqui, a tal hora, o snr. Eduardo?—murmurou ella tremendo a seu grande pesar.
—Esperava-a, snr.ª D. Julia... para lhe dar os parabens do seu consorcio.
—Acho improprio o local... Venho de sua casa; era lá que eu devia merecer-lhe essa delicadeza...
—Nada de ironias, senhora!
—Ironias!? em que tom V. S.ª me está fallando! Eu não preciso de contrafazer-me com o disfarce da ironia... Que me quer o marido de Anna Vaz?
—Que me restitua a minha felicidade!... que me mate, senão póde restituir-m'a... Um reptil que nos nauzêa esmaga-se com o pé... Que mais vale o coração do homem que a fatalidade poz de joelhos diante de V. Ex.ª? esmague-me... Diga-me affoitamente, diga-me sem piedade que me despreza...
—Não o desprezo; estimo-o, quanto posso estimar o marido d'uma amiga intima—disse D. Julia sensibilisada, mas serena.
—Eu não quero ser estimado, porque estou preso com um grilhão de ferro á amiga de V. Ex.ª... Guarde a sua piedosa estima para as victimas resignadas...{214}
—Que quer então?
—Pouco... quero que V. Ex.ª me diga que no momento em que tractava o seu casamento com Venceslau Taveira não viu passar entre o seu coração e o seu futuro a imagem lagrimosa do homem que V. Exc.ª ameaçou com uma denuncia...
—Não vi a sua imagem; vi a imagem lagrimosa de sua esposa... Essa é que eu vi, e venho de vêr agora prostrada no leito, e receio vêl-a brevemente prostrada na sepultura... Snr. Eduardo, tenha compaixão d'ella e de mim!
—De V. Ex.ª!?—interrogou elle, alvoroçado pela commoção que se delatava no tremor da voz.—Compadecer-me eu de V. Ex.ª?! Quando deixei eu de adoral-a, para offendel-a?
—Não diga que me adorou, supplico-lhe que desfaça essa illusão da sua alma.
—Oh! para que está mentindo á sua consciencia, snr.ª D. Julia? Pois não viu que eu a amava quando casei? Não me impôz delicadamente em sua casa o preceito de lh'o não revelar?
—Falle baixo—acudiu Julia—que póde ouvil-o o creado. Jesus, que desventura a minha! Ó snr. Eduardo, tenha brios e valor! Deixe-me, esqueça-me!... por alma de sua mãe, e d'essa infeliz senhora que lhe morreu nos braços, em nome de ambas lhe rogo que me esqueça, que me não obrigue a fugir de Portugal!... Mal sabe quanta gratidão lhe daria a minha alma, se me attendesse, se me deixasse ser sua verdadeira amiga! Juro-lhe{215} pela memoria de meu pae que me não torna a vêr, se não domina o desatino que está cavando a sepultura de sua mulher...
—Sempre a minha mulher!... Por que me não falla do seu marido?
—Pois bem... peço-lhe em nome de meu marido que me respeite!—disse D. Julia com a maxima gravidade e decoro.—E, se não, adeus para sempre! Não sustentarei com V. S.ª uma lucta odiosa. Ha afflicções que se tornam ridiculas, se a coragem as não subjuga. Desterrar-me-hei para que o snr. Pimenta, esquecendo-me a mim, se lembre de que ha uma coisa mais preciosa que eu: é a honra, a sua propria honra. Peço-lhe que me deixe recolher. Os meus creados não estão habituados a assistirem a estes dialogos por alta noite, e eu não lhes quero dar direito a suspeitarem de mim.
—Só duas palavras, snr.ª D. Julia. Não sáia de Portugal—supplicou Eduardo com apaixonada resignação.—Juro que não perturbarei a sua tranquilidade. Fique, rogo-lhe com as mãos erguidas que fique; mas não me prohiba que eu a ame... Será um amor sem lagrimas, sem um gemido, sem que nos olhos se me veja o reflexo do fogo que me ha de ir devorando. Não me prohibe esta inoffensiva tortura, não?
—Ó snr. Eduardo...—balbuciou Julia.
—Adeus! vá!... Olhe que o mundo não encerra mais desgraçado homem! Eu hei de obrigal-a, hei de, Julia, a confessar que foi muito amada, e talvez... muito ingrata... Adeus.{216}
Eduardo desviou-se, e a sege abalou.
E D. Julia de Miranda, enxugando os olhos, de certo sinceramente chorava, porque não é de presumir que uma mulher finja lagrimas, quando ninguem a observa.
Mas chorar, ó Deus do céo, ó creador omnisciente do prodigioso coração de mulher! Chorar! porquê?
Ai! chorava por que não podia odial-o...
Leitor florído, se V. Ex.ª é menos honesto do que eu penso, de certo estima que as suas visinhas chorem por não poderem odial-o.{217}