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Livro de Consolação: Romance cover

Livro de Consolação: Romance

Chapter 20: XX
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About This Book

This work presents a narrative that explores themes of love, loss, and the complexities of human emotions through a series of reflections and experiences. It delves into the trivialities of everyday passions and the impact of societal norms on personal relationships. The author employs a contemplative tone, inviting readers to consider the deeper meanings behind seemingly mundane interactions. The structure is characterized by a blend of introspective passages and descriptive prose, creating a rich tapestry of thoughts that resonate with the reader's own experiences of affection and sorrow.

XVIII

C'etait incompréhensible, inouï, miraculeux...

A. DUMAS.Amaury.

A criada antiga, que dormia na recamara de D. Julia, segredou ao padre Manoel Ferreira que a fidalga, durante as noites seguintes á decisão de casar-se, poucas horas descansára, e algumas vezes dava uns ais tão do amago da alma que parecia gemer em grande afflicção.

O padre comprehendeu poeticamente as insomnias, attribuindo-as ao alvoroço proprio de noiva. Bem é de entender que o sabio, nos seus livros latinos, não tinha lido casos de noites desveladas por motivos molestos, se era amor quem desafinava a harmonia das funcções empenhadas no phenemeno do somno. Não obstante o silencio dos classicos romanos a tal respeito, padre Manoel indagou da propria fidalga a causa das suas noites{218} mal dormidas. Respondeu D. Julia que a preoccupavam receios de infelicidade, resultantes d'um casamento pouco meditado e talvez incompetente, assim a Venceslau como a ella.

O capellão, atonito com tal resposta, nem de leve curou de lhe dissipar as apprehensões; antes, muito de sizo, se offereceu para desfazer o que intempestivamente fizera, espacejando com qualquer honroso subterfugio o cumprimento da promessa, até que Venceslau, cavalheiro pundonoroso, aconselhado por sua dignidade, desquitasse a noiva do compromisso.

D. Julia repugnou tal evasiva, declarando com fidalgo entono que desadorava entrar em porfia de pundonor com Venceslau. E concluiu dizendo que a sua palavra estava dada.

—E o seu coração, minha senhora?—perguntou o padre.

—O meu coração...—murmurou ella—morreu quando as pulsações cessaram no coração do primeiro e unico homem que amei.

E o capellão, fitando-a silencioso e magoado, de si para comsigo julgou que D. Julia não podia ser dada como exemplo de senhora perfeita, moralmente fallando.

E, desde esta hora, padre Manoel, sentindo sobre a consciencia o gravame de tremenda responsabilidade, andava triste, como assombrado, a cogitar e a pedir a Deus que interviesse de modo que o casamento não se realisasse.{219}

Deus não o attendeu, ou interveiu mysteriosamente. Como quer que fosse, o casamento fez-se no fim do anno 1821.

Foi muito soado o caso em Lisboa, e muito invejado o provinciano. O juro dos quinhentos mil cruzados da consorte deu-lhe direitos á consideração publica muito mais relevantes que os do talento acrisolado por altas virtudes de patriota. Haveria quem lhe emulasse a qualidade de primeiro orador e preconisado ministro; mas a de proprietario da mulher, que representava duzentos contos, seria capaz de ajuntar á inveja o respeito abjecto—mascara do odio. E, comtudo, os habitos de Venceslau Taveira mantiveram-se no mesmo grau de solicitude, trabalho e mediania. A traquitana de sua esposa ninguem lh'a viu em frente do paço das Necessidades, onde então legislava o congresso. Madrugava mais que os seus collegas abastados para poder chegar ao mesmo tempo que as carruagens d'elles. O seu trajar arguia decente mediocridade, auxiliada pelo esmero na limpeza; não era o surrado desalinho com que desculpamos os philosophos, quando nos fallece direito a mandal-os lavar a cara.

Este proceder de Venceslau recendia aromas de virtude, era abnegação que muito louvava padre Manoel Ferreira; porém D. Julia de Miranda não se admirava nem comprasia. Em conta de affectação orgulhosa foi que ella tomou a isempção do marido, julgando-se por isso menospresada na riqueza. Quanto a ser amada, confessava D. Julia que o era como seria qualquer outra{220} menina pobre que não désse tão brilhante, e tão desdenhada independencia a seu esposo.

O viver intimo de Venceslau, em verdade, destoava do que é costume serem maridos amantissimos, em quanto a corôa nupcial se não desmaia de todo.

Tinha horas de gabinete, e então folgava que Julia se detivesse a contemplal-o folheando livros, tirando notas, arquitectando discursos, e comparando a indole da nação ignorante com os luminosos codigos das nações civilisadas. Isto não é bem poetico; realmente não é.

Assim que era tempo, ia para as côrtes, e recolhia com a maxima pontualidade a jantar; mas, se os negocios do estado implicavam á exactidão do repasto domestico, o funccionario, submissso ao sacrificio, não antepunha o gozo da familia aos deveres de cidadão estipendiado para a servir. A poesia aqui tambem não é que farte para um madrigal.

As noites eram todas de sua esposa. Se ella sahia a bailes ou visitas, de bom rosto a acompanhava; mas uma por outra vez lhe disse, beijando-a e ameigando-a:

—Não passarias melhor a noite no socego da tua salêta comigo, com os teus livros, e com a doce companhia do teu fogão?

Julia algumas vezes cedia suavemente ao brando convite; Venceslau, porém, notou com secreta mágoa que ella, por volta das dez horas da noite, difficilmente resistia aos enfados do coração que se manifestam em abrimentos de bocca.

A esposa deitava-se; e o esposo ia para o seu gabinete{221} onde trabalhava até ás tres da manhã. Se ha n'isto poesia, confessemos que em casa de cada mercieiro ha inspirações para tres opopêas.

E porque não iria Anna Vaz passar as noites com a sua amiga? Por que não ía Julia esparecer saudades da juventude, se as tinha, na familiar convivencia do commendador?

É simples a resposta; mas ha que presagiar calamidades n'ella.

Marcado o dia do casamento, Venceslau convidára Eduardo a ter parte na sua festa do coração, assignando como testemunha na egreja. O commendador tambem foi como padrinho e madrinha a filha. Os restantes do pequeno cortejo eram alguns deputados anciãos e militares companheiros do exilio do noivo.

Eduardo apresentou-se na ceremonia com certa compostura grave, melancolica; porém de modo algum suspeita. Anna, docil aos preceitos de Julia, mas talvez mais submissa aos do coração, espionava involuntariamente os raios vizuaes do esposo. Escassas vezes o colheu em flagrante delicto. A noiva por sua parte parecia esconder mais do que elle o relance furtivo de olhos; todavia, se alguem lhe chamava a attenção para Eduardo, se Venceslau lhe dizia: «o Pimenta está pallido e triste», ella encarava-o com desassombro, e respondia qualquer coisa, sorrindo banalmente, como se fosse uma tola vulgar.

O banquete das nupcias foi modesto, moderadamente animado, e concorrido de velhos que nem sequer primavam{222} nas jogralidades proprias do acto, e sempre bem acolhidas, quando vem auctorisadas pelas cans; que o impudor senil tem fôro de graça lusitana, segundo parece, em festins de noivado. Os coroneis e os legisladores commensaes de Venceslau fallavam de politica e de batalhas. Venceslau foi eloquente n'estes assumptos. Padre Manoel Ferreira manteve-se em silencio meditabundo. O commendador conversou sempre com Julia. E Eduardo nunca se mostrou tão apontado em attenções carinhosas a D. Anna.

O restante da noite correu mais animada, graças ao espiritismo dos coroneis, que tinham brindado repetidas vezes á liberdade, e ungido com profuzas libações o seu athletico odio contra o despotismo. Os legisladores tambem.

Findo o saráo, Eduardo apertou a mão da esposa do seu amigo, e pôde ceciar umas palavras que ella ouviu com a audição interior da alma: «Nunca mais».

Ninguem a viu descorar; mas ella desconfiou que a vissem, porque lhe quiz parecer que o sangue se lhe congestionára no peito e que ao longo das faces lhe resvalára a sensação do frio. Imaginações, talvez. Nervos.

Ao outro dia, D. Anna Pimenta, a hora desacostumada, e menos propria de visitar noivas recentissimas, appareceu em casa de Julia. Eram onze da manhã, e já encontrou Venceslau a sahir. Aos reparos da esposa do seu amigo respondeu elle que não podia faltar ao congresso, onde se pleiteavam graves projectos de lei. A amorosa senhora não pôde sequer por delicadeza louvar{223} semelhante patriotismo. Lá no seu recondito juizo diria talvez ella, em prosa menos pedestre, que não havia lei em projecto que valesse uma formosa mulher já realisada.

Encontrou Julia no toucador, sentada, em frente do alto espelho, n'um reclinatorio de estofo cramezim, com os opulentos cabellos a serpearem sobre as rendas do penteador, e umas travessas d'oiro a desviarem-lh'os das fontes. A posição languida da noiva, um pouco antes, denotava abatimento moral, um ar reflexivo de quem se quer imaginar n'um sonho infeliz, e não póde tirar dessa forçada quimera senão tristezas.

Mas, ainda assim, quando ouviu passos e conheceu a tosse nervosa de Anna Vaz, desanuviou a face, illuminou-a d'um sorriso, e apertou nas suas as mãos da amiga.

—Tão cedo?—perguntou ella.—Tu vens febril!...

—E agitada, porque vim a pé... Venho despedir-me...

—Para onde vaes?!

—Para a quinta do Riba-Tejo. O Eduardo esta manhã, ergueu-se ás seis horas, e pediu-me carinhosamente licença para ir passar á quinta algum tempo. Eu disse-lhe logo que o acompanhava; elle mostrou-se grato á minha dedicação, e resolvemos partir ámanhã de madrugada. Agora preciso dizer-te o que penso de meu marido. Esta resolução de sahir sei eu, e tu tambem sabes, d'onde procede; mas eu não lhe disse a menor palavra{224} a tal respeito, deixando-o persuadir da minha ignorancia. Creio que elle te ama... digo-te isto sem lagrimas, porque já chorei quantas tinha... Se elle foje de ti para te esquecer, espero que a nossa tranquillidade se restabeleça. Da minha parte, seguirei até ao fim os teus dictames. Hei-de fingir sempre que tudo ignoro, por amor d'elle, de meu pae, de ti... e de mim tambem... Olha, Julia, sorri-me uma esperança... Póde ser que o nosso primeiro filho seja o anjo de reconciliação entre nós. Pareceu-me que os olhos d'elle me encaravam com extraordinaria ternura, quando ha dias lhe disse, que eu, d'aqui a quatro mezes, havia de vêl-o a acalentar nos braços a nossa creancinha... Porque não choro eu agora ao despedir-me de ti? porque te amo, Julia, apesar de saber que és mais amada que eu? Sabes porque é? Quando se tem no seio um filho, as lagrimas estancam-se, e os odios não podem empeçonhar o coração onde se está formando a alma d'um innocentinho... Deixemos passar esta borrasca... Tempo virá em que sejamos muito felizes...

—Eu? Nunca mais...—murmurou Julia.

—Porquê?...

—Não torno a ser o que era antes que á casa de teu pae entrassem estes dois homens fataes, um que escureceu a tua alegria, e o outro... que eu não...—E susteve-se, como envergonhada de si mesma.

—Que tu...—instou Anna.

—Nada, filha... não me interrogues... Olha... eu{225} amei teu irmão... amei-o quando tinha a edade e as illusões da infancia... Elle morreu... e envolveu na sua mortalha o meu coração...

—Mas... para que...—disse D. Anna hesitante.

—Para que casei, queres tu perguntar-me?...

—Sim...

—Se eu t'o disser... has de querer ajoelhar aos pés da tua amiga victimada... e eu levantar-te-hei nos meus braços para te pedir que não me faças responsavel dos teus dissabores...

—Dize... que eu não te entendi...

—Para que me casei?... para que teu marido me respeitasse casada... Para que me casei com Venceslau? Para ter por defeza da minha dignidade o homem que teu marido mais respeita...

D. Anna abraçou-a com vehemencia, bebeu-lhe as lagrimas nos beijos, e murmurou:

—É impossivel que Deus não te dê o galardão de tanta virtude... Esse grande sacrificio ha de trazer-te dias de inefavel contentamento...

—Nenhuns... ha-de trazer-me apenas—e já não é pouco—a satisfação de te ver socegada.... Vae, filha, e escreve-me sempre que possas. Se vires que elle quer voltar a Lisboa antes de me ter esquecido como se esquece uma mulher já desfeita na sepultura, avisa-me, que eu hei de mover Venceslau a ir viajar... Depois, quando eu voltar, estarei velha e tu ainda nova e bella. Os cabellos brancos não tardam. As rugas já me começam na alma... Ha uma velhice que nos passa do coração{226} para o rosto... é a saudade... é vêr o passado feliz lá ao longe, e o presentir a morte no frio que nos cerca...

—Mas, ó meu Deus!—exclamou Anna, pondo as mãos—Venceslau Taveira não te ama?

—Ama com o amor dos trinta annos, quando desde os vinte se procuram e encontram as paixões na politica, na meditação e no estudo... Não vês isto? Casei hontem; e meu marido foi hoje ás dez horas para o congresso, depois de me dizer que prevía a emancipação do Brazil em breve tempo, e que hoje mais que nunca os bons portuguezes deviam acercar-se do leito da mãe patria que ia perder a filha que lhe era o amparo da velhice. E se visses a gravidade com que elle me discursava estas coisas? Parecia um pae illustrando a ignorancia de uma filha!... Ó Anna... se eu tivesse coração... se houvesse casado com Venceslau amando-o muito, que lagrimas me não custaria este desengano!...

—Pois, sim—redarguiu Anna Vaz—convenho que Venceslau seja tudo que dizes, mas verás que nunca te ha de dar a mágoa da perfidia...

D. Julia sorriu-se com aspereza, ironia, e talvez motejo d'essa virtude da lealdade que apenas lhe lisongeava o orgulho.

—E tu verás—proseguiu aquella perfeita alma cheia de lagrimas, quando a outra sorria—verás que te ha de amar cada dia mais; e que, depois das suas occupações, virá para ti cheio de alegria, e sedento dos suaves prazeres da vida intima...{227}

—Porque o não amaste, Anna?—perguntou de salto e desapropositadamente D. Julia.

—Porque o não amei?... Se eu amava Eduardo...

—Viste-os ao mesmo tempo... ou, mais exactamente, viste primeiro Venceslau... Porque o não amaste?—insistiu a arguciosa dama.

—Se elle me tivesse amado, antes que Eduardo me escrevesse, eu de certo lhe correspondia, porque me pareceu sempre estimavel, nobre, honrado, fallando de meu irmão com as lagrimas nos olhos, e respeitando meu pae, que o presava extremamente.

—Sei isso... mas o teu coração, á vista d'elle, não sentiu os estremecimentos que lhe causou Eduardo.

—Bem sabes como foi, filha!... Eduardo, á segunda vez que foi a nossa casa, estando eu a tocar, disse-me que, se o não podia salvar com o amor, que lhe tocasse musicas bem tristes que o podessem salvar com as lagrimas... Estas palavras acharam em minha alma toda a sensibilidade d'uma rapariga innocente... Depois vieram as cartas... depois... tu sabes tudo como se passou...

—Sei...

—Mas que perguntas me fazes!... Ó Julia, se não amavas Venceslau, não devias casar. A tua dignidade não precisava que um marido a defendesse. Ha quantos annos eu te conheço pretendida e amada; e nunca te vi receosa de ninguem! Bastava o teu desprezo para rebater os mais atrevidos. O sacrificio, que fizeste da tua liberdade, para que eu te não julgue causa dos meus occultos{228} desgostos, era desnecessario. Tão confiada estava eu na tua virtude de solteira como na de casada...

—Sacrifiquei-me então inutilmente?—interrompeu Julia.

—Inutilmente não, que eu irei jurar que se eras um anjo para mim, és agora uma victima da santa amisade que me tens; mas inutilmente para a tua honra, isso sim; porque não é teu marido que te ensina os deveres; és tu que os prescreves ás tuas paixões...

—Quaes são as minhas paixões?—perguntou D. Julia por tão estranha maneira que incutiu na amiga receio de a ter offendido.

—Eu não digo que as tenhas, filha...—emendou ingenuamente D. Anna.

—Então?

—Queria eu dizer que tu dominarias as tuas paixões, se fossem más... Comprehendeste, Julia?...

A esposa do deputado, levantando-se energicamente, travou do braço da amiga, e disse:

—Vamos passear nas salas... Estou muito nervosa... A final, tudo que tenho é uma febre cerebral, uma enfermidade estupida na cabeça.


Na hypothese de que as duas senhoras vão dizer coisas frivolas, não as sigamos; e, se o leitor conjectura que ellas podem dizel-as transcendentes, não as sigamos tambem.

Sentemo-nos aqui na sala de espera, n'este grande escabello de castanho, com espaldar blazonado, e philosophemos,{229} mas façamos philosophia portugueza, chã, de soalheiro, murmuração delicada; mas, repito, portugueza. Nada de esthetica. Nada de germanismos. A gente está em 1822, quarenta annos antes da entrada do apocalypse em Portugal com todas aquellas bestas de que falla S. João.

Philosophemos então a respeito de D. Julia.

O leitor medita, reflexiona, combina, discute, compara e conclue, formando o seu juizo.

Formou? Philosophou?

Eu tambem.

Agora tenha a condescendencia de esperar que os factos correspondam á lucidez das suas previsões.{230}
{231}

XIX

A ira que entumece e arqueja e vibra no proprio coração dos grandes sabios.

HOMERO.Iliada, cant. IX.

As cartas vindas de D. Anna para Julia eram discretas e pensadas de modo que Venceslau Taveira, da sahida de Eduardo, inferia apenas que o seu amigo se desviára com plausivel prudencia dos perigos amorosos que o assediavam na alta sociedade. Esta supposição colhida de algumas phrases problematicas das cartas, que Julia não escondia, dava margem a que entre os dois esposos e padre Manoel Ferreira se conversasse sobre a desmoralisação dos costumes.

O capellão raramente perdia lanço de lamentar a filha do commendador, ferindo assim de soslaio o caracter do marido, a quem não desculpava a peralvilhice com que bandarreava nas salas, galanteando a esmo todas{232} as damas. Venceslau, motejando a severidade do padre, attribuia os geitos galãs do amigo não á ruindade das intenções, senão ao temperamento, ao genio alegre, ao instincto da sociabilidade, que era sempre excellente prenda nos cavalheiros propensos aos futeis recreios das assembleias. D. Julia escutava estas discussões, e assentia á indulgencia do marido, sem reparar que o padre lhe estudava o pensamento nas menos expressivas alterações do semblante.

Padre Manoel—digamol-o de corrida—não lia sómente livros latinos, nem estudára nas Lesbias e Lydias as versatilidades femeaes. Parece que o sabio, antes de vir á poesia romana, tinha sido poeta por sua conta, e risco, talvez, da dignidade sacerdotal. Como vivêra trinta ou quarenta annos entre fidalgas, confidenciando-as nas salas e nos confessionarios, bem é de vêr que n'aquelle espirito escrutador se formassem desconfianças ingratas ao bom juizo de D. Julia, desde que ella se lhe figurou duvidoso exemplar de perfeição. Isto, aggravado pela secreta aversão que tinha a Eduardo Pimenta, explica o tom detrahidor com que lhe desfazia nas virtudes conjugaes e o olhar de travez que dardejava á phisionomia da desprecatada fidalga.

Uma vez o padre, invectivando contra o seculo, proferiu a palavra «adulterio», como thema de certa historia contemporanea. Venceslau avincou a fronte, recurvou os dedos para as palmas das mãos, fez uma vizagem desabrida de zanga, e cortou de golpe o discurso, sobrevindo com outro assumpto.{233}

Padre Manoel ficou um tanto corrido, e D. Julia suspensa, e até certo ponto inquieta.

Assim que teve ensejo de fallar particularmente com o capellão, pediu-lhe o deputado desculpa do impeto com que o interrompera, e rogou-lhe que, na presença de sua mulher, se abstivesse de contar historias de vicios, e principalmente de adulterios; visto que, em historias d'esta natureza, a moralidade do conto era sempre equivoca, senão era ridicula, como nas comedias de Molière, e de todos os propaladores de taes desregramentos. E ajuntou:

—Se o meu amigo, contando os adulterios das diversas senhoras do seu tempo, rematasse a narração, mostrando-nos o castigo do crime, dou-lhe que não perdesse o tempo, o incutisse saudavel terror no animo das mulheres ou dos homens que não delinquiram ainda...

—Mas o castigo, snr. Venceslau, se não é patente, lá lh'o influe a invisivel mão de Deus na consciencia dos culpados...—objectou o padre.

—Convenho; mas eu não vejo o castigo, nem sequer vejo joeiradas da boa sociedade as mulheres, nem dos altos cargos da republica os homens, cujas consciencias o meu caro snr. padre Manoel Ferreira piamente imagina atormentadas. Essa especie de contos rematava mais edificantemente, se o meu amigo os concluisse d'este feitio: «a condessa de tal atraiçoou o marido, que era um homem de bem, extremoso por sua honra e sua mulher. Um dia, o marido, avisado da traição, matou a mulher, e matou o adultero.» Aqui tem um desenlace{234} tragico, talvez o unico para poder dizer-se n'uma sala sem receio de fazer rir os circumstantes. Tudo mais que não for isto é prudente e honesto que não se divulgue ás pessoas que o ignorarem. Se o conde de tal vive, ha annos, na sua quinta, só, sequestrado do mundo, chorando, dilacerando-se a golpes de vergonha, em quanto sua mulher despejadamente alardêa seus vicios em Lisboa—se era essa a historia que o snr. padre Manoel ia hoje contar a minha mulher, com que moralidade tencionava encerrar o conto? O conde foragido do mundo para se não vêr escarnecido, é a moralidade? A condessa rodeada de cortezãos nas suas salas é a moralidade?

—Não, senhor. A moralidade é que V. S.ª e outros homens honrados não levam suas esposas a casa da condessa.

—Está enganado. Eu conheci n'estas salas a condessa, e ouvi esta senhora, que é hoje minha mulher, chamar-lhe prima. É certo que Julia não irá lá mais, penso eu; mas não é menos certo que muitas damas de regular proceder lá vão.

—Lisboa está assim...—murmurou o padre transigindo.—É o baixo imperio... a libertinagem da França de Luiz XV que chegou a Portugal cem annos retardada, abordoando-se ás muletas da civilisação. As luzes são boas, quando não pegam fogo ao templo das velhas crenças. Corruptio optimi pessima, como diz Horacio. Bem-aventurados aquelles que circumscrevem á familia as regalias do repouso, e cerram as suas portas{235} á ociosidade que se desenfastia a bailar, a jogar, a cacarejar frioleiras nos salões. Cada vez me felicito mais por vêr que V. S.ª vae brandamente reduzindo sua senhora ao socego da vida intima...

—Reduzindo, não, meu amigo—corrigiu Venceslau.—Não se persuada que eu reajo aos desejos de minha mulher. N'esta casa, que é d'ella, faz-se o que sua dona quer. Julia visita quem lhe praz, e recebe quem lhe parece. Acompanho-a umas vezes por vontade, outras com repugnancia; mas vou sempre com o mesmo semblante. É certo que a vejo triste; mas attribuo a mudança á natural e providencial transformação que se vae operando no animo das mulheres da sua edade e na sua posição; além d'isto, póde ser que as saudades da sua amiga Anna Vaz tenham parte n'esta melancolia. Felizmente, Eduardo volta para Lisboa na proxima semana, e eu muito estimarei que a intimidade das duas senhoras se renove como a tiveram em solteiras.

N'este ponto, padre Manoel acudiu a esfregar o nariz, onde era costume acudir-lhe a zanga em pruridos incommodos. Venceslau não reparou n'aquella réplica toda nazal, nem o capellão entendeu fazer commentarios oraes ás suas comichões freneticas. As ideias que lhe obumbravam o espirito eram negras, inexprimiveis, e taes que elle fugia de as repetir a si mesmo, sendo que um demonio contumaz lh'as estava sempre a martelar na fragua da cabeça. Não ha ahi duvidar da esclarecida razão de padre Manoel Ferreira, que sabia latim a preceito e muitas sciencias boas e más; pois,{236} sem embargo, ás vezes via-se tão importunado de satanicas suggestões contra Eduardo, que chegava a persignar-se e a repetir mentalmente o et ne nos inducas in tentationem.

D. Anna e o marido voltaram para Lisboa; mas o affecto da esposa de Eduardo a D. Julia havia esfriado bastante. Poderemos sem grandes deslizes da verdade conjecturar que, no animo d'aquella senhora offendida pelo esposo, a amisade á outra que a fazia soffrer—bem que involuntariamente—cedeu o passo ao amor-proprio e a outros nobres sentimentos. O despeito era inevitavel, embora a sua bonissima condição lh'o demorasse. Este arrefecimento devia crescer á medida que ella deduzisse das tristezas silenciosas do marido vestigios da saudade indomavel; porque, se a saudade era prova da grande valia da mulher não esquecida, razão de mais para que Anna Vaz a considerasse perigosa; e, se o marido á custa de nobres esforços, vingasse olvidal-a, outra razão para que a esposa precavida temesse a reincidencia na aproximação.

Esta, a meu pensar, parece ser a natural interpretação das raras visitas, e essas pouquissimo expansivas, que as duas damas se trocaram.

Entretanto, D. Anna explicava as suas faltas com os cuidados da maternidade, porque já então era mãe. Venceslau achava louvavel a razão, e dizia a sua mulher que a esposa de Eduardo era uma respeitavel dama que se fazia venerar de seu marido, quando não fosse extremamente amada.{237}

Quando estas palavras foram ditas, padre Manoel Ferreira observou com os olhos esconsos que D. Julia mordia o beiço inferior. Não sei o que elle colheu d'este acto. O homem provavelmente julgava que os máos pensamentos tanto podiam pruir no nariz como nos beiços.

Aquelle anno de 1822, trabalhoso e irrequieto para os liberaes, trouxe para D. Julia horas aborrecidas de solidão e irritantes dissabores.

O deputado nunca fôra tão politico e cidadão afreimado. Quatro successos importantes lhe absorviam a maior parte das suas horas diurnas e nocturnas. Primeiro, a independencia do Brazil, d'onde elle inferia que Portugal ficava sendo uma grande cabeça sem cerebro, um gigante paraplegico, bracejando, sem pernas que o movessem. Depois, a reunião das tropas francezas nos Pyreneos, ameaçando cassar as cartas de alforria dadas pelos reis ás nações amotinadas. Em seguida as facções liberticidas conjuradas com o titulo de Junta Apostolica. Por ultimo a formal recusa da rainha D. Carlota Joaquina em jurar a constituição.

Nas fogosas luctas que então se travaram no congresso, entre gladiadores inveterados de absolutismo, e outros exaltados fautores da liberdade, Venceslau Taveira ia na vanguarda dos liberrimos. Os seus discursos poderiam ser acoimados de demagogos, se a audacia dos adversarios não lhes justificassem a iracundia. Depois que a rainha pediu licença para sahir de Portugal, visto que a lei a obrigava não jurando a constituição,{238} as duas parcialidades do congresso defrontaram-se rancorosamente, até ao extremo de se arcarem peito a peito.

Uma noite Venceslau entrou no seu escriptorio, e demorou-se largo tempo a passear agitadissimo. D. Julia, admirando a insolita demora, desceu á livraria, e viu sobre a banca da escripta um par de pistolas novas e um pacote de polvora e balla.

—Pistolas!—exclamou ella—isto que é?... Nunca te vi d'estas coisas!

—São hoje necessarias, minha filha—disse brandamente o deputado, desenrugando a fronte assim que viu a esposa alvoroçada.

—Para quê? tens inimigos?

—Tenho, e enormes: são os mil algozes symbolisados na palavra «despotismo». Hoje, mais do que nunca, me sinto obrigado a combatel-o. Preciso defender a felicidade que me déste. D'antes era eu um homem, que podia morrer, sem o pezar de ser chorado. Hoje, que a vida me é mais cara, mais me devo prevenir na defeza d'ella. Não te assustes, Julia...—proseguiu elle abraçando-a.—O despotismo ainda cá não metteu a garra; mas eu tenho collegas no congresso que nos estão atraiçoando, e já vão tomando nota dos que hão de apontar ás alçadas se o infante D. Miguel for acclamado absoluto. Eu hei de ser o primeiro, se antes d'isso me não poderem apunhalar traiçoeiramente. Contra os traidores é que os homens de bem se armam. Ámanhã espera-se estrondoso escandalo no congresso, onde vae debater-se{239} a recusação da rainha. Eu hei de votar pelo cumprimento da lei que a manda sahir de Portugal; mas suspeito que alguns atrabiliarios lhe vão entoar vivas. Se tamanha protervia couber na alma vendida dos deputados absolutistas, é preciso expulsal-os da camara; e, se reagirem, será forçoso que deixem a vida onde alardearam a deshonra.

—Mas que necessidade tens tu de te arriscares?—perguntou Julia.—És rico, pódes viver tranquillo; em qualquer parte do mundo achas a liberdade sem receios, e a independencia das alternativas da politica... Olha, Venceslau, deixa ficar Portugal aos que o exploram, e vamos viajar.

—Iremos forçados—disse Venceslau—; mas, por emquanto, não. Eu hasteei no congresso a bandeira mais odiada dos despotas. Se eu desertar d'entre os poucos que me seguem, o meu nome ficará infamado de covardia, e a tua riqueza será a alavanca de ouro com que eu arrazei o honroso edificiosinho que ha dez annos estou levantando. Não póde ser, minha querida Julia... O teu amor quer-me desviar d'um perigo onde a tua razão me deve aconselhar que esteja. Conciliaremos o amor com o dever. Quanto mais direitos eu for grangeando á gratidão da patria, por mais digno me hei de ter da tua estima...

—Mas eu—volveu D. Julia com meiguice—desejo que tu não penses mais na patria do que em mim, Venceslau. Não me disseste hontem que Eduardo, desde que era pae, te parecia mais meditativo...{240}

—Sim... disse.

—Pois então, lembra-te que és pae d'aqui a pouco tempo, e que a patria, se tu faltares aos teus filhos, não t'os ha de indemnisar do amor que perderam.

Venceslau beijou a fronte da esposa, e murmurou:

—Minha filha, quando o alento me esmorecer no cumprimento dos meus deveres, anima-me tu, dizendo-me que o sacrificio d'um pae na causa santa da liberdade é um legado precioso a seus filhos. Que elles herdem de ti os bens da fortuna, e de mim a parte que eu tiver na liberdade da patria, para que se não envergonhem de ser portuguezes.

Não era visionario desvairado pela paixão politica Venceslau Taveira.

Quadraram os disturbios das côrtes, no dia seguinte, aos seus presentimentos.

Ventilava-se afogueadamente a questão da recusa de D. Carlota na casa legislativa. Os liberaes pediam o cumprimento da lei com desabrida virulencia, provocada pelos murmurios de alguns deputados sequazes das conspirações de Queluz. Venceslau Taveira, vibrante da eloquencia da justiça, resoluto a pôr peito aos perigos que lhe ameaçavam a singular coragem em meio dos seus correligionarios abatidos pelo terror do exilio, dos carceres e dos patibulos, irrompeu em apostrophes á Junta Apostolica, á facção infame que viera arrebanhar vilissimos escravos ao gremio da representação nacional.

N'esta conjunctura, um deputado dilecto da rainha,{241} por nome Antonio José da Silva Peixoto, coadjuvado pelo foliculario José Accursio das Neves, levantaram-se e proromperam em «vivas» á rainha nossa senhora, e «morras» aos carbonarios, agitando os lenços. Os membros da sua facção, incitados pela audacia dos dois absolutistas, conclamaram a rainha absoluta, e tal houve que no tumultuar do alarido vingou avantajar-se em brados, offerecendo o nome do infante D. Miguel á espectação dos deputados para quem a desthronisação de D. João VI era a traça gizada pela rainha.

Venceslau, interrompido por aquelles brados, perdeu a serenidade do aspecto que sempre mantivera nas mais degladiadas controversias. Os seus collegas convisinhos, coevos das formidaveis tempestades de 93, e identificados ás tradições dos magestosos tribunos da carnificina, disseram que no afuzilar dos olhos e convulsão vertiginosa de Venceslau havia a colera de Mirabeau. Mas este juizo inoffensivamente plastico ficou áquem da ambiciosa comparação, quando o viram correr por entre a camara turbulenta, com duas pistolas aperradas, de encontro ao grupo onde se bradavam vivas a D. Carlota Joaquina.

Difficilmente impedido na passagem, os seus amigos deram tempo a que a facção da rainha se evadisse pela cêrca das Necessidades.

Serenado o tumulto, Venceslau, descido do impeto da ira, e corrido do acto, pediu perdão aos seus collegas; mas assim mesmo appellou da sua propria consciencia, que o accusava, para a justiça dos vindouros; e,{242} como, apezar da prostração moral, a alteza da ideia lhe não fallisse, consta do Diario das Camaras que elle dissera: «aos meus collegas, que estremeceram por me vêr pistolas engatilhadas, peço que se vão afazendo a vêr instrumentos de morte, para que não se aterrem quando, vestidos com a alva de condemnados, se defrontarem com os patibulos.»

Desde este dia, o nome de Venceslau Taveira foi inscripto na lista dos votados á morte nos conciliabulos de Queluz.

Quando o governo descobriu n'aquelle anno a celebrada conspiração da rua Formosa, entre os papeis encontrados no subterraneo da officina typographica, estava um com as bazes do projecto revolucionario.

O artigo 3.º dizia: «Assassinar aquelles entre os membros das côrtes e do ministerio que são os mais celebres defensores dos direitos nacionaes.»

O primeiro nome era Venceslau Taveira.[3]

O conflicto do congresso parecia ter sido apenas um sonho máo no espirito do deputado, quando entrou no seu escriptorio, onde Julia o esperava assustadissima. Um sorriso de paz lhe deu elle com o beijo da sua extrema ternura, e na firmeza de voz e bom concerto das ideias denotava que os transportes de uma coragem honrosa, depois de o abalarem, lhe repunham a alma descansada no reclinatorio da consciencia.{243}

—Fujamos de Portugal!—disse-lhe Julia vivamente.

—Não fujamos, minha amiga... Jantemos—disse serenamente o marido.

E, durante o jantar, perguntou padre Manoel Ferreira:

—E, se V. S.ª, cego na sua justa ira, matasse o Peixoto ou o Neves...

—Ou ambos...—ajuntou Venceslau.

—Sim, ou ambos... suppomos...

—Suppomos...

—Que acontecia?—insistiu o capellão.

—Que elles estavam a esta hora mortos—respondeu o deputado.

D. Julia fitou com certo assombro o placido rosto do marido, e disse:

—Pois tu... eras capaz de matar...

—E de morrer, minha filha.{244}
{245}

XX

É assim o viver.

ALVARES D'AZEVEDO.Obras, tom. III.

Este capitulo abrange o espaço de quatro annos.

Em 1827, D. Anna Vaz tem tres filhos. Eduardo Pimenta perdeu o emprego com grave desdouro de sua probidade politica, por ter acompanhado o brigadeiro Sepulveda ao encontro do infante D. Miguel em Santarem, quando em 1823, José de Souza Sampayo, depois visconde de Santa Martha, e o conde de Amarante, acclamaram o principe, e tentaram nomear uma regencia presidida por D. Carlota de Bourbon.

Venceslau, por affecto a D. Anna Vaz e ao commendador, quiz reintegrar o homem a quem chamava ainda amigo, desculpando-lhe a queda com os fumos da lisonja em que o haviam aturdido as familias da alta nobreza com quem elle se relacionára, já por parentesco{246} de sua mulher, já porque assim cuidava sanear o aleijão de um baixo nascimento. O generoso fidalgo beirão perdoava esta miseria ao filho do lavrador de S. João de Nogueira, cujos primeiros amores já denotavam aspirações levantadas.

Eduardo, porém, rejeitou a valiosa intercessão do amigo, declarando que não queria nada de constitucionaes nem de absolutistas; que não tinha fé nas virtudes civicas de quem quer que fosse, nem sacrificaria a sua dignidade nas aras profanadas de algum idolo. Venceslau sorriu-se áquella negação das virtudes civicas, e de si para comsigo entendeu que Eduardo era um louco, subordinado ao influxo d'algum astro funesto.

Entretanto, o viver do marido de D. Anna Vaz, na sociedade que lhe admirava o talento, a reconsideração de ideias, e os discursos ora scepticos, ora enthusiastas; que lhe admirava tambem a figura, aureolada pelo romanticismo da sua mocidade—o viver de Eduardo Pimenta em meio de espiritos arrogantes, mas ineptos, era o que as lagrimas de sua mulher davam a entender.

Eduardo tinha lido os poemas de Lord Byron. Admirava com inveja aquelle feito e refeito heroe da eterna legenda, onde á volta de um homem fatal se acatovellam dezenas de mulheres a amal-o, a chorar e a morrerem de amor. O dom João fervia-lhe nos miolos, aquecido um pouco pela temperatura calida do sangue, e bastante pelo fogo da phantasia. Isto de phantasia era coisa pouquissimo vulgar em portuguezes d'aquelle tempo, se elles não haviam corrigido lá fóra a sua compleição,{247} prevertendo a boa indole de frades com que até aquelle tempo toda a gente nascia em Portugal—indole provavelmente devida á preponderancia que exerciam os frades no phenomeno das reproducções, psycologicamente fallando.

Allucinado, pois, pelo seu modêlo poeticamente immoral, Eduardo, com quanto não immolasse illustres victimas, e já encontrasse muitas sem sacrificadores, ganhou fama de bem-quisto de senhoras titulares, e realmente era. Contaram-se n'aquelles annos casos de ciumes palacianos em que elle era o personagem menos irrisorio; arrufos conjugaes, projectados divorcios, reclusões em severos claustros, etc.; mas tudo isto eram atoardas que lhe esmaltavam a reputação.

Este genero de costumes involvia despezas grandes, a pompa no trajar, os bailes, a liberalidade no despender em natalicios, o hombrear com os ricos, e deslumbral-os em lances generosos.

Em menos, pois, de tres annos, Eduardo sem officio nem aptidão para tornar lucrativa a sua intelligencia, gastou os quinze mil cruzados do patrimonio e contrahiu dividas caucionadas pelo futuro dote de sua mulher.

Em 1827, o commendador Vaz dissera a Venceslau Taveira que os seus netos chegariam a mendigar, e sua filha, quando elle fechasse os olhos, teria de vender o leito de sua mãe.

A estima do marido de Julia por Eduardo Pimenta diminuira proporcionalmente com os creditos do seu amigo d'outro tempo. O homem austero não podia desculpar{248} o vadio que, depois de bandear-se com os fautores do absolutismo, rejeitára petulantemente o perdão e o emprego, para se andar a fazer praça escandalosa das serodias verduras de rapaz solteiro, com o enfatuamento de homem de boas aventuras. Poucas visitas se faziam reciprocamente; mas d'esta omissão dera o exemplo D. Anna Vaz.

Ainda assim, Venceslau informado pelo commendador, procurou assiduamente Eduardo, instando-o a empregar-se, a cahir em si, a cortar relações que o abysmavam, e a pensar no futuro de seus tres filhinhos, lavados pelas lagrimas da mãe.

A commoção do reprehendido parecia sincera, quando elle se prestou a servir a nação, a quebrar os encantos da sua aziaga estrella, e a restaurar em fim a honra e a felicidade da sua familia.

Amiudaram-se então as visitas de D. Anna, instigadas já pelo marido, que a movêra pela dependencia em que estavam do deputado, já pelo pae que inteiramente ignorava os despeitos da filha, e por amor d'ella e dos netos lhe aconselhava acolher-se ao valimento de Venceslau.

N'este tempo D. Julia tinha dous filhos, ambos meninos, entre tres e cinco annos. A vida domestica, bem que estrellada pelos dous anjos, parecia-lhe escura. A pouco e pouco, o marido, cada vez mais enredado na politica, lhe fôra obrigando suavemente o animo a conformar-se com os deveres de senhora de casa, e a desligar-se da intimidade dos parentes.{249}

D. Julia rica, festejada, sedenta de competir em fausto com as damas de mais voga, reagia surdamente aos affectuosos conselhos de Venceslau. Elle, porém, com habil descrição, ia cedendo ás menores exigencias, e cortando n'estas até a reduzir ao orgulho de não fazer nenhumas—orgulho onde se levedam fermentos de amarissimos resultados.

Casos politicos de importancia um apenas alterou o monotono, mas agitado, duello do liberal contra a tyrannia. Em 1824 foi convidado pelo ministro dos negocios estrangeiros, marquez de Palmella, a ser o secretario particular, o collaborador dos seus notaveis actos diplomaticos. N'aquelle anno, operou D. Miguel o movimento de 30 d'abril, que ficou na historia conhecido pela Abrilada. N'esse mesmo dia foi preso o marquez de Palmella e com elle o seu secretario, á ordem do infante, por intermedio do intendente Belforte; mas já no dia 5 de maio o ex-ministro e Venceslau eram soltos, graças ao corpo diplomatico.

Repostas as coisas no antigo estado, com a sahida do infante no dia 13, Venceslau alcançou empregar Eduardo na secretaria da guerra, abonando-lhe a lealdade, bem que o commendador o quizesse exonerar de tão perigosa fiança.

N'este em meio, o ar de renovada estima que parecia reatar os corações das duas senhoras, emborrascou-se outra vez. D. Anna Vaz valia-se de desculpas com o pae para não seguir o marido a casa de Julia; esta, sem queixar-se ao marido da ausencia da sua amiga, dizia{250} que D. Anna era muito mais affectuosa quando Eduardo carecia de emprego.

Quaesquer que fossem os juizos de Julia, havia um sinistro esculca, de carrancudo aspecto, que parecia querer-lh'os escutar no silencio da alma: era o padre Manoel Ferreira.

Este previsto sabio andava sobre brazas desde que vira o antipathico Pimenta frequentar de novo o palacio das Amoreiras, bem que nunca só, nem a horas desacostumadas, mas sempre acompanhado da esposa, ou quando Venceslau era certo em casa. Se, relançando a vista ardilosa entre Julia e Eduardo, cuidava ter colhido um gesto intencional de ruim sentido, a raiva esbravejava-lhe nos olhos, e as comichões do nariz eram taes que lh'o avermelhavam como irrupção de bertoeja. Que vira elle, afinal? Dois olhares melancolicos e timidos, duas almas silenciosas a confidenciarem-se os seus sombrios destinos.

Ah! mas que dupla vista a do padre!

No fim d'aquelle anno de 1827, uma creada velha de D. Julia despediu-se da casa que servira cincoenta e dois annos. A ama forcejou por demovel-a, interpondo a auctoridade do capellão, cuja confessada era. Baldou-se a interferencia do padre.

Sahiu a creada, deixando grandemente suspeitoso o confessor. Que motivo teria ella para deixar a casa onde já sua mãe havia nascido? Que iria ella fazer em um cazebre de Campolide, sem parentes, só, no termo da vida e tão descaroadamente apartada de Julia que se{251} lhe creára no colo? Perguntas que o padre fazia ao seu familiar demonio, que lhe andava negaceando ás cavalleiras de Eduardo.

Uma manhã, sahiu de casa, e foi a Campolide. Entrou em casa da velha, fechou a porta, deteve-se duas horas, e, quando sahiu, trazia os olhos humidos, as faces enrugadas por mais dez annos de velhice, e as pernas trementes, vagarosas e vergando ao pezo da dôr que lhe empedrára o coração.

Entrou no seu escriptorio, atirou-se para cima da cama, com a face entre as mãos, meditou largo espaço; e, afinal, abalado por subita deliberação, subiu á sala de espera, e mandou pedir á snr.ª D. Julia se fazia favor de descer á sala do archivo.

A esposa de Venceslau descorou. Desde que era casada, nunca o padre a chamára a intender em papeis do archivo. A sahida da creada, e a auctoridade do confessionario, pareciam dar-lhe horas crueis, denunciadas pela fixidez averiguadora com que fitava o capellão.

Desceu a fidalga ao archivo. O padre esperava-a com a mão na chave. Apenas ella entrou, correu a lingua da fechadura; e, mantendo-se em pé defronte da senhora, disse:

—Como eu soubesse que V. Ex.ª estava perdida...

—Perdida!...—interrompeu D. Julia.

—Não me interrompa, senhora. Como eu soubesse que V. Ex.ª estava perdida, consultei a alma de sua virtuosa mãe e de seu honrado pae, pedindo-lhes que me inspirassem. O milagre de a levantarem do seu abysmo,{252} não podiam elles fazer-m'o; porém, fechar esse abysmo aos olhos de seu marido, isso sim, isso lhes pedi com estas lagrimas que estou chorando na sua presença...

—Mas que é?... que vae dizer-me?... que calumnias?—disse precipitadamente D. Julia, gesticulando uns movimentos de cabeça e braços que arguiam mais terror que assombro.

—Não gastemos exclamações, minha senhora. Eu não sou capaz de accusal-a sem a certeza de que V. Ex.ª é criminosa. Respeito-a na queda, porque a conheci e amei na pureza dos anjos. Não sou ecco de calumnias. Sou uma das pessoas que tem o segredo da sua desgraça. As altercações são inuteis, são extemporaneas. Não percamos tempo. Responda, snr.ª D. Julia: afóra a creada, que sahiu d'esta casa, e eu que brevemente sahirei, quem sabe esta grande desgraça? Quem viu aqui entrar, a horas desencontradas de seu marido, esse ingrato e infame homem?

—Ninguem...—balbuciou D. Julia, tapando o rosto com as mãos. Depois, sacudindo a cabeça com impetuosa colera, perguntou:—A quem devo eu a desgraça? quem fez este casamento?... quem me aconselhou a victimar a minha liberdade a um homem que me fez envelhecer em contacto com o gelo da sua alma? Eu não precisava de um sabio, snr. padre Manoel, para ser feliz. Deixasse-me estar solteira, que eu era virtuosa...

—Tudo que fiz, minha senhora, V. Ex.ª m'o auctorisou... Não discutamos... A minha razão perturba-se,{253} e eu depois receio que a snr.ª D. Julia não tenha um amigo que a salve. Se a consciencia me arguir de ter eu sido o agente d'este casamento, e eu não podér combatel-a, creia que morro de dôr, de vergonha e remorso. Não me diga tal, que me obriga a ajoelhar diante de seu marido a pedir-lhe perdão de lhe haver dito que V. Ex.ª havia de ser honrada como sua mãe.

—Virgem Maria!—exclamou anciosa D. Julia.—Não faça isso... pedem-lh'o os meus filhos...

—E não lhe pediram seus filhos que fosse honesta?...—replicou severamente o capellão.—Ter dois filhos, dois anjos da guarda, dois amparadores, affectos tão grandes com que encher a sua alma... ter dois filhos... e resvalar por entre elles á voragem!...

—Olhe que me despedaça!...—murmurou ella, contorcendo-se, em postura supplicante.—Lembre-se de meu pae...

—Seu pae... matal-a-hia... Eu, por mim, choro-a... porque não pude saber isto um dia antes da sua perdição... não pude salval-a eu... a quem seu pae a entregou...

Padre Manoel arquejava, debulhado em pranto, fincando os pulsos na fronte.

—V. Ex.ª... a snr.ª D. Julia...—proseguiu elle—aquella menina que eu adorava... está ahi... polluida... por quem, meu Deus?... Onde aquelle scelerado veiu continuar as devassidões das alcovas em que achou já perdidas as mulheres... V. Ex.ª... a esposa{254} de Venceslau Taveira... amante do miseravel esposo da sua infeliz amiga D. Anna Vaz!...

D. Julia, mortalmente pallida, sentou-se, expedindo um ai gemente, um som rouco das valvulas do coração, como se o sangue lhe confluisse a torrentes. Não seria facil decidir se era remorso, se vergonha, se colera: seria tudo a um tempo.

Aproximou-se o padre, tomou-lhe a mão fria, e disse-lhe com brandura:

—Olhe que só Deus é testemunha do que eu lhe disse... Eu hei de sahir d'este mundo sem a denunciar... Reanime-se, que eu não hei de ser-lhe peor algoz que a sua propria consciencia... Eu vou sahir d'esta casa... porque a presença de seu marido, d'hoje em diante, seria para mim o maior tormento... Não posso encarar aquelle honradissimo homem... vituperado, trahido... e por quem?... Ó meu Deus—clamou elle pondo as mãos—porque não me déstes o beneficio da morte antes d'esta horrivel certeza!

D. Julia soluçava, debatendo-se, ora afogando as faces nas mãos, ora erguendo-as supplicantes.

E o padre, contemplando-a n'aquelles desesperados movimentos, disse:

—Eu cuidei que o crime endurecia mais a coragem para lhe affrontar as consequencias. Pois nunca previu o remorso? Não conhecia o homem que a chafurdou na lama das libertinas das suas sordidas proezas? Não o comparou com seu marido?{255}

Estas phrases duras e hervadas batiam tão pungentes no peito da atormentada mulher, que o padre, olhando-a já compassivo, imaginou vêr-lhe no rosto a lividez cadaverica da mãe que morrêra thysica.

Acercando-se então d'ella com brandura e lagrimas na voz, continuou:

—Snr.ª D. Julia, peço-lhe emenda de vida... Não sei que mais possa nem deva pedir-lhe. Promette-me, senhora, promette nunca mais...

Foi n'este passo interrompido o padre por um gesto afflicto de Julia.

No mesmo lanço do rez da casa do archivo, estava o páteo da casa, onde, n'aquelle instante, soavam uns passos que ella reconheceu.

Era Venceslau Taveira, que se antecipára duas horas.

D. Julia subiu celeradamente as escadas, entrou no seu quarto, compoz o semblante, e cogitava indecisa no que diria ao marido se lhe elle notasse a desfiguração.

N'este comenos, entrou elle na ante-camara, chamando-a.

Ella sahiu, e elle, ao vêl-a, disse-lhe:

—Choraste?... Então já sabes alguma coisa da pobre Anna Vaz?

—Não... que é?...

—Pois não sabes?... porque choraste, filha?

—Tristeza... dôres de peito... o presentimento da morte...{256}

—Ó filha...—disse elle acariciando-a.—Que lembrança!... Deixei-te alegre, a brincar com os filhos... Que tens tu, Julia?

—Nada...

Esta palavra deu nos labios tremulos de Julia um sonido gemente, ao mesmo tempo que as lagrimas a quatro deslisavam nos cantos da bocca.

E Venceslau mergulhava uma profunda vista d'alma no abysmo d'onde sahiam aquellas lagrimas. Tudo trevas.

—Eu suppuz que a pobre Anna Vaz te escrevêra...—tornou Venceslau, procurando desassombrar o silencio em que estiveram alguns segundos.

—Não...—disse ella, cobrando alento do insuspeito ar do marido.

—Recebi este bilhete do commendador, e sahi immediatamente das côrtes. Lê... Eu t'o leio. «Meu nobre amigo. Vae hoje um inferno n'esta casa. Romperam-se os diques da prudencia. A minha santa filha, por já não poder com o martyrio, insurgiu contra o algoz. Sei que o facho d'este incendio, que me queima o restante da vida, é o ciume; porém, a nobre menina, se eu lhe pergunto a causa nova d'esta insupportavel affronta—insupportavel em relação d'outras que soffreu com paciencia—chora, e não me responde. Rogo-lhe, meu querido Venceslau, amparador do meu chorado Antonio, que o seja tambem da malfadada irmã. Venha applacar esta feia tormenta que ameaça engulir a vida da minha infeliz Anna.»{257}

—Aqui tens a carta—proseguiu Venceslau.—Não quiz lá ir sem te avisar. Se quizesses ir tambem...

—Não posso...—disse ella no maior grau de quebranto moral.—Vae tu... depois me dirás... Vae...

E apertou-lhe a mão estremecidamente.

—Tens fogo n'esta mão... acudiu o esposo com enternecido susto.

—É febre... disse ella, fitando-o piedosamente.{258}
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