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Livro de Consolação: Romance cover

Livro de Consolação: Romance

Chapter 21: XXI
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About This Book

This work presents a narrative that explores themes of love, loss, and the complexities of human emotions through a series of reflections and experiences. It delves into the trivialities of everyday passions and the impact of societal norms on personal relationships. The author employs a contemplative tone, inviting readers to consider the deeper meanings behind seemingly mundane interactions. The structure is characterized by a blend of introspective passages and descriptive prose, creating a rich tapestry of thoughts that resonate with the reader's own experiences of affection and sorrow.

XXI

C'est un mort..............................
Que cette horrible fin puisse épurer son âme.

PONROY.Formes et couleurs.

Quando Venceslau entrou ao pateo do palacete do commendador, andava elle passeando no casarão rente da rua, recinto abandonado onde se viam as reliquias de equipagens, significativas de antiga e extincta opulencia.

—Nunca o encontrei aqui, meu commendador!—disse o deputado.—Está no seu museu archeologico... Estas carruagens devem ser as locomotivas que transponham a ideia velha para fóra das fronteiras, quando a mandarmos civilisar-se a Argel... Mas não lhe vejo rosto para gracejos... Que temos? onde estão os ciumosos?

—Lá em cima, e eu fugi para os não ouvir... Escute... Não ouve chorar minha filha?... Escute... olhe...

—Ouço.{260}

—Vá lá, meu amigo. Estão na salêta proxima do quarto. A sua presença ha de conter Eduardo, e evitar que a pobre menina seja enxovalhada por algum insulto de lacaio. Olhe que brados elle está dando em quanto ella chora... Que verdugo!...

Venceslau subiu á primeira sala, passou á segunda e entrou n'um longo corredor que abria na ante-camara de Eduardo. Quando chegou a meio do corredor, pareceu-lhe ouvir o nome de Julia entre os soluços de D. Anna Vaz; e, ao mesmo tempo, um estropear de passos rapidos, que lhe levavam para mais longe as vozes já indistinctas.

Hesitou se devia atravessar a ante-camara, e seguil-os no interior da casa ou retroceder; mas os gritos supplicantes da amiga de sua esposa attrahiam-no, commiserando-o.

Bosquejemos a parte da casa onde está passando o conflicto.

A saleta, em que principiou a vigorosa altercação, exacerbada muitas vezes n'aquelle dia, tem tres portas: uma que abre para o corredor onde está Venceslau; outra que diz para a alcova onde demoram os leitos dos tres meninos; e a terceira que leva á camara dos esposos. N'esta camara ha outra porta que communica para outros repartimentos, por entre os quaes ha escada para um patim, que dá sahida para o quintal ajardinado. Esta era a serventia regular de Eduardo, quando recolhia tarde, entrando pela porta do quintal que entestava com a rua dos Cavalleiros.{261}

Ao avisinhar da salêta colligiu Venceslau que Eduardo, seguido da esposa, que talvez o ia retendo em grandes clamores, sahiu do quarto, e evadiu-se pelo interior da casa, descendo ao quintal para esquivar-se ás importunas lastimas.

N'esta acertada conjectura, deliberou Venceslau seguil-os, bem que ainda, ao entrar na salêta, o contivesse o decoro de atravessar uma alcova de esposos.

Durante os breves segundos da perplexidade, reparou em papeis dispersos no pavimento. Suppoz que eram cartas occasionaes da desordem, talvez colhidas ardilosamente nas algibeiras do imprevidente marido.

Venceslau envergonhar-se-hia da sua sombra, se se curvasse a devassar alguma d'aquellas cartas; mas, sobre uma banqueta que occupava o centro da ante-camara, estava meio amarrotado um papel escripto, cujos caracteres deram logo e mais de perto na vista de Venceslau.

Era lettra de D. Julia.

Hesitou ainda em lançar mão do papel; mas a particularidade dos signaes impressos na carta por mão que a enrugasse, estimulou-o a vêr que phrases deram causa ao phrenesi de Eduardo. Tanto quanto a rapidez de tal juizo consentia, Venceslau imaginou que o pessimo marido se exasperára, talvez, por ter lido cartas de compaixão de Julia para a sua mortificada amiga.

Pegou do papel, distendeu-o, leu a primeira palavra no alto da lauda, alisou um vinco onde uma lettra parecia desfeita, releu e... vibrou-se todo no estremecer{262} dolorosissimo de homem que um subito ferro encravou pelo peito. A palavra era querido. A lettra final d'ella não era um a.

Leu a carta rapido, offegante, respirando a trancos, sopesando o arfar do peito. Dizia assim:

«Calcula a minha inquietação, meu E.! Não pude dissuadir a creada... Sahiu, regeitando todas as minhas dadivas. Foi uma desgraça que ella te visse... Devo isto ás tuas imprudencias. O que mais me assusta é o padre, que está espantado com tal sahida. Elle tem sido o confessor d'ella. Se a interrogar no confessionario, arranca-lhe o segredo. E depois?... que hei de eu fazer?!... Espero que o padre me não denuncie... mas com que olhos me ficarão espionando os passos!... Não voltes aqui em quanto eu não te avisar. Vae todas as tardes ao logar que sabes. Lá irá ter a minha carta; mas, repito, não voltes aqui sem que eu t'o diga. Prudencia, ouviste? Olha que a situação é muito seria... Tenho-te dito muitas vezes que o V. é capaz de tudo... Adeus. Cuidado com as minhas cartas...»

Venceslau, terrivelmente sereno, depoz o papel sobre a mesa, retrocedeu ao longo do corredor, e, no fim, parou, escutando passos em uma das salas. A este tempo já elle ouvia o chorar de D. Anna que tambem retrocedêra para o seu quarto. O andar, que escutava, era do pae de D. Anna que subira para as salas e estava esperando o effeito da intervenção do amigo.

Venceslau, estugando o passo surdamente, passou{263} sem rumor na alcatifa da sala de espera, desceu a escada, e sahiu á rua.

O commendador, entretanto, como não ouvisse vozes, mas sómente o arquejar da filha, murmurando: «ah! pobres creancinhas!» seguiu o corredor, e foi dar com ella apanhando do chão as cartas espalhadas.

—Que papeis são esses?—perguntou o commendador.

—Nada, meu pae... cartas...

—O Venceslau sahiu com Eduardo?

—O Venceslau!—disse ella com espanto.—Onde está elle?!

—Veiu para aqui... ha de haver cinco minutos... não o viste?

—Não, meu pae! Elle esteve aqui? aqui? n'esta salêta?—exclamou Anna.

—Esteve, sim, filha.

—E viu estas cartas?—bradou com as mãos afincadas nas fontes.

—Se viu estas cartas?... Eu sei lá, filha... O Venceslau era incapaz de ler papeis que estivessem no teu quarto... Mas, se essas cartas são o que eu entendo, que importaria que as visse?

—Jesus! Virgem Santa!—volveu D. Anna, enclavinhando os dedos, e estirando os braços supplicantes para uma imagem da Mãe de Christo.

—Mas onde está elle?—tornou o velho.—Se não sahiu pelo quintal, por onde é que foi? Eu estava na sala do meio, e não o vi passar na sala de espera...{264}

—Não? não viu?...—perguntou ella precipitando as vozes acompanhadas de gestos de pavor.

—Não, menina...

—Então é que viu as cartas... sabe tudo... sabe tudo...

—O que?—acudiu o commendador assombrado.

—Ai! quem fosse procurar Eduardo...—exclamou ella, agitando-se d'um para outro angulo da salêta—ó meu pae, salve-o, salve-o; mande procurar meu marido, que Venceslau mata-o... Estas cartas são de Julia...

—De Julia?!—bradou o velho, encostando-se tremente ao alizar da porta—De Julia? Julia é amante de teu marido?... Venceslau foi deshonrado pela mulher?... Oh! não me digas isso, filha!... Tu estás cega pela paixão do ciume... Deixa-me vêr essas cartas...

—Não queira vel-as... não queira... Mas, meu pae, olhe que o Venceslau mata Eduardo... Acuda aos seus netos...

O commendador fitou na filha os olhos chammejantes de odio, que raiára de sangue o alvor do spasmo, e murmurou:

—Se o matar... matou o mais infame dos homens... porque matou o assassino da felicidade, da honra e do futuro do seu bemfeitor...

—Mas...—insistiu Anna com as mãos postas—mas eu amo-o... eu quero que elle viva... fugirei com elle e com os meus filhos para onde o pae quizer que vamos... Deixe-me ir a mim procural-o...{265}

—Não sahirás d'esta casa... Não sei se é sangue, se lodo que te gira nas veias... Não sahirás d'esta casa, Anna!... e se teu marido aqui voltar, quem o mata... sou eu!


Simultaneamente com a prolongada lucta entre o velho inflexivel e a dilacerada alma d'aquella santa, recebia D. Julia este bilhete do marido:

«Juliazinha, era uma tormenta de ciumes que deixei abonançada. Não te dê cuidado. Depois d'estas borrascas, reponta no céo dos amantes a serena claridade. O ministro mandava um correio procurar-me, quando eu chegava a S. Roque, já de volta para casa. Tive de retroceder, e sei que tenho tarefa até á meia noite. Não esperes por mim. Janta. Se eu podér desembaraçar-me, irei; mas não poderei, porque ha reunião de deputados no ministerio dos negocios estrangeiros. Adeus, querida. Teu V.»

D'esta carta, assim placida e amoravel, transluziu-se no animo alvoroçado de Julia receio e desconfiança.

Deu-se pressa em escrever com febril agitação. Chamou um lacaio, confidente unico, e deu-lhe uma carta.

Eram cinco horas da tarde.

O lacaio foi encontrar-se com Eduardo Pimenta debaixo dos arcos das Aguas-livres.

Deu-lhe a carta, em que Julia concisamente lhe pedia que não a procurasse, mas lhe escrevesse a referir-lhe os acontecimentos domesticos d'aquelle dia. Á intimação positiva de lá não ir, nenhuma explicação ajuntava.{266} «Elle—concluia a carta—escreveu-me agora, dizendo-me que só vem á meia noite; mas eu estou muitissimo assustada. Não venhas.»

Eduardo pesou as apprehensões de Julia, e não lhes achou gravidade. O creado esperava alguma resposta vocal.

—Não digas nada á senhora—ordenou-lhe o generoso confidente—mas ás dez horas abre-me a porta da cocheira; e, depois que eu lá estiver, então irás dizer á senhora que eu entrei.

Dito isto, foi ao Hotel de França, na praça dos Romulares, saboreou os acepipes do condimentoso jantar, digeriu-os em alegre palestra com os convivas, conversou das logrativas lorettes de França, das alabastrinas mulheres de Londres, das morenas de Sevilha, das pallidas de Lisboa, e fez-se ouvir e invejar dos admiradores de seu espirito e das famosas aventuras.

Ás nove horas e meia, carregou pela quarta vez o seu cachimbo de procelana e ouro, apertou a mão dos discipulos e sahiu.

Ás dez entrou na estrebaria do palacio das Amoreiras, e enviou o recado á fidalga, quando ella estava no seu quarto contemplando os filhos adormecidos.

Por volta das onze, padre Manoel Ferreira, cujos aposentos nivelavam com o jardim, ouviu que lhe batiam mansamente na vidraça de uma janella. Collou o ouvido ás portadas interiores, e perguntou assustado quem era.{267}

—Abra a janella, padre Manoel—disse Venceslau a meia voz.

O capellão reconheceu-o, e disse que ía abrir a porta.

—A porta não... a janella...—insistiu o outro.

Cumprida a ordem, Venceslau Taveira transpoz o peitoril.

—Que é isto?! Snr. Venceslau, porque entra d'esta maneira em sua casa?!—perguntou o padre a tremer de susto.

—Abra o mais subtilmente que poder.

E apontava-lhe para a porta de communicação com o pateo onde estava a escada de serventia para o andar nobre.

—Agora—disse Venceslau, sahindo—não me siga.

—Ó snr. Taveira!... onde vae?...—balbuciou o padre.

—Sabe onde vou?!—inquiriu severamente o marido de Julia.

—Não, senhor.

—Então porque se assusta?

—Estranho isto...

—Bem. Fique!—respondeu sêccamente.

Minutos depois, D. Julia, pondo a mão nos labios de Eduardo, segredava-lhe:

—Espera... não ouviste nada?...

—Não...

—Pareceu-me ouvir uns passos abafados na sala...

Eduardo fitou o ouvido, e apesar de pallido e enfiado, murmurou:{268}

—Não é nada...

N'este lance, abriu-se a porta da salêta, como se a impellisse um repellão de vento.

Entre as hombreiras da porta estava Venceslau com uma pistola empunhada.

Julia, já de pé, soltou um grito estridulo, e fugiu para o quarto onde estivera contemplando os filhos.

Eduardo, ao levantar-se, fêl-o como de um salto de cadaver sacudido pela electricidade: tão de morto era a amarellidão do seu terror! Ergueu os braços inteiriçados. É impossivel conjecturar se o impulso d'aquelle movimento de indefinivel agonia era aggredir ou supplicar. A pederneira da pistola estalejou na cassoleta. Um dos braços de Eduardo retrahiu-se, e a mão, batendo rija no lado esquerdo do peito, parecia querer reprezar a vida no ponto onde entrára uma bala. Rodou meio giro sobre si, amparando a fronte na outra mão; e, resvalando pela espalda da cadeira onde estivera sentado, cahiu vasquejante.

Venceslau atravessou a salêta, e parou no limiar da alcôva.

Os meninos tinham acordado ao troar do tiro. Estavam sentados na cama, espavoridos, com os loiros cabellos riçados em anneis, e os olhos spasmodicos, brilhantes, fitos na mãe que os abraçava, e escondia o rosto entre elles.

—Não se aterre, senhora!—disse serenamente Venceslau.—Olhe que não morre... Essas creanças não tem pae... é preciso que tenham mãe... Se fossem meninas,{269} se d'essas creanças podessem fazer-se mulheres, seria misericordioso estrangular as futuras herdeiras da sua infamia... Viva... peça a esses dous innocentes que a defendem da morte do remorso... E, se elles algum dia lhe perguntarem pelo pae, diga-lhes que as mulheres perdidas não sabem quem é o pae de seus filhos...

O homicida atravessou a salêta, relançando um olhar inexprimivel ao cadaver.

Quando sahia, viu o padre, que difficilmente se tinha em pé, com as mãos postas para elle.

—Snr. padre Manoel—disse o marido de Julia—tenha a bondade de procurar ámanhã no Limoeiro o assassino Venceslau Taveira.{270}
{271}

XXII

Seule, elle reste assise, et son front sans couleur
Du remords qui s'approche a dejà la pâleur.

A. DE VIGNY.Poesies.

Venceslau esperou o diluculo do dia seguinte, nas lages do Caes das Columnas onde a ventania do mar, encrespando o Tejo n'aquella noite de novembro, borrifava aguaceiros glaciaes.

Mas elle, enroupado na sua febre, sentia refrigerar-se-lhe a fronte, se os pegões de vento lh'a roçavam, irriçando-lhe os cabellos.

Ás vezes, n'aquella treva exterior, relampagueava um sulco de luz. E elle, ao clarão sulphuroso do corisco, via um cadaver boiando á flor da onda, e então era um rir asperrimo do louco—a epilepsia dos beiços onde espumava o rancor; e, logo depois, chorava, se, ao lampejo alvacento d'outra fulguração, via um berço com{272} duas creanças queridas, acorrentado no esquife de uma mulher, que a voragem ora sorvia, ora regolphava aos clarões da procella.

Não meditava, não comparava, não carpia os bens da honra perdidos, nem se confrangia das punhaladas do coração. Era a agonia estupida.

Os syndicos da alma, quando se demoram a descrevel-a n'aquella impenetravel escuridão, illudem-nos. Nós não sabemos graduar o frio e o fogo d'esses infernos. Os que passaram por ahi, não sabem dizer o que viram. A fantasia dos que lá não foram, por mais calcinadas que lhe flammegem as imagens, apenas vingará dar-nos em sombra as vascas do corpo que se esfacella; as da alma, não.

Á primeira luz da manhã, Venceslau parecia ir caminho da casa onde deixára um cadaver. Não ía. Parou na travessa do Secretario da guerra, onde morava o corregedor do crime José Antonio da Silva Pedroza, seu companheiro de emigração.

Fez-se annunciar a tempo que o magistrado ainda dormia. Não o attenderam os creados que o não conheciam. Sentou-se no escabello do pateo, esperando. Mais tarde entrou um official de justiça que conheceu o grande orador, o rico fidalgo das Amoreiras. Cortejou-o reverentemente, e foi acordar o corregedor, dizendo-lhe que o conselheiro, official-maior da secretaria dos negocios estrangeiros, o esperava no pateo desde o romper da manhã.

O magistrado, erguendo-se em inquieta expectação,{273} foi recebel-o á sala, e fez pé atraz ao vêr-lhe o transtorno das feições.

—V. S.ª a estas horas aqui?... grande caso!... Ha revolta?...

—Snr. Pedroza—disse Venceslau.—Vi um homem na ante-camara de minha mulher. Matei-o. Não sei se era o crime que o levou alli, se a intenção do crime. Matei-o. Eu era amigo d'este homem, amigo de dezeseis annos, valedor nas suas miserias, consolador nas suas lagrimas. Matei-o, porque o tinha amado como os infelizes bons amam os infelizes bons e máos.

—Snr. conselheiro—disse o corregedor.—Nós fômos companheiros no desterro. V. S.ª tinha dois amigos: um era Antonio Vaz que lhe morreu nos braços; o outro era...

—Matei esse...—atalhou o homicida.

—Bem morto...—murmurou o juiz.

—A justiça me julgará.

—Está julgado; mas fuja... cá o livraremos.

—Não fujo. Dê-me V. S.ª um mandado de prisão para me eu apresentar ao carcereiro. Desde o momento que me accusei ao executor da lei, estou preso.

O corregedor abraçou-o, dando livre curso ás lagrimas.

Como não tivesse áquella hora escrivão que lavrasse o mandado, escreveu ao carcereiro, enviando-lhe o preso que deveria ser hospedado em sua casa.

N'aquelle tempo os ministros criminaes podiam ter{274} d'estes rasgos, sem receio que a imprensa lhes lembrasse a egualdade dos criminosos perante a lei.

Em quanto o preso seguia só para o Limoeiro, o corregedor mandava lavrar auto, e entregar o cadaver á viuva, ou ao coveiro da mais proxima egreja.

Quando Venceslau chegou ao pateo da cadeia, já lá estava o padre Manoel Ferreira.

O réo apertou-lhe a mão silenciosamente, e enviou ao carcereiro a carta.

Acudiu logo o funccionario a conduzil-o aos seus aposentos.

—Onde é o meu quarto?—perguntou o preso.

—É toda a minha casa, snr. conselheiro.

—Não lh'a acceito, mas muito grato lhe fico. Se me quer favorecer, dê-me um quarto, onde eu esteja sósinho.

—Ninguem virá incommodar V. S.ª sem sua ordem.

O carcereiro sahiu da confortavel salêta onde ficaram o preso e o capellão.

Assim que ficaram a sós, o padre apertou-o contra o peito que lhe rebentava em lagrimas.

Venceslau não pôde reter as suas; porém, se o padre queria abrir ensejo de conversarem sobre os successos d'aquella noite, era estorvado por um gesto afflicto.

Não obstante, o capellão pôde dizer que D. Julia tinha sahido ás duas horas da manhã com os filhos para a sua quinta da Ericeira, e que não deixára ordem nenhuma a respeito da casa.{275}

—De mim não tem ordens a receber, snr. padre Manoel—acudiu Venceslau.

—Pois de quem?

—Essa pergunta diz mal com a sua provada honra. Na casa, onde V. S.ª é capellão, deixei uns poucos de livros, que receberei, porque são os utensilios do meu pão de cada dia. Recebel-os-hei porque sou pobre; e porque a Providencia me ha de defender com elles a razão, e corroborar a honra.

—Mas os seus filhos...—balbuciou o padre.

—Silencio!—interrompeu Venceslau.—Por piedade, calle-se... e deixe-me! Que novo inferno me vem trazer aqui!... Meus filhos!... Filhos d'ella, sim, padre! filhos da mulher a quem eu deixei um cadaver, sobre o qual, ella... e elles... podem rezar suffragios por alma de... seu pae!

—Oh! por Deus!... Essa suspeita é horrenda... e injusta!...

—Basta!—bradou Venceslau.—Vá, snr. padre Manoel, que me está despedaçando...

E levou-o até á porta impellindo-o com quanta brandura cabia na delicadeza, incompativel com o arrebatamento.

O padre foi encontrar a justiça no palacio das Amoreiras. Os aguazís e visinhos devassavam a alcova de Julia, os leitos, os vestidos em desalinho nos cabides, a guarda-roupa estofada de setins e velludos, as roupas brancas das creancinhas, os sapatos da fidalga com as{276} fitas de rojo, e alli á beira de tudo isto, que respirava a felicidade conjugal, as delicias da intimidade, estava um cadaver rôxo, nú para o exame, com uma chaga escalavrada entre a quarta e quinta costella, e uns meandros de sangue denegrido a serpejarem-lhe peito abaixo até á cintura.

D'ahi a pouco parou a sege funeraria que devia conduzir a tumba a casa da viuva. Era acompanhada por seis homens de crepes, a pé, com os cirios apagados pelas rajadas do vento.

Padre Manoel perguntou ao escudeiro do commendador qual era a situação de D. Anna Vaz.

—Está fechada com os filhos e com o snr. commendador—respondeu o escudeiro.—Ouvi chorar os meninos, mas ella não na ouvi. A aia disse-me que a senhora morre.


{277}

 

 

 

 

Todos os homens assignalados por talento e encargos publicos procuraram o preso. No primeiro dia, Venceslau, sem força para reagir, recebeu-os. A visita era silenciosa, funeral, como a dos que vão desanojar um viuvo extremoso. O encarcerado apenas chorou nos braços de um homem que lhe disse: «Dou-te os parabens, porque a não mataste. A tua condemnação maior, e talvez unica, ser-te-hia haver morto a mulher, que amaste tanto.» Então, sim, chorou. O homem que disse aquellas palavras, tão penetrativas aos abysmos do coração, chorava, quando m'as repetia, quarenta e um annos depois. Era o tenente de cavallaria, que em 1868, se chamava o general Pedro da Silva, a quem devo o titulo d'este livro.

E, se bem me recordo, o general proseguiu n'este theor, referindo-se á epoca do encarceramento:{278}

«O padre Manoel Ferreira e eu eramos as unicas pessoas recebidas no quarto de Venceslau, o n.º 6 do ultimo andar, onde, n'aquelle tempo se lia ainda aberto no alisar de uma porta o nome de Bocage que alli estivera preso por atheu. O padre Manoel Ferreira, não ousava proferir o nome de Julia; mas particularmente me contou a mim que ella na madrugada do dia seguinte á grande desgraça, soffrêra uma febre cerebral, indo na sege, caminho da Ericeira. E ajuntou, nas diversas vezes que a tal respeito conversamos, que a doença de peito com successivas hemorragias, ia tão adiantada que, na opinião do medico, os tecidos pulmonares estavam dilacerados. Pedia-me então o padre que fosse eu preparando Venceslau para dispôr dos filhos, logo que ella expirasse.

«Ora eu evitava quanto podia fallar em creanças, porque o meu amigo reconcentrava-se; e, se as lagrimas o não desabafavam, a dôr prostrava-o por tal maneira que fazia recear a loucura. Os filhos do carcereiro visitavam-no. Elle acariciava-os com uns carinhos tão doces e ao mesmo tempo tão angustiados, que eu tive de pedir ao pae dos pequeninos que os prohibisse de ir ao quarto do preso.

«Venceslau era indifferente ao processo; mas a justiça, independente de solicitações, andou tão pressurosa nos seus deveres, que em meado de janeiro—mez e meio depois do delicto—o réo foi julgado e absolvido.

Á sua entrada no tribunal fez-se um rumor de compadecido assombro. Venceslau, que então contava trinta{279} e sete annos, tinha encanecido. Os sulcos da velhice, abertos pelas lagrimas, arrugavam-lhe o rosto, cujas feições pareciam estar como atrophiadas, paradas, immoveis d'aquelle sombrio marasmo da demencia estupida e morta.

«Ao sahir do carcere, entrou na carruagem do marquez de Palmella, que então era nosso ministro em Londres, e de lá providenciára em favor do seu intelligente secretario e collaborador no ministerio dos negocios estrangeiros. Por conselho dos medicos, levamol-o para a quinta do marquez, no Lumiar, onde eu passei com elle as horas vagas do serviço militar, até fevereiro do seguinte anno de 1828, em que chegou D. Miguel.

«Estavamos em uma sala triste por tarde tenebrosa de janeiro, quando chegou padre Manoel Ferreira, e me chamou de parte, para me dizer entre soluços que a infeliz D. Julia tinha morrido, pouco depois que em confissão lhe jurára pelo futuro da sua alma, e na presença da sagrada Eucharistia, que Venceslau era o pae dos seus filhinhos.

«—E onde estão os meninos?—perguntei eu ao padre.

«—Deixei-os entregues ás suas amas, e venho saber que destino devo dar-lhes.

«—O snr. padre Manoel—disse eu—tem n'este lance a uncção religiosa que requer semelhante revelação. Revista-se de animo, e diga-lh'o, porque é inevitavel avisal-o, e não póde espaçar-se a noticia.

«O padre entrou á sala onde Venceslau, ao pé do{280} fogão, parecia amolentado n'um lethargico dormir em que passava os dias e as noites, como se o cerebro, a pouco e pouco, se estivesse repassando da narcotisação da morte.

«O padre apertou-lhe a mão, espertou-o, e quedou-se longo espaço a contemplal-o, até que Venceslau lhe disse:

«—Porque chora, padre Manoel?

«—Choro por seus filhos...

«—Não venha ensopar mais fel na esponja...—murmurou Taveira.

«—Venho pedir-lhe que consinta que seus filhos o vejam. As creançinhas já não tem mãe. A snr.ª D. Julia é morta.

Venceslau ergueu-se amparado nos braços do capellão, encarou-o muito a fito, e tartamudeou:

«—Que diz? morta?...

«—Rendeu o espirito a Deus, ás duas horas da manhã, na sua quinta da Ericeira. Quando o vigario lhe ministrava a extrema-uncção, a moribunda chamou-me, e, pondo as mãos nas cabeças de seus filhos, disse-me: «Juro-lhe, na presença de Deus, onde vou dar contas da minha vida, que Venceslau é o pae d'estes dous innocentinhos, que vão ficar sem mãe.» Duas horas depois, estava no tribunal divino.

Venceslau inclinou a fronte ao peito do padre, e murmurou: «perdôa-lhe, ó justiça divina!...»{281}

XXIII

Do ferro o peito atravessado tinha
De que o sangue ainda fresco lhe manava.

GABRIEL P. DE CASTRO.Ulyssea.

Os amigos do marquez de Palmella compelliram Venceslau Taveira a sahir para Londres, quando os primeiros actos precursores do absolutismo deram rebate á emigração dos liberaes mais expostos ao odio.

Sabia-se que o fogoso deputado era, sem impedimento da sua queda, rancorosamente visto pelos realistas, que lhe sobrepunham aos delictos de liberal a sobrecarga de assassino.

A vasta parentella da viuva de Eduardo Pimenta conjurára em vingar a inconsolavel senhora, inflexivel contra o homem, que lhe matára o marido, e deixára com vida a mulher em cujo quarto o encontrára. N'esta{282} conjuração o commendador Vaz era de todo estranho. Desde a hora em que a tumba do genro entrára em casa, o velho sahira com os netos para o Riba-Tejo, deixando a filha entregue aos parentes.

Venceslau, porém, resistira ás insinuações dos amigos, até ao momento em que lhe figuraram os filhos trajando lucto por seu pae, morto no patibulo. Levaram-no, pois, á deliberação de exilar-se, entregando os meninos a padre Manoel Ferreira, depois de os haver tido comsigo um mez, na quinta do Lumiar.

E, como o padre lhe perguntasse por que via as remessas de dinheiro haviam de ser feitas para Londres, Venceslau respondeu que todos os haveres de D. Julia eram dos filhos, e elle nada receberia do patrimonio das creanças.

Expatriou-se, na vespera do dia em que era procurado á ordem de José Antonio de Oliveira Leite Barros, aquelle celebrado conde de Basto, que se mascarrou de sangue para dar uns longes de semelhança com o marquez de Pombal, injuriando-o.

A intelligencia de Venceslau Taveira, durante os quatro annos de exilio, quedou-se no torpor esteril d'onde nunca mais resurgiu. Espirito e coração haviam sido fulminados da mesma morte. O marquez de Palmella, sentando-o á sua mesa, e forçando-o a vestir-se da sua guarda roupa, venerava-o mais que n'aquelles annos em que o consultava nos casos melindrosos da sua missão diplomatica. Se ás vezes, em signal de preito{283} a um talento apagado pelas lagrimas, o convidava a pensar em perigosas conjuncturas diplomaticas, Venceslau entrava-se d'uma tristeza consternadora, e dizia:

—Perdido... tudo negro n'este pobre espirito...

E era deploravel no convencimento da sua inutilidade. Pedia a Deus que lhe apagasse a luz, que o queimava, sem lhe alumiar a razão escurecida.

Em 1832 despediu-se do marquez e alistou-se na expedição de D. Pedro IV.

Desembarcou no Mindello, vestiu a farda de simples soldado, entrou nas principaes batalhas, e de quasi todas sahiu ferido.

O governo do Porto reintegrou-o no seu antigo posto de official maior de secretaria, cujo serviço lhe era penoso, porque o cansaço, á menor applicação, lhe abastecia as trevas do entendimento.

Levantado o cêrco foi para Lisboa, e avisou o padre Manoel, de quem, a grandes intervalos, recebia cartas em nome supposto.

O filho mais velho tinha então onze annos e o outro nove. Eram ambos educados no Collegio dos Nobres, e denotavam dotes de rara capacidade.

O padre apresentou ao official maior as contas da sua administração, dando-lhe a guardar alguns contos de reis excedentes ás despezas. Venceslau rejeitou o deposito, insistindo em declinar de si a minima interferencia na herança de seus filhos.

Indagou da existencia de D. Anna Vaz. Disse-lhe{284} o padre que o commendador era fallecido; que os credores de Eduardo Pimenta haviam penhorado as duas quintas e palacete do patrimonio da viuva, e que esta se acolhêra ao convento da Encarnação, onde vivia pobremente. Quanto aos tres filhos alguns parentes se haviam encarregado de os educar.

O governo constituido mandou pagar ao conselheiro official maior os ordenados suspensos durante a emigração. Recusou-os.

Habitava um quarto andar na rua da Rosa das Partilhas, e alimentava-se d'uma taverna que occupava os baixos da casa. E, como os remanescentes do seu ordenado abastavam para vida mais desafogada, elle enviava mensalmente uma quantia ao convento da Encarnação, mediante padre Manoel Ferreira, que não era todavia o portador da esmola. O capellão do mosteiro, adestrado por conselho do outro, dava o dinheiro a D. Anna Vaz, dizendo-lhe que uma illustre dama, que a conhecêra na abastança, lhe pedia licença para a soccorrer em tão honrada quanto penosa viuvez.

Em 1834, a cholera-morbus entrou no Collegio dos Nobres. Venceslau ordenou ao padre, administrador da casa de seus filhos, que os transferisse para o seu palacio das Amoreiras. Ao mesmo tempo, o contagio feria tambem o pae. Padre Manoel achou-o no leito, quando lhe levava nova de ser fallecido um filho. Chorou, mas enguliu o segredo nas lagrimas. O enfermo disse-lhe então serenamente:{285}

—Posso morrer; os atacados n'este predio têm morrido todos. Levo saudades dos meus filhos;... mas deixo-lh'os. Nunca lhes conte a historia de sua mãe.

E o padre a ouvil-o, e a estancar nos olhos o sangue do coração!

Quando lá voltou no dia seguinte, encontrou Venceslau livre de perigo; mas como era já de dois gumes o ferro com que devia cortar-lhe os fios da vida, calou-se ainda. O segundo filho estava moribundo.

Um dia, Venceslau, já convalescente, disse ao padre que lhe levasse os filhos ao Campo Grande, que os queria vêr.

—Não m'os conduza aqui—accrescentou elle—porque ainda ha colericos n'este predio.

E o padre, cahindo em joelhos, poz as mãos, e exclamou:

—Coragem, senhor!

—Que vae dizer-me, padre Manoel?

—Que os seus filhos...

—Morreram?

—Estão no céo, pedindo a Nosso Senhor Jesus Christo que lhes dê a alma de seu pae.

Venceslau perdeu o alento.

Era a primeira vez que aquella forte alma se escondia por largo espaço nas trevas da morte.

Quando recuperou os sentidos, e apalpou a realidade medonha da sua vida, inspirou aos amigos, que o rodeavam, o receio da loucura.

Um d'aquelles amigos era o presidente de ministros{286} duque de Palmella, que o levantou nos braços, e o amparou até o assentar na sua carruagem.

Depois, o anjo da piedade beijou-lhe as palpebras. As lagrimas golpharam a torrentes; mas a luz dos olhos sahiu diluida n'ellas. Venceslau aos quarenta e dous annos estava quasi cego.

E viveu!

Vivia em 1867 n'aquella casa triste da charneca de Odivellas, para onde fôra depois que o duque de Palmella fallecêra.

E vivia então pobrissimo, porque a grande riqueza em bens livres que herdára de seus filhos, mandára entregar aos herdeiros de sua mulher; e a maior parte de seus ordenados de official-maior aposentado era repartida pelos filhos de D. Anna Vaz, já morta áquelle tempo no mosteiro da Encarnação, alanciada em todas as fibras do coração de esposa, de filha e de mãe, porque a morte apiedou-se d'ella, só depois que o opprobrio dos filhos lhe deu ao esparto da garganta o derradeiro aperto.{287}

CONCLUSÃO

CARTA DE LUIZ DA SILVA

«Ha cinco annos que meu tio te referiu a historia do conselheiro da azinhaga.

«Nos raros livros, que apparecem com o teu nome, não tenho encontrado o caso triste.

«Se a opulencia, adquirida nas lettras, te não remiu da galé de escriptor portuguez, conta a historia de Venceslau.

«Esperarias que elle morresse para melhor te inspirares no silencio do tumulo d'aquelle calcinado coração?

«Morreu. Podes afoitamente levantar-lhe o sudario da face morta, e mostral-o.

«Se lhe queres vêr a sepultura, vae á casa onde elle nasceu, ahi nos arrabaldes de Lamego.

«Morreu rico. Em 1868, succedeu na herança do irmão morgado, realista inflexivel que nunca lhe perdoára a loucura de trocar o habito de benedictino pela{288} fardeta de voluntario da Rainha no cêrco do Porto. Colhido de sobresalto pela morte, não teve tempo de desvincular os bens e dal-os ao Papa.

«Venceslau sahiu da casa, onde esperava morrer n'aquella gandra arida onde o viste.

«Levou-o o desejo de fechar os olhos onde a sua estrella funesta lh'os abrira.

«Viveu lá seis mezes.

«Legou importantes bens de raiz e oiro em barda que encontrou amuado nos velhos contadores de seus avós.

«Os seus herdeiros foram os tres filhos de D. Anna Vaz. No testamento não nomeia o nome do marido d'aquella senhora.

«Um dos filhos está em Africa cumprindo degredo por crime de morte na pessoa d'um cocheiro que apunhalou em um latibulo de jogadores de esquineta. O miseravel, apezar do secreto amparo que lhe dava Venceslau, tinha cahido até áquella paragem.

«O outro filho de Eduardo Pimenta, depois de ter sido expulso com ignominia d'um logar de confiança que o conselheiro indirectamente lhe impetrára, estava marcador de bilhar no Café-Grego.

«A menina vivia de esmolas no mosteiro onde falleceu a mãe.

«Suspeito que a herança vae cahir nas fauces do dragão que sorveu todos os personagens da tua inedita historia.

«Hontem vi o marcador de bilhar, com os bigodes{289} pintados, guiando dois alazões, que tiravam um char-à-bancs, em que íam reclinadas e retrançadas de serpejantes cabelleiras tres mulheres d'aquella especie ephemera de borboletas que tem uma segunda crisalida nos amphitheatros dos hospitaes.

«Ouvi dizer que a reclusa da Encarnação, senhora de quarenta e nove annos, é pretendida d'um major reformado.

«O outro herdeiro, que está em Moçambique, se tiver juizo, em recebendo a herança, levanta-se com o vice-reinado de Africa.

«Se estas novas achêgas podem ser argamassa para mais um capitulo do teu livro, ahi as tens.

«Não me esqueça satisfazer uma pergunta, que me fizeste em 1868.

«Padre Manoel Ferreira morreu em 1835. Os actuaes possuidores dos grandes haveres de D. Julia de Miranda contam que o padre, depois de lhes entregar a herança, andára abraçando alguns moveis d'aquella casa onde vivera cincoenta annos, e chorára muito curvado sobre a cadeira onde costumava sentar-se D. Julia. Depois pedira que lhe déssem o leito onde haviam nascido e morrido os dous meninos, e o levou comsigo, e o queimára. Os herdeiros de D. Julia riem d'esta excentricidade. Eu vi no fundo da nobre alma do padre, a significação d'aquelle aniquilamento. As lagrimas, que solemnisaram aquelle devoto sacrificio do ancião, foram as ultimas. Foi a Odivellas, beijou os olhos apagados{290} de Venceslau, voltou para os parentes que o acolheram, e finou-se. Adeus.»


Qual foi o intuito do general Pedro da Silva quando me pediu que denominasse este romance LIVRO DE CONSOLAÇÃO?

Foi, como se me dissesse:

«Raro desgraçado haverá ahi a quem se não deparem, no seu livro, infortunios que lhe despontem os espinhos de angustias menores.»

As supremas felicidades desta vida sabe a gente gradual-as: são poucas, e ficam muito áquem do desejo. Mas as escaleiras da desgraça são tantas e tão avantajadas á fantasia das mais ardentes e requeimadas almas, que não ha medil-as, nem descer a sonda ao ultimo abysmo.

Bemdito seja Deus, que nos ha dado o consolador egoismo de ouvir muito gemido, muito desesperar, muito blasphemar de infelizes á volta de nós.

 

FIM.

 

 

 

 

[1] Memorias da vida de José Liberato Freire de Carvalho. Lisboa, 1855, pag. 94 e seguintes.

[2] Esta resposta é trasladada de um volume de manuscriptos estimaveis que pertenceu ao fallecido bibliographo o desembargador Thomaz Norton. Na folha de guarda do livro escreveu o citado possuidor o seguinte: Theotonio José Maria de Queiroz, penultimo ministro da Congregação de Oliveira pertencente aos padres Congregados. Morreu de edade de 84 annos, e ainda lia e escrevia sem oculos. Norton. O collector rubricou a collecção em 1811.

[3] Veja Os Portuguezes e os factos. Londres, 1833, p. 39.