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Livro de Consolação: Romance

Chapter 8: VII
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About This Book

This work presents a narrative that explores themes of love, loss, and the complexities of human emotions through a series of reflections and experiences. It delves into the trivialities of everyday passions and the impact of societal norms on personal relationships. The author employs a contemplative tone, inviting readers to consider the deeper meanings behind seemingly mundane interactions. The structure is characterized by a blend of introspective passages and descriptive prose, creating a rich tapestry of thoughts that resonate with the reader's own experiences of affection and sorrow.

V

                Ah Senhor,
Amor sejais vós de nós
E não haja amor com dor.

GIL VICENTE.Farças.

No coração juvenil e compassivo do fidalgo beirão a historia d'estes amores deixou a melancolia piedosa propria de animos que ainda não padeceram.

Cuidam que a dôr experimentada afina o sentimento, e abrolha as flores perfumadas da compaixão quando lhe orvalham lagrimas alheias? Não é absolutamente verdade. Os muitos infelizes são por via de regra os menos sensiveis. Os desgraçados são egoistas. Não sabem, não podem, não querem consolar, porque se julgam credores das consolações dos outros.

Ao principiar da vida, a ignorancia do mal pende á condolencia e amiseração dos que choram. O homem que então nos contrasta a nossa alegria com lagrimas, e os hymnos de graças á Providencia com blasphemias,{52} assombra-nos. Das muitas flores e luz que nos abrilhantam e aromatisam a vida, formamos o reverso espantoso da escureza e avidez do desditoso que nos dá a entrever o mal, nem sequer sonhado nas nossas noites serenas. Então é o compadecerem-se de infantil dó umas almas predestinadas a revezes, abaladas por vaticinios lugubres do seu destino.

Não ha pois fiar-se a gente n'aquella compaixão da heroina de Virgilio que, recordando os seus, se pungia dos alheios males.

São peitos impenetraveis os cicatrisados de muitos golpes. O que ahi está dentro é a sciencia da vida com a terrivel certeza de que o mal é necessario e fatalissimo. Esta sciencia que nos vem por morgadio herdado, obra, não sabemos se divina, se diabolica da serpente do paraiso, dá-nos ares de philosofantes selvaticos, inflexos e frios. As lagrimas com que intentam amollecer-nos são como outras que já choramos sem mais utilidade que vingarmos affogar n'ellas o germen da confiança nos homens, e—quantas vezes!—da fé em Deus. E, se esta sublime palavra, e inenarravel sentimento, DEUS, chega a desluzir-se nos lances em que o invocamos, os affligidos cessem de confiar em nós. Devorem-se, salvem-se pelo despejo ou pelo suicidio, que a religião não lhes alvitra melhores recursos que a philosophia: tanto monta Jesus como Platão. Nem nós podemos encarecer a efficacia dos balsamos que nos coaram ao coração apenas um torpor, a paralysia das faculdades amantes da vida, ignorando-lhe as condições{53} durissimas, o terrivel desdem com que adormecemos debaixo da mancenilha, sem recear-lhe as exhalações homicidas.

Venceslau solicitou a estima de Eduardo, e affeiçoou-se-lhe com estremecida amisade. No fervor do seu affecto, parecia ser elle a providencial indemnisação á desventura do moço repulso dos braços do pae para os braços da esposa moribunda. Raras horas se apartava d'elle, velando-lhe as do repouso, e privando-se da convivencia dos alegres mancebos que se espantavam de tamanha devoção e tão desusado sacrificio a um desgraçado vulgar.

Por março de 1811 retirou o exercito francez de Santarem, perseguido por Wellington. Eduardo, ao entrar em Pombal, abraçou Venceslau, e disse-lhe tranquillamente:

—Vamos ter batalha decisiva. Heide morrer n'ella. Separa-te desde já de mim, que não quero vêr lagrimas, nem ouvir palavras piedosas em meio dos gritos dos agonisantes.

Pouco depois, escaramuraçaram as avançadas dos dois exercitos. Ao primeiro recontro, Eduardo Pimenta, arrancando do pôsto muito distante dos piquetes, embrenhou-se pela selva das bayonetas que retiniam dentro da cerrada bruma da polvorada. Em breve lanço, o impetuoso official cahiu cortado do ferro inimigo, e, quando a nuvem se rarefez, viu á sua beira Venceslau, descolchetando-lhe a farda para examinar-lhe as feridas.{54}

Eduardo, cerrando os dentes, abafava o grito da dôr; faltava-lhe, porém, vigor para repugnar ao curativo.

Um cirurgião francez disse a Venceslau que nenhum dos ferimentos era mortal. O ferido então abriu um riso de raiva á desgraça de sentir-se viver, e murmurou:

—Não sou um desgraçado vulgar...

E, rodeando a vista pelos moribundos roixos dos paroxismos, accrescentou:

—Eram talvez felizes esses que ahi morrem. Um d'elles fallou em sua mãe, e o outro pediu a Deus que lhe amparasse os filhos... Vês, Taveira? A providencia deixa morrer esses, e quer que eu viva, e que por nenhuma d'estas feridas eu possa arrancar a alma da sua cruz.


Não é tão raro morrer quem ardentemente o deseja?

Sei de homens desesperados que se offereceram em alvo, no ponto onde a metralha das pelejas varria as victimas a rôdo. Sei d'outros que procuraram a morte nos focos mais ardentes da peste. Vi uns que romperam contra as lavaredas das casas incendiadas simulando caridade heroica no proposito do suicidio. Vi alguns que se entregaram cegamente á medicina. E não morreram!

A morte praz-se em destillar ás gotas a peçonha do seu calix na garganta onde fervem e affogam soluços,{55} se as lagrimas da saudade derivam sobre o suor gélido da agonia. Foi a morte creada á porta do paraizo, quando a nossa archi-avó comeu o pomo. Creada como castigo, o seu officio é matar, dilacerando; unhar com a ponta da garra um por um os liames da vida, distendel-os devagar, descansando a intervallos, para que a seiva da esperança os reforce, e depois a angustia lateje n'elles em redobro. Como castigo, missão que o Creador lhe deu, a morte seria indigna do seu officio, se nos decepasse de um golpe. As trevas subitas, a paragem do coração, um dormir suave, um esquecermo-nos de tudo—morrer no instante em que tudo bom d'este mundo nos sorria esmaltado de todas as estrellas—seria supplicio condigno do affrontamento que Eva e o logrado marido fizeram ao Creador?

Não. Á morte urgia-lhe, em cumprimento do seu encargo, maior dominio sobre as potencias espirituaes que ella (convence-te, ó razão!) não mata, mas tortura.

Ahi está um coração de pae a arquejar em soluços de moribundo. Ha tres dias que se debate nas ultimas vascas. No decurso d'esses tres dias, ha visto muitas vezes os filhos que o chamam, que lhe affastam dos olhos os cabellos humidos, que lhe enxugam nas faces lividas umas lagrimas onde vae diluida a derradeira claridade das pupilas baças. Pois tres dias não bastam á maceração do holocausto e ás dilicias do sacrificador que sahiu do paraiso com o peccado!? Não. Aquelle homem está assim penando, ha de assim penar mais tres, mais seis,{56} mais nove dias, porque expia pelo corpo vibrante de nevrozes, e pela alma que se revolve em suas lagrimas.

Meu Deus, meu Deus, que triste, que procelloso, que vilipendio vos seria o mundo, se a minha alma só podésse entender vossa força nas dôres, nos medos, na morte, na viuvez, na orphandade, nos ricos sem caridade, nos pobrinhos sem enxerga!

Afaça-se, leitor, obsequiosamente a este meu velho sestro de vagamundear á volta dos assumptos, vestindo as nudezas da ideia com umas roupagens variegadas. É pensão da velhice, e talvez desejo perdoavel de fazer pensar as pessoas que abrem uma novella justamente para não pensarem.{57}

VI

Aperta-lhe a sorte ingrata
O laço em que os pés lhe enreda.

THOMAZ RIBEIRO.A Delfina do Mal.

Eduardo Pimenta, levado em braços a casa d'um aldeão que não estremava entre jacobino e portuguez, pensou que seria alli miseravelmente esfaqueado logo que os patriotas lhe descobrissem a paragem.

Não se esquivou Venceslau ao perigo de ser sacrificado ao amigo que primeiro o captivára com as dôres da alma, e agora com as da enfermidade. Ambos se haviam despojado das fardas suspeitas e vestido á moda dos camponezes, inculcando-se guerrilheiros fieis ao throno e altar.

Como lhes minguassem recursos, mandou o beirão a sua mãe um portador com carta bem commovente á piedade. Respondeu-lhe a mãe que era fallecido o pae, e accudisse elle a receber o ultimo suspiro d'ella que o já sentia na garganta.{58}

Sahiram os dois amigos dos arrabaldes de Pombal, e acantoaram-se na casa dos Taveiras, onde corriam maior perigo, porque o corregedor de Lamego perseguia os jacobinos, não com alçada morosa, mas com a justiça summaria dos sicarios.

Além d'isto, bem que D. Antonia de Portugal, por sua parte, houvesse dado a vida ao odio dos parentes, estes cavalheiros não eram da casta dos máos corações que se contentam com a vingança de fazerem cahir uma campa sobre a victima dilacerada. Duas campas é que elles queriam para que a sua posteridade podésse apontar para ellas, quando outros aventureiros ousassem pôr olhos no rosto defeso das mulheres de raça.

No rasto do plebeu de Braga farejavam espertos assassinos, protegidos pela justiça. Os sustos rodeavam já a casa senhorial dos Taveiras, atterrando a mãe de Venceslau a ponto de bastarem poucos dias de afflicção a dar-lhe o descanço eterno.

Como filho segundo, pequena legitima cobrou Venceslau. O morgado, receoso de compartir no perigo dos dous perseguidos, antecipou ao irmão o valor do patrimonio, aconselhando-lhe a emigração.

Entraram os dous expatriados por Hespanha em 1813. Da Corunha passaram a Falmouth em companhia do cruzio D. José Liberato Freire de Carvalho, que depois em Londres aproveitou a habilidade de Taveira, contractando-o para fazer traducções no periodico intitulado O Investigador.

Do seu patrimonio, e ganhos nas lettras, repartia{59} o moço com o seu amigo, adoçando-lhe delicadamente o agro da dependencia, com a clausula de que eram emprestados os recursos que lhe offerecia.

Seis annos assim viveram, durante os quaes Eduardo não despiu o lucto de sua viuvez, nem desfitou os olhos scismadores de uma estrella por onde lhe transluzia o que quer que fosse, vago e impalpavel, semelhante a uma alma.

N'este enlevo e lucto bastante insolito, e não vulgares em poeta seis annos viuvo, gastava o homem sua actividade, distrahindo-a das preoccupações dos outros emigrados.

Com o fim de o levantar de uns quebrantos quasi ridiculos, Venceslau invocava-lhe o animo para os deveres que lhe impunham a infelicidade dos seus conterraneos e a sua propria de desterrado. Baldados esforços. Pimenta era sempre o inconsolavel.

São pouquissimo interessantes os pormenores da vida d'estes emigrados, no correr de sete annos. A pobreza por vezes venceu o trabalho assiduo de Venceslau Taveira, esponjando-lhe o fel da penuria ás chagas da saudade da patria. A inercia do amigo, motivada pelos crepes sempre carregados da sua paixão, aggravava as difficuldades do moço laborioso.

Eduardo distanciava-se, quanto a genio, dos martyres, que têm a acta do seu martyrio nos romances, os quaes não sabe a gente se almoçam e jantam com a trivial estupidez das especies carnivoras a que a leitora ideal não desejaria pertencer, nem eu. Afóra o almoço{60} e jantar, o viuvo consternado de D. Antonia de Portugal ceava, e recozia tudo ao fogo interno que o escaldava, retemperando-lhe, ao que parecia, de fino aço as molas digestivas. Á feição d'este, ha muitos sugeitos da mesma laia que, logo abaixo de um coração abeberado em lagrimas, vos maravilham com um estomago de ógre. Raro conseguem estes infelizes amiserar ninguem com suas lastimas em verso ou prosa, porque a nediez do musculo os está sempre a desmentir de modo que o observador incauto cuida que o humor vitreo das lagrimas é ressumação oleosa do chorume que lhes sobeja. É mister, porém, não confundir as duas especies, a fim de que a alçada bruta do chylo não leze os phenomenos da psyche—expressão grega que os gregos não percebiam melhor que Venceslau quando via o seu amigo a chorar e a comer ao mesmo tempo.

Entretanto, assim que um simulacro de liberdade em Portugal, no anno 1820, amnistiou os portuguezes que tinham servido as ideias da França, o fidalgo da Beira com o sempre melancolico bracharense repatriaram-se.

Protegido por José Liberato, e outros liberaes, o intelligente moço e já notavel publicista offereceu a sua penna a Joaquim Manoel Alves Sinval que então redigia o Astro da Lusitania.

Notaveis artigos realçaram aquelle periodico e o nome do modesto escriptor, cujos serviços á liberdade ainda no berço se contentavam da gloria de lhe poetisar a infancia.{61}

No lapso d'estes successos Eduardo Pimenta, sempre ocioso e confiado á liberdade do amigo, ia cogitando em ganhar de salto posição que o habilitasse a indemnisar os favores do companheiro.

Honrado empenho! suprema e unica dignidade dos ingratos.

Este proposito, porém, não significava louvavel desejo de independencia: era antes ruim plano de se desonerar da divida de reconhecimento que o vexava. Sentimentos d'esta especie affectam exteriores de nobreza, e disparam em villania, se bem os esgaravatamos no barril do lixo humano que se chama alma, a qual se decompõe em lama, se lhe trocaes as lettras.

Começa Eduardo a enxergar os arreboes de uma estrella benigna que lhe destece boa parte das suas escuridões. É um contentamento menos máo. Recebe a noticia da morte do pae.

Este velho, portuguez de lei como viram, typo symbolico da Braga de 1820, patriota acrizolado no recontro com os francezes em Carvalho d'Este, um dos Codros que tomaram parte no assassinio do general portuguez Bernardim Freire de Andrade, tal sujeito, a não poder afogar n'agua benta a liberdade em pessoa, devia morrer apopletico, e de feito morreu, deixando 1:600 missas á sua alma, e tres solemnes maldições ao filho. Infere-se d'estes legados que a sua apoplexia não foi das mais fulminativas; foi um ramo de ar, ou estupor, como a viuva escrevia a Eduardo.{62}

Além das missas á alma e das maldições ao filho, o morto deixou bens rusticos que formavam a mais rendosa lavoira de S. João de Nogueira.

O viuvo de D. Antonia não era filho unico. Erguendo-se o melhor que pôde debaixo do pezo da maldição triple, foi a Braga fazer partilhas com o irmão clerigo, e tão intolerante se portou por causa d'um faqueiro de prata abafado pelo padre em beneficio de uma freira dos Remedios, que chegaram ás ultimas, esmurraçando-se sobre o espolio do honrado defunto, o qual tinha apanhado o faqueiro no embornal cahido do cavallo ferido de um dragão que elle ou outros tinham matado. O pae do clerigo—Deus lhe perdoe—gabava-se d'isso, e o filho, theologo casuista, não achou em Bazembáo o caso da restituição da coisa roubada a ladrão! 1:600 missas davam ensanchas para maroteiras maiores.

Regressou a Lisboa com quinze mil cruzados Eduardo Pimenta.

O dinheiro influe bastante no espirito, e no resto. Adormece e acorda melhor quem o tem. A espinha dorsal tem outra casta de aprumo. O olfacto fareja essencia de violetas em tudo. O coração tem azas. A fantasia é mais allemã. Os olhos comprehendem a fabula dos Argos e dos lynces. Os ouvidos afinam-se tão agudos que, em comparação, a lebre é surda. Cada gaita de feira sôa-nos como a tuba de Oberon.

Sobre tudo, as faculdades do amor urdem romances, tecem-os de lhama de oiro nas cabeças negras, castanhas{63} e loiras das mulheres lindas, das feias, das Philamintas, das Felizardas. Todo o pé nos intriga, toda a botinha é de Cendrillon, todo o vestido apanhado com elegante descuido é naça que nos pesca a alma em lago de aguas cristalinas. O dinheiro faz isto: quando nos sobram dentes para morder pomos, sómente prohibidos a quem não tem dentes, nem dinheiro principalmente.

Deu que scismar a Venceslau Taveira a transfiguração moral do amigo. A linguagem mais expedita, a ideia lucida, prismatica, borboleteando por assumptos que recendiam a rosas, a margaridas, a madrigaes. Emfim, Eduardo fallava muito de amor, de poesia, de coração, de mulheres, de muitas mulheres vivas, e de algumas mortas, de Fiammeta, de Fornarina, de Collona, de Leonor, de Corinna, etc., excepto de Antonia. D'aquella Antonia, que elle andára sete ou oito annos a procurar no crepusculo das tardes e no diluculo das madrugadas, d'essa, que se mirrava entre os farrapos da mortalha e as pranchas do esquife, não dizia nada.

—Que vaes fazer ao teu dinheiro, Eduardo?—perguntou-lhe o collaborador do Astro da Luzitania, rodando sobre a sua banca de trabalho duas peças que havia recebido pelo serviço de um mez.—Empregas esse capital em officio ou beneficio que te renda um passadío modesto?

—Hei-de pensar n'isso...—respondeu desattentamente o outro.—Por ora, assisto á renascença da minha alma, que esteve atrophiada nos regêlos da desgraça. Estou acordando do lethargo, a reconhecer as{64} commoções, as alegrias do viver. O cerebro ha de funccionar, quando o coração lhe radiar o seu calor. Depois pensarei. Mas antes de mais nada... Nós temos contas, Venceslau. Na emigração, tiveste a delicadeza de me dizer que me emprestavas e não davas a subsistencia. A divida principal não t'a pago, que não posso: é a gratidão insoluvel; mas o que é dinheiro quero pagal-o, não só porque devo, mas porque me sentirei melhor na tua presença quando t'o não dever.

—N'esse caso, paga. Não quero que te sintas mal na minha presença—disse Venceslau com semblante sereno e severo.

—Sabes quanto é?

—Não.

—Calcúla.

—Esse calculo pertence á tua pontualidade. É trabalho que está a cargo d'aquelle que, depois da liquidação das contas, se sentir melhor na presença do outro.

—Vejo-te muito sério!—atalhou Eduardo.—Offendi-te?!

—Foste apenas pouco delicado comigo. Eu não sou da especie dos credores que apresentam a conta copiada do livro... Quando em Londres comprava por um schilling um jantar para nós ambos, nunca lancei á tua conta seis pence. Afiz-me a repartir com o irmão; não emprestava ao homem que havia de ser rico. Nunca preví que houvesses de o ser... No meu trabalho não eras tu pequena parte...

—Eu?! que fazia eu?{65}

—Davas-me animo com a tua mesma ociosidade; redobravas-me o goso de cumprir o dever de homem, por ti e por mim. Quanto a esperar de ti retribuição em moeda corrente, não cabia semelhante conjectura no conhecimento que eu tinha da tua indole...

—Ora essa!...—interrompeu pondunorosamente Eduardo.—Então figurei de parasita aos teus olhos...

—Não: figuraste de homem engolfado por abysmos de saudade, amortalhado em luctos de viuvez eterna...—respondeu Venceslau sorrindo.—Quem havia de prever que sahirias do antro da tua dôr, ao fim de oito annos, com o rosto banhado dos resplendores d'um novo dia? Eu, que então me julguei reservado para a suprema angustia de te sepultar envolto no lençol da nossa pobre enxerga, como sonharia esses quinze mil cruzados que te auctorisam a perguntar quanto me deves? Quem diria que nas leiras e montados de teu pae succederia o filho amaldiçoado? Desandou a roda funesta, Eduardo. O teu mau anjo era a pobreza. Repelliste-o para as trevas dos indigentes. Voga affoitamente no mar da vida, que estás em maré de felicidade. Que tregeitos de impaciencia me fazes, meu amigo?.... Tem paciencia; escuta-me. Volta o rosto alegre algumas vezes para o passado. Repara nas lagrimas e angustias em que se desfizeram as tuas illusões. Olha que está uma sepultura de mulher innocente a servir de base ao monumento das tuas recordações. Abre o livro funebre da tua mocidade, e lê os preceitos da experiencia. Toda a desgraça é uma raiz, que se arreiga dolorosamente na{66} alma; porém, lá vem um dia em que a raiz abrolha flores que parecem de planta abençoada: essas flores são o escarmento, o desengano, a verdade, a sciencia da vida como ella é, vista á luz da razão.

—Mas onde vaes tu com essas praticas tão bem discursadas?!—perguntou Eduardo Pimenta, entre risonho e enfastiado.

—Vou entregal-as á tua memoria para que te sirvam de memento, quando escreveres á filha do commendador.

—A filha do commendador? Querem vêr que me entroncas na progenie de D. Juan Tenorio! Temos, pois, uma Anna, a filha do fidalgo de Burgos!...

Venceslau Taveira pôz as mãos nos hombros do viuvo de Antonia de Portugal, e disse-lhe com boa sombra e graça affectuosa:

—Não achas notavel a coincidencia do pae que é commendador e da filha que é Anna?... Dize-me agora: que motivos te justificam da reserva com um amigo de oito annos? Que tinha que eu soubesse da tua bocca esses amores? Dizias-me, ha dois mezes, que o teu coração era o Lazaro apodrecido na sua cova; e, como a ideia de Lazaro envolve a ideia de Christo, o Christo do teu coração defuncto foi o dinheiro. Não dou nada pela vida assim galvanisada por correntes electricas do metal...

Eduardo interrompeu o impertinente amigo com uma cascalhada de riso secco; Venceslau, porém, carregando o semblante, concluiu:{67}

—Nunca te esqueças de que fui eu quem te apresentou ao commendador Francisco Vaz e a sua filha D. Anna. Eu disse-lhes que tu, Eduardo Pimenta, eras homem de bem, e infeliz, sem o haver merecido.{68}
{69}

VII

Desejas conhecer o que és? repara nos outros: tal tu és.

Desejas conhecer os outros? Olha para dentro de ti, que em ti os vês.

SCHILLER.Poesias.

D. Anna Vaz, a filha do commendador de Santa Christina de Almudena—commendador, entendam, de velha estôfa, aparentado com os descendentes dos Pelagios e Ordonhos—era creança de quinze annos, quasi bella, mas, melhor do que perfeita belleza, era boa, candida, innocente, e triste das saudades de sua mãe, poetica da sagrada poesia que se curva a derramar prantos sobre a urna de umas cinzas queridas.

Venceslau conhecera em Londres um irmão d'esta menina, alferes emigrado, compleição doentia, éthico da enfermidade nostálgica, exacerbada por amor a uma senhora de Lisboa, com quem destinára casar-se, quando os franceses invadiram Portugal.{70}

Falleceu este moço nos braços de Venceslau Taveira, pedindo-lhe que, se um dia regressasse á patria, procurasse em Lisboa seu pae, e lhe pedisse que entregasse á sua promettida esposa o retrato que lhe confiava.

O portador do triste legado cumpriu a vontade do moribundo seis annos depois.

O commendador acceitou o retrato, e voltando-se para uma senhora, que estava ao lado de sua filha no canapé, disse:

—D. Julia, aqui tem o seu retrato.

Venceslau inclinou-se profundamente diante da querida do seu amigo e disse:

—Era V. Ex.ª digna da paixão de Antonio Vaz, porque, se a comparo com o retrato, noto que a semelhança foi já apagada pelas lagrimas. A formosura da mocidade foi substituida pela formosura da mágoa.

Julia, muito commovida, pediu ao portador do retrato que lhe referisse as particularidades da vida e morte de Antonio Vaz. Depois, disse ella que o seu malogrado noivo lhe contava em cartas as virtudes do seu amigo Venceslau Taveira, e os impagaveis carinhos de irmão com que elle tentava suavisar-lhe os espinhos da saudade, alentando-lhe com esperanças o animo quebrantado. Terminada a sensibilisadora reminiscencia das cartas, proferida entre soluços, D. Julia apertou a mão de Venceslau; e, levando-a aos labios, apesar do esforço d'elle, balbuciou:

—Beijo a mão que fechou os olhos do meu extremoso amigo!{71}

Pouco depois, chegou uma sege á porta do commendador, e logo depois entrou um criado a annunciar que era esperada a snr.ª D. Julia de Miranda. Venceslau, obtida licença de Francisco Vaz, deu o braço á dama, e levou-a á traquitana, reparando então que o cocheiro e lacaio vestiam libré, indicativa de familia illustre.

Voltando á sala, contou-lhe o commendador estas admiraveis coisas de D. Julia:

Era filha d'um desembargador do paço, já defuncto. Herdára trezentos mil cruzados em propriedades rusticas e urbanas. Tinha vinte e sete annos de idade, e deixára de ser formosissima desde que a paixão por Antonio Vaz a desfigurou, mostrando-lhe repetidas vezes a morte no seu espelho o semblante cadaverico. Mas contou o commendador que, sem impedimento da decadente belleza, eram muitos os pretendentes á mão de Julia, bem que no pensar do ironico sugeito, muitos haveria que a tomassem por esposa, ainda que ella não tivesse mãos, tão necessarias ás formulas sacramentaes do matrimonio.

Assim começaram as boas e logo familiares relações do escriptor com esta excellente familia. Rara noite Venceslau deixava de visitar o agradecido fidalgo, cujas ideias liberaes a morte do filho perseguido acrizolára. Fugiam as horas de alegre palestra entre os dois, em quanto D. Anna estudava as suas lições de musica, para depois, ao fim da noute, conversar em francez com o jornalista.{72}

Intencionado a divertir Eduardo das suas abstracções penosas, Venceslau apresentou o amigo, depois de prevenir os hospedeiros a favor da tristeza taciturna do homem, que parecia assombrado do raio fulminador da sua mocidade.

Acolheram Eduardo, tanto o pae como a filha, com tanta sympathia e dó que, a poucos dias andados, já o confundiam na familiar lhaneza com Venceslau Taveira. E esta bella alma alegrava-se quando o via tão bem acceito, e já tão outro do que era nas escuras melancolias, pelas quaes elle se havia feito aborrecer de quantos o tratavam.

Algumas noites concorria tambem D. Julia de Miranda, com o seu capellão; homem de avançados annos, e tão amigo da fidalga que dizia idolatramente que não era capellão, mas sim sacerdote d'aquella divindade.

Em um d'esses saráos, desconfiou Venceslau que o seu amigo, abeirando-se do piano em que Julia tocava, lhe passára uma carta. Sobresaltou-o a suspeita, como se o caso tivesse a importancia d'um delicto contra as regras da sã moral. Não espanta semelhante estranheza em homem que rossava pelos vinte e oito annos sem haver entregado carta de amores, nem sequer ter sentido a precisão de escrever uma, no intervallo de dois artigos politicos! A virgindade epistolographica é hoje, e era então mais rara que todas as outras.

Aconselhou-lhe a prudencia que, antes de interrogar o amigo sobre o caso suspeito, obtivesse e certeza, para que as advertencias assentassem na culpa incontestavel.{73} N'este em meio, chegou a Eduardo a nova da morte do pae, e por tanto a sahida temporaria do herdeiro para a provincia.

No espaço dos dois mezes de ausencia, espiou Venceslau o coração de D. Anna, e tão facilmente quanto era de esperar da candura da menina, descobriu a saudade no empenho das perguntas e desejos de vêr as cartas de Eduardo.

Além de que, D. Julia, em pratica sósinha com o jornalista, perguntou-lhe se o seu amigo alguma vez lhe tinha confidenciado sentimentos amorosos.

—Muitos e profundos, minha senhora—respondeu Venceslau, despercebido da pergunta intencional.

—A respeito de quem?

—Da sancta que ha dez annos está no céo.

—Ah! eu não perguntava isso...

—Que era então, snr.ª D. Julia?

—Já vejo que me enganei... Eu referia-me...

—Á sua amiga D. Anna Vaz? Respondo que não, minha senhora. Eduardo Pimenta nunca me revelou, depois que D. Antonia de Portugal morreu, affectos a outra senhora. Isto, porém, não é desmentil-o, se elle disse o contrario. Eduardo é tão meu amigo que me não confia tal intento, se o tiver.

—Porquê?—atalhou admirada D. Julia.—Os intentos, que um amigo esconde de outro, são os máos. Revelar um affecto nobre, honesto e natural, é prova de amisade. Aos inimigos e indifferentes é que taes segredos não se communicam. O snr. Taveira, se amasse a{74} minha amiga, duvidaria revelar tão bom sentimento a Eduardo?

—Se Eduardo me houvesse apresentado n'esta casa, eu sahiria d'ella pretextando um motivo acceitavel, e depois denunciaria a minha pusillanimidade ao meu amigo.

—Santo Deus! como V. S.ª é austero!—voltou sorrindo a rica herdeira.—Não cuidei que do estrangeiro se trouxessem regras de moral tão rigorosas!

Venceslau fitou com desgosto o semblante ironico de D. Julia. Penalisava-o o desconcerto da reflexão, impropria de tal dama, com o primoroso juizo que elle compozera da sua sensatez.

E ella, que se viu encarada com estranheza, sentiu logo beliscado o amor proprio, a fibra sensivel da vaidade de parecer moralmente perfeita.

—Não me parece—proseguiu a dama gravemente—desdourar-se um rapaz que estima uma senhora da casa onde o apresentam. Conheço muitas amigas minhas casadas e virtuosas, que encontraram affeições nobres e dignos maridos em pessoas apresentadas na casa de seus paes. Póde ser que d'outro modo se hajam casado muitas; mas eu, se fosse mãe, estimaria conhecer os noivos de minhas filhas; e, se fosse noiva, preferiria ouvir na sala de meu pae a ouvil-o da janella, para a rua, o homem que houvesse de ser meu marido.

Taveira sentiu-se enredado na dialectica de D. Julia; mas, desatado dos embaraços pouco menos de melindrosos, objectou:

—Eduardo Pimenta ha de ser sempre infeliz. A{75} enorme desgraça da sua mocidade foi repellão de vento que lhe apagou na alma toda a luz das alegrias puras. A sombra d'uma martyr não consente que outra mulher, embora seja um anjo, repouse venturosa no coração onde ella deve ter deixado a sua imagem, como Deus deixou á porta do eden o archanjo da espada de fogo.

D. Julia, maravilhada da ideia e da fórma, ia replicar, quando Venceslau proseguiu, abalando-lhe o animo ás primeiras palavras:

—V. Ex.ª amou ardentemente o meu chorado amigo Antonio Vaz. Elle morreu, e a snr.ª D. Julia, que não era sua esposa nem devia ao amor das primeiras nupcias o honrado sacrificio das segundas, guarda á memoria do homem amado a lealdade que eu respeito e que todos lhe admiram. Ficou V. Ex.ª nova, bella e rica; e d'estes tres dons que raras vezes se conciliam e tão desejados se procuram, fez V. Ex.ª realçar o merecimento do seu holocausto ao amor unico da sua vida, querendo assim que a nobre alma de Antonio Vaz se gose na bemaventurança da religiosidade com que V. Ex.ª n'este mundo se lhe devota. Se a snr.ª D. Julia me permitte o comparal-a, Eduardo Pimenta, está em ponto de maior obrigação e fineza á alma de Antonia de Portugal. O homem que levantou nos braços o cadaver da mulher lentamente assassinada por amor d'elle, não deve mais apertar n'esses braços outra, se a essa tem de render os votos e palavras com que venceu o coração da desditosa que lhe immolou mocidade, gentileza, nascimento, parentes, contentamento, futuro,{76} e até a memoria hoje em dia despresada d'esses que ainda se lembram da martyr para a execrarem.

D. Julia, enternecida pelo convulso proferir d'estas vozes, não conteve as lagrimas. Era n'este sentir grande parte o admirar, em moço tanto na flor dos annos, um respeito assim fervoroso á consagração do primeiro amor, e holocausto perpetuo e por tanta maneira penoso da alma á mulher amada, primeira e unica.

Vendo-a pezarosa e absorta, Venceslau desculpou-se da crueldade de suas tristes reminiscencias, e derivou a pratica a outros assumptos, ageitando-se-lhe bom lanço com a entrada do commendador.

D. Julia, entretanto, foi ter com a sua amiga que de proposito se affastára para dar logar ás averiguações que tanto interessavam ao seu desassocego.

—Tu vens triste?!—perguntou Anna assustada.

—Triste, não; filha... Venho peor que triste... Não vês que chorei?

—Choraste!... é verdade!... Porque?

—Que rapaz é este Venceslau! Bem m'o dizia teu mano. Chamava-lhe elle o coração de uma creança temperado pela prudencia de um velho sem manchas na sua vida de moço. É assim... é admiravel; mas Deus nos livre que todos os paes e noivos se parecessem com elle em escrupulos e severidade.

—Então que te disse a respeito do Eduardo?... que me não ama?

—Não lhe fiz semelhante pergunta, menina. Apenas me adivinhou a tenção franziu a testa, mudou de{77} aspecto, e reprovou que tu amasses um homem nas circumstancias de Eduardo, viuvo de uma martyr, devastado por essa grande e unica paixão da mocidade, incapaz de fazer feliz a mulher que lhe pedisse amor impossivel; emfim, Annica, comparou-o na sua posição com a minha, para vir a dizer, se eu bem o entendi, que não deves arrancar o coração de Eduardo á saudade da outra desgraçada que lhe expirou nos braços... Fallou-me de teu irmão, e fez-me chorar... Olha, filha, é extraordinario este homem! Eu, quando o ouvia ainda agora, sentia em mim não sei se assombro, se admiração, se profunda sympathia por elle!

—Mas então...—interrompeu a infantil menina, como se as admirações ou sympathias de Julia não diminuissem nada do seu alvoroço.—Disse elle que Eduardo não me ama?

—Tal não disse, creança...

—Pois que foi? Eu não entendi...

—Nem admira que não entendas, filha. Vê se percebes o receio de Venceslau: diz elle que o amor de Eduardo morreu com outra que elle amou, e não póde repetir-se comtigo.

Anna fitou os seus fulgurantes olhos nos de Julia, quedou-se abysmada longo tempo na sua contemplação, e, só depois de chamada pela amiga, sorriu com mais tristeza do que se chorára, e murmurou:

—Para que me escreveu elle duas cartas a dizer que me adorava como os anjos adoram a Deus?{78}

—E eu creio bem que elle te adora, minha querida Annica...

—Não digas isso... Dize-me a verdade, porque eu...

—Tu... quê, filha?

—Eu perdi a minha alegria, ando triste, não penso senão n'elle; e antes queria morrer que não o vêr mais...

—Pobre creança!... Não pensei que o amavas assim!—disse Julia beijando-a e acariciando-lhe os cabellos.—Pois filha, tem esperança... As coisas, que disse o Taveira, bem pensadas, importam pouco. Elle entende a dignidade, o amor e o dever de um modo excepcional. Os corações alheios hão de regular-se por preceitos mais faceis e humanos. Se Eduardo te merecer, e teu pae consentir, que tem que cazes com um homem que muito amou outra mulher digna d'elle? Peor seria cazares com outro que houvesse sido mau marido, e quizesse fazer vêr isso como virtude aos teus olhos... Mas... mas se...

—Mas se...—acudiu Anna impaciente da suspensão.

—Mas se teu pae impedir tal casamento? Ainda não pensaste n'isso?

—Não... É verdade... Se meu pae impedir... que hei-de eu fazer?...

—Eu sei lá, filha! Obedecer a teu pae; que outra coisa ha de fazer uma menina da tua qualidade? Eu{79} bem sei que teu pae é o fidalgo menos vaidoso que eu conheço. Tenho-o visto ser egual com todos, e admittir em sua casa pessoas de baixa extracção sem indagar a procedencia d'ellas; mas tambem é certo que, uma vez, antes de cá vir o Eduardo, me disse elle a mim que morreria feliz se te deixasse casada com um homem como Venceslau Taveira... Ah!—esta subita exclamação de D. Julia foi solemnisada com um bater de palmas significativo de valioso descobrimento nos arcanos do coração.—Queres tu vêr que eu comprehendi perfeitamente agora as repugnancias de Taveira?

—Sim? que é?

—É ciume, olha que é ciume! O Venceslau não t'o declarou; mas pensou em te cortejar. Como tem um genio exquisito, esperava occasião de manifestar-se a teu pae, antes de consultar a tua vontade. Mas eu que tal não imaginava fui fallar-lhe do teu amor ao outro, e ahi tens a razão porque elle expoz as extravagantes theorias, que eu nunca ouvi a ninguem. Pois não é outra coisa, Annica. O Venceslau ama-te, e começa a odiar o rival. Complicam-se as situações. Veremos o desfecho d'isto.

—Eu não caso com o Taveira, ainda que o papá me obrigue!—exclamou D. Anna, batendo o pé, e tregeitando uns gestos de mimo, que davam a lembrar irritações de menina por amor das bonecas.

—Pois então, creança—aconselhou Julia com o siso dos treze annos que levava de vantagem á sua confidente—tem prudencia, não te precipites. Parece-me{80} que o Taveira, se teve aspirações, como creio que teve, á tua mão, sabendo que o Eduardo te namora, é incapaz de prevalecer-se da estima de teu pae para desviar o outro d'esta casa. Entretanto, é preciso cuidado. Previne o Eduardo. Escreve-lhe, se não poderes dizer-lh'o. Que se acautele; que não conte nada; que vá grangeando a confiança de teu pae, até conseguir a intimidade que Venceslau obteve. Depois, eu te auxiliarei, intercedendo a favor de Eduardo, se houver resistencia.

Este dialogo precedeu a chegada do viuvo de D. Antonia.

Quando Venceslau Taveira, entre severo e jocoso, lhe feriu o melindre com as ironias allusivas ao legendario D. Juan e á sacrificada filha do commendador, já o mysterioso amador de D. Anna Vaz estava prevenido.

O ingrato acceitára as insinuações offensivas do caracter do seu amigo. Não duvidou serem ciumes os brios, d'outro modo inexplicaveis, do seu mentor gratuito. D'ahi a ancia de se desendividar a dinheiro, para assim se emancipar da preponderancia que o seu valedor na emigração parecia exercer-lhe na vontade, e mais que tudo no alvedrio dos seus amores.

Em meio d'isto, no animo do bracharense, transfigurado pelos quinze mil cruzados, operavam-se curiosas perplexidades que o accusam de espirito destragado talvez pela desgraça da sua juventude. Aconteceu, pois, que estando elle na sala do commendador Vaz, ao mesmo tempo que D. Julia de Miranda referia a um advogado presente o bom exito de certo pleito, d'onde acresciam{81} aos seus bens vinculos no valor de sessenta mil cruzados, ouviu perguntar o pae de D. Anna ao capellão da opulenta herdeira, em quanto orçava elle os haveres da senhora. E o padre, recolhido alguns segundos, respondeu:

—Por morte do snr. desembargador, a snr.ª D. Julia succedeu em bens avaliados pelo barato, em trezentos mil cruzados. Ora, como sua excellencia não gasta os seus rendimentos, o seu dote cresceu em sete annos dezoito a vinte mil cruzados. Ajunte-lhe V. S.ª o vinculo de Collares, e póde sem receio de errar cem moedas, computar em quinhentos mil cruzados a casa da snr.ª D. Julia.

—E que ha de ella fazer a tamanhos bens de fortuna?—perguntou o commendador.

—Comigo não os levo para a cova—respondeu a dama.—Os vinculos irão a quem tocarem; os bens livres a quem eu quizer.

Esta resposta rejubilou Francisco Vaz, esperançado que os filhos da sua Anna viessem a herdar os bens d'aquella que vestira eterno lucto d'alma por seu filho Antonio.

Mas, ao mesmo tempo, Eduardo Pimenta bascolejava no craneo uns pensamentos, que não se inculcam por originaes nem torpes; mas que merecem ser marginalmente assignalados por quem estuda a vida nos romances.

Dizia elle para dentro da sua consciencia:

—Esta mulher convinha-me. Andei muito depressa{82} na declaração á outra. Se Venceslau conseguir fechar-me uma porta, já sei a qual hei-de ir bater. Anna inquestionavelmente é uma linda flôr; mas Julia de certo é um fructo cubiçavel. Anna é um anjo de belleza; mas quinhentos mil cruzados...

—Quinhentos mil cruzados—dizia Venceslau Taveira ao commendador, como se désse complemento á phrase ou resposta á pergunta mental do amigo—não bastam para comprar um dia de pura felicidade, se o possuidor os não depõe nas mãos da Caridade, segunda mãe dos orfãos, e divindade luminosa nas almas que a desgraça entenebreceu. Quinhentos mil cruzados não vingam ajuntar mais uma hora de vida aos que se estorcem nas ancias da morte, com as mesmas contorsões dos que expiram nos muladares e nas palhas fetidas dos sótãos.

—Isso é pavoroso!—disse Eduardo Pimenta, contando com o applauso dos circumstantes.

Riu-se apenas o capellão, talvez despeitado por vêr que um profano lhe tomava a mão no seu direito de moralisar ácerca da inutilidade do dinheiro. E ninguem mais applaudiu a reclamação faceta do interruptor. Venceslau, porém, encarando-o com boa sombra, respondeu:

—Bem se vê que este meu amigo está rico!... A moral dos pobres é sempre o pavor dos que se receiam que ao apostolado da esmola se siga a tentativa do roubo...{83}

VII

Franqueza e mais franqueza. Assim é que a amisade
Póde ter duração e dar felicidade.

VISCONDE DE CASTILHO—No Avarento.

Se as sympathias de quem lê este livro começam a divorciar-se do viuvo de Antonia, apresso-me a divulgar um galhardo lance que deve restituil-o á estima das familias.

Eduardo, tres dias depois dos successos contados no anterior capitulo, procurou Venceslau, e abriu-lhe a sua alma d'este feitio:

—Volto a buscar o amigo extremoso que, depois de dez annos, me deixou vêr que tudo n'este mundo é imperfeito, sem excepção dos amigos.

Venceslau, ouvido o esperançoso exordio, depoz a penna, recostou-se á espalda da cadeira, fixou-o com attenção menos cordeal que admirada, e esperou em silencio.{84}

E o querido de D. Anna, com a firmeza e gravidade dos arrojos nobres, proseguiu:

—Houve um tempo em que tu, Venceslau, compadecido da insulação em que vias a minha pobre alma, raciocinavas amigavelmente reprovando a fraqueza menos de mulheril a que a saudade me extenuára, a ponto de inutilisar a minha aptidão para o trabalho, para o dever e para tudo que é proprio de homem. Eu escutava-te, soffreando ora as lagrimas, ora a indignação: as lagrimas, quando realmente me via inutil, a depender das tuas liberalidades; a indignação, quando se me pedia esforço incompativel com a minha amargura. Esta doença moral durou nove annos, queimando-me nas suas febres, e lacerando nas suas roscas de fogo o melhor da minha mocidade, introvertendo-me no devorar-se intimo da alma, em quanto, á volta de mim, os meus companheiros de exilio se distrahiam com o trabalho, ou se acalentavam com esperanças. Entrei na patria, chorando, em quanto os outros jubilavam, restituidos ás familias e recompensados com as posições e empregos de que se estão gosando. Quiz, porém, a Providencia que um raio de luz entrasse á noite profunda do meu coração, quando as supplicas da minha infeliz esposa alcançaram talvez da bondade divina que desviasse dos meus labios a taça da desesperação. Ao mesmo tempo que o desejo de viver renascia do seu sepulchro de nove annos, o cortejo das miserias que me confrangiam a virilidade e nobreza do meu caracter, deram-me treguas, permittindo o céo que a maldição de meu pae não chegasse{85} a esterilisar o meu patrimonio. A minha felicidade parecia recomeçar, ou antes começava para mim, quando de repente se levanta uma nuvem a negrejar no horisonte que tão claro se me prefigurava nos sonhos; mas, ao travez d'esta nuvem, transluzia-se-me uma imagem de mulher, formosa e innocente como ha doze annos eu vira outra que depois a chuva das lagrimas apagou. Esta segunda, santa e ao mesmo tempo sinistra visão, é Anna Vaz, é aquelle anjo de resgate que tu me apontaste na via dolorosa da minha paixão. Venceslau, o teu caracter é nobilissimo; é, mas o meu entendimento não sonda todos os seus arcanos. Ha delicadezas reconditas nas grandes almas; ha mysterios de abnegação que se não descortinam sem grande iniciação de virtudes que não tenho. Bem longe estava eu de suspeitar que tu amavas a filha do commendador; bem longe estavas tambem tu de me communicar esse segredo. Duas maravilhas para mim: uma, a reserva, para quem a não devias ter; outra, a renuncia para quem seria capaz de t'a acceitar. De qualquer das fórmas considerado o teu proceder, assombras-me, porque és homem, porque és bom, porque tens vinte e oito annos; todavia, se melhor pondero a tua indole, isto que em mim é assombro talvez se deva considerar incapacidade para entender o melindre da tua honradez, nas grandes e nas pequenas coisas, na politica e na moral, nos actos da consciencia e nos do coração. Não obstante, Venceslau Taveira, consente que eu te pergunte porque me não disseste que amavas D. Anna Vaz?{86}

—Porque eu não amava D. Anna Vaz—respondeu serenamente o interrogado.

—Então amaste-a depois que desconfiaste da minha dedicação?

—Nem antes nem depois.

—Amigo, abre-me a tua alma, se ainda me prezas. Não te julgues abatido da tua dignidade com semelhante revelação. Se fui teu competidor, a ignorancia me desculpa. Poderia accusar-te eu d'este dissabor, culpando-te o resguardo que tens para os mais communicativos sentimentos. Conheço o primor dos teus brios; sei que regeitarás a mulher que não teve espirito bastante para entrar ao secreto das tuas intenções. Não pódes arguil-a, meu amigo, porque ninguem te ouviu palavra indicativa de affeição superior ás affeições triviaes das salas. O commendador disse algumas vezes a D. Julia que tu deixáras o coração onde deixaste o habito de noviço. Os amigos d'elle e teus pasmavam que sahisse do mosteiro quem tão de molde nascera para as frialdades do claustro e desdens da vida social. Em meio d'estas apreciações, não era natural que a innocente Anna entendesse melhor a tua indole...

—Que desperdicio de palavras!—atalhou Venceslau Taveira, vencido da impaciencia, que elle tantas vezes subjugava a esforços de cortezia.

—Eu já sabia que principiava a cansar a tua attenção—replicou Eduardo, dissimulando a custo o dezar.—O que tenho que dizer-te é pouco mais, todavia o que mais importa. Deponho nas tuas mãos a inabalavel{87} resolução de desviar o espirito d'essa mulher que é causa innocente dos nossos primeiros desgostos, e peço á tua bondade que me absolvas da culpa, se delinqui, não te adivinhando. Se eu souber ou podér descobrir que o ausentar-me da casa do commendador te é aprazivel, mais grato me será a mim o sacrificio do que a ti. O que eu repulso com todas as forças da minha honra é a imputação de rival do meu maior amigo.

—Respondo—voltou Venceslau, retomando a penna para continuar o seu artigo.—Não amei a filha do commendador. Zelei a dignidade da familia que nos recebeu cordealmente. Demasiei-me comtigo em transcendencias de melindres, que, melhor avisado, eram pieguices. Se Anna Vaz te ama, paga-lhe com honrado amor a divida. Se tens coração e brios, se crês que esse amor é luz para durar e não relampago para deslumbrar, apagar-se e tecer-te mais espessas trevas, ama a creatura que te ama. O commendador estima-te: se lhe pedires a filha, persuado-me que lhe será agradavel conceder-t'a. Quanto a riquezas, ouço dizer que elle as não tem; mas sobeja-lhe a mediania. Nunca te conheci ambicioso. O que tens sobra-te á felicidade, se a procurares áquem da opulencia. Não sei que mais deva dizer-te sobre o ponto.

Eduardo não redarguiu. Havia o que quer que fosse adstringente e intallador na garganta do homem. Preparára-se para outro desfecho. Contava com lances irritantes que explicassem a sua ausencia da casa do commendador. A situação por tanto era a mesma, era boa,{88} mas elle queria peoral-a. Venceslau não amava D. Anna; mas elle, para acerbar o trago do seu absyntho, queria immolar-se ao amigo, recolher outra vez o coração ao seu tumulo, revestir o crepe d'uma segunda viuvez, e recomeçar o seu ir-se d'olhos no céo pelas regiões sombrias da saudade immortal.

Devia ser isto o que martellava o peito do homem, quando elle entrou no pateo d'um palacete ás Amoreiras.

Morava ahi D. Julia de Miranda. Estavam os cavallos postos á traquitana; e já na escada fremiam os vestidos da fidalga, quando elle entrou.

—Está aqui, snr. Pimenta!—exclamou Julia.—Procura-me ou vae de passagem?

—V. Exc.ª vae sahir; voltarei, quando lhe não for tão incommodo.

—Não, senhor: suba. Eu ia a compras que posso adiar, e talvez fosse jantar com a minha Annica; mas, como não sou esperada, não receio que ella se queixe. Suba. Ha muito que eu ambicionava o prazer da sua visita.

Eduardo deu-lhe o braço, e entrou pela primeira vez nas magestosas e severas salas do desembargador Miranda, que se prezava (isto vae como nota) de ter n'ellas as principaes alfaias dos marquezes de Tavora, condemnados ao supplicio por seu pae—acquisição, a das alfaias, legitimamente feita, por ter sido um brinde do marquez de Pombal ao ministro que, em particular e não por sentença, incumbíra os tres carrascos de mostrarem{89} previamente á marqueza de Tavora, D. Leonor, os supplicios reservados para o esposo, filho e parentes.

Ditas as frivolidades usuaes, Eduardo ageitou o semblante ao proposito, e por esta maneira respondeu á curiosidade de D. Julia:

—Sahi ha pouco de casa de Venceslau Taveira...

—Foi talvez—interrompeu a dama—felicital-o por ter sido eleito deputado? Eu mandei-lhe agora mesmo o meu bilhete de visita. Não sabe quanto folguei com esta prova dada ao talento e á virtude d'aquelle rapaz! Deve-o a si, á sua dedicação, e a nenhuns protectores.

—É verdade, minha senhora, Venceslau é um complexo de excellencias que ha de ir muito longe, se a distincção é carreira em Portugal. Fui lá; mas, snr.ª D. Julia, o meu espirito ia tão preoccupado d'outro assumpto que nem me occorreu dar-lhe os emboras. V. Ex.ª consente-me que eu seja rasgadamente franco nas melindrosas confidencias que lhe vou fazer?

—Oh! pois não!

—Dá-me a honra de eu a considerar minha amiga?

—E sou deveras, snr. Pimenta.

—E portanto faculta-me a liberdade de lhe fallar como se falla a... uma irmã?

—Assim é que me consideram as pessoas de quem sou sincera amiga.

—V. Ex.ª tem n'essa conta a snr.ª D. Anna Vaz.

—E muito no intimo da minha alma. Não lh'o disse ella?

—Raras vezes tenho trocado duas phrases com a{90} snr.ª D. Anna; mas facilmente conheci a intimidade que liga dois anjos. Quando voltei do desterro, era eu em Lisboa um como desamparado dos mais vulgares affectos. Ninguem me saudou, ninguem me deu o festival abraço do bem-vindo; nada me deu a conhecer que pizava chão da patria; o céo era pesado e silencioso para mim como o do exilio; todas as physionomias me eram estranhas: vi-me proscripto entre os homens que fallavam a minha lingua, sem me darem d'ella uma das doces palavras que fazem sentir a patria na alma e no coração. Repulso das caricias da familia para os braços d'uma adorada mulher, nas agonias do trespasse, como que, ao mesmo tempo, me vi viuvo e orphão. Arrastei o meu lucto, oito annos de emigrado, e, ao saltar em terra portugueza, a dôr pungia-me mais, porque não achei ninguem que me désse um peito onde encostasse o rosto coberto de lagrimas. Redobrou-se-me o tedio da vida. Invejei a paz dos mortos. Abominei-me pela cobardia de viver...

—Tendo um amigo como Venceslau Taveira!...—interrompeu D. Julia, retendo a custo as lagrimas justificadas pela toada plangente d'aquella bem discursada elegia.

—Venceslau—tornou o lastimado Pimenta—é um caracter nobilissimo; porém n'elle as operações reflexivas e frias da razão predominam as outras faculdades. Não sei se elle é capaz de grandes paixões; mas experimentei que as paixões alheias não o desvairam das linhas que pautou aos actos do seu bem ordenado{91} juizo. Venceslau consolava-me com as theorias e dictames dos pensadores de gabinete; mas eu, fóra do ambiente sereno do meu amigo, encontrava as tempestades soltas que me baldeavam a alma por quantos golphãos se abrem aos pés de quem uma vez tomou nos braços o cadaver d'uma mulher formosa e amada, e o collocou debaixo da enxada de um coveiro.

N'este lance, Eduardo, quanto dos olhos marejados cumpria inferir, tinha ante si o phantasma de Antonia, não como apparição do anjo consolador, mas sim a reprovar-lhe a invocação da sacratissima memoria para o entrecho d'uma comedia ignobil, com seus entremeios de declamação tragica.

D. Julia, d'esta feita, não pôde estancar duas lagrimas, signaes da enternecida admiração que lhe estava entrando na alma pelos desastres de tão sensivel quanto infeliz moço. E elle continuou, guardadas as pausas da arte scenica:

—Quando Venceslau me convidou a ser apresentado ao commendador Vaz, dizia-me uma voz secreta que este passo de tão simples natureza seria na minha existencia uma phase nova, o marco erguido entre dois abysmos—o que se fechou e outro que se abre.

—Porque?!—atalhou D. Julia.

—O presentimento, minha senhora; a vista dupla dos grandes desgraçados...—a sombra do anjo negro que esvoaça á volta de mim, e ás vezes me rossa no peito com a aza, como ave nocturna que bate na pedra de uma sepultura. Agora diga-me V. Ex.ª se o meu{92} presagio era chimera de visionario. Entrei na sala do commendador, e vi duas senhoras. Na face de uma desabotoavam-se em sorrisos as flores do primeiro abril do coração; na face da outra havia uns toques de dôr, a pallidez reflexa dos luctos do espirito, a formosura esculptural de estatua que se curva a chorar sobre uma urna de cinzas. Esta era V. Ex.ª; a outra, a innocencia radiando alegrias, era a snr.ª D. Anna Vaz. Eu contemplei-as ambas com o olhar profundo de quem já viu muita alegria de repente morta, e não viu ainda resurgir aurora de dia bonançoso para quem uma vez sentiu anoitecer-se-lhe tudo que lhe era claridade. Contemplei-as, e disse comigo: «Aquella que sorrí não me comprehenderia; aquella que já chorou, e tem os vestigios de lagrimas no rosto, saberia comprehendel-a eu.

D. Julia, n'esta passagem, abaixou os olhos, menos pudibundos que sensiveis á fulguração penetrante dos olhares de Eduardo. E logo, inspirado pelo mavioso gesto da dama, continuou:

—V. Exc.ª concedeu-me liberdade de irmão... recorda-se?

—Sim...

—Não me está accusando no silencio da sua alma?

—De quê?

—Nem me accusará?...

—Posso eu prever até onde irão as suas confidencias?

—Estão em principio, minha senhora... não tardo a concluil-as... Mas...—disse elle com suspensivo receio,{93} adocicando o aranzel á feição de galan timido:—No semblante de V. Exc.ª ha uma alteração que me está opprimindo...

—Isso é illusão de V. S.ª; mas não se admire, se me vê mais triste... Eu não posso ouvir friamente referencias ás desventuras que V. S.ª não ignora...

—Disse-m'as Venceslau. Bastou que elle me lembrasse o nosso companheiro de emigração, aquelle gentil espirito a quem V. Exc.ª está honrando com esses prantos, que nenhum homem, nenhum amor, nenhuma paixão fará estancar.

A este tempo, D. Julia embebia no lenço as lagrimas e abafava os soluços.

—Dôr respeitabilissima! coração fechado ao alvorejar de esperanças!—proseguiu Eduardo enfaticamente.—Como ousaria voltar eu a pôr olhos na face da martyr, sem medo de profanal-a! Quantos homens a teriam visto e amado, snr.ª D. Julia! quantos labios se teriam cerrado, afogando as temerarias revelações d'um amor vehemente! Quantos pensariam disputar á memoria de Antonio Vaz morto o coração da sua esposa promettida, do anjo comtemplativo de uma imagem entrevista no céo! Eu não! e todavia...

D. Julia fez um gesto de antôjo, que eu, na minha ignorancia de traduzir todos os gestos de senhoras, não me atrevo a certificar que fosse enfado. Era um mover-se altivo de cabeça e um alçar de olhos com um franzido de fronte—coisas que a gente vê nos palcos e{94} nas salas, sem decidir onde o movimento obedece á rubrica, ou á natureza.

Como quer que fosse, Eduardo quasi que se estupidificou e amarelleceu, principalmente quando a filha do desembargador, abrindo um sorriso acre, disse:

—Cuidei que o snr. Pimenta ia fallar-me da minha amiga Anna Vaz.

—Não se enganou, minha senhora...

—Já sei que me vae dizer que sentiu por ella o digno amor que lhe tem declarado nas suas cartas...

—Sem duvida...

—E eu lhe assevero que ella o ama com toda a candura e sinceridade dos quinze annos.

—Ignorando que me realisou o presagio dos renovados infortunios...

—Que infortunios!.. Vê tudo tão negro, senhor Eduardo!...

—Como hei-de eu dizer a V. Ex.ª que vou fugir da sua amiga, á semelhança de quem foge d'um segundo abysmo?

—Fugir!... que ingratidão!...

—E que injustiça me faz, snr.ª D. Julia! Ingrato, eu! Se uma alma invocada podésse descer do céo a depôr contra essa dolorosa iniquidade!... Eu, que nem pude ser ingrato a uma sombra!...

—Se não é ingrato, que nome darei ao homem que motivou um amor extremo, e diz que vae fugir da pobre menina que nenhum desgosto lhe deu? Quem o obriga a fugir?{95}

—A honra.

—Pois semelhante amor deshonra-o?

—Condemna-me aos olhos de Venceslau Taveira. V. Ex.ª sabe-o.

—Que sei eu? Que Taveira tem umas singulares theorias a respeito do cavalheirismo...

—Sabe mais... Sabe que Taveira amava D. Anna Vaz quando eu lhe fui, em funesta hora, apresentado.

—Não tenho a certeza de que elle a ama...

—Mas attribuiu a ciumes a má vontade com que elle me via bemquisto da amiga de V. Ex.ª

—É verdade, suspeitei ciumes; mas V. S.ª mais de perto e com melhor percepção lhe terá sondado o espirito...

—É insondavel... Disse-me que a não amava; mas tambem me não soube dizer porque eu não devia amal-a.

—E em resultado d'essa conferencia enigmatica, deixa V. S.ª de amar a minha innocente amiga!... Não sei qual dos dois é mais excentrico! Pobres mulheres! Vá lá uma alma dar-se infantilmente a um coração frio que traz o seu amor n'um prato da balança, e uns problematicos pontos de honra na outra!... Acha bonito que seja sacrificada a minha amiga á conciliação cavalheirosa de V. S.as? Ai! felizes aquellas que não amaram nunca!... e as que amaram e perderam um homem de coração, fechem os olhos para o amor como elle os fechou para a vida... Acabei de entender o fim da sua visita—continuou D. Julia com mui senhoril compostura{96} e gravidade.—Vem encarregar-me de avisar Anna Vaz que...

—Não, minha senhora—accudiu Eduardo—o infortunio é conciliavel com a delicadeza. Quando me eu lembrasse de encarregar V. Exc.ª de tal commissão, o meu logar era no pateo com os creados d'esta casa, e não n'esta sala onde V. Exc.ª me está honrando, e soffrendo com mais que extrema indulgencia. Vim, minha senhora, pedir-lhe que me diga até que ponto o que devo a Venceslau e o que devo á filha do snr. commendador Vaz podem congraçar-se sem despundonor para mim. Vim, minha senhora...

E, levantando-se de impeto melodramatico, fitou D. Julia com estranha fixidez, e ajuntou:

—Vim pedir-lhe a sua amisade...

—Tem-n'a, sincera, profunda e inalteravel.

—Não tenho...

—Não tem? outra singularidade! Porquê?!...

—Porque V. Exc.ª, prêsa sagradamente á memoria de Antonio Vaz, não póde ser verdadeiramente amiga do homem que, a não poder merecel-a, quereria ser na sua alma a imagem d'um morto bem amado.

E sahiu apertando-lhe com estremecimento a mão.

D. Julia não respondeu senão palavras balbuciantes, ou porque estivesse digerindo a substancia d'aquellas palavras abstruzas, ou porque ficasse passada do imprevisto desfecho do dialogo.

Sei mal o que foi, e sei menos ainda que scismar era{97} o seu com a face encostada á palma da mão direita, relançando a espaços a vista para um grande espelho, onde se via toda. Estaria ella perguntando á copia do aço se o original estava nos seus momentos de formosura quando o gentil moço lhe dizia coisas d'uma escandecencia original?

A gente sabe lá o que as senhoras dizem aos espelhos!...{98}
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