WeRead Powered by ReaderPub
Livro de Consolação: Romance cover

Livro de Consolação: Romance

Chapter 9: IX
Open in WeRead

About This Book

This work presents a narrative that explores themes of love, loss, and the complexities of human emotions through a series of reflections and experiences. It delves into the trivialities of everyday passions and the impact of societal norms on personal relationships. The author employs a contemplative tone, inviting readers to consider the deeper meanings behind seemingly mundane interactions. The structure is characterized by a blend of introspective passages and descriptive prose, creating a rich tapestry of thoughts that resonate with the reader's own experiences of affection and sorrow.

IX

A desgraça não os tomará de assalto. Bom é esperal-a, para que a alma se lhe affaça, e o supportal-a seja menos exulcerante.

LUCIANO,—Da Astrologia.

D. Julia não se ficou todo o dia scismatica, a remirar-se no espelho. Os cavallos ainda escarvavam as lagens apostos á traquitana. Sahiu, e foi, como tencionava, a casa do commendador Vaz.

—Olha que estou afflicta, Lulu!—exclamou Anna, atirando-se-lhe aos braços.

—Afflicta! que é?

—O papá, hoje depois de almoço, ficou sósinho comigo, e esteve a dizer-me que Venceslau era muito bom rapaz, muito esperto, muito fidalgo, e que ainda havia de ser um grande homem em Portugal.

—E depois? aposto que te fallou em casares com elle?

—Isso mesmo... Já viste infelicidade assim?

—Então o Venceslau pediu-te?{100}

—Eu sei cá! Talvez... Não sei... O papá nada me disse, senão isto: que eu seria a mais ditosa creatura, se casasse com elle.

—E tu, fizeste biquinho? choraste?—voltou Julia, rindo.

—Chorei muito, mas foi no meu quarto; porque o papá, vendo que eu não respondia sim nem não, esteve a olhar para mim com os olhos mal encarados, e disse-me: «dar-se-ha caso que a tua cabeça tenha lido alguma leviandade? Anna, vê lá o que fazes e o que tens feito. Com teu pae não ha segredos nem disfarces.» E, depois, disse já muito zangado: «Respondes ou não? Se a tua boa estrella te dér por marido Venceslau, agrada-te este casamento?» Eu que havia de responder, Lulu? Dize lá, tu que respondias?

—Eu sei, filha!.. essas respostas só sabe dal-as quem se vê nos apertos de taes perguntas. Respondeste que sim?

—Fiquei atemorisada... nem soube o que respondia... Respondi que fazia o que o papá quizesse... Elle então deu-me a beijar a mão e sahiu; e eu fui chorar para o meu quarto. D'ahi a pouco, voltou o papá, bateu-me á porta, eu limpei as lagrimas e escondi as cartas de Eduardo que estava a lêr. Disse-me elle então que ia dar ao Venceslau os parabens por ter sahido deputado ás côrtes; e tornou a fazer-me a mesma prégação das virtudes e talento do Taveira, dizendo que elle era deputado aos vinte e oito annos, e seria ministro de estado antes de ter quarenta. Ora que me importa a{101} mim cá isso? não me dirás? Aqui tens, Lulu, quanto eu sou desgraçada! Foi Deus que te trouxe. Tu has de valer-me, has de aconselhar-me, sim?

—Socega—respondeu Julia.—Se o teu casamento com Venceslau depende da vontade do noivo, estás tu bem.

—Sim? conta lá o que sabes!... que sabes tu, Julinha?

—Sei que Venceslau não te ama.

—Não? ai que alegria! quem t'o disse?

—O Eduardo.

—Sim? viste-o hoje?

—Esteve em minha casa.

—Esteve? que foi lá fazer? Eu não sabia que elle ia lá!

—Foi contar-me o que passára com o Taveira a teu respeito. O amigo affirmou-lhe que não teve ideia alguma de te amar, mas elle, apezar d'isso, desconfia que sim...

—Oh diacho! isso é máo?

—O que é máo?

—Se o papá lhe pergunta se elle quer casar comigo, e elle diz que sim... E depois? ai! que má sorte a minha!... Que desgraça!

—Que lamuria, Deus da minha alma!—atalhou D. Julia sorrindo ás lastimas e gesticulação da linda creança.—Não te disse eu já que Venceslau não te ama?

—Disseste, sim.{102}

—Pois se te não ama, que importa que teu pae lhe offereça uma esposa que elle não quer?

—Achas, Lulu?

—Acho; mas...

—Que é?... estás com medo que elle queira? é isso?—voltou já muito alarmada a filha do commendador alternando as ancias desabaladas com os tregeitos jubilosos.

Em quanto o volatil espirito da menina avoejava das conjecturas risonhas para as tristes, e D. Julia, presumindo-se interprete do coração humano, folgava de serenar ou alvorotar as inquietações da sua candida amiga, corria o seguinte dialogo entre o commendador e o deputado.


—A minha admiração—dizia Francisco Vaz—foi grande quando hoje li a fausta nova da sua eleição, meu caro senhor e amigo...

—Admirou a grandeza do encargo em tão pequeno vulto? Tambem eu me assombro da irreflexão do governo, que me indicou e do povo que me elegeu, quasi sem me conhecer.

—Não foi isso que me admirou, cavalheiro que sabe tão destramente embeber no arco da modestia a frecha da ironia. Innocente como a pomba, com sua malicia de serpente, seu maganão!—dizia o commendador espirrando uns sorrisos de inoffensiva perspicacia.—Sabe o que me admirou? foi a nenhuma importancia que{103} V. S.ª dava ás honras que lhe estavam eminentes. Já hontem o meu amigo sabia que era representante em côrtes e não quiz dar-me a satisfação de m'o annunciar!

—Se o ser eleito me désse gloria, V. S.ª seria o primeiro a participar do meu desvanecimento; porém, se a missão me é penoza, como hei-de eu suppôr que os meus amigos se regosijem?

—Ora vamos, ora vamos. Deixemos os Cincinnatos desprendidos da gloria ao fabulario da historia romana. Eu não consinto á natureza humana tal desapêgo, mormente se a façanha incrivel se dá em moço de vinte e oito annos, pouco abastado em bens...

—Pouco!—interrompeu Venceslau a sorrir.—Parece-me que eu já disse ao snr. commendador que vivo do meu trabalho, e que, se a doença me impedir de escrever, terei de pedir um catre ao hospital.

—Ó pavorosa imaginação! ó ingrato amigo!—acudiu o commendador, batendo-lhe no hombro com ares de affectuoso despeito.—Venceslau Taveira, se adoecer, não vae para casa do velho Francisco Vaz; não, senhor; Francisco Vaz é um desprezivel amigo; o doente irá para o hospital. Com effeito, moço! paga-me generosamente!—proseguiu severisando o aspecto.—O enfermeiro de meu filho Antonio, o caridoso anjo que adoçou o fel da agonia do exilado, o amigo que deu lagrimas e sepultura ao cadaver de meu filho, é o mesmo que diz ao velho pae do seu morto companheiro: «Eu, se adoecer, não quero o teu leito, nem os teus cuidados, nem a tua gratidão! Irei para o hospital, para que não{104} possas pagar-me parte da divida de teu filho, que me expirou nos braços.»

Venceslau abraçou o commendador com enthusiasta commoção, murmurando:

—Se o offendi, perdôe-me em nome de seu filho. Eu não suppuz que V. S.ª désse tal interpretação ás minhas palavras irreflectidas.

—Está perdoado, porque peccou involuntariamente. Bem sabia eu que não ha orgulho tamanho em homem que exercitou a caridade com tantos... Póde ser que o amigo intimo de meu filho despreze as honras de deputado, e acceite com vaidade o coração de pae que lhe offerece o pae do seu defuncto amigo.

Venceslau curvou-se e beijou a mão do commendador, o qual, exultando, e estreitando ao seio o moço, continuou;

—Quer-me parecer que ha o que quer que seja providencial na sua intimidade com o meu Antonio!... Vou fazer-lhe uma pergunta, snr. Taveira: O meu filho nunca lhe disse que tinha uma irmã?

—Muitas vezes me fallou d'ella, como se falla de uma creancinha muito formosa, e d'uma irmã acariciada como filha. Quando Antonio Vaz morreu, a snr.ª D. Anna teria, quando muito, sete annos. Recordo-me dizer-me elle, dias antes de morrer, que seria menor a sua paixão de acabar tão longe dos seus, se a irmã estivesse em edade de comprehender a angustia do pae, e podésse consolal-o com os sentimentos do coração capaz de intelligentes lagrimas. «É muito nova—dizia elle—verá{105} chorar o pae, terá alguns momentos de saudade, e irá logo depois distrahir-se com os seus brinquedos.»

—Enganou-se o meu infeliz filho—disse o commendador enxugando os olhos.—A creança tinha coração de mulher. Quando eu lhe disse «teu irmão é morto», Anna abraçou-se a mim, debulhada em chôro, exclamando:—Não morra, meu querido pae; deixe-me primeiro morrer a mim, que fico sem ninguem n'este mundo. Este grito da menina que presagiava a orphandade, deu-me forças sobre-humanas. Defendi-me da morte com a minha filha no colo. E, quando me sentia desfallecer e estalar de saudade, voltava-me para Deus, mostrava-lhe a creança, e dizia «Se me deixaes morrer, Senhor, aqui a tendes, amparae-m'a!» Foi ella quem me amparou a mim; ás suas reminiscencias estava eu sempre pedindo memorias de meu filho; ella contava-me as pueris historias que lhe ouvira; mostrava-me as bonecas e bugiarías que lhe elle dera. Se me via chorar, chorava, e folgava de me vêr chorar, dizendo que eu, depois que respirava assim da cerrada oppressão, lhe parecia mais animado. Eu cobrei alivios de muito amargurar-me. Ha saudades que esquecem delidas por esperanças. Não pude eu esquecel-as assim. Outras nunca esquecem, mas deixam de pungir: dóem, mas desafogam-se no seio d'um bom anjo que nol-as leva á alma que choramos. O meu anjo medianeiro com meu filho era Anna. Ella vinha contar-me em sobresalto que vira em sonhos o irmão a sorrir-lhe. E eu acreditava; e, se ella piedosamente me enganasse, ainda assim abençoaria{106} a sua caridade. Aqui tem, snr. Venceslau, proseguiu o commendador restaurando o folego afadigado por soluços que, a espaços, lhe embargavam a voz—aqui tem o que foi a minha filha em menina muito tenra; e hoje, que ella vae nos seus dezeseis annos, peço-lhe, snr. Taveira, que desculpe ao amor paternal, o bom conceito em que a tenho...

—Em que a temos todos os que a conhecemos.

—Alegra-me essa opinião—exclamou o velho com vehemencia—enche-me de santa vaidade, porque vem d'uma sincera alma! Não quiz Deus que meu filho Antonio participasse da minha alegria, encontrando a creança, que me deixou nos braços, a amparar nos seus a minha velhice. Como elle amaria esta irmã! como seria bem-aventurado a esta hora entre os dous santos amores que o esperavam—o de Julia, a sua amada desde a infancia, e o da irmã, que rivalisaria com a esposa no empenho de o cumularem de contentamentos! E quem sabe, snr. Venceslau Taveira, quem sabe se meu filho, tentando completar a felicidade sempre imperfeita n'esta vida, pensaria no modo de identificar em coração á sua familia o honrado companheiro de desterro, o consolador nos desalentos, o irmão na soledade da terra alheia, o confidente nas saudades cruciantes, o enfermeiro na doença, o exemplo emfim da coragem, da probidade, e do esforço caritativo, d'essa grande virtude dos ricos, e divino prodigio dos pobres...

—Oh snr. commendador!—atalhou Venceslau—a sua amisade vae tão adiante do que eu fui e sou...{107}

—Quem sabe—ajuntou Francisco Vaz, apertando convulsamente ambas as mãos do deputado—quem sabe se meu filho, para fazer seu e da sua querida familia o homem de bem, lhe diria um dia, mostrando-lhe a irmã: «Venceslau, se amas esta doce creatura, sê meu irmão; sê filho de meu pae que t'a offerece; entra no seio das nossas mais intimas alegrias; deixa-nos afazer á ideia de que não é só a gratidão, mas tambem laços de sangue que nos prendem.» Que responderia ao seu Antonio Vaz, snr. Taveira?

O interrogado, colhido de sobresalto, emmudeceu, enfiou, passou a mão pela fronte, e sentiu momentos de verdadeira angustia.

Estranhando a confusão silenciosa, o commendador não podia dilucidar o que havia aviltador ou respeitavelmente justificado n'aquella mudez, semelhante a uma resposta negativa e indelicada.

—Impressionei-o dolorosamente!—balbuciou o velho.—Receba-me como gracejo de louco ou de amigo essas palavras que o perturbaram, snr. Taveira.

Venceslau abraçou-o com impetuoso fervor, e disse:

—Faça-me justiça!...

—Completa e sincera, meu amigo. Comprehendi-o... Isso é nobre; e tudo que nos vem da honra, seja alegria ou tristeza, é sempre um sentimento que deve expandir-se nos braços do homem de bem. Sei o que é. Eu devia suspeital-o. Os moços da sua condição encontram esposas á competencia, e não o revelam porque a fatuidade desdoura, profana e deslustra o segredo,{108} que é a mais bella caução do amor sisudo e competente ao homem honesto. Se V. S.ª não guardasse tanto o seu segredo, evitava-lhe este desgosto. A mim, o lance, bem que pouco usual, não me afflige. Offereci-lhe minha filha: offereci-lhe tudo que tenho, toda a minha riqueza; dei-lhe a maxima prova de quanto o prézo: estou contente; desobriguei-me de parte da divida de meu filho—divida de amor, que não podia ser paga em outra moeda. Agora, não me esteja assim pensativo, snr. Taveira!... fallemos n'outra coisa.

—Não, senhor, fallemos d'esta—replicou Venceslau já tranquillo.—Principío por asseverar ao snr. commendador Vaz que conheço em Lisboa duas senhoras: sua filha, que amo como irmão, porque ella, bem que lhe sobejem qualidades proprias para ser estimada, é irmã do meu amigo Antonio Vaz. A outra senhora é D. Julia, que respeito e considero, porque vi tanta lagrima saudosa a encarecer-lhe as virtudes, que me afiz a vêl-a do desterro como um anjo, e na patria como senhora de quem as outras devem aprender a lealdade na viuvez. Durante o meu exilio, a minha mocidade, snr. Vaz, namorou-se do trabalho, da fortuna avára dos que lá viveram das lides do espirito. As amantes d'esta especie costumam ser tão zelosas e egoistas das nossas attenções, que nos não abrem ensejo de pensar nos affagos d'outra. Foi assim comigo a fortuna do proscripto. Ou luctar com as extremas privações, deshonrando-me nos expedientes que ellas aconselham; ou lidar sempre, ora escrevendo, ora ensinando; mas, tendo{109} sempre em vista a inutilidade do coração, debaixo d'um casaco cossado e remendado. Não amei ninguem na terra alheia; não amo ninguem na minha. Sou aqui o que fui lá fóra: um operario labutando o pão quotidiano. Escasseia-me o tempo nas obrigações urgentes; não tenho podido desbaratal-o em diversões da alma, em preoccupações deliciosas que denotam ferias de espirito e necessidades levantadas acima do positivismo da vida commum. Sou pobre, como V. S.ª sabe. Entretanto, snr. commendador, pobreza e trabalho não esterilisam o coração. O homem, fiado no seu braço robusto ou em sua intelligencia productora, está bem no caso de poder aspirar ás consolações e alentos d'uma esposa, que lhe alumie a solidão escura do seu gabinete, e lhe duplique o esforço para a lucta. Algumas vezes me entreluziu ao animo quebrantado a doce alliança da intelligencia com os prazeres do coração. Figurou-se-me vêr perpassar por diante d'esta banca, onde a aurora de cada dia me encontra, uma imagem vaga, com o sorriso da coragem nos labios, e a luz da esperança nos olhos, fixos em mim, que a contemplava como a varonil inspiração dos meus rudes trabalhos. Era o relampago do secreto fogo que não se extinguiu—era talvez o estremecer dos sentimentos abafados no recondito da alma. Bem póde ser, snr. commendador, que o fogo chammejasse, e o sentir abafado se expandisse, no momento em que V. S.ª agora mesmo me disse que eu podia ser o esposo da snr.ª D. Anna Vaz. Eu cuidaria{110} então que era ella a imagem entrevista nos meus enlevos; sentiria a subita mudança do sonho para a realisação; e, se a surpreza me cortasse as palavras de reconhecimento, o meu silencio teria a eloquencia das lagrimas. Sua filha, snr. commendador—proseguiu Venceslau apoz uma grande pausa—sua filha não me ama...

—Como?—interrompeu Francisco Vaz, erguendo-se de golpe, e batendo rijo a bengala no pavimento.—Como sabe que minha filha o não ama?

—Como sei que a não amo eu tambem. O meu coração, posto que inexperiente, adivinhal-a-hia, se lhe eu motivasse algum sentimento distincto da amisade, que lhe mereci, como amigo de seu irmão, e affectivo apreciador de seu pae. Eu não podia ser amado, porque os meus breves instantes de conversação com a snr.ª D. Anna foram sempre alheios da minima referencia ao amor, ás vagas coisas do coração com que as horas se aligeiram e saboreiam nas salas, segundo julgo da intimidade dos que são ou dos que parecem ser felizes. Praticávamos ácerca do nosso saudoso Antonio, ou dialogávamos em francez sobre assumptos que me pareciam adequados á perspicacia intellectual de tão habil menina...

—Sei isso, snr. Venceslau—sobreveiu o commendador.—Está-me V. S.ª dando ares de quem se justifica de honrado comportamento.

—Não me justifico, snr. Vaz: explico a suprema{111} quietação da minha alma em presença d'uma senhora que eu estimava como se estima uma irmã favorecida de excellentes qualidades.

—Que ainda assim V. S.ª não podia amar...

—Não vem acertada essa reflexão; consinta o snr. commendador esta rudeza. As excellentes qualidades são amaveis; mas não é dever da mulher que as tem acceitar o culto de quem lh'as reconhece; nem é judicioso a quem lh'as admira revelar-lhe a sua dedicação, além dos limites do respeito. Era, todavia, muito de esperar que a snr.ª D. Anna Vaz inspirasse um grande amor e ao mesmo tempo o sentisse pelo homem a quem o inspirasse. Isso aconteceu.

—Que é? pois minha filha ama alguem?—interrogou Francisco Vaz com aspecto iracundo.

—Ama, sim, senhor.

—Quem?

—O meu, o nosso amigo Eduardo Pimenta.

O commendador percorreu tres vezes o estreito escriptorio do deputado, enxugou o suor da calva, comprimiu a testa com ambas as mãos e murmurou:

—Deu-me um profundo golpe, snr. Taveira!... Estou a braços com a desgraça...

—Eis-ahi uma dôr que me assombra!—redarguiu o jornalista.—Que conceito, pois, fórma V. S.ª de Eduardo?

—Não sei, não sei que presagios me despedaçam o coração! Não lhe conheço vicios... ninguem o accusa, ninguem o denegriu na minha presença, tenho-o recebido{112} com affectuosa familiaridade; pois, apesar d'isso, eu não queria que tal homem casasse com minha filha. E, se eu impugno tal casamento, qual é a dignidade de Eduardo Pimenta em requestar minha filha?

—Seria indignidade grande requestal-a com a certeza de que V. S.ª recusa conceder-lh'a.

—Pois, snr. Taveira, auctoriso-o a declarar ao seu amigo que lhe nego minha filha. Não ha nada mais explicito e summario.

—E, se o meu amigo me perguntar que actos de sua vida o desconsideram na opinião do snr. commendador, que responderei?

—Responda que um pae não é obrigado a justificar a sua vontade.

—Muito bem. Eduardo não póde honestamente voltar a casa de V. S.ª

—É claro.

—Foi por tanto expulso de sua casa, snr. Vaz, o homem que eu lhe apresentei, não é assim?

—Elle é que se fez indigno da minha estima.

—Seja qual for a causa, o meu amigo foi expulso; e eu, que ainda me não vexo de o haver apresentado, expulso me considero tambem.

—O senhor!? que desconchavo!

—Póde ser que eu ignore as praticas da boa sociedade. Se ellas diversificam do modo como eu as professo, abstenho-me de as aprender. Quem apresenta, no gremio d'uma familia, pessoa que desmereceu a estimação que lhe deram, retira-se ao mesmo tempo, ou envergonhado{113} do ultrage que o seu vil amigo commetteu, ou offendido da injuria que se lhe faz, se elle é expulso immerecidamente. Não questiono sobre a justiça ou injustiça com que V. S.ª o repelle: qualquer das hypotheses me aconselha a não voltar á casa defeza a Eduardo Pimenta.

—E sacrifica-me ás indiscrições de Eduardo Pimenta, snr. Taveira? Quer-me convencer de que o procedimento d'elle é regular?

—Já disse ao meu bom amigo que me abstinha de contestar a razão dos seus aggravos; mas, se V. S.ª me força a defender-me, defendendo Eduardo, afoitamente lhe confesso que o não culpo. Amar a snr.ª D. Anna, que é amavel como formosa e como rica das graças do espirito, não é delicto, ainda mesmo que os meritos de quem a ama não possam egualal-a. A Eduardo faltam pergaminhos; nasceu na casa de lavradores; os brazões de seu pae eram os utensilios da lavoura. Prouvera a Deus que o fanatismo o deixasse viver e morrer na obscura honra dos que lidam de sol a sol, e obedecem ao preceito da incessante lida, sem blasfemar da Providencia que instituiu as desigualdades da fortuna. Amargamente pagou Eduardo Pimenta o acaso de ter nascido plebeu. D'essa enorme culpa resultou-lhe a perseguição, o carcere, o desterro e a morte da esposa que o adorava...

—Consequencias do erro...—atalhou o commendador.

—Do erro?{114}

—Sim, da culpa de cortejar uma dama illustre que não podia ser d'elle sem arrostar grandes perigos, sem desdourar seus parentes, sem se atirar a si mesma aos abysmos cavados pela desobediencia. Que fez elle amando a mulher nascida em outra esphera? matou-a; formou os elos da corrente que a levou de rôjo á sepultura. Com que direito affrontou elle as leis sociaes?

—Quaes leis?... Não sabia eu que o meu amigo tinha affrontado algum direito...

—O direito consuetudinario, a ordem de coisas, o estylo que rege os costumes. Se o amor votado por plebeu a mulher nobre causa a desgraça d'essa mulher, tal amor, com quanto os poetas o celebrem, é calamidade que faz chorar muita gente, e desata laços que nunca mais se refazem.

—Essas ideias, snr. Vaz—redarguiu Venceslau—são boas; mas permitta o céo que o genero humano vingue d'aqui a um seculo não vêr a fronteira que divide o coração plebeu do coração fidalgo. Quando esse oiro das almas sahir depurado do cadinho dos annos, as ideias de V. S.ª serão acoimadas de absurdas ou transviadas do trilho por onde a luz do christianismo nos vae alumiando. Não argumentemos sobre o ponto, porque ainda não é tempo de se abraçarem os adversarios. Antonio Vaz, o fidalgo, filho do decimo commendador de Santa Christina de Almudena pensava como eu; e, nas nossas palestras de socialismo e regeneração do homem, nunca nos lembramos que nossos bisavós haviam ganhado, com o sangue proprio e com{115} a vida de seus paes mortos em Alcacer-kibir, no Ameixial ou Montes Claros, as commendas que a liberdade nos vae tirar como mal adquiridas. A liberdade, que nós andavamos servindo, é essa que nos desbalisa e nivela com os filhos dos criados de nossos avós.

—Boa a fizeram...—resmuneou o fidalgo.

—Nada fizemos: foi o tempo. A luz, que doira e aquece as penedias dos montes, não é d'ellas, é do sol. O fructo não se enverdece e sazona a si: é o calor dos dias successivos. O instrumento obedece ao impulso; a ideia é o motor do braço. Seu filho e eu tinhamos nascido, quando a França se refundia e recaldeava ao fogo reconcentrado do lavor de seculos. Entramos na torrente; fomos levados; um é morto ao pé do berço da liberdade; o outro não foge da morte; mas nenhum de nós, tendo uma irmã, lhe poria o preceito de estudar heraldica para saber que timbre e escudo lhes cumpria descobrir nos corações dos homens que as requestassem.

—Graceja, snr. Taveira? Não escolhe a opportunidade...—increpou o commendador com sincera mágoa.

—Não gracejo com V. S.ª: é com os preconceitos. Se eu os combati com as armas, não é muito que os desattenda com a ironia. E, depois, todas as razões que V. S.ª allegar contra o casamento de sua filha serão boas, exceptuada a da incompatibilidade dos nascimentos. O snr. Vaz é illustrado. Se pertence ao passado pelos appellidos, deve-se ao edificio do futuro pela intelligencia, e á humanidade collectiva pelo coração, e de modo nenhum á raça exclusiva dos nobres pelo acaso{116} do nascimento. O pae de Antonio Vaz deve ser por força um alto espirito: de troncos verminosos não bracejam frondes com seiva de tão generoso sangue. Tal pae corre-lhe o dever de consentir que os abusos da ignorancia sejam motejados na sua presença, e que os paes, sacrificadores das filhas no infamado altar das tradições genealogicas, sejam malsinados de tyrannos.

—O seu apostolado, snr. Taveira—replicou o velho—é temporão em respeito á época; e é tardio em relação a mim. Sessenta annos não se remoçam; das raizes da educação inveterada não abrolham as flores com que em França os sans-culottes vestiam a deusa da Razão. Estou muito velho, e sou pae muito extremoso. Gósto da liberdade comedida, desde que odiei o despotismo que levou á forca meu parente Gomes Freire de Andrade. Abomino por egual o despotismo dos reis e o despotismo do povo. Repito que desejo a victoria dos programmas liberaes; mas reprovo que, em nome d'elles, me queiram a mim esbulhar da liberdade de casar minha filha com quem eu quizer. Repugna-me dal-a ao snr. Eduardo Pimenta, de quem aliás não recebi maior offensa que o intento de captar o amor de minha filha, sem consultar as minhas luminosas ou obscuras ideias ácerca de tal casamento. Contra esta resistencia não me parece que a liberdade bem entendida legisle reacções.

—Pelo contrario—obtemperou Taveira—as leis protegem os paes, submettendo os filhos menores ao seu consentimento; e eu, indigno legislador, se tal lei não existisse, propôl-a-hia. Emfim, não se enfade mais V. S.ª{117} com esta discussão esteril. Eu me encarrego, conforme á sua ordem, de avisar o meu amigo. Como elle tem pundonor, não ha motivo para que as inquietações de V. S.ª continuem. Hoje veiu elle aqui dar um testemunho da sua probidade. Suspeitou que eu amava a senhora D. Anna Vaz, porque lhe censurei indirectamente que a cortejasse. Tomou á conta de zelos a minha intervenção nos seus affectos; e offereceu-me sacrifical-os á minha felicidade, se eu alimentava alguma esperança contrariada por elle que me não soube adivinhar. Creio que o desconvenci da sua desconfiança. Ora o homem que se victimava a um amigo, de melhor vontade e com mais honrado primor se ha de immolar a um pae tão respeitado quanto estimado. Vá por tanto V. S.ª bem certo de que cessam hoje os seus sobresaltos. Eduardo não volta a sua casa...

—E o snr. Taveira?

—Já disse ao snr. commendador que devo á leal camaradagem de nove annos a observancia de um dever que implica desdouro para o meu amigo, se eu me esquivar a cumpril-o.

—Mas—volveu Francisco Vaz, depois de um longo silencio, acompanhado de gestos que significavam desgosto e perplexidade—não é possivel combinarem-se a continuação da frequencia de minha casa com a desistencia das intenções do seu amigo? Não poderá elle ser meu hospede sem ser o namoro de minha filha?

—Sei pouco do coração humano, snr. Vaz; e por isso appéllo da minha ignorancia para a experiencia que{118} lhe deram a V. S.ª os annos e a vida das salas. O entreverem-se duas pessoas que se amam e violentamente se apartam, será bom expediente para as desligar? Se os olhos do rosto se contemplam, deveremos suppor que os olhos da alma se fechem? Que responde V. S.ª?

—Que tem razão. Melhor é que não se vejam. Mas eu peço licença para visitar o snr. Taveira.

—Tamanha honra lhe pediria eu, se me não faltasse a ousadia.

—Adeus. Não lhe desbarato mais tempo. Abraço o irmão de meu filho, e deponho nas suas mãos o meu socego e a innocencia de minha filha. Defenda-nos a ambos, já que eu perdi quem devêra a esta hora velar a honra de seu velho pae e a inexperiencia de sua irmã.

Abraçaram-se estreitamente, chorando ambos.{119}

X

Venez après cela crier d'un ton de maître
Que c'est le cœur humain qu'un auteur doit connaître!
Toujours le cœur humain pour modèle et pour loi!
Le cœur humain de qui? le cœur humain de quoi?
Celui de mon voisin a sa manière d'être.
Mais, morbleu! comme lui j'ai mon cœur humain, moi.

ALF. DE MUSSET.Namouna.

Chegada a noite d'aquelle dia, e já corrida a hora costumada das visitas, Anna Vaz perguntou a Julia:

—Que será isto? elles não vem!

—Estava a scismar n'isso tambem eu...

—Olha que ha desgraça!... Não vês o papá tão carrancudo?

—Já reparei... Vae tu até lá dentro, e não voltes á sala sem me ouvir tocar no cravo.

Anna sahiu, e Julia aproximou-se do commendador que lia, ou fingia lêr, o Astro da Lusitania.

—Que ha de novo? Está lendo o artigo do nosso deputado?—perguntou ella, curvando-se para o periodico.—Já li... Ninguem dirá que d'aquelle rapaz tão{120} sereno e moderado possam saltar essas faiscas de colera contra as ideias antigas! É um ethna escondido em moitas de flores, não acha, snr. commendador?

—É um apostolo de boa fé, um peito cheio de honra, que se offereceu ao martyrio das ideias novas. Tem a devoção dos cathecúmenos de todas as religiões. Trabalha para os que hão de vir, não é para elle. Sahiu d'uma familia illustre do velho Portugal para servir de degrau aos que hoje calçam sapatos ferrados.

—Porque não o aconselha? Diga-lhe que seja mais prudente no que escreve; que não esteja a ganhar inimigos... Quem sabe lá onde isto vae dar? Os prejuizos não se pulverisam com palavras, nem com gazetas. Eu ouço todos os dias vaticinar que este governo ha de durar pouco. Em casa do tio Gião ouvi hontem dizer que os monarchas formaram o congresso de Laybac para enfrear as demasias da liberdade, e que D. João VI não levára a mal que o governador da Ilha Terceira resistisse á proclamação do systema constitucional.

—Vejo-a muito enfronhada em politicas de seu tio desembargador Gião, minha senhora D. Julia!—observou graciosamente o commendador.

—A mim que se me dá de politicas!—retorquiu a dama.—O que eu desejo é não vêr expostas com tanto perigo as pessoas que estimamos. O Pimenta parece-me que adoptou mais sensato papel nestas tragedias. Não quer saber de nada; não se importa com gazetas nem com governos. A emigração aproveitou-lhe... É verdade, elles não virão hoje? São dez horas!{121} O Taveira talvez esteja na reunião dos deputados; mas o outro onde estará? São horas do chá...

—Se são horas, não esperemos, menina, que elles não vem.

—Ah! o snr. commendador já sabia que não vem?!

—Já. Fallaremos ámanhã, snr.ª D. Julia. Eu hei-de procural-a...—E abaixando a voz, continuou em segredo:—Eduardo Pimenta comportou-se indignamente comigo. Se lhe não dou a novidade de se estar planeando um casamento n'esta casa sem minha licença, escuso de motivar-lhe o rompimento de relações com tão inconveniente amigo. Pelo que toca a Venceslau Taveira, esse não vem porque não quer. Sinto-o devéras. É homem de honrada tempera. Lastimo que os seus amigos o não mereçam...

D. Julia, cogitando na inquietação da amiga, não prolongou as segredadas confidencias. Acercou-se disfarçadamente do cravo e dedilhou no teclado. O commendador ergueu o rosto de sobre o periodico, fitou a hospeda e disse-lhe:

—Onde está Anna?

—Vem ahi.

A menina entendeu o relance d'olhos de Julia. Detiveram-se alguns minutos silenciosos na sala. O velho continuou a ler, em quanto Julia, interrogada pelos olhares anciados de D. Anna, esperava o ensejo favoravel de apartar-se com ella e revelar-lhe as más novas.

Do mesmo passo que o commendador ouvia contrafeito as prophecias politicas de um primo conego da patriarchal,{122} que alli ia sempre, depois de ceia, digerir o bôlo copioso, psalmeando threnos em prosa de conego sobre a futura perdição dos cabidos, D. Julia referia, commentando as palavras do pae da sua amiga.

D. Anna Vaz, primeiro estupefacta, depois agitada, e por fim afogada em lagrimas, escondeu o rosto no seio de Julia para que as criadas lhe não ouvissem o soluçar. Baldaram-se as consolativas esperanças da confidente, que parecia não ter nenhumas nos seus alvitres. Pelo espirito de qualquer d'ellas não sombreou sequer o mau pensamento de recorrer da vontade paterna para o poder civil. N'aquelle tempo as paixões das donzellas, contrariadas pelos paes, raras vezes iam dizer da sua justiça no tribunal. Usavam-se então umas mordaças, que fechavam os respiraculos dos corações rebeldes ao alvedrio paternal: era o convento. O mais egregio amor de mulher, leal ao seu amador, era aquelle que de bom animo vestia o habito monacal, e depunha aos pés da cruz a corôa do noivado. Estas nupcias com o divino esposo quasi sempre se contrahiam, levando a esposa o coração repleto de odio e calor do inferno para o cenobio, onde mais tarde a benigna hypocrisia lhe segredava refrigerios e tonicos restaurantes.

N'isto cogitava D. Julia de Miranda, quando disse á sua amiga:

—Faz o que te peço, filha. Não mostres resistencia á vontade de teu pae. Finge-te resignada. Entrega ao tempo o que não podemos conseguir com irritações; que não vá teu pae fechar-te no convento, onde eu estive{123} dois annos por causa de teu irmão. Cuidei que poderia recalcitrar, porque era tratada com mimo de filha unica. Enganei-me. Fui convidada a dar um passeio até ao Campo Grande; voltamos a visitar a tia Clotilde no convento de Sant'Anna; entrei na portaria para abraçal-a; e lá fiquei infernada até que meu pae me tirou por saber que teu irmão, envolvido com os jacobinos, emigrára para Londres. Aprende de mim, filha. Dissimula quanto poderes, e confia no tempo e nos milagres da tua constancia.

—Na morte é que eu confio...—replicou Anna, apertando a mão de Julia.

—Tens febre... A tua mão escalda!—clamou a surprehendida senhora.

—Vou deitar-me... Doe-me muito a cabeça... Não posso voltar á sala... Está lá gente, e não quero que me vejam assim... Olha, se vires Eduardo, dize-lhe que me escreva, que me deixe morrer com a certeza de que elle me lamenta e ama, sim? Não te custa a trazer-me as cartas, Julia?

—Não, filha; sem tu m'o recommendares, já eu tencionava dar-te esse prazer; mas com a condição de que has de ter coragem e prudencia.

—Pois sim, pois sim: faço o que tu quizeres...

—Então, vem á sala.

—Não posso, Julia... Olha que me sinto muito doente. Hei de estar melhor ámanhã, depois de chorar muito.

O commendador, n'este lanço, mandava perguntar{124} á filha se o chá teria demora, porque o conego, eructando o mal esmoido repasto nocturno, reclamava uma bebida digestiva.

Foi Julia á sala, e disse que a sua amiga se deitára molestada da cabeça.

Francisco Vaz cravou os olhos coruscantes na hospeda e murmurou:

—Já?! tão cêdo...

—São onze horas—disse Julia.

—Não me refiro ao relogio; é á cabeça—replicou o commendador, acerando a ironia com um sorriso, que deu que scismar ao primo conego.

Depois do chá, D. Julia ainda foi á alcova de Anna. Encontrou-a a ler as cartas de Eduardo, humidas de lagrimas. Beijou-a reiterando promessas e esperanças que ella fundava no muito amor que o pae lhe tinha.

—Quem sabe?—concluiu ella, modificando a sua primeira opinião—talvez que um poucochinho de febre assuste o extremoso coração de teu pae, e, em vez de te levar á sepultura, te conduza aos braços do teu Eduardo!...

Este erotico dizer, que não revia candor d'alma capaz de edificar as virgens legendarias, foi apimentado por certo sorriso que travaria ao acre da malicia feminil, se tal conjectura coubesse em dama tão exemplar na edade em que os impulsos da innocencia não são vulgares.

O velho, á meia noite, mandou saber de sua filha. Soube que a menina estava muito afogueada, e ao mesmo{125} tempo pedia á sua criada de quarto que a cobrisse com mais cobertores, porque tiritava de frio. Ante-manhã já o inquieto pae andava no corredor contiguo ao quarto da enferma. A creada sahiu espavorida da antecamara, dizendo que a fidalga, ahi pelas tres horas, delirára na febre, e se lançára do leito a querer abrir as janellas, quando a chuva estalava nas vidraças.

—Vá dizer á menina que eu quero vêl-a—mandou o commendador já attribulado.

Abeirou-se o velho do leito, onde ella o esperava, encostando a cabeça esvahida á almofada do espaldar. Elle chamou-a cariciosamente, apalpando-lhe as faces esbrazeadas; e ella, sorrindo-lhe com meiguice de quem implora indulgencia, beijou-lhe a mão.

Poucas palavras se trocaram, e nenhuma que viesse ao ponto da causa da doença. Disse o pae que ia chamar medico. Pediu-lhe a filha com um gesto meigo que não, e accrescentou:

—Isto não é nada, papá.

Não obstante, o medico, chamado com urgencia, receitou-lhe o que quer que fosse medicinalmente gastrico, entendendo que a viscera mais nobre, o estomago, devia ser a primeira a medicar-se.

Tanto o pae como a filha repelliram a sciencia representada n'uma poção em que de certo não entrava o contra-veneno do amor. Bem sabia o commendador que os phyltros cupidineos não cedem aos revolucivos que debellam as lombrigas.

D. Julia chegou ao meio dia, encerrou-se com a{126} doente, e deu-lhe uma receita de virtudes febrifugas. O doutor, quem quer que fosse, ao avêsso do ancião de Coz, abreviava a arte para alongar a vida. Era medico de mão cheia. Leu a febril menina o bilhete de Eduardo, e para logo as rosas do rosto se desmaiaram nos alvores da assucena. O pulso quebrou, os labios purpurejaram-se, e a arida lingua lubrificou-se. Milagres que a cada passo se topam nos florilegios, por influxo de agentes d'outra procedencia. N'estes, ha therapeutica do céo; n'aquelles prodigios de natureza toda humana, entra droga das boticas de Fausto, de Hamlet, de Manfredo, e de outros heroes do luciferino bardo que cantou as «Trevas».

Contou Julia que, ás nove da manhã, escrevêra a Eduardo, pedindo-lhe conta dos casos tristes do dia anterior. O moço correu ao palacio das Amoreiras, e referiu que Venceslau o prevenira da conversação com o commendador.

Se Julia, mais sincera que condoída de sua amiga, relatasse as impressões que Eduardo lhe deixára, diria que o viu menos consternado do que era de esperar, e tão christã ou stoicamente conformado á sua desventura, que faria inveja a Epictéto ou Kempis. Seria crueza não omittir este escuro traço do caracter do seu confidente. A ferida da sua amiga queria balsamos, e não cauterio. Semelhante denuncia iria coar a peçonha da desconfiança—a tortura da morte—áquella alma flammejante de fé.

As poucas linhas do bilhete, ainda assim, continham{127} duas phrases dignas do Secretario dos Amantes. Eduardo Pimenta promettia luctar contra a desgraça, e succumbir na lucta quando não podesse sahir com a victoria. Estes dizeres cadenciosos e arredondados andavam na voga, no respigo dos ledores das novellas de madame Cottin e do abbade Prevost.

Sem embargo, Anna rejubilou-se, e decerto se levantaria reanimada aos olhos do pae, se Julia não lhe advertisse que seria bom espacejar a convalescença, já para amollecer o coração do velho, já para afastar suspeitas de correspondencia clandestina.

Este dia e o seguinte passaram atormentados para o commendador. O medico, na segunda visita, farejou da arca do peito para dentro molestia inviolavel ás pilulas. Belleza, edade, respiração suspirosa, rubor dos lagrimaes, olhos pisados, e outros symptomas de inflammação psycologica, illucidaram o diagnostico. Declarou, pois, o doutor, sem auxilio da nomenclatura greco-latina, que a doente padecia da alma, e que o debil temperamento da sua organisação ainda imperfeita muito a custo resistiria ás commoções devastadoras. Era o systema d'este medico: primeiro o apparelho digestivo; depois o espiritual, se as doentes eram novas e solteiras. O segundo prognostico havia-lhe rendido a mais selecta clinica da capital. Muitos maridos d'aquelle tempo os levára elle ás enfermas capituladas de éthicas, como os medicos de hoje em dia lhes levariam das pharmacias garrafas de oleo de figados de bacalhau ou sulphato de ferro soluvel de Lerás.{128}

Compenetrado da consulta, o commendador lembrou-se aterrado que sua mulher e seu filho haviam morrido pthysicos. A perda da filha prefigurou-se-lhe calamidade superior a quantas elle poderia fantasiar, casando-a com homem somenos de Eduardo. Penetravam-no já de antemão espinhos de remorso. A ternura encarecia-lhe o perigo; e o quebranto moral proprio da edade arguia-o de inclemencia e fereza.

Tão rapido precipitára as invectivas contra Eduardo, quanto depois, ligeiramente e a só comsigo, rebatia os proprios argumentos.

—E se ella morre!—exclamava elle, invocando agora o juizo de Julia, tendo menosprezado os judiciosos dictames de Venceslau.—Que lhe diz o seu coração, minha amiga? Ella ama-o tanto que não possa esquecel-o? As distrações serão inuteis? Se fossemos para a quinta do Riba-Tejo..., se a minha boa Julia a levasse para a sua bella vivenda de Collares, conseguiriamos restaurar aquelle coração que ainda ha pouco era tão innocente, tão meu, tão alegre?... Que me diz, D. Julia?

—Façam-se as diligencias; mas desconfiemos do resultado. É o primeiro amor. Tem a força que aniquila todas as outras. Anna amou sem reflectir; a reflexão, que vem depois do amor entranhado, não aproveita. Foi assim que eu amei seu filho, snr. commendador. Bem sabe que trances padeci, que violencias arrostei, que inuteis severidades empregou meu pae. Nem o convento, nem as ameaças de me privar do patrimonio{129} me demoveram. A ideia de morrer, em vez de me acovardar o animo, alentava-me. Que valeram tantas dôres? Morreu elle, vergando ao pezo da minha cruz, e eu sobrevivi... para me condoer de quem soffre das minhas agonias. Tenho muito dó de sua filha, meu bom amigo, muitissimo. Hoje encontro-a mais animada, porque lhe dei esperanças, como os medicos as dão a uma thysica já nas ultimas vascas; mas se ámanhã eu não podér animal-a, a febre voltará, e depois Deus sabe se no peito d'ella está o germen da terrivel doença...

—Por piedade, não me diga isso, Julia... Esse punhal toda a noite me golpeou no coração... O meu grande terror é esse: é a morte da mãe, que um dia se queixou do peito, salivou sangue, cahiu esvahida, desfigurou-se, e... vinte dias depois, expirava-me nos braços, procurando com as mãos as cabeças dos filhinhos...

O velho, afogado por crebros gemidos, calou-se, enxugando as lagrimas que lhe resvalavam aos beiços trémulos da commoção.

D. Julia balbuciou expressões de enternecido allivio, e conseguiu conduzir o commendador ao quarto da filha, insinuando-lhe que só a presença d'ella, n'aquelle momento, lhe seria consolação.

Estava já em pé a doente, quando o pae se annunciou. Tinha-lhe ouvido as vozes trementes de lagrimas. Erguera-se pressurosa, qual se os remorsos de affligir o estremecido velho a pungissem. Lançou-se-lhe nos braços, chorando, como quem se accusa de não poder vencer-se. Era condição divina a d'aquella creatura! Se,{130} tres mezes antes, a vissem ajoelhada diante do Christo sombrio da claustra, Anna Vaz seria uma santa. Se Eduardo Pimenta, o moço pallido, aureolado pela tragedia do amor que o revestira do crepe sympatico da viuvez, não fitasse n'ella os olhos tristes da meiguice que pede as consolações amantissimas d'outra alma, a creança seria ainda para seu pae o sorriso que do céo lhe enviava, em labios innocentissimos, a chorada esposa.

Tomou nas suas o velho as mãos da filha. As arterias não arfavam de mais nem a epiderme denunciava perturbações de máo agouro; mas assim mesmo, os olhos do pae já não viam nas feições de Anna o viço purpurejado da saude, o sorrir florescente dos dezeseis annos. Deu-lhe o braço, e levou-a á sala, onde o fogão aquecia o ar d'aquelle famoso janeiro de 1821.

Anna aconchegou-se da fogueira; D. Julia sentou-se defronte, e o commendador entre as duas.

A passagem do quarto para a sala ao longo dos corredores frios constipára a menina. Tossiu com pouco esforço; mas, na audição do pae, aquelle accesso dava o som aspero das crepitações pulmonares; figurou-se-lhe estar ouvindo tossir sua mulher.

Nublou-se-lhe o semblante, e revia-se-lhe nos olhos a turvação da alma.

—Anna—disse elle, tomando-lhe a mão com extremada caricia—eu quero que sejas feliz; quero até que sejas infeliz, mas que vivas. Reanima-te, filha. Dou-te licença para casares com Eduardo.

A menina beijou-lhe a mão fervorosamente, e inclinou{131} a cabeça ao braço d'elle, como se quizesse esconder a exultação que devia parecer reprehensivel ao amor de seu pae.

—Crês, minha filha, que a vida te será mais agradavel, cazando?—interrogou o velho; e, sem aguardar resposta, voltou-se para D. Julia, accrescentando:—Que pergunta, que frivola pergunta! É o mesmo que perguntar a um cego, se crê que lhe ha de ser mais agradavel vêr!... Casarás, filha; mas com uma condição que teu pae propõe: não me deixarás; o amor, que me tinhas, dá-o a teu marido; mas não me deixarás, não?

—Ó meu papá, nunca! por alma de minha mãe lhe juro que nunca o deixarei, nem amarei menos do que hoje.

—Não jures, Anna... Pede á alma de tua santa mãe que te guie; mas não a invoques para affiançar as mudanças da tua vida...

—Meu papá!—replicou a filha perturbada pela solemnidade da objecção—se me julga capaz de o amar menos, então não me diga que case. É melhor que eu...

—Que tu, filha?

—Que eu morra, com a certeza de o não ter affligido...

—Eu bem sabia que tu eras a boa creança, o adoravel coração que és... Por isso é que eu cuidava que nenhum homem te merecia... E se pensei em te dar a outro, foi porque, entre tantos com que lidei no espaço de quarenta annos, eu nunca tinha encontrado condição{132} mais nobre de homem, na flor da juventude, mas sem mocidade... Entretanto, os amigos d'este homem, que a tua innocencia não viu, devem ser dignos d'elle. Se Venceslau Taveira assevera que Eduardo Pimenta é honrado, seja teu marido Eduardo Pimenta. Agora, minha filha, não me estejas doente; paga-me esta alegria que te dou; alegra-te, vive, renova a côr sadía das tuas faces desmaiadas... Dize-me ámanhã que estás boa, e me não has-de deixar, n'esta escurecida velhice, a esperar o beneficio da morte, sósinho, entre tres sepulturas.

Ergueu-se o commendador, e passou ao seu gabinete. Escreveu, e enviou a carta a Venceslau Taveira. E, depois, apoiou o rosto sobre os braços cruzados na banca, e chorou longo tempo. Ao emergir d'este lethargo, levantou-se de golpe, e murmurou: «Meu Deus! em que se funda o presagio da desgraça de minha filha! Que ha no rosto d'aquelle homem que me está aterrando! Ha dois dias que eu o via com affecto; não lhe admirava as virtudes nem arguia os vicios; pintava-se-me um como tantos que a sociedade préza; porém, desde que o imagino tão identificado á minha vida, esposo de minha filha, que fatidico horror é este!...

E, n'este emtanto, D. Julia de Miranda, testemunhava medianamente commovida o jubilo da sua amiga. Póde ser que ella, vendo desfechar o drama d'estes amores tão depressa quanto ao avêsso de suas previsões, se arguisse de imperfeita amiga, escondendo de Julia dous traços equivocos, senão maus do caracter de Eduardo. Um—aquellas amphibologicas palavras, que lhe elle{133} dissera um dia antes, e ella recebêra com tal qual severidade. Outro—a supportavel tristeza com que Eduardo, n'aquelle mesmo dia, lhe referira a quebra de suas relações com o commendador. Se outra causa menos para louvar-se era parte na limitada satisfação de Julia, quando a noiva de Eduardo festejava a sua inesperada ventura, não é facil averiguar, em quanto o curso dos successos nos não remover a triple muralha que véda o insondavel coração das creaturas predestinadas a distincções deploraveis.

Bem que inexperta e apenas alumiada pela escassa luz matinal do seu amor, Anna Vaz reparou, entristecida, n'estas palavras enigmaticas de Julia:

—Fez-me impressão o enthusiasmo de teu papá quando fallou de Venceslau! O rapaz decerto é o complexo de boas qualidades que teu pae avalia; nós, porém, as mulheres, temos o coração nos olhos, e o juizo no coração. O nosso vêr é tão diverso do reparar da experiencia! Quem nos diz que o melhor marido seria o menos amavel á primeira vista? Eduardo tem a eloquencia sympathica e melancolica do soffrimento que lhe deixou uma paixão contrariada; Venceslau tem o ar sereno de quem nunca soffreu nem motivou dôres a ninguem. Estes dois homens são a consolação ao pé da desgraça. O coração cheio de balsamos ao lado do coração cheio de lagrimas. Um amou muito, o outro não amou nunca. Eduardo tem um passado que ha de vir aguar-lhe as alegrias do presente. Venceslau, quando amar, ha de ser todo a felicidade do momento, a primeira{134} florescencia da alma sem imagem de mulher morta ou viva que venha confrontar-se com outra...

—Mas que quer dizer isso?!—interrompeu Anna.—Tu bem sabes que eu não amo o Venceslau.

—Pois não sei, filha!... O que eu te queria dizer é que, se em vez de amar Eduardo amasses o outro, talvez o teu anjo da guarda te inspirasse melhor...

—Porquê?... Não me disseste tantas vezes que o Eduardo era sympathico e muito amavel?...

—E eu digo-te agora o contrario?

—Mas achas que o outro seria melhor...

—Melhor para a felicidade da vida intima, filha; mas o coração não calcula o que ha de vir pelo tempo além...

—Tu atterras-me Julia!—exclamou a enleada menina, fitando na impenetravel amiga os seus olhos explendidos.

—Has de ser sempre creança!... volveu a desconcertada confidente, emendando as demazias da sua imprudencia.—Estou conversando comtigo, que vaes ser senhora; e tu queres que eu não tenha vinte e oito annos, e te falle a linguagem das meninas.

—Pois sim... mas tu desconfias de Eduardo...

—Eu desconfio?

—Sim... hontem não me dizias isso...

—E hoje que te digo?

—Que eu seria mais feliz se amasse o Taveira...

—Ai! que calumnia!... Calla-te, que ahi vem teu pae.{135}

O commendador entrou. A filha contemplou-o, e disse meigamente:

—O papá chorou?

—Se chorei? sim, filha... Dá-me os parabens, que chorei. Chorar é esmagar a dôr. As lagrimas são o sangue das angustias que os padecentes podem afogar entre as mãos. Quando ellas vencem, o homem não chora; morre.

—Morrer, meu Deus!—exclamou Anna.—Ó papá, meu querido papá!... não me falle em morrer, que eu já não quero...—E susteve-se por segundos.

—Que não queres, filha?... Pobre anjo!... não ousou proferir a palavra, receiando que lh'a acceitasse... Ai! não, minha pobre Anna... Has de casar com Eduardo... Se houveres de morrer, a teu pae basta-lhe a dôr... O remorso seria um supplicio que a minha alma nunca experimentou...

Ficaram os tres largo espaço silenciosos. Librava-se no ambiente d'aquella sala o archanjo das propheticas agonias.{136}
{137}