VI
Á volta dos pés da imperatriz
Referiram ha tempos os jornaes que se tinha levantado na côrte de Berlim uma grave questão de etiqueta,—grave como todas as questões d'este genero, incluindo a do Hyssope.
A actual imperatriz, que prima por uma extrema simplicidade de vestidos e maneiras, pedira ao imperador seu marido que dispensasse, nas grandes solemnidades do palacio, os vestidos roçagantes, as longas traines cadentes.
A condessa Waldersee, que tem auctoridade em questões de etiqueta, reforçou com a sua opinião o pedido da imperatriz.
Mas Guilherme II não annuiu, e as extensas caudas de setim e velludo continuarão a arrastar-se, sobre os tapetes da côrte allemã, longamente, apparatosamente...
Á bocca pequena dizia-se em Berlim que no pedido da imperatriz havia o que quer que fosse de vaidade feminina, porque, tendo uns pés{57} pequenissimos, não desejava que lh'os empanasse o vestido.
O imperador, conhecendo a intenção reservada da imperatriz, entrincheirára-se na recusa, porque, não obstante as suas aventuras d'amor, Guilherme II, como todo o marido que se prese, entende que deve ser elle o unico a ter o direito de admirar as perfeições plasticas de sua mulher.
Pelo que respeita aos pés femininos, dividem-se as opiniões. Os leitores sabem-n'o tão bem como eu.
Entendem uns que os pés da mulher são tão pouco para admirar como a haste de uma rosa. Todas as attenções se fixam na belleza da corolla, no colorido das petalas. É a rosa fresca e bella? É isso o que se quer. Tenha a mulher as graças do semblante, que os pés, que ficam lá muito para baixo, escapam á vista, sejam grandes ou pequenos.
Outros porém, e estes são decerto em maior numero, adoram os pés caprichosamente pequeninos, miniaturados a buril como por um gravador que houvesse cegado depois de os ter feito...
Os que são d'este parecer defendem-se com a tradição da estatuaria classica, com as lendas graciosas da bella plastica antiga, em que a mulher, não raras vezes, apparece divinisada pela pequenez do pé.{58}
Recordam a historia da Cendrillon, a nossa Gata borralheira, que perdeu o chapim pelo qual um principe galante a mandára procurar até que, encontrando-a, só descansou quando poude desposal-a.
Citam a tradição da formosa Rhodopis a quem, estando ella no banho, uma aguia empolgou uma das sandalias, que deixou cahir no terraço do palacio real de Memphis, onde o rei, apanhando-a, tratou de descobrir, desde essa hora, o pequenino pé de que pela sandalia ficára enamorado.
É, no fundo, a mesma lenda, talvez um symbolismo mythico transformado em anecdota historica, como julga Husson.
Lembram ainda em seu abono o instincto artistico da poesia popular, que sempre celebrou as mulheres de pés pequenos. E adduzem exemplos:
Tendes o pé pequenino,
Do tamanho d'um vintem:
Podia calçar de prata
Quem tão pequeno pé tem.
A verdade é que o arsenal de defesa dos que assim pensam está copiosamente abastecido de citações e referencias, a que esses taes poderão recorrer para seu triumpho.
Na écloga segunda de Bernardim Ribeiro,—de que os seus biographos tanto se têem servido para dilucidar a mysteriosa vida do poeta—é{59} tambem pelo pé de Joanna que o pastor Jano se deixa fascinar amorosamente.
Jano anda guardando o seu rebanho quando vê aproximar-se Joanna que, vestida de branco, se entretém colhendo flôres. Elle occulta-se espreitando-a. Colhidas as flôres,
Joanna, as abas erguidas,
Entrar pela agua ordenou;
E assentando-se, então
As çapatas descalçou,
E, pondo-as sobre o chão.
Por dentro d'agua entrou,
E a Jano pelo coração.
Ah! que é preciso uma pessoa ser cega de enthusiasmo pelo bucolismo, pela infancia poetica da alma portugueza, tão simples, tão sincera e ao mesmo passo tão docil, para não morrer de apoplexia fulminante ao soar-lhe nos ouvidos este plebeu vocabulo çapatas, tão grosseiro e saloio, como elle nos sôa hoje!
Bernardim, esse favo de saudades a que o tempo não tem roubado a doçura, essa abelha do amor, que usurpou ao Hymetto o segredo de amelar deliciosamente as suas trovas com as boninas do coração namorado, parecer-nos-ha, se o não avistarmos de alto, um camponio da Ribaldeira a gabar as çapatas amarellas da moça do prior!
Mas o pastor Jano não teve mão em si que não sahisse do escondrijo ao encontro da bella{60} zagalla. Ella, como Galatéa, esquivou-se fugindo:
Muito perto estava o casal
Onde vivia o pai d'ella,
Que fez ir mais longe o mal.
Que Jano teve de vêl-a:
Mas o medo que causou,
Joanna partir-se assi,
Tanto as mãos lhe embaraçou,
Que a çapata esquerda, alli,
Com a pressa lhe ficou.
Agora é que o ridiculo da situação parece subir de ponto, porque o pastor Jano—o proprio Bernardim talvez—corre a abraçar-se com a çapata, a chorar sobre ella, çapatando os peitos. É textual.
Çapata, deixada aqui,
Para mal de outro mor mal,
Quem te deixou, leva a mi:
Que troca tão desegual!
Mas pois assim é, seja assi.
Foi, portanto, pelo pé de Joanna que o pastor Jano se sentiu arrastado para o abysmo do amor,—com a çapata na mão.
Como os tempos mudam! Hoje, um poeta palaciano, que ouzasse cantar em publico, ainda mesmo sob o disfarce de pastor, a çapata da bem-amada, era um homem que tinha a sua carreira cortada pelo ridiculo.{61}
A Academia, elegante como ella é, diria, se alguem lhe fallasse em admitil-o socio correspondente:
—Que! O da çapata?! Não póde ser! Elle que mude para chapim.
Qualquer ministro do reino, com receio do ridiculo das gazetas, se algum influente politico lhe pedisse que fabricasse deputado o poeta, responderia sorrindo:
—Ora adeus! O deputado da çapata?! É lá possivel! Você quer matar o governo pelo ridiculo!
Todavia a Academia Real curva-se—e n'este ponto curva-se bem—perante Bernardim Ribeiro, o primeiro poeta bucolico portuguez.
As gazetilhas em verso fariam uma troça de seiscentos diabos ao anonymo que ouzasse mandar para o Diario de Noticias o seguinte annuncio:
«Ha oito dias que estou beijando incessantemente a çapata que v. ex.ª perdeu em Cascaes quando, para me fugir, entrou precipitadamente no banho. A çapata entrou-me pelo coração, como V. ex.ª pela agua.»
Nada obstante, se os redactores de gazetilhas vissem entrar Bernardim Ribeiro no escriptorio do jornal, vestido de mendigo, como a lenda nol-o pinta á volta de Saboya, roto e esfrangalhado, e se elle lhes dissesse que era o auctor do livro das saudades, os srs. redactores{62} levantar-se-iam respeitosos, curvados e dominados, para offerecer uma cadeira ao grande poeta Bernardim Ribeiro, que devia estar cansado, por vir de longes terras.
Mas, á parte o desprimor archeologico do vocabulo, emerge d'esta trova do bucolista o naturalismo, vivo e quente, que endeusa a pequenez do pé feminino.
Parece-nos galante toda a conjunctura em que um pé de fada se descubra aos nossos olhos na sua exiguidade microscopica, seja pulando sobre o tapete de um salão, poisando no estribo d'uma carruagem, ou aquecendo na concha ardente das nossas mãos aduncas...
Conta frei Luiz de Sousa que o infante D. Fernando, tendo casado com D. Guiomar Coutinho, em torno da qual se agitou a paixão dramatica do marquez de Torres Novas, e «subindo ambos uma escada, em tempo que andava pejada D. Guiomar, lhe lançou mão dos chapins para que tivesse menos pena na subida.»
Gentil, não é?
Todas as delicadas galanterias que se façam aos pés de uma mulher, suppõem que o que n'elles encantou foi a perfeição com que a natureza os talhou no marmore.
Enumerar todos quantos poetas, antigos e modernos, têem cantado os pés femininos, seria o mesmo que encher de versos uma bibliotheca.{63}
Temos, pois, que resignar-nos, quanto ao numero, a dar apenas insignificantissimas amostras.
De um poeta antigo; Rodrigues Lobo:
As flôres, por onde passa,
Se os pés lhe acerta de pôr,
Ficam de inveja sem côr
E de vergonha com graça.
Qualquer pégada que faça
Faz florescer a verdura,
Vai formosa e não segura.
Citarei apenas dois poetas modernos.
É conhecidissimo o bello pensamento de João de Deus:
O que te falta pois? os teus desejos
Quaes são? de que precisas?
Ah! não ser eu o marmore que pisas...
Calçava-te de beijos!
O soneto A Borralheira, de Luiz Guimarães, é dos mais scintillantes da sua lyra ardente:
Meigos pés pequeninos, delicados
Como um duplo lilaz,—se os beija-flôres
Vos descobrissem entre as outras flôres,
Que seria de vós, pés adorados!Como dois gemeos sylphos animados,
Vi-vos hontem pairar entre os fulgores
Do baile, ariscos, brancos, tentadores...
Mas, ai de mim!—como os mais pés calçados{64}«Calçados como os mais! que desacato!
Disse eu.—Vou já talhar-lhes um sapato
Leve, ideial, fantastico, secreto...»Eil-o. Resta saber, anjo faceiro,
Se acertou na medida o sapateiro:
Mimosos pés, calçai este soneto.
A sabedoria da antiguidade, formulada em proverbios, que são como que migalhas de philosophia, impõe-se ao nosso espirito na immensa variedade de assumptos que podem impressional-o.
Ora os antigos diziam: Ne quid nimis. Nada que seja de mais. Eu fui educado com velhos, e aprendi da sua experiencia. Se n'aquelle proverbio posso calçar um pé de mulher, acho que o proverbio é bom, e que o pé é ainda melhor. Se não posso, quer-me parecer que os meus velhos educadores me estão segredando em espirito com a auctoridade dos seus cabellos brancos: «Ahi ha pé de mais e proverbio de menos.»
Ne quid nimis ou, como dizem os francezes, Rien de trop... até nos pés!{65}
VII
Loucura alegre
Conta-se que sobre uma pequena terra de provincia cahira, não sei quando, uma chuva verdadeiramente original, tão original, que perderam o juizo todos os que a apanharam.
E o caso é que toda a gente d'aquella terra a apanhou, com excepção de um sabio que ali vivia voluntariamente exilado, entregue a leituras profundas, a estudos d'alta sciencia.
No dia da chuva, o sabio não sahiu; não sahia nunca. Ficou, portanto, em seu perfeito juizo.
A gente da terra vivia principalmente dos trabalhos da agricultura, em pleno campo, de modo que a chuva cahiu-lhe em cheio sobre a cabeça, foi como se lhe alagasse os miolos...
Tendo endoidecido todos, o sabio era como que o unico pharol de bom senso que brilhava n'aquelle vasto mar de loucura.
Aconselhava os outros.{66}
Procurava chamal-os á razão.
Dava-lhes conselhos acertados.
Reprehendia-os amoravelmente quando elles praticavam desatinos.
Mas qual! Ninguem o acreditava, ninguem o attendia, todos os outros haviam apanhado a chuva terrivel, todos estavam loucos, e procurar restabelecel-os de um momento para o outro era o mesmo que remar contra a maré.
Começou o sabio a inquietar-se com a sua propria situação, que em verdade nada tinha de agradavel.
Receiava elle proprio perder o juizo, que tão preciso lhe era, como se estivesse vivendo no meio de um hospital de doidos.
A sua criada desatava a cantar e bailar quando elle lhe mandava fazer o biffe do almoço ou as torradas para o chá.
De sorte que se via na necessidade de ir elle mesmo fazer o biffe ou as torradas, emquanto a criada bailava e cantava em frente do fogão, azoinando o amo.
O seu criado engraixava-lhe a camisa engommada, quando elle lhe mandava engraixar as botas, e escovava-lhe as botas, quando elle lhe mandava tirar da gaveta uma camisa engommada.
Pensou o sabio em mudar de terra, mas a pequena propriedade que possuia estava situada ali; e em taes circumstancias ninguem lh'a{67} queria comprar, porque o caso da chuva tinha soado ao longe, de maneira que a terra cahira em descredito, sabia-se que todos lá estavam doidos.
Os proprios trabalhos scientificos do sabio, até ahi tão considerados, principiaram a ser suspeitos de loucura. Já não havia quem os quizesse lêr. A opinião publica é assim. Até então, como corresse fama de que era aquelle um grande sabio, toda a gente o considerava como tal; de repente, com a mesma unanimidade, toda a gente principiou a duvidar de que elle podesse conservar inteiro o juizo vivendo no meio de doidos.
—O que hei de eu fazer? perguntava a si mesmo o sabio.
Como ainda houvesse pelas ruas da villa muitas pôças de agua da chuva, começou a analysar chimicamente a agua para vêr se descobria o segredo daquella extranha epidemia de loucura.
Mas nada lhe achou de notavel segundo a chimica. Era agua de chuva como qualquer outra.
—Eu perco o juizo! dizia de si para comsigo o sabio. Tudo isto é tão extraordinario, que sinto vacillar a minha propria razão!
E a criada continuava a bailar e a dançar quando elle lhe mandava fazer o biffe ou as torradas.{68}
E o criado engraixava-lhe a camisa quando elle lhe mandava engraixar as botas.
Os seus caseiros não se entendiam com elle, nem elle com os seus caseiros.
O padeiro, pela manhã, trazia-lhe pedras duras em vez de pão fresco.
O merceeiro mandava-lhe assucar quando elle pedia arroz ou mandava-lhe arroz quando elle lhe pedia assucar.
De modo que, n'um momento de desespero, o sabio resolveu um bello dia perder o juizo que até então havia conservado.
Fugiu para o meio da rua, andou procurando uma das pôças de agua da chuva, que ainda havia. Poz-se de cócoras, olhou em roda, e reconhecendo mais uma vez que todos estavam doidos, metteu as mãos na pôça, encheu-as de agua, e começou a encharcar a cabeça.
D'ahi a momentos estava tambem doido, e toda a sua preoccupação anterior havia desapparecido, porque, tendo elle proprio perdido a razão, já não se affligia com a loucura dos outros.
Lembrou-me esta anecdota quando, passando sabbado á noite pelo Colyseu dos Recreios, vi uma enorme multidão de povo invadir as portas, disputar a entrada, ancioso de obter um logar para ir assistir ao beneficio da Geraldine.
—Então, dizia eu com os meus botões, tudo{69} isso de reducções imminentes é uma fabula! O paiz está rico e contente. Diz-se que ha miseria, e toda a gente pensa em divertir-se! O que se vê é que as industrias estão prosperas, o commercio florescente. Os operarios, voltando agora de um trabalho fartamente remunerado, tratam de comprar bilhete para a geral. Vender uma colonia! para que? O que o povo quer é que lhe vendam um bilhete do Colyseu! Os jornaes portuguezes e extrangeiros dizem que estamos pobres! Sempre mentem muito os jornaes! Toda essa gente, que ahi se agglomera ás portas, estende para o camaroteiro uma nota, offerece-lhe dinheiro, tão rica está toda a gente!
E, pensando n'isto e na anecdota, continuei a dizer com os meus botões:
—... Salvo se o ultimo portuguez que tivesse juizo tambem molhou a cabeça na pôça d'agua!
Mas no domingo fui passeiar á Avenida como para procurar a contra-prova do espectaculo da vespera.
Oh! que alluvião de gente! que bulicio! que vida! que animação!
Longas filas de trens desdobravam-se ao longo da Avenida n'um grande esplendor de equipagens brilhantes.
O dinheiro trotava em bellos cavallos pur sang; rodavam titulos e brazões, fortunas colossaes{70} deslisavam a quatro soltas, pomposamente.
E eu continuava perguntando aos meus botões:
—Santo Deus! onde é que está o ultimo sabio d'esta terra?!
E olhava para o chão esperando vêr que o ultimo sabio, posto de cócoras, estivesse olhando para os outros e molhando a cabeça com frenesi.
Qual! não era para o chão que eu devia olhar.
Os sabios portuguezes prezam-se muito para que algum d'elles queira acocorar-se á vista dos seus patricios.
Era para o alto das boleias e para a estampa das horsas que eu devia olhar; não para o chão. O chão! esse, coitado, estava pisado, moido do continuo attricto das ferraduras dos cavallos e das rodas das carruagens.
O sol, bellamente festivo, cahia em palpitações de luz sobre a Avenida. O monumento victorioso dos Restauradores recortava-se n'um fundo de azul luminoso parecendo chispar centelhas como uma lamina erguida ao sol. Chalets elegantes alcandoravam-se pela encosta oriental da cidade. Predios magnificos, alguns sumptuosos, agrupavam-se em grandes bairros novos á ilharga da Avenida nas terras outr'ora desertas e solitarias. As antigas hortas desappareceram para dar logar a palacios novos. Guardas-portões{71} imponentes encostavam-se ás portas vendo de longe o formigueiro dos trens que passavam rodando ao trote largo de cavallos finos.
E por mais que eu olhasse para o chão nenhum sabio, de cócoras, tratava de molhar a cabeça para não ter que chorar sobre tanta alegria!
Então, recolhendo para casa, olhando sempre cautelosamente para não ser atropellado pelos trens e pelos cavalleiros, lembrou-me outro caso, nada mais e nada menos que o plano de um poema que certo amigo meu havia delineado quando a morte o surprehendêra.
A Valsa: era o titulo do poema.
A acção leva pouco tempo a contar.
Meia duzia de velhos, que no seu tempo haviam sido grandes valsistas, resolveram, a despeito do peso dos annos, reconquistar uma hora de mocidade, dar um baile em que todos elles valsassem como antigamente, embora fossem morrendo de cansaço no meio da sala.
Assim fizeram. Na noite do baile, eil-os que entram no salão, correctamente barbeados, tão gentis, quanto a idade lhes permittia, dentro das suas casacas muito justas e luzidias.
Uma valsa de Strauss fez ouvir as suas primeiras notas. Tudo ali parece palpitar ao som da musica,—os velhos principalmente.
E, cingindo a cintura de bellas damas, todos elles principiam a valsar com a intrepidez dos vinte annos.{72}
A valsa não affrouxa nunca, e os velhos valsistas, extenuados, principiam a cahir de cansaço, pallidos, mortos, um após outro, até que, estendidos sobre o verniz do salão, teem por funeral o baile, por De profundis a valsa de Strauss, que parece não acabar nunca!
Era phantastico o poema, excentrico o poeta.
Mas, o caso é que me lembrei do poema da Valsa, que, ai do poeta! ficou apenas em projecto.
Tudo aquillo que eu tinha visto, no sabbado e no domingo, era como a valsa dos velhos extenuados, que, ao som da musica, iam cahindo mortos n'uma atmosphera de alegria e n'uma allucinação de prazer, que os matou sem os ter remoçado, que os esgotou sem os ter divertido!{73}
VIII
A mascotte
Ter ou não ter mascotte, eis a questão, para tudo e para todos.
Não sei se o leitor é dado a superstições e crendices, que, de resto, constituem o fundo simples e primitivo da natureza humana.
Eu, por mais que oiça dissertar os philosophos, creio profundamente em superstições. Sou, a este respeito, quasi primitivo. E entre as superstições, que me inspiram maior fé, acredito cegamente na influencia benefica de um genio bom e tutellar, a que modernamente chamamos mascotte.
Até—seja dito em confidencia—já tive uma mascotte.
Por que não hei de contar francamente essa historia?
Era uma insignificantissima bengala da ilha da Madeira, que me tinha custado doze vintens{74} e que ninguem seria capaz de me comprar por seis.
Estava muito longe do meu espirito a suspeita de que essa reles bengala, cheia de nós e de mossas, podesse exercer alguma influencia benefica na minha vida.
Mas comecei a notar a coincidencia de que tudo me corria mal, quando o mau tempo me obrigava a substituir a bengala pelo chapeu de chuva.
Difficuldades, incertezas, contrariedades que o chapeu de chuva tinha suscitado e alimentado, aplanavam-se e desappareciam quando no dia seguinte a bengala substituia o chapeu de chuva.
Este facto repetiu-se uma e muitas vezes: induzi portanto que aquelle reles pausinho da ilha da Madeira tinha condão de felicidade. Era o meu talisman. Tomei-lhe amor, ganhei confiança na sua virtude, e comecei a acreditar na existencia de uma mascotte que, se me abandonava um momento, me deixava exposto ás maiores contrariedades.
Em dias de chuva torrencial, dias de temporal desfeito, eu não ousava sahir sem a mascotte, importando-me pouco que as outras pessoas podessem fazer reparo na excentricidade de um homem que, apesar de chover a potes, deixava o chapeu de chuva em casa e sahia com a bengala debaixo do braço.{75}
Muitas vezes fui obrigado, por manter o culto devido á minha mascotte, a tomar um trem.
Mas fazia de bom grado essa despeza, nem me importava apanhar chuva, comtanto que não tivesse de largar a mascotte.
Os meus amigos conheciam esta superstição, e riam-se. Fingiam querer roubar-m'a. Mas eu, se passava a noite com elles, sentava-me de bengala na mão, não a abandonava um momento.
Um dia perdi-a. Vou contar como isso foi. O leitor póde imaginar o desgosto que n'esse dia me feriu.
Era então ministro da marinha o conselheiro Julio de Vilhena, que morava na rua de S. João da Matta.
Na vespera haviamos passado grande parte da noite a conversar sobre um livro, que se relacionava com o assumpto litterario de que eu então me estava occupando.
Tratava-se da symbolica do direito, que me era preciso estudar para o livro A jornada dos seculos, que eu trazia entre mãos. Julio de Vilhena offerecêra emprestar-m'o, e ficou combinado que eu iria no dia seguinte a sua casa, á uma hora da tarde, buscar o livro.
Chovia: tomei um trem.
Durante o trajecto, para accender um cigarro, tive que encostar a bengala a um canto da carruagem.{76}
Quando cheguei á rua de S. João da Matta, disse-me o correio que o ministro estava ainda almoçando, e que eu teria de esperar pelo menos meia hora.
Despedi o trem, sem tomar sentido no numero.
Chegaram mais pessoas, com quem esperei conversando.
Quando o ministro acabou de almoçar, e me recebeu no seu escriptorio, lembrei-me subitamente de que a mascotte tinha ficado no trem.
Mostrei-me inquieto, disse-lhe o motivo da minha inquietação, porque elle conhecia muito bem, como todos os meus amigos, a lenda da bengala.
Sahi de afogadilho, com o livro debaixo do braço, e dirigi-me immediatamente ao commissariado geral de policia.
A um dos commissarios, meu amigo, contei que me tinha esquecido dentro de uma carruagem, cujo numero ignorava, uma bengala que valeria apenas seis vintens, mas que eu estimava muito.
O commissario imaginou talvez que se tratava de uma recordação de familia. Socegou-me. Como a bengala não tinha valor material, appareceria facilmente, ia dar as suas ordens, e eu prometti gratificar o policia que encontrasse a bengala.
Sahi do commissariado de policia para ir dar{77} umas voltas, tratar de negocios particulares. Mas tinha a convicção de que tudo me correria mal n'esse dia e nos outros, porque, ai de mim! havia perdido a mascotte. Era, moralmente, um homem morto.
Ás cinco horas da tarde, muito contrariado, quasi rabujento, subia eu o Chiado, olhando attentamente para todos os trens que passavam, ancioso de reconhecer o cocheiro que me tinha levado á rua de S. João da Matta.
De repente, descendo o Chiado, passa um trem. O cocheiro olha para mim, e pára. Ó felicidade! era o cocheiro que eu procurava! De dentro da caixa da almofada tirou elle a minha querida bengala, e eu tirei da algibeira dez tostões que lhe dei como alviçaras.
O cocheiro, que via pagar por dez tostões uma bengala que valeria seis vintens, ficou a olhar para mim, espantado.
Suppoz, talvez, n'aquelle momento, que eu era filho do sr. Monteiro da rua do Alecrim.
Que boas horas de alegria que eu tive, readquirindo a posse da mascotte, a minha querida bengala! Nadando em jubilo, fui dizer ao commissario de policia que a bengala tinha apparecido. E á noite, contando a historia do feliz achado aos meus amigos, recebi parabens.
Rodaram alguns annos, durante os quaes tive sobejos motivos para firmar a minha crença no{78} condão maravilhoso da bengala. Era decididamente uma mascotte.
Mas um dia—que terrivel dia esse!—por acaso, n'uma esgrima simulada, a bengala partiu-se. Deus perdôe a quem, com a mais amavel intenção d'este mundo, contribuiu para esse medonho fracasso. Guardei durante algum tempo os dois fragmentos da bengala, mas o seu condão de felicidade tinha-se partido com ella, ai de mim! A mascotte havia fugido, como uma alma abandona um corpo.
O leitor póde sorrir-se da minha ingenua credulidade, mas eu cria cegamente na virtude d'esse talisman, que um acaso me trouxe, e que um acaso levou.
Não ha philosophia que resista aos factos.
De varias pessoas sei eu que tiveram mascotte, e que criam n'ella como em Deus.
Uma d'essas pessoas era o general José de Vasconcellos Correia, que morreu conde de Torres Novas.
A sua mascotte era uma escova de fato, que o não abandonava jamais.
Justamente, tendo de partir para Torres Novas, onde se assignalou pelo seu valor, esqueceu-lhe metter dentro da mala a escova. E, por não querer separar-se d'ella em tão duvidosa occasião, metteu-a dentro da barretina.
Em Torres Novas, durante a refrega, recebeu uma cutilada na cabeça. O golpe tel-o-ia{79} prostrado, se entre a barretina e a cabeça não estivesse a escova,—a que ficou devendo a vida.
Falta-me o espaço para referir outros muitos casos não menos interessantes e justificativos. E tenha pena! O leitor começaria talvez por sorrir-se; mas acabaria decerto por acreditar.
Toda a gente, por muito que finja o contrario, tem as suas superstições.{80}
IX
Era em abril...
C'était en avril, un dimanche,
Oui, le dimanche!
J'etais heureux...
Vous aviez une robe blanche
Et deux gentils brins de pervenche,
Oui, de pervenche,
Dans les cheveux.Nous étions assis sur la mousse,
Oui, sur la mousse,
Et sans parler,
Nous regardions l'herbe qui pousse,
La feuille verte et l'ombre douce,
Oui, l'ombre douce,
Et l'eau couler.Un oiseau chantait sur la branche,
Oui, sur la branche.
Puis il s'est tu.
J'ai pris dans ma main ta main blanche.
C'etait en avril, un dimanche,
Oui, le dimanche...
T'en souviens—tu?{81}
Ah! como esta deliciosa canção primaveral de Eduardo Pailleron concentra em si todos os perfumes, todos os canticos, todos os sonhos de abril, quando o laranjal florido deixa cair da sua côma, semelhante a um bouquet de noiva, não sei que doces pensamentos de amor, não sei que fragrancias de boudoir, que estonteamentos de volupia, cheia de mysterios, de segredos e de arrulhos maviosos!? A olaia põe no terreno grandes manchas encarnadas, tapetes de petalas soltas, que se alastram convidando ao remanso d'um idyllio, oui, d'un idylle...
No ar, passam foliando os assobios estridulos dos melros e da flauta de Pan, dando uma extranha sensação de prazer vibrante, sobretudo se brilha no céu o bello sol ocioso d'um domingo... oui, le dimanche!
Perto, um veio d'agua crystallina e múrmura dá uma enorme sensação de frescura e de preguiça, porque não ha nada que enerve mais deliciosamente do que vêr correr a agua sobre um campo... et l'eau couler.
Tufos de relva, estrellados de malmequeres, redondos e grandes, vecejam n'uma exuberancia de florescencia sadia, impregnada da immensa vitalidade vernal...
Nous regardions l'herbe qui pousse,
La feuille verte et l'ombre douce.
Delicioso abril! Primavera encantadora! por{82} mais que a gente queira adorar-te sem rhetorica, é completamente impossivel, porque tu mesma és a rhetorica da creação, o Padre Cardoso da naturesa...
*
* *
C'était en avril...
Era sim, era em abril, os melros e as toutinegras enchiam de musica o ar, os laranjaes e as olaias doidejavam galas de flores e de perfumes, e o meu amigo Rosendo, tão feliz como Pailleron, foi com a sua bella ao Campo Grande passar um domingo, uma esplendida manhã de domingo... oui, le dimanche.
Tinham ido por ahi fóra no omnibus do Salazar, n'uma felicidade cortada de phrases ternas e de solavancos, um paraiso ambulante, tirado por tres pilecas rebeldes ao amor e ao chicote.
Rosendo e Ambrosia tinham pressa de chegar ao Campo Grande, tinham um grande desejo de verdura, quasi tanto como as pilecas. Ella ia fresca de mocidade e elegancia singela: um vestido de percale claro, umas rendas, uma rosa natural, um chapeu com blonde verde, luvas de peau de Suéde... Tentadora! Nunca uma Ambrosia parecera tão fascinante, nunca um Rosendo sentira no coração um bando de rouxinoes tão palreiros e tão musicos como naquella{83} hora deliciosa. Imagine-se a pressa do Rosendo em chegar ao Campo Grande, porque, com um bando de rouxinoes dentro do coração, estava em risco de morrer de hypertrophia, se não chegasse de pressa,—mesmo muito de pressa.
Mas finalmente chegaram. Esperava-os um banco verde, um banco de idyllio, que nem que fosse mandado pôr ali de encommenda pela camara municipal, para uso dos namorados ao domingo... oui, le dimanche. Por de traz, um bosquesinho de roseiras, discreto como um cego, silencioso como um mudo.
Rosendo sabia os versos de Pailleron por os ter lido na Revista dos dois mundos, e por os haver achado deliciosos.
Tratou de pôl-os em acção, ou antes, de pôr a sua mão de enamorado Rosendo sobre a mão branca de Ambrosia.
J'ai pris dans ma main ta main blanche...
Não faltava nada para que o scenario fosse em tudo semelhante ao da Revista dos dois mundos: a erva vecejante, a folha verde, a agua corrente, o domingo e a felicidade.
Passaros folgasãos pipillavam no arvoredo, n'uma grande bambocha de virtuoses, e á distancia, amortecido pelo intervallo dos canteiros, o ruido de um trem que passava para o Lumiar, ouvia-se.{84}
Rosendo, achando-se divino, divinisava Ambrosia, para se confundirem ambos n'uma grande consubstanciação amorosa.
Elle só tinha um desgosto:—que ella, em vez de uma rosa no vestido, não trouxesse nos cabellos dois ramos de pervinca... oui, de pervenche.
De repente, Ambrosia, ouvindo dar oito horas, voltou-se rapidamente para elle, e dos seus labios saiu esta phrase, terrivel como um grito de Tantalo:
—Ó Rosendo, vamos nós almoçar ao José dos Caracoes?...
T'en souriens tu... Rosendo?{85}
X
A felicidade e a camisa
Houve outr'ora um rei, que possuia vastos dominios, formosos castellos, vastos parques, ricas baixellas e equipagens.
Mas era triste, peior talvez do que triste, melancolico.
Organisava festins, e aborrecia-se no meio d'elles. Nem o ouro, nem a saude, nem a grandesa conseguiam distrail-o.
A rainha confrangia-se de vêr sempre meditando o seu real esposo.
O principe real improvisava ruidosas caçadas para alegrar seu augusto progenitor, mas o rei, a breve trecho, cahia na sua melancolia habitual, sentava-se á sombra de uma arvore, scismava...
Um dia, n'uma kermesse, que as damas da côrte promoveram para divertir seu real amo, appareceu uma cigana, que andava lendo a buena-dicha de barraca em barraca.{86}
Era alta, morena como todas as ciganas, e tinha uns olhos tamanhos e tão vivos, que bem podiam lêr o futuro a grande distancia...
Embrulhava-se n'um manto de retalhos, uma capa de pedinte que, á força de remendada, já não tinha côr propria.
Lia, com profunda indifferença, o destino dos outros, seguindo com a vista as linhas que elles tinham gravadas na palma da mão. Annunciava tragedias, desgraças, coisas tenebrosas com a mesma serenidade com que promettia riquezas, venturas, delicias.
O rei soube que tinha apparecido na kermesse aquella cigana, e mandou-a chamar.
—Quero que me digas, ordenou-lhe o rei, se posso ainda ser feliz.
A cigana, sem parecer preoccupar-se com a honra que lhe era dispensada, respondeu laconicamente:
—Sim. Ainda póde ser feliz vossa magestade.
Alegrou-se subitamente o rei e perguntou-lhe:
—O que é preciso fazer para que eu seja inteiramente feliz?
A cigana demorou-se um momento consultando as linhas da real mão, e respondeu:
—Precisa vossa magestade vestir a camisa de um homem feliz.
—Mas onde poderei eu encontrar esse homem feliz?{87}
—Isso agora não é comigo, disse a cigana. E voltou costas ao rei indifferentemente.
Logo sua magestade mandou reunir no palacio real os seus validos e conselheiros.
Contando-lhes o caso da cigana, acabou por dizer-lhes:
—Agora é que eu vou conhecer qual de vós me é mais dedicado. Trata-se de procurar um homem feliz, cuja camisa, ainda que custe rios de ouro, eu hei de vestir, ide procural-o, pois. E todo aquelle que o encontrar, receberá recompensas quaes rei algum da terra ainda concedeu.
Fazendo mil protestos de dedicação, logo cada um d'elles se deu pressa em partir. Para onde? Ao acaso, pelo mundo fóra, á procura de um homem feliz...
Tal conselheiro do rei descobriu um proprietario muito rico, que todos os dias via entrar pela porta dentro os seus rendeiros carregados de ouro.
Foi procural-o, na supposição venturosa de que tinha encontrado a pessoa que procurava.
—Sois feliz como pareceis? perguntou-lhe.
—Não sou, ai de mim! É verdade que possuo uma riqueza enorme, mas falta-me a saude, que é cada vez mais precaria. Daria toda a minha riqueza para poder viver sem dôres, para comer com apetite.
Outro conselheiro do rei encontrou um homem{88} muito robusto, cuja saude todos na sua terra invejavam.
—É o homem mais forte d'estes sitios! disseram-lhe.
Foi visital-o.
—Uma pergunta vos quero fazer. Dizei-me se, na posse de tão florescente saude, sois completamente feliz...
O homem forte suspirou, e respondeu:
—É verdade que sou muito robusto, mas quizera não o ser tanto, porque não tenho gosto nenhum de viver ainda muitos annos.
—Por que?
—Porque sou pae de doze filhos e não ganho o bastante para lhes dar de comer. Quanto mais trabalho, menos ganho. Ha destinos assim, e o meu, já agora, não tem remedio.
Informaram um dos validos do rei, de que em tal aldeia morava um homem que, vinte annos depois de casado, ainda namorava a mulher.
Assombrou-se com esta revelação o valido, e foi a correr por montes e valles procurar o ditoso casado.
Sem mais preambulos, interrogou-o.
—É certo que sois casado ha vinte annos?
—Ha vinte annos e vinte dias.
—E que tendes vivido n'uma continua lua de mel:
—Certissimo, meu senhor.{89}
—Sois pois inteiramente feliz?
—Sel-o-ia se...
—O que?! Pois não vos reputaes um homem feliz?!
—Sel-o-ia, se não fosse minha sogra, que volta e meia se lembra de vir visitar-me.
Já iam decorridos alguns mezes, sem que os conselheiros e validos do rei houvessem voltado ao paço para noticiar a sua magestade o achado de um homem feliz.
Esta demora tinha desanimado cada vez mais o rei, que, de quando em quando, gritava enfurecido:
—Pois não haverá sobre a terra um homem verdadeiramente feliz?!
Certo dia um dos conselheiros do rei ia jornadeando, sempre na faina de procurar um homem feliz, por uma serra muito agreste e solitaria.
Só de longe a longe avistava algumas cabras, que andavam roendo as raizes das urzes.
—Que serra tão triste! disse o fidalgo ao arreeiro.
—Por aqui só se encontra algum pastor; ninguem mais. Lá está um acolá, no alto d'aquelle rochedo, a tocar na sua flauta.
—É verdade! Quero fallar-lhe. Vamos lá.
Era grande a distancia. Mas á medida que se aproximavam iam ouvindo os sons rusticos da avêna e vendo o pastor a bailar, muito contente, sósinho, no topo do rochedo.{90}
—Parece impossivel, dizia o fidalgo, que não tenha medo de cair!
Chegaram perto do rochedo, e o fidalgo gritou-lhe:
—Olá, pastor!
O pegureiro interrompeu a musica e o baile. Tirou o chapeu, e ficou-se muito quieto.
—Anda cá, que te quero fazer uma pergunta e dar dinheiro.
O pastor desceu de um salto.
—Julgas-te feliz, meu rapaz?
—Sim, meu senhor, julgo-me feliz.
O conselheiro do rei receiou endoidecer de alegria.
—Pois então, pega lá todo este dinheiro, e vende-me a tua camisa.
—Meu senhor, respondeu o pegureiro, eu não tenho camisa...
Por mais que a gente possa invejar a felicidade dos outros, e desesperar da sua, o que é certo é que, ainda quando os outros lhe parecem felizes, sempre lhes falta alguma coisa: a camisa, por exemplo.{91}
XI
Morte de um gentleman
(Barão da Torre de Pêro Palha)
Foram-se os deuzes, depois os heroes, por ultimo parece que tambem vão acabando os homens...
Os homens antigos, entenda-se, os homens de rija tempera, fortes, destros, gentis, bem educados.
Bem educados, sobretudo, que tambem isso faz muito ao caso para a disciplina social, para a harmonia das classes, para a ordem que não póde deixar de ser a base do respeito que as diversas categorias se devem umas ás outras.
Os homens que viram nascer a liberdade, que a sonharam e implantaram, e que tinham por ella esse culto dedicado que se conserva por uma creança que educamos a nosso geito...
O que ahi vae ficando já não são homens medidos pelo estalão que outr'ora marcava a{92} estatura moral. Como na Grecia antiga, foram-se os Milciades, os Themistocles, talvez os Pericles. Não tardará o tempo em que se levantem trezentas e sessenta estatuas a Demetrio Phalerio, quero dizer, aos heroes da decadencia. Se não ha melhor!
Generaes illustres, oradores proeminentes, sabios conspicuos, tudo isso tem desapparecido a pouco e pouco. Até vae desapparecendo tambem um typo que parecia fundido de uma costella de cavalleiro e d'outra costella de trovador: fundido dos restos meio heroicos e meio galantes da idade-media. Era o gentleman, que sabia montar a cavallo, bater-se em duello, fallar ás damas, dançar uma valsa, entrar n'um salão. Era o gentleman, que punha o chapeu na cabeça diante de um insolente, e que o tirava quando á portinhola de uma carruagem cumprimentava uma senhora. Era o gentleman, que não parecia ridiculo quando vestia uma calça de ganga e calçava umas luvas côr de açafrão. Era o gentleman... Morreu outro dia um; desconfio que foi o ultimo...
Chamava-se Hugo Owen, barão da Torre de Pêro Palha.
Não fez discursos, não fez leis, não escreveu livros, não compoz óperas, mas conquistou o direito a ser conhecido e estimado dos seus contemporaneos.
Por que? Porque foi um gentleman. Eis tudo...{93}
Seu pai, um inglez de distincção, militara ao serviço de Portugal no tempo em que os espiritos mais generosos principiavam a sonhar com a liberdade.
Casára, ficára entre nós; e o filho, direito como um pinheiro novo, esvelto e firme, passou os primeiros annos da vida montando garbosamente a cavallo no séquito de D. Pedro IV, improvisado, quasi por galanteria, em seu ajudante de campo.
Zuniram-lhe as balas do cêrco do Porto por cima da cabeça, ouviu de perto o estrondo da metralha, fortificou-se respirando a fumarada da polvora.
Depois... depois a guerra acabou, os vencedores julgaram que tudo o que havia a fazer pela liberdade estava feito, quanto se enganaram! e os vencidos presumiram-se decerto as ultimas victimas das luctas politicas em Portugal. Quanto se enganaram tambem!...
Hugo Owen casou com uma dama portugueza, amou-a extremosamente, era rico, forte, alegre, feliz.
Mas a roda da fortuna encravára-se um dia; parou de subito. A esposa de Hugo Owen morrêra deixando-lhe filhos pequeninos. No coração do viuvo fez-se um vácuo profundo, enorme. E aqui começa a serie das suas desgraças, quaes poucos homens teem soffrido, e que elle aguentou sem se azedar a ponto de parecer{94} malcreado e sem se mostrar desgostoso ao extremo de querer descalçar as luvas para sovar a humanidade.
Pois se o fizesse, teria tido razões de sobra para isso...
As difficuldades levantavam-se-lhe debaixo dos pés, a fatalidade andava inventando para elle casos imprevistos e complicados, como um advogado chicaneiro que não pensa senão em urdir uma rêde de rabulices para embaraçar a parte contraria.
Um dia, Hugo Owen assistia á agonia de um filho, que a morte viera surprehender prematuramente.
O coração do pae despedaçava-se atormentado contra esse leito, como a vaga contra os rochedos.
Havia já na face do moribundo a pallidez que parece ser o reflexo longinquo do luar de além-tumulo.
Os irmãos soluçavam, abafados de angustia, e o pae, pendido para o leito, disfarçava a sua dôr murmurando palavras carinhosas, de uma grande ternura dolorida, sobre a cabeça do moribundo.
N'isto, rompe n'um dos andares do predio a esfusiada musical de uma valsa de Strauss, sente-se dançar ruidosamente, pular, conversar, tinir loiças e cristaes.
Está-se em plena soirée, e a festa parece prolongar-se{95} pela noite dentro, attingir a madrugada.
É no som da valsa que o moribundo se contorce no delirio da agonia, é a dois passos da vida alegre da sala que o espectro da morte vem assentar arraiaes.
Teriam tido conhecimento d'esta deploravel antithese os que se estavam divertindo? Certamente que não. Mas essa tormentosa coincidencia tinha-a o destino guardado para esmagar o coração do barão da Torre de Pêro Palha.
Uma sua irmã, Fanny Owen, morreu na flôr dos annos, sacrificada a um drama conjugal que enche muitas paginas de um livro de Camillo Castello Branco, No Bom Jesus do Monte.
Foi casada, e morreu pura. Os medicos que procederam á autopsia, assim o affirmaram sob juramento.
Pois bem! um anno depois da morte de Fanny, contado dia a dia, Hugo Owen, estando n'um hotel de Lisboa, ouviu gemer n'um quarto proximo.
—Quem está ali doente? perguntou.
—É o sr....
Era o marido de sua irmã, o marido que tão allucinadamente a aggravára, que vinha morrer a dois passos de distancia do barão da Torre de Pêro Palha!
E, como estas, outras mil contrariedades e{96} coincidencias, que o destino baralhava para o atormentar, expressamente...
Eu conheço a biographia de Hugo Owen em tudo o que ella teve de mais intimo e recondito. Sómente não estou auctorisado a contal-a. Conheço-a, porque elle me confiou um dia as suas memorias, que se conservam inéditas; paginas que elle escrevia com a verdade e o respeito de um homem que se julga já diante de Deus contando o que soffreu entre os homens.
Encontrei nas memorias do barão o material preciso para urdir dez romances sem dar tratos á imaginação. Em cada capitulo havia um drama de lagrimas. Li o manuscripto, sentindo-me muito honrado com a confiança que o barão depositava em mim, fechei-o profundamente commovido e sepultei no fundo do meu coração o segredo das suas revelações, tão pungentes e dilacerantes.
Ás vezes, quando conversava com o barão da Torre de Pêro Palha debaixo da Arcada ou á porta da Casa Havaneza, assombrava-me a sua resignação, espantava-me a sua paciencia, a correcção sempre distincta das suas palavras e das suas maneiras.
E todavia elle estava tão pobre, que mal poderia esperdiçar um charuto...
Os que o não conheciam de perto, poderiam suppôl-o um homem feliz.{97}
Com o seu ar elegante, o seu casaco curto, as suas calças largas, um pouco á hussard (essas calças tradicionaes dos gentlemen do seu tempo: nunca o Manuel Browne e os outros vestiram calças que não fossem á hussard), as suas polainas brancas, a sua bengala de castão de prata, as suas lunetas de oiro, as suas suissas grisalhas, elle tinha o aspecto de um homem feliz, que houvesse accordado ao meio-dia depois de ter passado a noite n'um baile onde perpetrára a sua ultima valsa, onde queimára o ultimo cartucho do seu paiol amoroso.
E todavia talvez tivesse almoçado, de pé, dois ovos à la coque, apenas...
Tambem me assombrava n'este homem, cuja morte deploro, n'este homem que tinha corrido e visto tanto mundo, n'este homem que tanto havia soffrido e aprendido, a boa fé, a ingenuidade com que parecia acreditar todas as esperanças que lhe davam, todas as promessas que lhe faziam, o ar de candura com que tantas vezes procurou o seu nome no Diario do Governo.
Seria um defeito de intelligencia? Não era, com certeza. Era apenas um aspecto da sua individualidade de gentleman. Conhecendo que a vida estava por pouco, não queria desfazer n'um momento a obra de toda a sua existencia, sahir do mundo desmanchando-se n'um gesto tão plebeu como expressivo. Procurava illudir-se por mais algum tempo... pouco!{98}
E, de resto, elle tinha razão.
Quando já não podia viver com as mulheres, com quem viveria elle se tivesse rompido com os homens?
Era esta decerto a sua ideia.
Não queria isolar-se pelo resentimento, pelo azedume, pelo despeito, sentindo-se a dois passos da solidão eterna do tumulo.
Fôra um homem de sociedade, sabia o que era a lisonja, a mentira, a falsidade cortez e amavel. Devia conhecel-as á legua. Mas assim como nos salões tinha fingido acredital-as, reduzido á pobreza fingia tambem dar-lhes credito.
O enganal-o por cortezia podia ser um motivo para que elle continuasse a não ter dinheiro na bolsa, mas não era um motivo para que recusasse um shake-hand á pessoa que o enganava segundo as boas praxes do codigo do bom tom.
—Para a semana será... dizia elle.
Passava uma semana, um mez, um anno.
—Então?...
—Tem havido difficuldades... Mas estão aplanadas... Agora vae.
E não ia!
Elle é que, fingindo esperar sempre alguma coisa que lhe consolasse os ultimos dias da vida, foi para o Porto, já muito doente, cheio de dôres e de desillusões, e de casa de uma filha querida,{99} que lhe recolheu piedosamente o derradeiro suspiro, foi para a cemiterio de Agramonte, onde finalmente descansa...
O Diario do Governo perdeu um leitor, a sociedade portugueza perdeu um dos seus gentlemen, talvez o ultimo, seus filhos perderam um pae extremosissimo, e eu perdi um amigo tão dedicado, que me confiava os segredos dolorosos de toda a sua vida, dando-me a lêr o manuscripto das suas memorias inéditas.
Pobre barão! Outros, que começaram mais tarde a frequentar a sociedade, chegaram depressa ao galarim, tão depressa que, na allucinação do triumpho, nem já o conheciam. Mas elle é que conhecia toda a gente: um shake-hand para a direita, um sorriso para a esquerda, parecia andar fazendo as suas visitas de despedida antes de partir para a eternidade. E para que ninguem podesse ficar aggravado com o muito que elle tinha soffrido, perdoava a todos...
Morreu como viveu: um gentleman.{100}