XII
A «season» lisbonense em 1833
Este inverno promette uma season verdadeiramente notavel: salas que raramente se abriam, como as dos condes de Porto Covo, reanimam-se e povoam-se; o presidente do conselho de ministros receberá ainda quatro vezes durante os dois mezes proximos.
Fallemos principalmente das soirées da presidencia, notaveis mais que todas por serem o ponto de reunião dos grandes vultos da politica portugueza na casa do primeiro entre os primeiros.
Quem vir o sr. Fontes Pereira de Mello nas recepções officiaes do paço, nos actos solemnes da vida parlamentar, com o seu aspecto severo e frio, com a sua figura correcta e grave, terá avaliado apenas superficialmente este homem de estado que tem, como nenhum outro, a{101} consciencia das funcções de que se acha investido e das situações em que se acha collocado. É preciso, porém, avalial-o chez lui, tendo uma phrase amavel para todas as pessoas que concorrem ás suas recepções, sabendo fallar ás senhoras e aos politicos, percorrendo todas as salas para ser attencioso com todos, conversando litteratura com os escriptores, politica com os homens de estado, accommodando-se com distincção a todos os assumptos e a todas as idades, sem constrangimento e sem esforço.
Um estrangeiro, um viajante, um touriste não encontraria decerto melhor occasião para conhecer todos os homens notaveis de Portugal do que aquella que as soirées do presidente do conselho lhe podem fornecer.
Aqui, um pouco curvado, o cabello levantado e branco, faces córadas, um sorriso docemente ironico, deixando vêr atravez das suas lunetas uns olhos penetrantes e expressivos, o ministro de Portugal em Madrid, vice-presidente da camara dos pares, passa nas salas, sobraçando a claque. É um erudito, um professor, um academico, que consome a maior parte dos dias na Torre do Tombo a revolver o archivo. Para os litteratos é o auctor de Um anno na côrte; para os academicos é o auctor da Historia da linha de demarcação que repartia o mundo entre Portugal e Castella, o recente annotador do Roteiro de Lisboa a Goa; para os politicos é um estadista{102} e um diplomata de primeira ordem, é ainda o auctor dos Perigos; para os indifferentes é o sr. Andrade Corvo.
Ali, debruçado sobre a meza do whist, na curvatura interessada dos myopes, um homem magro e sêco, de uma magresa forte e resistente, pondo ás vezes por cima dos oculos afumados o seu lorgnon, interroga o parceiro com a sua voz mansamente timbrada: é o poeta do Avè Cesar e do Pavilhão negro, o dramaturgo dos Primeiros amores de Bocage, o romancista dos Bandeirantes, orador, estadista, diplomata, academico, é Mendes Leal, emfim.
Acolá, o ministro dos negocios estrangeiros, Antonio de Serpa Pimentel, conversa animadamente, encostando o seu corpo franzino ao angulo de uma meza, fazendo girar rapidamente o cordão da sua luneta, e sorrindo: eis aqui um outro homem de estado que é ao mesmo passo um poeta, um prosador, um critico e um academico.
Na sala de baile, a figura esvelta e forte de Thomaz Ribeiro destaca-se: a gran-cruz escarlate, atravessada sobre o peito largo, anima-lhe o busto: os cabellos grisalhos, como que ligeiramente empoados, têem por vezes fulgurações instantaneas.
N'um fauteuil, Julio de Vilhena observa com os seus olhos penetrantemente meridionaes, sorri com vivacidade aos que lhe vão fallando,{103} e retorce descuidadamente a guia esquerda do seu pequeno bigode.
Hintze Ribeiro conversa n'um grupo de deputados sobre as discussões do parlamento: anima-se fallando, e fixa a luneta, fitando o interlocutor.
O procurador geral da corôa e fazenda[1], alto e corpulento, conversa no tom modesto e auctorisado que lhe é peculiar, dois jurisconsultos distinctos ouvem-n'o com uma grande attenção respeitosa, como a um mestre.
Barjona de Freitas, baixo, nutrido, hombros largos, cabello preto e luzidio, falla com Thomaz de Carvalho, que o ouve com o beiço inferior um pouco descahido, e Bulhão Pato, pequeno e forte, o cabello branco, faces morenas como as de um anduluz, aproxima-se, cofiando a pera.
E como n'esse momento uma valsa, de uma melodia suave, docemente marulhada, se espraie pela sala, devem certamente acudir-lhe ao espirito ardente os versos da Paquita:
Entrei no baile, quando a valsa rapida
Corria as salas em airosas voltas!
Das leves roupas, transparentes, soltas,
Que doce aroma se esparzia no ar!
Parei mirando aquellas frontes candidas,
Que se animavam de alegrias loucas.
Amor calando nas graciosas bocas,
Amor dizendo no inspirado olhar.{104}
As primeiras valsistas de Lisboa, as de mais nobre nascimento e de mais distincta elegancia, giravam com effeito em torno do salão, que parecia ondular serenamente como um lago, encrespado por uma brisa ligeira.
Algumas cabeças, formosamente loiras como a de Daphne, pareciam aureoladas por um diadema de oiro; outras, de bellos cabellos negros, affiguravam-se radiadas de arabescos luminosos, como o azeviche batido fortemente pela luz.
O visconde de S. Januario, de amplo peito arqueado, gran-cruz traçada, cabeça altiva, conversava n'um grupo de senhoras; o duque de Palmella, alto, suissas pretas, com a mão direita entalada entre o collete e a gran-cruz, acabava de conversar com o duque de Loulé, que fôra fazer a sua partida de whist para a sala da bibliotheca, onde o conde de Valbom jogava emparceirado com o sr. Carlos Bento na mesma mesa em que tambem era parceiro o distincto advogado Pinto Coelho.
Não haveria, pois, melhor occasião para poder observar os nossos homens mais distinctos na politica, no fôro, na litteratura, na diplomacia, no professorado, no commercio.
Muitos d'elles, se não a maior parte, são um nobre exemplo de coragem, de perseverança e de gloria a todos quantos agora estreiam a sua carreira. Á custa de um trabalho paciente e intrepido{105} alcançaram, por direito de conquista, a alta posição que hoje occupam. Soffreram, combateram, luctaram, mas conseguiram honrar o seu berço, o seu nome, e o seu paiz. Citemos ao acaso um nome, Mendes Leal, que atravessou todas as commoções de uma existencia accidentada de mil incertezas, luctando sempre, no theatro, na litteratura, na imprensa, na politica, mas conseguindo vencer por um esforço heroico de que só os homens do seu valor e da sua tempera são capazes.
Quantos d'elles, se não todos, têem sido injustamente accusados, violentamente atacados, injuriados até! A consciencia do dever é, porém, uma especie de muralha da China, onde os projectis da inveja e da calumnia vão bater, refluindo de ricochete contra os que os arremessaram com mão traiçoeira. É a compensação providencial destinada aos que cumprem a sua missão. Os insignificantes, os invejosos, os inuteis, aquelles que não comprehendem o seu destino, julgam que todos lh'o roubaram, e por isso de todos dizem mal.
Aqui está, pois, levamente esboçada, uma pagina da season lisbonense em 1883.{106}
[1] Conselheiro Martens Ferrão.
XIII
Gostos não se discutem
Tem cada um sua maneira especial de se divertir. Chega a haver n'isso uma tal variedade como nas physionomias.
Ha quem não possa divertir-se com os outros, e quem não esteja bastante divertido sem os outros.
Ha quem goste dos outros só por algum tempo, de modo que nos acontece ás vezes encontrar um sujeito que nos abre os braços e exclama nadando em jubilo:
—Ora ainda bem que o encontro! Ha quanto tempo! ha quantos mezes! Temos muito que conversar! Vamos a isso! vamos a isso!
Fica a gente horrorisada com a perspectiva de uma maçada enorme. Mas não ha remedio senão fazer cara alegre e acceitar as coisas como ellas são.
—Pois vamos lá a isso!{107}
Conta-nos o sujeito duas lerias, fugitivamente, como se o tivesse de fazer por simples cumprimento.
E, de repente, estendendo-nos a mão, parecendo ter já dito tudo:
—Adeus! meu amigo. Estimei muito vel-o.
Aqui está um exemplar de sujeito que gosta da companhia dos outros por algum tempo apenas.
O grande prazer que sentiu encontrando-nos aguou-se tão de pressa, que só abandonando-nos de repente poude continuar a divertir-se.
Conheci um alto cavalheiro, pessoa de estimação, que folgava immenso de que outro, que em tempo havia feito despachar para certo logar da alfandega, o seguisse por toda a parte, vestindo-lhe o casaco á saida dos theatros, pegando-lhe na bengala se queria atar o cache-nez, acompanhando-o a casa todas as noites, dizendo-lhe na rua o nome das pessoas que o iam cumprimentando.
Um dia o fiel protegido adoeceu, e o protector tão aborrecido se encontrou da sua falta, que resolveu ficar em casa emquanto o outro não melhorasse.
Pelo contrario, ha pessoas a quem uma tão solicita e dedicada gratidão incommodaria enormemente.
Andrade Corvo, conversando comigo, dizia uma vez:{108}
—A gratidão que persegue a gente, é das coisas mais secantes que se conhecem. E offende até certo ponto, porque dá a entender que fazemos um favor para sermos servidos toda a vida.
Como n'esse dia estivesse de notavel bom humor, exemplificou:
—Ora imagine que se dá um espirro e se ouve dizer logo do lado: «Dominus tecum, sr. conselheiro.» Imagine que tira a gente um charuto da algibeira, e que a gratidão acode a cortar-nos o passo exclamando: «Aqui está o meu lume ás ordens de v. ex.ª, sr. conselheiro!» Olhe que chega a fazer perder a paciencia!
Ha pessoas que se divertem passeiando sem fallar e sem olhar para ninguem.
Recolhe um desses a sua casa e pergunta-lhe a mulher:
—Encontraste muita gente conhecida?
—Não sei.
—E tiveste muito calor, filho?
—Olha que tambem não sei.
Outros, porém, gozam andando devagar, pasmando para tudo, parando de vez em quando a observar todos, descobrindo mysterios, surprehendendo segredos.
Conheço um destes; que me disse ha poucos mezes:
—Fulano, quando chegar a ministro, não faz caso de ninguem.{109}
—Por que?
—Eu lhe conto. Outro dia encontrou elle um amigo na rua da Boa Vista. Você conhece de certo o Silveira?
—Muito bem.
—Pois era esse o amigo que elle encontrou. Eu vinha atraz e ouvi toda a conversa. Ambos queriam o americano que fosse para o Rato. N'isto passava o carro que ambos desejavam. De repente o outro, que lobrigára um só logar vazio, larga o Silveira, trepa para o americano, e diz-lhe de lá adeus com a mão. O Silveira ficou com cara de parvo.
—Mas que tem isso?!
—Ah! então você não costuma aproveitar as lições que a observação de todos os dias lhe vae deparando! Está arranjado! Aquelle americano era uma especie de carro do governo, em que o outro, logo que teve occasião, tratou de arranjar logar, sem se importar com os que ficavam atrazados.
—Sim. Mas não me parece...
—Homem! qualquer coisa define uma pessoa. Os que gostam de fazer paciencias divertem-se comsigo mesmos: em tendo um baralho de cartas, prescindem bem dos outros.
Um d'esses taes estava em casa uma noite. Passou um amigo, e entrou.
—Pensei que estivesse gente de fóra! disse o amigo ao entrar.{110}
—Enganaste-te. Estou eu só a fazer paciencias.
—E a sr.ª D. Ismenia?
—Sahiu.
—Foi para o theatro?
—Tambem não sei bem. Sahiu com a mãe.
—E tua filha?
—Sahiu com o tio.
—E tu por que não sahiste tambem?
—Por que não precisava.
—Mas sempre é bom passeiar depois que se janta.
—Para passeiar, meu amigo, basta que saia alguem da familia.
Outros são de feitio opposto: amam a sociedade, a companhia, a convivencia.
Encontra a gente um ou outro, á meia noite, quando recolhe a casa.
—Que pressa tem você de se deitar? pergunta elle.
—Preciso levantar-me cedo.
—Mas durma depressa, homem!
—Durma depressa! tem graça!
—É o que lhe digo. Quer você ouvir um caso? Olhe que ainda é cedo. Uma vez estava eu em Villa Franca, em casa do Tiberio. Jogava-se o voltarete. Havia hospedes: um d'elles era o major Noronha, que tinha de ir no comboio da manhã para Santarem. O jogo enremissou-se. A dona da casa, muito constrangida,{111} lembrou que era melhor deixarem as remissas para outra occasião, porque o major tinha de levantar-se cedo. E vae elle, muito amavel, respondeu: «Não tem duvida, minha senhora, porque eu estou habituado a dormir depressa.» Faça você o mesmo, e dê dois dedos de cavaco.
—Sim... mas é já tarde.
—Olhe cá, a proposito de voltarete e remissas... Você sabe que o Castilho dizia que o voltarete era um jogo impio?
—Impio?
—Porque a cada passo ouvia dizer aos que o estavam jogando: Arre missas! (Ha remissas).
—Tem graça, tem! Adeus, que já é tarde.
E o pobre homem, que só com os outros se diverte, fica aborrecido por se achar só na rua.
Lembra-lhe talvez ir pedir lume ao guarda nocturno para accender o charuto,—como um pretexto para armar cavaqueira.
Depois de accender o charuto:
—Ó sr. guarda! n'esta rua ha muitos namoros?
—Já houve mais.
—Por que?
—Têem ido casando.
—É mal feito!
—Bem ou mal feito, é lá com elles.
—Mas o senhor fica muito prejudicado!{112}
—Ora essa!
—Porque quantos menos namoros houver, mais só vae ficando a rua.
Eil-o aqui a pensar como se elle proprio fosse o guarda nocturno. Ah! se o fosse, valer-se-ia até talvez da carta anonyma para desfazer casamentos, porque os namoros podem succeder-se, mas os casados, em geral, não se namoram... depois.
Ha pessoas secantes que se divertem ralhando sempre, e que gostam do jogo, porque lhes dá occasião de bater murros na mesa e de gritar.
A um d'estes grasinas faltava certa noite um parceiro para jogar o whist de perna de pau.
—Se viesse por ahi alguem! exclamava elle espreitando pelas vidraças para fóra.
N'isto tocaram a campainha.
—Ah! é você! Ainda bem! Vamos lá jogar o whist.
—Não jogo.
—Por que não joga?
—Porque você ralha sempre!
—Hoje não ralho. Palavra de honra.
—Com essa condição, vamos lá.
Meia hora depois dizia o dono da casa:
—Esta stearina está hoje detestavel!
Passados cinco minutos:
—Parece que cá em casa não fazem hoje tenção de servir o chá!{113}
De repente os outros dois pegaram-se a discutir o jogo.
—Ah! elle é isso! exclama o dono da casa. Pois então sempre lhe quero dizer a você (o tal, que tirára a condição) que já ahi fez uma grande asneira quando eu me queixei da stearina, e outra quando fallei no chá. Da primeira vez você devia ter vindo a oiros.
Entra o criado com o taboleiro do chá.
—Leva lá isso, que ainda é muito cedo! E da segunda vez porque devia ter vindo a copas, que era o que se lhe pedia.
Epaminondas, segundo resa a historia, nem por gracejo mentia, tanto gostava da verdade,—até para se divertir.
Outros, porém, só mentindo é que estão nas suas sete quintas.
E isso cria-lhes difficuldades, põe-n'os em graves apuros, mas dá-lhes tanto gosto, que perdoam o mal que ás vezes lhes faz pelo bem que lhes sabe... o mentir.
Contava um n'uma roda de amigos:
—Ver a morte! Quatro vezes a tenho eu visto já! imaginem que andando á caça no Brazil, alonguei-me pela roça fóra, e tinha descido a uma chã quando vi que um preto, que eu havia castigado dias antes, corria atraz de mim de espingarda na mão.
—E depois?
—Depois o preto, que chegára á borda do{114} outeiro, apontou-me a espingarda. Vocês sabem que os pretos têem uma pontaria infallivel!
—Como diabo escapaste tu?!
Chegado a este ponto, tambem elle proprio não sabia ainda como poderia ter escapado.
—Sim! Como escapaste tu?!
Nova hesitação do narrador.
—Não escapaste!
—Homem, isto é serio. Fosse em razão do odio que me tinha, ou do cansaço da corrida, o preto teve uma apoplexia fulminante e veiu cair-me aos pés. Dei-lhe um pontapé, e continuei a caçar.
Conheci um rapaz, que morria por andar de calças brancas.
Eu disse-lhe algumas vezes:
—Que diabo de gosto o teu! Não te parece que andas em ceroulas?
Elle respondia-me sempre:
—E a ti não te parece que metteste as pernas n'um tinteiro!
São gostos, e gostos não se discutem. Mas se toda a gente, em questão de gosto, tivesse a mesma opinião, quanto seria difficil... casar, por exemplo!{115}
XIV
Peccadilhos metricos
Non bis in idem
Fazem ámanhã annos,
......................
......................
Alberto Pimentel
......................
Novidades, de domingo 27 de novembro de 1887.
Ainda ante-hontem dizia
Certo jornal que eu fazia
Annos no dia seguinte.
Comquanto o jornal ref'rido
Pertença a outro partido,
Era favor; não acinte.Mas, emfim, passa em julgado
Que eu seja tão desastrado
Que, já proximo dos enta,
Faça annos cada semestre?
Não: que o tempo é um grande mestre.
Tempo que passa, avelhenta.{116}Fazer annos em novembro,
Logo em abril repetil-os!
De tal coisa não me lembro!
Tomára diminuil-os,
Quanto mais, por triste engano,
Duplical-os em cada anno!Assim, se chego aos sessenta,
Contar-me-hão cento e vinte!
Pois cada semestre augmenta
Um anno, e outro o seguinte!
Faço annos no quente e frio
Como pago ao senhorio!!Não! Não pode ser! Protesto!
Porque eu trabalho, e de resto,
Pago de seis em seis mezes
Duas rendas, uma em annos,
Outra em metal! São enganos?
Mas eu pago duas vezes!Fique pois bem entendido,
Bem notorio, bem sabido,
Que só uns annos farei.
Quatorze de abril: é a data.
Dispenso flôres, cantata...
Mas protesto. E protestei.
29 de novembro de 1887.{117}
DEPOIS DO INCENDIO DO THEATRO BAQUET
(Versos recitados pelo actor Firmino, uma das victimas sobreviventes d'aquelle incendio, no beneficio que realizou no theatro da Trindade.)
Venho d'entre as ruinas e das chammas,
Onde tudo perdi. Sabeis a historia,
Que o vosso coração ainda contrista.
Perdoai a vaidade ao pobre artista...
Eu sonhava essa noite com a gloria.Monstruosa ironia! A gloria! A gloria!
Tive por ovação prantos, clamores.
Ossadas por cortejo. O incendio e a fama
Disputaram ali. Venceu a chamma.
Eram chammas o palco e os bastidores...E ali n'essa sinistra apotheóse
Ficaram sepultados meus thesoiros,
Amigos que eu perdi,—tão dedicados!
Minha pobre familia,—os meus cuidados,
Doces cuidados que eu pref'ria aos loiros!...Sou agora a mim proprio quasi extranho,
Um viajante perdido no deserto,
N'esse infindo deserto da saudade.
Sinto ainda a desgraça muito perto...
Mas sinto ainda mais perto a caridade!Se vivo, é só por ella. Em seu regaço
Choro o meu abandono, as minhas dôres.
Refunde-se a minha alma em muitas almas,
Vale um consolo o que não valem palmas...
Vivo, meu Deus! graças a vós, senhores!...{118}
UMA DAS VICTIMAS DO INCENDIO
(Etelvina Julia d'Almeida.)
Vi-a n'um baile, ha muitos annos, quantos!
Da sua face bella as frescas rosas
Deviam ter suavissimos encantos
Se os beijos, namoradas mariposas,
Fossem sorver, ha muitos annos, quantos!
Da sua face bella as frescas rosas.Mas quem hontem logrou reconhecel-a
Entre as negras ruinas sepultada?...
Mas quem poude affirmar, dizer: É ella!
Ella que fôra outr'ora alva e rosada!
Já não poude ninguem reconhecel-a
Entre as negras ruinas sepultada.
1.º DE DEZEMBRO
Filippa de Vilhena!
João Pinto Ribeiro!
Palavra, que faz pena
Ver o despenhadeiro
Em que isto agora vae!
E como o paiz cae!Agora é só dinheiro.
Está campando em scena
Sómente o deus Milhão!
Filippa de Vilhena!
João Pinto Ribeiro!
Palavra, que faz pena...
Agora é só dinheiro...
E os que lá vão lá vão!
1887.{119}
EMILIA
(Minha irmã.)
Nunca tu azas tiveras,
Que te elevassem ao ceu.
Nunca tu voar poderas
Co'as azas que Deus te deu.Por mais que tu procuraste
Reprimir-lhe o ancioso vôo,
Eras tão debil! cansaste.
Deus quiz o anjo, e levou-o.Tinha reflexos tão doces
O teu olhar doce e brando,
Que logo pensei que fosses
Lirio que veio voandoD'essa translucida esphera,
Tão cristalina e tão alta,
Onde a eterna primavera
Sentiria a tua falta.Então as flôres celestes
Chorando saudosamente
Vestiram lutuosas vestes,
Feitas de seda somente.E, debruçadas nas sépalas,
Choraram pranto divino
Sobre o justilho de pétalas,
Polvilhado de ouro fino.Deus viu-as tristes, chorosas.
Nos seus ethéreos jardins,{120}
E chorou co'as suas rosas,
Teve dó dos seus jasmins.E como o pranto divino
Tambem, como pranto, queima,
Deus co'a sua voz, um hymno,
Dissera ás azas: «Trazei-m'a.»E as azas, mal escutaram
A celeste melodia,
Obedeceram, voaram,
Qual d'ellas mais voaria.Quando esse lirio nevado
Chegou de novo ao empireo,
Ia triste e maguado,
Deus estranhou o seu lirio!E o que o lirio não dissera
Tudo Deus adivinhou.
Voando á celeste esphera,
Chorára emquanto voou.As flôres do azul sorriam,
Os lirios do ceu cantavam,
Meus olhos já te não viam,
Meiga creança, e choravam.Nunca tu azas tiveras,
Que te elevassem ao ceu
Nunca tu voar poderas
Co'as azas que Deus te deu.
24—2—87.{121}
JOÃO DE DEUS
João de Deus! De Deus... porque é divino.
João, ou seja o primo de Jesuz
Ou o outro que vela junto á Cruz,
É divino tambem.
E não atino
Senão co'esta rasão: foi prophecia
—Se já não foi destino—
De quem previu que João de Deus seria
Um poeta divino.
Ericeira, 21—10—90.
KERMESSE
O bem é como as auroras,
Que para tudo o que existe
Espalham luz e calor.
Seja alegre ou seja triste
A alma, o insecto, a ave, a flôr,
Tudo o que ri ou que chora
Sente nos raios da aurora
A esmola do eterno amor...Os beijos do sol aquecem
Tudo o que é velho ou que é moço,
O ephémero e o colosso.
As rochas e os corações,
Os lagos e as ondas bravas,
Emporios e solidões,
As lagrimas das escravas
E os sorrisos das rainhas,
As cavernas dos leões
E os ninhos das andorinhas.{122}E o bem é como as auroras.
Por isso ao bem não esquece
A creança, o ninho, a escola...Tu és como o sol, esmola!
És como a aurora, kermesse!
OS TREZ VELHOS
I
Cahiu um nevão na serra.
Desde a cumiada ao val
Alveja rútila a terra.
Não houve nevão egual!O ar gelado, cortante,
Passa sobre as povoações
Ceifando como um montante,
Rugindo como os leões.Arvores sêcas, esguias
Olham para o ceu, talvez
A soluçar elegias,
Carpindo a sua nudez.Cheias de fome, as manadas
Sobre as campinas despidas
Só róem urzes queimadas
E raizes ressequidas.A fome, a doença, a morte
Assentaram arraiaes
Junto ao casal e á corte,
Levando gente e animaes.{123}Famintas, as alcateas
Vem de noite ao povoado.
Tremem de medo as aldeas,
Ouvindo o lobo esfaimado...E desde o alto da serra
Abre a neve o seu lençol.
O que seria da terra
Sem ter um raio de sol?!
II
Entre a egreja e o presbyterio
Corre, caiado de novo,
O muro do cemiterio.
Vem ali juntar-se o povo.O sol, batendo no muro,
Aquece a pedra ao meio dia,
Torna o inverno menos duro,
Tempera a nortada fria.Lá se juntaram trez velhos
Sêcos, rijos, vermelhaços,
Expondo ao sol os joelhos,
Estendendo ao sol os braços.Emquanto o sol os aquece,
Riem-se elles da nortada.
Cada um seu mal esquece,
Vai tudo de patuscada.—Tem morrido muita gente
Com esta grande invernia!...
—Pois nunca o inverno foi quente!
—Salvo... este sol do meio dia.{124}—Este sol é a minha adéga:
Eu não quero outro calor.
—Você o vinho renega!...
—Lingua de mau pagador!—O vinho é caro. A cacháça
Custa agora...
—Isso que monta!
—O sol dá-o Deus de graça!...
—Mas beba vinho com conta!—Eu cá nunca fui borracho.
—Nanja eu. Mas acho-o bom.
—Diz um cacho a outro cacho:
Não bebas sem tom nem som!E n'esta mansa folia
Vão-se aquecendo os trez velhos
Ao doce sol do meio dia,
Rijos, sêcos e vermelhos.
III
—Lá vem enterro... Isto agora...
Não tem descanso o coveiro!
—Vem d'acolá d'onde mora
A mulher do Zé Cabreiro.—Foi o filho... É de creança
O caixão: eu inda vejo!
—O coveiro não descansa!...
—Inda hontem lhe dei um beijo!—A quem? Ao coveiro?!
—Irra!
Ao filho do Zé Cabreiro.{125}
—O frio as creanças mirra.
—Lá vem atraz o coveiro...—A morte leva os fedelhos,
Mata n'um dia um rapaz,
Emquanto que nós, os velhos.
Vamos ficando p'ra traz!—A morte é uma gulosa,
Gosta de bocados finos.
Carnes que cheirem a rosa,
Polpa de tenros meninos...—Póde ser!...
—Pois certamente!
Nós cá, ossos esburgados,
Nem para a cova de um dente
Lhe chegavamos, coitados!No alto mar me contava
Um velho de Guimarães
Que a terra se embebedava
Com as lagrimas das mães...—Por isso lhes leva os filhos!...
A gulosa!... Quer banquete!
—Quem tem filhos tem cadilhos.
Morreram-me. Eu tive sete!...—E eu nenhum.
—Nem eu.
—Agora,
Sem ter filhos nem mulher,
Visto que ninguem nos chora,
Nem mesmo a terra nos quer!...
Janeiro de 1891.{126}
AS POMBAS
(De Theophilo Gautier.)
Na collina dos mortos, entre os tumulos,
Ergue a bella palmeira a verde pluma,
E á tarde as mansas pombas de azas candidas
Vão aninhar ali, uma após uma.De manhã, quando o sol desperta rutilo.
As brancas pombas vão, cortando o ar,
Como um solto collar no azul ethéreo,
Longe do ninho um tecto procurar.Minha alma é como a solitaria arvore
Onde enxames de loucas illusões
Poisam á noite. Fugitivos hospedes,
Vão-se co'a luz as pombas e as visões.
8—2—87.
MULHER E GATA
(Paul Verlaine.)
O vel-a até dava gosto
Brincando co'a sua gata,
Branca mão contra alva pata,
Na penumbra do sol posto.Mitene, que a mão recorta,
Por dissimular trabalha
Unha d'ágatha, que corta
E brilha como navalha.Mas a gata, disfarçada
Tambem, com prazer ronrona{127}
E ensaia a unha acerada...
Não é melhor do que a dona!E os dois labios purpurinos
Enchiam de riso o ar,
Onde se viam, felinos,
Quatro phosphoros brilhar.
N'UMA SALA
A um canto, os politicos fallavam
Com um certo mysterio
Do modo como as coisas caminhavam,
Se estava forte ou fraco o ministerio.Alguem que se mostrava resentido,
Abanava a cabeça—era um symptoma
De que a seu vêr o mundo está perdido
E tudo cae,—como caíra Roma!
Elle só, por sciencia e por estudo,
Era talvez capaz de salvar tudo...N'outro canto da sala gorgeiava
A musica do riso e d'alegria
Um grupo que sorria e que fallava
De quanto ouvia e via.
Era o grupo formoso das solteiras,
O grupo dos vinte annos,
Que é capaz de passar noites inteiras,
Rindo de tudo,—até dos desenganos!D'este grupo gentil como é que eu posso
Desenhar o esboço?
Precisaria ter as tintas finas,{128}
O magico pincel
De que dispunha o grande Raphael!
Em vez de uma... eram quatro Fornarinas.Quereriam talvez as bellas damas
Vêr no papel traçado o seu perfil?!
N'essa não caio eu...
Quem é capaz de retratar abril?
De transportar á tela o que é do ceu?
De copiar as flôres?
De imitar as estrellas?
De dizer á manhã: Roubei-te as côres?
Tende paciencia, ó minhas damas bellas,
Incumba cada uma o seu Romeu
D'esse arrojo inaudito.
Eu cá por mim, repito,
N'essa não caio eu...E de mais eu bem sei, minhas senhoras,
Que me attendestes n'um serão inteiro
Por não haver na sala algum solteiro...
Sois boas, não sejaes enganadoras.Eu já tenho trez filhos, eu sou velho,
Disse-m'o ha pouco tempo uma visinha,
E o maldito do espelho
Tem-me mostrado até... pés de gallinha!...Vão muito longe as minhas primaveras.
De mais a mais, senhoras, a aza branca
Da musa ideal que eu tive n'outras eras
Desplumou-se a pensar em Salamanca,
No imposto sobre o sal,
A estudar as questões do parlamento,
O orçamento geral,{129}
—Diabo de orçamento!
Que é o livro maior que ha em S. Bento!
Assim se foi rasgando, creio eu,
Essa aza branca que me erguia ao ceu!..Vede, senhoras, se ha tormento igual!
O que me resta só,
Para de todo errar da sorte o alvo,
E vêr-me, um dia, calvo,
E descer á miseria... de um chinó.N'estas alturas, minhas damas bellas,
Não posso ser pintor.
Quereis vêr-vos, senhoras, retratadas
Formosas como sois, e delicadas?
Mirae-vos n'uma flôr...N'essa não caio eu...
Fazer-vos o retrato?!
Mas, em compensação,
Com a vossa adhesão
Estou prompto a fazer um syndicato.{130}
XV
Os amaveis
Toda a gente os conhece, os amaveis, sempre generosos, sempre previdentes, tendo á flôr dos labios sorrisos doces e doces fallas, que, quando não encantam, incommodam com certesa os outros...
Sim, porque os grosseiros custam a aturar, são bruscos, são asperos, são impertinentes. Mas os amaveis de profissão, os que fazem gosto e gala de o ser por uso e costume, chegam a aborrecer quasi tanto como os grosseiros.
Com a differença de que se um grosseiro, por descuido, alguma vez se mostra amavel, fica a gente encantada com essa surpresa; ao passo que se um amavel, tambem por descuido,{131} commette uma grosseria, fica a gente quasi vexada de vêr que elle estragou com um involuntario borrão todo o seu passado de homem fino.
A cortezia é como certos estofos claros, em que a mais leve nodoa se torna saliente. Ao passo que nos tecidos grosseiros, qualquer incorrecção de côr, qualquer sombra, por maior que pareça, tem sempre esta desculpa: «É mesmo da fazenda...»
Um brutalhão de marca maior costumava espancar a mulher por dá cá aquella palha. As visinhas tinham dó da pobre creatura sempre que ella acabava de apanhar a sova do estylo. «Coitada! diziam-lhe, vocemecê sempre foi muito infeliz com o marido que escolheu!» E ella respondia, cheia de philosophica resignação: «É genio d'elle, não façam caso.»
Equivalia certamente a dizer: «É feitio da fazenda, não ha que extranhar.»
Um amavel que uma vez escorrega, fica tão maltratado em sua boa fama, como ficaria maltratado corporalmente se tivesse caido do arco grande das Aguas Livres sobre as hortas da Rabicha.
Um dia, certo cavalheiro primoroso em fallas e maneiras, inexcedivel em requintes de cortezia, andando adoentado de irritação intestinal, teve a infelicidade, estando a jogar jogos de prendas com damas, de ser elle proprio{132} dolorosamente surprehendido por alguma coisa que o vexou.
O jogo acabou de repente, no meio de um silencio gelado. O cavalheiro infeliz pegou no chapéo e, esquecendo-se da bengala, deitou a correr pela escada abaixo.
As damas dividiram-se em grupos, fallando ao ouvido umas das outras, receiosas de que alguem as ouvisse.
Os que estavam jogando o voltarete e o whist perguntavam admirados:
—Então acabaram tão cedo o seu divertimento!
—Aconteceu alguma coisa?
—Por que se foi Fulano embora tão depressa?
E as damas calavam-se mysteriosamente, entrincheiradas n'um silencio, que só quebravam para cochichar ao ouvido de alguma sua amiga.
No dia seguinte o caso espalhou-se em toda a cidade.
—Sabe o que aconteceu hontem a Fulano em casa de Fulano?
—Não sei.
—Pois ainda não sabe!
—Eu lhe digo...
E dizia-lh'o ao ouvido, com tamanho mysterio, que justificava plenamente o pasmo com que a noticia era recebida.
—Ora essa!
—Um homem tão correcto!{133}
—Um tão perfeito cavalheiro!
—Que pena!
—Que desastre!
—Que fiasco!
E, em verdade, o que tinha acontecido a esse primoroso cavalheiro, que não podesse acontecer a qualquer outra pessoa?
Tinha deixado cair um borrão no claro estofo da sua boa fama.
Se se tratasse de um grosseirão, toda a gente haveria dito apenas que era proprio da fazenda.
Viajando em caminho de ferro, quem é que não tem encontrado um companheiro tão amavel, que chega a aborrecer?
Se tem vontade de abrir uma janella, encobre este desejo com um veo de cortezia, e pergunta:
—Quer a janella aberta, não é verdade?
Se deseja fechal-a, serve-se de processo identico, sempre em nome da cortezia:
—Pois não é verdade, pergunta, que desejava a janella fechada:
Se se trata de offerecer de jantar a alguem, o amavel insta, insiste, persegue quasi, que é talvez a melhor maneira da gente, no caso de ter que acceitar por força, ir mal disposta, e comer pouco.
—Você—dizia certo amavel a um amigo que lhe appareceu sem ser esperado—você janta hoje comigo sem appellação nem aggravo.{134}
—Não posso, meu caro, o comboio parte d'aqui a meia hora, e eu tenho que seguir hoje viagem.
—Que pena! que pena! Mas veja lá se póde de algum modo fazer o sacrificio de jantar hoje comigo...
—Absolutamente, não posso, meu caro.
E o amavel, tirando dois charutos da algibeira, offerece um ao seu amigo e procura o pretexto de ir ao interior da casa accender o outro.
Serviu-se d'este pretexto para ir dizer alguma coisa ao cosinheiro, que aliás não tinha dotes de muito esperto.
E, voltando para a sala, todo elle era perguntar ao amigo:
—Seu pae como está?
—Menos mal, obrigado.
—E seu tio?
—Esse passa peior.
—Sinto muito. Diga-lhe que sinto muito.
—E aquelle seu primo de Torres Novas?
—Esse! Morreu ha um anno!
—Não sabia! Que pena! um homem ainda tão novo!
De repente, voltando ao offerecimento do jantar:
—Mas, decididamente, você janta hoje comigo...
—Não posso, meu caro, porque o comboio não dá licença.{135}
—Eu nem mesmo sei o que tenho hoje para jantar. Mas isso sabe-se depressa. Ó José Maria, anda cá.
José Maria era o cosinheiro, a quem elle havia dito de repente, quando foi accender o charuto:
—Se eu logo te perguntar o que temos para jantar hoje, inventa lá alguma coisa grande e pomposa.
Vem o José Maria e, de barrete branco na mão, espera que o amo o interrogue.
—O que temos nós hoje para jantar, José Maria?
E o cosinheiro, que estivera matutando na invenção de alguma coisa grande e pomposa, responde:
—Saiba v. ex.ª que temos uma balea.
Gesto de surpresa do amigo e do dono da casa.
O cosinheiro fica atarantado, suppõe que tinha dito ainda pouco...
—O que dizes tu, José Maria! Uma balea!
E o cosinheiro querendo emendar a mão:
—Duas... duas, meu senhor.
Um homem menos amavel teria certamente evitado este fiasco das duas baleas, porque não se lembraria de chamar o cosinheiro como collaborador da sua amabilidade hospitaleira.
E toda a gente, d'ali por diante, repetiu o caso ás gargalhadas, fazendo alastrar a nódoa com{136} que uma tão distincta pessoa maculára a sua reputação de homem amavel.
Havia um sujeito, pessoa excellente, a quem a naturesa dera como filho um brutamontes rebelde a todas as correcções.
Pae e filho foram convidados a jantar fóra de casa. O filho quiz ir por força: o pae consentiu, com a condição de que elle fallaria o menos possivel.
Á mesa, o visinho da direita disse ao rapaz:
—O tempo está magnifico!
Elle limitou-se a meneiar affirmativamente a cabeça.
O visinho da esquerda disse-lhe por sua vez:
—Que magnifico tempo!
Elle tornou a meneiar a cabeça.
D'ali a nada diziam os visinhos aos visinhos:
—Este rapaz é um grosseirão!
E o rapaz, dirigindo-se ao pae, que estava sentado defronte:
—Olhe que elles já me conheceram! Posso fallar á vontade.
O pae sorriu encolhendo os hombros, como se quizesse dizer para os outros convivas.
—Desculpem, isto é mesmo da fazenda.
Desenganem-se: os amaveis teem muito mais que perder do que os grosseiros. E quantas vezes se arrepende uma pessoa de ser amavel, devendo ter sido grosseira!...{137}