WeRead Powered by ReaderPub
Manhãs de Cascaes cover

Manhãs de Cascaes

Chapter 31: XVI
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

A collection of witty, observational sketches set at a seaside resort that mix playful anecdotes with satirical commentary on summer life. The narrator chronicles morning scenes, petty rivalries, and the small torments of mosquitoes, turning bungled defenses, bathing costumes, and persistent gossip into comic episodes. Each short essay shifts between humorous storytelling and ironic reflection, using everyday annoyances and public affectations to lampoon vanity, social pretensions, and etiquette, while exposing the gap between polished appearances and the messy realities of vacation society.

XVI

A sepultura d'um traidor

Devo começar por dizer quem fosse o sr. D. Ruy, porque eu, posto a contar historias, tenho ainda o mau costume de começar pelo principio.

O que faz com que seja alguma coisa massador... pelo menos.

O sr. D. Ruy era o filho unico da fidalga da Gésteira e do morgado do mesmo nome.

Sobre aquelle menino pesava uma nobreza de sete gerações, e uma riqueza talvez mais pesada ainda do que uma tal arvore genealogica.

Pela sua parte, elle não precisaria ser tão nobre nem tão rico para se fazer estimar e adorar.

Era, realmente, uma creança insinuante, meiga{138} e intelligente, quasi nada voluntariosa apezar dos extremos, por vezes ridiculos, com que era tratada.

A mãe parecia viver da vida do filho. Se elle ria, ria ella tambem; ás vezes adoeciam, mãe e filho, da mesma tristeza: chamava-se logo o medico para ambos, porque o morgado, depois de ter vivido no mundo, prescindira da sociedade que tanto o prendera outr'ora, para se limitar a viver para a mulher e para o filho, isto é, para uma só alma partida em dois corpos.

No solar da Gésteira havia ainda uma outra pessoa, que fazia parte integrante da familia: era o padre João, capellão da casa.

Padre João accumulára tambem as funcções de preceptor do sr. D. Ruy durante a primeira infancia do fidalguinho. Ensinara-o a lêr e a rezar. Umas vezes por outras fallava-lhe do sr. D. Miguel de Bragança, que, segundo elle, era o Desejado dos tempos modernos.

Mas o sr. D. Ruy foi crescendo, e chegou um dia em que se pensou no que se devia fazer d'aquelle menino.

O que havia elle de ser no mundo para melhor fazer sobresair a sua riqueza e a sua fidalguia?

A mãe, no egoismo do seu amor, dizia que o melhor era não se pensar mais n'isso, que o sr. D. Ruy já sabia lêr o bastante... para não ser analphabeto.{139}

Padre João concordava com a fidalga: que sim, que a sabedoria era boa para os pobres.

O morgado protestava. Elle mesmo era bacharel em direito, e queria que o filho o fosse.

Vivendo amarrado ás tradições de familia, queria que o filho se graduasse em leis, como elle, fazendo o que seu pae fizera, tendo um cavallo para passeiar, como todos os estudantes nobres d'aquelle tempo, exhibindo-se, n'uma palavra, em toda a plenitude das regalias que uzufruiam os morgados em Coimbra.

Padre João concordava tambem com o morgado: que sim, que o saber não ficava mal a ninguem.

A morgada zangava-se, e dizia:

—O padre João está fallando assim por comprazer com meu marido. Já lhe tenho ouvido dizer que a sabedoria é boa para quem não tem outra coisa.

O bom do capellão via-se enleiado, tomava a sua pitada, rufava depois com os dedos sobre os joelhos:

—Sim, quero eu dizer, minha senhora, que nem tanto ao mar nem tanto á terra. Uma envernizadella ao espirito não faz mal a ninguem...

—Uma envernizadella! replicava o morgado. Mais do que isso. Uma carta de bacharel. Póde nascer-se morgado, sem a gente o querer; doutor é que não. O padre João já viu alguem nascer doutor?{140}

—Eu, não, sr.

—Pois se não viu, é porque para o ser é preciso estudar e saber alguma coisa. E a honra é tanto maior quanto o individuo, pela sua posição social, menos precisa das cartas de um curso para viver. Hoje os tempos mudaram, e um fidalgo ignorante já ninguem o toma a serio. Eu quero que meu filho vá a Coimbra.

A fidalga punha os olhos no chão, ficava calada e triste.

—Mas isso não é por ora, tornava o morgado; escusas de estar ahi a abalar de tristeza, Christina. Has de habituar-te pouco a pouco a viver sem o teu filho, como minha mãe se habituou. O habito é uma segunda natureza. Primeiro entrará o Ruy n'um collegio. Vamos viver para o Porto,—e olha que faço n'isso algum sacrificio, porque já me custa arrancar-me á vida da provincia. Para que elle tambem se habitue a viver sem nós, mettemol-o n'um collegio, no da Guia, por exemplo, porque tenho boas informações a respeito d'essa casa de educação. Iremos vel-o sempre que queiras. Pelas ferias, sahirá, viremos para a Gésteira, a fim de que elle possa saborear, de tempos a tempos, o bem estar da casa paterna, conservar as tradições de familia, que eu tanto prezo, e tu tambem.

De sahir da Gésteira, de deixar o seu querido Minho, é que padre João não gostava;{141} mas, chamado a conselho pelo morgado, não tinha remedio senão concordar.

Finalmente, resolveu-se que o sr. D. Ruy iria para o collegio da Guia estudar preparatorios.

Os fidalgos da Gésteira sahiram para o Porto, e arrendaram casa, uma bella casa de trez andares, na rua de Santa Catharina.

A fidalga queria ficar perto do collegio,—o mais perto possivel.

Marcou-se o dia em que o sr. D. Ruy devia entrar no collegio. O director, o Daniel Navarro, tinha ordem de se não poupar a despezas para amenizar a iniciação do joven collegial. Esse dia, era uma segunda feira. Mas no domingo á noite a fidalga chorou tanto, que o morgado achou prudente deixar passar mais alguns dias.

Por sua parte, o sr. D. Ruy estava um pouco vacillante entre as saudades da mãe e o desejo de entrar no collegio. Um dia o pae levara-o lá. Era á hora em que os alumnos estavam no recreio: todos elles pareciam alegres, riam, vozeavam, corriam pelas ruas da quinta, jogavam as escondidas, baloiçavam-se no trapesio. Aquillo não lhe desagradou; demais a mais o Navarro fizera-lhe muita festa, foi mostrar-lhe as aulas, os dormitorios, a casa de jantar, e disse-lhe:

—Olhe que isto não é mau.{142}

E o sr. D. Ruy sorrira, sentira-se forte, imaginava que se havia de dar bem ali, com os outros, brincando como elles.

Mas ao chegar a casa, chorára vendo a mãe, e ella chorára tambem, abraçada n'elle.

—Bem! dissera do lado o pae, tu não desgostaste, pois não é verdade:

O sr. D. Ruy, com os olhos chorosos, meneára affirmativamente a cabeça.

—Então entrarás segunda feira... está dito!

E passára a mão pela face da fidalga, afagando-a.

—É que se o rapaz ainda não vae d'esta vez, disséra, fica sendo o D. Sebastião do collegio da Guia. Eu não quero que os outros lhe ponham alcunhas, que ficam depois para toda a vida.

—Nem eu, replicára a fidalga com vivacidade.

A ideia de que seu filho poderia ter uma alcunha, ser chamado o D. Sebastião do collegio, sobresaltára-a. E desde logo protestou a si mesma que o deixaria ir na primeira segunda feira.

—Ó mamã, dissera o pequeno, sabe que numero eu vou ter no collegio?

—Qual?

—Sou o 416.

Esta novidade, o facto de ir ser o 416, agradava-lhe. Era uma variante á monotonia do seu{143} tratamento habitual. Toda a gente lhe chamava D. Ruy, o sr. D. Ruy, mas d'ali em diante iam chamar-lhe o 416. Que bom!

No domingo, o morgado tornou a levar o filho ao collegio. Quando entravam, os rapazes sahiam arregimentados. Iam ouvir missa á Lapa, e depois dariam um passeio até Paranhos. O morgado disse ao prefeito que tambem os acompanharia, para habituar o filho á sua nova vida de collegial.

Na egreja da Lapa, emquanto esperavam pela missa, o sr. D. Ruy fez relações de amisade com um rapaz, filho de um fidalgo da casa de Villa Pouca, em Guimarães. Era o 86. O sr. D. Ruy gostou d'elle, e gostou de se vêr tratado familiarmente—por 416, apenas.

Veio para casa contar á mãe o que tinha feito. Estava enthusiasmado. E a segunda feira tardava-lhe. A mãe alegrou-se um pouco da alegria do filho. Pela manhã lavou-o, penteou-o, ella mesma, chorando umas vezes, sorrindo outras, soffrendo e amando.

Padre João foi com o morgado acompanhar o 416. A fidalga veiu para a janella. Chorava. Chegára finalmente o momento terrivel, que ella temia tanto. Mal viu o filho na rua, limpou as lagrimas, procurou sorrir. O sr. D. Ruy ia bem disposto, sentia-se forte, disse adeus á mãe sem chorar, mas á esquina da rua, quando a janella ia desapparecer, o valoroso 416 voltou-se{144} ainda uma vez para traz, e limpou duas lagrimas ao canhão da jaqueta.

É que, por muito leviano que se seja quando se é creança, sempre se tem consciencia de que uma mãe faz muita falta.

O 416 deu boa conta de si no collegio da Guia. De dia, as aulas e o recreio absorviam-lhe a attenção; á noite, nos primeiros tempos, arrasavam-se-lhe sempre os olhos de lagrimas, quando, antes de adormecer, pensava na mãe. Faltavam-lhe os beijos d'ella, que se inclinava sobre o leito a compor-lhe a almofada, e a conchegar-lhe a roupa. A cabeça de Christina tomava então o aspecto de uma aza protectora. O 416, no collegio, enrolava-se no lençol, soluçando, e adormecia assim, rezando ao anjo da guarda, como padre João lhe ensinára. Mas, pela manhã, a disciplina escolar não lhe dava occasião para pensamentos tristes: era saltar da cama e começar a lide.

Ao cabo do primeiro mez, o 416 já adormecia melhor.

Como as suas relações com o 86 se houvessem estreitado cada vez mais, faziam ambos projectos para as ferias da Paschoa. O 416 levaria para a Gésteira o seu condiscipulo: já estavam solicitadas as respectivas licenças. Não havia duvida nenhuma. Fariam um Judas logo que lá chegassem. Houve apenas uma pequena divergencia, entre os dois amigos, sobre o modo{145} como vestiriam o Judas. O 86 queria que fosse de veterano. O 416 preferia um fato de hespanhol—com as respectivas castanhetas. A sua opinião venceu, com uma simples modificação: as castanhetas seriam substituidas por um pandeiro.

Padre João, n'uma visita ao collegio, disse que o fato de hespanhol não era proprio para Judas; que seria melhor vestil-o de judeu. Os dois collegiaes não quizeram saber d'isso, e o 416 encarregou o capellão de lhe comprar um fato de hespanhol, que o padre foi desencantar na rua de Santo Antonio, n'um guarda-roupa de carnaval.

Imagine-se a alegria com que todos partiram para a Gésteira! A morgada parecia ter a idade do filho: ria, fallava, apoiava calorosamente os projectos dos dois collegiaes sobre a queima do Judas, que devia ser espaventosa.

Na caixa do trem ia muito fogo de artificio para recheiar o apostolo... castelhano. Dentro da barriga tinham os dois amigos combinado pôr-lhe uma bomba, que devia rebentar como uma peça de artilheria. Na cabeça, outra bomba: o chapeu devia ir parar a casa do diabo.

Logo que chegaram á Gésteira, trataram de fazer o Judas. O arcabouço era de palha. Vestiram-lhe as pantalonas castelhanas, a jaqueta de alamares; ataram-lhe a faixa encarnada. Pozeram-lhe uma caraça de andaluz, e um sombrero{146} com debrum de velludo preto. As mãos eram duas luvas de algodão com recheio de palha; na esquerda tinha um pandeiro, e na direita a saca dos trinta dinheiros. Por um artificio sabiamente imaginado, a saca do dinheiro devia, quando se puxasse por um arame, bater no pandeiro, e fazel-o soar. Na bôca um charuto: era uma granada envolvida em folha de tabaco. Nos pés, esporas de lata, com polvora dentro.

O Judas ficou n'um vasto telheiro que, dentro do pateo, se encostava ao muro da quinta.

O machinismo do pandeiro e da saca dos trinta dinheiros, invenção do 86, levara muito tempo, e dera muito trabalho, de modo que só foi possivel acabal-o, á luz de lanternas, na sexta feira á noite. O Judas, finalmente prompto, estava de papo ao ar, no chão, hirto, inchado, apopletico. Pela manhã, os meninos levantar-se-hiam muito cedo para assistir á empalação.

Depois... só restava pegar-lhe fogo.

De madrugada, uma criada da casa fôra ao moinho buscar uns sacos de farinha, que trouxe n'uma jumenta. Descarregou a farinha e enxotou a jumenta para o meio do pateo, emquanto foi acondicionar os sacos na cosinha.

Não se lembrou a estupida de que o Judas era de palha, e de que as jumentas comem palha... ainda mesmo quando lh'a não sabem dar.

A jumenta, de focinho baixo, foi procurando{147} o que havia pelo telheiro. Vendo o Judas deitado no meio do chão, começou, desconfiada, a ladeal-o, mas, por fim, investiu com elle. Cheirou-lhe a palha, e com uma dentada esgarçou-lhe o peitilho da camisa. Achou dentro a palha, e começou a comer. Trazia fome. Tinha ido para o moinho de madrugada, e lá, emquanto esperava pela moedura, apenas poderá traçar com os dentes umas hervitas, de modo que aquelle almoço inesperado soube-lhe bem.

Quando os meninos se levantaram, correram ao telheiro. Do Judas... restava apenas a parte castelhana, isto é, o fato:, mas os intestinos tinham desapparecido.

Proromperam n'um choro atroador as duas creanças. Os morgados, os criados, acudiram todos. As lamentações dos dois collegiaes eram sentidissimas, clamorosas. E a burra, indifferente a tudo o que se passava, continuava a procurar com o focinho alguma cousa, na esperança de encontrar outro Judas.

N'um momento de cólera, o 86 e o 416 pegaram cada qual no seu fueiro, e começaram a desancar a jumenta. Levou muita lambada; até o padre João, para lisonjear os meninos, lhe dera um pontapé na trazeira, dizendo: Que grande burra esta!

Mas ella, com o falso apostolo na barriga, parecia ter a consciencia de que um traidor não merecia sepultura melhor.{148}

XVII

A caminho do Alemtejo

Ha pouco mais de um mez, passava eu na linha do sueste com destino ao Alemtejo. Tinhamos atravessado o rio com muito vento; havia vaga. O ceu estava carrancudo; promettia chuva. O vento apressava-a. Na ponte do Barreiro, uma grande corda de agua principiára a cahir. Corremos todos para as carruagens;—foi um verdadeiro sauve qui peut.

O comboyo partira e a chuva continuava a cahir. Uma inverneira pegada. Eu sentia-me somnolento, cabeceava. Na estação de... (sejamos discretos) sentindo correr uma vidraça na carruagem immediata, espertei. Uma voz, n'um tom agaiatado de rapazote de escola, disse: E a cabrinha? E a cabrinha?

O chefe da estação, um homem velho, de bigode branco, olhou de repente para a carruagem{149} d'onde a voz partira. Havia ficado visivelmente aborrecido, mas continuára fazendo o seu serviço. De instante a instante, ao passo que a voz repetia—E a cabrinha?—elle resmungava.

Ao cabo de pouco tempo a campainha dera o signal da partida. No momento em que o comboyo largava, uma voz, mais vozes disseram: E a cabrinha? E a cabrinha?

O que se passou não sei, mas n'uma das estações seguintes procurei occasião de perguntar ao meu visinho, que se apeiára, o que aquillo queria dizer.

O rapazote, que teria quando muito dezeseis annos, explicou-me.

Aquelle chefe tinha uma cabrinha de muita estimação, que lhe dava magnifico leite para o almoço. Mas a cabrinha, que era toda meiguice com a dona, mostrava-se pouco affeiçoada ao dono. Um dia, por um motivo qualquer, a mulher do chefe da estação teve de ausentar-se; o marido ficou, desempenhando as funcções do seu cargo.

Quando chegou a hora do almoço, o chefe tratou de chamar a cabrinha para mungil-a. Isso sim! A cabrinha fugia, e o pobre homem resignou-se a tomar o seu café sem leite. Não gostou, e tratou de afagar a cabra para que ella se mostrasse menos extranha e rispida. Qual historia! No outro dia a mesma comedia, elle a chamar a cabra com as suas melhores maneiras,{150} e ella a fugir d'elle como o demonio foge da cruz.

O pobre homem deu tratos á imaginação para resolver o problema, em que elle e a cabra entravam como factores.

O que havia de fazer? Demais a mais o café sem leite estava-lhe fazendo mal ao estomago, e a cabra não promettia tornar-se mais amavel do que até ahi se havia mostrado.

Depois que os comboyos passavam, elle fechava a porta da estação, e dois pensamentos atrozes o preoccupavam: a mulher e a cabra.

O que havia de fazer? pensava e tornava a pensar.

Até que uma noite teve uma idéa luminosa, salvadora. Adormeceu mais tranquillamente, saboreando mentalmente a delicia de tornar a almoçar café com leite.

Pela manhã, quando acordou, vestiu um vestido da mulher, poz na cabeça um lenço d'ella. Foi chamar a cabra, e a cabra veiu immediatamente, fazendo-lhe festa.

Estava resolvida a difficuldade, a cabra deixava-se mungir; o bom homem endoidecia de contentamento.

N'isto, um silvo terrivel ouve-se a pequena distancia. Era o comboyo, mas em que occasião, santo Deus!

O pobre chefe estava vestido de mulher, de saia e lenço. Um dilemma implacavel se lhe{151} apresentava: apparecer tal como estava ou faltar.

Mas faltar seria um delicto muito grave, um motivo para demissão. N'isto o comboyo chegava... E o chefe da estação apparecia na plataforma, mascarado de mulher, a dar ordens no desempenho do seu cargo.

Os passageiros riram a bom rir. O caso divulgou-se, espalhou-se ao longe, e agora é raro o dia em que passe um comboyo sem que alguem pergunte ao chefe da estação noticias da cabrinha...

*
*     *

—Já não ha salteadores no Alemtejo! dizia eu para um dos meus companheiros de viagem. Que falta que me faz um assalto, de que eu precisava escapar... para o contar depois!

E elle referia-me casos tenebrosos de antigos salteadores alemtejanos, do José da Costa e do Chapeu de ferro, dois faccinoras, dois monstros, que viveram n'um tempo em que ainda se podia ser litterato.

O José da Costa fôra ha doze ou quinze annos o terror das terras interpostas a Alcochete e Setubal. Desertor de lanceiros, andava a monte, zombando das auctoridades e da policia. Era um heroe terrivel, um homem sanguinario, uma lenda viva. Uma noite, encontrára o caseiro da{152} quinta de Algeruz, e mandára-o apeiar do cavallo que montava. O caseiro obedecera immediatamente, e o faccinora dissera-lhe, passando-lhe a mão pela cara:

—Anda lá, anda, segue teu caminho.

O caseiro cavalgou de novo, dispunha-se a partir, quando José da Costa lhe tornou a dizer:

—Apeia-te outra vez.

E passando-lhe a mão pela cara:

—Ajoelha-te.

O caseiro ajoelhou.

—Por esta vez, vae-te embora.

O caseiro montou, e José da Costa, deitando a mão ás redeas do cavallo, exclamou:

—Apeia-te, e ajoelha.

E pondo-lhe a mão na cabeça e nas faces:

—Vae com Deus ou com o diabo!

O caseiro estava muito disposto a partir protegido por qualquer dos dois, quando o José da Costa lhe apostrophou:

—Torna a descer, que to mando eu.

E o caseiro desceu do cavallo.

—Ajoelha.

E o caseiro ajoelhou.

—Monta agora.

E o caseiro montou.

E depois, vendo-o em cima do cavallo, atirou-o a terra com um tiro.

—Coitado! disse, tornando a passar-lhe a{153} mão pela cabeça inanimada, já devias estar cançado de montar e desmontar!

De uma vez, José da Costa teve seus dares e tomares com um hespanhol pimpão. Travou-se a lucta braço a braço, e o faccinora parecia não levar a melhor.

De repente, José da Costa grita para o hespanhol:

—Olha quem ahi vem! Foge!

Não vinha ninguem. O hespanhol, voltou-se e o faccinora feriu-o pelas costas.

Foi na venda de Algeruz que José da Costa poude ser preso.

Fecharam-lhe a porta á traição, cercaram a casa, e foram buscar a Setubal uma força militar, de que foi commandante o governador Cunha, ha annos fallecido.

Mas dentro da taberna haviam ficado trez ou quatro homens, que não poderam sahir a tempo, e o José da Costa, vendo-se apanhado no laço, ia-os esfaquendo para saciar a sede de sangue.

Os feridos gritavam de dentro, o povo gritava de fóra, a força havia chegado, estava de armas mettidas á cara, e de repente, por uma das janellas da casa, uma coisa saltára para a charneca. Mas os soldados, percebendo o que era, não descarregaram.

José da Cosa havia atirado para fóra um cortiço, fingindo que era elle proprio que saltava, na esperança de que os soldados disparassem,{154} e elle podesse fugir entretanto, são e salvo.

Então, baldados todos os recursos, entregou-se á prisão.

O Chapéu de ferro infestava ahi por 1860 e tantos as circumvisinhanças de Beja.

Uma vez matara um homem n'um monte, como quem diz um casal, e obrigára a mulher da victima a aparar-lhe o sangue n'um alguidar.

Dois rapazitos, e um d'elles é hoje um cavalheiro altamente collocado, sahiam, em férias, de Beja para a sua terra natal.

Um homem de grandes barbas espessas appareceu-lhes na charneca.

—Quem são vocês? perguntou-lhes.

—Somos estudantes.

—E eu, sabem quem eu sou?

—Não sabemos.

—Pois eu sou o Chapéu de ferro.

—O Chapéu de ferro! exclamaram horrorisados.

—Sim, eu sou o Chapéu de ferro, e deixo-os ir em paz. Talvez quizessem que eu os matasse, dois creançolas!{155}

XVIII

A mulher

Desde o paraiso terreal até hoje, não tem havido acontecimento de polpa em que não figure a mulher. Os francezes dizem «Cherchez la femme». O que significa que a mulher anda sempre mettida em todas as endrominas d'este mundo.

Ora, desde que principiou a desenvolver-se na imprensa o panorama escandaloso do Panamá, admirado estava eu de que não tivesse apparecido ainda como actriz ou como comparsa, como figurante de qualquer genero, uma mulher pelo menos.

Já tinha tido tentações de lembrar á França que o seu proverbio falhára... pela primeira vez. Eis senão quando o proverbio triumpha, agora como sempre. No caso do Panamá apparece uma mulher, madame Cottu, e a sabedoria da França salva os seus creditos, emfim.{156}

Decididamente, a mulher, quer a emancipem quer não, tenha voto ou não tenha voto, ha de ser, na successão dos seculos, a eterna collaboradora do homem em todos os casos da vida.

E visto que isto tem de acontecer por força, convém a cada homem escolher o typo de collaboradora que mais lhe agrade, especialmente para as emprezas em que o agrado é tudo.

Deverá escolher-se a mulher pequena. Será essa, como typo do sexo, a que mais póde encantar os olhos de quem a vê?

É certo que os antigos diziam: «A mulher e a sardinha quer-se pequenina.» A pequenina, a mignone, d'estas em que se póde pegar ao collo, e passeial-as sem cançar os braços, é, em verdade, um ser gracioso, que conserva, até mesmo na velhice, o que quer que seja de infantil, de ar alegre de boneca

E de mais a mais dizia um philosopho, não sei qual, um philosopho apologista de mulheres pequenas: «Do mal o menos».

Mas a verdade é que as nulheres altas, elegantes, fortes, se não são tão commodas para trazer ao collo, dão margem a que os olhos de quem as contempla possam saturar-se de bello sexo, demorando-se a miral-as da cabeça até aos pés.

É como se a gente estivesse a olhar ao longo de terras vastas, de uma paizagem dilatada, com um horisonte amplo, infinito, em que{157} sempre, por mais que se olhe, ha alguma coisa para vêr de novo.

Outro philosopho—porque sobejam, graças a Deus! philosophos para tudo—costumava dizer que a mulher alta era a mais apreciavel de todas, visto que não tinha o coração ao pé da boca.

Feia? Deverá ser feia a mulher? Não falta quem seja d'esta opinião. Não ha mulher feia que não possua pelo menos uma qualidade estimavel. A natureza mostrou-se principalmente sabia e justa nas compensações.

Vê a gente ás vezes um homem loucamente apaixonado por uma mulher que a nós nos parece feia.

Sempre que isto acontece, é para desconfiar que exista uma compensação, uma qualidade, que esse homem, tendo visto melhor que nós, conseguiu descobrir.

De mais a mais, nada ha tão vehemente, tão vulcanico como o amor das feias. Tendo pouco quem as requeste, poupam o paiol do coração, de modo que o seu primeiro amor é como que uma explosão do Vesuvio.

No olhar amoroso de uma feia ha sempre um discurso enthusiasta, que póde stenographar-se do modo seguinte.

—Muito obrigada, bravo e heroico cavalheiro! que esgrimes denodadamente contra o preconceito da belleza, e que reunes á coragem o talento,{158} porque só tu foste capaz de descobrir a belleza na fealdade, a compensação que a natureza me concedeu. Saber que uma mulher é bella, quando ella realmente o seja, não engrandece o espirito de ninguem. Basta, para isso, não ser cego. Mas vêr uma obra de arte, a que todos acham defeitos, e descobrir-lhe a unica qualidade boa que possua, chega a ser brilhante, a ser glorioso, ó nobre, ó bravo, ó excepcional cavalheiro! A ti, a minha eterna dedicação!

Ora este discurso, pronunciado por dois oradores ao mesmo tempo, isto é, pelos olhos de uma mulher, faz impressão no espirito de um homem, envaidece-o, lisonjeia-o, acaba por subjugal-o.

E assim se póde explicar de certo a rasão por que as feias vão tendo despacho e consumo.

Estão no caso das feias, as velhas.

Não me refiro a uma antiguidade verdadeiramente gothica, nem me proponho sustentar que um homem deva casar-se com a sé de Braga.

Mas Balzac fez, como se sabe, o elogio da mulher de trinta annos, e eu, na minha obscuridade, acho que é essa uma boa conta para ponto de partida.

Trinta annos! obra acabada, paredes solidas, pavimentos seguros, um predio capaz de resistir{159} a um terremoto! Magnifico! Já passou a epoca das pieguices, dos amuos, dos caprichos de creança. Nada de esboços, de linhas indecisas: obra a que a natureza acabou já de dar os ultimos retoques! Excellente!

Entre os trinta e os quarenta toda a mulher se encontra na situação das feias, ainda que tenha sido formosissima.

—Muito obrigada pela distincção que o cavalheiro me concede! parece dizerem os seus olhos amorosos. Ha por ahi tantas meninas interessantes, tantas rosinhas em botão, tantas flôres frescas e mimosas, e o cavalheiro por todas passou sem as cobiçar! Realmente, sinto-me captivada... Mas deixe estar que não hade arrepender-se. Saberei amal-o como duas meninas, pelo menos: uma, que já fui, outra, que torno a ser, remoçada pelo seu amor.

E a fim de trazer sempre o homem satisfeito e entretido, toda ella é coração, toda ella se dispende em lembranças mimosas, enviando ao cavalheiro flôres para a lapella e rebuçados para o peito.

Contou Julio Cesar Machado, uma vez, que certa quarentona, soffrega de amar, tomára um trem para n'um dia de primavera, cheio de estimulos e effluvios, ir dar um passeio ao Campo Grande.

Pelo caminho, o coração trasbordava-lhe do peito, expandia-se, mas, infelizmente, não havia{160} um homem que quizesse ter a heroicidade de amal-a.

Quando chegou ao Campo Grande, no momento de apeiar-se, já com o pé no estribo, reparou nos olhos do cocheiro, que eram bonitos, expressivos.

E deixando-se cair para fóra, de modo a que o cocheiro tivesse a ideia de amparal-a carinhosamente, exclamou:

—Amo-te, José Traquitana!

Julio Cesar Machado deixou neste ponto a historia, mas é de presumir que a dama, acceitando as consequencias da sua allucinação, viesse a tranformar esse cocheiro n'um marido grato e discreto, com tacto para a vida, visto que havia principiado por ter boa mão de rédea.

Deverá preferir-se a mulher formosa?

É decerto a que mais agrada no primeiro momento, porque a vida é uma serie de illusões, e a formosura a mais grata das illusões.

Lá disse o padre Vieira: «O que é a formosura senão uma caveira bem vestida?» Mas, emquanto está bem vestida, agrada, attrae, fascina.

Todavia, se se pensa um momento, receia-se...

A mulher formosa agrada tanto ao que a possue, como aos outros. Tem esse perigo, que constitue um sobresalto permanente.{161}

E depois o que a possue não póde de certo esquivar-se a pensar com os seus botões, á medida que a belleza se vae apagando: «Quem te viu e quem te vê!»

Se a mulher vale só pela formosura, faltando-lhe a graça, a bondade, uma qualidade de valor, emfim, o que quasi sempre acontece graças á theoria das compensações, essa mulher é, já o disse alguem, um livro que uma vez lido, não tem mais que lêr.

Deve procurar-se uma mulher de bom genio?

Uma mulher de inalteravel bom genio parece feita de açorda, é uma espécie de menu sem surprezas, uma permanente dieta, em que o espirito não passa de servir-se todos os dias uma aza de frango, como se fosse um doente.

Não irrita, mas não vivifica. Não esfria, mas não aquece. Quando um homem chega a festejar as suas bodas de prata, não tem que dizer aos outros senão isto: «Meus senhores, tenho passado vinte e cinco annos da minha vida n'uma paz podre, que me sabe a gallinha cozida.»

Se a mulher tem mau genio, se tem nervos, deve isso ser desagradavel para o marido algumas vezes, mas nada ha que possa lisonjear tanto o espirito de um homem como vêr uma mulher, que tem a vocação da guerra, offerecer-lhe um beijo... de paz! Oh! é glorioso{162} para um vencido acceitar o ramo de oliveira que lhe offerece o vencedor!

Deverá ser rica? Para passar a vida, é bom que seja rica a mulher. Mas não deixa isso de vexar um pouco o marido, se toda a riqueza veiu d'ella. Quando um marido em taes condições manda pôr o trem, sente-se engasgado como se tivesse de dizer: «O José, manda pôr o coupé da senhora.» Se vae ao theatro, ao entregar o bilhete ao porteiro, a consciencia grita-lhe que deveria dizer, a querer ser sincero: «Abra o camarote da senhora!»

Oh! deve ser horrivel!

Pobre? E se a mulher é pobre? Dá isso pena a um marido que sinceramente a estime. «Aqui está, dirá elle comsigo mesmo, uma mulher a quem eu quizera proporcionar todos os regalos, todas as commodidades de uma princeza, e comtudo só poderei offerecer-lhe este mez um vestido de percale.» De modo que a independencia de que um tal marido gosa junto de sua mulher, e aguada pelo desgosto de a não poder felicitar tanto quanto desejava.

É difficil a escolha! concluirá o leitor. Com effeito assim é. Difficilima, acrescentarei eu. Mas ha talvez um meio de illudir a dificuldade da escolha: é amal-as a todas indistinctamente, para, com o auxilio da experiencia, escolher depois a melhor... se houver tempo para isso.{163}

XIX

O carnaval...

Já contei ha alguns annos a historia carnavalesca do Felix Telles, de Estarreja.

Mas vou reedital-a, para que se torne tão conhecida quanto o merece a mais interessante e a mais veridica historia que o carnaval de Lisboa tem produzido, desde que a caraça é caraça.

Felix Telles, boa pessoa, com seus laivos de patuscão, vivia no solar de um fidalgo de Estarreja, na qualidade de professor aposentado dos meninos da casa.

De vez em quando vinha a Lisboa a pretexto de visitar o irmão e sobrinhos do fidalgo de Estarreja. Agradava-lhe essa patuscada, que o distraía da monotonia das arvores e da vida da aldeia.

Assim foi que um anno, pelo carnaval, elle disse ao fidalgo:{164}

—Meu senhor, se v. ex.ª se não oppozer, vou a Lisboa pregar uma partida real a seu mano e sobrinhos.

—Então que intenta você fazer, ó Felix?

—Uma partida de carnaval, que passo a expôr a V. ex.ª Ámanhã de manhã tomo o comboio descendente. Chego a Lisboa das oito para as nove horas da noite. O mano de v. ex.ª é certo, com toda a sua familia, n'um camarote da Trindade, segundo o costume. Logo que eu chegar, vou hospedar-me no Hotel Alliance para me lavar e descançar. Á meia noite pouco mais ou menos, mando um criado do hotel alugar um dominó preto ao Cruz da rua Larga de S. Roque. Dirijo-me em seguida ao theatro da Trindade, vou direito ao camarote onde estiver a familia de v. ex.ª e proponho-me intrigal-a, com casos certos, durante uma boa hora. Quando eu lhe fallar de certas coisas, toda a familia arderá em curiosidade, dará tratos á imaginação para descobrir quem eu seja. Mas não poderão lembrar-se de mim por me supporem em Estarreja. Á saida do theatro tomarei as minhas precauções para não ser seguido nem conhecido. De manhã metto-me outra vez no comboio, e á noite estarei aqui a ceiar e a rir do caso com v. ex.ª É ou não é, ex.mo senhor, uma partida real?

—Pyramidal! meu caro Felix Telles. Applaudo com enthusiasmo. Vá deitar-se, visto que{165} tem de fazer madrugada. Mas que boa partida! Eh! eh! ria o morgado, esfregando as mãos de contente.

Foi dali o fidalgo para o seu escriptorio e, a rir comsigo mesmo, redigiu o seguinte telegramma:

«Felix Telles chega ahi hoje noite para intrigar-te theatro Trindade. Dominó preto, alugado Cruz. Vai Hotel Alliance. Prepara-te para ataque. Segredo.»

Depois chamou o seu criado particular, disse-lhe que logo pela manhã fosse ao telegrapho expedir aquelle telegramma, recommendando-lhe a mais completa reserva.

No comboio descendente, Felix Telles tomava effectivamente logar n'uma carruagem de primeira classe, e saboreava mentalmente o prazer da sua aventura.

Entretanto o irmão do morgado, o visconde de ***, recebia em Lisboa o telegramma, e chamava o escudeiro para dizer-lhe:

—Esta noite estarás em Santa Apolonia á chegada do comboio. N'uma carruagem, que segundo o costume será de primeira classe, hade vir o sr. Felix Telles, que tu conheces muito bem. Seguil-o-has, sem que te veja. Se tomar um trem, toma tu outro. Deve apeiar-se á porta do Hotel Alliance. Ahi, logo que chegue ou pouco depois, dará ordem ao criado para que lhe vá buscar ao guarda-roupa do{166} Cruz, na rua Larga de S. Roque, um dominó preto. Esperarás os acontecimentos parado em frente do hotel. Certificar-te-has se effectivamente sae do Alliance um homem de dominó preto. Esse homem será o sr. Felix Telles. Logo que elle saia, tomar-lhe-has dianteira, correrás ao theatro da Trindade. Encostados á casa do bengaleiro estarão os meninos e, quando o sr. Felix Telles entrar, dir-lhes-has: É este. Entendeste:

—Perfeitamente, sr. visconde. Esteja v. ex.ª certo de que saberei dar conta do recado.

—Muito bem.

No seu quarto, os filhos do visconde escreviam sobre uma larga tira de papel branco, em garrafaes lettras pretas, o seguinte lettreiro: «Sou o Felix Telles de Estarreja.» E riam estrepitosamente, com aquelle grande bom humor que se perde para todo o sempre depois que os dezoito annos passam...

O criado do visconde desempenhou-se da sua missão de confiança ás mil maravilhas.

Felix Telles chegava ao theatro da Trindade quando já os filhos do visconde, postos atraz do guarda-vento, se preparavam para pregar-lhe nas costas a grande tira de papel branco.

Esta operação, aliás difficil, foi feita com perfeita delicadeza.

As pessoas que presencearam tudo isto, casquinaram uma estrondosa gargalhada, que Felix{167} Telles não percebeu. E logo muitas vozes, umas accentuadamente masculinas, outras feminilmente esganiçadas, começaram a gritar n'uma surriada d'opereta, emquanto o dominó preto passava:

—Olha o Felix Telles de Estarreja!

O homem estremeceu dentro do seu dominó, debaixo da sua mascara.

E sujeitos de chapeu de côco, creanças de bisnaga em punho, pastorinhas vestidas de gaze côr de rosa, vivandeiras de cantil a tiracollo, caíam sobre elle com o peso d'uma troça implacavel.

—Olha o Felix Telles de Estarreja!

Elle voltava-se para surprehender o denunciante em flagrante delicto de bisbilhotice, não conhecia ninguem, suava, tressuava, perguntava a si proprio se teria enlouquecido, e então os esguichos, as gargalhadas, os gritos recrudesciam n'um crescendo atroador.

De repente, no salão, o visconde, de braços abertos, um riso epigrammatico nos labios, postado deante do dominó, saudava-o com a terrivel apostrophe, que se repercutia nos eccos da sala:

—Ó Felix Telles, que diabo de lembrança foi a sua!

E elle, o Felix Telles, desesperado, hydrophobo, apopletico, respondeu-lhe na sua voz natural, cheio de raiva, de colera:{168}

—Ora deixe-me, que não sou eu!

E saiu, saiu acompanhado até á porta do theatro por este grito terrivel, insistente, perseguidor:

—Tu és o Felix Telles de Estarreja!

E no conjuncto de todas essas vozes irritantemente causticas, atrozmente mordentes, elle distinguiu perfeitamente as vozes dos filhos do visconde que gritavam:

—Ó Felix Telles, venha cá!...

Entrando no Hotel Alliance, Felix Telles despiu de repellão o dominó, deixou-o ficar sobre o tapete do quarto, disse brutalmente ao criado que se fosse embora, que o deixasse em paz, que o chamasse a tempo de sair no comboio da manhã, e que se não esquecesse de mandar entregar depois o dominó ao Cruz, com mais dez tostões que elle deixaria sobre a banquinha.

Pela manhã, pagou rapidamente a sua conta, pousou sobre a banquinha os dez tostões para o Cruz, e saiu.

Quando á noite chegou a Estarreja, já um telegramma do visconde para o irmão o havia precedido.

—Então? perguntou-lhe o morgado o mais seriamente que poude.

—Então! respondeu Felix Telles. Aquillo é ainda uma aldeia peior do que Estarreja! toda a gente me conheceu logo que lá cheguei!{169}

—Não é possivel!

—Tão possivel como eu ter ouvido gritar de todos os lados, a todas as pessoas, que aquelle dominó preto era o Felix Telles de Estarreja!

—Conhecel-o-íam pelo andar?

—Eu sei lá, sr. morgado! Conheceram-me por tudo, não se ouvia senão o meu nome n'uma berrata que me ensurdecia!

Trez dias depois, o morgado chamava ao seu escriptorio o Felix Telles e perguntava-lhe:

—Onde foi que você despiu o dominó preto?

—No Hotel Alliance.

—E não viu no dominó preto alguma cousa branca?

—Só se fosse o forro... Mas não reparei.

—Pois eu lhe posso dar algumas explicações, que façam luz sobre o caso.

Felix Telles esbugalhava os olhos attento, curioso.

—Não viu um papel branco pregado nas costas do dominó preto?

—Não vi!

—Aqui o tem, pois—dizia o morgado desdobrando cautelosamente uma tira de papel enrugado, rasgado, que o visconde mandára pedir ao Hotel Alliance e lhe tinha remettido pelo correio.

E elevando-o á altura dos olhos de Felix Telles, mostrou-lh'o.{170}

Sou o Felix Telles de Estarreja! dizia o papel.

O pobre homem estava passado, assombrado.

—Mas então!... exclamou elle caindo em si.

E o morgado respondeu-lhe com uma gargalhada estrondosa, ao mesmo tempo que todas as pessoas da casa acudiam á porta do escriptorio a rir, a rir...{171}

XX

O chapeu

Perguntaram a uma tricana do norte para que servia o chapelinho, do tamanho de uma avellã, que coroava os seus fartos cabellos negros.

—Ora essa! exclamou ella ironica e desdenhosamente. Serve para pôr e tirar...

Realmente, é para isto que serve o chapeu, qualquer que seja o seu tamanho e o seu feitio, mas, principalmente pelo que respeita ao sexo masculino, que de responsabilidades andam ligadas ao simples facto de pôr e tirar o chapeu!...

Custa pouco isso, tiral-o ou pôl-o, coisa é que se faz n'um momento, e comtudo nada ha que possa ter mais serias consequencias do que pôr o chapeu quando se devia tirar, ou tiral-o quando se devia pôr.{172}

Não é so no theatro, durante os espectaculos, que pôr ou tirar o chapeu é um facto que pertence aos dominios do formulario social. Mas no theatro, visto que se está entre uma sociedade menos numerosa, dá isso mais nas vistas, e se um espectador conserva o chapeu na cabeça, depois do panno subir, todos os outros começam a gritar: Peu! peu! Se o tira, mas parece reconsiderar tornando a pol-o, como que tem isso o proposito de querer irritar os outros espectadores, e então sobe de ponto a gritaria dos que mandam desbarretar o insolente.

Ha já muitos annos, no theatro da rua dos Condes, appareceu n'um camarote de segunda ordem um grupo de patuscos que vinham das hortas, bem comidos e bem bebidos,—bem bebidos, sobretudo.

Não se lembraram ou não quizeram tirar o chapeu, e o publico indignou-se, começou, de cara no ar, a gritar, a berrar para que se descobrissem.

Assistia ao espectaculo, com alguns amigos, o Moita e Vasconcellos, então jovialissimo rapaz, mais tarde conselheiro e chefe de repartição no ministerio das obras publicas,—o pobre Moita que tão desgraçado morreu!

Pareceu-lhe boa occasião de tirar partido do conflicto, e foi bater á porta do camarote dos patuscos.

—Quem é? perguntaram de dentro.{173}

—A auctoridade, respondeu o Moita e Vasconcellos.

Abriu-se a porta do camarote, e o Moita, tomando o ar grave de um representante da lei, exclamou:

—Isto que se está passando é uma pouca vergonha! Pagaram ou não pagaram os senhores o seu camarote?

—Pagamos, sim, senhor.

—Pois se pagaram, podem estar como quizer, comtanto que não offendam a moral publica. Tanto monta ter o chapeu na cabeça como não ter. Isso não offende a lei nem a moral. O dever da auctoridade é proteger os direitos de cada um, disse e saiu com a mesma seriedade.

Os do camarote, fortes com o apoio da lei, pozeram os chapeus na cabeça e despiram os casacos.

Imagine-se a gritaria que n'esse momento irrompeu da platéa e dos outro camarotes! A inferneira cresceu a tal ponto, que a verdadeira auctoridade teve de intervir, e os patuscos tiveram de ceder, não podendo dizer ao certo se a embriaguez lhes haveria feito vêr a auctoridade em duplicado ou se neste paiz tudo andava tão fóra dos eixos, que havia duas auctoridades, uma para mandar pôr o chapeu, outra para o mandar tirar...

N'alguns espectaculos tem acontecido que o{174} publico se arroga o direito de mandar pôr ou tirar o chapeu, sem se importar com a intervenção das auctoridades, e sem que mesmo as auctoridades se atrevam a intervir.

N'uma tourada de Badajoz appareceu uma vez um sujeito de chapeu alto. O publico, logo que elle entrou, começou a gritar-lhe em côro:

—Que quite el sombrero!

O homem quiz resistir, mas acabou por ceder. Tirou o chapeu. N'isto começou o publico a gritar, sempre em côro:

—Que ponga el sombrero!

E o homem, ao cabo de alguns momentos de hesitação, teve que pôr o chapeu, para depois o tornar a tirar, para ter que o pôr outra vez e para ter que tiral-o de novo...

Na rua ha maior liberdade de acção, o facto de pôr ou tirar o chapeu escapa ao dominio do publico; mas por isso mesmo que ha maior liberdade de acção, ha maior responsabilidade no facto em relação á pessoa a quem é dirigido.

Basta deixar de tirar o chapeu para cortar pela raiz, de um momento para outro, uma longa amisade de muitos annos. E assim, porque o chapeu ficou na cabeça, ficaram separadas moralmente duas pessoas.

Tirar o chapeu fóra de proposito, tiral-o de mais ou tiral-o de menos, póde ter consequencias analogas, como se tome esse acto por troça,{175} por baixesa de caracter ou por desconsideração.

Tiral-o á mesma pessoa umas vezes, e não o tirar outras vezes, é caso para a pessoa, que umas vezes é cumprimentada e outras não, pensar no que deve fazer.

Eu adoptei para este caso uma linha de procedimento. Se uma pessoa me cumprimenta uns dias por outros, hoje sim, ámanhã não, se me cumprimenta aqui e não me cumprimenta acolá, porque está acompanhada de melhor ou de peior sociedade, essa pessoa passa a fazer-me o effeito de um realejo, que me diverte proporcionando-me occasião de trautear esta popularissima trova:

Quando eu quiz, não quizeste,
Tiveste opinião;
Agora queres, não quero,
Tenho minha presumpção.

O chapeu impõe deveres de normal cortezia, a que é preciso attender sem exagero para mais ou para menos.

Nada ha tão aborrecido como o excesso de cortezia em que um chapeu póde incorrer estando fóra da cabeça quando devia conservar-se no seu logar. Um estadista portuguez, a quem um seu antigo protegido acompanhava de chapeu na mão por toda a parte, chegou a dizer n'um momento de desespero:—«Muito me incommoda a gratidão!»{176}

Da gente de Lisboa escreveu o quinhentista Prestes:

... e de Lisboa se sêa
Que todos lá são honrados,
Que de pessoa a pessoa
Se fallam desbarretados.

Mas Francisco Manuel de Mello poz á cortezia dos lisboetas seus justos limites quando disse:

Um fallar com tanto geito,
Um ditinho de repente.
    Que affeiçôa:
Um ter em tudo respeito,
Ai! mate-me Deus com a gente
    De Lisboa.

Ter em tudo respeito,—eis a questão. É como se dissesse: ter conta em tudo. Respeito por os outros e por nós mesmos, até no cumprimentar!

Ha pessoas que caem no defeito contrario áquelle, e que em vez e gastar a aba do chapeu, apenas gastam o dedo com que lhe tocam. É pouco. Se um só dedo podesse bastar a alguem para uso proprio ou alheio, a sábia natureza não nos haveria dado cinco dedos em cada mão.

Quando a gente, não sendo militar, se vê cumprimentada d'esse modo, dá-lhe vontade de responder ao dedo com o braço todo,—para se mostrar generosa!{177}

O presidente de não sei que estado americano, passeiava um dia na praça publica, vestido á paisana, com o seu ajudante de campo ao lado.

Passou por elle um escravo, e cumprimentou-o. O presidente tirou-lhe o chapeu, e seguiu seu caminho. Mas quiz parecer-lhe que o ajudante achou que elle cumprimentára de mais para um escravo. Voltou-se e disse:

—Não quero que possa haver n'este paiz alguem mais bem educado do que eu!

Isto percebe-se, e é logico. Fazer apenas meia dose de cumprimento, não é cumprimentar, é vexar, porque se lembra á pessoa cumprimentada a sua inferioridade.

Ainda ha uma cousa peior talvez do que dispensar sómente meia dóse de cumprimento:—é exigir que lhe dispensem dóse dobrada.

Certo fidalgo costumava deixar ficar de chapeu na mão as pessoas que lhe fallavam. Um dia, na rua larga de S. Roque, passou um sujeito a quem repugnou vêr outro desbarretado deante do fidalgo, que o não mandava cobrir. Chegou ao pé dos dois, tocou no hombro do que estava descoberto, e disse-lhe:

—Póde pôr o chapeu na cabeça, que este senhor dá licença.

Se algum dos dois devia agradecer não era o desbarretado, mas o fidalgo, porque estava fazendo peior figura...{178}

Ter em tudo respeito, ter conta em tudo, eis o caso.

Chega a gente a sentir-se enjoada de vêr um sujeito que cumprimenta a torto e a direito para dentro de todos os trens que passam—ha n'isto verdadeiros especialistas—e que se agarra a um cabello para ter o pretexto de se tornar snob dos machuchos.

Mas não enjôa por certo menos vêr outros sujeitos que põem todo o seu orgulho na aba do chapeu, imaginando que a aba do seu chapeu é a continuação do firmamento.

Acima d'elles, só Deus, e ás vezes nem Deus... que não conhecem!

De tudo quanto completa a toilette do homem é com certeza o chapeu o que lhe impõe maiores responsabilidades, o que o approxima ou affasta mais dos outros homens, o que o póde definir melhor na sua individualidade moral, o que o póde tornar mais estimavel e o que tambem o póde comprometter mais.

E tudo isto por que?

Porque o chapeu, como disse a tricana do norte, serve para pôr e para tirar.

E em saber pôl-o a tempo e tiral-o a proposito é que está o buzilis.

Pouco importa que o chapeu seja pequeno e a cabeça grande, que o chapeu seja grande e a cabeça pequena. Não está n'isso a harmonia entre o homem e o chapeu, mas sim no{179} uso conveniente ou inconveniente que d'elle se faz.

Quando a gente, ao sair de casa, põe o chapeu na cabeça, é como se pozesse ao sol o forro de si mesmo,—as suas ideias, os seus sentimentos, a sua educação, o seu caracter.

Ha chapeus que vão dizendo de cima da cabeça: «Cá vae este tolo, que não conhece os conhecidos».

Ha outros chapeus que, aborrecidos da roda-viva em que andam, parecem gritar a cada momento: «Cá vae este tolo, que até conhece os desconhecidos!»

Ainda ha outros chapeus que parecem muito contentes do acerto com que são tratados pelo dono, e em cuja copa a gente cuida lêr esta divisa: «Nem de mais, nem de menos».

Já repararam em que o chapeu, qualquer que seja o seu tamanho e feitio, parece variar de peso em certas occasiões e, especialmente, de pessoa para pessoa?

O mesmo chapeu, se a gente está de animo opprimido, parece pesar mais que de costume.

Um pretendente, fallando uma vez com Antonio Rodrigues Sampaio, começou por dizer-lhe, visto que n'esse momento lhe parecia ser de chumbo a aba do chapeu:

—Muito custa, sr. conselheiro, andar a gente por aqui de chapeu na mão!

E Sampaio, que tinha soffrido e trabalhado{180} como poucos, respondeu de prompto obrigando-o a cobrir-se:

—Pois ponha-o na cabeça, e diga o que quer.

Dois sujeitos compram chapeu da mesma fórma e no mesmo chapeleiro.

A um d'elles o chapeu como que brinca sobre a cabeça, inclinando-se requebrado n'um bolero permanente. É que a cabeça anda alegre e communica ao chapeu, que se sente leve, a vontade de foliar.

A outro o chapeu vae-lhe descendo insensivelmente até ás orelhas, dando mostras de querer enterrar-se por desgostoso. É que a cabeça pegou-lhe as scismas em que anda martellando no silencio do espirito.

Tão certo é, meus senhores, que o chapeu revela o homem:—o chapeu é o estylo de toda a gente, incluindo a que não tem estylo.{181}