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Manhãs de Cascaes

Chapter 48: XXV
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About This Book

A collection of witty, observational sketches set at a seaside resort that mix playful anecdotes with satirical commentary on summer life. The narrator chronicles morning scenes, petty rivalries, and the small torments of mosquitoes, turning bungled defenses, bathing costumes, and persistent gossip into comic episodes. Each short essay shifts between humorous storytelling and ironic reflection, using everyday annoyances and public affectations to lampoon vanity, social pretensions, and etiquette, while exposing the gap between polished appearances and the messy realities of vacation society.

XXI

Os antipodas

Ha pessoas tão infelizes, que julgam que a sua propria infelicidade não terá fim.

Ha melancolicos para quem a esperança não accende um unico raio de sol, tão entranhadamente elles se entregam á melancolia.

Ha pobretões que desanimam de ser remediados algum dia, tão pouca fé lhes vivifica o coração.

É para todos estes que eu escrevo hoje, mandando-lhes n'uma anecdota um ensinamento moral, que póde, por um momento ao menos, arrancal-os aos seus pensamentos sombrios, tiral-os, por um instante que seja, do inferno da sua desesperança e entremostrar-lhes o ceu...

O padre-mestre Fanhões tambem se arrepellava, teimosamente incredulo, quando o seu collega Liborio pretendia demonstrar-lhe que{182} na esphera terrestre havia habitantes que, em relação aos de meridianos e parallelos oppostos, se chamavam antipodas, porque se achavam collocados de modo que os pés de uns estavam voltados contra os pés de outros.

Padre-mestre Fanhões não o podia crêr e desgostava-se d'isso, visto que toda a gente acreditava na existencia dos antipodas, menos elle.

—Não me fio! dizia de si para comsigo. Como é possivel que, estando nós n'um hemispherio de cabeça para cima, possa haver gente que se equilibre de cabeça para baixo no outro hemispherio?!

Por mais que matutasse no caso, acabava sempre por dar razão a si proprio, e negal-a ao collega Liborio.

—Ora imaginem, insistia elle, uma laranja, porque a terra tem approximadamente, segundo se diz, a fórma de uma laranja. Ponho a laranja sobre um prato e colloco-lhe facilmente na casca da metade superior um ou dois grãos de milho; mas se quizer collocal-os na metade inferior, claro está que não terei meio de segural-os. Cairão por força! Pois com os habitantes da terra ha de dar-se a mesma cousa. Que nos aguentemos de cabeça para cima, percebe-se; mas que haja outros que se aguentem de cabeça para baixo, não me entra no miolo. O Liborio é um asno, que acredita em todos os carapetões!{183}

E o padre-mestre, ensinando o seu latim aos rapazes, interrompia-se muitas vezes para dizer-lhes a proposito de cousa nenhuma:

—Nos antipodas é que eu não acredito! Não póde ser!

Os rapazes davam-lhe razão, não só porque n'essas occasiões o padre-mestre os apoquentava menos no latim, mas tambem porque elles proprios não tinham grande convicção na tal historia dos antipodas, gente que devia viver pendurada pelos pés, em permanente gymnastica.

Tirante a caturreira dos antipodas, padre-mestre era uma excellente pessoa, um sacerdote exemplar, muito respeitador das leis da egreja e dos preceitos da Bulla da Santa Cruzada.

Ás sextas-feiras comia-se sempre de magro em sua casa: os rapazes já contavam com o bello bacalhau n'aquelle dia.

Elle proprio, o bom padre-mestre, o ia escolher á tenda nas quintas-feiras de tarde. Trazia-o para casa, escondido debaixo do capote. Dava-o a vêr á criada.

—Que era de primeira ordem, approvava ella, o melhor que podia ser!

—Pois sim, Gertrudes, vae atar-lhe uma corda e pôl-o a dessalgar no poço.

Dito e feito. A Gertrudes pendurava o bacalhau, e mergulhava-o no poço até ao meio dia seguinte.{184}

Succedia algumas vezes que o padre-mestre Fanhões se encontrava n'esses dias, na botica, com o seu collega Liborio e, como sempre, discutiam o eterno thema, a eterna teima dos antipodas.

—Que não! que não podiam existir! exclamava decisivamente o padre-mestre.

Não havia argumento convincente que o Liborio não empregasse; mas o padre-mestre, muito casmurro e auctoritario, cortava a questão dizendo:

—Ha duas cousas que eu sei perfeitamente: a primeira é que tenho ámanhã bacalhau para o jantar; a segunda é que essa tal historia dos antipodas não tem pés nem cabeça.

Ora succedia que na sexta-feira pela manhã, quando a Gertrudes ia tirar o bacalhau do poço, o encontrava sempre reduzido a menos de metade; estava ratado, comido.

O que seria, o que não seria?!

—É gato que desce pela corda, alvitrava o padre.

—Isto não é dente de gato! ponderava acertadamente a Gertrudes.

E, realmente, fizeram a seguinte descoberta: que não podia ser gato de casa, porque o não tinham, e não podia ser gato de fóra, porque os muros do quintal eram muito altos, e estavam eriçados de cacos de garrafa.

—Será elle rato de agua, ó Gertrudes?!{185}

—Nada, sr. padre-mestre, isto menos póde ser dente de rato.

—Olha, dente de coelho é que é com toda a certeza, porque por mais que a gente puxe pelo miôlo não sabemos o que seja!

A Gertrudes achava mais uma vez graça a este dito do padre-mestre, sempre repetido, e na sexta-feira seguinte, quando ia tirar o bacalhau do poço, encontrava-o roido em metade.

Os alumnos do padre-mestre tinham inventado esta patuscada do bacalhau e, graças a ella, passavam em cautelosa folia as noites das quintas-feiras.

Eram elles, os diabretes! que, depois de estarem certos de que o padre-mestre dormia, e de que a Gertrudes ressonava, desciam pé-ante-pé ao quintal, e, içando o bacalhau, cortavam e comiam grandes lascas.

Se lhes dessem uma ceia de foie-gras talvez não gostassem tanto. O bacalhau roubado tinha para elles o sabor do fructo prohibido, a que servia de aperitivo a chalaça de o irem buscar ao poço com o sobresalto de ratoneiros que temem ser presentidos.

Padre-mestre dava em doido, o caso já o ia intrigando tanto como a historia dos antipodas.

Um dia chamou de parte o mais intelligente dos seus discipulos de latim, e contou-lhe o que estava acontecendo com o bacalhau.{186}

—O que será? perguntou candidamente o padre-mestre.

—Ao certo não sei, respondeu o estudante. Mas talvez...

—Talvez?

—Pode muito bem ser que o comam os antipodas.

—Lá vens tu com a fabula dos antipodas! Não creias n'isso, rapaz!

—Ó sr. padre-mestre, pois se todos os sabios dizem que sim, por que rasão havemos nós de pôr em duvida o que elles affirmam! De mais a mais vossa senhoria tem meio de averiguar a verdade. Sexta-feira pela manhã debruce-se no poço, ponha-se á espreita, que talvez os apanhe com a boca na botija.

—No bacalhau é que tu queres dizer...

—Sim, senhor, no bacalhau.

—Pois olha que hei de tomar o teu conselho. Na sexta-feira eu proprio irei tirar o bacalhau do poço para desenganar-me.

Póde calcular-se o que os estudantes ririam uns com os outros á espera da sexta-feira, que n'aquella semana parecia não chegar nunca, tão anciosamente elles a esperavam.

Mas, arrastadamente, a sexta-feira chegou, e o padre-mestre foi em pessoa buscar o bacalhau.

Ao debruçar-se no poço, deu um grande grito.{187}

A Gertrudes correu á janella:

—O que é, sr. padre-mestre? perguntou

—Eu vi um homem no fundo do poço, respondeu elle assaralhopado. E assim que me endireitei para gritar, fugiu.

—Atire-lhe uma pedra, sr. padre-mestre, aconselhou um dos estudantes, que tambem tinham acudido.

O padre-mestre pegou n'um calhau e atirou-o para o fundo do poço. A agua turvou-se, de modo que, por mais que elle se debruçasse espreitando, não tornou a vêr homem nenhum,—isto é, não podia vêr-se a si proprio.

—E o bacalhau está inteiro? perguntou outro rapaz

—Vamos vêr isso.

O padre-mestre deu-se pressa em içar a corda.

Faltava metade ao bacalhau.

—Ora agora, sr. padre-mestre, disse-lhe o estudante que primeiro o havia aconselhado, já vossa senhoria não póde duvidar da existencia dos antipodas, porque os viu.

—E é verdade que vi um!

—Mas o que fez elle quando vossa senhoria appareceu á beira do poço?

—Ora o que faz um gatuno quando alguem o apanha com a boca na botija?

—No bacalhau, sr. padre-mestre, emendou o estudante.{188}

—No bacalhau ou na botija. Fugiu! Pois o que havia elle de fazer, o patife?!

—Vossa senhoria reparou se elle trazia casaco?

—Trazia, sim, lá isso ainda eu pude vêr.

—Está provado então que os antipodas vestem como nós. E vossa senhoria que não queria acreditar n'elles!

—É verdade! Ninguem póde dizer: d'esta agua não beberei. Vou confessar o meu erro ao collega Liborio.

E foi. O collega Liborio estava na aula a ensinar geographia aos rapazes.

O padre-mestre chamou por elle em altos berros. O Liborio veiu á porta vêr que afflicção era aquella. Era o padre-mestre, que lhe gritou:

—Não ha duvida, não senhor; Você tem razão n'aquillo dos antipodas!

—Porque, ó padre-mestre?

—Porque eu vi um.

—Viu um!

—Vi-o com estes que a terra hade comer.

—E onde é que o viu?

—No fundo do meu poço!

Assim é em tudo o mais.

Por muito escura que seja a vida, e basta que seja tão negra como o fundo de um poço, por mais teimosa na sua descrença que seja uma alma, e basta que o seja tanto como a do padre-mestre{189} Fanhões, chega sempre um dia em que se vê ou se cuida vêr aquillo que jámais se reputava visivel: realidade ou illusão.

Melhor é que seja a realidade, ao contrario do que aconteceu com o padre-mestre. Mas se fôr illusão, isso basta ás vezes, n'um mundo em que a maior parte das cousas são illusorias, para sentir a alma menos propensa á duvida e ao desalento.

O padre-mestre julgou vêr um antipoda, e morreu na fé de que elles existiam,—por isso. O collega Liborio, em vez de vêr os antipodas no fundo do poço, via-os nos compendios de geographia e nos globos. Nem por se ter convencido mais depressa logrou ter maior convicção de que o padre-mestre desde aquelle dia. E ambos chegaram ao mesmo fim por caminhos diversos. Mas, com quanto um se atrazasse na jornada, ambos chegaram, e o essencial na vida é chegar... alguma vez!{190}

XXII

As uvas

Outubro: todos os lavradores tratam de apurar o resultado das vindimas.

Quantas pipas de vinho tiveram? A como as venderão? Eis as questões que principalmente os preoccupam.

São, pois, as uvas que estão ainda em scena no grande palco da vida rural, tablado sombrio e melancolico desde que o phyloxera começou a roer os bastidores feitos de pampanos e latadas, outr'ora verdejantes e opulentos de seiva.

As uvas, disse-o algures Julio Cesar Machado, são o vinho em pilulas. Deliciosas e saborosas pilulas, que não precisam ser doiradas com assucar como as da botica!...

Um dia, certo medico, que punha muito gosto em falar com distincção, aconselhou um dos seus doentes a tomar umas pilulas amargas{191} que, para não repugnarem, precisavam ser envolvidas n'uma substancia doce.

—Tome-as n'um vehiculo qualquer, recommendou o medico.

Ora em pharmacia a palavra vehiculo é synonimo de excipiente, isto é, a substancia em que se encorporam ou dissolvem os medicamentos, para lhes mascarar o sabor, para diminuir o seu principio activo ou ainda para lhes dar uma fórma conveniente.

No dia seguinte vem o medico, e não encontra o doente em casa. Mostra-se profundamente surprehendido e contrariado.

—Onde está elle?!

—Saiu.

—Saiu?! Que imprudencia, santo Deus!

—Mas foi V. ex.ª que mandou...

—Eu?!

N'isto ouve-se parar á porta uma carruagem. Era o doente, pallido e tremulo, que regressava a casa.

—O que fez o senhor?! perguntou o medico.

—Saí de carruagem.

—Mas que loucura foi essa?!

—Pois V. ex.ª não me disse que tomasse as pilulas n'um vehiculo qualquer! Tomei-as de carruagem...

Com as pilulas de vinho, tão doces são! não pódem dar-se d'estes equivocos, pois que não{192} precisam vehiculo—assucar ou carruagem—para engulir-se com agrado.

Perde-se na noite do cahos a origem da vinha e do seu fructo saboroso.

Segundo a Biblia, Noé foi o inventor da arte de fazer vinho e, por tal signal, que aprendeu á sua custa, empiteirando-se sem o querer. Segundo a mythologia, foi Baccho o primeiro viticultor, e o que é certo é que nós ainda hoje, quando carregamos nos tropos, dizemos muitas vezes—o deus Baccho—em vez de vinho.

Mas quem sabe lá qual foi ao certo o primeiro homem que cultivou a vinha e bebeu o sumo das uvas! De mais a mais a vinha não foi arvore que Deus prohibisse, como a do bem e do mal. Não, senhores, a cultura da vinha foi livre desde o principio do mundo, e então, que me conste, não se vendia o vinho por decilitros. O systema metrico decimal é, acho eu, muito posterior á origem do mundo... Cada um podia beber o que quizesse. Que delicia, o principio do mundo!

Pois não serei eu que me proponha estudar a origem do vinho, para não incorrer no ridiculo d'aquelle sabio que, tratando de descobrir o inventor do jogo do voltarete, ficou capacitado de que tinha sido... Voltaire.

Ha poucos dias li n'uma obra interessantissima, a viagem de Pyrard ás Indias Orientaes, que o duque de Alba, tendo tomado a cidade{193} de Haerlem, na Hollanda, mandou fazer n'ella execuções tão crueis, que ha quem derive d'ahi o proverbio fazer arlem, de onde veiu, por corrupção, fazer arlia ou arrelia.

Pois nem Francisco Pyrard, nem Cunha Rivara, que commungou esta opinião, eram dois insignificantes.

Pareceu-me forçada a derivação e contando-a a um homem de espirito, disse-me elle:

—Eu estou convencido do contrario. Sabe vossê que Jacob só muito contrariado casou com Lia. Por isso, é natural que a não tratasse bem. Obrigava-a a trabalhar, sem que ella podesse e, como n'esse tempo todos os homens eram grosseiros, dizia-lhe a cada momento: Arre, Lia. D'aqui é que veiu certamente a locução...

Tem graça, e caracterisa a facilidade com que os sabios inventam origens.

Sempre me ha de lembrar o caso d'aquelles dois distinctos archeologos que, n'uma serra de Portugal, encontraram certa pedra tosca com estas duas lettras gravadas: C. M.

Discutiram, investigaram, até que um cantoneiro lhes disse:

—Essa pedra foi mandada ahi pôr ha muitos annos pela senhora camara municipal.

Ficaram de cara á banda, os sabios.

A mim, a respeito da vinha, não me ha de acontecer outro tanto. Tiro o meu chapeu á{194} antiguidade da cepa, e passo adeante. Mas como as uvas, e bebo o vinho. No estado de civilisação em que nos encontramos hoje, é o melhor que temos a fazer.

Sem embargo, tambem gosto de olhar para ellas, principalmente se são brancas, graciosamente tocadas pela luz em cada bago, o que faz o desespero dos pintores.

Só um soube até hoje igualar-se ao Creador na reprodacção das uvas. Foi Zeuxis, diz a lenda. Os passaros, enganados por uma tão perfeita similhança, vieram bicar os cachos. Parrhasius, rival de Zeuxis, quiz pintar uma tela ainda melhor. No seu quadro havia um cortinado que enganou o proprio Zeuxis.

—Levanta o cortinado, disse elle a Parrhasius, para que eu possa observar a tela.

Quando reconheceu que era pintado, Zeuxis confessou-se vencido: «Eu enganei os passaros, mas Parrhasius enganou-me a mim!»

A vinha póde ser mais ou menos elegante, alta e pendente como no norte do paiz, de enforcado lhe chamam; ou pequena e redonda como nas provincias do sul: mas as uvas são sempre bellas na lucidez e variedade dos tons.

É notavel que Camões, tendo vivido na Estremadura, se é que n'esta mesma provincia não nasceu, descrevesse na ilha dos Amores, não a vinha do sul, mas a de enforcado, a alta e pendurada, que vegeta no norte:{195}

Entre os braços do ulmeiro está a jucunda
Vide, c'uns cachos roxos, e outros verdes.

Frei Luiz de Sousa, na descripção da cêrca de Bemfica, serviu-se de uma feliz comparação com as pedras preciosas para caracterisar as nuances da coloração dos cachos. Faziam, diz elle, «collares de pedraria as uvas, segundo os tempos, e as côres d'ellas: já topasios, já rubis, primeiro esmeraldas.»

Na linguagem pittoresca do apologo, as uvas estão verdes quando a rapoza lhes não póde chegar. É uma das mais sentenciosas fabulas, essa, da rapoza e das uvas. Desdenha-se sempre d'aquillo que se não póde alcançar.

—Ser ministro! diz um pretendente á pasta. Que massada!

E do lado algum malicioso observa a meia voz:

—Estão verdes, não prestam...

Por este anno, vamos a despedir-nos das uvas, que só por ahi resta algum cacho guardado como um mimo.

Perdem-se no ar, por esse paiz fóra, as ultimas canções das vindimas. No Douro, a região do vinho, a vindima é ainda uma festa, apesar da phylloxera. Canta-se todo o dia, vindimando. E ha razão para isso, porque a vindima representa o advento do vinho novo. No sul do paiz, a vindima corre triste e silenciosa, parecendo um funeral, o enterro das uvas.{196}

Mas, para o effeito de ser bom, pouco importa que o vinho nasça entre canções ou sem ellas. O que se quer é que alegre e aqueça... no inverno;—porque, no estio, alegra e refresca, dizem os borrachos.{197}

XXIII

Pessoas conhecidas de vossas excellencias

Temos visto cair de anno para anno, um a um, os mais antigos habitués de S. Carlos.

Por que não começaremos pelas testas coroadas? O seu dilettantismo é tão humano como o dos outros habitués. Primeiro el-rei D. Fernando, um espectador certo, mesmo já quando a voracidade lethifera de um cancro lhe ia roendo a face. D. Fernando punha o seu parche de seda preta, e ia para S. Carlos, para S. Carlos onde elle havia brilhado outr'ora em plena mocidade feliz. Depois D. Augusto, que parecia amar a temperatura elevada de S. Carlos, apesar de ser um cardiaco. Em seguida, el-rei D. Luiz, que tinha pela musica a paixão nativa de todos os Braganças. Já doente, pallida e flaccida a face, n'um esphacelamento lento que o rosto denunciava, ia uma vez por outra{198} a S. Carlos como para se despedir da musica, que sempre adorára.

Cá em baixo, nas cadeiras, desapparecêra primeiro o dr. Alvarenga, que passára a vida a tratar o coração dos outros, embora, para o atormentar, lhe bastasse o seu, de que soffria muito.

Lembram-se do dr. Alvarenga? Sempre de casaca, gravata preta, oculos escuros, e um crescente mais dilettante do que cathedratico. Lembram decerto.

Depois o José Carlos Poeta, grande peitilho lustroso, casaca de amplas lapellas, calva ostentosa e lusidia.

Tinha conhecido a avó de cada cantora que ia apparecendo, e decerto gosava, ouvindo a neta, mais do que nós, porque vivia da saudade deleitosa que as suas recordações lhe avivavam.

Foi-se um dia, de repente, alli ao fundo da rua do Alecrim.

Julio Cesar Machado, muito correcto dentro da sua casaca, sempre de gravata preta—querendo assim mostrar que já se não tinha na conta de moço, comquanto se tivesse ainda na conta de dilettante—foi, como uma estrella cadente que parece procurar outra no ceu, ver se encontrava pelo azul fóra a alma do filho, que era a estrella querida do seu coração affectuoso.

Agora, ultimamente, o duque de Albuquerque, uma só pessoa, que fornecêra a S. Carlos{199} dois habitués: o conde de Mesquitella e o duque de Albuquerque.

O seu chinó, sempre tão fallado nas chronicas de S. Carlos, era como que a pagina mais eloquente do seu gosto pelo mundo: queria fingir de mais moço cada vez que S. Carlos abria, não obstante ser mais velho um anno.

E, depois de certa idade, nada ha que envelheça tanto como cada anno que vae passando...

Julio Machado raras vezes subia a um camarote para visitar alguem; e tambem raras vezes assistia, nos ultimos annos, a um espectaculo todo.

Parecia um pouco cansado do mundo: entrára no periodo em que a gente vive principalmente de recordações.

O duque de Albuquerque, pelo contrario, entrava em todos os camarotes, visitava todas as damas, e apenas saía de S. Carlos... quando os outros saíam.

Tinha razão, porque elle ia lá não só para ouvir as operas, como tambem, para ver os outros.

*
*     *

José Carlos de Freitas Jacome alternára uma grande parte da sua vida em occupações que profundamente contrastavam uma com outra:{200} a prosa dos tribunaes e a poesia da opera. De per meio, e de passagem, plantára o seu loureirosinho no jardim das Musas, era escrivão do civel na Boa Hora, dilettante em S. Carlos, e poeta por desfastio nas horas em que da prosa dos autos ascendia á região da harmonia. Fôra bastante escriptor para não ser unicamente escrivão, e, fóra da Boa Hora, esquecia-se de ser escrivão, para ter as predilecções e as honras de escriptor.

Bom homem a valer, amavel, sabendo vestir uma casaca, tendo o segredo de fazer espelhar, com uma limpidez de cristal, o peitilho da sua camisa. Nunca perdeu, apesar de velho e doente, os seus ares de homem elegante, os seus habitos mundanos. Gostava do mundo, e tinha bom gosto, porque mal se chega a comprehender a mania, que teem alguns, de se sepultarem em vida na solidão da misantropia.

Duas coisas lhe não esqueceram nunca: as suas luvas, e uma flôr.

Nas bellas noites de S. Carlos, Freitas Jacome enflorava sempre a lapella da casaca.

E no theatro, na egreja, na rua, na Havanesa, jámais lhe esqueceram as luvas, que ás vezes não calçava, mas que não abandonava nunca.

Dava gosto vel-o na sua cadeira de S. Carlos, grave, attento, tendo o ar de um diplomata pomposo. Tendo visto nascer o romantismo em{201} Portugal, fôra romantico de convicção e, como tal, adorava a musica italiana, saboreava-a, a goles de audição, como se fosse um licor esquisito, divino.

Verdi servia-lhe á phantasia uma especie de champagne capitoso, que o embriagava docemente.

Bellini e Rossini, dois copeiros da cava celeste, enchiam-lhe a taça do prazer de um tokay generoso, unico.

E, de resto, tinha rasão, porque ainda não houve quem lhes podesse apagar os nomes na grande téla da immortalidade. Meyerbeer, uma aurora boreal, Mozart, uma estrella, Wagner, uma nublosa, passam hoje por todos os palcos do mundo, mas, sem embargo, as partituras italianas hão de illuminar-se sempre d'esse doce luar de sentimentalismo, que faz a delicia do coração.

N'essa atmosphera fôra educado Freitas Jacome. Nos combates romanticos, da musica e da poesia, fizera as suas primeiras armas. Seguia o exemplo de Garrett no vestir e no pensar, amava o romantismo em si e nos outros. Não podia nivelar-se com esse grande homem na riqueza do intellecto, mas, no que podia ser assimilavel, imitou-o. Não podia medir-se litterariamente com Castilho, mas versejou a exemplo d'elle em honra das divas do Olympo lyrico, porque Castilho, com ser cego, glorificou{202} na lyra o feminino da opera, a Agostini, a Bernardi, a Gazzaniga. Admirador de Herculano, uma das tres entidades gloriosas da trimurti romantica, não o imitou nos processos de vida rustica e meditativa: para solitario não tinha geito Freitas Jacome.

Faz-me pena vêr morrer um homem que soube aproveitar o mundo como elle é e que, já combalido pela doença e desalentado pela velhice, poz o seu chapeu, pegou nas suas luvas, e foi para a rua esperar a morte, que não ousou atacal-o de cara, como a todos os tristes e a todos os fracos.

Freitas Jacome morreu em plena rua, como Molière morreu em plena scena, n'um esforço de coragem.

Lisboa, esta Lisboa que elle tanto amava, viu-o passar no seu ultimo passeio de vivo minutos antes de cahir morto. Mesmo doente, a vida exterior attraira-o. Em vez de pedir uma tisana ao medico, planeou o seu jantar d'aquelle dia, saiu, recebeu o ultimo golpe de luz que cahia do ceu de Lisboa, e morreu ouvindo o ruido da grande cidade, que fremia em torno d'elle.

E todavia Freitas Jacome era provinciano!

Muitas vezes lhe ouvi dizer que nascera em Thomar, cujas bellezas naturaes recordava, mas para um homem que gostava do mundo, e que tanto se interessava por elle, o mar de lona de{203} S. Carlos era mil vezes preferivel á corrente authentica do rio Nabão.

*
*     *

Fallava-se muito dos irmãos Andrades, que já tinham cantado no Porto com a Sembrich, mas, cantar em Lisboa tendo nascido em Lisboa, caso era para uma certa curiosidade, direi mesmo para um certo receio.

Todos nós nos lembravamos de ter visto esses dois rapazes pôr pela primeira vez chapeu alto.

Foi outro dia, ainda.

E quando se principiou dizendo que elles cantavam bem, havia sempre uma voz judiciosa que ponderasse:

—Ora adeus! Se elles ainda outro dia pozeram chapeu alto!

Christo dissera uma vez uma palavra profunda e sabia, como todas as suas palavras: que ninguem chega a ser propheta na terra em que nasceu.

Por que será isto assim?

É porque, talvez, o que em grande parte contribue para fazer a gloria dos homens é não tanto o seu merecimento como a sua lenda.

Desde o momento que a gente apenas conheça, nua e crua, em toda a sua exactidão, a{204} biographia de qualquer homem, vê-o unicamente pelo que elle possa ter de vulgar, de vulgarissimo, e julga que tudo o que constitua a individualidade d'esse homem ha de ser vulgar, vulgarissimo, tambem.

Mas, quando se dá exactamente o contrario d'isto, quando primeiro se conheceu a lenda do que a biographia, então principiamos a vêr o semi-deus no homem, divinisamol-o ao capricho da nossa imaginação e da dos outros, porque a lenda não é outra coisa senão o que a imaginação de muitos sonha a respeito de um só...

Se nos disserem que, no dia em que Adelina Patti nasceu, um rouxinol foi cantar sobre o seu berço, como para prophetisar-lhe que ella seria a rainha do canto, acreditamos facilmente.

Ainda mesmo que a Patti tenha nascido no inverno, ainda mesmo! acreditamos que o rouxinol cantasse.

Por que? Porque da Patti o que primeiro conhecemos foi a lenda, e, como já estamos habituados á lenda, nem mesmo chega a fazer-nos mossa ouvir cantar um rouxinol no inverno.

Mas dos Andrades o que primeiro conhecemos não foi a lenda, foi a biographia. Tanto peior para elles.

Viessem dizer-nos que quando os dois irmãos nasceram, seu pae, o tabellião José Justino, viu{205} e ouviu um rouxinol começar a cantar sobre o berço de um e outro, como se o rouxinol viesse milagrosamente a vaticinar que o Antonio havia de ser tenor, e que o Francisco havia de ser barytono! Pois sim! Conta-lhe d'essas!—diriamos nós—rouxinoes! quaes rouxinoes nem qual historia! o que elle ouviria talvez seriam os pintasilgos da casa de jantar... Sempre o José Justino tem coisas!

Depois, todos haviamos conhecido os dois Andrades ainda pequenos, todos os tinhamos visto assistir aos espectaculos do Gymnasio no seu camarote de familia.

Por tal signal que riam a bandeiras despregadas com as pilherias do Taborda. E todos haviamos verificado que elles riam como as outras pessoas,—um pouco estavanadamente como todos os rapazes da sua edade.

Onde estava n'isto a lenda?

Voz podiam elles ter; lenda é que não tinham.

Pois foi n'estas circumstancias, realmente difficeis, que os dois Andrades appareceram no palco do theatro de S. Carlos.

Receiava-se...

Suspeitava-se...

Tremia-se!...

Que falta faz uma lenda!

Mas os dois artistas antepozeram o gosto de cantar na sua terra natal a todas as considerações{206} pelas reticencias e pelas reservas dos seus conterraneos.

E, uma vez resolvidos a cantar,—cantaram.

E, depois que cantaram, ficou-se sabendo que elles sabiam cantar.{207}

XXIV

Comer a dois carrilhos

Numa villa do Alemtejo, cujo nome não vem para o caso, havia um tendeiro rico e avarento, que nem de verão nem de inverno se lembrava de atirar uma migalha aos mendigos que lhe batiam á porta.

Um engeitado, um pária, um rapazote do sitio, tão pobre como ladino, matutou na injustiça da Providencia que dava ao tendeiro um bello capote de camellão para se resguardar do frio, ao passo que só lhe dava a elle o frio sem o capote. Matutou n'isto, e propoz-se regularisar a ordem das coisas.

—Uma esmolinha, tio Ambrosio, pelo amor de Deus... Está tanto frio! dizia elle, tiritante, roçando-se pela hombreira da porta do tendeiro.{208}

—Sai-te d'aqui, maroto, que não quero espantalhos á porta, resmoneava de dentro o tendeiro. Vae trabalhar.

—Não posso, que sou doente... E tenho tanto frio, tanto!

—Que te leve o diabo e mais o frio.

No dia seguinte, o rapazito voltava. E, á força de teimar, o engeitado ia conseguindo poder demorar-se mais tempo á porta do tendeiro sem que o enxotasse já com tanta dureza.

De uma vez o Ambrosio precisou um recado.

—Olha lá, disse elle ao mendigo, já que não tens que fazer, vae-me ali chamar o José da Azenha.

E o rapazito foi submissamente atravez o frio aspero da serra, ao passo que o tendeiro, bem embrulhado no seu capote de camellão, ficou sentado ao balcão da loja, olhando vagamente para os seus dominios.

Ao outro dia o rapaz voltou.

Tio Ambrosio, disse elle da porta, vocemecê não quer hoje algum mandado?

O tendeiro ficou encantado com este desprendimento de um mendigo, que parecia ter o maximo empenho em fazer recados de graça ás pessoas ricas. Em vez de pedir que lhe pagassem o trabalho da vespera, o bom do rapaz vinha pedir que lhe dessem mais que fazer... pelo mesmo preço.

—Sim, disse o tendeiro, pois olha... vae-me{209} chamar o Joaquim da Rita, que preciso fallar-lhe por causa d'uma coisa.

Essa coisa, eram uns juros em atraso.

E o rapaz foi, em mangas de camisa, como andava, ao passo que o tendeiro, embuçando-se melhor no seu farto capote, disse lá comsigo que sempre estava muito frio.

O Venancio engeitado, como todos o tratavam, tornou-se desde então o mais diligente criado que o tendeiro podia desejar. Sobretudo, pelo que tocava a soldada, era uma joia: nem vintem. Tambem elle não pedia. Mas fôra a pouco e pouco captando a sympathia e a confiança do tendeiro, que primeiro o deixou sentar á porta, e depois n'um banco dentro da loja.

Nos dias de mercado, em que havia maior labutação no estabelecimento, o Venancio engeitado offerecia-se para tudo, elle para ir prender á argola as cavalgaduras, elle para lhes chegar umas sopas, elle para varrer as cascas dos ovos que os piteireiros bebiam, elle para limpar o balcão e lavar os copos... uma joia, uma verdadeira joia... a sêco!...

O tendeiro gabava-o: Que era muito bom rapaz, que precisava muito, e que de mais a mais não era pedinchão.

O que o tio Ambrosio queria, com toda esta cantata, era que os freguezes pagassem os serviços que o rapaz lhe fazia a elle, porque decerto pareceria escandaloso que uma vez por{210} outra o Venancio não recebesse nada. Mas como os freguezes caíam, dando ao engeitado pão e azeitonas, o tendeiro entendia que ficava uma coisa pela outra, e achava-se desembaraçado para fazer do Venancio seu criado.

Foram passando tempos, e uma vez, que estava na loja o morgado do sitio, um mãos-rotas de generosidade e bizaria, o Venancio disse de repente ao tendeiro, entrando na loja:

—Ó tio Ambrosio, se vocemecê me podesse dar agora aquellas duas libras que lhe dei a guardar, fazia-me favor.

—Ó maroto! pois tu deste-me algumas duas libras?!

—Dei, sim, senhor, ha dois mezes, na occasião em que estava aqui o da Michaela, que foi para o Brazil.

—Ah! maroto, que me perdes! Pois tu já tiveste duas libras algum dia?!

—Tive, sim, senhor, ha dois mezes, e dei-lhas a vocemecê para mas guardar por ser um homem de bem...

—Ó senhor morgado, este maroto está-me a envergonhar!

—E o tio Ambrosio está-me a roubar, disse serenamente o Venancio.

—Sr. morgado, continuava o tendeiro, eu sou um homem honrado, incapaz de tirar nada a ninguem.

—Menos a um pobre... como eu. Duas libras!{211} que eu guardava para uma precisão! exclamou o Venancio, e começou a chorar.

Então, a natural bizarria do morgado não lhe permittiu tolerar aquella scena por mais tempo. Fosse verdade ou não fosse, era preciso acabar com aquillo,—uma miseria de duas libras! E o tendeiro envergonhado por tão pouco!... Não podia ser.

—Rapaz, disse o morgado querendo salvar a situação, não foi ao sr. Ambrosio que deste a guardar as duas libras. Não te lembras bem. Foi a mim...

Então o Venancio, serenamente, humildemente observou:

—Essas foram outras, sr. morgado.{212}

XXV

O ultimo puritano

Era uma vez um velho, o Seabra, que eu de tempos a tempos procurava na repartição, porque tinha uma excellente mão de cursivo para tirar copias.

Sessenta e seis annos bem puxados, posto que elle não desse ao manifesto mais de sessenta.

—Sessenta—dizia elle—sessenta já cá estão!

E suspirava.

Não se sabia bem se suspirava com remorsos de estar mentindo ou porque, deitando as contas á sua vida, achasse que o mais prejudicado era elle...

Tinha visto muita coisa, muita politica, muita patifaria. Nada que vinha de novo o surprehendia.{213} Batera-se no Alto do Viso, trabalhára em varias eleições, e havia quarenta annos que saboreava, como premio de seus trabalhos e serviços, um pingue logar de amanuense cristalisado em seiscentos réis por dia.

Conhecêra muitos homens importantes, que tinham lucrado com a collaboração d'elle, e outros que taes, para subir ao poleiro, e que por mais de uma vez lhe haviam promettido tiral-o d'ali para coisa melhor.

Pois apesar de lhe faltarem a todas as promessas, de o trazerem enganado durante quarenta annos, elle tratava-os sempre com o mesmo respeito, cumprimentava-os muito reverente:

—Sr. conselheiro, criado de v. ex.ª

Era um praxista. Não cumprimentava ninguem sem ter descalçado primeiro a luva da mão direita, nem saía da repartição sem ir perguntar ao chefe, entreabrindo a porta do gabinete:

—V. ex.ª, sr. conselheiro, determina mais alguma coisa?

E o chefe, que estava conversando com amigos, muito entretido, nem o ouvia.

Mas elle, insistindo, reperguntava:

—V. ex.ª, sr. conselheiro, determina mais alguma coisa?

E o conselheiro, se d'essa vez tinha ouvido, respondia:

—Adeus, Seabra, até ámanhã.{214}

Algumas vezes lhe fallei do chefe, para sondal-o.

E o Seabra dizia-me:

—É dos novos; mas boa pessoa.

Cheguei a entender o sentido d'estas palavras: é dos novos. Não era praxista, não respeitava as tradições e os regulamentos da burocracia, mas o Seabra reputava-o boa pessoa.

Alma generosa, a d'esse velho amanuense! que, em respeito ao seu chefe, que o tratava simplesmente por Seabra, não ousava dizer d'elle senão que era dos novos... mas boa pessoa.

Se o Seabra tivesse nascido meio seculo mais tarde, não entreabria a porta do gabinete do chefe para se despedir; mas, se o fizesse, e elle lhe respondesse com um «adeus, Seabra», pespegava-lhe uma tarea nas gazetas.

Para um praxista como o Seabra, aquelle homem, que estava dentro do gabinete, conversando com os amigos, era seu chefe, e isso lhe bastava.

Ora uma das praxes observadas pelo Seabra era a de consultar sempre, antes de sair da repartição, o seu espelhinho d'algibeira.

Elle tinha apenas duas farripas de cabello branco, muito bem penteadas ao longo da cabeça. Mas essas duas farripas mereciam-lhe todo o cuidado e attenção. Vendo-se ao espelhinho, passava a mão por cima das farripas, brunia-as com os dedos, alisava-as.{215}

Depois observava a gravata, que era ordinaria, mas sempre bem tratada, sem sombra de pó.

Por ultimo, segurando o espelhinho com a mão esquerda, escovava a sua velha sobrecasaca com a mão direita.

E feito todo este serviço, depois que o chefe lhe dizia o «adeus, Seabra», guardava o espelhinho na algibeira, a escova no armario, e seguia para sua casa, a passos mesurados, muito vagaroso, pela rua do Oiro até Santa Martha.

Inculcaram-m'o uma vez como tendo excellente letra para tirar copias. Apresentaram-m'o. Por varias vezes lhe dei trabalho, meu e alheio. Era pontualissimo na entrega das copias, e honestissimo nas contas que fazia. Arredondava sempre as quantias contra elle. Se, trabalhando a tanto por pagina, o seu trabalho importava por exemplo em 1$085 réis, não queria nunca receber mais de dez tostões.

Comprehende-se que precisasse muito d'estas achegas para poder viver, visto que o seu logar lhe rendia apenas 600 réis diarios.

Todas as noites saía para vir ao Rocio conversar n'uma loja até ás nove horas. O logista era um homem do tempo d'elle. Tratavam-se por tu. Ás nove em ponto, o Seabra despedia-se, ia para casa trabalhar até á meia noite, tirar copias a 120 réis a pagina.

Não vi nunca pobresa mais resignada, nem{216} mais elegante. Parecia um principe arruinado, a passos mesurados, pela rua do Oiro. Era só então que elle via o mundo, uma vez por dia. Mas via-o bem, depois de se ter preparado tambem para ser visto. Não saía da repartição sem o espelhinho lhe ter dito: «Estás correcto, Seabra.»

Na rua do Oiro encontrava um conselheiro. Cumprimento respeitoso.

—Criado de v. ex.ª, sr. conselheiro.

Não deixava nunca de vêr os conselheiros, apesar de todo o seu gosto, ao passar na rua do Oiro, consistir em vêr as mulheres ou, mais propriamente ainda, em vêr os pés das mulheres.

Se parava uma carruagem á porta de uma loja, tambem elle parava, com delicado disfarce, para vêr saltar do estribo uma dama.

Não tinha esta escola moderna dos que fazem tudo descaradamente, parando e observando com petulancia. Nada disso. Elle via o pé, media-o com os olhos, calculava, pelo pé, as dimensões da perna, ficava sabendo a côr e a qualidade da meia, mas, se alguem, encontrando-se com elle, lhe adivinhava a intenção, disfarçava a olhar para uma vitrine ou a lêr um cartaz.

Só ao cabo de alguns annos de convivencia, eu consegui conquistar a familiaridade precisa para lhe fallar nos pés das mulheres.{217}

—O sr. Seabra pella-se por vêr um pé bem feito!

—Gósto!... gósto!

E d'ahi a pouco parou uma carruagem, apeiou-se uma senhora, que deixou vêr, sobre o estribo, um pé digno da admiração do Seabra.

—Então, sr. Seabra! disse-lhe eu. Repare, que vale a pena.

—Não! nunca! respondeu elle um pouco atrapalhado.

Jámais eu o tinha visto, em nenhum caso da sua vida, tão contrariado como naquelle momento.

—Aquelle pé—pensei eu—é talvez uma recordação para elle.

Mas reflexionei. A dama era, relativamente, nova. Podia ser filha do Seabra.

—Será talvez filha?

E architectei um antigo romance de amor, que tivesse deixado ao Seabra uma filha natural.

Se fosse assim, eu poderia conseguir talvez que elle me contasse o seu romance.

Tentei o assumpto.

—Mas então, meu caro sr. Seabra, porque perdeu esta occasião propicia?

—Não! nunca! tornou elle a responder.

Devorado pela curiosidade, insisti:

—Era talvez sua parenta?

—Qual! disse elle surprehendido. Era a mulher do meu chefe!{218}

Fiquei a olhar para elle, aturdido, assombrado. Ó lealdade da velha burocracia portugueza! que, em homenagem á disciplina social, desviava os olhos para não vêr o pé da mulher a quem o chefe havia dado a mão! E tive tentações de o abraçar, em plena rua do Oiro, exclamando: «Honradissimo José do Egypto, cujos olhos largam a capa, quando a mulher do chefe da repartição expõe o pé á vista do publico! eu te admiro e te venero!»

Acompanhando-o pela rua do Oiro adiante, baralhavam-se-me no espirito casos que eu tinha ouvido contar, por mais de uma vez, de empregados publicos que captavam as boas graças dos chefes seguindo o processo opposto ao do Seabra.

Admiravel homem! pensava eu, que penteia as suas farripas para ir vêr as mulheres e que, não obstante querer vêl-as, não perde nunca de vista um conselheiro, para lhe cumprimentar a carta de conselho, nem a mulher do chefe, para evitar cumprimentar-lhe o pé!

Uma coisa que entristeceu muito o Seabra foi o ir perdendo a vista, e com ella o gosto de passar na rua do Oiro.

Mas, não obstante, não largou nunca o seu espelhinho. Tinha o mesmo cuidado em alisar as farripas e escovar a sobrecasaca. Sómente mudou de caminho, tomava pela rua da Prata, em vez de seguir pela rua do Oiro.{219}

Os seus collegas diziam:

—O Seabra agora está muito caido!

Na repartição, elle trabalhava com oculos, mas na rua nunca os punha.

Um dia insisti com elle em que viesse comigo pela rua do Oiro.

Pediu-me muitas desculpas, e recusou.

—Já não vejo nada! dizia elle.

—Mas por que não põe os seus oculos? perguntei-lhe eu.

E elle, muito sentencioso, respondeu-me:

—Eu sou de um tempo em que não era permittido confessar nenhuma fraqueza em publico: nem mesmo a da vista.

De uma vez, como sempre, o Seabra entreabriu a porta do gabinete do chefe.

—V. ex.ª, sr. conselheiro, determina mais alguma coisa? perguntou.

—Não, Seabra, até ámanhã.

O Seabra compoz, diante do espelhinho, as suas farripas, ageitou a gravata, escovou a sobrecasaca, fechou a escova no armario.

E metteu pela rua da Prata, na sua teima de não querer confessar em publico nenhuma fraqueza: nem mesmo a da vista.

Junto á Praça da Figueira andava-se concertando um cano, a rua estava esburacada.

O Seabra caiu tão desastradamente, que partiu uma perna. Foi conduzido em maca ao hospital de S. José. Logo que lá chegou,{220} cheio de dôres, despiram-no, metteram-n'o na cama.

E elle, dirigindo-se muito attenciosamente ao enfermeiro, disse-lhe:

—Quer ter a bondade, sr. enfermeiro, de recommendar todo o cuidado com o meu fato, e de me dar um espelhinho que está na algibeira das calças?

Passados dias fui visital-o, levei-lhe um romance para que elle se entretivesse, lendo-o.

—Não posso, disse-me elle. Deixei os oculos fechados na repartição.{221}