I
O primeiro mosquito
Chegou o inimigo.
Ouvi hontem o seu clarim vibrante resoar sobre a minha cabeça em som de guerra.
Era a guarda avançada do grande exercito alado do verão, hunos do ar que invadem os nossos quartos de cama zombando perfidamente de todas as nossas precauções e dilacerando-nos a carne com o seu pequenino áspide, agudo como um punhal.
—Ah! disse eu. É o primeiro mosquito que chega!
E estremeci de horror.
É que se ha animal n'este mundo que me incommode, que seja incompativel comigo, esse animal é o mosquito,—o pequeno mosquito, um dos mais sanguinarios inimigos da humanidade.{6}
Uma vez, em certa praia, um amigo meu mostrou-me o seu quarto, cujas paredes estavam revestidas de uma estranha pintura,—arabescos de sangue, o sangue da victima, o sangue d'elle, o desgraçado!
—Entram os mosquitos, dizia-me o meu pobre amigo, e roubam-me o que eu tenho menos, roubam-me o sangue. Eu, não podendo repellir a aggressão, porque essa praga de mosquitos vem aos centos, adoptei a estrategia de os deixar cevarem-se á vontade. Engordam e agiboiam-se, ficam obesos e inertes. Então sôa a hora da minha vingança, pego n'um sapato e atiro-me a elles como S. Thiago aos mouros. Pá! pá! sapatada para a direita, sapatada para a esquerda, aqui se esborracha um, ali se estampa outro, a parede salpicada de sangue parece um crivo, um mappa, e é assim que eu, durante um mez, tenho conseguido ornamentar o meu quarto com esta estranha decoração, arabescos de sangue roubado ás minhas proprias veias. O que está ali na parede sou eu, depois de ter atravessado pelo interior de um mosquito. Centenas d'elles me teem sugado, com o meu sangue teem vitalisado os seus orgãos sonoros, porque cada mosquito traz ás costas uma fanfarra estrondosa, que nos ensurdece com o tinido dos seus metaes. Tenho n'aquella parede o meu sangue, e tenho no meu corpo a minha anemia: o traço de união entre{7} aquillo, que é a parede, e isto, que sou eu, é o mosquito.
Ha banhista que prefere dormir na praia, sobre um banco de pau, ou mesmo sobre a areia, a dormir em casa sob a tyrannia dos mosquitos.
Um sujeito encontrei eu já, que, accordando de madrugada meio devorado pelos mosquitos, sahiu para o meio da rua,—com o resto do corpo que elles lhe tinham deixado de fartos.
Logo que amanheceu e a primeira tenda da praia se abriu, elle correu a escrever sobre o balcão a seguinte carta ao senhorio, que era um dos pescadores mais ricos da terra:
«Ill.mo sr. José Peixeiro:—Sendo v. s.ª um dos homens mais considerados d'esta localidade, regedor de facto e barão em perspectiva, muito me admira que commettesse a burla de arrendar a sua casa a duas familias ao mesmo tempo. Quando me entregou a chave da porta, fez-me suppôr que não havia lá dentro mais inquilinos. Com effeito, assim me quiz parecer quando entrei, porque a unica pessoa, e essa inoffensiva, que encontrei, foi o cavalleiro D. Fuas Roupinho a pique de despenhar-se do rochedo da Nazareth. É realmente um quadro muito bonito, que, longe de me incommodar, me deleitaria. Aposentei a minha familia, a minha{8} mulher e os meus filhos, e eu preferi para meu uso o quarto onde se acha o quadro do Milagre da Nazareth, porque sou amador, e falla-se mesmo em mim para inspector da Academia de Bellas Artes. Deitamo-nos. Eis senão quando, outra familia de inquilinos surge como por encantamento. Primeiro appareceu o pae, depois a mãe, depois os meninos, depois as meninas, depois os meninos dos meninos, depois as meninas das meninas, depois os bisnetos, depois os tresnetos, depois os tetranetos, uma alluvião de individuos, uma phalange, um exercito e, sem respeito nenhum pelo nosso somno, começaram a conversar em voz alta, o pae com a mãe, os manos com as manas, os tios com os sobrinhos, os primos com as primas. Calei-me a vêr no que aquillo parava. Mas não parou. Depois toda essa magna caterva teve vontade de ceiar, foi á dispensa, foi á cosinha, e como não encontrasse nada para comer, resolveu comer a minha familia inteira. Participo-lhe, pois, que estamos comidos,—duas vezes: pelo senhor e por elles, os outros inquilinos do meu predio. Resolvi portanto mudar de casa para um banco da praia, que está á sua disposição, se nos quizer dar a honra da sua visita. Quanto á sua casa, ahi lhe mando as chaves, para que o sr. vá lá dormir esta noite com a sua familia, a fim de verificar se as minhas informações são verdadeiras ou não.»{9}
O sr. José Peixeiro respondeu immediatamente:
«Lá irei á noite vêr essa pouca vergonha, e se fôr como diz eu cá estou para obrar como regedor.»
Então o pobre queixoso julgou dever prestar mais um esclarecimento importante á digna auctoridade parochial:
«Ill.mo sr. José Peixeiro.—Tenho por conveniente informal-o de que na minha carta anterior faltou um note bene, que vae agora.
Os inquilinos a que me refiro são os mosquitos.
Supponho que esta informação ha de aproveitar á sua perspicacia.»
José Peixeiro deu-se pressa em enviar a seguinte replica:
«A minha casa é a melhor da villa, e tem sido sempre habitada por pessoas de importancia. Eu, no resto do anno, vivo lá. E tanto eu como minha senhora temos gosado saude; a unica doença que a minha senhora lá tem tido foi um parto. Eu, nem isso; sou são como um pêro. Mosquitos e moscas em toda a parte os ha; a mim ainda me incommodam mais as moscas do{10} que os mosquitos. O anno passado, o sr. visconde do Pecegueiro veiu a morrer para a minha casa, e foi-se embora tão bom, que até o meu compadre barbeiro, que tem pilheria, disse que elle ainda ia capaz de dar pecegos. Mas para não se incommodar com os mosquitos inventou o systema de dormir de caraça e de luvas. Faça o senhor outro tanto, e não dê importancia aos trombeteiros.»
Ah! caro leitor, aviso-o para que se acautele, visto que já fui atacado pelo primeiro mosquito d'este verão: compre caraça e luvas como o visconde do Pecegueiro.
Oh! o primeiro mosquito! Que horror!{11}
II
A comedia das praias
De manhã cedo, na praia, todos parecem ter ainda o olhar vidrado, estupido, de quem acaba de accordar.
Olham uns para os outros com certa surpreza spasmodica, achando-se feios.
Defeitos que durante o dia chegam a passar despercebidos, avultam: foi n'uma praia que eu descobri que certa dama, aliás formosa, tinha uma orelha maior que a outra... de manhã!
Dar-se-ia o caso que, depois de feita a toilette, a orelha mais pequena crescesse ou a maior diminuisse?
Certamente que não. Mas diante do espelho, com vagar, um geito dado ao cabello, artisticamente, encobria o defeito da orelha. O ferro de frisar salvava a situação: a madeixa, que elle fazia descer, salvava a orelha, que a natureza fizera subir.{12}
*
* *
Em questões de toilette, o meio termo não é admissivel: ou tudo ou nada. Ou a toilette esplendida ou... a estatua. Eva, depois do peccado original, faz-nos rir vestida de folhas de figueira. Ora o fato de banho é o meio termo: a folha de figueira. Para vestir... é pouco; para despir... é muito.
Ha porém uma coisa peior do que vestir um fato de banho: é querer sophismal-o.
Certas damas, quando chegam á praia, conseguem dar na vista pela perfeição plastica das suas curvas. Ao entrar na agua, vestidas para o banho, perdem as curvas. Não perderam; deixaram-n'as na barraca. Este sophisma deploravel revela a carencia de um bom argumento. Argumento ou augmento. O eufemismo é o mesmo. Mas só a praia consegue revelar um segredo, de que, quando muito, apenas se suspeitava...
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* *
Andam pessoas a enganar-nos durante onze mezes em cada anno.
Suppomol-as polidas, eruditas, francas, estimaveis.
Em Lisboa, quando as encontravamos na rua,{13} trocavam comnosco um shake-hand, tinham um dito amavel ou sentencioso, pareciam-nos cordealmente expansivas.
Nas praias, á sombra de um chalet ou de uma arvore, durante duas horas de conversação, desmascaram-se. Dia a dia, podemos fazer o inventario das suas idéas, dos seus sentimentos, das suas opiniões. E, ao cabo de um mez de estação balnear, averiguamos que:
Fulano, que vae á missa em Lisboa, não crê em Deus.
Sicrano, que tinha fóros de erudito, apenas lê a Revista dos dois mundos.
Beltrano, que parecia fallar-nos com o coração nas mãos, não fazia outra coisa senão metter-nos os pés nas algibeiras.
*
* *
Em Lisboa, accusa-se o Gremio e a Havaneza de terem má lingua.
Pobre Havaneza! pobre Gremio! pagam as favas injustamente.
A maledicencia habitual d'esses dois pontos, de reunião tem apenas um caracter pessoal. Eu explico. Ordinariamente, falla-se só do sujeito que passou ou do sujeito que saiu.
A maledicencia das praias estende-se á geração, chega ao pae, passa ao avô, alcança ás vezes o bisavó. É retrospectiva. Por exemplo:{14}
—Quem é aquelle sujeito que vem acolá?
—Pois não conhece! É fulano.
—Não conheço.
—Ha de lembrar-se com certeza do caso da herança do Gutierres. Foi muito fallado.
—Lembro-me, sim.
—Pois este é que falsificou o testamento.
—Este! E anda vestido de branco,—como as virgens!
—É de familia...
—O fato branco?
—Não. A alma negra. O pae foi negreiro.
—Já vem mais de traz, isso.
—Por quê?
—O avô enriqueceu no tempo dos francezes, dando assalto ás casas dos visinhos que tinham fugido.
O sujeito aproxima-se, dois ou tres levantam-se para abraçal-o; mas a esse tempo, que foi pouco, já lhe está desenterrada a familia até ao avô.
O vagar faz colhéres, diz o povo. Nas praias, o vagar faz exhumações tremendas. Não ha bisavô que esteja seguro na sepultura.
*
* *
Na comedia das praias, as moscas teem um papel importante. Em Lisboa, para se dar importancia a uma mosca, é preciso que ella haja{15} sido audaciosa até o ponto de escolher para suicidar-se o nosso prato de sopa. De resto, em Lisboa, as moscas morrem, mas, nas praias, as moscas matam. Teem dentes; são carnivoras. Mordem, perseguem, endoidecem a gente. Desforram-se da ociosidade de um anno inteiro, esperam famintas pelos banhistas, e, depois de os morder, zumbem e zombam, parecem rir de troça umas com as outras.
Só nas praias é que o europeu consegue ser victima das moscas. E fallarmos nós com horror das moscas de Africa! As moscas saloias são muito peiores!
*
* *
Em Lisboa, os criados passam ás vezes um anno inteiro sem partir loiça.
Mas, chegando ás praias, os seus dedos parecem debeis como vimes. Quebram hoje um copo, ámanhã um prato, escacam, em quinze dias, metade da loiça do senhorio.
Encontrei uma vez, n'uma praia, certa dama, que andava afflictissima de loja em loja, procurando alguma coisa, que lhe dava grande cuidado.
—Imagine, disse-me ella, que o meu criado quebrou hontem uma chavena!
—É vulgar.{16}
—Quebrar é vulgar; mas a chavena é que o não era.
—Como assim?!
—Quando eu vim, a senhoria disse-me: «Peço a v. ex.ª todo o cuidado com esta chavena, que era a chavena do papá.»
—Como o sabre da Grã-duqueza!
—Isso. Ninguem se servia d'aquella chavena gloriosa, nenhum de nós tinha ousado mandal-a tirar do guarda-loiça. Mas o meu criado ousou limpal-a hoje, e quebrou-a. Aqui ando eu agora afflicta á procura de uma chavena, que possa continuar a ser, na tradição da casa, a chavena do papá!
*
* *
Nada ha que me dê tanto a impressão do communismo como um club de praia.
É de todos, sem pertencer a ninguem.
Cada um que vem chegando pensa que o club é seu. A primeira cousa de que se apossa é... o piano. O piano passa a ser, não um instrumento de musica, mas um escravo. Submisso, paciente, resignado, obedece como um negro, cujos dentes são muito brancos... Açoutam-n'o com as mãos, e não protesta; dão-lhe pontapés no pedal, e não se desconjunta. Familias inteiras vão affirmar no teclado os seus direitos de socio. A mãe toca a Norma, que é uma opera{17} do seu tempo, a filha perpetra a Carmen; o filho executa os Fados—com a mão direita.
O pae agarra-se aos jornaes e parece resolvido a não deixal-os lêr por mais ninguem.
As primeiras senhoras que á noite chegam ao club parecem tomar gosto á grandeza da sala...
O seu desejo seria talvez que as outras, mais retardatarias, ficassem á porta a contemplal-as... de longe.
Mas, como isso não acontece, as que já estão de posse da sala, preparam-se para o ataque, assestam as suas baterias.
É o lorgnon...
É o sorriso sardonico...
É o ditinho picante...
Tudo isto entra em fogo ao mesmo tempo.
Depois, as que acabam de chegar, fazem causa commum com as que já tinham chegado e, preparadas para o combate, ficam á espera das que hão de chegar ainda...
*
* *
Ha sempre nas praias uma menina que recita.
De pé, quasi sempre vestida de branco, recita versos azues. Quero dizer, versos ethereamente{18} romanticos. Em quanto ella recita, a mãe põe os olhos no chão. As outras senhoras põem o leque diante da cara.
Algumas vezes, a menina engana-se, falta-lhe a memoria. Nem para traz nem para deante.
Então lança mão de um recurso supremo: desmaia.
—Um medico! Não está ahi um medico?
N'uma praia estão sempre quatro medicos, pelo menos.
Vem um.
—Isto não é nada, passa já.
Mas o irmão mais novo da menina desmaiada foi, a correr, buscar a casa o Almanach das Senhoras.
E, reanimada por este auxilio, a menina continua a recitação, ficando o irmão mais novo mettido atraz do piano,—servindo de ponto á mana.
*
* *
Tambem ha sempre uma menina que tem album.
Pede, a torto e a direito, uns versos, um desenho, uma melodia.
Póde imaginar-se o valor do album dizendo que são os poetas que desenham, são os pintores que fazem versos, são os que sabem fazer{19} desenhos ou versos que escrevem a melodia.
Em conclusão: ninguem quer perder n'um album o melhor do seu talento...{20}
III
N'uma praia solitaria
Um amigo meu, que se acha n'uma praia do norte do paiz, certamente das menos conhecidas e frequentadas, acaba de descrever-me n'uma carta a maneira como alli tem vivido desde os ultimos dias de julho.
Quando chegou, apenas encontrou já installado um outro banhista, que desde logo se constituiu seu companheiro inseparavel, comquanto então se vissem pela primeira vez.
O meu amigo é de Lisboa, o outro reside actualmente no Alto Minho. Foi o acaso que os reuniu pela identidade de destinos, como dois náufragos desconhecidos que se encontrassem agarrados á mesma tabua de salvação ou perdidos na mesma ilha deserta.
Começaram por tirar cerimoniosamente o chapeu um ao outro, mas ao cabo de duas horas{21} de convivencia tratavam-se por tu,—intimamente.
A ilha deserta em que se encontraram era a unica loja importante da praia,—uma loja onde se vende tudo o que uma pessoa póde desejar em qualquer momento.
Supponhamos que um Lucullo extraviado chegava alli e pedia champagne.
Encostando-se ao balcão, perguntaria:
—Tem champagne?
—Tenho, sim, senhor.
E abrindo um armario mysterioso, cheio de retortas, alambiques, garrafas e garrafões, o dono do estabelecimento demorar-se-ia um instante operando chimicamente.
Passada meia hora, quando muito, apresentaria uma garrafa de champagne, feito talvez de petroleo, talvez de azeite, talvez de vinagre: composição sua.
O freguez poderia extranhar que a garrafa não tivesse capsula de chumbo, mas apenas uma velha rolha porosa.
O dono do estabelecimento responder-lhe-ia imperturbavelmente:
—É verdade isso, mas eu preoccupo-me mais com a qualidade dos meus vinhos do que com a apparencia das garrafas.
Lucullo, sentado á sua mesa de familia, provaria o champagne, e ficaria por ahi, a não ser que quizesse envenenar-se.{22}
Mas, para não ser o unico a cahir no logro, calar-se-ia e, para rir um pouco, aconselharia a toda a gente que fosse comprar o bello champagne da loja do Elephante azul.
Ora é justamente o discreto silencio dos freguezes, que querem ter companheiros na desgraça (solatium est miseris, etc.), que explica a grande clientella que tem, principalmente na epocha de banhos, a loja do Elephante azul.
Foi, pois, n'essa ilha deserta, deserta antes do mez de setembro, o melhor n'aquella remota praia, que os dois solitarios banhistas se encontraram, e principiaram a tratar-se por tu, duas horas depois de se terem visto pela primeira vez.
—Mas então, perguntava o meu amigo, não costuma vir mais gente para aqui?
—Sim, senhor, respondia o dono do Elephante azul, no mez de setembro é tanta a concorrencia, que eu costumo vender todo o champagne, toda a cerveja, toda a genebra que fabrico.
E o outro, que já lá estava a banhos, observava:
—Em setembro, será assim. Mas desde o dia 20 de julho, em que cheguei, até hoje, apenas eu só tenho tido a honra de despertar as attenções dos pescadores. No primeiro dia olharam para mim com surpreza, e nos dias seguintes com espanto.{23}
—Como assim?!
—Espanto de que eu, encontrando-me sosinho, continuasse a ficar...
—Mas agora somos já dois!
—Agora seremos um, in carne una, porque eu já te não largo, amigo da minha alma! até que em setembro chegue mais gente. Tu foste a minha tabua de salvação, ó inesperado e dilecto amigo!
—O que direi eu então de ti, que me proporcionaste occasião de ter com quem fallar da crise monetaria e do caso das Trinas! Feliz de mim, que te encontrei, e de ti que me encontraste! Gloria a Deus nas alturas, e paz na terra... a dois homens!
—Imagina, porém, que, por nos exaltarmos em qualquer discussão, tinhamos de ficar de mal um com o outro?
—Era o mesmo que romper com toda a humanidade!
—Mas o que farias tu?
—Eu?! Eu ficaria de bem comtigo até que, chegando setembro, podesse encontrar dois padrinhos para te mandar desafiar...
Começou agosto, e por mais que os dois amigos espreitassem para dentro de todas as diligencias que se fazem annunciar ao som de estridulas campainhas, não viam chegar ninguem.
—Então para que servem as diligencias? perguntava um.{24}
—Servem para alimentar a tradição de viajar, respondia o outro.
O dono do Elephante azul dizia do lado:
—Em setembro vêem cheias de gente. Ás vezes trazem dezeseis pessoas em oito logares.
—Mas não seria melhor que essas pessoas viessem a pouco e pouco, cada uma em seu logar?
—Não, senhor. Porque então, replicava o dono do Elephante azul, por muita gente que viesse, não se sentiria tanto.
Os dois amigos tinham já esgotado todo o reportorio das suas opiniões.
—O que pensas tu, caro amigo, a respeito do caso das Trinas?
—Já to disse hontem.
—E a respeito da crise monetaria?
—Já t'o disse ante hontem.
—É verdade! Por signal que te repetiste. Tambem já m'o tinhas dito no dia em que eu cheguei...
O que mais os aborrecia era não poderem encontrar um terceiro parceiro para o voltarete.
Haviam já perguntado ao dono do Elephante azul:
—Sabe o voltarete?
—Não, sr. Sei fazer champagne, sei fazer cognac, sei fabricar cerveja, só não sei jogar o voltarete!
—Porque não trata de o aprender?{25}
—Não vale a pena: não é coisa que se venda.
No dia 8 de agosto, por volta do meio dia, qual não foi a surpreza dos dois amigos quando, encostados á porta de Elephante azul, viram chegar uma carruagem com um passageiro dentro.
—Eureka! gritou um.
—Apaga a lanterna de Diogenes! exclamou o outro.
O passageiro apeiou-se do trem e, sem entrar na loja do Elephante azul, seguiu para o interior da villa.
—Vae installar-se, disse um.
—Vae, e não tarda ahi, á procura dos unicos dois homens que n'este momento lhe podem ser agradaveis.
O dono do Elephante azul, tendo vindo á porta examinar o recem-chegado, observou:
—Não é cara conhecida. Nunca veiu cá.
—Podera! Se já conhecesse a praia, não vinha senão em setembro.
Ficaram os dois conversando, mas o homem não appareceu.
—Onde se metteria elle?
—Naturalmente, disse o dono do Elephante azul, anda procurando casa.
—Se fosse só isso, já a teria encontrado. É mais provavel que ande procurando gente...
Cerca das trez horas da tarde, tornou a apparecer a carruagem, mas vasia.
O caso ia tendo as proporções de um mysterio.{26}
—O homem suicidou-se!
—Qual! Anda perdido nas ruas, e não encontra ninguem para lhe ensinar o caminho.
Finalmente, o homem appareceu.
Entrou no Elephante azul para comprar cigarros.
Os dois banhistas crivaram-n'o logo de perguntas.
—V. ex.ª vem para cá?
—Não, sr.
Os dois olharam-se com dolorosa surpreza.
—Então não vem para cá? insistiu não sei qual d'elles.
—Vim justamente fazer o contrario.
—Mas... não percebo!
—Vim dizer que não vinha para cá.
—Nem mesmo em setembro?
—Nem mesmo... nunca. Tenho ahi um parente que me esperava, e vim dizer-lhe que não contasse commigo.
—Mas isto é muito bonito... em setembro!
—Será. Eu tenho informações que me levam a pensar o contrario.
—Pois que! Nem sequer tenta fazer uma experiencia!
—Não, sr. Um amigo meu veiu uma vez em agosto, e esperou até setembro que viesse gente. Mas em setembro achou-se ainda mais só, porque morreu de bexigas o unico banhista que lhe podia fazer companhia.{27}
—N'esse caso vae-se embora?
—Vou já, respondeu o sujeito pagando os cigarros.
Já elle ia a dirigir-se para o trem, quando um dos dois se lembrou de gritar:
—Ó sr. Mendonça!
O sujeito não fez caso.
—Ó sr. Andrade!
O sujeito dispunha-se a entrar no trem.
—Ó sr. Mattos!
O sujeito voltou-se rapidamente.
—Ah! já sei que se chama Mattos!... tem a bondade de nos dar uma palavra?
O sujeito, que já tinha um pé no estribo, veiu ao encontro dos dois.
—Sabe o sr. Mattos, disse um, o que nós estamos resolvidos a fazer?
O meu amigo olhava para o companheiro de desgraça sem poder adivinhar a sua intenção.
—Não sei, mas v ex.as terão a bondade de dizer.
—Pois bem, sr. Mattos! Vae sabel-o
E agarrou-o pelas lapellas do frak.
—O sr. está preso.
—Preso?! Porque?!
Então o meu amigo sentiu-se illuminado. Adivinhou tudo.
E deitando as mãos aos hombros do homem, gritou por sua vez:
—Preso... sim, sr.!{28}
—Mas que crime fiz eu?
—Não se trata de um crime, nem precisamente de uma prisão.
—Mas, se não se trata de uma prisão, porque é que me prendem!?
—Fica apenas detido. Segundo o codigo, é differente.
—Sómente detido. O codigo estabelece a differença.
—Preso ou detido! disse o homem. Mas porque? Para que?
—Detido ou preso... Preso para banhista.
—Mas eu não quero tomar banhos!
—Pois não tome, mas fica preso para banhista.
—Preso não, observou o meu amigo. É bom não confundir as palavras. O sr. Mattos fica apenas detido até setembro... emquanto não vem mais gente.
—Mas que proveito tiram d'ahi os srs.?... perguntou o Mattos.
—O proveito de sermos trez.
—Trez para tudo: trez para o cavaco, trez para o voltarete, trez para o banho, trez para o Elephante azul.
—Mas eu não sei o voltarete!
—Pouco importa. O que se quer é que o jogue.
—Para jogal-o é preciso aprendel-o.
—Isso não é inteiramente verdade... Mas,{29} dado o caso que seja verdade, até setembro tem o sr. Mattos muito tempo para aprender a jogar o voltarete.
O meu amigo termina a carta dizendo:
—«Cá temos o homem preso, e bem vigiado. Á noite fechamos-lhe a porta, e levamos a chave para casa. Uma noite, para lhe suavisarmos o captiveiro, resolvemos perder ao voltarete. E assim é que conseguimos ser trez! Mas, para vêr se vem mais gente, mandamos dizer nos jornaes do Porto que a praia está muito animada, e que em setembro serão poucas as casas para os banhistas que se esperam. Vê lá se dizes isso tambem nos jornaes de Lisboa...»{30}
IV
Os frequentadores das praias
Escolhamos alguns dos typos que avultam na galeria das praias, para fixarmos n'elles a nossa attenção por um momento.
O fallador—É o discursador de cada praia, o homem que conta anecdotas e que sabe da vida alheia. Tem corda para toda a época balnear. Levanta-se pela manhã a fallar, vai conversar para a praia dos banhos logo que se levanta, e á noite é o ultimo a sair do club.
—Meus amigos, diz elle, alli na Arruda aconteceu-me uma vez uma partida de estalo. Imaginem que um rapaz do meu tempo, vendo-me apeiar da diligencia, se lembrou de dizer aos da terra que eu era o homem mais rico de Portugal. D'alli a pouco choviam-me no hotel memoriaes, requerimentos, bilhetes de visita. Um tal foi propôr-me um negocio que devia render cincoenta por cento. Outro queria vender-me{31} uma quinta phylloxerada. E um pai de familia pretendia que eu lhe desposasse a filha... no caso de ser solteiro. Via-me embaraçado com tantos pedidos e propostas. De modo que tive de escrever para um meu amigo de Lisboa pedindo-lhe que me dissesse em telegramma; «Falliu Rio Janeiro casa Antunes & C.ª Paciencia e resignação.»
Eu li este telegramma na botica da terra, onde me foi entregue, e exclamei fingindo desmaiar: «Estou arruinado!»
Acreditaram. Nunca mais ninguem me procurou para saber a resposta que eu daria aos memoriaes e aos requerimentos.
D'alli a instantes:
—Em Maçãs de D. Maria tambem me aconteceu um caso muito ratão. Eu tinha ido lá para arrematar uma quinta, que devia ir á praça n'esse dia. Mas, por qualquer motivo, não se realisou a arrematação. Logo souberam, porém, ao que eu ia. Á noite, armaram um bailarico, e convidaram-me para assistir. Houve descantes em minha honra. Mas no dia seguinte, realisava-se a festa de um santo qualquer e vieram dizer-me que eu tinha de pagar a missa e o sermão, porque era costume da terra que toda a pessoa que alli fosse pela primeira vez, e recebesse a honra de um bailarico, fizesse á sua custa a festa d'aquelle santo.
No club, á noite:{32}
—Uma vez, na Narazeth, lembramo-nos de ir todos para o club vestidos com o fato do banho. Imaginem que risota?!
—Mas as senhoras? O que disseram as senhoras a isso? pergunta alguem, do lado.
O fallador não se atrapalha:
—Ah! as senhoras não foram n'essa noite ao club...
O silencioso—Ouve tudo calado, mascando no seu charuto. Não aventa uma ideia, não arrisca uma opinião. Não quer conhecer ninguem. Os outros banhistas que se riem do fallador, riem-se igualmente do silencioso. Ao cabo de vinte dias de praia, o silencioso aventura-se a proferir uma palavra ou duas. Em vez de levar apenas a mão ao chapeu, rompe neste excesso de eloquencia: «Muito bons dias» ou «Muito boas noites». Cinco dias depois, já cumprimenta um ou outro pelo seu nome. E no fim do mez, quando parecia resolvido a fallar, vae-se embora!
Uma vez, n'uma praia, appareceu um silencioso d'estes. Havia um fallador, que embirrava muito com elle. Era natural.
—Eu hei de obrigar a fallar este diabo...
Fazia-lhe uma pergunta, e o homem contentava-se com encolher os hombros.
—Não importa! Eu hei de obrigar a fallar este diabo... dizia o fallador assim que o silencioso voltava costas.{33}
—O cavalheiro toma banhos?
O silencioso meneiava affirmativamente ou negativamente a cabeça.
Desesperado, o fallador, estando certo dia a contar uma das suas muitas historias, fingiu-se distraido, e pisou o outro.
—Que bruto! exclamou o silencioso.
—Mas... fallou! gritou cheio de jubilo o fallador.
O generoso—Vá, rapazes, lembrem-se vocês d'alguma festa, e contem commigo. Póde-se tirar partido de tanta coisa! Querem um arraial? Eu dou o fogo de vistas. Querem uma reg ata? Eu dou os premios. Querem uma burricada? Eu dou os burros.
—Não os ha, diz alguem, do lado.
—Qual não ha! Tudo são difficuldades! Já não ha rapazes!...
—O que não ha são burros.
—Burros! ha sim, sr. Eu encarrego-me de os mandar vir pelo caminho de ferro ou, se tanto fôr preciso, pelo telegrapho. Onde ha dinheiro, ha tudo.
O sovina—Andam ahi a fazer uma subscripção? Tem graça! Quem encommendou o sermão, que o pague. Eu nunca na minha vida dei dez réis para divertir os outros. Pelo contrario, o que eu quero é que os outros me divirtam a mim. Agora uma soirée! Não vou a parte nenhuma para tomar chá. Tomo-o em minha casa{34} quando quero. De mais a mais uma soirée com bolos saloios, que quebram os dentes á gente! E chá de herva cidreira ainda por cima! No chá não se admitte meio termo: ou bom ou nada. Eu não gosto senão do Hyson. E depois dá cá dez tostões! Ora que tal está a maroteira! Queriam dançar? Dançassem a sêcco. Quanto mais leve se está, melhor se dança!
O pai extremoso—É a primeira vez que o cavalheiro vem a esta praia?
—Sim, sr.; é a primeira vez.
—Então hade conhecer poucas senhoras?
—Muito poucas.
—É uma contrariedade para quem gosta de dançar. O cavalheiro dança?
—Gosto muito.
—Pois bem, esta noite queira procurar-me no club, que eu o apresentarei a tres ou quatro senhoras.
—Oh! mil vezes obrigado.
—Se me não custa nada!
Á noite, no club, o pai extremoso procede ás promettidas apresentações.
—Tenho a honra de apresentar ao cavalheiro minha filha Engracia.
E passando em claro apenas uma cadeira:
—Tenho a honra de apresentar ao cavalheiro minha filha Cecilia.
E duas cadeiras mais adeante:{35}
—Tenho a honra de apresentar ao cavalheiro minha filha Conceição.
Depois, filando o apresentado pela lapella do frack:
—Agora já o cavalheiro tem muito com quem dançar. Para o caso, porém, de querer variar um pouco, apresento-lhe ainda a minha Mimi, que tem apenas nove annos, mas que gosta muito de dançar. Aprendeu com o Justino Soares, e elle disse-me quando viemos para cá: «Esta menina ha de vir a dançar ainda melhor que as irmãs!»
O pai indiferente.—Passo.
O filho mais novo, chegando-se ao pé da mesa do voltarete:
—Manda dizer a mamã se faz favor de ir á sala para arranjar um par para a mana. Ella ainda não dançou.
—Diz á mamã que vou já.
D'ahi a pouco volta o pequeno:
—Faz favor de lá ir, que se vai dançar uma quadrilha.
—Peço licença.
—Que diz o papá?
—Que já lá vou.
—Então eu espero pelo papá.
—Isto não tem discussão possivel: cinco matadores.
—Venha d'ahi, papá.
—Dois de licença, cinco de matadores, dois de cinco primeiras: nove.{36}
—Olhe, papá, já começou a quadrilha!
—Quando se dançar outra, vem chamar-me.
O commodista—Meninas, olhem que já são dez horas.
—Ámanhã é dia santo, papá.
—Ó Jeremias! deixa dançar as pequenas mais um bocado...
—Perde-se todo o effeito dos banhos com estas noitadas!
—É só mais um bocado...
—Nada! nada! já estou com muito somno.
—Vê se o espalhas.
—A Rosa já deve ter feito o chá.
—És massador!
—Ai que deixei a janella do quarto aberta, e entram os mosquitos! Vamos lá depressa...
O sucio—Eu cá sou de feição. Não gostei nunca de desmanchar prazeres. Podem dançar á vontade, que eu vou vêr jogar.
E vae para a rua conversar com as raparigas do povo, que espreitam á porta do club.
Uma hora depois, volta á sala.
—Então, ainda querem dançar mais?
—Só mais uma valsa.
—Pois sim! Eu cá não quero ser desmancha-prazeres. Vou lêr os jornaes, que remedio!
E torna para a porta do club a conversar com as raparigas do povo.
—Ó Melôa, já te vaes embora?{37}
—Já, sim, sr., e não tenho medo dos ladrões.
—Pois fazes mal. Espera ahi, que eu acompanho-te. Sempre é bom acautelar...
O indigena da praia—Quem diabo serão os patuscos, que andam a tocar trompa a esta hora?! Estava no melhor do meu somno! Corja de patifes!
Os da trompa—Sopra-lhe ahi com força para accordares o Diamantino, que me vendeu um fato de banho por mais seis tostões. Patife!{38}
V
Casos...
Conta-se a anecdota de certo prelado de uma diocese do Alemtejo, homem de lettras afamado, que viveu no tempo do marquez de Pombal e que, em estando entregue aos seus trabalhos litterarios, de nada mais queria saber.
Um anno, pelo tempo das boas-festas, estava o bispo sentado á banca, no seu vasto escriptorio—um salão do paço episcopal—quando um diocesano entrou para cumprimental-o.
O prelado não deu tento da entrada do homem, tanto era o interesse que lhe merecia o assumpto de que estava tratando.
—Sr. bispo! apostrophou timidamente o recem-chegado.
O bispo não ouviu.
—Sr. bispo! tornou a exclamar o visitante.
Nada! O bispo não ouvia.{39}
Então, muito compromettido, o visitante resolveu-se a empurrar uma cadeira para fazer barulho.
O bispo voltou de subito a cabeça. Viu-o, e perguntou:
—O que é que quer?
—Eu vinha visitar v. ex.ª
E o bispo, continuando a escrever, respondeu:
—Pois visite, visite.
*
* *
O curso do quinto anno de direito estava simulando audiencias, como é costume, fazendo um estudante de juiz, outro de escrivão do processo, outro de official de diligencias, etc.
Constituiu-se o tribunal, e o professor da cadeira disse ao estudante que representava de juiz:
—Ha sussurro na sala. O que faz o sr. juiz?
—Toco a campainha, e recommendo silencio ao auditorio.
Mas o professor insistiu:
—Continua o sussurro. O que faz o sr. juiz?
—Torno a tocar a campainha, e de novo recommendo silencio.
—Mas supponha que não basta isso. O sussurro continua.{40}
—N'esse caso, direi: Official, tome nota das pessoas que estão fazendo sussurro, para serem autuadas.
—Mas o sussurro redobra.
E o estudante, já muito atarantado, exclama:
—Redobra!
—Sim, senhor,—o sussurro redobra.
O estudante pensa um momento...
—Então, insiste o professor, o que fazia o sr. juiz?
—Eu? Eu fazia isto: punha o chapeu na cabeça e dizia: Está levantada a sessão.
Riu o professor, riu todo o curso, e o estudante salvou-se da entalação d'aquelle dia,—por ter tido uma idéa e um chapeu.
*
* *
Havia um grande capitalista, que, por ter um sobrinho muito extravagante, já lhe não queria dar vintem.
Um dia appareceu-lhe o sobrinho annunciando que ia partir para os Estados Unidos, onde poderia vender melhor do que em Portugal, dizia elle, o segredo de uma invenção maravilhosa.
O tio, picado de curiosidade, quiz saber no que consistia a maravilhosa invenção. Recusa do sobrinho. Insistencia do tio. Finalmente, o{41} sobrinho revelou o seu segredo: tinha descoberto o processo de fazer oiro. O tio, tão rico como ambicioso, resolve comprar-lhe o segredo por seis contos de réis. O sobrinho, simulando alguma difficuldade, acaba por vender-lhe a receita, que o tio paga immediatamente. Concluida a transacção, despedem-se, mas, já no fundo da escada, diz o sobrinho ao tio:
—Ah! esquecia-me uma coisa, meu tio. Para que a receita dê resultado satisfatorio, é preciso que o tio, quando quizer fazer oiro, não se lembre do elephante branco.
E saiu com o dinheiro na algibeira.
O tio tratou de montar o seu laboratorio, e de realisar a receita. Mas, por mais que quizesse affastar do seu espirito a idéa do elephante branco, essa terrivel idéa acudia-lhe sempre, pelo que jámais conseguiu tirar da compra que fizera o resultado que esperava...
*
* *
Não sei quando, nem mesmo onde, existiam dois esposos, que se enriqueceram... de filhos. A boa fortuna parecia apostada em querer que elles esgotassem todos os nomes do Flos sanctorum.
Começaram pelos vulgares. Os primeiros filhos chamaram-se Manuel, Joaquim, Antonio, João. Depois passaram a escolher nomes romanticos:{42} Arthur, Laura, Beatriz, Egberto. Por ultimo, tiveram que lançar mão dos nomes mais esquisitos e arrevesados: Cunegundes, Tecla, Mafalda, Thimoteo.
Um dia, quando já era difficil saber a conta de todos os filhos, e acertar-lhes de prompto com os nomes, saiu o pae a passeio e, longe de casa, encontrou na rua uma creança que chorava, escondendo o rosto entre as mãos.
Apiedou-se, dirigiu-se á creança, levantou-lhe a cabeça, achou que tinha uns olhos bonitos, e disse-lhe:
—O que fazes tu por aqui, meu menino!
—Ando perdido.
—Pobre creança! Sabes quem é a tua familia?
—Não estou bem certo d'isso, meu sr.
—Tens fome?
—Muita, muita.
—E frio?
—Muito frio...
—Está bem, anda d'ahi comigo.
Onde ia elle levar a creança? Ora! onde é que o negociante feliz vai depositar os seus lucros? No Banco. Pois o Banco onde esse feliz casado enthesourava todos os lucros da sua prosperidade conjugal era... a sua propria casa,—o seu lar.
Chega elle, muito contente, com a creança pela mão.{43}
—Querida mulher! disse ao entrar em casa. Trago-te mais uma creança...
—Outra?!
—Sim, filha, tu és bondosa, compassiva, has de comprehender o impulso do meu coração.
—O que queres dizer?
—Quero dizer que encontrei na rua, abandonada, esta pobre creança, que não sabe ao certo quem são os seus pais e onde moram.
E o pequeno, escondendo o rosto choroso entre as mãos, arquejava, soluçava...
—Vendo-o, pensei commigo mesmo: Onde cabem vinte, podem caber vinte e um. Eis aqui está o que eu pensei, e trouxe-o commigo.
—Que Deus nos ajude, homem! mas já estávamos tão sobrecarregados!
—Quando tinhamos apenas seis filhos já diziamos isso mesmo! E comtudo tem havido logar para todos, nenhum d'elles ainda morreu de fome.
—Pois bem! fique o pequeno.
A creança conservava-se ao canto da casa, soluçando, arquejando.
—Disseste que era bonito o pequeno?
—Olha para elle, e verás os lindos olhos que tem!
—Levanta a cabeça, meu menino.
A creança não se mexia. Arquejava, soluçava.
Então foi preciso levantar-lhe a cabeça quasi á força.{44}
—Ora esta! exclama a dona da casa.
—O que é?! pergunta o marido.
—É o nosso Augusto!
Eram tantos, que já nem o pai os conhecia!
*
* *
Sabem o que é muito difficil no carnaval?
É encontrar um companheiro que nos não incommode e que nos não contrarie.
Ah! isso é que é muito difficil!
Eu apenas conheço um caso em que certo amigo meu poude encontrar o melhor dos companheiros para um baile de mascaras.
Esse companheiro era um general, que parecia excellentemente disposto: alto, forte, com um bello bigode branco, e algum brilho ainda nos olhos.
O meu amigo convidou-o para irem a um baile de mascaras. Acceitou logo. Foram.
Uma vez no baile de mascaras, o meu amigo sentou-se junto a duas mulheres mascaradas. O general tambem. O meu amigo fallava-lhes. Ellas respondiam. Só o general estava calado, parecendo comtudo excellentemente disposto.
Convidou-as o meu amigo para irem ceiar todos juntos. O general não oppôz a menor resistencia.
—Pois sim! vamos lá ceiar, disse elle.{45}
Foram ceiar.
As mulheres tiraram a mascara. O meu amigo disse a uma das mulheres que gostava muito d'ella, o general não disse nada á outra.
Comeram. O general comeu tambem. No fim da ceia, queimaram todos quatro as suas cigarrilhas. O general parecia excellentemente disposto. Desabotoou o collete, repotreou-se na cadeira, accendeu segunda cigarrilha.
Veiu a conta. O meu amigo quiz pagar toda a despeza; o general não consentiu, quiz pagar tambem a sua parte.
Sairam.
O meu amigo, voltando-se para o general, disse-lhe:
—E agora?
O general, parecendo sempre muito bem disposto, inclinou-se ao ouvido do meu amigo, e disse-lhe:
—Olhe, meu caro, eu já não tenho condição nenhuma para gostar de um baile de mascaras.
E o meu amigo, sem se desconcertar, sem se surprehender, offereceu o braço direito a uma das mulheres, o braço esquerdo á outra, e disse ao general, que continuava a parecer muito bem disposto:
—Boa noite, general.{46}
*
* *
Certo estudante, tendo faltado ás aulas, apresentou uma certidão de doença, falsa.
O medico que a passára era uzeiro e vezeiro em justificar a cabula dos estudantes, que lhe pagavam a justificação.
Do alto da cathedra, o professor, tendo relanceado os olhos á assignatura da certidão, perguntou:
—Ó sr. Fulano! se estivesse doente chamava este medico para o tratar?
O estudante respondeu com promptidão e firmeza:
—Não, senhor.
*
* *
Tinha Antonio Feliciano de Castilho ido ao Rio de Janeiro, e fôra recebido em audiencia particular pelo imperador D. Pedro II.
A conversação versou, como era natural, sobre assumptos litterarios.
Castilho havia sido prevenido de que o imperador, por amor á discussão com homens notaveis, gostava de que elles o contrariassem nas suas opiniões.
Assim avisado, se o imperador dizia que tal{47} objecto era branco, Castilho sustentava que esse mesmo objecto era preto.
O sr. D. Pedro II estava delirante de alegria, e propositadamente prolongava a conversação.
Veiu a ponto fallarem de versos alexandrinos.
O imperador declarou que não gostava do verso alexandrino, de que, como se sabe, Castilho era enthusiasta.
—Ser-me-ha licito, disse Castilho, perguntar a vossa magestade os fundamentos da sua opinião?
—Acho o alexandrino—replicou D. Pedro II, um metro inutil, por isso que é composto de dois versos de seis syllabas. Digam francamente que fazem versos de seis syllabas, e escusam de baptisar cada parelha de seis syllabas com o pomposo nome de alexandrinos.
Castilho replicou:
—O que faz vossa magestade quando tem sêde?
O imperador sorriu-se, e respondeu:
—Bebo agua.
—Ora muito bem! tornou Castilho, mas se vossa magestade beber agua por dois copinhos, não fica tão satisfeito como tendo-a bebido de um só trago por um copasio enorme.{48}
*
* *
Um homem que se dava excellentemente com a mulher, e que tinha trez filhas muito bonitas e trez filhos muito espertos, não podia soffrer a sogra,—como quasi sempre acontece.
Um dia, ella adoeceu gravemente, muito gravemente. Foi preciso chamar o medico que, depois de lhe vêr a lingua e tomar o pulso, torceu o nariz.
—Isto não está bom! disse o medico.
—O que se ha de fazer então?
—Deitar-lhe bichas, já, immediatamente.
Mandou-se, sem perda de tempo, buscar as bichas, muitas bichas.
O bom do genro assistiu á chegada das bichas, viu-as deitar, chegou mesmo a perguntar se ellas tinham feito bem o seu dever: morder na sogra.
Á noite, no club, dizia elle:
—Assisti hoje a um combate de feras.
—Como assim?!
—Vi deitar duas duzias de bichas em minha sogra...
*
* *
Certo professor de medicina perguntava a um estudante:{49}
—Por que é que no tratamento das feridas se emprega o panno de linho velho?
O estudante procurou qualquer razão, e disse-a.
—Não, sr., replicou o cathedratico.
O estudante tratou de procurar outra razão.
Observação do professor:
—Tambem não.
O estudante dá ainda tratos á cabeça para descobrir uma terceira razão.
Então o professor resolve-se a fazer luz no assumpto:
—Por duas razões, e nenhuma d'ellas o sr. foi capaz de descobrir! 1.ª Porque o panno de linho velho é mais barato. 2.ª Porque o panno de linho novo é mais caro.
*
* *
Eu estava uma vez no escriptorio de um advogado meu amigo, homem de lettras, jornalista principalmente, que me pedira que esperasse emquanto elle acabava de escrever um artigo de fundo.
A penna rangia vertiginosamente sobre o papel.
Eis senão quando entra um saloio.
—Que é? perguntou o advogado escrevendo sempre.{50}
O saloio respondeu:
—Vinha consultar v. ex.ª sobre uma pequena questão.
—Vá dizendo.
O saloio olhou para o advogado, olhou para mim e olhou para um espelho que havia no escriptorio. Estava embaraçado, duvidoso de expôr o seu assumpto sem que o advogado se prestasse a dar-lhe toda a attenção.
—Vá dizendo, repetiu o advogado.
—Sr. dr.: Ha na minha terra uma mulher de má lingua, que traz todo o logar embrulhado. Por causa d'ella lavram inimisades de familia, questões entre casados, o diabo! Mas de cara a cara ella não se mette com ninguem; é só por traz da cortina. Veiu para lá ha tres annos, comprou uma casita, e trabalha de tecedeira. Mas o que ella tece melhor são intrigas. Por sua causa estou de mal com meu sogro e com meu cunhado. Eu e outros mais da freguezia queremos pôl-a fóra do logar, mas não sabemos a quem havemos de requerer...
E calou-se. O advogado continuava escrevendo.
—Não sabemos a quem havemos de requerer... repetiu o saloio.
O advogado não respondeu.
—Sr. dr., perguntou o saloio, a quem havemos nós de requerer?
O advogado nem palavra.{51}
Mas o saloio não desistiu. Aproximou-se da banca, e tornou a perguntar curvando-se até quasi juntar a sua cabeça com a do advogado:
—A quem havemos nós de requerer, sr. dr.?
—A D. Miguel, respondeu o advogado continuando sempre a escrever.
*
* *
Quem conhecia bem a formiga era um certo lavrador do Alemtejo, cujo celleiro as formigas tinham invadido como praga damninha.
Elle consultou todos os chimicos afamados para que lhe vendessem um ingrediente que as matasse.
A droga que lhe receitou o boticario da sua terra, não deu resultado. Veiu de proposito a Lisboa, conversou sobre o assumpto com os mais conspicuos pharmaceuticos da capital.
—Faça isto.
—Faça aquillo.
—Faça aquell'outro.
Nada deu resultado. Um dia, na charneca, aconselhou-se com um pastor. Obrigados, pela solidão em que vivem, á observação da natureza e á philosophia da experiencia, os pastores da charneca têem ás vezes phrases conceituosas, alvitres sapientissimos.
O pastor deu-lhe um conselho, que valia mais do que as drogas dos pharmaceuticos.{52}
Chegado a casa, o lavrador pegou n'uma tira de papel, escreveu n'ella algumas palavras, e foi pregal-a na porta do celleiro.
Legiões de formigas avançavam, pelo veso, em demanda das tulhas. Mas logo que avistavam a porta, e liam o lettreiro, retrocediam como que embuchadas.
No dia seguinte, a mesma coisa. O pastor tinha aconselhado um remedio excellente.
O que escreveu o lavrador no papel? Esta simples phrase:
«De hoje em deante, toda a formiga que entrar no meu celleiro ha de pagar dez réis—por cabeça.»
Ora como as formigas são essencialmente avarentas, chegavam á porta do celleiro, liam o papel, e desandavam para a toca, não sabendo ao certo se o lavrador gracejaria ou fallaria verdade.
*
* *
Um moço de fretes costumava ir confessar-se todos os annos, mas fazia a sua chorata ao prior para não ter que pagar a desarrisca. De uma vez, porque lhe parecesse que o prior se aborrecia com a choradeira, que era fingida, andou a procurar entre os seus patacos um que tinha peor cara e que por isso mesmo era mais duvidoso.{53}
Foi confessar-se, muito contricto, com o pataco falso na algibeira. Antes de receber Nosso Pae, pensando sempre em Deus e no pataco, dirigiu-se para a sachristia.
—Sr. prior, disse elle, eu tenho abusado muito da bondade de v. s.ª
—Nem por isso, Ramon...
—Tenho, tenho, sr. prior, mas este anno não ha de ser assim.
E, dizendo, tirava vagarosamente da algibeira do collete o que quer que fosse.
—Este anno, continuou, quero pagar a desarrisca. Se o sr. prior estiver pelos autos, ficará o costume de eu pagar de dois em dois annos.
—Pois seja como quizeres.
E o moço de fretes, tirando o pataco da algibeira, pôl-o a um canto da mesa em que o prior estava escrevendo no livro.
—É poucochinho, sr. prior, mas os annos vão muito bicudos...
—Não fallemos mais n'isso.
—Sempre chega para o rapé. Este pataquinho é para o rapé do sr. prior.
—Pois seja.
E o prior, voltando-se para o menino do côro, que estava perto, disse-lhe imperativamente:
—Ó Zé Maria, vae-me ali defronte comprar um pataco de meio grosso.
O Zé Maria sahiu, a correr, e o moço de fretes,{54} sempre muito contricto, foi ajoelhar-se á mesa da communhão, esperando pelo prior.
Um instante depois, o menino do côro entrava na sachristia com o rapé e com o pataco.
—Sr. prior, disse elle, não quizeram receber o pataco.
—Por quê?
—Porque é falso como Judas. Mas obrigaram-me a trazer o rapé por ser para o sr. prior.
—Deixa lá vêr o pataco.
O prior pegou no dinheiro, levou-o á altura dos olhos, e riu-se. Levantou-se, preparou-se para ir dar a communhão.
Chegando á egreja, descobriu o moço de fretes, que estava já com o queixo muito embrulhado na toalha de rendas.
O prior foi distribuindo as sagradas particulas, mas quando chegou ao gallego, introduziu-lhe o pataco na bocca,—delicadamente.
Habituado a grandes pesos, o penitente nem sequer se admirou de que fosse tão pesada aquella estranha particula.
Mas quando quiz engulil-a, é que foram ellas!
E o prior, de pé, grave e solemne, esperava.
Bem voltas dava á lingua o gallego, mas não havia meio de engulir o pataco.
Até que, com alguma difficuldade, se resolveu a dizer:
—Não passa, sr. prior!{55}
E o prior, sempre muito grave e solemne respondeu-lhe:
—Não passa, não. Já mandei comprar rapé, e não o quizeram acceitar.
*
* *
—Por que é, perguntava um professor de agricultura, que as sementes precisam ser enterradas na terra?
—Por isto... dizia um estudante.
—Por aquillo... respondia outro.
O professor zangou-se:
—Não, sr.! É preciso enterrar as sementes para os passaros as não comerem.{56}