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Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3): Parte I, II cover

Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3): Parte I, II

Chapter 103: NOTAS DE RODAPÉ:
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About This Book

The work offers a systematic geographical and historical survey of Portugal, pairing detailed local descriptions and river, town, and provincial notices with political and secular history. It explains mapmaking principles—latitude and longitude, meridians, tropics, poles, and the use of lunar eclipses to estimate longitudes—and discusses variations among cartographers' coordinates. The author aims to correct foreign misconceptions by providing precise measurements, comparative tables of coordinates, and annotated maps. The text combines practical instructions for reading maps with regional topography and place-by-place entries intended for both native and foreign readers.

CAPITULO XI.
Do acompanhamento, com que os Reys sahiaõ pela Cidade, e caminhavaõ com a Corte.

1 Quando os Reys caminhavaõ pela Cidade, hiaõ nesta fórma: Os Porteiros da cana, e os Reys de armas precediaõ a todos a cavallo, e descubertos. Depois os Moços da estribeira tambem descubertos. Seguia-se o Estribeiro Mór a cavallo, e cuberto. Dahi a espaço a pessoa delRey; e atrás delle todos os Fidalgos a cavallo cubertos sem ordem. Só havendo algum Infante, ou Senhor grande, hia este mais chegado à Pessoa delRey, conforme o parentesco. Sendo dia solemne, hiaõ os trombetas, e timbales diante delRey.

2 Na Cidade naõ usaraõ alguns Reys de guarda. ElRey D. Joaõ II. e ElRey D. Manoel a traziaõ: já ElRey D. Joaõ III. muitas vezes usava sahir fóra só com dous Porteiros da cana diante de si, a que alludio Francisco de Sá e Miranda, quando disse:[874]

Que se póde ir mais à vante
Com quanto alcança o sentido,
Sem ferro, ou fogo, que espante,
Com duas canas diante
His amado, e his temido.

ElRey D. Sebastiaõ pelos muitos estrangeiros, que havia em Lisboa, introduzio a guarda de pé de Alabardeiros Portuguezes, e naõ Tedescos, com seu Capitaõ Fidalgo dos principaes. ElRey Filippe II. admittio guarda Tedesca, e a deixou ao Archiduque Alberto, depois do qual se continuou com os Governadores, e Vice-Reys. ElRey D. Joaõ IV. fez duas Companhias de guarda, huma de Alemães, outra de Portuguezes, como explica o douto, e diligente Padre D. Luiz de Lima.[875]

3 Tinhaõ por costume os Senhores Reys ir fóra todos os Domingos depois de jantar ver correr a carreira, e algumas vezes elles mesmos a corriaõ.[876] Para isto se ajuntavaõ além dos familiares do Paço muita outra gente dos contornos, onde ElRey estava, e corriaõ diante delle a cavallo. Eraõ os Reys taõ benignos, e humanos, que quando hiaõ pelas ruas, e viaõ alguns homens nobres à porta, se detinhaõ, e fallavaõ com elles.[877] Honravaõ tanto a seus criados, que a alguns hiaõ levar a suas casas em dia de noivado: assim se lê delRey D. Joaõ III. que recebendo-se nos Paços dos Estáos (hoje da Inquisiçaõ) Dona Maria de Menezes com o avô de D. Antaõ de Almada, sahio ElRey acompanhando-a, atravessou o Rocio, e chegou até à esquina das casas de D. Braz da Silveira; e apontando para as dos Almadas, lhe disse galantemente: Dona Maria, até aqui cheguey para vos mostrar as vossas casas, porque vos naõ enganassem, e levassem a outras.[878]

4 Quando ElRey hia fóra da Corte, o acompanhavaõ ordinariamente os moradores da sua Casa, Conselho de Estado, e outra muita gente, que o seguia, assim por este respeito, como por seus requerimentos, e despachos; pelo que em qualquer parte, que a Corte estava, havia tanta frequencia, como em huma boa Cidade, e por isso ordenaraõ que a Corte trouxesse comsigo todos os Officiaes assim politicos, como de justiça, que saõ necessarios para o governo de huma Republica. Eraõ estes o Aposentador Mór, Almotacé Mór, Correyo Mór, Corregedores do Crime da Corte, Corregedores do Civel com seus Officiaes de justiça inferiores.

5 O Aposentador Mór tem por obrigaçaõ ir diante da Corte hum, ou dous dias, para ter prevenido o alojamento delRey; porque he costume antigo neste Reino aposentarem os moradores de qualquer povo a ElRey, e sua Corte, dando a metade das casas para se recolherem os que acompanhaõ a ElRey. Esta distribuiçaõ de aposentos faz o Aposentador Mór, e he Juiz de todas as duvidas, que sobre esta materia occorrerem. Hoje anda este Officio na Casa dos illustrissimos Condes de Santiago.[879]

6 Ao Almotacé Mór pertence prover a Corte, onde quer que estiver, de mantimentos, e para isso tem grande jurisdiçaõ, que se extende cinco leguas da Corte. Antes que ElRey faça jornada para alguma parte, manda adiante fazer promptos os mantimentos, e convocar certo numero de Regatões, que chamaõ da Corte, cujos officios elle dá, os quaes tem por obrigaçaõ prover a Corte de caça, e do mais preciso, com tanto que naõ tragaõ os mantimentos dos povos cinco leguas à roda do lugar, onde a Corte está; e para ser provida melhor, quando a Corte está fóra de Lisboa, se quita meya ciza a quaesquer outros Regatões, a que fóra das cinco leguas trazem mantimentos. Anda este cargo de Almotacé Mór em Joaõ Gonçalves da Camera Coutinho.[880]

7 Ao Correyo Mór compete prover de cavalgaduras para os moradores da Corte caminharem, e pôr as postas ordinarias no Reino; e quando ElRey corre a posta, serve elle de Postilhaõ. Despacha os Correyos ordinarios de pé, e cavallo, assim para o Reino, como para fóra delle. A propiedade deste officio concedeo D. Filippe II. e confirmou ElRey D. Joaõ de juro e herdade à Familia dos Matas.[881] Nestas jornadas usavaõ os Reys às vezes de guarda cavalleiros, e particularmente a trazia ElRey D. Joaõ II. a quem sempre acompanhava o Capitaõ dos Ginetes com ella. ElRey D. Manoel lhe accrescentou o numero, que faziaõ duzentos Cavalleiros, que com o mesmo Capitaõ lhe precediaõ sempre.

8 Com a mudança de governo houve tambem mudanças na formalidade da guarda Real. Para idéa da que hoje se pratica nas funções solemnes, mostraremos brevemente a ordem, com que as Pessoas Reaes caminharaõ de Elvas para o Caya em 19 de janeiro de 1729 para as reciprocas entregas, e desposorios dos Principes, e Princezas. Principiava aquelle vistoso acompanhamento por mais de quarenta coches dos Fidalgos titulares do Reino, a mayor parte delles tirados a seis frizões. Seguia-se huma partida de quinze Cavalleiros com hum Alferes, vinte e quatro trombetas, e atabaleiros da Casa Real vestidos de veludo carmesim apassamanados de galões de ouro. Logo os cavallos de maõ dos Infantes D. Francisco, e D. Antonio cubertos de telizes de veludo verde bordados de ouro, e trinta delRey, do Principe, e do seu Estribeiro Mór. Depois marchava hum Tenente com quinze cavallos, e logo doze postilhões de gabinete com fardas de panno encarnado com alamares de prata. Seguiaõ-se muitos coches, e berlindas, em que hiaõ muitos Officiaes do Paço de mayor graduaçaõ. Logo os coches de respeito dos Infantes, da Princeza, do Principe, e delRey, e ultimamente o coche magnifico, em que hia a Familia Real, e atrás delle muitos moços da estribeira a cavallo, e sete berlindas com as Camareiras Móres, e outras Senhoras, e cento e trinta seges da Familia, e no fim de tudo hum esquadraõ de guarda com quinhentos cavallos, que desde Lisboa foraõ acompanhando a ElRey, e governavaõ quatro Fidalgos da primeira Nobreza. Naõ fallamos na magnificencia, e magestosa pompa desta jornada mais extensamente, porque se póde ver nos Authores allegados;[882] só advertimos, que para esta funçaõ mandou ElRey que a libré antiga da Serenissima Casa de Bragança, que era de panno silvado de verde e branco guarnecida de galões de prata, se mudasse sómente para a sua Casa Real, da Rainha, e Principes do Brasil na cor, de que usaraõ os antigos Reys, que era de panno encarnado com os cabos, e vesteas azuis agaloadas de prata, e aos Archeiros da guarda da mesma cor com a differença de serem os galões de ouro.[883]

NOTAS DE RODAPÉ:

[874] Sá de Mirand. Epist. 1.

[875] Lim. Geogr. Histor. part. 1. p. 399.

[876] Goes Chronic. delRey D. Manoel p. 341.

[877] Clede tom. 3. pag. mihi 421. na vida delRey D. Joaõ II.

[878] Sous. Histor. Geneal. tom. 4. p. 258.

[879] Veja-se a Pegas à Orden. t. 13 add. t. 5. gloss. 2. num. 100. Far. no Epitom. pag. mihi 665. Villasb. na Nobiliarq. Port. cap. 12. Lima Geogr. Histor. tom. 1. pag. 337. Navarret. Conservac. de las Monarq. cap. 20.

[880] Orden. liv. 1. tit. 18.

[881] Corogr. Portug. tom. 3. p. 390.