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Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3): Parte I, II cover

Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3): Parte I, II

Chapter 105: NOTAS DE RODAPÉ:
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About This Book

The work offers a systematic geographical and historical survey of Portugal, pairing detailed local descriptions and river, town, and provincial notices with political and secular history. It explains mapmaking principles—latitude and longitude, meridians, tropics, poles, and the use of lunar eclipses to estimate longitudes—and discusses variations among cartographers' coordinates. The author aims to correct foreign misconceptions by providing precise measurements, comparative tables of coordinates, and annotated maps. The text combines practical instructions for reading maps with regional topography and place-by-place entries intended for both native and foreign readers.

CAPITULO XII.
Dos Officiaes destinados para a caça, e montaria, e das principaes coutadas do Reino.

1 O Exercicio da caça assim de volateria, como de montaria foy sempre a mais ordinaria recreaçaõ dos Reys Portuguezes, para a qual mantinhaõ com grande pompa Officiaes, e Caçadores, que fossem destros, e intelligentes em semelhantes artes.[884] Do Infante D. Duarte, filho delRey D. Manoel, se conta,[885] que era nelle taõ dominante este divertimento, que naõ reparava em descommodo algum só para matar hum veado, chegando muitas vezes a dormir vestido no campo exposto à inclemencia do tempo. Continuou este passatempo até o reinado delRey D. Sebastiaõ; depois conforme o genio, e inclinaçaõ dos Principes assim hia crescendo, ou diminuindo.

2 Quanto aos Officiaes para este ministerio, he o Monteiro Mór o que preside aos mais ministros da caça, o qual aceita todos os Monteiros de cavallo, e de pé, e moços do monte, de que ElRey se serve. Havia tambem Caçador Mór para a caça de volateria, e Falcoeiro Mór para a que se fazia com falcões. Hoje todas estas tres occupações unidas ao officio de Monteiro Mór andaõ na Familia dos Mellos.[886]

3 As coutadas antigas do Reino em tempo delRey D. Affonso V. occupavaõ grande quantidade de terra, e por isso pediraõ os povos a ElRey D. Joaõ II. nas Cortes de Montemór o Novo, que descoutasse parte dellas para os campos se poderem aproveitar, e se escusarem os damnos, que as caças silvestres faziaõ nas sementeiras. ElRey como Principe taõ amante de seus vassallos o consentio, e descoutou muitas terras. O mesmo fez ElRey D. Manoel nas Cortes de Lisboa de 1498,[4] e Filippe II. no anno 1594,[887] descoutou as montarias de Palmella, a de Montemór o Novo, a de Montemor o Velho, e a de Aveiro, ordenando que naõ houvesse mais coutadas que as de Lisboa, Cintra, Collares, Almeirim, e Salvaterra.

4 A coutada de Lisboa principiava das portas de Santo Antaõ, estrada direita até o Lugar de Bemfica, e de Bemfica até Agualva, e da Agualva a S. Marcos, e de S. Marcos a Oeiras, e daqui direito ao mar. As de Cintra, e Collares tinhaõ duas leguas em circuito ao redor de cada huma das ditas Villas. As de Almeirim, e Salvaterra principiava a sua demarcaçaõ de Santo Eustacio direito pela estrada de aguas vivas acima até as Simalhas, e dahi atravessando até a ribeira de Muja por cima da mouta das Corvas, e atravessando a dita ribeira para o Zebro, e arneiro dos Cruzentes, e daqui às Bezerras: dahi atravessando a ribeira da Lamarosa direito às Cortezinhas, e das Cortezinhas à Erra, depois pela estrada de Coruche, e pela mesma estrada abaixo até S. Romaõ, e logo a Santo Estevaõ, atravessando a ribeira de Canha direito para as casas de Belmonte, e dahi ao longo das terras do Duque até a ponta da mata de Payo Real, que parte as lavouras, e daqui pela banda do Tejo a Santo Eustacio.[888]

5 Naõ obstante isto, ficou sempre conservando as montarias de Santarem, que constaõ de muito mais de vinte e seis matas, com outras de particulares: as de Alenquer, as de Obidos com quinze matas, e outras particulares: as de Leiria com o famoso pinhal de quatro leguas de comprido, e huma de largo: as de Pombal, as de Coimbra, as de Coruche, as de Benavente, e as de Alcacere do Sal, onde junto ao rio, que vay para a dita Villa, ha hum pinhal de huma legua de comprido, e de largo hum quarto de legua bastecida de muita caça.

6 As mais notaveis coutadas, que servem hoje de divertimento aos Principes de Portugal, são as dos sitios de Alcantara, e Belém abundantes de perdizes, lebres, coelhos, e gamos: a deCintra, que se extende por dilatados bosques, cujo sitio excede em qualidades a todos os do Reino, e chega até a Villa de Cascaes, fertil todo o seu terreno de perdizes, lebres, coelhos, e de certa especie de caça de arribação, que a fertiliza nos mezes de Setembro, e Outubro. Ao Sul da serra de Cintra da parte opposta do rio corre a serra da Arrabida, taõ povoada de todo o genero de caça, e em particular de veados, que além de serem os mayores de toda a Hespanha, excedem em quantidade a outras coutadas do Reino, com tanto commodo para os Caçadores, quantas saõ as quintas, e casas de campo, que tem o seu assento nos vistosos, e fertilissimos sitios de Azeitaõ, Cezimbra, e Calhariz, situadas nas margens, e visinhanças da mesma serra.

7 Para o tempo de Inverno he a celebre coutada de Pancas, tres leguas de Lisboa da outra banda do rio, taõ fertil de todo o genero de caça, que em pouca distancia da terra costuma entreter muitos Caçadores. Tanta he a abundancia, e variedade, que no mesmo tempo se occupaõ os Monteiros em correr à lança grandes javalis, e generosos veados, e os Caçadores em tirar às perdizes, correr às lebres, e matar os coelhos, além de outra muita caça de arribaçaõ, que concorre às lagoas, e pantanos daquelle sitio. Com pouca mais distancia de leguas no termo da grande Villa de Setubal nas ribeiras do rio Sado estaõ as duas grandes coutadas do Pinheiro, e Palma, notaveis pela abundancia de veados, e porcos montezes muito pingues, e grande quantidade de perdizes, lebres, coelhos, e outras variedades de caças.

8 Apartadas de Lisboa dez, e quatorze leguas se seguem as Reaes Casas de campo de Salvaterra, e Almeirim, que pelo Tejo acima se communicaõ por mar, sendo o caminho de terra facil, ameno, e commodo pelo assento, e concurso de muitos lugares vistosos, que em toda aquella distancia se vaõ continuando por huma povoaçaõ successiva, onde a Corte se entretinha todos os annos por espaço de quarenta dias com diversos exercicios de passatempo.[889] Saõ ferteis de veados, porcos, e toda a especie de caça; commodas para as montarias de cavallo; faceis para as caçadas de lança, e de espigarda; abundantes nas volaterias; dispostas para o entretenimento das Damas com tal commodidade, que dos mesmos coches vem alancear os porcos, matar os veados, correr as lebres, apanhar os coelhos. e voar as aves tão suavemente, e sem fadiga, que na mayor distancia se escusa todo o desvelo, porque a fecundidade do sitio facilita os exercicios igualmente a quem os vê, e a quem os segue.

9 De mais destas grandes coutadas se aparta de Lisboa em distancia de trinta leguas aquella mais celebre da Serenissima Casa de Bragança, que com o nome de Tapada tem o seu assento em Villa Viçosa, aonde os javalis saõ ferozes, e muitos, e em grande quantidade os veados, e muita caça miuda, que ainda sendo o sitio fertil por natureza, os sustenta por maravilha.[890] Porém melhor que todas he a Tapada Real de Mafra, depois que se acabaraõ de fechar os seus muros pela circumvalaçaõ de tres leguas, servindo para mayor grandeza, e divertimento as Ermidas, bosques, rios, pontes, e outras officinas, que ha dentro do seu circuito, tudo igualmente magnifico, e perfeito.

NOTAS DE RODAPÉ:

[882] Sous. Histor. Geneal. tom. 8. p. 286. Barbos. nos Fast. da Lusit. tom 1. p. 229.

[883] Veja-se o livrinho Francez intitulado: Description de la Ville de Lisbonne pag. 82.

[884] Diogo Fernandes na Arte da caça de altanaria pag. 4.

[885] Dam. de Goes Chron. delRey D. Manoel part. 3. cap. 78. Sous. Histor. Geneal. tom. 3. p. 424.

[886] Vide Solano Succo de Peg. tom. 3. p. 413. Cabedo decis. 90. part. 2. Ord. liv. 3. tit. 5. e gloss. 2. n. 115. Villasboas Nobiliarq. Portug. cap. 12.

[887] Damiaõ de Goes Chronic. delRey D. Manoel part. 1. cap. 26.

[888] Veja-se o Regimento do Monteiro Mór.

[889] Luiz Mendes de Vasconcel. no Sitio de Lisboa p. 207. Nicol. de Oliveir nas Grandez. de Lisb. trat. 2. cap. 5. Brand. Monarq. Lusit. liv. 16. cap. 41 e liv. 18 cap. 2. Sous. Histor. de S. Doming. part. 2. pag. 256.

[890] Sous. Histor. Geneal. tom. 5. p. 559. e tom. 6. p. 408.