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Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3): Parte I, II cover

Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3): Parte I, II

Chapter 11: NOTAS DE RODAPÉ:
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About This Book

The work offers a systematic geographical and historical survey of Portugal, pairing detailed local descriptions and river, town, and provincial notices with political and secular history. It explains mapmaking principles—latitude and longitude, meridians, tropics, poles, and the use of lunar eclipses to estimate longitudes—and discusses variations among cartographers' coordinates. The author aims to correct foreign misconceptions by providing precise measurements, comparative tables of coordinates, and annotated maps. The text combines practical instructions for reading maps with regional topography and place-by-place entries intended for both native and foreign readers.

CAPITULO IV.
Divisaõ antiga.

1 Muitas foraõ as repartições, que antigamente houve neste nosso Paiz. Antes de conquistarem, e habitar Hespanha os Cartaginezes, e Romanos, toda ella estava dividida em muitas Provincias de póvos agrestes, que debaixo do nome geral de Ibéros se dividiaõ em Turdetanos, Celtas, Cantabros, Turdulos, e infinitos outros, de que depois trataremos. Vieraõ os Cartaginezes, e como se confederaraõ com a mayor parte daquellas gentes, conservaraõ as repartições das suas Comarcas.

2 Porém tanto que os Romanos metteraõ o pé em Hespanha, e começaraõ a contender com os Cartaginezes sobre o dominio das terras, que foy pelos annos 557 da fundaçaõ de Roma, dividiraõ toda ella em duas partes, a que chamaraõ Hespanha citerior, e Hespanha ulterior.[148] A citerior ficava para a parte de Italia, ou mais oriental ao rio Ebro, e foy a que os Romanos mais habitaraõ: a ulterior he a que ficava para o lado occidental do mesmo rio, e ficou na sujeiçaõ dos Cartaginezes. Todavia esta repartiçaõ se variava pela Republica Romana, conforme parecia aos seus interesses, accrescentando, ou diminuindo as terras de huma, ou de outra parte.

3 Acabou finalmente Octaviano Augusto de vencer na celebrada guerra Cantabrica aquelles Póvos, e mudando-lhes o governo, e limites, dividio a Hespanha em tres Provincias, a saber: Lusitanica, Betica, e Tarraconense. A Lusitanica incluia a mayor parte do que hoje chamamos Portugal, com outras muitas terras, que hoje pertencem ao Reino de Leaõ, e Provincia da Estremadura Castelhana. O rio Douro a separava pelo lado septentrional da Tarraconense; pelo oriental huma linha, que sahia do Douro quasi naquella parte, donde se incorpora com o rio Pisuerga, a qual linha descia a buscar o Guadiana, e este depois dividia a Lusitania da Betica até entrar no Oceano, cuja costa cercava o restante da Lusitania.

4 Nesta divisaõ de Augusto se confundiraõ os limites da primitiva Lusitania; porque elles começavaõ na foz do rio Tejo, e desde alli corria até o cabo de Finis terræ, e aquelle espaço depois situado entre os rios Tejo, e Guadiana, a que hoje chamamos Alentejo, e Algarve, naõ se chamava Lusitania, mas sim Celtica. Da mesma fórma padeceraõ alteraçaõ os confins da Betica, e Tarraconense, e daqui nasce a confusaõ entre os Authores como bem advertio o estudiosissimo Padre Argote.[149]

5 Corria o anno de Christo 118, quando o Imperador Elio Adriano, visitando as terras do seu Imperio, dividio a Hespanha em seis Provincias: Tarraconense, Cartaginense, Betica, Lusitania, Galiza, e Tingitania; e nesta divisaõ a Provincia do Minho ficava fóra da Lusitania, e se incluia na de Galiza, como bem mostra Floriaõ do Campo com particularidade, e certeza.[150] Constantino Magno fez outra divisaõ em sete Provincias, mas sem alterar as demarcações anteriores. Outras divisões querem alguns que fizessem os Romanos, mas saõ dubias.

6 O que temos por certo he, que os Romanos além destas repartições tinhaõ dividida cada huma das Provincias em Chancellarias, a que chamavaõ Conventos Juridicos, collocados nas Cidades mais insignes da Provincia, às quaes acudiaõ os póvos da Comarca para administraçaõ da justiça. Destes Conventos Juridicos, a que correspondem hoje as nossas Relações, havia quatorze em toda Hespanha: as que tocaraõ às nossas terras, foraõ tres: Braga, Béja, e Santarem.

7 Havia tambem algumas Cidades privilegiadas com o titulo de Municipios. Colonias eraõ aquellas, que tinhaõ sido fundadas por familias Romanas, e taes foraõ em nosso terreno Béja, e Santarem, além de outras tres, que hoje nos naõ pertencem, e gozavaõ seus Cidadãos do privilegio de Cidadãos Romanos. Municipios eraõ os que se governavaõ por Leys proprias, e estes foraõ Lisboa, Evora, Mertola, e Alcacer do Sal.

8 Extincto o dominio Romano, invadiraõ os Barbaros as Hespanhas o anno de 409 depois de Christo, e daqui por diante se alteraraõ notavelmente os limites das nossas Provincias em todas as subsequentes sujeições até o reinado delRey D. Fernando o Magno, o qual falleceo no anno de 1067, deixando repartido entre seus filhos as terras dos seus dominios; e cabendo as de Portugal a ElRey D. Garcia, desde entaõ se principiou a chamar Portugal o que era Lusitania. Declaradas pois as divisões antigas, passemos a expressar as modernas.

NOTAS DE RODAPÉ:

[148] Tit. Liv. lib. 36. cap. 28. Mela lib. 2. cap. 6. Solin. cap. 23. Strab. lib. 3. pag. 166.

[149] P. Argot. Antiguid. da Chancel. de Brag. p. 38. e nas Mem. do Arceb. de Brag. pag. 40. e 41.

[150] Isaac Vossio nas Notas a Pompon. Mela liv. 2. cap. 6. Flor. do Camp. liv. 1 cap. 3. Moral. liv. 7. cap. 2. Osorius ao Prolog. de reb Emman. Resend. Antiq. lib. 3. Estaç. Antig. de Portug. cap. 19. e 20. Plin. lib. 4. cap. 20. Volaterran. Geograph. lib. 1. Barreir. Corograf. pag. 90. Joaõ Salgad. Success. Milit. p. 168. vers.