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Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3): Parte I, II cover

Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3): Parte I, II

Chapter 41: NOTAS DE RODAPÉ:
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About This Book

The work offers a systematic geographical and historical survey of Portugal, pairing detailed local descriptions and river, town, and provincial notices with political and secular history. It explains mapmaking principles—latitude and longitude, meridians, tropics, poles, and the use of lunar eclipses to estimate longitudes—and discusses variations among cartographers' coordinates. The author aims to correct foreign misconceptions by providing precise measurements, comparative tables of coordinates, and annotated maps. The text combines practical instructions for reading maps with regional topography and place-by-place entries intended for both native and foreign readers.

CAPITULO II.
Estado da Lusitania com a invasaõ dos Fenices, e Cartaginezes.

1 Tanto que a armada Fenicia surgio no porto de Tavira, saltaraõ logo em terra os novos estrangeiros, e introduzindo-se por ella dentro, chegaraõ a invadir, e assolar Andaluzia, onde obrigaraõ os povos a que lhe trabalhassem na extracçaõ dos preciosos metaes, usando com elles inesperadas desattenções. Os Andaluzes achando-se por este modo turbados, e opprimidos, pediraõ soccorro aos Portuguezes Turdetanos seus visinhos. Declarou-se a guerra, fizeraõ-se promptos os batalhões, e logo neste primeiro combate principiou a brilhar o esforço Lusitano com a vitoria, que alcançou do Africano poder; porém o demasiado descuido dos Andaluzes fez eclipsar algum tanto a fama dos alliados; porque deixando respirar quasi à porta as forças do inimigo, pode este conquistar a Betica, paiz fertil, rico, e agradavel.

2 Por este tempo, que foy pouco mais, ou menos 589 annos antes de Christo, querem alguns Chronistas[497] que Nabucodonosor viesse, ou mandasse em alguns navios fornecidos de gente valerosa acometter os Tyrios, e Fenices, que occupavaõ a garganta do Oceano no estreito de Gibraltar, e que estes valendo-se do esforço dos Turdetanos, quebrantaraõ os projectos do soberbo Rey; porém esta expediçaõ he tida por duvidosa no exame da critica mais exacta.[498] O certo he, que humas esquadras de gente estrangeira vieraõ inquietar os Fenices: que os Turdetanos tomaraõ armas para os defender: que os Fenices em recompensa deste soccorro atacaraõ a seus bemfeitores: e que estes castigaraõ aquella vil ingratidaõ, expulsando-os naõ só da Betica, mas da Ilha de Cadiz.

3 Vendo-se os Fenices expulsos, e destroçados, foy o seu remanente buscar soccorro, e refugio a Sidonia, Cidade capital da Fenicia, e lá formando sufficientes reclutas, conduzio hum importante corpo de exercito, que commandava Mezerbal venturoso, e perito soldado. Começou a litigar com os Turdetanos, os quaes animados com o agigantado valor, e sciencia militar do inclyto Baucio Capeto, a quem Mariana chama Principe,[499] fizeraõ tal destroço no inimigo, que o proprio Mezerbal para salvar a vida lhe foy preciso desamparar o campo, e junto ao rio Gaudalete[500] deixou nas mãos de Baucio a segurança da vitoria com os preciosos despojos, que depois se expozeraõ como trofeos honorificos pendurados nas paredes dos Templos.

4 Dissimulou Mezerbal o estrago, ou a pena dos seus effeitos, e para mayor disfarce fez treguas com os Turdetanos. Pendentes ellas, e à sombra da paz mandou pedir a Cartago novos subsidios, com os quaes mais animoso, rompendo a suspensaõ das armas, atacou os Turdetanos, e os expedio da Betica. Retira-se Baucio à Lusitania, e os Turdetanos naõ querendo exporse a outra ruina, determinaraõ deixar a patria. Passaraõ o Guadiana, e o Tejo, padecendo nesta marcha muitos embaraços, porque os Gallegos pertenderaõ impedirlhes o passo misturados com Gregos, e Celtas; porém brilhando nesta resistencia o espirito varonil das matronas Portuguezas, triunfaraõ os Turdetanos de seus inimigos, e a vitoria ficou famosa com o titulo honroso de Empreza das mulheres, produzindo-se por meyo della a tranquillidade na Provincia do Minho.[501]

5 Em quanto estas acções se obravaõ na Lusitania, foraõ os Fenices sacudidos da Betica pelos Cartaginezes; e reforçados estes com as tropas auxiliares, que lhe vinhaõ de Cartago, se foraõ fazendo poderosissimos na conducta de Amilcar, Hasdrubal, Hymilcon, Hanon, e outros valerosos Capitães, principalmente Anibal, os quaes, estabelecendo pazes com os Lusitanos, experimentaraõ quanto era melhor a amizade com elles, que a desavença. Em muitas facções de perigo se valiaõ do valor dos nossos, e os nossos conservando sua alliança alcançaraõ vitorias dos Tyrios, e outros povos de Chipre, que vinhaõ com o designio de invadir a Lusitania com hostilidades, e insultos.

6 Passaremos agora em silencio os successos de alguns annos, porque a narraçaõ abbreviada, que expendemos, mais permitte à penna voos, que rasgos. Já os Romanos invejosos da fortuna, que dava conhecida vantagem ao poder dos Cartaginezes, tinhaõ publicado guerra contra elles; e provando alternativamente as armas em varios recontros, chegaraõ a ver mayor que a de Cartago a força Romana. Porém Anibal ainda assim com huma ousadia incomparavel, querendo resarcir tanto de reputaçaõ, quanto havia perdido de gente, partindo de Hespanha se introduz no coraçaõ de Italia à custa de immensos riscos a combater com os Romanos.

7 Constavaõ suas tropas, além de Africanos, de hum grande numero de Lusitana soldadesca, Vetones, Turdulos, e Celtas, da qual era Commandante Viriato I. A qualidade do exercito augmentou a intrepidez do coraçaõ de Anibal, e em todas as operações de brio, e honra nomeava os Lusitanos, que sempre valentes lhe corresponderaõ à idéa, e desempenharaõ o conceito; e assim foraõ elles os que contribuiraõ para o mayor numero das suas vitorias.[502] Elles foraõ os que em credito da robustez, e constancia de animo supportaraõ com admiravel paciencia a fome, a sede, e todas as fadigas de Marte; bastando a impraticavel passagem dos Alpes, em que até a mesma natureza venceraõ, como emula, para evidente demonstraçaõ do seu esforço.

8 Escolhida pois Italia para theatro da guerra, principiou Anibal a assombrar os Romanos; e sendo muitas, e repetidas as batalhas, em que os nossos occupavaõ sempre as testas dos exercitos, como lugares mais arriscados, vencendo os Consules Cneyo Servilio, Cayo Flaminio, Lucio Emilio, e Cayo Terencio, nenhuma grangeou para a fama nome de mayor permanencia, que a chamada batalha de Canas; na qual depois do primeiro Viriato ter morto seis mil Romanos, lhe tirou a vida o Consul Paulo Emilio, cuja perda resarciraõ os nossos incitados da indignaçaõ, e vingança, chegando a escalar cincoenta mil soldados inimigos em recompensa de hum só Viriato.[503]

9 Sem duvida esta batalha de Canas (assim chamada pelo sitio, em que se deu) teria sido o ultimo rayo de Roma, se Anibal soubesse aproveitarse da vitoria; porém este insigne Capitaõ em vez de marchar no seguimento da sua felicidade para acabar de prostrar as forças Romanas já tibias, se retira a Capua, onde com desgraçado ocio fez adormecer o heroico alento com os mimos daquella Cidade.[504]

10 Com este enorme descuido de Anibal cobraraõ os Romanos novas esperanças de salvarem a patria mais animosos, quanto mais desfalecidos. Renovaõ os Consules suas tropas, Scipiaõ triunfa dos Cartaginezes, e reduz a seu dominio toda Cartago. Empenhaõ os dous valerosos Capitães em argumento de armas as ultimas forças, e vendo Anibal titubear o conflicto da sua parte, houve por bem eximirse do risco, pondo azas nos pés; e depois tirando-se a si proprio a vida, por naõ cahir nas redes da contraria traiçaõ, Scipiaõ mereceo à fortuna alcançar huma taõ importante vitoria, que os Lusitanos partidarios de Anibal lhe venderaõ bem cara; e destruindo por huma vez as armas Africanas, que mais de trezentos annos subjugaraõ Hespanha, constituio senhora dominante da nossa Peninsula a famosa Roma.

NOTAS DE RODAPÉ:

[497] Strab. liv. 15. Monarq. Lusitan. liv. 1. cap. 28. Yañes España en la S. Biblia part. 1. cap. 15. n. 3. e outros muitos.

[498] Estaço nas Antig. de Port. cap 33. n. 4. Paiv. Exame de antiguid. p. 120. Bochart. na Geograf. Sacr. liv. 1. cap. 34.

[499] Marian. tom. 1. liv. 1 cap. 18.

[500] Flor. do Camp. lib. 2. cap. 29.

[501] Monarq. Lusit. liv. 2. cap. 4. Far. Europ. Port. tom. 1. part. 1. cap. 9. num. 9.

[502] Liv. decad. 3. lib. 7.

[503] Sil. Ital. lib. 10. Resend. lib. 3. de Antiquit.