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Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3): Parte I, II cover

Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3): Parte I, II

Chapter 6: NOTAS DE RODAPÉ:
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About This Book

The work offers a systematic geographical and historical survey of Portugal, pairing detailed local descriptions and river, town, and provincial notices with political and secular history. It explains mapmaking principles—latitude and longitude, meridians, tropics, poles, and the use of lunar eclipses to estimate longitudes—and discusses variations among cartographers' coordinates. The author aims to correct foreign misconceptions by providing precise measurements, comparative tables of coordinates, and annotated maps. The text combines practical instructions for reading maps with regional topography and place-by-place entries intended for both native and foreign readers.

MAPPA
DE
PORTUGAL.


CAPITULO I.
Da situaçaõ, etymologia, e clima deste Reino.

Na parte mais occidental da Europa, como coroa de toda a Hespanha, sitio estabelecido da clemencia do Ceo para cabeça do mais dilatado Imperio, está collocado o famoso Reino de Portugal entre o parallelo de 37, e 42 gráos de latitude septentrional, e entre os 9, e 13 gráos de longitude,[9] cuja distancia intermedia reduzida a leguas, commensuradas pela margem maritima, vem a fazer 100 no seu justo comprimento, e 35 na sua mayor largura. De circumferencia tem 285 leguas: as 135 de ribeira maritima, respeitando alguns angulos; e as 150 de raya terrestre, conforme a Geografia Blaviana.[10]

2 Este calculo vay formado na hypotesi de que damos 18 leguas a cada gráo do Meridiano, e 14 a cada gráo do parallelo; e que o Reino tem de latitude 5 gráos com alguns minutos, e 3 de longitude.

3 As partes, ou limites confinantes saõ estes: Galiza fica-lhe ao Norte, ou Septentriaõ; a costa do Algarve ao Sul, ou Meyo dia; o mar Oceano, chamado de Portugal, pelo Occidente; e Castella a velha, Leaõ, e Andaluzia confinaõ pelo Oriente.

4 O primeiro nome, que teve este Reino, foy o de Lusitania, querendo os mais dos Geografos, e Historiadores que Luso, ou Lysias, filho de Baco, fosse o que pelos annos 800 do diluvio universal lhe conferisse o nome, deduzido com pouca differença do seu proprio.[11] Porém este systema taõ constantemente recebido, e patrocinado padece as contradições, que occasionaõ as fabulas, em que se funda.

5 Quem quizer dar credito ao doutissimo Samuel Bocharto,[12] a palavra Lusitania he vocabulo Fenicio, derivado da raiz Luz, que se interpreta Amydgdalum, isto he, Amendoa, dos quaes frutos foy sempre fertil Portugal:[13] e como os Fenices costumavaõ dar nome às terras, que habitavaõ, conforme os frutos, de que eraõ mais abundantes,[14] naõ parecia improvavel, nem incongruente esta conjectura, por ser estabelecida em historia verdadeira, se acaso naõ tivera tambem a objecçaõ de serem os Fenices os que só povoaraõ a costa do cabo de S. Vicente, que naquelle tempo naõ se chamava Lusitania, mas Celtica.

6 Mons. de La Clede[15] tem por etymologia mais certa deduzir a palavra Lusitania dos antigos povos chamados Lusos, que habitaraõ este nosso continente, a qual na lingua Celtica significava homem de alta, e robusta disposiçaõ, vocabulo conveniente ao valor, e esforço dos antigos Portuguezes.

7 Quanto ao nome de Portugal, por naõ darmos derivaçaõ antiga a hum vocabulo moderno, temos por mais certo que se deduzio da povoaçaõ chamada Cale, que antigamente houve na margem austral do rio Douro, fronteira à Cidade do Porto: a qual povoaçaõ pela frequencia das gentes, que alli concorriaõ, se foy fazendo affamada. Depois com o progresso do tempo se deu este mesmo nome à Cidade do Porto, que se fundou defronte; e como a fortuna tambem favorece aos lugares, desde o anno 1057 pouco mais, ou menos, como quer Estaço, ou 1069 como dizem outros, se extendeo a todo o Reino aquelle nome de Portugal, que era proprio de huma só Cidade.[16]

8 Naõ averiguamos se a palavra Cale, como quer Joaõ Salgado de Araujo,[17] foy imposta por aquelles Gregos, que fizeraõ transito a estas partes com o Principe Meneláo, e fundaraõ huma povoaçaõ na foz do Douro com o nome de Cale, que significa Porto ameno, e seguro; porque naõ sabemos que haja historia verdadeira, em que esta memoria se possa fundar. Da mesma fórma rejeitamos todas as mais etymologias, como improvaveis, e nugatorias.

9 Inclue-se Portugal no clima sexto, e principio do setimo, e por isso he o seu mayor dia de 15 horas: mostrando-se neste breve espaço de terra, taõ benigna a inclinaçaõ do Ceo, que em algumas das nossas Provincias tempera de sorte os extremos do frio, e do calor, que faz confundir os tempos com suavissima equivocaçaõ.[18] Com esta favoravel temperança influem Sagittario, Capricornio, e Piscis com taõ feliz aspecto, respirando neste Reino ares taõ benevolos, que o constituem patria de todos; pois vemos que as gentes das mais remotas partes do mundo attrahidas da benignidade deste clima, para aqui vem, e aqui vivem longo tempo satisfeitos, sem estranharem a mudança dos ares, nem com a saudade da patria, nem com a ausencia de seus patricios.

10 Deste influxo celeste nasce a fertilidade de terreno taõ fecundo em todo o genero de frutos, summamente encarecidos dos Escritores antigos:[19] e se agora naõ experimentamos taõ grande abundancia, he porque nas comarcas do Reino se poupaõ mais ao trabalho da cultura com a esperança da providencia alheya: e quando as terras estaõ vagas, e ociosas, naõ podem corresponder a seus donos com fertilidades sufficientes.[20]

NOTAS DE RODAPÉ:

[9] Sanson, e Joaõ Bapt. Hom. Mappa de Port.

[10] Geograf. Blavian.

[11] Plin. lib. 1. c. 3. Resend. lib. 1. de Antiq Maced. Flor. de Hesp. c. 13. Exc. 3. n. 1. Baudrand. Diccion. Geogr. Brito Monarc. Lusit. p. 1. lib. 1.

[12] Bochart. l. 1. c. 35. Geogr. Sacr.

[13] Ludov. Robert. Map. Comerc. t. 2. pag. 22.

[14] Hoffm. Diccion. verb. Lusit.

[15] De La Cled. Histor. de Portug. tom. 1. p. 6. mihi.

[16] Cellar. na Geogr. antig. tom. 1. lib. 2. c. 1. § 49. Argot. Antig. de Brag. liv. 2. c. 7. e 9. Estaç. Antig. de Portug. c. 92. n. 2. Marian. Hist. de Hesp. tom. 1. lib. 1. c. 4. Lima Geogr. de Portug. t. 1. pag. 188.

[17] Araujo Mart. Lusit. Certam. 1. art. 8. pag. 83. Torniel. ad ann. 1331. num. 2.

[18] Maced. Excel. de Port. cap. 1. Excel. 5. 6.

[19] Strab. lib. 5. Polyb. lib. 38. Athen. lib. 4.

[20] Mallet. Descrip. del Univ. tom. 4. pag. 175.