CAPITULO VII.
Catalogo das Serenissimas Rainhas de Portugal.
O preclarissimo titulo de Rainha neste Reino he mais antigo que o dos Reys; porque foy costume daquelles primeiros Monarcas de Leaõ dar em vida titulo de Reys aos filhos, e de Rainhas às filhas para ficar assim nelles mais estabelecida, e segura a successaõ Real;[738] e ainda que alguns erradamente disseraõ, que o illustrissimo Conde D. Henrique assentara o senhorio de Portugal debaixo do titulo de Condado,[739] ninguem até agora duvidou que sua mulher a Senhora Dona Teresa, como filha, que era delRey D. Affonso de Castella, deixasse de se chamar sempre Rainha, e naõ Condessa; e do mesmo modo se chamaraõ Rainhas suas filhas, cujo estylo se praticou neste Reino até D. Sancho I.[740] do qual tempo até este nosso tomaraõ o nome de Infantes, o que naõ entendendo alguns Historiadores Flamengos, attribuiraõ a ambiçaõ chamarse Rainha, e naõ Condessa a Senhora Dona Teresa, filha delRey D. Affonso I. que casou com o Conde de Flandes Filippe de Alsacia.[741] Isto supposto, entremos a executar o promettido.
2 Dona Teresa, mulher do Conde D. Henrique, era filha delRey D. Affonso VI. de Leaõ, e herdeira de seus Estados, Senhora de notavel formosura. Casou com o illustrissimo Conde no anno de 1093, trazendo em dote todo o Reino de Portugal, que ella governou dezaseis annos depois da morte do Conde seu marido, como senhora proprietaria delle;[742] e porque se aproveitava dos conselhos de hum Cavalhero Galego, chamado D. Fernando Peres, Conde de Trastamara, quizeraõ muitos dizer[743] que a Rainha Dona Teresa contrahira segundo casamento com o tal Conde; porém he certo que tal naõ houve, como efficazmente prova o erudito Padre D. Joseph Barbosa.[744] Fundou a Igreja de S. Pedro de Rates na Cidade de Braga: fez varias doações às Sés de Braga, Porto, e Coimbra: admittio em Portugal os Cavalleiros Templarios; e finalmente morreo em o primeiro de Novembro de 1130. Jaz na Capella mór da Sé de Braga.
3 Dona Mafalda, filha de Amadeo III. Conde de Saboya, e Moriana, casou com D. Affonso Henriques, primeiro Rey de Portugal, no anno de 1146. Fundou, e dotou hum Hospital na Villa de Canavezes para nove passageiros, e peregrinos terem nelle agazalho com todo o commodo possivel: unio-lhe as rendas da ponte, que mandou fabricar grandiosamente. Edificou a Igreja de Santa Maria de Sobre-Tamaga, e o Morteiro da Costa de Guimarães, que deu aos Conegos Regulares de Santo Agostinho, e hoje possuem os Religiosos de S. Jeronymo. Faleceo a 4 de Novembro de 1157, e está sepultada no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra junto de seu marido.[745]
4 Dona Dulce foy filha de D. Ramon Berenguer, Conde de Barcelona, e Principe de Aragaõ. Casou com ElRey D. Sancho I. no anno de 1175, confirmou com ElRey seu marido algumas doações pias, e morreu em Coimbra no primeiro de Setembro de 1198. Está sepultada no Mosteiro de Santa Cruz da mesma Cidade.[746]
5 Dona Urraca era filha de D. Affonso IX. Rey de Castella. Casou com D. Affonso II. de Portugal no anno de 1201. Teve a felicidade de receber em seu Palacio a S. Francisco, e aos cinco Martyres de Marrocos; e sendo trazidos seus corpos a Coimbra, os foy buscar, e deu sitio para se fundar na mesma Cidade o primeiro Convento de S. Francisco em o Reino. Viveo com exemplar virtude, e mereceu que Deos lhe revelasse o dia de sua morte, que foy a 3 de Novembro de 1220. Jaz no Mosteiro de Alcobaça.[747]
6 Dona Brites filha delRey D. Affonso X. de Castella, chamado o Sabio, e ella Princeza de singular perfeiçaõ, e prudencia, casou com D. Affonso III. de Portugal no anno de 1253. Fundou o Hospital dos Meninos Orfãos de Lisboa, e o Convento de S. Francisco de Estremoz. O mayor louvor, que se lhe póde dar, he a grande fidelidade, que mostrou a ElRey D. Affonso seu pay, socorrendo-o com seus thesouros. Morreu em 27 de Outubro de 1303, e está sepultada no Real Mosteiro de Alcobaça.[748]
7 Santa Isabel foy filha delRey D. Pedro III. de Aragaõ, chamado o Grande. Casou com ElRey D. Diniz em 24 de Junho de 1282. Instituio com seu marido a Igreja, e Festa do Espirito Santo em Alenquer. Fundou a Capella de Nossa Senhora da Conceiçaõ no Convento da Trindade de Lisboa. Por morte de seu marido se recolheo ao Mosteiro de Santa Clara de Coimbra, tambem fundaçaõ sua, onde viveo com taõ grandes evidencias de santidade, obrando Deos por sua intercessaõ muitos prodigios em vida, e depois de sua morte, que alcançou ser numerada no Catalogo dos Santos por Urbano VIII. em 25 de Mayo de 1625. Partio desta vida a gozar da eterna em 4 de Julho de 1336. Está seu veneravel corpo no Mosteiro de Santa Clara de Coimbra.[749]
8 Dona Brites filha de D. Sancho IV. Rey de Castella, chamado o Bravo, casou com D. Affonso IV. de Portugal em 12 de Setembro de 1309. Instituio na Sé de Lisboa as Mercearias, que chamaõ de Affonso IV. por concorrer tambem seu marido para esta instituiçaõ. Morreo em Lisboa no anno de 1359 a 25 de Outubro. Jaz na antiga Sé de Lisboa.[750]
9 Dona Constança foy filha de D. Joaõ Manoel, Duque de Peñafiel, Marquez de Vilhena. Casou no anno de 1340 com ElRey D. Pedro I. sendo ainda Infante, e foy sua primeira mulher. Morreo de parto do Infante D. Fernando a 13 de Novembro de 1345. Está sepultada no Convento de S. Francisco de Santarem.[751]
10 Dona Ignez de Castro foy filha de D. Pedro Fernandes de Castro, grande Senhor em Galiza. Casou com o Principe D. Pedro no anno de 1354 occultamente. Fundou a Capella, em que está sepultado S. Gervaz na Paroquia da Villa de Basto. Por mandado delRey D. Affonso IV. foy morta com grande tyrannia, e injustiça aos 7 de Janeiro de 1355. Passados dous annos, declarou ElRey D. Pedro que havia sido sua legitima mulher, e como a tal a fez sepultar em Alcobaça com insignias Reaes, onde jaz em primoroso tumulo.[752]
11 Dona Leonor Telles, filha de Martim Affonso Tello de Menezes, casou com ElRey D. Fernando, que se namorou della, e a recebeo no anno de 1371 contra o parecer de todos, porque a usurpou a seu marido Joaõ Lourenço da Cunha, com quem estava casada, sem embargo de alguns dizerem que indevidamente em razaõ de affinidade, e sem dispensa. Em vida de seu marido foy causa dos excessos escandalosos de Joaõ Fernandes Andeiro, Conde de Ourem. Passou-se a Castella, e morreo em Tordesilhas a 27 de Abril de 1386. Jaz no Convento de Valhadolid.[753]
12 Dona Filippa de Lancastro foy filha do Duque de Lancastro Joaõ de Gante. Casou com ElRey D. Joaõ I. de Portugal a 2 de Fevereiro de 1387. Edificou a Igreja de S. Francisco de Leiria, e fez muitas obras pias, e acções de caridade, por ser huma Senhora de grande virtude. Morreo no Lugar de Sacavem aos 18 de Julho de 1415, para onde tinha ido por causa da peste, e dalli foy conduzida para Odivellas, onde se fizeraõ as exequias, e depois se transferio para o Convento da Batalha, onde agora jaz. He fama, que na hora do seu transito a consolara Maria Santissima com a incomparavel graça da sua vista, cujo favor parece que se faz provavel, porque dalli a hum anno foy achado seu corpo incorrupto, e cheiroso.[754]
13 Dona Leonor era filha delRey D. Fernando I. de Aragaõ. Casou com ElRey D. Duarte a 22 de Setembro de 1428. Deixou-a ElRey seu marido por tutora, e Governadora do Reino na menoridade delRey D. Affonso seu filho, o que naõ consentindo os Infantes seus cunhados, houveraõ discordias grandes entre elles, e a Rainha, até que ultimamente largou o governo ao Infante D. Pedro, e se foy para Castella, onde morreo em Toledo a 18 de Fevereiro de 1445, sendo depois seu corpo conduzido para o Convento da Batalha, onde jaz.[755]
14 Dona Isabel foy filha do Infante D. Pedro, Duque de Coimbra, Regente do Reino. Casou com ElRey D. Affonso V. em 6 de Mayo de 1448, sendo que o insigne Genealogico D. Antonio Caetano de Sousa diz, que fora no anno antecedente, e o prova com escritura authentica. Mandou edificar hum Convento para os Conegos Seculares de S. Joaõ Evangelista, e he o que se vê hoje no sitio de Xabregas. Morreo finalmente em 2 de Dezembro de 1455 na Cidade de Evora, e jaz no Convento da Batalha.[756]
15 Bem se pudera unir a este Catalogo a pouco venturosa Rainha Dona Joanna, filha delRey D. Henrique IV. de Castella, de quem foy jurada herdeira, e casou em Mayo de 1475 com ElRey D. Affonso V.; mas como este matrimonio naõ se consumou, porque lhe embaraçaraõ a dispensa de parentesco a Rainha de Aragaõ, e ElRey D. Fernando o Catholico seu marido, por isso he infelizmente exclusa da ordem das Rainhas de Portugal, sem embargo de que conservou até à morte estado de Rainha, e lhe chamavaõ a Excellente Senhora. Morreo em Lisboa nos Paços do Castello no anno de 1530. Jaz no Mosteiro de Santa Clara.[757]
16 Dona Leonor filha do Infante D. Fernando, Duque de Viseu, casou com ElRey D. Joaõ II. a 22 de Janeiro de 1470. Foy Princeza adornada de singular formosura, e virtudes admiraveis. Governou o Reino em tempo, que ElRey D. Manoel seu irmaõ esteve em Castella. Fundou o Mosteiro da Madre de Deos de Lisboa, e o adornou de preciosas Reliquias, e de huma estimavel Imagem. Tambem edificou o Mosteiro da Annunciada no primeiro sitio, que teve junto ao Castello, e o Hospital das Caldas no termo de Obidos, chamadas por seu respeito da Rainha. Instituio a Irmandade da Misericordia de Lisboa, donde emanaraõ todas as mais de Hespanha. Estabeleceo cinco Mercearias na Igreja de Santa Maria de Obidos, e outras tantas em Nossa Senhora da Graça de Torres Vedras. Faleceo em Lisboa a 17 de Novembro de 1525, deixando de si, e de suas virtuosissimas acções saudosas, e eternas memorias, que entre as Princezas Portuguezas he recommendavel por singular. Está sepultada no claustro do Mosteiro da Madre de Deos à porta do Refeitorio em sepultura raza.[758]
17 Dona Isabel, filha dos Reys Catholicos D. Fernando, e Dona Isabel, casou primeiramente com o Principe D. Affonso, filho delRey D. Joaõ II. de Portugal, aquelle, que depois de estar casado com esta Senhora naõ mais que seis mezes, acabou lastimosamente a vida junto a Santarem. Como do Principe lhe naõ ficaraõ filhos, tornou a casar com ElRey D. Manoel em Outubro de 1497, e passando a Castella, foy jurada Princeza herdeira daquelle Reino juntamente com ElRey seu marido; e indo a Aragaõ para serem tambem jurados alli, morreo em Çaragoça de parto do Principe D. Miguel aos 24 de Agosto de 1498. Jaz no Coro das Religiosas de Santa Isabel a Real de Toledo.[759]
18 Dona Maria era filha dos mesmos Reys Catholicos, e foy a segunda mulher delRey D. Manoel seu cunhado, com quem casou em 30 de Outubro de 1500. Foy Senhora de notavel governo. Fundou nas Berlengas o Convento dos Monges de S. Jeronymo, que depois se mudaraõ para Val bem feito. Morreo em Lisboa a 7 de Março de 1517. Está sepultada no Convento de Belém.[760]
19 Dona Leonor, terceira mulher delRey D. Manoel, filha delRey Filippe I. de Castella, casou em 24 de Novembro de 1518. Foy Senhora muito formosa. Deu principio ao Mosteiro de Nossa Senhora da Assumpçaõ de Faro das Religiosas de Santa Clara. Por morte delRey D. Manoel voltou para Castella, e passou a segundas vodas com ElRey Francisco I. de França. Faleceo em Talavera junto a Badajoz em 18 de Fevereiro de 1558. Jaz no Pantheon do Escurial.[761]
20 Dona Catharina, filha delRey D. Filippe I. de Castella, casou com ElRey D. Joaõ III. em 5 de Fevereiro de 1525. Foy Senhora de muita bondade, zelosa do augmento da Religiaõ, e adornada de huma singular prudencia. Governou felizmente o Reino por morte de seu marido na minoridade delRey D. Sebastiaõ seu neto. Teve huma natural perspicacia na boa eleiçaõ dos Ministros. Fundou o Convento de Val bem feito de Monges Jeronymos, e o Mosteiro de Freiras de S. Francisco na Cidade de Faro, e a Paroquial Igreja de Santa Catharina de Lisboa. Instituio no Convento de S. Domingos da mesma Cidade huma Cadeira de Moral com renda para trinta Clerigos assistirem às lições, que ainda hoje se practica no mesmo Convento. Dotou o Collegio dos Meninos Orfãos. Estabeleceo no Convento de Belém vinte Mercearias para Cavalleiros pobres, que tivessem servido em Africa, ou nas Conquistas, e quatro na Capella do Santo Christo de Cintra. Alcançou de Roma a instituiçaõ do Tribunal do Santo Officio em Goa. Faleceo a 12 de Fevereiro de 1578 na Cidade de Lisboa, e jaz no Real Mosteiro de Belém.[762]
21 Dona Anna de Austria, filha do imperador Maximiliano II. foy a quarta mulher de Filippe II. com quem casou a 12 de Novembro de 1570, sendo sua sobrinha. Foy fecunda, e virtuosa. Morreo em Badajoz a 26 de Outubro de 1580, e jaz no Escurial.[763]
22 Dona Margarida de Austria, filha de Carlos Archiduque de Austria, casou com Filippe III. em 18 de Abril de 1599. Morreo no Escurial a 3 de Outubro de 1611, e jaz sepultada no Pantheon do mesmo Escurial.[764]
23 Dona Isabel de Borbon, filha de Henrique IV. Rey de França, foy a primeira mulher de Filippe IV. com quem casou no anno de 1615, e morreo a 6 de Outubro de 1664. Jaz no Escurial.[765]
24 Dona Luiza Francisca de Gusmaõ, filha de D. Joaõ Manoel Peres de Gusmaõ, oitavo Duque de Medina Sidonia, casou com o Serenissimo Senhor D. Joaõ, oitavo Duque de Bragança, e depois Rey de Portugal em 12 de Janeiro de 1633. Foy Princeza de espirito altivo, e de admiraveis virtudes. A restauraçaõ de Portugal esteve pendente da sua industria, e magnanima resoluçaõ, com que soube persuadir taõ grande empreza ao Duque seu marido. Este fiou sempre della os negocios mais arduos do Reino, e ella o governou depois da morte delRey na minoridade de D. Affonso VI. seu filho, em cujo tempo fez resplandecer no Throno todas as grandes qualidades de hum Soberano. Introduzio neste Reino a Ordem da Descalcez de Santo Agostinho, e fundou dous Conventos no Valle de Xabregas para os Religiosos, e Religiosas desta Ordem. Tambem fundou o Convento dos Religiosos Dominicos Irlandezes ao Corpo Santo, e o dos Carmelitas Descalços aos Torneiros. Excitada de mayores pensamentos se recolheo ao Mosteiro das Religiosas Descalças de Santo Agostinho, que havia fundado no sitio do Grilo, onde totalmente se esqueceo de que tivesse reinado, e a 27 de Fevereiro de 1666 faleceo, deixando de suas virtudes eterna memoria, e jaz sepultada no Mosteiro do Grilo.[766]
25 Dona Maria Francisca Isabel de Saboya, filha de Carlos Amadeo de Saboya, Duque de Neomurs, casou primeiramente com ElRey D. Affonso VI. de Portugal em 27 de Junho de 1666; porém como este matrimonio foy julgado por nullo, tornou esta Princeza a casar segunda vez, e se recebeo com seu cunhado o Principe Regente, que depois foy Rey D. Pedro II. precedendo para isto dispensa do Pontifice, e se celebraraõ estas segundas vodas em 2 de Abril de 1668. Foy esta Senhora de estremada formosura, e dotada de muita prudencia, e por isso conservou com seu marido hum amor muy reciproco. Mandou fazer a Capella de S. Francisco de Sales na Igreja dos Padres do Oratorio de Lisboa, e no Noviciado da Cotovia dos Padres da Companhia mandou edificar a Capella da Conceiçaõ. Fundou o Mosteiro das Religiosas Capuchinhas Francezas do Santo Crucifixo em Lisboa. Morreo a 27 de Dezembro de 1683 na quinta do Conde de Sarzedas em Palhavã, e jaz no Coro das Religiosas do Mosteiro, que edificou.[767]
26 Dona Maria Sofia Isabel de Neoburg, Filha do Eleitor Palatino do Rhim Filippe Vilhelmo, foy a segunda mulher delRey D. Pedro II. com quem se recebeo em 11 de Agosto de 1687. Foy Princeza muito benigna, e caritativa, em cujos actos se exercitava continuamente. Venerou muito a Religiaõ da Companhia de Jesus, e foy muy devota de S. Francisco Xavier, em cujo obsequio mandou edificar hum Collegio para os seus Padres na Cidade de Béja, ao qual dotou grandiosamente. Morreo no Paço da Corte-Real a 4 de Agosto de 1699, e está sepultada no Convento de S. Vicente de Fóra.[768]
27 Dona Maria Anna de Austria, filha do Imperador Leopoldo I. casou em 27 de Outubro de 1708 com ElRey D. Joaõ V. Era Princeza muy affavel, e por isso estimada de seus vassallos: muy devota, muy pia, e exercitada na cultura das principaes linguas da Europa. Quando ElRey seu esposo passou ao Alentejo no anno de 1716, ficou esta Senhora com o governo do Reino, em o qual mostrou a sua rara capacidade, prudencia, e justiça, virtudes, que praticou com a mesma incumbencia na molestia delRey. Soube medir as suas acções, e distribuir o tempo com ordem inalteravel. Concorreo para se extinguirem os theatros profanos das Comedias, e para exemplo de occupaçaõ mais segura visitava os Templos com frequencia. Em final da sua verdadeira piedade, e Religiaõ fundou o Convento dos Carmelitas Descalços Alemães em Lisboa, dedicado a S. Joaõ Nepomuceno, cuja nova Igreja se benzeo a 6 de Mayo de 1741. A todos estes habitos de taõ grandes virtudes, que esta augusta Heroina praticou com edificaçaõ, se ajuntaõ os repetidos actos de caridade, com que remediava generosa, e liberalmente os pobres. Parece que o exercicio destes pios, e santos impulsos era hereditario da augustissima Casa de Austria, a qual em toda a Igreja Catholica se singulariza em religiosa piedade, e em benigna clemencia, sem embargo que para a execuçaõ de tantas virtuosas perfeições nunca a Magestade desta perfeitissima Princeza necessitou de estimulo, nem de exemplo. Em fim foraõ as suas virtudes, e attributos tantos, e taes, que excedendo a todos os elogios, mal poderaõ caber nas breves clausulas desta nossa humilde expressaõ. Faleceo no palacio de Belém aos 14 de Agosto de 1754, e foy seu corpo sepultado na Igreja dos Carmelitas Descalços Alemães que ella mandara edificar.
28 Dona Maria Anna Victoria, filha delRey Catholico Filippe V., e da Rainha Dona Isabel Farnese, casou em 19 de Janeiro de 1729 com ElRey Fidelissimo D. Joseph I. He Princeza dotada de huma natural vivacidade, a qual se nos bosques faz admirar as Ninfas, e as Deosas com os seus tiros, he igualmente fervorosa nos seus retiros, e cheia de grande devoçaõ, e piedade. O primoroso Templo de S. Francisco de Paula he hum grande testemunho da sua grandeza; nem a sua inviolavel soberania necessita de ser elogiada, para ser immortal.
| N. | Nome. | Naçaõ. | Ann. em q̃ casou. | Marido. | Filhos. | Anno em que morreo. | Lugar da morte. | Lugar da sepultura. |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | D. Teresa. | Castelhana. | 1093 | D. Henrique. | 4 | 1130 | ... | Sé de Braga. |
| 2 | D. Mafalda. | Saboyana. | 1146 | D. Affonso I. | 7 | 1157 | Coimbra. | Santa Cruz de Coimbra. |
| 3 | D. Dulce. | Aragoneza. | 1175 | D. Sancho I. | 11 | 1198 | Coimbra. | Santa Cruz de Coimbra. |
| 4 | D. Urraca. | Castelhana. | 1201 | D. Affonso II. | 4 | 1220 | Coimbra. | Alcobaça. |
| 5 | D. Brites. | Castelhana. | 1253 | D. Affonso III. | 7 | 1303 | ... | Alcobaça. |
| 6 | Santa Isabel. | Aragoneza. | 1282 | D. Diniz. | 2 | 1336 | Estremoz. | Santa Clara de Coimbra. |
| 7 | D. Brites. | Castelhana. | 1309 | D. Affonso IV. | 7 | 1359 | Lisboa. | Sé de Lisboa. |
| 8 | D. Constança. | Castelhana. | 1340 | D. Pedro I. | 3 | 1345 | Santarem. | S. Francisco de Santarem. |
| 9 | D. Ignez. | Castelhana. | 1354 | D. Pedro I. | 4 | 1355 | Coimbra. | Alcobaça. |
| 10 | D. Leonor. | Portugueza. | 1371 | D. Fernando. | 3 | 1386 | Tordesilhas. | Valhadolid. |
| 11 | D. Filippa. | Ingleza. | 1387 | D. Joaõ I. | 8 | 1415 | Odivelas. | Batalha. |
| 12 | D. Leonor. | Aragoneza. | 1428 | D. Duarte. | 9 | 1445 | Toledo. | Batalha. |
| 13 | D. Isabel. | Portugueza. | 1448 | D. Affonso V. | 3 | 1455 | Evora. | Batalha. |
| 14 | D. Leonor. | Portugueza. | 1470 | D. Joaõ II. | 1 | 1525 | Lisboa. | Madre de Deos. |
| 15 | D. Isabel. | Castelhana. | 1497 | D. Manoel. | 1 | 1598 | Saragoça. | Santa Isabel de Toledo. |
| 16 | D. Maria. | Castelhana. | 1500 | D. Manoel. | 10 | 1517 | Lisboa. | Belém. |
| 17 | D. Leonor. | Flamenga. | 1518 | D. Manoel. | 2 | 1558 | Badajoz. | Escurial. |
| 18 | D. Catharina. | Castelhana. | 1525 | D. Joaõ III. | 9 | 1578 | Lisboa. | Belém. |
| 19 | D. Anna. | Castelhana. | 1570 | D. Filippe II. | 3 | 1580 | Badajoz. | Escurial. |
| 20 | D. Margarida. | Alemã. | 1599 | D. Filippe III. | 7 | 1611 | Escurial. | Escurial. |
| 21 | D. Isabel. | Franceza. | 1615 | D. Filippe IV. | 7 | 1664 | Madrid. | Escurial. |
| 22 | D. Luiza. | Castelhana. | 1633 | D. Joaõ IV. | 7 | 1666 | Lisboa. | Grilo. |
| 23 | D. Maria Francisca. | Franceza. | 1668 | D. Pedro II. | 1 | 1683 | Palhavã. | Francezinhas. |
| 24 | D. Maria Sofia. | Alemã. | 1687 | D. Pedro II. | 7 | 1699 | Lisboa. | S. Vicente de Fóra. |
| 25 | D. Maria Anna. | Alemã. | 1708 | D. Joaõ V. | 6 | 1754 | Lisboa. | S. Joaõ Nepomuceno. |
| 26 | D. Maria Anna. | Castelhana. | 1729 | D. Joseph I. | 4 | |||
NOTAS DE RODAPÉ:
[738] Mariz Dialog. 2. pag. mihi 42.
[739] Monarq. Lusitan. liv. 8. cap. 11. pag. 34.
[740] Sousa Histor. de S. Dom. part. 1. liv. 1. cap. 11.
[741] Marchanc. liv. 2. Descripç. de Fland. Veja-se a Monarq. Lusit. liv. 11. cap. 37.
[742] Monarq. Lusit. liv. 8. cap. 29.
[743] Conde D. Pedro no seu Nobiliario tit. 4. Estaç. nas Antiguid. de Port. cap. 21. n. 5.
[744] Barbos. no Catalog. das Rainh. p. 87.
[745] Vide Joaõ Bap. Lavanh. nas Notas do Conde D Pedro tit. 7. Brand. Monarq. Lusit. liv. 10. c. 19. Goes part. 4. cap 71. Estaço nas Antiguid. de Port. cap. 25. num. 21. Corogr. Portug. tom. 1. p. 135. Barbos. Catalog. das Rainh. p. 110. Sous. Histor. Genea. tom. 1. pag. 6.
[746] Barbud. Emprez. Militar. pag. 7. Benedict. Lusit. tom. 2. p. 318. Duarte Ribeiro p. 301. part. 1. Barbos. Catalog. das Rainh.
[747] Idem ibid. p. 143. Esperança na Histor. Serafica tom. 1. liv. 2. cap. 28. num. 2.
[748] Idem tom. 2. liv. 1 cap. 15. Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 16. e liv. 16. cap. 32. e liv. 18. cap. 9.
[749] Lacerda na Vida desta Santa. Mendoça in Viridar. liv. 6. Barbos. Catalog. das Rainhas.
[750] Duarte Nun. Chronic. delRey D. Affonso IV. p. 172. Sous. Histor. Genealog. tom. 1. p. 307.
[751] Monarq. Lusit. liv. 10. cap. 6.
[752] Duart. Nun. Chronic. delRey D. Pedro, Mariz Dialog. 3. cap. 3. Caram. Philipp. Prud. p. 138. Barbos. no Catalog. das Rainh. e Sousa tambem allegado na Histor. Geneal. tom. 1.
[753] Monarq. Lusit. tom. 8. p. 147. Vejaõ-se tambem as razões, que allegou o Doutor Joaõ das Regras, e se achaõ na 8. part. da Monarq. Lusitan. pag. 651.
[754] Sous. Histor. de S. Doming. part. 1. liv. 6. cap. 25. Barbos. no Catal. das Rainh.
[755] Damiaõ de Goes, Chron. do Princip. D. Joaõ cap. 17. Agiolog. Lusit. tom. 3.
[756] Barbos. no Catalog. das Rainh. Sous. Hist. Geneal. tom. 3. p. 64. Chronic. dos Padres Loyos liv. 2. cap. 26.
[757] Sous. Hist. Geneal. tom. 3. p. 67. Histor. Seraf. part. 3. liv. 3. cap. 16. n. 528.
[758] Sousa Histor. Geneal. tom. 3. pag. 139. Goes Chron. delRey D. Manoel part. 4. cap. 26. p. 282. Santuar. Marian. tom. 2. p. 329. e tom. 7. p. 219. Duart. Nun. Descripç. de Port. cap. 77.
[759] Damiaõ de Goes na Chronic. delRey D. Man. part. 1. cap. 46. Barbos. no Catalog. p. 383.
[760] Idem ibid.
[761] Barbos. nos Factos da Lusit. a 25. de Fevereiro p. 664.
[762] Barbos. no Catalog. das Rainh. p 404. e o Doutor Ignacio Barbosa seu irmaõ nos Fast. da Lusit. a 12 de Fevereir. p. 511. Sous. Histor. Genealog. tom. 3. p. 525.
[763] Barbos. allegad. Les Delices de l’Espagne tom. 2. p. 285
[764] Ibid.
[765] Ibid.
[766] Os irmãos Barbos. hum no Catal. das Rainh. e outro nos Fast. da Lusit. tom. 1. p. 691. Sousa Histor. Geneal. tom. 7. p. 247. Catastrof. de Port. p. 133. Passarel. de Bell. Lusit. L’Abbé de Vertot Histoir. des Revolut. de Portug. pag. mihi 52. e 152. Santuar. Marian. tom. 7. pag. 10. e 132.
[767] Sous. Histor. Geneal. tom. 7. p. 725. e segg. Barbos. no Catalog. das Rainh.
[768] Iidem ibid.