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Memorias de José Garibaldi, volume 1 / Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas cover

Memorias de José Garibaldi, volume 1 / Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas

Chapter 41: ROSAS
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About This Book

O autor recorda a infância e a influência da família na formação de suas inclinações, oferecendo memórias pessoais entremeadas de reflexões políticas. Apresenta um panorama do Piemonte e da Itália naquela época, descrevendo a difusão da maçonaria, dos carbonários e de outras sociedades secretas e suas ambições. Narra as tentativas revolucionárias, as repressões, prisões e exílios que delas resultaram, e analisa o efeito desses eventos sobre as convicções públicas e privadas. Combina relatos de participação direta em conspirações e campanhas com comentários sobre os dilemas e motivações que guiaram sua ação política.

XXXIV
LEVANTA-SE O CERCO.—ROSSETTI

Comtudo a situação do exercito republicano peiorava de dia para dia; as suas necessidades augmentavam e os seus recursos diminuiam. Os dois combates de Taquari e S. José do Norte tinham dizimado a infanteria que apezar de ser pouco numerosa era um poderoso recurso para as operações de cerco. As grandes necessidades animavam as deserções, as populações como succede n'estas guerras mui prolongadas cançavam, e foram atacadas de uma suprema indifferença, começando nós então a conhecer que estava proximo o momento de tudo se acabar.

N'este estado de cousas os imperiaes fizeram propostas que, ainda que vantajosas para os republicanos foram por estes recusadas. Esta recusa augmentou o descontentamento dos mais desgraçados, e por conseguinte da parte mais fatigada do exercito e do povo, sendo decidido que o cerco seria abandonado e que todos se retirariam.

A divisão Canavarro de que faziam parte os marinheiros foi designada para começar o movimento e abrir as passagens da serra, occupadas pelo general Labattue, francez ao serviço do imperador. Bento Gonçalves com o resto do exercito formaria a retaguarda.

A guarnição republicana de Settembrina devia seguir-nos, mas não pôde executar este movimento, porque surprehendida pelo famoso Morinque a cidade foi tomada.

Foi ahi que morreu o meu caro Rossetti.

Tendo caido do cavallo, depois de ter praticado prodigios de valor, ferido perigosamente, e intimado para se render, preferiu antes que o matassem do que entregar a sua espada.

Ainda uma outra ferida para o meu coração. Já fallei muitas vezes de Rossetti, sabe-se pois como o amava, seja-me pois permittido dizer á Italia o que já tenho dito tantas vezes: Oh! Italia, minha mãe, acabamos de perder, eu um dos meus irmãos mais caros, e tu um dos teus filhos mais generosos.

Era natural de Genova. Havia sido, por paes que conheciam pouco o seu caracter, destinado á vida ecclesiastica, quando era um dos mais ardentes patriotas italianos que tenho conhecido. Inclinado á vida aventureira e não podendo respirar na Italia, partiu para o Rio de Janeiro onde foi negociante e corretor; mas não tendo Rossetti nascido negociante, era uma planta exotica dando-se mal na terra do agio e calculo, não porque elle não fosse dotado de uma intelligencia fina e apta a enriquecer-se de todos os conhecimentos, mas porque Rossetti era o mais italiano de todos os italianos, isto é, o mais generoso e prodigo dos homens, e com taes vicios não se faz fortuna, mas antes se caminha a grandes passos para a ruina.

Foi o que aconteceu com Rossetti.

Bom para com todos, a sua casa achava-se franca para toda a gente, e especialmente para os italianos desgraçados. Não esperava que os proscriptos o fossem procurar, era elle que os ia encontrar, esgotando assim em pouco tempo os seus recursos. Bem desgraçado, esse coração do anjo não podia ver soffrer um italiano. Se o não podia soccorrer immediatamente, fazia-o esperar na sua pobre cabana, e corria as ruas da cidade, e não entrava em sua casa senão quando trazia algum soccorro para aquelle ou aquelles que o esperavam. É verdade que a sua bondade, a sua franqueza e a sua lealdade o tinham tornado estimado de todos, e por isso quando se achava n'estes piedosos embaraços, todos o coadjuvavam com prazer.

A batalha de Tarifa teve logar, e os republicanos foram batidos pelos imperiaes; Bento Gonçalves e os principaes chefes feitos prisioneiros, e conduzidos ao Rio de Janeiro. Entre elles achava-se o nosso capitão Zambecarri, com quem travamos relações, segundo já disse, nas prisões de Santa Cruz. Fallou-se de nos fazermos corsarios, e desde esse momento Rossetti e eu não tivemos um minuto de descanço em quanto não nos lançamos no Occeano com a bandeira republicana. Rossetti encarregou-se de tudo e alcançou o fim que pertendiamos.

Os leitores sabem o resto, porque desde esse momento não nos perdemos de vista.

Infelizmente não ha um canto da terra onde não descansem os ossos de um italiano generoso, devendo por isso a Italia cobrir-se de luto e não encher-se de gloria. Pobre Italia, tu sentirás verdadeiramente a sua falta no dia em que tentares arrancar o teu cadaver aos corvos que o devoram.

XXXV
A PICADA DAS ANTAS

Esta retirada emprehendida na estação invernosa, por um paiz montanhoso e debaixo de uma chuva incessante foi a mais terrivel e mais desastrosa que tenho visto.

Conduziamos por precaução algumas vaccas, sabendo perfeitamente que no caminho que tinhamos a atravessar não encontrariamos comestiveis alguns.

Retirando-nos, seguiamos a divisão do general Labattue, mas infelizmente sem a podermos alcançar. Só os selvagens manifestavam as suas sympathias por nós, atacando-lhe a guarda avançada. Tivemos occasião de vêr de perto esses homens da natureza que não nos foram hostis.

Annita durante esta retirada de tres mezes soffreu toda a casta de privações e incommodos com um stoicismo e uma coragem admiravel.

É necessario ter algum conhecimento das florestas d'esta parte do Brazil para fazer idéa das privações soffridas por uma porção de homens sem meios de transporte, e tendo unicamente por recurso o laço, arma mui util nas planicies cobertas de animaes, mas perfeitamente inutil n'essas expessas florestas abundantes em tigres e leões.

Para a nossa desgraça ser ainda maior, os rios muito proximos uns dos outros n'estas florestas virgens engrossavam cada vez mais. A horrivel chuva que nos perseguia não cessava de cair, acontecendo muitas vezes que uma parte dos nossos soldados se achavam entre duas correntes de agua e ahi ficavam privados de todo o alimento, morrendo muitos de fome, e principalmente as mulheres e creanças que não podiam supportar tanto as privações. Era uma carnagem mais horrivel do que a de uma sanguinolenta batalha.

A nossa pobre infanteria principalmente soffria muito mais, porque não tinha como a cavallaria o recurso de matar os cavallos. Poucas mulheres e menos creanças sairam vivas da floresta. As poucas que escaparam foram salvas pelos cavalleiros que tendo a felicidade de conservar os cavallos, tiveram dó d'aquelles pequenos entes, abandonados por suas mães mortas de fome, frio e fadiga.

Annita tremia com a idéa de perder o nosso Menoti, que foi salvo unicamente por milagre. Nos sitios mais perigosos, e na passagem dos rios, conduzia o nosso pobre filho, de tres annos de edade, suspenso ao meu pescoço por um lenço, podendo aquecel-o d'este modo com o meu alento. De doze mulas e cavallos com que tinha entrado na floresta, e que eram destinadas ao meu serviço, não tinha podido salvar mais que duas mulas e dois cavallos, as demais tinham morrido de fome ou de fadiga. Para completar a nossa desgraça, os guias tinham-se perdido no caminho, o que foi a causa principal dos nossos sofrimentos na temivel floresta das Antas.

Quanto mais andavamos, menos viamos chegar o fim d'esta picada maldita. Fiquei muito longe dos meus companheiros, com duas mulas horrivelmente fatigadas, e que eu esperava salvar, fazendo-as caminhar mui devagar e sustentando-as com folhas de taquaras a que Taquari deve o seu nome. Durante este tempo enviei Annita adiante com um criado e meu filho, afim de que elle procurasse o fim d'esta interminavel floresta e algum alimento.

Os dois cavallos que eu havia deixado a Annita e que ella montava simultaneamente, foi quem nos salvaram. Ella achou o fim da floresta e ahi encontrou um piquete dos meus bravos soldados assentados a um bello fogo, o que não era commum pelo tempo que fazia.

Os meus companheiros que por felicidade tinham conservado alguns vestidos de lã, embrulharam n'elles a creança, aquecendo-a e chamando-a por este modo á vida, quando já a pobre mãe começava a perder todas as esperanças. Mas ainda não é tudo: estes excellentes rapazes começaram então a procurar com uma grande sollicitudde alguns alimentos, que elles não tinham procurado para si, mas que agora procuravam por minha causa.

O que d'entre todos prestou a minha esposa e filho os primeiros e mais efficazes soccorros foi Mangio: que o seu nome seja abençoado.

Tinha tido grande difficuldade em salvar os meus dois cavallos, e por fim vi-me na necessidade de abandonar os dois pobres animaes esfalfados e aguados, sendo obrigado, apezar do estado miseravel em que me achava, a atravessar o resto da floresta a pé.

No mesmo dia encontrei minha mulher e filho e soube então o que os meus companheiros tinham feito por causa d'ella.

Nove dias depois da nossa entrada na floresta conseguimos sair! Poucos officiaes tinham conseguido salvar os seus cavallos. O inimigo que nos precedia, fugindo diante de nós, tinha deixado duas peças de artilheria na picada; mas de que nos serviriam ellas? Faltavam todos os meios de transporte e póde ser que ellas ainda estejam no mesmo logar em que as vi.

As tempestades pareciam conscriptas na floresta. Apenas saimos d'ella e nos aproximamos de Cima da Serra e de Vaccaria que o bom tempo começou, caindo então em nosso poder alguns bois, que indemnisando-nos do nosso longo jejum nos fizeram esquecer a fadiga, a fome e a chuva.

Ficámos na Vaccaria alguns dias, esperando pela divisão de Bento Gonçalves, que se nos uniu em completa desordem, e com menos um terço dos soldados.

O infatigavel Morinque sabendo da retirada d'esta divisão, tinha começado a perseguil-a, sem descanço, atacando-a em todas as occasiões, alliando-se para esta obra de destruição aos montanhezes, sempre hostis aos republicanos. Todos estes successos deram tempo a Labattue a fazer a sua retirada, e depois a sua juncção com o exercito imperial, tendo apenas, apezar d'isto, algumas centenas de homens á sua disposição. Então as mesmas dificuldades que haviam existido para nós, appareceram para elles que tiveram além d'isso a vencer um obstaculo imprevisto, e que eu noto por causa da sua raridade.

O general Labattue tendo que atravessar no seu caminho dois bosques chamados de Mattos, ahi encontrou algumas d'essas tribus indigenas chamadas de Bragis, que são as mais selvagens que se conhecem no Brazil. Estas tribus sabendo da passagem dos imperiaes, armaram-lhe tres ou quatro emboscadas, fazendo-lhe grande mal. Em quanto a nós não nos causaram a mais pequena inquietação e ainda que houvesse no caminho muitos d'esses alçapãos, que os indios collocam na passagem dos seus inimigos, todos se achavam descobertos em logar de estarem disfarçados com ramos de arvores, segundo o costume.

Durante a curta paragem que fizemos na ourela de um d'esses bosques gigantescos, appareceu-nos uma mulher, que na sua mocidade tinha sido roubada pelos selvagens, e que havia aproveitado a nossa presença para fugir.

A pobre mulher achava-se n'um deploravel estado.

Como não tinhamos então nenhum inimigo a atacar ou de quem fugissemos, continuamos a nossa marcha mui vagarosamente, porque não possuiamos cavallos, e era necessario ir domando os poltros.

O corpo de lanceiros republicanos, tendo ficado completamente desmontado, foi tambem obrigado a lançar mão dos poltros.

Era na verdade um explendido espectaculo, sempre novo, ainda que repetido todos os dias, o vêr esses jovens e robustos negros que mereciam o epitheto de domadores de cavallos que Virgilio dá a Pelops. Era necessario vêl-os saltar sobre esses selvagens filhos do deserto, que não conheciam nem freio, nem selim, agarrando-se ás crinas, e correndo pelas planicies, até que cedendo ao homem o quadrupede se confessava vencido. Mas a lucta era longa, e o animal não se rendia senão depois de ter exgotado todas as forças em se desembaraçar do seu tyranno, que do seu lado admiravel de agilidade e coragem, o apertava entre os joelhos, como entre duas tenazes, não o deixando senão depois de o ter domado.

Tres dias são sufficientes a um bom domador de cavallos para que o animal o mais rebelde possa sofrer o freio.

Raramente, comtudo os poltros são bem domesticados pelos soldados, sobretudo nas marchas onde os muitos afazeres impedem os domadores de lhe prestar todos os cuidados necessarios.

Tendo passado os Mattos atravessámos a provincia das Missões, dirigindo-nos para Cruz Alta, capital d'esta pequena provincia, depois de Cruz Alta dirigimo-nos a S. Gabriel onde se estabeleceu o quartel general, e edificaram barracas para o acampamento do exercito.

Seis annos d'esta vida de aventuras e perigos não me tinham fatigado em quanto era só, mas actualmente que tinha uma pequena familia, a separação de todos os meus antigos conhecimentos, a ignorancia completa em que me achava ha tantos annos sobre o estado da minha familia, fizeram nascer o desejo de me aproximar de um ponto onde podesse receber noticias de meu pae e minha mãe, porque se tinha por um momento esquecido essas ternas affeições, ellas appareciam de novo. Tambem não tinha noticias da minha outra mãe, da Italia!

Decidi então ir a Montevideo; ao menos temporariamente. Pedi pois licença ao presidente, assim como para levar alguns bois, de que a venda devia servir para me sustentar durante a jornada.

XXXVI
CONDUCTOR DE BOIS

Eis-me pois truppiere, isto é conductor de bois.

Em consequencia n'uma estancia chamada o Casal das Pedras, com a authorisação do ministro da fazenda, consegui reunir em vinte dias e com grande difficuldade novecentos bois, quasi todos selvagens. Maiores dificuldades me esperavam ainda durante o caminho onde encontrei obstaculos quasi invenciveis. O maior de todos foi o Rio-Negro, onde tive quasi perdido todo o meu capital. Da passagem do rio, da minha inexperiencia no meu novo mister, e sobre tudo da rapina de certos capatazes, mercenarios que tinha alugado como conductores, salvei com muito custo quinhentos bois, que visto o mau sustento e o pessimo caminho foram julgados incapazes de chegar ao seu destino.

Resolvi em consequencia matal-os e tirar-lhe as pelles, que vendi, ficando-me livres de toda a despeza uns trezentos escudos que serviram para fazer face ás primeiras necessidades da minha familia.

É aqui que devo mencionar um encontro que me deu um dos meus mais charos e melhores amigos.

Aproximando-me de S. Gabriel, na retirada que acabavamos de fazer, tinha ouvido fallar de um official italiano, dotado de grande valor e intelligencia, que, exilado como carbonario se tinha batido em França no dia 5 de junho de 1832, e depois no Porto durante o cerco que ahi houve por causa da guerra entre os dois irmãos D. Pedro e D. Miguel, vindo depois offerecer-se ao serviço das jovens republicas da America do Sul.

Contavam-se a seu respeito cousas tão extraordinarias que muitas vezes disse:

—Quando encontrar esse homem, ha-de ser meu amigo.

Chamava-se Anzani.

Chegando á America, tinha-se apresentado com uma carta de recommendação a dois dos seus compatriotas MM.*** negociantes em S. Gabriel, que tinham feito d'elle o seu factotum.

Anzani exercia todos os empregos, caixeiro, guarda-livros, homem de confiança, emfim era o bom genio d'esta casa.

Como todos os homens fortes e corajosos, Anzani era socegado e dotado de um excellente genio.

A casa commercial de que elle se tinha tornado director era uma d'essas casas como se acham unicamente na America do Sul, isto é vendendo tudo o que é possivel imaginar.

A villa onde residiam os nossos dois compatriotas era infelizmente proxima da floresta que servia de refugio a essas tribus de indios de que já dissemos algumas palavras no capitulo precedente.

Um dos chefes d'estes indios tinha-se tornado o terror d'esta pequena villa, á qual vinha duas vezes por anno, com a sua tribu, roubando quanto queria sem encontrar a menor resistencia.

Primeiramente veiu acompanhado por duzentos ou trezentos homens, depois com cem, depois com cincoenta, segundo elle tinha visto augmentar o terror estabelecendo o seu poder, e depois sentindo-se o senhor tinha vindo só, e dava as suas ordens que eram obedecidas, como se por detraz de si tivesse a sua tribu prompta a assassinar aquelle que lhe recusasse obedecer.

Anzani tinha ouvido fallar d'este homem e tinha escutado tudo o que se dizia a seu respeito, sem manifestar a sua opinião sobre a audacia d'este chefe selvagem e sobre o terror que inspirava a sua ferocidade.

Este terror era tamanho que quando se ouvia dizer o chefe dos Mattos todas as janellas se fechavam, e todas as portas se trancavam como se na villa andassem alguns cães damnados.

O indio estava habituado a estes signaes de terror, que lisongeavam o seu orgulho, escolhia a porta que queria vêr aberta, batia—abrindo-se logo com a rapidez do relampago—e roubava tudo sem encontrar a menor resistencia.

Havia justamente dois mezes que Anzani dirigia a casa de commercio nos seus maiores como menores detalhes, quando se ouviu o grito terrivel:

—O chefe dos Mattos!

Como o costume, portas e janellas fecharam-se precipitadamente.

Anzani estava só em casa arranjando as contas da semana, e não julgando que o estrondoso annuncio que acabavam de fazer valesse a pena de se incommodar ficou assentado á sua mesa, com as janellas e portas abertas.

O indio parou espantado diante d'essa casa que no meio do terror geral que causava a sua chegada, se conservava indifferente á sua apparição.

Entrou e viu encostado ao balcão um homem que socegadamente fazia as suas contas. Parou diante d'elle de braços cruzados e olhando-o com espanto.

Anzani levantou a cabeça.

Anzani era a politica em pessoa.

—Que quer meu amigo? perguntou elle ao indio.

—Como! que quero?! disse este.

—Sem duvida, disse Anzani, quando se entra n'um armazem é que se quer comprar alguma cousa.

O indio começou a rir.

—Pelo que vejo não me conheces? perguntou ele a Anzani.

—Como queres que te conheça, se é a primeira vez que te vejo!

—Sou o chefe dos Mattos, replicou o indio, mostrando no seu cinto um arsenal composto de quatro pistollas e um punhal.

—Então que queres?

—Beber.

—O que?

—Um copo de agua-ardente.

—Não ha nada mais facil; paga primeiro e depois tens a agua-ardente que quizeres.

O indio começou a rir de novo.

Anzani franziu as sobrancelhas.

—Em logar de me responder, tornas de novo a rir. Não acho isso mui politico. Previno-te, pois, que se isso succede outra vez ponho-te fóra da porta.

Anzani tinha pronunciado estas palavras com tal firmeza, que outro qualquer homem que não fosse o indio teria comprehendido com quem tinha a tratar.

Talvez o selvagem houvesse comprehendido, mas não o deu a conhecer.

—Já te disse que me desses um copo de agua-ardente, repetiu elle batendo com o punho no balcão.

—E eu já te disse que o pagasses primeiro, disse Anzani, quando não, não a bebes.

O indio deitou um olhar colerico a Anzani, mas o olhar d'este encontrou o seu,—o relampago havia encontrado o relampago.

Anzani dizia muitas vezes:

—A unica força que existe é a moral. Olhae fixa e obstinadamente o homem que vos encarar, se elle abaixar os olhos, estaes senhor d'elle, mas se pelo contrario sois vós que os abaixaes estaes perdido.

O olhar de Anzani tinha um irresistivel poder. Foi o indio que foi vencido, e conhecendo a sua inferioridade, e furioso d'este poder desconhecido, quiz ganhar animo bebendo.

—Está bem, disse elle, ahi tens meia piastra, da-me de beber.

—É obrigação minha servir quem me paga, disse tranquilamente Anzani.

E deu ao indio um copo de agua-ardente.

O indio bebeu.

—Outro, disse elle.

Anzani deu-lhe outro copo.

O indio bebeu-o como o primeiro.

—Ainda outro, disse elle.

Em quanto Anzani teve dinheiro suficiente para se pagar da despeza do indio, não lhe fez nenhuma observação, mas quando o bebedor já não tinha dinheiro para pagar, cessou de encher-lhe o copo.

—Então? perguntou o selvagem.

Anzani fez-lhe a sua conta.

—Depois? insistiu o selvagem.

—Depois?... Como não tem dinheiro, não bebe mais agua-ardente, respondeu Anzani.

O indio tinha formado bem o seu calculo. Os cinco ou seis copos de agua-ardente que havia bebido, tinham-lhe dado a coragem que havia perdido com o olhar de Anzani.

—Agua-ardente, disse elle levando a mão a uma das pistollas, agua-ardente, ou morres.

Anzani que já previa o final d'esta scena, estava preparado. Tinha cinco pés e nove pollegadas, e era dotado de uma força e agilidade pasmosa. Apoiou a mão no balcão e saltando para o outro lado deixou-se cair sobre o indio, agarrando-lhe o punho direito.

O selvagem não poude aguentar o choque e caiu; Anzani não o largou e poz-lhe o pé no peito.

Então agarrando com a mão esquerda a mão direita do indio, tornando-lhe por isso inoffensiva a arma, Anzani tirou-lhe do cinto as pistollas e punhal, que espalhou pelo armazem, e arrancando-lhe a pistolla da mão, quebrou-lhe o cano na cabeça e na cara, e julgando que o selvagem já se achava bem castigado foi empurrando-o aos pontapés até á porta deitando-o no meio de um grande lamaçal.

O indio levantou-se com muita difficuldade e fugiu, mas em tal estado que nunca mais tornou a apparecer em S. Gabriel.

Anzani havia feito debaixo do nome de Ferrari a guerra de Portugal. Com este nome tinha-se conduzido admiravelmente, ganho a patente de capitão e recebido duas graves feridas: uma na testa, outra no peito, e tão graves que no fim de dezeseis annos morreu por causa d'ellas.

A ferida da cabeça era um golpe de sabre que lhe tinha aberto o craneo.

A do peito foi uma balla que lhe tinha ficado no pulmão, e de que mais tarde lhe nasceu uma phtisica pulmonar.

Quando se lhe fallava dos prodigios de coragem que tinha praticado debaixo do nome de Ferrari, sorria-se e dizia que elle e Ferrari eram dois entes differentes.

Infelizmente não podia, ao mesmo tempo que attribuia os seus prodigios de valor a um ente imaginario, trespassar-lhe as duas feridas.

Tal era o homem de quem me haviam fallado, e a quem eu desejava conhecer e ter por amigo.

Em S. Gabriel soube que tinha ido tratar de alguns negocios a sessenta milhas de distancia. Montei então a cavallo para o procurar.

No caminho, na margem de um pequeno rio, encontrei um homem, com o peito nú lavando uma camisa—vi que era este o homem que procurava.

Dirigi-me a elle, estendi-lhe a mão e disse-lhe quem era.

Desde este momento fomos irmãos.

Já não estava na casa de commercio, e como eu havia entrado ao serviço da republica do Rio Grande. Era commandante de infanteria da divisão de João Antonio, um chefe republicano dos mais conhecidos. Como eu deixava o serviço e dirigia-se aos saltos.

Depois de um dia passado juntos, demos os nossos adresses respectivos e combinámos que não emprehenderiamos movimento algum importante sem o participarmos mutuamente.

Seja-me permittido narrar um facto que dá bem a conhecer a nossa miseria e a nossa fraternidade.

Achava-me tão pobre como Anzani em camisas, em quanto que elle tinha mais um par de calças.

Dormimos no mesmo quarto, mas Anzani partiu antes de romper o dia e sem se despedir.

Quando accordei encontrei sobre o meu leito o melhor dos seus dois pares de calças.

Conhecia apenas Anzani, mas era um d'esses homens que se apreciam á primeira vista, e tanto que quando entrei ao serviço da republica de Montevideo e fui encarregado de organisar a legião italiana, o meu primeiro cuidado foi escrever-lhe convidando-o a vir acompanhar-me.

Veiu com effeito e desde esse dia não nos deixamos mais, até que elle tocando na terra de Italia morreu entre os meus braços.

XXXVII
PROFESSOR DE MATHEMATICA E CORRETOR DE COMMERCIO

Em Montevideo dirigi-me a casa de um dos meus amigos chamado Napoleão Castellini. Ao seu excellente coração sou devedor de muito, para jámais me esquecer, assim como a G. D. Cunes,—amigo de toda a minha vida,—e aos irmãos Antoninho e Giovanni Risso.

Gastos os poucos escudos que me tinham produzido as minhas pelles de bois, e para não ficar com minha mulher e filho ás sopas dos meus amigos, emprehendi duas industrias que, devo confessal-o, chegavam apenas para satisfazer as minhas necessidades.

A primeira era corretor de fazendas. A segunda era a de professor de mathematica, na casa do estimavel Paulo Semidei.

Este modo de vida durou até á minha entrada na legião oriental.

Os negocios do Rio Grande começavam a estabelecer-se e a arranjar-se, não tendo eu pois nada a esperar d'este lado. A republica oriental—é assim que se chamava a republica de Montevideo—sabendo que me achava livre não tardou em me offerecer uma occupação mais em harmonia com os meus meios e com o meu caracter, do que a de professor de mathematica e corretor.

Offereceram-me e acceitei o commando da corveta—Constituição.

A esquadra oriental achava-se debaixo das ordens do coronel Cosse, e a de Buenos-Ayres ás ordens do general Brown.

Lith. de Castro, Poço Novo N.o 33.

FRANCISCO 2.o

MONTEVIDEO

Quando o viajante chega da Europa n'um d'esses navios, que os primeiros habitantes do paiz tomavam por casas volantes, o que vê—logo que o marinheiro de vigia grita: «Terra» são duas montanhas.

Uma que é a cathedral, e a outra ornada de um pharol, que é a montanha do Cerro.

Á medida que o viajante se aproxima das torres da cathedral, de que os ornatos de porcellana brilham ao sol, o viajante vê os mirantes sem numero e de fórmas variadas que ornam todas as casas, depois essas mesmas casas, encarnadas ou brancas, com os seus terraços, depois ao pé do Cerro, as salgadoras, vastos edificios onde se salgam as carnes; e emfim ao fundo da bacia, á borda do mar as encantadoras quintas, delicia e orgulho dos habitantes onde elles vão passar todos os domingos e dias de festa.

Então se deitaes a ancora, entre o Cerro e a cidade, dominada, por qualquer ponto de vista que a olheis, pela sua gigantesca cathedral, se a canôa vos leva para a praia, puchada por seis valentes remadores, se de dia encontraes pelas estradas grupos de encantadoras mulheres vestidas de amazonas, se de tarde atravez as janellas abertas, deitando para a rua torrentes de luz e harmonia, ouvis os sons do piano e de outros instrumentos, é que estaes em Montevideo, a vice-rainha d'esse rio de prata, de que Buenos-Ayres pretende ser a rainha, e que se lança no Occeano por uma embocadura de oitenta leguas.

Foi João Dias o que no principio de 1516 descobriu as praias da Prata. A primeira cousa que o marinheiro de quarto avistou foi o Cerro, e cheio de alegria exclamou em latim:

Montem video!

Sendo este o nome que ficou á republica, de que vamos rapidamente escrever a historia.

João Dias, já com bastante orgulho de haver no anno passado descoberto o Rio de Janeiro, não gosou por muito tempo da sua gloria.

Tendo deixado na bahia dois dos seus navios, e havendo subido o rio Prata com o terceiro, confiando nos signaes de amizade que lhe fizeram os indios, caiu n'uma emboscada sendo morto, despadaçado e devorado na margem do rio, que em memoria d'este triste acontecimento tem o nome de Solis.

Estes indios anthropóphagos pertenciam á tribu dos Charruas que era senhora do paiz, como na extremidade opposta do grande continente o eram os Hures e os Sioux.

Os hespanhoes foram pois obrigados a edificar Montevideo no meio de combates, que se renovavam todos os dias e todas as noites, contando por isso Montevideo apenas cem annos, apezar de ter sido descoberto em 1516.

Pelo fim do ultimo seculo, appareceu um homem que promoveu aos senhores primitivos da costa uma guerra de exterminação, em que foram aniquilados.

Tres ultimos combates—em que collocaram entre si suas mulheres e filhos, e caíam sem recuar um passo—viram desapparecer os seus ultimos restos, e monumentos d'esta derrota suprema; o viajante póde ainda vêr ao pé da montanha Augua os ossos dos ultimos Charruas.

Este novo Mario era Jorge Pacheco, pae do general Pacheco e Obes de quem, como já dissemos, tivemos todos estes promenores.

Mas os selvagens destruidos deixaram a Pacheco inimigos mais ferozes, mais perigosos, e mais inexterminaveis que os indios, visto que aquelles eram sustentados, não por uma crença religiosa, que todos os dias ia enfraquecendo, mas, pelo contrario, por um interesse material que ia augmentando sensivelmente. Estes inimigos eram os contrabandistas do Brazil.

O systema prohibitivo era a base do commercio hespanhol. Havia pois uma guerra encarniçada entre o exercito e os contrabandistas, que ou pela estrategia ou pela força tentavam introduzir no territorio de Montevideo as suas sedas e tabaco.

A lucta foi longa, encarniçada e mortal. D. Jorge Pacheco dotado de uma força herculea, de um talhe gigantesco, e de uma grande finura, tinha alcançado—pelo menos assim o julgava—não a aniquillar os contrabandistas, como havia feito aos Charruas, mas a affastal-os da cidade, quando repentinamente tornaram a apparecer mais atrevidos, mais activos, e reunidos como nunca em roda de uma vontade unica, tão poderosa, tão corajosa, e tão intelligente como podia ser a do general Pacheco.

Pacheco mandou espiões por toda a parte a informarem-se do motivo d'esta reapparição.

Todos voltaram pronunciando um unico nome:

—Artigas!

Quem era este Artigas?

Um mancebo de vinte a vinte e cinco annos, bravo como um velho hespanhol, esperto como um Charrua, e agil como um gaucho: tinha tres raças senão no sangue ao menos no espirito. Começou então uma lucta admiravel de esperteza e força entre o general e o contrabandista, mas um era moço e todos os dias a sua força augmentava, o outro não era velho, mas estava já cançado.

Durante quatro ou cinco annos Pacheco perseguiu Artigas, batendo-o por toda a parte por onde apparecia; mas Artigas derrotado não era nem morto, nem feito prisioneiro, e no dia seguinte começava de novo a lucta. Pacheco cansou primeiro e como um d'esses romanos da antiga republica, que sacrificavam o seu orgulho ao bem do paiz, disse ao governo que resignava os seus poderes com a condição que Artigas seria nomeado general em seu logar, porque só Artigas podia acabar a destruição dos contrabandistas.

O governo acceitou, e como esses bandidos romanos que se submettem ao poder do papa e passeam venerados na cidade de que foram o terror, Artigas fez a sua entrada triumphal em Montevideo, e começou a obra de destruição para que havia sido chamado.

Estes factos tiveram logar cincoenta e oito ou sessenta annos antes dos acontecimentos em que Garibaldi vae tomar parte, mas como nós somos author dramatico e não podemos deixar de começar um drama por um prologo, vamos dar a conhecer aos leitores, homens e terras que lhe são bem desconhecidos.

Artigas tinha então vinte e sete ou vinte e oito annos, tendo na época em que o general Pacheco me deu estes detalhes noventa e tres annos, vivendo ignorado n'uma pequena quinta pertencente ao presidente do Paraguay. Hoje provavelmente já tem morrido.

Era um mancebo bello e bravo, e que representava um dos tres poderes que reinaram em Montevideo.

Jorge Pacheco era o typo do valor cavalheiresco do velho mundo, que atravessou os mares com Colombo, Pizarro e Fernando Cortez. Artigas era o homem do campo, e podia representar, o que chamavam o partido nacional, collocado entre os portuguezes e hespanhoes, isto é entre os estrangeiros que se tinham tornado portuguezes e hespanhoes, pela sua habitação nas cidades onde tudo fazia lembrar os costumes portuguezes e hespanhoes.

Ainda havia um terceiro typo e mesmo uma terceira potencia que foi o flagello de todos e de que é necessario dizer duas palavras.

Este terceiro typo é o gaucho, a quem Garibaldi chama o centauro do novo mundo.

Na França chamamos gaucho a tudo quanto vive n'estas vastas planicies, mas commettemos um erro: o capitão Head da marinha ingleza, foi o primeiro a pôr em moda esta mania de confundir o gaucho com o habitante do campo, que na sua soberba repelle não só a similhança, mas até a comparação.

O gaucho é o bohemio do novo mundo. Sem terras, sem casa, sem familia, possue por toda a fortuna um casaco, um cavallo, uma faca e o laço.

A faca é a sua arma, o laço a sua industria.

A nomeação de Artigas foi recebida com satisfação por todos, excepto pelos contrabandistas, e ainda se achava occupando este alto cargo quando rebentou a revolução de 1810, revolução que tinha por fim, e que obteve, destruir o dominio hespanhol no novo mundo.

Esta revolução começou em 1810 em Buenos-Ayres e acabou em Bolivia na batalha de Ayacuncho em 1824.

O chefe das forças independentes era então o general Antonio José de Soure, e tinha cinco mil homens ás suas ordens.

O general em chefe das tropas hespanholas era D. José de Laserna, o ultimo vice-rei do Peru, e commandava onze mil homens.

Os patriotas não possuiam senão uma unica peça, eram um contra dois, e achavam-se completamente desprovidos de munições, e de provisões de boca. Não tinham remedio senão esperar, assim o fizeram, e quando foram atacados ficaram vencedores.

Foi o general patriota Aleixo Cordova que começou o combate. Commandava mil e quinhentos homens. Poz a bandeira na ponta da espada e gritou:

—Ávante!

—A marche marche, ou no passo ordinario? perguntou um official.

—No passo da victoria, respondeu elle.

N'essa mesma tarde todo o exercito hespanhol tinha capitulado, e achava-se prisioneiro d'aquelles que o tinham sido seus.

Artigas havia sido um dos primeiros a festejar a revolução. Tinha-se posto á testa do movimento, e por sua vez offereceu a Pacheco o commando, como annos antes elle o havia feito.

Esta troca ia-se talvez operar quando Pacheco foi surprehendido na Casa branca, no Uruguay, por marinheiros hespanhoes, e ficou seu prisioneiro.

Artigas continuou a sua tarefa libertadora. Em pouco tempo expulsou os hespanhoes do campo de que se havia tornado rei, reduzindo-os a serem senhores unicamente de Montevideo, que podia apresentar uma séria resistencia, visto ser a segunda cidade fortificada da America.

A primeira era S. João de Ulloa.

Em Montevideo achavam-se refugiados todos os partidarios dos hespanhoes, protegidos por um exercito de quatro mil homens. Artigas sustentado pela alliança de Buenos-Ayres começou o cerco da cidade, mas um exercito portuguez veiu em auxilio dos hespanhoes e Artigas teve de retirar-se. Em 1812 Montevideo soffreu novo cerco. O general Rondeau commandava as forças de Buenos-Ayres e Artigas as dos patriotas, e foram estes que de novo cercaram a cidade.

O cerco durou vinte e tres mezes, tendo logar no fim d'este tempo uma capitulação que entregou a capital da futura republica oriental aos sitiantes, commandados então pelo general Alvear.

Porque razão era então general em chefe Alvear e não Artigas? Vamos dizel-o.

É que no fim de vinte mezes de cerco, depois de tres annos de contacto entre os homens de Buenos-Ayres e os de Montevideo, as differenças de habitos, de costumes, e direi mesmo de raças, que tinham sido causa de simples desintelligencias, haviam-se tornado em motivos de odios mortaes.

Artigas, como Achilles havia-se retirado desapparecendo pelos campos tão seus conhecidos no tempo da sua mocidade em que exercia o mister de contrabandista.

O general Alvear tinha-o substituido, sendo general em chefe dos Portenos, na occasião em que Montevideo se entregou.

Portenos é o nome que dão aos naturaes de Buenos-Ayres, e Orientaes aos de Montevideo.

Tentaremos explicar as differenças que ha entre os Portenos e os Orientaes.

O habitante de Buenos-Ayres fixado no paiz ha trezentos annos na pessoa de seus avós, perdeu desde o fim do primeiro seculo da sua existencia na America, todas as tradicções da mãe patria, isto é da Hespanha. Os habitantes de Buenos-Ayres são hoje tão americanos, como o eram antigamente os indios que d'ali expulsaram.

O habitante de Montevideo, ao contrario, existindo apenas ha um seculo no paiz,—sempre na pessoa de seus avós, bem entendido—não teve o tempo de esquecer que é de raça hespanhola. Tem o sentimento da sua nova nacionalidade, mas sem ter esquecido as tradicções da velha Europa, em quanto que o de Buenos-Ayres, se affasta todos os dias da Europa para entrar na barbaria.

O paiz não deixa de ter sua influencia, sobre este movimento retrogrado de um lado, progressivo do outro.

A população de Buenos-Ayres, espalhada em areaes immensos, com habitações muito affastadas umas das outras, em sitios completamente desprovidos de agua, e de todos os objectos necessarios, e habitando cabanas mal construidas, ganha um caracter sombrio, insociavel e bulhento. As suas tendencias dirigem-se para os indios selvagens das fronteiras, com os quaes elles negoceiam em todos os objectos que trazem dos sitios onde a civilisação ainda não penetrou, e são completamente desconhecidos aos europeus, dos quaes recebem em troca agua-ardente e tabaco que levam para as grandes planicies dos pampas, de que tomaram o nome, ou a quem póde ser deram o seu.

A população de Montevideo, pelo contrario, possue um bello paiz, cortado por muitos rios. Não possue vastos bosques, não tem grandes florestas, como a America do Norte, mas as margens dos seus rios são ornadas de bellas e magestosas arvores. Possue além d'isso bellos edificios, e a terra produz todo o necessario para o seu sustento. As suas casas, quintas e herdades são proximas umas das outras, e o seu caracter franco e hospitaleiro, é inclinado a essa civilisação de que a aproximação do mar lhe conduz continuamente.

Para a população de Buenos-Ayres o typo da perfeição é o indio a cavallo.

Para a de Montevideo é o europeo apertado na sua casaca, na sua gravata e nas botas de polimento.

Os naturaes de Buenos-Ayres tem a pertenção de serem os primeiros da America em elegancia. Teem mais imaginação que os de Montevideo, e os primeiros poetas que a America conheceu, nasceram em Buenos-Ayres. Varela e Lafinur. Domingos e Marmol são poetas portenos.

O habitante de Montevideo é menos poetico, mas mais socegado e mais firme nas suas resoluções e nos seus projectos. Se o seu rival tem a pertenção de ser o primeiro em elegancia, elle tem a de o ser na coragem. Entre os seus poetas figuram de Hidalgo, de Berro, de Figueira, e João Carlos Gomes.

As mulheres de Buenos-Ayres tambem teem a pretenção de serem as mais bellas da America meridional desde Lemairé até ao Amazonas.

Póde ser que na realidade o rosto das mulheres de Montevideo seja menos formoso que o das suas visinhas, mas as suas fórmas são maravilhosas.

Ha pois entre os dois paizes;

Rivalidade de coragem e elegancia, entre os homens;

Rivalidade de belleza e elegancia, entre as mulheres;

Rivalidade de talento entre os poetas, esses hermaphroditas da sociedade, colericos como os homens, caprichosos como as mulheres e simples muitas vezes como as creanças mais innocentes.

Havia pois, como se vê por tudo que acabamos de dizer, motivos sufficientes para as relações serem interrompidas entre Montevideo e Buenos-Ayres, entre Artigas e Alvear.

Não foi unicamente uma separação, que teve logar, mas sim uma guerra.

Todos os elementos de antipathia foram dirigidos contra os homens de Buenos-Ayres pelo antigo chefe de contrabandistas. Pouco lhe importavam então os meios, de que tinha a servir-se, com tanto que alcançasse o seu fim que era expulsar do paiz os Portenos.

Foi então que Artigas reunindo todos os recursos que lhe offerecia o paiz, se poz á testa d'esses bohemios da America que se chamam gauchos.

A guerra que fazia Artigas tinha alguma cousa de santa; assim nada lhe podia resistir, nem o exercito de Buenos-Ayres, nem o partido hespanhol, que sabia perfeitamente que a entrada de Artigas em Montevideo, era a substituição da força brutal á intelligencia.

Os que tinham previsto esta volta á barbaria não se haviam enganado. Pela primeira vez homens vagabundos, por civilisar, e sem organisação, viam-se formando um exercito e com um general. Durante a dictadura de Artigas teve logar um periodo que tem alguma analogia com o nosso de 1793. Montevideo viu o reinado do homem dos pés nús, dos casoncillos fluctuantes, da chiripa escosseza, do puncho despedaçado, e com o chapeu deitado sobre a orelha seguro pelo barlipo.

Então Montevideo foi testemunha de scenas inauditas grotescas, e algumas vezes terriveis. Muitas vezes as primeiras classes da sociedade foram reduzidas á impotencia, Artigas tendo de menos a crueldade e de mais a coragem, tornou-se então o que mais tarde devia ser Rosas.

A dictadura de Artigas teve não obstante muitas cousas de brilhante e nacional. Uma foi a lucta de Montevideo contra Buenos-Ayres, em que Artigas derrotou sempre as forças d'este paiz e de que fez cessar a influencia e a resistencia ao exercito portuguez que invadiu o paiz em 1815.

O pretexto d'esta invasão foi a desordem da administração de Artigas e a necessidade de salvar os povos visinhos de desordens eguaes, que podia fazer nascer entre elles o contagio do exemplo. Estas desordens tinham no mesmo paiz, dobrado a opposição que fazia o partido da civilisação. As classes elevadas sobre tudo desejavam do coração uma victoria que substituisse o dominio portuguez a esse dominio nacional que trazia a brutal tyrannia da força material. Comtudo não obstante os ataques portenos e dos portuguezes, Artigas resistiu quatro annos, dando tres batalhas, e vencido retirou-se para Entre rios, isto é para o outro lado do Uruguay. Ahi, apezar de se achar fugitivo, Artigas representava ainda, se não pelas suas forças, ao menos pelo seu nome, um poder respeitavel, quando Ramiro seu tenente se revoltou, contra elle, collocando-se á frente da terça parte das suas forças, e derrotando-o de modo que lhe tirou toda a esperança de reconquistar a sua posição perdida, obrigando-o a sair d'este paiz aonde como Anteo, parecia ganhar novas forças todas as vezes que ahi tocava.

Foi então que, egual a uma d'essas trombas que se evaporam, depois de ter deixado a desolação e as ruinas na sua passagem, Artigas desappareceu retirando-se para o Paraguay, onde, como já dissemos, em 1848 na época em que Garibaldi defendia Montevideo, vivia ainda tendo noventa e tres ou noventa e quatro annos, gosando de todas as suas faculdades intellectuaes e de quasi todas as suas forças.

Artigas vencido não fez opposição ao dominio portuguez que se estabeleceu no paiz, e o barão de Laguna francez de origem foi seu representante em 1825. N'este anno Montevideo como todas as possessões portuguezas da America foram cedidas ao Brazil.

Montevideo foi então occupado por um exercito de oito mil homens e tudo parecia assegurar ao imperador a sua pacifica posse.

Foi então que um natural de Montevideo, proscripto, residente em Buenos-Ayres, reuniu trinta e dois companheiros proscriptos como elle, e decidiram que dariam a liberdade á patria ou que morreriam.

Este punhado de patriotas embarcou em duas canoas e desembarcou no Grande Areal.

O chefe chamava-se João Antonio Lavalleja.

Lavalleja havia de antecipação tido relações com um proprietario do paiz que devia no momento do seu desembarque, ter os cavallos promptos. Assim logo que desembarcou enviou-lhe um mensageiro, que lhe trouxe em resposta que tudo estava descoberto, que os cavallos haviam sido roubados e que Lavalleja e os seus companheiros não tinham outro partido a tomar senão embarcarem de novo e o mais depressa possivel, devendo dirigir-se para Buenos-Ayres.

Mas Lavalleja respondeu que não partia, pois não podia, nem queria recuar, e ordenando aos remadores de voltarem para Buenos-Ayres sem elle, tomou posse, no dia 19 de abril, de Montevideo em nome da liberdade.

No dia seguinte os trinta valentes que tinham apanhado alguns cavallos, com o consentimento de seus donos, pozeram-se em marcha para a capital, mas foram encontrados por um destacamento de cavalleiros, de que quarenta eram brazileiros e cento e sessenta orientaes.

Eram commandados por um antigo irmão de armas de Lavalleja, o coronel Jurien. Lavalleja podia evitar o combate, mas não o quiz e marchou direito aos duzentos cavalleiros, e pediu uma entrevista ao coronel antes de entrar em combate.

—Que quer e que vem aqui fazer? perguntou Jurien a Lavalleja.

—Venho libertar Montevideo do dominio estrangeiro, respondeu Lavalleja, se tem as minhas idéas acompanhe-me, se não, entregue-me as suas armas, ou prepare-se para o combate.

—Não comprehendo o que querem dizer essas palavras=entregue-me as suas armas, respondeu o coronel, e espero que ninguem m'as ha-de explicar.

—Então tome o commando dos seus soldados, e vamos vêr por quem é Deus.

—Veremos, disse Jurien.

E partiu a galope a unir-se aos seus soldados.

Mas no mesmo momento Lavalleja desenrolou a bandeira nacional, azul, branca e encarnada e immediatamente os cento e sessenta orientaes passaram para o seu lado.

Os quarenta brazileiros foram feitos prisioneiros.

A marcha de Lavalleja para Montevideo foi uma verdadeira marcha triumphal, de que o resultado foi que a republica oriental, proclamada pela vontade e enthusiasmo de um povo inteiro, tomou logar entre as nações.

ROSAS

Durante estes acontecimentos engrandecia-se um nome que mais tarde devia ser o terror da federação argentina.

Pouco depois da revolução de 1810 um mancebo de quinze a dezaseis annos saía de Buenos-Ayres, abandonando a cidade e dirigindo-se para o campo. Ia muito perturbado e caminhava apressadamente.

Este mancebo chamava-se João Manoel Rosas.

Porque esta creança, este fugitivo abandonava a casa onde havia nascido? Porque ia pedir um asylo aos habitantes dos montes? É porque acabava de insultar sua mãe, como mais tarde devia insultar a sua patria; ia perseguido pela maldição paterna.

Este successo, sem nenhuma importancia para os acontecimentos d'aquelle paiz, esqueceu bem depressa no meio de factos mais serios que então tiveram logar, e em quanto todos os antigos companheiros do fugitivo se reuniam debaixo do estandarte da independencia para combater os hespanhoes, Rosas, andava pelos pampas entregando-se á vida dos gauchos, adoptando o seu vestuario e costumes, tornando-se um dos melhores cavalleiros e um dos homens mais habeis d'essas immensas planicies, no manejo do laço e da bola, de sorte que vendo-o tão habil n'estes exercicios selvagens, quem não o conhecesse não o tomaria por um habitante da cidade, nem por um pueblero fugitivo, mas por um verdadeiro gaucho.

Rosas entrou primeiramente como peon, isto é jornaleiro, em uma estancia, depois foi capataz,—Garibaldi já nos explicou o que era um capataz—chegando depois a mayordomo.

N'esta qualidade governava os bens da poderosa familia Anchorena. É d'ahi que começa a sua fortuna como proprietario.

Sendo o nosso designio fazer conhecer Rosas debaixo de todos os aspectos; vamos dizer qual era a situação do seu espirito no meio dos acontecimentos que então tinham logar.

Rosas tinha estado em Buenos-Ayres durante os prodigios praticados pela revolução contra a Hespanha. Então quem tinha coragem procurava a celebridade no campo da batalha, quem tinha instrucção procurava-a nos conselhos. Rosas era ambicioso de celebridade, mas qual era a que elle poderia esperar? Que nome poderia adquirir, elle que não tinha nem coragem para se apresentar no campo da batalha, nem instrucção alguma para adquirir um nome entre os homens da sciencia? A todos os momentos ouvia proferir a seu lado alguns nomes que se haviam tornado celebres. Eram como ministros, Rivadaria, de Pasos, de Aguerro, como guerreiros, Saint-Martin, de Baléarés, de Rodrigues, e de Las Heras.

E todos estes nomes de que o ruido, vindo da cidade, ia achar éco nas solidões dos campos, todos estes nomes avivavam o seu odio contra essa cidade que tendo triumphos para todos, não tinha para elle senão o exilio.

Já n'esta época Rosas pensava no futuro e preparava-o. Errando pelos pampas, confundido com os gauchos, fazia-se o companheiro da miseria do povo, elogiando os prejuizos do homem das planicies, excitando-o contra os cidadãos, demonstrando-lhe a superioridade do numero e diligenciando fazer-lhe comprehender que quando quizessem os habitantes do campo, seriam senhores da cidade.

Os annos foram passando, até que chegamos a 1820.

Foi então que Rosas começou a apparecer, apoiado na influencia que havia adquirido nos habitantes das planicies.

Já vimos o que se passou em Montevideo. Vejamos agora o que se passou em Buenos-Ayres.

A milicia de Buenos-Ayres rebellou-se contra o governador Rodrigues. Então um regimento das milicias do campo, los colorados de las Conchas entraram na cidade, em 5 de outubro de 1820, tendo á sua frente um coronel, que era conhecido em Buenos-Ayres, e que conhecia Buenos Ayres.

Este coronel era Rosas.

No dia seguinte as milicias do campo, e as milicias da cidade vieram ás mãos, mas n'esse dia o coronel não estava á frente do regimento.

Uma violenta dôr de dentes, que Rosas deixou de soffrer assim que finalisou o combate, affastava-o, com grande pezar, do campo da batalha. E porque não teria elle razão? Octavio tambem teve um grande ataque de febre no dia da batalha de Actium.

Rosas parecia-se muito com Octavio; mas mais tarde Octavio foi Augusto, o que segundo todas as probabilidades nunca será Rosas.

Esta entrada em Buenos-Ayres foi a unica expedição guerreira em que Rosas tomou parte durante toda a sua vida politica.

Foi então que Rivadavia, já mui conhecido, foi nomeado ministro do reino, tomando a direcção de todos os negocios.

Rivadavia era um d'esses homens de genio, como apparecem no meio das revoluções durante os dias de tormenta. Havia viajado muito na Europa, possuindo uma instrucção universal, e parecendo animado do mais ardente e puro patriotismo. Infelizmente a vista da civilisação europea, que tinha estudado em Paris e Londres havia-lhe feito nascer falsas idéas da sua applicação a um povo que não tendo por detraz de si dez seculos de luctas sociaes, não as podia admittir.

Rivadavia queria dobrar a marcha do tempo e fazer o mesmo pela America que Pedro o Grande havia feito pela Russia; mas não tendo á sua disposição os meios de Pedro foi obrigado a desistir das suas intenções.

Póde ser que com mais alguma esperteza Rivadavia as tivesse alcançado, mas censurava os homens pelos seus habitos e certos habitos são uma nacionalidade e outros um orgulho. Escarnecia os trajes americanos, manifestando a sua repugnancia pela jaqueta, o seu desprezo pela chiripa, o vestuario do homem dos campos, e como ao mesmo tempo não occultava a sua preferencia pela casaca e bota de polimento, despopularisou-se pouco a pouco, e sentiu o poder prestes a escapar-lhe.

E não obstante que de beneficios não fez ao seu paiz em troca d'esses vestidos ridiculos que lhe queria tirar? A sua administração foi a mais prospera que Buenos-Ayres teve. Foi elle que fundou a universidade, os liceos, e que introduziu nas escolas o ensino mutuo. Durante a sua administração, muitos sabios foram chamados da Europa, as artes foram protegidas, desenvolvendo-se muito, emfim Buenos-Ayres era chamada a Athenas da America do Sul.

Já fallámos da guerra de Buenos-Ayres em 1826. Para sustentar esta guerra, Buenos-Ayres fez sacrificios enormes, exgotando as suas finanças, e enfraquecendo por esse motivo muito as molas da sua administração.

Exgotadas as finanças, enfraquecido o governo, as revoluções começaram.

Já dissemos que em Buenos-Ayres como em Montevideo, o campo e a cidade nunca estavam em harmonias de opiniões, como nunca o estavam em harmonias de interesse.

Buenos-Ayres fez uma revolução.

Immediatamente o campo fez uma revolução, e dirigindo-se sobre Buenos-Ayres, invadiu a cidade e fez o seu chefe governador.

Este chefe era Rosas.

Vamos fechar o parenthesis, aberto algumas paginas atraz.

Em 1830 Rosas foi eleito governador pela influencia dos habitantes do campo, não obstante a opposição da cidade, que elle encontrou meia policiada pela administração de Rivadavia.

Então Rosas, o gaucho, tentou reconciliar-se com a civilisação, parecendo querer esquecer os costumes selvagens adoptados por elle até então: a serpente queria mudar de pelle.

Mas a cidade resistiu ás suas tentativas, e a civilisação recusou receber o transfuga que se havia passado para o campo da barbaria. Rosas mostrava-se revestido de um uniforme, e immediatamente os militares perguntavam em que campo de batalha havia elle ganho aquellas dragonas. Fallava n'uma reunião, e logo os homens intelligentes perguntavam entre si onde tinha elle ido aprender aquelle estylo; quando apparecia n'um passeio, as mulheres designando-o com o dedo diziam: «Ahi vae o gaucho disfarçado!»

Os tres annos do seu governo passaram-se n'esta lucta mortal para o seu orgulho, e póde ser que a estas torturas moraes que lhe fizeram soffrer n'este periodo, seja devida a sua ferocidade. D'esta maneira quando resignou o poder e desceu a escada do palacio, com a alma cheia de odio, e o coração de fel, sabendo que desde então não havia alliança possivel com a cidade, foi ter de novo com os seus fieis gauchos, e as suas estancias de que era o senhor, com a intenção de um dia entrar de novo em Buenos-Ayres, como Scylla, que elle não conhecia e de quem provavelmente nunca havia ouvido fallar, havia entrado em Roma, com a espada n'uma mão e uma tocha m outra.

Para alcançar este fim vejamos o que elle fez. Pedia ao governo que lhe concedesse um commando qualquer no exercito que ia combater os indios selvagens. O governo que o temia julgou affastal-o concedendo-lhe este favor, e deu-lhe todas as tropas de que podia dispôr, esquecendo que se enfraquecia mettendo todo o poder nas mãos de Rosas.

Este logo que se achou á frente do exercito fez uma revolução em Buenos-Ayres, fez-se chamar ao poder que não acceitou senão com grandes condições, porque tinha ás suas ordens todo o exercito, e entrou em Buenos-Ayres com a dictadura mais absoluta de que se tem conhecimento, isto é com toda la suma del poder publico—com toda a extensão do poder publico.

O governador que elle fez cair, ou antes que elle precipitou era o general João Romão Baleace, um dos homens que tinha mais trabalhado na guerra da independencia, e um dos chefes do partido federal de que Rosas se dizia o sustentaculo. Baleace era um nobre coração e a sua fidelidade á patria era proverbial. Havia acreditado em Rosas e tinha trabalhado muito para a sua elevação. Baleace foi o primeiro sacrificado por Rosas, morrendo proscripto e quando o seu cadaver repassou a fronteira, protegido pela morte, Rosas recusou á sua familia, não as honras funebres que eram devidas a um ex-governador, mas as simples ceremonias a quem todo o cidadão tem direito.

Em 1833 foi que começou o verdadeiro poder de Rosas. No seu primeiro governo, cheio de dissimulação, não tinha apresentado os seus instinctos de crueldade, que fizeram depois d'elle uma celebridade de sangue. Este primeiro periodo não tinha sido marcado senão pelo fuzilamento do major Monteiro e dos prisioneiros de S. Nicolau. Comtudo não devemos esquecer que foi n'esta época que tiveram logar muitas mortes sombrias e subitas, d'essas mortes de que a historia inscreve a data com tinta encarnada no livro das nações.

D'esta maneira desappareceram dois chefes de que a influencia poderia fazer alguma sombra a Rosas. As mortes de Arbolito e de Molina tiveram logar n'esta época. O mesmo aconteceu, segundo nos parece, aos dois consules que acompanharam Octavio na sua primeira batalha contra Antonio.

Daremos mais alguns detalhes de Rosas que ainda não nos appareceu senão como dictador, mas tendo já alcançado um poder como poucos homens tem exercido n'uma nação.

Em 1833, Rosas contava trinta e nove annos. Tinha o aspecto europeo, cabellos louros, olhos azues, e uma presença soffrivel. Não usava nem de barbas, nem de bigodes. O seu olhar seria bello se se podesse examinar, mas Rosas havia-se habituado a não olhar de frente, nem os seus amigos nem os seus inimigos, porque sabia que n'um amigo existe quasi sempre um inimigo disfarçado. A sua voz era doce, e, quando tinha necessidade de agradar a sua conversação tinha muito de attrahente. A sua reputação de cobarde é proverbial, e a de esperto é universal. Adorava as mystificações, sendo esta a sua grande occupação antes de se entregar aos negocios serios. Uma vez chegado ao poder, não foi senão uma distracção, que eram brutaes como a sua natureza.

Citemos um ou dois exemplos:

Uma tarde que devia jantar na companhia de um dos seus amigos, occultou o vinho destinado a beber-se e deixou unicamente no bofete uma garrafa do famoso licor de Leroy, que para ser completamente celebre só lhe falta ser descuberto no tempo de Moliere. O amigo procurando o vinho só achou a garrafa de Leroy e encontrando-lhe um gosto mui agradavel, bebeu-a toda. Rosas não bebeu se não agua, e partiu logo que acabou o jantar para a sua estancia.

Durante a noite o amigo de Rosas soffreu dores infernaes. Rosas riu muito d'este seu innocente brinquedo, se elle tivesse morrido, Rosas teria, sem duvida, rido muito mais.

Quando recebia algum cidadão em uma das suas estancias, fazia-o montar em cavallos muito fogosos e a sua alegria era conforme a gravidade da queda que o cavalleiro dava.

No palacio do governo achava-se sempre rodeado de loucos e de imbecis, e no meio dos negocios mais serios conservava este singular cortejo. Quando sitiava Buenos-Ayres, em 1829, tinha a seu lado quatro d'estes pobres diabos, que havia feito monges, tornando-se em virtude do seu poder, seu prior. Chamavam-se frei Biqua, frei Chaja, frei Lechuza, e frei Biscacha. Rosas gostava muito de confeitos, tendo-os sempre de todas os qualidades na sua tenda.

Os monges que tambem gostavam muito de confeitos, roubavam alguns de quando em quando. Rosas então chamava-os a todos e os monges que sabiam o que lhe custaria a mentir, confessavam o crime.

Immediatamente o culpado era despojado dos vestidos e fustigado pelos seus tres companheiros.

Todos conheciam em Buenos-Ayres o seu mulato Eusebio, e para isso muito concorreu Rosas que em um dia de recepção publica, teve a idéa de fazer o mesmo que a condessa Dubarry fazia com o preto Zamora.

Eusebio vestido de governador recebeu os cumprimentos das authoridades, em logar do seu senhor.

Não obstante a amizade que Rosas tinha a Eusebio, teve um dia a lembrança de lhe fazer uma brincadeira, como costumavam ser todas as que esta boa alma inventava. Fingiu que acabava de ser descoberta uma conspiração, contra elle, de que o chefe era Eusebio. O fim d'esta conspiração era matar Rosas. Eusebio foi preso apezar dos seus protestos de innocencia. Rosas dominava os juizes a tal ponto que elles não se importavam se o accusado era ou não innocente. Rosas accusava, e elles julgaram e condemnaram Eusebio á morte.

Eusebio soffreu todos os preparativos do supplicio. Confessou-se, e sendo depois conduzido ao logar do supplicio, ahi encontrou o carrasco e seus ajudantes, e quando este brinquedo estava quasi a terminar tragicamente, appareceu Rosas que disse a Eusebio estar sua filha Manuelita apaixonada por elle, e que por isso lhe perdoava, com a condição de a desposar.

É inutil dizer que Eusebio não morrendo do supplicio esteve quasi a morrer de medo.

Vamos agora dizer aos nossos leitores quem era como mulher esta Manuelita que a Providencia tinha collocado ao pé de seu pae como um bom anjo, de que a principal occupação, durante toda a sua vida, foi repetir todos os dias a palavra perdão, alcançando-o muitas vezes.

Manuelita é hoje uma mulher de quarenta annos que por dedicação por seu pae, e póde ser, que talvez pela missão que recebeu do ceu, se tem conservado solteira, pelo menos até 1850, época em que a perdemos de vista.

Manuelita não era precisamente uma mulher encantadora, mas era bella, com uma figura distincta, dotada de um tacto profundo, coquette como uma parisiense, e muito preoccupada, sobre tudo do effeito que produzia nos estrangeiros.

Manuelita foi muito calumniada, o que era muito natural por ser filha de Rosas, isto é, do homem sobre o qual convergiam todos os odios. Era accusada de ter herdado os sentimentos crueis de seu pae, e de ter, como a filha do papa Borgia, esquecido o amor filial por outro mais terno e menos christão.

Tudo isto é falso. Manuelita ficou solteira por duas razões: a primeira porque Rosas sentia muitas vezes a necessidade de ser amado, e sabia que o unico amor real, dedicado, infinito, sobre que podia contar era o de sua filha. Manuelita ficou solteira porque, talvez, nos seus sonhos de realeza, Rosas, hoje simples particular, vivendo num canto da Inglaterra, via no futuro brilhar para Manuelita alguma alliança mais aristocratica do que aquellas a que poderia então aspirar.

Tanto a historia deve ser severa para com Rosas, tanto, a menos de ser injusta, deve ser cheia de indulgencia para com Manuelita, a quem todos que a conhecem fazem justiça, reconhecendo o que dizemos como uma verdade. Manuelita foi o dique eterno, que fazia parar a colera de seu pae. Quando creança tinha um meio muito extravagante para obter d'elle a graça que pedia.

Fazia despir completamente o mulato Eusebio, arreiando-o como um cavallo, e calçava uns lindos sapatos com esporas. Eusebio punha as mãos no chão, e Manuelita montava-se-lhe nas costas, fazendo caracolar o seu bucephalo humano diante de seu pae que ria muito d'este singular brinquedo, concedendo a Manuelita o perdão que implorava.

Mais tarde quando ella comprehendeu que não podia empregar este meio, apezar de ser tão efficaz, começou a pôr em pratica a obra de Mecena ao pé de Augusto, quando elle lhe lançava as suas tabuas nas quaes estava escripto: Surge, carnifex! Mas Manuelita procedia de outra maneira, porque conhecendo seu pae perfeitamente, sabia as vaidades secretas que era necessario fazer vibrar, e por isso muitas vezes alcançava o que pedia.

Manuelita era ao mesmo tempo a rainha e escrava de seu pae. Administrava a casa, cuidava de Rosas, e encarregada de todas as relações diplomaticas era o verdadeiro ministro dos negocios estrangeiros de Buenos-Ayres.

Assim como Rosas era um ente á parte, que não se confundia com pessoa alguma na sociedade, Manuelita era tambem uma creatura não só estranha no meio de todas, mas mesmo estranha a todas, e que viveu n'este mundo solitaria, longe do amor dos homens e da sympathia das mulheres.

Rosas tambem tinha um filho chamado João, mas que nunca seguiu a politica de seu pae, e uma filha que ainda creança casou, sendo hoje uma casta esposa e mãi feliz, tendo um nome, o de seu marido, honrado e respeitado por todos.

Tendo alcançado o poder, o grande trabalho de Rosas, foi anniquilar a federação.

Lopes o seu fundador, cahiu doente. Rosas mandou-o vir para Buenos-Ayres e tornou-se seu enfermeiro.

Lopes morreu envenenado.

Quiroga, o chefe da federação, que havia escapado são e salvo de vinte batalhas, e de quem a coragem e lealdade era proverbial, morreu assassinado.

Cullen, o conselheiro da federação, foi nomeado governador de Santa Fé. Rosas improvisou uma revolução, e Cullen foi entregue a Rosas pelo governador de São Thiago.

Cullen foi fuzillado.

Todos os homens notaveis no partido federal tiveram a mesma sorte que tinham tido na Italia os homens de consideração durante o dominio dos Borgias. Pouco a pouco, Rosas, empregando os mesmos meios que Alexandre VI e seu filho Cesar, conseguiu reinar na republica argentina, que apezar de reduzida a uma perfeita unidade, conserva ainda o nome pomposo de federação, e vae talvez, ser inimiga dos unitarios.

Diremos algumas palavras dos homens que acabamos de nomear, fazendo reviver algum tempo os seus spectros accusadores, o que dará alguma idéa da scena de Shakespeare no Ricardo 3.o, antes do combate.

Havia n'esses homens uma especie de selvajaria politica que é digna de ser conhecida.

Fallemos primeiramente do general Lopes. Uma unica anedocta, dará não sómente idéa d'este chefe, mas fará conhecidos os homens com quem elle tinha a tratar.

Lopes era governador da Santa Fé, e tinha em Entre Rios um inimigo pessoal, o coronel Ovando, que em seguida a uma revolta foi conduzido prisioneiro ao general Lopes.

O general almoçava. Recebeu perfeitamente Ovando e convidou-o a almoçar. A conversação travou-se entre elles como entre dois convivas, aos quaes uma egualdade de condições tivesse ordenado a mais perfeita cortezia.

Comtudo no meio da conversação, Lopes exclamou:

—Coronel, se eu tivesse cahido nas suas mãos, como cahiu nas minhas e isto no momento em que almoçasse, que faria?

—Convidal-o-ia para almoçar, como v. ex.a acaba de fazer.

—E depois?

—Mandava-o fuzillar.

—Estimo muito que pense do mesmo modo que eu. Acabando de almoçar será fuzillado.

—Se não se quer demorar muito, póde ser já.