XI
AINDA MONTEVIDEO
Antes de começar a narração da campanha da Lombardia executada por Garibaldi em 1848, diremos a proposito de Montevideo, tudo o que elle na sua modestia, não quiz dizer.
Devem lembrar-se do combate de 24 d'abril, da perigosa passagem da Boyada, e da maneira porque ahi se conduziram os legionarios italianos.
O official que contava estes acontecimentos ao general Paz disse unicamente referindo-se aos italianos:
—Bateram-se como tigres.
—Não admira, respondeu Paz, pois são commandados por um leão.
Depois da batalha de Santo Antonio, o almirante Lainé que então commandava a estação da Plata, admirado d'esta façanha, escreveu a Garibaldi a carta seguinte, cujo autografo existe em poder de G. B. Cuneo, amigo de Garibaldi. O almirante Lainé apparelhava então a fragata Africana.
«Felicito-vos, meu caro general, por terdes tão poderosamente contribuido, pelo vosso intelligente e intrepido proceder, para o alcance de uma victoria de que se ufanariam os soldados do grande exercito, que por momentos dominou a Europa.
«Felicito-vos egualmente pela simplicidade e modestia, que tornam mais preciosa a leitura, da relação dos numerosos detalhes que déstes, de uma victoria, de que sem receio, se vos póde attribuir toda a honra.
«De resto, esta modestia, trouxe-vos as sympathias de pessoas aptas para apreciar convenientemente o que tendes feito e alcançado em seis mezes, pessoas entre as quaes devo enumerar em primeiro logar, o nosso ministro plenipotenciario, o honrado barão Deffaudis, que honra o vosso caracter e n'elle tendes um caloroso defensor, sobretudo, quando se trata de escrever para Paris, no intento de destruir impressões desfavoraveis que podem nascer de certos artigos dos jornaes, redigidos por homens pouco habituados a fallar verdade, mesmo quando contam factos acontecidos á propria vista.
Não se contentou só o almirante Lainé com o escrever a Garibaldi, quiz-lhe fazer os seus cumprimentos pessoalmente. Desembarcou em Montevideo, dirigiu-se á rua Portona, onde morava Garibaldi. Esta habitação, tão pobre como a do ultimo legionario, nunca se fechava, e dia e noite estava aberta para todos, e particularmente para o vento e chuva, como dizia Garibaldi, contando esta anedocta.
Era noite: o almirante Lainé empurrou a porta, e como a casa estivesse ás escuras tropeçou n'uma cadeira.
—Eia, disse elle, é necessario quebrar a cabeça para vêr Garibaldi?
—Oh mulher, exclamou Garibaldi, não reconhecendo a voz do almirante, tu não ouves, que vem ahi alguem? Allumia.
—Com que queres tu que eu allumie! respondeu Annita, não sabes que não ha com que se compre uma vella?
—É verdade, respondeu philosophicamente Garibaldi.
E levantando-se, abrio a porta do quarto em que estava.
—Por aqui, por aqui, disse elle, para que a voz á falta da luz guiasse a visita.
O almirante Lainé entrou, a escuridão era tal que viu-se obrigado a dizer quem era, para que Garibaldi soubesse com quem tinha que tratar.
—Almirante, lhe disse elle, desculpae, porém quando fiz o meu tratado com a republica de Montevideo, esqueceu-me entre as rações que me são devidas, especificar uma de vellas, ora como vos disse Annita, não possuindo o necessario para comprar uma vella, permanecemos na obscuridade; por felicidade supponho que vindes aqui para conversar comigo, e não para me verdes.
O almirante com effeito conversou com Garibaldi, porém não o viu.
Sahindo de casa d'elle, foi á do general Pacheco y Obes, ministro da guerra, e contou-lhe o que lhe tinha acontecido.
O ministro da guerra que acabava de fazer o decreto que se vae lêr, pegou em cem patacões e mandou-os a Garibaldi.
Garibaldi não quiz offender o seu amigo Pacheco, recusando-lhes, porém no dia seguinte, de manhã, pegou nos cem patacões, e distribui-os pelas viuvas e filhos dos soldados mortos no Salto de Santo Antonio, não guardando para si, senão o que lhe bastou para comprar um arratel de vellas, recommendando a sua mulher as poupasse, para servirem no caso do almirante Lainé o ir visitar outra vez.
Eis o decreto que redigia Pacheco y Obes, quando o almirante Lainé lhe foi fazer um appello á sua munificencia.
«Para dar aos nossos companheiros d'armas, que se immortalisaram nos campos de Santo Antonio, uma alta prova da estima em que os tem o exercito que illustraram neste memoravel combate:
«O ministro da guerra ordena:
«1.o No dia 15 do corrente, designado para a entrega á legião italiana de uma copia d'este decreto, formará em grande parada a guarnição, na rua do Mercado, até á praça do mesmo nome, na ordem que indicará o estado maior.
«2.o A legião italiana, formará na Praça da Constituição, com a retaguarda para a Cathedral, e ahi receberá a sobredita copia, que lhe será entregue, por uma deputação presidida pelo coronel Francisco Tages, e composta d'um commandante, d'um official, d'um sargento e soldado de cada corpo.
«3.o A deputação regressando aos seus respectivos corpos, se dirigirá com elles á praça indicada, e passando em continencia pela frente da legião italiana, os commandantes dos corpos, darão vivas—á Patria, ao general Garibaldi e aos seus valentes companheiros!
«4.o Os regimentos deverão estar formados ás dez horas da manhã.
«5.o Será dada copia authentica desta ordem do dia á legião italiana e ao general Garibaldi.
O decreto ordenava:
1.o Que as palavras seguintes seriam inscriptas em letras d'ouro na bandeira da legião italiana:
2.o Que a legião italiana teria a vanguarda em todasas paradas.
3.o Que os nomes dos mortos n'esta acção serão inscriptos em um quadro, collocado na sala do governo.
4.o Que todos os legionarios trarão para signal distincto, no braço esquerdo um escudo sobre o qual uma corôa guarneceria a seguinte inscripção:
Além d'isso Garibaldi querendo dar uma prova da sua sympathia e reconhecimento aos legionarios que haviam perecido a seu lado no dia 8 de fevereiro, fez elevar no campo de batalha uma grande cruz que tinha d'um lado:
E do outro lado:
Apesar da pobreza a que Garibaldi se achava reduzido, achou um dia um legionario mais pobre do que elle. Este legionario não tinha camiza.
Garibaldi levou-o a um canto, tirou a sua camiza e deu-lh'a. Indo para casa pediu outra a Annita, porém ella sacudindo a cabeça disse-lhe:
—Sabias muito bem que não tinhas senão uma, deste-a, agora peor para ti!
E foi Garibaldi que ficou sem camiza, até que Anzani lhe deu uma.
Porém Garibaldi era incorregivel, um dia tendo aprisionado um navio inimigo, repartiu a preza com os companheiros, e tendo dividido os quinhões, chamou os seus homens um a um, e interrogou-os sobre o estado das suas familias, dando aos mais desgraçados, do seu proprio quinhão, dizendo-lhe:
—Tomae isto para vossos filhos.
Havia além do mais uma quantia grande de dinheiro a bordo, que Garibaldi mandou para o thesouro de Montevideo, não tirando um unico centimo.
Algum tempo depois d'esta preza, não tinha senão tres sous em caza, tal tinha sido a repartição.
Isto deu motivo a uma anedocta que me contou o proprio Garibaldi.
Um dia, ouviu chorar a sua filha Therezita, adorava esta filha, e correu a ver o que lhe tinha acontecido. A creança havia cahido pela escada, e tinha a cara ensaguentada.
Garibaldi não sabendo como a havia de consolar, pegou nos tres sous que era toda a sua fortuna, e que reservava para uma grande occasião, e sahiu para ir comprar um brinquedo para consolar a creança.
Á sahida encontrou-se com um emissario do Presidente, Joaquim Soares, que o procurava da parte do seu amo para uma communicação importante.
Garibaldi dirigiu-se immediatamente a casa do Presidente, esquecido já do motivo que o tinha feito sahir, tendo machinalmente na mão o dinheiro. A conferencia durou duas horas, tratava-se com effeito de cousas importantes.
Garibaldi quando acabou a conferencia voltou para casa; a creança já estava socegada, porém Annita estava muito inquieta.
—Roubaram-nos, lhe disse ella assim que o viu.
Garibaldi lembrou-se então do dinheiro que tinha ainda na mão.
Era elle o ladrão.