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Memorias de José Garibaldi, volume 2 / Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas cover

Memorias de José Garibaldi, volume 2 / Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas

Chapter 14: XIII CONTINUAÇÃO DA CAMPANHA DA LOMBARDIA
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About This Book

The memoirs recount riverine and urban campaigns led by a small flotilla commander who organizes volunteer legions to defend a besieged city. They narrate a desperate naval engagement with a superior squadron, the loss and rescue of ships, evacuation to shore, and arduous marches and skirmishes through hostile territory. The text details the raising, discipline, and privations of expatriate volunteer units, fortification and defense of river forts, and the challenges of sustaining forces under siege. Recurring themes include personal honor, leadership under fire, sacrifice, and improvisation in irregular warfare.

XIII
 
CONTINUAÇÃO DA CAMPANHA DA LOMBARDIA

Garibaldi marchava como já disse sobre Luino; mas antes d'ahi chegar, recebera noticia de que Luino estava já occupado pelos austriacos, ao mesmo tempo que a columna d'Aspres, depois da sua grande victoria sobre nós se apoderava d'Arcisate.

A retirada de Garibaldi sobre a Suissa tornava-se desde então difficultosa. Decidiu-se pois a marchar direito a Morazzone, posição muito forte e por consequencia muito vantajosa.

Além d'isso, o ruido do canhão que tinha ouvido lhe tinha feito crescer agua na bocca.

Apenas tinha acampado viu-se completamente rodeado por cinco mil austriacos.

Comsigo tinha quinhentos homens.

Durante um dia com seus quinhentos homens sustentou o ataque dos cinco mil austriacos. Vindo a noite, formou os seus em columna cerrada, e lançou-se sobre o inimigo á bayoneta.

Favorecido pela obscuridade fez uma sanguinolenta passagem, e achou-se em campo raso.

A uma legua de Morazzone licenciou seus voluntarios, dando-lhes ponto de reunião em Lugano, e a pé com um guia, desfarçado em paisano seguiu para a Suissa.

Uma manhã soube em Lugano que Garibaldi, que todos criam morto, ou pelo menos prisioneiro em Morazzone, tinha chegado a uma aldêa visinha.

Então vieram-me á memoria as palavras propheticas de Anzani.

Corri a Garibaldi, achei-o na cama, quebrado, moido, e apenas podendo fallar. Acabava de fazer uma marcha de seis horas, e só por milagre havia escapado aos austriacos.

A sua primeira pergunta ao ver-me foi:

—Tens a tua companhia prompta?

—Tenho, lhe respondi.

—Pois bem, deixa-me dormir esta noite, e ámanhã prepararemos a nossa gente e recomeçaremos.

Não pude deixar de me rir: era evidente que no dia seguinte estaria tolhido a ponto de não poder mover uma perna.

No dia immediato, com grande admiração minha, Garibaldi estava a pé; a alma e o corpo n'este homem são eguaes, ambos de bronze.

Mas nada havia a fazer; a campanha de Garibaldi na Lombardia estava finda.

Garibaldi então entrou no Piemonte e volveu a Genova.

Ali recebeu propostas que lhe trazia uma deputação siciliana.

Estas propostas eram de embarcar para a Sicilia, afim d'ahi sustentar a causa da revolução.

Acceitou-as e partiu com trezentos homens para Livourne; mas ahi sabendo o que se passava em Roma, abandonou a idéa da sua expedição á Sicilia e partiu para Roma.

É ali que prestes o encontraremos.

Quanto a mim fiquei em Lugano com a minha companhia, a que tendo reunido alguns desertores se achava com o numero de oitenta homens, e foi-me permittido conservar-me com elles n'um deposito.

As nossas armas estavam sempre occultas, mas debaixo de mão.

Durante este momento de repouso organisámos, para não perder tempo, uma insurreição na Lombardia.

O governo da Suissa foi prevenido d'isto, e fez occupar o cantão de Tessino pelos contingentes federaes.

Resolveu-se então de me internar.

Fui com duzentos homens, a maior parte dos quaes haviam servido com Garibaldi, e outros comigo, enviado para Bellinzona, onde nos guardaram n'um quartel, como perigosos e capazes de violar a fronteira.

O projecto não deixou de marchar.

Os generaes Ascioni e d'Aspice deviam partir de Lugano e dirigir-se sobre Como pelo valle de Intelvi.

Quanto a mim devia partir de Bellinzona, atravessar a passagem do Jorio, uma das mais elevadas e difficeis da fronteira, descer sobre o lago de Como, e chamar os habitantes ás armas. Depois do que, com a minha gente, iria reunir-me aos dois generaes.

Como eramos guardados á vista, a cousa era difficil de executar.

Sobre uma altura que dominava Bellinzona estão as ruinas de um velho castello que out'rora pertenceu aos Visconti.

É ali que tinha feito guardar as nossas armas e as munições que depois podera obter.

Ao todo tinha duzentos e cincoenta homens. Dividi-os em oito ou dez bandos, que deviam por muitas estradas, evitando a vigilancia das tropas, reunir-se no castello.

Contra toda a esperança o projecto realisou-se completamente.

Cada um se encontrou no ponto de reunião sem encontrar impedimento; armei todos e estava prompto para partir para a montanha, quero dizer atravessar a fronteira.

Repentinamente ouvi tocar a rebate; as tropas dispunham-se a marchar em minha perseguição.

Mas os habitantes que me tinham votado amisade decidida, sublevaram-se em meu favor, e ameaçaram se se não calasse o tambor, de se armarem e fazer barricadas.

Livre d'este cuidado dei á minha gente ordem de se pôr em marcha; estavamos no fim de outubro, o norte soprava e promettia-nos nova noite de tempestade.

Marchámos toda a noite contra o vento, com o rosto açoutado pela neve. Vindo o dia, marchámos sem parar durante o seu curso; era preciso atravessar o cimo cuberto de neve do Jorio; o inverno tinha tornado impraticaveis as passagens; entretanto atravessamol-o com neve quasi sempre até ao joelho, muitas vezes até aos sovacos dos braços.

Depois de trabalhos infinitos, chegámos, emfim, ao cume; mas ali um inimigo mais terrivel do que todos os que tinhamos vencido até então nos esperava: a tormenta.

N'um instante ficámos completamente cegos, e não distinguiamos nada a dez passos de distancia.

Disse então aos meus bravos de se apertarem uns contra os outros, marchar n'uma só fila e seguir-me avançando com a maior rapidez. Tres ficaram para traz, cahindo para não mais se levantarem, escondidos em a neve, dormindo ou velando talvez no cume do Jorio.

Marchei primeiro, sem seguir nenhuma estrada real, sem saber onde ia, fiando em a nossa boa fortuna, quando repentinamente parei; o rochedo me faltava debaixo dos pés; um passo mais e cabia no precipicio!

Fiz alto, ordenando que cada um ficasse no logar em que estava até nascer o dia.

Então só com um guia procurei um caminho toda a noite; a cada instante a terra, ou antes a neve faltava debaixo de nós, ou os pés nos escorregavam. Era por milagre que um de nós não ficava escondido, ou morto na queda.

Emfim ao raiar do dia, chegámos perto de algumas cabanas abandonadas. Entretanto como offereciam um abrigo, quiz voltar para os meus homens.

Mas então as forças abandonaram-me, e cahi quebrado de fadiga e transido de frio.

O meu guia levou-me para uma das cabanas, e conseguiu accender fogo e fez-me tornar a mim.

Durante este tempo a felicidade quiz que os meus soldados seguissem o mesmo caminho que eu tinha seguido, de sorte que duas horas depois tinham-me encontrado.

Tornámos de novo a pôr-nos a caminho, e descemos a Gravedona, sobre o lago de Como.

Chegado ali, depois de uma paragem de meio dia, puz-me em marcha para reunir-me aos dois generaes com quem devia encontrar-me, e que durante a minha passagem deviam haver feito o levantamento.

Mas elles em vez de bater os austriacos haviam sido batidos, e eu ia dar de face com a divisão Wohlgemmuth que occupava já o valle de Intelvi, e com alguns barcos a vapor cheios de austriacos.

Tomei então por um atalho, e entrei no valle Menaggio, e occupei na sua extremidade Porteyzo, sobre o lago de Lugano, reservando-me para a retirada o valle Cavarnia, que tocava na fronteira suissa.

A posição era magnifica; estava em communicação com Lugano, d'onde podia receber gente e munições: mas ninguem veiu juntar-se-me, e fiquei ahi oito dias inutilmente.

No fim d'este tempo, os austriacos concentraram suas forças e marcharam sobre Portecco. Retirei-me ao valle de Cavarnia, que separa a Lombardia da Suissa. Contava, se me atacassem fazer tanto como em São-Maffeo.

Mas houve apenas alguns tiros de espingarda.

Dois dos meus homens morreram de suas feridas.

Nada havia a fazer; todas as passagens eram cobertas de neve; o inverno tornava-se cada vez mais rigoroso; entrei na Suissa; escondi as espingardas e em seguida eu mesmo me escondi.

Por desgraça, eu era mais difficil de esconder que uma espingarda; e como estava tão compromettido, tratava-se em relação a mim, não de um simples internamento, mas da prisão; muito feliz seria, se agarrado pelas authoridades suissas não me entregassem aos austriacos.

Resolvi pois fazer todo o possivel para reentrar no Piemonte.

Prestaram-me uma carruagem para sahir do Lugano. Sahindo, iria a Magadino; de Magadino a Genova, e de Genova Deus sabe aonde.

Atravessava pois Lugano de carruagem, quando um carro carregado de madeira, que obstruia o caminho me fez parar. Era mister esperar que o descarregassem. Estava esperando, quando o commandante do batalhão federal me reconheceu, chamou gente e fez-me prender.

Conduziram-me prisioneiro; era o menos que tinha a esperar.

Entretanto aconteceu-me cousa melhor ainda. Como os principaes habitantes de Lugano eram todos meus amigos, obtiveram que em vez de ficar prisioneiro seria levado ás fronteiras sardas.

Não fiz mais que atravessar o Piemonte. A Toscana estava governada por republica; embarquei em Genova, e parti para Florença. Em Liorne um despacho telegraphico nos noticiou que o grão-duque illudindo Montanelli por uma doença, acabava de fugir de Liorne e se tinha refugiado em Porto-Ferrajo.

Immediatamente Guerazzi ordenou á guarda nacional de Liorne de embarcar, perseguir o duque e prendêl-o.

Quando assignava esta ordem disseram-lhe que eu tinha chegado a Liorne.

—Offerecei-lhe o commando da expedição, disse Guerazzi, e instae para que acceite.

Como se comprehende bem não foi preciso pedir-me muito; submetti-me immediatamente ás ordens do governo provisorio.

Embarcamos a bordo do Giglio e fizemo-nos de vela para a ilha d'Elba.

Apenas estavamos no mar deram-nos signal de que se avistava uma fragata a vapor. Era franceza, ingleza, austriaca? Não sabiamos; mas a prudencia ordenava que não nos aproximassemos.

Fiz pois que o Giglio se voltasse, e em vez de abordar directamente em Liorne, abordei em Golfo-di-Campo; atravessei a ilha n'um apice, e cheguei a Porto-Ferrajo.

Não se havia ahi visto o grão-duque.

A expedição estava terminada.

Então volvi a Florença, e ahi organisei livremente os despojos da minha columna, que reforcei com novos voluntarios; porque tudo o que era refugiado em Florença quiz acompanhar-me.

Durante a minha estada ali, foram tentados dois ensaios de reacção, e comprimi-os.

Uma manhã espalhou-se o boato de que os austriacos entravam pela fronteira de Modena; corri ahi com a minha gente.

Nada havia.

Uma terceira tentativa de reacção vingou; o governo do grão-duque foi restabelecido, e eu que tinha sido encarregado de o prender, fui naturalmente obrigado a partir.

Além da minha legião havia em Florença uma legião polonesa perfeitamente organisada; chamei-a e seguiu-me.

Atravessei os Apeninos e desci a Bolonha.

Ahi fui muito mal recebido pelo governo republicano, que me tratou como desertor.

O general Mezzacapo formava em Bolonha uma divisão destinada a marchar em soccorro de Roma. Passou-nos em revista, reconheceu que não eramos desertores, e fez de nós sua vanguarda.

Seguimos a estrada de Foligno, de Nami e de Civita-Castelhana. Chegados lá, apoiamos sobre a Sabina para evitar os francezes.

Entramos em Roma pela porta San-Giovanni.

Digamos onde era Roma.