WeRead Powered by ReaderPub
Memorias de José Garibaldi, volume 2 / Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas cover

Memorias de José Garibaldi, volume 2 / Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas

Chapter 17: XVI COMBATE DE VELLETRI
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

The memoirs recount riverine and urban campaigns led by a small flotilla commander who organizes volunteer legions to defend a besieged city. They narrate a desperate naval engagement with a superior squadron, the loss and rescue of ships, evacuation to shore, and arduous marches and skirmishes through hostile territory. The text details the raising, discipline, and privations of expatriate volunteer units, fortification and defense of river forts, and the challenges of sustaining forces under siege. Recurring themes include personal honor, leadership under fire, sacrifice, and improvisation in irregular warfare.

XVI
 
COMBATE DE VELLETRI

A partir d'este momento as notas deixadas por Garibaldi na occasião de partir para a Sicilia, facilita-nos o podêl-o agora deixar relatar as suas aventuras.

A 12 de maio a assembléa constituinte romana, á noticia da heroica defeza de Bolonha, proclamou este decreto.

Roma, 12 de maio de 1849.

«A assembléa constituinte em nome de Deus e do povo.

«Decreta:

ARTIGO UNICO

«O heroico povo de Bolonha, bem mereceu da patria, e da republica, sendo o digno emulo de seu irmão o povo romano.»

No dia em que Bolonha cahia, o embaixador extraordinario da republica franceza, Fernando de Lesseps entrava em Roma com Miguel Accursi, enviado da republica romana em Paris.

O armisticio de que se tratava havia quinze dias, e contra o qual eu me tinha pronunciado no dia 1 de maio, estava concluido.

O governo romano resolveu aproveitar-se d'estas treguas para se desembaraçar do exercito napolitano; porque ainda que elle não fosse para temer, é sempre mau ter sobre os hombros vinte mil homens e trinta e seis bocas de fogo.

Engano-me, eram só trinta e tres porque tres tinhamos nós trazido da Palestrina.

O governo julgou esta occasião favoravel para crear dois generaes de divisão, um, de um coronel, e o outro, de um general de brigada; o primeiro foi Roselli, eu o segundo.

Roselli foi nomeado general de expedição. Alguns amigos me aconselhavam a não acceitar esta posição secundaria, para obedecer a um homem que, ainda na vespera, era meu inferior.

Confesso porém que sempre me tem sido indifferentes estas questões de amor proprio, se me tivessem dado, ainda mesmo como simples soldado, a occasião de desembainhar a espada contra o inimigo do meu paiz, teria servido como bersaglieri. Acceitei pois, com reconhecimento, o posto de general de divisão.

No dia 16 de maio, á noite, todo o exercito da republica, isto é dez mil homens e doze bocas de fogo sahiu dos muros de Roma, pela porta San-Giovanni.

Entre estes dez mil homens haviam mil de cavallaria.

No caminho deu-se pela falta do corpo Manara designado tambem para fazer parte da expedição.

Enviou-se um official do estado maior para saber a razão porque Manara, que era sempre o primeiro a marchar contra o inimigo não apparecia.

Não tinha sido prevenido. Estava furioso, julgava que só elle tinha sido desviado da expedição.

Passámos o Teverone pela estrada de Tivoli, ali costeamos á direita e chegamos a Zagarola ás onze horas da manhã, depois de uma das marchas mais custosas para a nossa gente. Apezar de não termos avançado muito, tinhamos andado dezeseis horas. Isto provinha do grande numero de gente. Havia uma poeira insupportavel. Além d'isto a estrada era tão estreita em certas partes que tivemos de passar a um e um.

Quando chegamos a Zagarola não havia pão nem carne, a divisão napolitana tinha comido tudo, e vinho pouco deixou.

O estado maior tinha-se esquecido de prever o caso.

Felizmente tinha levado comigo alguns bois, e a minha gente agarrou outros ao laço; mataram-se, esquartejaram-se, assaram-se e comeram-se.

É verdade que quando me queixei d'esta falta de cuidado que esteve a ponto de matar á fome a expedição, respondeu-se-me que temeram reunindo viveres despertar o inimigo.

Perfeitamente!

Estivemos trinta horas pouco mais ou menos n'esta pequena villa, d'onde sahimos sem pão como tinhamos entrado.

A ordem de marcha deu-se no dia 18 á uma hora da tarde, não partimos porém senão ás seis horas. Estas paragens fatigam mais que marchas forçadas.

Finalmente, ás seis horas puz-me á frente da brigada da vanguarda e parti para Valmontone. Seguiam-me as outras brigadas. Tinha mandado observar o maior silencio nas fileiras e grande vigilancia na frente e nos flancos. Recebi aviso de que o exercito napolitano estava acampado em Velletri com desenove a vinte mil homens entre os quaes haviam dois regimentos de suissos e trinta bocas de fogo.

Dizia-se que o proprio rei de Napoles estava na cidade.

Effectivamente os realistas occupavam Velletri, Albano e Frascati, as vanguardas estendiam-se até Fratocchi. Tinham o flanco esquerdo protegido pelo mar e o direito apoiado pelos Apeninos e haviam occupado Palestrina depois que eu a abandonei e dominavam d'este modo o valle onde havia o unico caminho praticavel a um exercito que viesse atacal-os de Roma.

Podiam pois oppor-nos uma séria resistencia e além d'isto levavam-nos vantagem em posição, numero, bocas de fogo e cavallaria.

O feliz resultado porém da primeira empreza era uma promessa de sorte para a segunda. Por outro lado as tropas do rei de Napoles estavam completamente desmoralisadas e como se sabe, na guerra a força moral é tudo.

Para obrigar o inimigo a fugir ou a combater, julgou-se que era necessario apoderarmo-nos de repente do valle, occupar uma posição de lado que ameaçasse as communicações do exercito napolitano com Napoles. Monte-Fortino tinha sido escolhido para formar este ponto estrategico. Com effeito, senhores d'este ponto, podiamos lançar-nos sobre Citerna e fechar aos realistas o caminho da fronteira, apoderarmo-nos de Velletri, se por acaso a abandonassem para nos fazer frente, ou finalmente lançarmo-nos com toda a nossa força sobre o corpo mais fraco do inimigo, se elle commettesse o erro de se dividir.

Ao anoitecer descobrimos um caminho muito estreito que conduz perto de Valmontone; gastamos duas horas a percorrel-o. O batalhão Manara ajudado d'um esquadrão de dragões e duas bocas de fogo foi encarregado de proteger a vanguarda.

Chegamos ás dez horas, as trevas eram espessas e o sitio do acampamento pessimo; fomos obrigados a ir buscar agua a uma milha de distancia.

No dia 18, continuamos a marcha com a mesma ligeireza; assim como na vespera tinhamos encontrado Palestrina e Valmontone evacuadas pelo inimigo achamos tambem Monte-Fortino livre, tão livre que era facil disputar-nos.

Todo o exercito bourbonez retirava para Velletri.

No dia 19 de manhã deixei a posição de Monte-Fortino para marchar sobre Velletri com a legião italiana, o terceiro batalhão do terceiro regimento de infanteria romana e alguma cavallaria commandada pelo bravo Marina, seriam ao todo quinhentos homens.

Tinha a meu lado Ugo Bassi, que sempre desarmado mas excellente cavalleiro, servindo-me de ajudante d'ordens, me dizia sem cessar no meio do fogo:

—General! por favor, mandai-me onde houver maior perigo, em logar de enviar para ahi alguem de mais utilidade.

Chegado á vista de Velletri, enviei um destacamento com ordem de avançar até aos muros da cidade, para que reconhecesse os logares, e, chamando o inimigo, o obrigasse, se fosse possivel, a tomar a offensiva.

Eu não esperava, é verdade, com os meus quinhentos homens, bater os vinte mil do rei de Napoles; mas tencionava, empenhado o combate, attrahil-os a mim, e, em quanto os entretinha, dar tempo ao grosso do nosso exercito para chegar e tomar parte no combate.

Nas alturas que flanqueam a estrada que conduz a Velletri, colloquei metade da minha legião, duzentos ou trezentos homens no centro, a metade do batalhão á direita, e os poucos soldados de cavallaria, commandados por Marina, na estrada mesmo.

Guardei o resto da minha gente em segunda linha como reserva.

O inimigo, vendo o nosso pequeno numero não tardou a atacar-nos; primeiro, um regimento de caçadores a pé sahiu dos muros, e, espalhando-se, começou um fogo de atiradores sobre os nossos postos avançados.

Segundo a ordem que tinham recebido os postos avançados pozeram-se em fuga.

Os caçadores napolitanos foram então seguidos de alguns batalhões de linha e d'um numeroso corpo de cavallaria.

O choque foi violento, ao principio. Chegados que foram a distancia de meio tiro de espingarda da nossa gente, um fogo perfeitamente socegado e bem dirigido os fez parar.

Havia meia hora que o fogo estava travado.

N'este momento, o inimigo lançou sobre a estrada dois esquadrões de caçadores a cavallo; uma carga desesperada d'elles devia decidir a victoria.

Puz-me então á frente dos meus cincoenta ou sessenta cavalleiros e carregamos quinhentos homens.

Os napolitanos trazidos pelo impulso passaram-nos por cima. Eu fui derrubado, e lançado a dez passos do meu cavallo; levantei-me e fiquei no meio do combate, dando quanto podia ser para que me não dessem.

O meu cavallo seguira-me o exemplo: tinha-se levantado. Lancei-me sobre elle, e fiz-me reconhecer dos nossos homens, que podiam julgar-me morto, pondo o meu chapeu e agitando-o na ponta da minha espada. Eu era bem reconhecido por ser o unico que trazia um ponche branco debroado de vermelho.

Grandes gritos accolheram a minha resurreição.

No seu ardor, a cavallaria napolitana penetrou até á nossa reserva, em quanto os batalhões de linha, a seguiam em columna cerrada. Perdeu-os o seu ardor; pois tendo os flancos protegidos pelo regimento de caçadores a pé, achando os nossos embuscados em todas as collinas da direita e da esquerda, com a nossa reserva na frente, apresentaram-se como um alvo aos tiros dos nossos soldados.

N'esta occasião mandei pedir reforço ao general em chefe participando-lhe que a batalha estava, a meu ver, de boa face.

Responderam-me que não m'o podiam enviar, antes dos soldados terem tomado a refeição.

Resolvi então fazer o que podesse com minhas proprias forças, por desgraça sempre insufficientes nas circumstancias decisivas.

Fiz tocar a carregar sobre toda a linha; eramos mil e quinhentos contra cinco mil.

No mesmo instante as nossas duas peças foram postas em bateria e descarregaram; o fogo de atiradores redobrou, e meus quarenta ou cincoenta lanceiros conduzidos por Marina, lançaram-se sobre tres ou quatro mil homens de infanteria.

Entretanto Manara que estava a duas milhas de nós pouco mais ou menos, ouvia nosso fogo e pedia ao general em chefe permissão de marchar debaixo do fogo da artilheria.

Ao fim de uma hora foi lhe concedida.

Estes bravos mancebos chegaram a marche-marche pela grande estrada debaixo do fogo inimigo. Quando attingiram a nossa retaguarda, esta abriu-se para os deixar passar. Desfilaram ao som das cornetas e no meio de um admiravel enthusiasmo. Á vista d'estes jovens, pequenos, trigueiros e vigorosos; á vista de seus negros penachos fluctuantes, o grito de vivam os bersaglieri! sahiu de todas as bocas. Elles responderam pelo grito de viva Garibaldi! e entraram em linha.

N'este momento era repellido de posição em posição, e retirava-me protegido pelos canhões da praça, de que a maior parte collocados á direita da porta estavam apoiados no convento; duas das peças faziam frente á embocadura da grande estrada, os outros atiravam para o flanco esquerdo da nossa columna, onde os atiradores estavam espalhados; mas visto a natureza do terreno, que offerecia á minha gente numerosos abrigos de terra atraz dos quaes elles podiam esconder-se, ellas não lhe fizeram grande damno.

Chegado apenas sobre o campo de batalha, Manara procurou-me com os olhos. Bem depressa me reconheceu pelo meu ponche branco; metteu o cavallo a galope para me alcançar; mas no meio do caminho foi suspenso por um incidente que refiro aqui, porque pinta admiravelmente o espirito dos nossos.

Passando diante da musica que tocava uma aria alegre, uma vintena dos seus soldados não poderam resistir á influencia d'esta aria, e debaixo da metralha e fusilaria dos napolitanos tinha-se posto a dançar, como se estivessem n'um explendido baile.

No momento em que Manara, debaixo de uma saraivada de ballas, os olhava rindo, uma balla de artilheria levou dois dos dançantes.

A este accidente fez-se uma breve pausa.

Mas Manara perguntou:

—Então, a musica?

A musica de novo tocou, e a dança recomeçou com mais ardor que até ali.

Por mim vendo chegar os bersaglieri tinha enviado Ugo Bassi para dizer a Manara que viesse fallar-me.

A sua primeira palavra foi a perguntar se eu não estava ferido.

—Julgo, respondeu Ugo Bassi, que o general recebeu duas ballas, uma na mão, outra no pé, mas como se não queixa, provavelmente as feridas não são perigosas.

De feito, eu tinha recebido duas arranhaduras, de que só á noite tratei quando não tinha outra cousa a fazer.

Manara contou-me a scena a que acabava de assistir.

—Por ventura com homens d'estes, me perguntou elle, não poderiamos tentar levar Velletri de assalto?

Puz-me a rir. Conquistar com dois mil homens e duas peças, uma cidade collocada como um ninho de ave no cimo de uma montanha elevada e defendida por vinte mil homens e trinta peças de artilheria!

Mas era tal o espirito d'esta brava mocidade que nada via de impossivel.

Enviei novos mensageiros ao quartel general. Se tivesse ao menos cinco mil homens teria tentado o assalto tal era o enthusiasmo dos meus e o desanimo dos napolitanos.

Á direita da porta via-se uma especie de brecha na muralha; esta brecha era tapada por ramagens e troncos, mas algumas ballas de artilheria a teriam tornado praticavel; columnas de ataque sob a protecção de arvores numerosas, semeadas nos flancos da colina; os sapadores de todos os corpos destruindo os obstaculos teriam feito o resto.

Dois ataques simulados teriam protegido o ataque geral.

Em vez d'isto era mister contentarmo-nos em deixar os nossos bersaglieri divertirem-se a espingardear as sentinellas das fortalezas em quanto que do convento dos capuchinhos dois regimentos de suissos faziam sobre elles um fogo de artilheria horrivel.

Emfim o general em chefe decidiu-se a vir em meu auxilio com o exercito; mas quando chegou tinha passado o momento favoravel. Como eu não duvidava que o inimigo evacuasse a cidade durante a noite, tendo tido a noticia de que o rei tinha já partido com seis mil homens, propuz enviar um forte destacamento pelo lado da porta de Napoles e de passar sobre o flanco inimigo no momento em que elle se retirasse em desordem; mas o terror de nos enfraquecer impediu que fosse executado este plano.

Pela meia noite querendo saber onde devia conservar-me, ordenei a Manara de enviar um official com quarenta homens de que elle confiasse, até ás muralhas de Velletri, ou mesmo até Velletri sendo possivel.

Manara transmittiu a minha ordem ao tenente Emilio Dandolo, que com quarenta homens avançou através da escuridão para o lado da cidade.

Dois paisanos que encontrou lhe asseguraram que a cidade estava abandonada.

Dandolo e os seus avançaram então até á porta; nenhuma sentinella a guardava.

Destruida pelo fogo dos nossos canhões, havia sido enbarricada. Os bersaglieri escalaram a barricada, e entraram na cidade.

Estava completamente deserta. Dandolo fez alguns prisioneiros que se haviam demorado, e por elles e pelos habitantes da cidade que elle despertava, soube tudo que precisava, quero dizer, que apenas vinda a noite os napolitanos tinham começado a retirar, mas com tal precipitação e desordem que haviam deixado a maior parte de seus feridos.

Ao raiar do dia, caminhei em sua perseguição; mas foi-me impossivel alcançal-os. Além d'isso quando me achava na grande estrada de Terracina recebi ordem de me reunir á columna cuja metade voltava a Roma, em quanto a outra era destinada a livrar Frosinone dos voluntarios de Zucchi que a infestavam.

D'esta sorte o inimigo escapou-nos, e d'um combate que podia ser decisivo resultou só uma simples vantagem.

Houve n'este dia quatro grandes faltas:

Não me enviar reforços quando os pedi.

Não se saber dar o assalto quando se me haviam reunido.

Não se saber impedir a retirada aos napolitanos.

Não se saber inquietar os fugitivos.