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Memorias de José Garibaldi, volume 2 / Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas cover

Memorias de José Garibaldi, volume 2 / Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas

Chapter 5: IV PASSAGEM DA BOYADA
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About This Book

The memoirs recount riverine and urban campaigns led by a small flotilla commander who organizes volunteer legions to defend a besieged city. They narrate a desperate naval engagement with a superior squadron, the loss and rescue of ships, evacuation to shore, and arduous marches and skirmishes through hostile territory. The text details the raising, discipline, and privations of expatriate volunteer units, fortification and defense of river forts, and the challenges of sustaining forces under siege. Recurring themes include personal honor, leadership under fire, sacrifice, and improvisation in irregular warfare.

IV
 
PASSAGEM DA BOYADA

Soubemos em Montevideo da partida dos soldados de Oribe, resolvendo então o general Paz a aproveitar-se do enfraquecimento do exercito inimigo.

Além do Cerrito, estavam quasi mil e oitocentos homens observando o Cerro.

Partimos a 23 de abril de 1844 ás 10 horas da noite.

Eis qual era o nosso plano:

Atacar o corpo de observação do Cerro, porque sabendo d'este ataque, Oribe devia enviar-lhe soccorros enfraquecendo-se ainda mais, e então sahiria toda a nossa gente a atacal-o.

Seguimos as margens do mar, passando o Arroyo Secco, que apesar do seu nome nos obrigou a encher d'agua até ao pescoço.

Tendo passado o rio, dirigimo-nos pela planicie rodeando o acampamento.

Marchavamos com taes precauções que chegamos á vista do corpo d'observação sem ter causado a mais pequena suspeita.

A guarnição do Cerro devia sahir coadjuvando o nosso movimento. Uma discussão se elevou entre os dous officiaes que a commandavam porque ambos queriam tomar o commando. Estando em fuga os mil e outocentos homens deviamos voltar sobre Oribe, collocando-o entre o fogo da nossa gente e o da cidade. A discussão entre os dous officiaes fez falhar o nosso plano, porque a guarnição sahiu, mas senhor de todas as forças Oribe repelliu-a, e foi elle que por sua vez marchou sobre nós, executando o plano de batalha que haviamos formado contra elle.

Fomos pois attacados ao mesmo tempo pelo exercito de Oribe e pelo corpo de observação, sendo obrigados a retirar-mo-nos para o Cerro, causando-lhe n'essa retirada os maiores prejuisos que podemos.

Tomei o commando da tropa que hia na rectaguarda afim de sustentar esta retirada o mais vigorosamente que fosse possivel.

Havia entre nós e o Cerro uma especie de riacho que se chamava a Boyada. Era necessario atravessal-o com lama até ao ventre.

Afim de estabelecer desordem na passagem o inimigo havia estabelecido n'um monticulo uma bateria de quatro peças que abriram o fogo quando começamos a passagem. Mas a legião italiana cada vez mais aguerrida despresou essa chuva de metralha como se fosse chuva ordinaria.

Foi então que tive occasião de observar que os nossos negros eram tambem valentes soldados. Faziam-se matar, esperando o inimigo com um joelho em terra. Estava no meio d'elles por isso podia ver como elles se conduziam. O combate durou seis horas.

Ao serviço de Montevideo estava um inglez, que tinha carta branca de Pacheco para fazer tudo quanto julgasse util a favor da nossa causa. Havia reunido quarenta ou cincoenta homens. Chamavam-lhe Samuel; não sei se tinha outro nome.

Nunca conheci homem tão bravo como elle.

Depois da passagem da Boyada vi-o chegar só com a sua ordenança.

—Samuel, lhe disse eu, onde está a teu regimento?

—Regimento, gritou elle, sentido!

Ninguem appareceu, ninguem respondeu. Todos haviam perecido no combate Em uma ordem do dia do general Paz, fizeram-se grandes elogios á legião italiana, setenta homens haviam ficado fóra do combate.

Entramos em Montevideo pelo Cerro.

Samuel commeçou immediatamente a reformar o seu regimento.