*
—Um homem! um homem!—reclamava o D. Carlos. Um momento de hesitação e de duvida na sua vida... Dois caminhos na frente: um commodo e largo, de transigencias faceis, o outro perigoso mas util para o seu paiz. Decidiu-se pelo peor. Ia jogar a vida.
Elle era, como toda a gente, um mixto de qualidades e defeitos... Ha homens que se nos afiguram d'uma só peça. Desconfiem d'elles: andam mascarados... Timidez e orgulho. Todos dizem:—Era encantador.—Todos estão de acordo n'este ponto: ninguem o podia aturar. Um oficial afirma:—Tratava os politicos como lacaios, tratava a gente do povo com extrema bondade.—Um dia escreveu um bilhete nas costas do Hintze, que se curvou para lhe servir de secretária; outro dia, já a cavalo para uma ferra de touros, atirou com a capa a um velho general seu servidor:—Guarda lá isso!—D'outra vez dispoz o ministerio á chuva para lhe tirar o retrato. Tratava-os com desdem. Sacrificou sempre os homens que se lhe dedicaram, o Martins e o Mousinho, por exemplo. O Carlos Lobo d'Avila tinha-lhe dado uma formula que o lisonjeou e o deitou a perder. Era um valente. Escrevia cartas anonimas á mulher. Media tudo pela mesma bitola—e, se o deixam viver, tinha sido um dos maiores reis da sua dinastia. Acabou á bala, quando ia matal-o o figado: comia e bebia enormemente e pezava-lhe em cima esta tara: era filho d'uma histerica e d'um sifilitico. Este mixto, n'um homem inteligente como elle, só tem uma explicação: timidez e orgulho—timidez e orgulho...
Efectivamente resolver-se a luctar contra os interesses dos partidos e dos homens, desencadear paixões, era lançar-se n'um combate de que não podia esperar senão contrariedades e a morte. Salientaram-lhe logo todos os defeitos. Tudo que se fazia de mau era sempre o rei que o fazia. Obscureceram-lhe de proposito as qualidades. Esqueceram que D. Carlos colocara o paiz n'uma situação externa admiravel, e que os dois ou tres actos de homem d'estado do seu tempo lhe pertencem, como a unica acção grande da republica pertence a Bernardino Machado, que conseguiu levar as tropas portuguezas para a frente europeia—quando os inglezes reclamavam apenas o nosso esforço em Africa[16]. As viagens a Paris, a Berlim, a Londres corôam o anno de 1895. A aliança ingleza é um facto. Veem a Lisboa os grandes chefes d'estado. Vae começar uma grande época. Aponta a Africa a uma pleiade brilhante de oficiaes, que elle proprio incita, comprehendendo que o grande Portugal é outro, e que esta facha de terreno, com um clima agricola horrivel, só pode ser uma vinha e um logar de repouso e prazer. De lá, d'esse novo Brazil—dos extensos planaltos d'Angola, que duas vezes por anno produzem trigo—tem de nos vir o oiro e o pão. O resto é visão de pequenos estadistas de trazer por casa. Só elle concebe e incita. Só elle fala e sonha n'um Portugal maior, n'um Portugal esplendido. O plano estabelecido e iniciado, fecha-se com um ponto culminante: o tratado de commercio com o Brazil, que D. Carlos teve realisado, e que, ao que parece, tarde, dificilmente, ou jamais, se conseguirá. Foi este homem que assassinaram como ladrão a uma esquina de Lisboa...
Porque foi morto, afinal, o rei?... Um velho philosopho meu amigo traduziu um dia toda a ancia contemporanea n'aquella grande phrase, que não me canso de repetir:—Nós tambem queremos comer...—Sómente para ser justo e completo, a uma verdade devia juntar outra verdade:—E não cabemos todos!
Não, os partidos não cabiam todos, não podiam caber todos, e estavam completamente desacreditados. A grande força de João Franco foi, na realidade, de protesto. E quem falhou, diga-se já, não foi o rei, foi João Franco; quem não esteve á altura do seu papel, não foi D. Carlos, foi o dictador. João Franco tinha atraz de si um partido pouco numeroso (as clientellas haviam de vir...), mas resistente, tenaz, entusiastico. Os franquistas de hontem são ainda hoje franquistas. Não perdem a fé, e nem agora nem nunca despegam um olho do Fundão, embora lancem o outro, com prazer, ironia ou desdem, sobre o ridente panorama da vida... É preciso que realmente esse homem disponha de qualidades excepcionais para conseguir tal poder de dominação. Era um impulsivo: grande fraqueza e grande força. Procurava os obstaculos para os dominar e gastou uma energia desmedida a resolver ninharias. Em Lisboa dizia-se com espanto:—Este homem só levanta carrapatas!—Ora caçava no seu terreno, ora no terreno dos republicanos. Homem d'estado, ia talvez ter ocasião de o mostrar—depois da morte do rei. Ahi é que era vel-o!... Valente e calmo foi-o decerto. Vi-o eu n'uma ocasião grave da sua vida. Os republicanos (Ribeira Brava, talvez) tinham obtido a sua prisão logo depois do cinco d'outubro. De Cintra levaram-no para um gabinete da Boa-Hora. Cá fóra o França Borges, refestelado n'uma poltrona, gosava a sua vingança e o seu triumpho, separado do cacifro por uma porta escancarada. O juiz Meirelles e um delegado de pera ruiva e gravatinha vermelha, vinham de quando em quando trocar não sei que impressões com elle. Pela porta aberta vi o João Franco de pé, sereno e palido: parecia enorme, junto dos dois bonifrates. E quando o juiz lhe disse, acabado o interrogatorio:—É talvez melhor sahir por outra porta, porque o povo mata-o!...—o homem teimou, o homem cresceu dois palmos:—Eu só saio por a porta por onde entrei.—Estava preso, obrigaram-o emfim a descer umas escadinhas, a meter-se ás escondidas no automovel, que o esperava na calçada que sobe quasi a pique para a Biblioteca, emquanto alguem—juro-o—prevenia a furiosa onda popular, que correu aos gritos de—morra! morra!—a esperal-o em baixo, á esquina. Um borborinho. Tiros de pistola. Dois marinheiros apontaram as espingardas, defendendo o automovel, que só a custo arrancou—emfim! emfim!—pela calçada acima.—Morra o João Franco!...—E as vozes colericas gritavam:—Morra! matem-no!...—Era este o homem, que, com o rei, estava em frente dos partidos progressista, regenerador, dissidente e republicano. Os ataques sucediam-se e agravavam-se. Os monarchicos, dificilmente sustidos pelos chefes, ameaçavam ingressar no partido republicano, que todos os dias ganhava em numero, cohesão e audacia. O proprio José Luciano perdia a serenidade:
«Ha uma coisa que aos governos nunca deve esquecer,
que a lição da historia a cada instante repete:
á revolução
do alto, pode muito bem suceder que responda a
revolução
de baixo». (Correio da
Noite, 14 de Maio de 1907).
«O presidente do conselho blazona e conta com o auxilio, sem duvida, poderoso e eficaz do Rei, e zomba da opinião publica, que tanto pretendeu captar, antes de subir ao poder? Faz mal, porque ha-de chegar e oxalá que chegue a tempo o momento em que El-Rei se recorde das suas palavras de ha um anno:
«O presidente do conselho blazona e conta com o auxilio, sem duvida, poderoso e eficaz do Rei, e zomba da opinião publica, que tanto pretendeu captar, antes de subir ao poder? Faz mal, porque ha-de chegar e oxalá que chegue a tempo o momento em que El-Rei se recorde das suas palavras de ha um anno:
A responsabilidade do decreto, ainda
que aparentemente
só acto do poder executivo, recahe mais uma vez
sobre o Rei, a quem todos hão de pedir a responsabilidade
da sua assignatura». (Correio da
Noite, 15 de Maio de 1907).
E a 24 de Maio vociferava: «A monarchia precisa dos monarchicos... a monarchia precisa dos monarchicos, mais do que estes precisam da monarchia». Todos os dias novos boatos, todos os dias nova causa de excitação. Barafunda, prisões, protestos. N'uma reunião celebre, por um triz que os regeneradores não passam em massa para o campo republicano. E o Correio da Noite, no acesso do delirio, apelava já para a linguagem biblica: «O que tem ouvidos para ouvir ouça; o que tem olhos para ver veja...»
«Do alto deve descer o exemplo, e quando as
acções
dos que governam são de preversão e de crime, de
corrupção
e de suborno, de desbarato dos dinheiros publicos e
de abuso do poder, os actos dos governados não podem
ser de veneração e de paz, de obediencia e de
acatamento.
Com torrentes de sangue se conquistou a alforria do povo, com oceanos de lagrimas se lavou a mancha do absolutismo». (Correio da Noite, 1 de Junho de 1907).
Com torrentes de sangue se conquistou a alforria do povo, com oceanos de lagrimas se lavou a mancha do absolutismo». (Correio da Noite, 1 de Junho de 1907).
Que faziam os dissidentes, o mais avançado dos partidos monarchicos? Os dissidentes conspiravam. As dissidencias anteriores, a do Mariano, a do Navarro, tinham fracassado: a do Alpoim ia dar como resultado a revolução.—Foi o senhor que fez a republica.—E elle dizia, com o olho esperto a luzir:—Levei-os pela mão.—Julgando conquistar o poder, perdeu-o para sempre. «Baralhou para dar», como aconselhava o Marçal Pacheco—mas enganou-se no trunfo. Depois que se separou do José Luciano nunca mais acertou, na phrase do Moreira d'Almeida... Era um grupo tremendo: o João Pinto dos Santos, tenaz e resoluto como as armas; o pratico Centeno, mola distendida sabe Deus até onde; o Queiroz Ribeiro, o Pedro Martins; o sagacissimo Egas Moniz, a quem ninguem consegue ouvir os passos—mas que toda a noite, todo o dia, roda nos meandros da politica, conspirador e politico até á medula; o Moreira d'Almeida, capaz de falar e de escrever um dia inteiro, sem um desfalecimento, enfiando todas as formas e todos os estilos, de tal maneira que, muitas vezes o Antonio Ennes ou o Alpoim duvidavam se os artigos, que elle escrevia, lhes pertenciam, apanhando no ar as questões, e com um grupo de amigos a latere, que conheciam a fundo as colonias e as finanças; mais este e aquelle, e outras raizes lançadas ao acaso, e ligações no Porto com um «mercante espertissimo», como nas discussões ouvi chamar a Lima Junior. O chefe d'este grupo unido e compacto era extraordinario... Agitação perpetua. Orador admiravel, sobretudo na réplica, em que perdia a retorica e ficava incisivo e nu como uma espada. Um passo a mais e seria um escriptor ilustre: não teve um momento de seu para rever as provas. Com a paixão, a colera, o arrebatamento, um grande coração. Nunca lhe conheci odios, e muitas vezes lhe ouvi defender até o seu maior inimigo, o José Luciano. Ao proprio D. Manuel elle diz: «...O José Luciano vale mais do que todos os progressistas e regeneradores juntos, contando com elle proprio Alpoim ». (Documentos politicos). E quem conheceu o Alpoim sabe que as notas que o rei escreveu são mais que exactas, são phonographadas. É elle a falar d'este e d'aquelle, dos amigos, dos inimigos—de Deus e do Diabo. Uma ambição do poder que o leva arrastado, mais pela lucta em si, necessaria a um temperamento excessivo, do que por vaidade ou vangloria. Principios poucos—meios aquelles que os adversarios, a tenacidade e o rancor de José Luciano, lhe deixavam. Acusaram-no de tudo—acusaram-no da morte de D. Carlos... «Até disseram, Senhor, que fui eu que matei El-Rei D. Carlos!!!» (Documentos politicos). Resistiu sempre; morreu a conspirar. Nos seus ultimos annos não sei que tristeza o envolve... A figura parece maior, as palavras simplificam-se-lhe, os sentimentos tambem. Engrandece. Raros teriam, como elle teve, a sinceridade de escrever: «Na minha defeza, que teve de ser espectaculosamente rude por vezes e d'uma acção subterranea por outras, excessos cometi de que me penitenceio—mais do que se imagina»... E repete e insiste: «Em muitos actos da minha vida de lucta, por vezes injustamente combatido, tenho sido exagerado—e errei. De muitas coisas estou repezo, e d'ellas hoje se admira a minha inteligencia e peço perdão á minha propria consciencia e até aos homens!» Quantos ha ahi capazes d'esta grandeza? Quantos—tendo todos juntos concorrido para a morte de D. Carlos—o acusaram a elle só, com a tinta do Correio da Noite ainda fresca?
«Aqui d'El-Rei—se
nos pode
ouvir El-Rei—contra
quem mandou assassinar o povo de Lisboa.»
(Correio da
Noite, tarjado de luto). «Aparecem hoje,
segundo ameaças
do governo e segundo as suas notas oficiosas sempre
irritantes á imprensa, decretos esmagadores. Tanto peor
para o Rei e para as Instituições.
As responsabilidades
d'esses decretos, ainda que aparentemente só do poder
executivo recairão mais uma vez sobre o Rei, a quem
todos hão-de pedir a responsabilidade da sua
assignatura.
(Correio da Noite, 20 de Junho de
1907).
*
Quem reina agora em Portugal não é o senhor D. Manuel, é sua Magestade o Mêdo. Que quadro para um Saint-Simon, que descrevesse os politicos e a côrte, o que se diz e o que se adivinha, o que resalta dos Documentos politicos, e o que se conserva na sombra como um baixo relevo de odios e de interesses! Enredam, intrigam-se, perdem-se todos juntos. A politica portugueza gira sobre este fulchro: «O José Luciano, não podendo governar por se achar impossibilitado... e não querendo substituir-se para não perder o comando de que é muito cioso»[17] emprega até ao fim todos os esforços para inutilisar o Julio de Vilhena. Só pela vã ambição de mandar? O velho é perspicaz e teimoso, o velho conhece, como poucos, os homens e entende que só elle pode e sabe governar. É teimosia e grandeza. Não abdica, não pode. Toda a vida foi obedecido. Aferra-se. O que elle quer é ser o «Deus ex-machina da nossa politica sem se mexer da sua chaise-longue». Que tipo! Governou sempre, mandou sempre, conservou-se sempre lucido. E tanta serenidade, que até no dia em que lhe assaltaram a casa dos Navegantes, é o unico que não perde o sangue-frio, e, quando o querem esconder n'uma banheira, teima em ficar na cadeira de rodas! Tem a logica do diabo e uma manha, um conhecimento dos homens, a que os outros não chegam. Desde o principio que todos se congregam para enfraquecer o partido regenerador. «Isto—diz a velha rapoza—é uma lucta de politicos que se querem inutilisar e desacreditar uns aos outros». É assim—e nenhum d'elles se lembrou que só os republicanos lucravam. Até os franquistas. «Os franquistas, por intermedio do Martins de Carvalho, forneceram aos republicanos todos os elementos que poderam colligir para descredito dos rotativos» (T. do Amaral ao rei). Até os nacionalistas. Entretanto o rei ouve-os e toma notas... A sua vontade é acertar. Passa a vida a acertar, o que não é bem a missão d'um chefe, mas a d'um relojoeiro. Não creio que os homens se governem só pelo interesse ou pelo terror, como queria Napoleão, mas creio que se não governam com pannos quentes, e que mais vale tomar uma decisão má do que não tomar nenhuma. O povo, como o soldado, precisa de sentir um chefe, e adivinha-o logo. Tudo no rei são boas intenções. Mal ousa dar um passo, não se resolve nunca—e atraz d'elle está a mãe, que quer educal-o para rei, mas que tem diante dos olhos o quadro horroroso... Apezar d'isso é ella propria que o incita a passear á luz do dia, como uma vez quando o trouxeram a galope, entre uma escolta de cavalaria, do Rocio ao Paço... Arrisca-o. Procura congraçar toda a gente. E odiada. A D. Maria Pia, histerica e perdularia, agradou sempre: até os seus ditos se repetiam:—O senhor é um merda!—ao D. Luiz, quando elle aceitou as imposições do Saldanha; até os seus vestidos, a sua ostentação, a atmosphera de rainha extravagante, que só sabia que existiam contos e patacos, os chapeus que mandava vir de Paris, aos trinta e quarenta, em cada estação; até a sua desordem elegante de histerica. Nem os jornaes republicanos a atacavam. E quando foi para o exilio, já doida, com um pão debaixo do braço e uma manta pela cabeça, só ella deixou saudades. Era a Rainha. A D. Amelia não. Essa senhora, de quem alguem disse:—É um grande homem de bem!—subiu todo o calvario da vida. Era religiosa—o que só a honra—chamaram-lhe beata. Andou nos folhetins e nos pamphletos. Os seus criados detestavam-na[18]. Ao passo que a rainha D. Maria Pia, falso anjo de caridade, pouco fez com o seu espalhafato e foi adorada, a D. Amelia, que combateu metodicamente a tuberculose, espalhando o bem a mãos cheias, fundando a Assistencia Nacional, com os seus sanatorios e dispensarios, as cozinhas economicas, o hospital do Rego, o Instituto de Socorros a Naufragos, e contribuindo para a fundação do Instituto Bacteriologico, etc., foi sempre odiada, calumniada, insultada. Nem dentro de sua casa lhe era possivel conversar. Um dia, para falar em segredo com um ministro, chamou-o para o meio da sala:—Aqui, porque senão vem tudo amanhã no Mundo.—E vinha. Até o homem dos telephones era carbonario... Estou em dizer que é o acaso que governa a vida: a razão não é, com certeza.
Ponham agora á roda d'estas figuras, os politicos e as paixões falando cada vez mais alto. É o momento em que todos á uma querem ser chefes! Querem ser chefes o Teixeira de Souza e o Alpoim, querem-no ser o Wenceslau de Lima e o Campos Henriques, e até o pobre, o inculto Pimentel Pinto, que Antonio Candido fez um dia ministro, tem um deslumbramento e sonha na candidatura. Elle é «o Vilhena muito afectuoso, muito lisongeiro e muito avido de poder»; elle é o Teixeira de Souza, «todo agrado, comtanto que elle entre no governo n'uma situação que não seja inferior á do Campos Henriques»—retrata-os o Wenceslau, que é o unico que sobe, como um balão cheio de vento, no conceito de quasi todos os politicos, que se reveem n'elle como n'um espelho.—E o José Luciano teima: «O Vilhena está quasi abandonado pelos seus marechaes». Todos á uma proclamam ao rei e ao mundo que esse homem é incompetente.—É um homem de talento—afirma um ex-ministro graduado—mas nunca vi incompetencia maior como politico.—Porquê? É o que resta saber. Elle é dos poucos que sabe o que quer, que tem um plano e que o apresenta (Antes da Republica)—é tambem o unico com superioridade mental organisada. Pequeno, sempre pendurado no charuto, conserva, até nas ocasiões criticas, serenidade e firmeza. Mas todos concordam na sua inferioridade politica...
Se só pelo triumpho é que se demonstra tino politico, como quer alguem—na verdade Julio de Vilhena falhou completamente. Nem todos os meios lhe serviam, e em Portugal não existem correntes de idéas ou de principios que levem um homem ao poder. O que se chama opinião não se pronuncia. Os chefes de partido são simples chefes de bando. O Paço é que faz ou desfaz os politicos, ou outros meios obscuros, de que cada um se pode servir, como no tempo de Luiz XIV. Escolheram-no para chefe n'uma occasião em que nenhum dos outros o podia ser, mas atraz delle estava a tenacidade do Teixeira de Souza, a politiquice de Campos Henriques e a astucia de Wenceslau.—Esse sim, chame V. Magestade o Wehceslau—diz o Alpoim.—O Wenceslau sim—concorda o José Luciano. Elle é o homem do Paço e dos politicos. Começa a ser indispensavel. O outro tropeço não lhes sae da frente. Era a occasião de governar quem governasse, mas ao José Luciano só lhe convêm «governos mixtos em que elle mande, ou que, pelo menos, ponham o cofre das graças á sua disposição.» (P. Pinto). E todos ou quasi todos só pensam no Wenceslau, que promete muito, que sorri a toda a gente, e que não tem nada lá dentro. É o optimista necessario. Impõe-se pela parte decorativa, pela boa educação, pela maneira como contenta o mundo. As vezes chega a oferecer o governo a um, tendo-o já oferecido a outro... (J. de Vilhena). Só o lunatico não entende... Elle bem protesta: «Quem o conhece tem obrigação de saber que nunca foi um aventureiro ambicioso, nem um intrigante ordinario, capaz de empregar processos menos correctos para obter quaesquer posições». Mas foi exactamente isso que o perdeu! Num paiz onde não ha opinião, não pode haver chefes de partido. Que diferença entre elle e o Teixeira de Souza, espadaúdo e forte, abundante, abrindo logo os braços a toda a gente:—Tu que queres, filho?!—D'outro feitio era o Campos Henriques, procurador encartado do norte, escrevendo a meio mundo e satisfazendo a outro meio (agua molle em pedra dura...); d'outro feitio, emfim, era o palaciano Wenceslau de Lima, o favorito, que censurava as cartas do rei e lhe escrevia os borrões. Nenhum homem mais souple nem mais agradavel, sempre a mastigar e a sorrir. Está nas antecamaras quando o rei conferenceia, e ha um momento em que só elle põe e dispõe, e em que aconselha ao rei:—Chame-me a mim, para eu declinar!—E o rei chama-o. As duas grandes figuras do reinado, vinham a ser o Wenceslau de Lima e o Soveral. O proprio José Luciano estava condemnado...
Tudo isto se passa sob o olhar ironico ou severo dos republicanos e diante do phantasma da republica. Nem assim os interesses e as ambições abdicam. Nunca, nem no inferno, abdicaram! Acima de tudo está o odio do José Luciano, estão as paixões do Alpoim, que sonha no poder, e que na manhã de 5 d'Outubro ainda dizia:—Agora, sufocada a revolução, o rei não pode deixar de me chamar a mim...—Interesses e homens, tendo cada um «a sua policia», como diz o Teixeira de Souza. E o rei no trono, no palacio onde as paredes teem ouvidos, sempre a rabiscar papeis, incitando-os ás vezes (J. de Vilhena), sem prever o mundo de coleras que está para vir á superficie. Quando á noite se apanha só, abre a gaveta e desata a escrever aquelle interminavel romance politico, que caminha a galope para o remate da fuga e do exilio. E as vozes, cada vez mais altas, obstinaram-se:—Não pode haver ordem nem tranquilidade com o Alpoim no paiz—exclama um.—Elle é um espirito claro e nada mais! protesta outro.—É uma cambada! A propria dissidencia que é? É um inferno!—conclue o Alpoim.—É um idiota! O mal foi elegel-o para chefe.—E o Teixeira do Amaral observa ácerca d'um grupo:—São pescadores d'aguas turvas...
Quem ha-de conter os homens e os acontecimentos? O rei? O rei escreve, escreve sempre... O Credito Predial desaba:—Foi então que os burguezes, vendo-se roubados, nos deixaram fazer a republica...—asseverou Junqueiro. Ao poder sobe emfim o fatidico Teixeira de Souza. Os acontecimentos precipitam-se. Atraz dos homens está uma força monstruosa que parece empurral-os a todos—até ao rei, que, de quando em quando, pára de escrever e sorri enlevado para os dois bonecos que tem em cima da comoda, a caricatura d'um marinheiro inglez e a caricatura do Soveral—e vae leval-os a todos, sob o olhar impassivel do destino, para o desenlace fatal.
Todos esses homens tinham defeitos. Alguns eram até ridiculos. Mas, apezar de tudo, não ultrapassavam determinada linha, apegados a preconceitos e a formulas, de que não havia arrancal-os... Vae o senhor D. Manuel, não tarda, porque a monarchia ha-de voltar—tudo sucede vertiginosamente n'este paiz—conhecer outros, com muito menos escrupulos, que o hão-de encher de desgostos. V. Magestade verá.
FIM DO 1.º VOLUME
INDICES
LISTA DAS PESSOAS CITADAS NO 1.º VOLUME
A
Abel d'Andrade
Abrantes (Marquez de)
Ada Weinstin
Adelaide Coelho da Cunha
Adrião de Seixas
Affonso Costa
Affonso (Infante D.)
Affonso VI
Affonso XII
Affonso XIII
Agostinho Franco
Albano de Mello
Albano da Fonseca (Coronel)
Alberto Bramão (D.)
Alberto Braga
Alberto Pimentel
Alberto d'Oliveira
Albuquerque (Alexandre)
Alcaçovas (Conde de)
Alda Decken Lino
Alexandre Herculano
Alferrarede (Condessa de)
Alexandre Cabral
Alfredo Anjos
Alfredo Costa
Alfredo da Silva
Alice Lawrence
Alice Munró
Alpoim
Almada Carvalhais
Almeida Araujo (Condessa de)
Alvito (Marquez de)
Ameal (Conde do)
Amelia (D.)
Anna de Sousa Coutinho (D.)
Angejas
Anibal Soares
Anjos (As)
Anna de Jesus
Antonio Azevedo
Antonio Bandeira
Antonio de Brito
Antonio Cabral
Antonio Candido
Antonio Centeno
Antonio Emilio
Antonio da Costa e Silva
Antonio D. da Cruz Pinto
Antonio Ennes
Antonio José d'Almeida
Antonio José de Freitas
Antonio Manuel Teixeira
Antonia Morena
Antonio Moreira da Camara Coutinho
Antonio Nobre
Angela Pinto
Anselmo Vieira
Antero
Armando Navarro
Arnaldo Fonseca
Arnoso (Conde de)
Arnoso (Condessa)
Arroyo (Antonio)
Arroyo (João)
Arthur de Mello
Asseca (Viscondes de)
Augusto Cymbron
Augusto Machado
Augusto Pina
Augusto Ribeiro
Avelino d'Almeida
Aveiro (Duque de)
Avila e Bolama (Duqueza de)
Avila (Conde de)
Ayres de Gouveia
B
Baltar
Barão (Condes)
Barahona
Barbosa Colen
Barbosa du Bocage
Barjona
Barros Gomes
Batalha Reis
Bemposta Sub-Serra (Marquezes da)
Beirão
Bernard Lazare
Bernardino Machado
Bernardo Pindella
Bomtempo
Borges & Irmão
Bourbon de Menezes
Braamcamp
Branca de Gonta Colaço
Brazão
Brito Aranha
Brouillard (Madame)
Buiça
Bulhão Pato
Burnay
C
Caldeira
Camillo
Campos Henriques
Candida da Nora Kendall
Candido dos Reis
Capelo (Almirante)
Cardia
Carlos (D.)
Carlos de Freitas Jacome
Carlos Lobo d'Avila
Carlos Mayer
Carlota Joaquina (Dr.)
Carnaxide (Visconde de)
Carneiro de Moura
Carracida
Carrilho
Casal Ribeiro (Conde de)
Castello-Melhor
Castilho
Castro Solla (Conde de)
Celso Herminio
Chancelleiros
Chapuy
Christina Rezende da Silva
Cipriano Jardim
Coelho de Carvalho
Columbano
Conceição de Carvalho
Correia de Barros
Correia d'Oliveira
Costa Pinto
Costa Santos
Croneau
Cunha e Costa
Curry Cabral
Custodio Borja
D
Dantas Baracho
Delcassé
Dias Costa
Dreyfus
Duval Telles
E
Eça de Queiroz
Eça Leal
Edla (Condessa de)
Eduardo Burnay
Eduardo Cheira
Eduardo Cordeiro
Eduardo de Sousa
Eduardo Pimenta
Eduardo Tavares
Eduardo VII
Egas Moniz
Elisa Baerlein
Elisa Baptista de Sousa Pedroso
Elvino de Brito
Emidio Navarro
Emilia Adelaide
Emilia das Neves
Ernest George
Espregueira
Eugenio de Castro
F
Falcarreras
Fernandes Thomaz
Fernando (D.)
Fernando de Serpa
Fernando Martins de Carvalho
Ferreira d'Almeida
Ferreira do Amaral
Fialho
Ficalho (Conde de)
Ficalho (Condessa de)
Ficalho (Marquez de)
Fife (Duque de)
Figueiró (Conde de)
Figueiró (Condessa de)
Fonseca, Santos & Viana
Fontes
Foz (Marquez da)
França Borges
Francisco Figueira
Francisco Medeiros
Franco (Marquez de)
Francisco da Fonseca Benevides
Frederico Arouca
Frei
Freitas Branco
Freitas Brito
Freitas Rego
Fronteira (Marquez da)
Fumega (Major)
Fuschini
G
Garrett
Garaty (Mr. Garaty (Mr. e M.me)
Garrido
Guerra Junqueiro
Gervasio Lobato
Gomes dos Santos
Gomes Leal
Gomes Netto
Graça (Major)
Guilherme de Azevedo
H
Heitor Ferreira
Henrique de Vasconcellos
Hintze Ribeiro
I
Idanha (Viscondessa de)
Imperador do Brazil
Irene Gilman
J
Jacintho Candido
Jayme Arthur da Costa Pinho
Jayme de Seguier
Jayme Victor
João d'Alarcão (D.)
João Barreira
João Chagas
João Chrisostomo
João da Camara (D.)
João de Deus
João de Deus Guimarães
João Franco
João Pinto dos Santos
João de Menezes
João VI (D.)
Joaquim da Boa Morte Alves de Moura
Joaquim Pessoa
John Burnay
Jorge Colaço
Jorge O'Neill
José d'Azevedo
José Bacellar
José Dias (conego)
José Dias Ferreira
José de Figueiredo
José Lobo
José Luciano
José Maria dos Santos
José Nunes
José Paulo Menano
José Reinach
José Saragga
Julio de Vilhena
Judeu
Judice Bicker
Julia Bordallo
Justino
L
Latino Coelho
Leão XIII
Leitão (Ourives)
Lencastre de Menezes (General)
Lima Junior
Linhares (conde de)
Lopo Vaz
Loubet
Loulé (Duqueza de)
Luciano Monteiro
Lumiares (condes de)
Luiza Patricio de Balsemão
Luiz (D.)
Luiz da Camara (D.)
Luiz Campeão
Luiz de Castro (D.)
Luiz Fillipe (D.)
Luiz Osorio
Luiz Trigueiros
M
Machado (capitão)
Malaquias de Lemos
Manuela Rey
Manuel (D.)
Manuel Bordallo Pinheiro
Manuel Figueira
Manuel Hintze Ribeiro
Manuel Ramos
Manuel Ribeiro Borges
Manuel Vaz Preto
Marçal Pacheço
Magdalena Trigueiros
Mardel
Maria Augusta (D.)
Maria Emilia Seabra (D.)
Maria Emilia Macieira Lino (D.)
Maria (Infanta D.)
Maria II (D.)
Maria Kruz Brito (D.)
Maria Pia (D.)
Maria Tereza Pinto de Magalhães (D.)
Marquez da Foz
Marcelino de Mesquita
Mariano
Martins de Carvalho
Mathias de Carvalho
Matoso dos Santos
Maura
Max Nordau
Maximiliano d'Azevedo
May Figueira
Mello Barreto
Mesquitella (conde de)
Monpensier (Duqueza de)
Moreira d'Almeida
Moreira Marques
Moreirinha
Monteiro Milhões
Motta Marques Meirelles (Juiz)
Moser
Moura Cabral
Mousinho
Munhoz
Murça (condes de)
N
Napoles
Navarro
Nazareth
Norton de Mattos
Nuno Castello Branco
O
Oliveira (das cautellas)
Oliveira Martins
Oliveira Mattos
Ottolini da Veiga
Ouguella (Visconde de)
Ovidio d'Alpoim
P
Paccini
Paçô Vieira (conde de)
Pad' Zé
Padre Matos
Palmeirim
Palmeirim (General)
Palmella (Duqueza de)
Paraty (condes de)
Paris (condessa de)
Patrocinio (D.)
Paulucci
Pedro d'Araujo
Pedro Martins
Pedro de Noronha (D.)
Pedro IV (D.)
Pedro V (D.)
Pedro Victor
Penalva (Marquez de)
Penamacor (condessa de)
Penha Garcia (conde de)
Peniche (conde de)
Pequito
Pereira das Neves
Pimentel Pinto
Pinheiro Chagas
Pinto Basto
Poitier
Pombal (Marquez de)
Ponte de Lima (Marquezes)
Povolide (conde de)
Praia (Marquezes da)
Prim
Q
Queiroz
Queiroz Ribeiro
R
Ramalho
Rangel de Lima
Raphael Bordalo
Rebello da Silva
Regaleira (Baroneza da)
Ressano Garcia
Rezende
Ribeira Brava (Visconde da)
Ribeira Grande (conde da)
Ricardo Jorge
Rio-Maior (condessa de)
Rodin
Rodrigo da Fonseca Magalhães
Rosa Damasceno
Rosa pae
Rossini
Rufino d'Almeida
S
Sabugosa (conde de)
Saldanha (Duque de)
Sampaio (Visconde de)
Santos (Major)
Santos Viegas
Sarah da Motta Vieira Marques
Saraiva de Carvalho
Schwalbach
Sebastião Telles
Sergio de Castro
S. Boaventura
S. Lourenço (condessa de)
S. Luiz de Braga (Viscondes de)
Silva Bastos
Silva Canellas
Silva Carvalho
Silva Graça
Silva Pinto
Silva Telles
Sousa Holstein
Sousa Martins
Soveral (Marquez de)
T
Taborda
Tavares Festas
Taveira (condessa de)
Teixeira de Sousa
Teodoro d'Almeida
Theophilo Braga
Thomaz Ribeiro
Tompson
Torlades (casa)
Torre da Murta (Visconde da)
Totenbach
Trindade Coelho
U
Urbano de Castro
Urbano Rodrigues
V
Valbom
Valdez
Valença (conde de)
Val-Flôr (Marquez de)
Vallada (Marquez de)
Valladares (conde de)
Varzea (Visconde da)
Vasconcellos Porto
Vianna (Marquez de)
Vicente da Camara
Victor Hugo
Victoria (Rainha)
Vilaça
Villa de Fozcoa (Barão de)
Villa Nova de Cerveira (conde de)
Villa Real e Mello (condessa de)
Vimioso (conde de)
W
Wenceslau de Lima
Wernestein
Z
Zola
Zulmira Franco Teixeira