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Memórias

Chapter 11: FIM DO 1.º VOLUME
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About This Book

The author offers a collection of personal recollections and reflective vignettes that blend childhood memories, coastal scenes, and encounters with artists and ordinary people. He records vivid sensory impressions—sea light, fishing wakes, garden flowers—and small domestic details that anchor larger meditations on time, loss, and the persistence of brief moments of tenderness. Episodes of life by the shore and communal labor alternate with artistic reminiscences and contemplations of mortality, solitude, and wonder, producing an introspective narrative that privileges feeling and atmosphere over linear chronology.

*


—Um homem! um homem!—reclamava o D. Carlos. Um momento de hesitação e de duvida na sua vida... Dois caminhos na frente: um commodo e largo, de transigencias faceis, o outro perigoso mas util para o seu paiz. Decidiu-se pelo peor. Ia jogar a vida.

Elle era, como toda a gente, um mixto de qualidades e defeitos... Ha homens que se nos afiguram d'uma só peça. Desconfiem d'elles: andam mascarados... Timidez e orgulho. Todos dizem:—Era encantador.—Todos estão de acordo n'este ponto: ninguem o podia aturar. Um oficial afirma:—Tratava os politicos como lacaios, tratava a gente do povo com extrema bondade.—Um dia escreveu um bilhete nas costas do Hintze, que se curvou para lhe servir de secretária; outro dia, já a cavalo para uma ferra de touros, atirou com a capa a um velho general seu servidor:—Guarda lá isso!—D'outra vez dispoz o ministerio á chuva para lhe tirar o retrato. Tratava-os com desdem. Sacrificou sempre os homens que se lhe dedicaram, o Martins e o Mousinho, por exemplo. O Carlos Lobo d'Avila tinha-lhe dado uma formula que o lisonjeou e o deitou a perder. Era um valente. Escrevia cartas anonimas á mulher. Media tudo pela mesma bitola—e, se o deixam viver, tinha sido um dos maiores reis da sua dinastia. Acabou á bala, quando ia matal-o o figado: comia e bebia enormemente e pezava-lhe em cima esta tara: era filho d'uma histerica e d'um sifilitico. Este mixto, n'um homem inteligente como elle, só tem uma explicação: timidez e orgulho—timidez e orgulho...

Efectivamente resolver-se a luctar contra os interesses dos partidos e dos homens, desencadear paixões, era lançar-se n'um combate de que não podia esperar senão contrariedades e a morte. Salientaram-lhe logo todos os defeitos. Tudo que se fazia de mau era sempre o rei que o fazia. Obscureceram-lhe de proposito as qualidades. Esqueceram que D. Carlos colocara o paiz n'uma situação externa admiravel, e que os dois ou tres actos de homem d'estado do seu tempo lhe pertencem, como a unica acção grande da republica pertence a Bernardino Machado, que conseguiu levar as tropas portuguezas para a frente europeia—quando os inglezes reclamavam apenas o nosso esforço em Africa[16]. As viagens a Paris, a Berlim, a Londres corôam o anno de 1895. A aliança ingleza é um facto. Veem a Lisboa os grandes chefes d'estado. Vae começar uma grande época. Aponta a Africa a uma pleiade brilhante de oficiaes, que elle proprio incita, comprehendendo que o grande Portugal é outro, e que esta facha de terreno, com um clima agricola horrivel, só pode ser uma vinha e um logar de repouso e prazer. De lá, d'esse novo Brazil—dos extensos planaltos d'Angola, que duas vezes por anno produzem trigo—tem de nos vir o oiro e o pão. O resto é visão de pequenos estadistas de trazer por casa. Só elle concebe e incita. Só elle fala e sonha n'um Portugal maior, n'um Portugal esplendido. O plano estabelecido e iniciado, fecha-se com um ponto culminante: o tratado de commercio com o Brazil, que D. Carlos teve realisado, e que, ao que parece, tarde, dificilmente, ou jamais, se conseguirá. Foi este homem que assassinaram como ladrão a uma esquina de Lisboa...



Porque foi morto, afinal, o rei?... Um velho philosopho meu amigo traduziu um dia toda a ancia contemporanea n'aquella grande phrase, que não me canso de repetir:—Nós tambem queremos comer...—Sómente para ser justo e completo, a uma verdade devia juntar outra verdade:—E não cabemos todos!

Não, os partidos não cabiam todos, não podiam caber todos, e estavam completamente desacreditados. A grande força de João Franco foi, na realidade, de protesto. E quem falhou, diga-se já, não foi o rei, foi João Franco; quem não esteve á altura do seu papel, não foi D. Carlos, foi o dictador. João Franco tinha atraz de si um partido pouco numeroso (as clientellas haviam de vir...), mas resistente, tenaz, entusiastico. Os franquistas de hontem são ainda hoje franquistas. Não perdem a fé, e nem agora nem nunca despegam um olho do Fundão, embora lancem o outro, com prazer, ironia ou desdem, sobre o ridente panorama da vida... É preciso que realmente esse homem disponha de qualidades excepcionais para conseguir tal poder de dominação. Era um impulsivo: grande fraqueza e grande força. Procurava os obstaculos para os dominar e gastou uma energia desmedida a resolver ninharias. Em Lisboa dizia-se com espanto:—Este homem só levanta carrapatas!—Ora caçava no seu terreno, ora no terreno dos republicanos. Homem d'estado, ia talvez ter ocasião de o mostrar—depois da morte do rei. Ahi é que era vel-o!... Valente e calmo foi-o decerto. Vi-o eu n'uma ocasião grave da sua vida. Os republicanos (Ribeira Brava, talvez) tinham obtido a sua prisão logo depois do cinco d'outubro. De Cintra levaram-no para um gabinete da Boa-Hora. Cá fóra o França Borges, refestelado n'uma poltrona, gosava a sua vingança e o seu triumpho, separado do cacifro por uma porta escancarada. O juiz Meirelles e um delegado de pera ruiva e gravatinha vermelha, vinham de quando em quando trocar não sei que impressões com elle. Pela porta aberta vi o João Franco de pé, sereno e palido: parecia enorme, junto dos dois bonifrates. E quando o juiz lhe disse, acabado o interrogatorio:—É talvez melhor sahir por outra porta, porque o povo mata-o!...—o homem teimou, o homem cresceu dois palmos:—Eu só saio por a porta por onde entrei.—Estava preso, obrigaram-o emfim a descer umas escadinhas, a meter-se ás escondidas no automovel, que o esperava na calçada que sobe quasi a pique para a Biblioteca, emquanto alguem—juro-o—prevenia a furiosa onda popular, que correu aos gritos de—morra! morra!—a esperal-o em baixo, á esquina. Um borborinho. Tiros de pistola. Dois marinheiros apontaram as espingardas, defendendo o automovel, que só a custo arrancou—emfim! emfim!—pela calçada acima.—Morra o João Franco!...—E as vozes colericas gritavam:—Morra! matem-no!...—Era este o homem, que, com o rei, estava em frente dos partidos progressista, regenerador, dissidente e republicano. Os ataques sucediam-se e agravavam-se. Os monarchicos, dificilmente sustidos pelos chefes, ameaçavam ingressar no partido republicano, que todos os dias ganhava em numero, cohesão e audacia. O proprio José Luciano perdia a serenidade:


«Ha uma coisa que aos governos nunca deve esquecer, que a lição da historia a cada instante repete: á revolução do alto, pode muito bem suceder que responda a revolução de baixo». (Correio da Noite, 14 de Maio de 1907).

«O presidente do conselho blazona e conta com o auxilio, sem duvida, poderoso e eficaz do Rei, e zomba da opinião publica, que tanto pretendeu captar, antes de subir ao poder? Faz mal, porque ha-de chegar e oxalá que chegue a tempo o momento em que El-Rei se recorde das suas palavras de ha um anno:

A responsabilidade do decreto, ainda que aparentemente só acto do poder executivo, recahe mais uma vez sobre o Rei, a quem todos hão de pedir a responsabilidade da sua assignatura». (Correio da Noite, 15 de Maio de 1907).


E a 24 de Maio vociferava: «A monarchia precisa dos monarchicos... a monarchia precisa dos monarchicos, mais do que estes precisam da monarchia». Todos os dias novos boatos, todos os dias nova causa de excitação. Barafunda, prisões, protestos. N'uma reunião celebre, por um triz que os regeneradores não passam em massa para o campo republicano. E o Correio da Noite, no acesso do delirio, apelava já para a linguagem biblica: «O que tem ouvidos para ouvir ouça; o que tem olhos para ver veja...»

«Do alto deve descer o exemplo, e quando as acções dos que governam são de preversão e de crime, de corrupção e de suborno, de desbarato dos dinheiros publicos e de abuso do poder, os actos dos governados não podem ser de veneração e de paz, de obediencia e de acatamento.


Com torrentes de sangue se conquistou a alforria do povo, com oceanos de lagrimas se lavou a mancha do absolutismo». (Correio da Noite, 1 de Junho de 1907).


Que faziam os dissidentes, o mais avançado dos partidos monarchicos? Os dissidentes conspiravam. As dissidencias anteriores, a do Mariano, a do Navarro, tinham fracassado: a do Alpoim ia dar como resultado a revolução.—Foi o senhor que fez a republica.—E elle dizia, com o olho esperto a luzir:—Levei-os pela mão.—Julgando conquistar o poder, perdeu-o para sempre. «Baralhou para dar», como aconselhava o Marçal Pacheco—mas enganou-se no trunfo. Depois que se separou do José Luciano nunca mais acertou, na phrase do Moreira d'Almeida... Era um grupo tremendo: o João Pinto dos Santos, tenaz e resoluto como as armas; o pratico Centeno, mola distendida sabe Deus até onde; o Queiroz Ribeiro, o Pedro Martins; o sagacissimo Egas Moniz, a quem ninguem consegue ouvir os passos—mas que toda a noite, todo o dia, roda nos meandros da politica, conspirador e politico até á medula; o Moreira d'Almeida, capaz de falar e de escrever um dia inteiro, sem um desfalecimento, enfiando todas as formas e todos os estilos, de tal maneira que, muitas vezes o Antonio Ennes ou o Alpoim duvidavam se os artigos, que elle escrevia, lhes pertenciam, apanhando no ar as questões, e com um grupo de amigos a latere, que conheciam a fundo as colonias e as finanças; mais este e aquelle, e outras raizes lançadas ao acaso, e ligações no Porto com um «mercante espertissimo», como nas discussões ouvi chamar a Lima Junior. O chefe d'este grupo unido e compacto era extraordinario... Agitação perpetua. Orador admiravel, sobretudo na réplica, em que perdia a retorica e ficava incisivo e nu como uma espada. Um passo a mais e seria um escriptor ilustre: não teve um momento de seu para rever as provas. Com a paixão, a colera, o arrebatamento, um grande coração. Nunca lhe conheci odios, e muitas vezes lhe ouvi defender até o seu maior inimigo, o José Luciano. Ao proprio D. Manuel elle diz: «...O José Luciano vale mais do que todos os progressistas e regeneradores juntos, contando com elle proprio Alpoim ». (Documentos politicos). E quem conheceu o Alpoim sabe que as notas que o rei escreveu são mais que exactas, são phonographadas. É elle a falar d'este e d'aquelle, dos amigos, dos inimigos—de Deus e do Diabo. Uma ambição do poder que o leva arrastado, mais pela lucta em si, necessaria a um temperamento excessivo, do que por vaidade ou vangloria. Principios poucos—meios aquelles que os adversarios, a tenacidade e o rancor de José Luciano, lhe deixavam. Acusaram-no de tudo—acusaram-no da morte de D. Carlos... «Até disseram, Senhor, que fui eu que matei El-Rei D. Carlos!!!» (Documentos politicos). Resistiu sempre; morreu a conspirar. Nos seus ultimos annos não sei que tristeza o envolve... A figura parece maior, as palavras simplificam-se-lhe, os sentimentos tambem. Engrandece. Raros teriam, como elle teve, a sinceridade de escrever: «Na minha defeza, que teve de ser espectaculosamente rude por vezes e d'uma acção subterranea por outras, excessos cometi de que me penitenceio—mais do que se imagina»... E repete e insiste: «Em muitos actos da minha vida de lucta, por vezes injustamente combatido, tenho sido exagerado—e errei. De muitas coisas estou repezo, e d'ellas hoje se admira a minha inteligencia e peço perdão á minha propria consciencia e até aos homens!» Quantos ha ahi capazes d'esta grandeza? Quantos—tendo todos juntos concorrido para a morte de D. Carlos—o acusaram a elle só, com a tinta do Correio da Noite ainda fresca?


«Aqui d'El-Rei—se nos pode ouvir El-Rei—contra quem mandou assassinar o povo de Lisboa.» (Correio da Noite, tarjado de luto). «Aparecem hoje, segundo ameaças do governo e segundo as suas notas oficiosas sempre irritantes á imprensa, decretos esmagadores. Tanto peor para o Rei e para as Instituições. As responsabilidades d'esses decretos, ainda que aparentemente só do poder executivo recairão mais uma vez sobre o Rei, a quem todos hão-de pedir a responsabilidade da sua assignatura. (Correio da Noite, 20 de Junho de 1907).


*


Quem reina agora em Portugal não é o senhor D. Manuel, é sua Magestade o Mêdo. Que quadro para um Saint-Simon, que descrevesse os politicos e a côrte, o que se diz e o que se adivinha, o que resalta dos Documentos politicos, e o que se conserva na sombra como um baixo relevo de odios e de interesses! Enredam, intrigam-se, perdem-se todos juntos. A politica portugueza gira sobre este fulchro: «O José Luciano, não podendo governar por se achar impossibilitado... e não querendo substituir-se para não perder o comando de que é muito cioso»[17] emprega até ao fim todos os esforços para inutilisar o Julio de Vilhena. Só pela vã ambição de mandar? O velho é perspicaz e teimoso, o velho conhece, como poucos, os homens e entende que só elle pode e sabe governar. É teimosia e grandeza. Não abdica, não pode. Toda a vida foi obedecido. Aferra-se. O que elle quer é ser o «Deus ex-machina da nossa politica sem se mexer da sua chaise-longue». Que tipo! Governou sempre, mandou sempre, conservou-se sempre lucido. E tanta serenidade, que até no dia em que lhe assaltaram a casa dos Navegantes, é o unico que não perde o sangue-frio, e, quando o querem esconder n'uma banheira, teima em ficar na cadeira de rodas! Tem a logica do diabo e uma manha, um conhecimento dos homens, a que os outros não chegam. Desde o principio que todos se congregam para enfraquecer o partido regenerador. «Isto—diz a velha rapoza—é uma lucta de politicos que se querem inutilisar e desacreditar uns aos outros». É assim—e nenhum d'elles se lembrou que só os republicanos lucravam. Até os franquistas. «Os franquistas, por intermedio do Martins de Carvalho, forneceram aos republicanos todos os elementos que poderam colligir para descredito dos rotativos» (T. do Amaral ao rei). Até os nacionalistas. Entretanto o rei ouve-os e toma notas... A sua vontade é acertar. Passa a vida a acertar, o que não é bem a missão d'um chefe, mas a d'um relojoeiro. Não creio que os homens se governem só pelo interesse ou pelo terror, como queria Napoleão, mas creio que se não governam com pannos quentes, e que mais vale tomar uma decisão má do que não tomar nenhuma. O povo, como o soldado, precisa de sentir um chefe, e adivinha-o logo. Tudo no rei são boas intenções. Mal ousa dar um passo, não se resolve nunca—e atraz d'elle está a mãe, que quer educal-o para rei, mas que tem diante dos olhos o quadro horroroso... Apezar d'isso é ella propria que o incita a passear á luz do dia, como uma vez quando o trouxeram a galope, entre uma escolta de cavalaria, do Rocio ao Paço... Arrisca-o. Procura congraçar toda a gente. E odiada. A D. Maria Pia, histerica e perdularia, agradou sempre: até os seus ditos se repetiam:—O senhor é um merda!—ao D. Luiz, quando elle aceitou as imposições do Saldanha; até os seus vestidos, a sua ostentação, a atmosphera de rainha extravagante, que só sabia que existiam contos e patacos, os chapeus que mandava vir de Paris, aos trinta e quarenta, em cada estação; até a sua desordem elegante de histerica. Nem os jornaes republicanos a atacavam. E quando foi para o exilio, já doida, com um pão debaixo do braço e uma manta pela cabeça, só ella deixou saudades. Era a Rainha. A D. Amelia não. Essa senhora, de quem alguem disse:—É um grande homem de bem!—subiu todo o calvario da vida. Era religiosa—o que só a honra—chamaram-lhe beata. Andou nos folhetins e nos pamphletos. Os seus criados detestavam-na[18]. Ao passo que a rainha D. Maria Pia, falso anjo de caridade, pouco fez com o seu espalhafato e foi adorada, a D. Amelia, que combateu metodicamente a tuberculose, espalhando o bem a mãos cheias, fundando a Assistencia Nacional, com os seus sanatorios e dispensarios, as cozinhas economicas, o hospital do Rego, o Instituto de Socorros a Naufragos, e contribuindo para a fundação do Instituto Bacteriologico, etc., foi sempre odiada, calumniada, insultada. Nem dentro de sua casa lhe era possivel conversar. Um dia, para falar em segredo com um ministro, chamou-o para o meio da sala:—Aqui, porque senão vem tudo amanhã no Mundo.—E vinha. Até o homem dos telephones era carbonario... Estou em dizer que é o acaso que governa a vida: a razão não é, com certeza.

Ponham agora á roda d'estas figuras, os politicos e as paixões falando cada vez mais alto. É o momento em que todos á uma querem ser chefes! Querem ser chefes o Teixeira de Souza e o Alpoim, querem-no ser o Wenceslau de Lima e o Campos Henriques, e até o pobre, o inculto Pimentel Pinto, que Antonio Candido fez um dia ministro, tem um deslumbramento e sonha na candidatura. Elle é «o Vilhena muito afectuoso, muito lisongeiro e muito avido de poder»; elle é o Teixeira de Souza, «todo agrado, comtanto que elle entre no governo n'uma situação que não seja inferior á do Campos Henriques»—retrata-os o Wenceslau, que é o unico que sobe, como um balão cheio de vento, no conceito de quasi todos os politicos, que se reveem n'elle como n'um espelho.—E o José Luciano teima: «O Vilhena está quasi abandonado pelos seus marechaes». Todos á uma proclamam ao rei e ao mundo que esse homem é incompetente.—É um homem de talento—afirma um ex-ministro graduado—mas nunca vi incompetencia maior como politico.—Porquê? É o que resta saber. Elle é dos poucos que sabe o que quer, que tem um plano e que o apresenta (Antes da Republica)—é tambem o unico com superioridade mental organisada. Pequeno, sempre pendurado no charuto, conserva, até nas ocasiões criticas, serenidade e firmeza. Mas todos concordam na sua inferioridade politica...

Se só pelo triumpho é que se demonstra tino politico, como quer alguem—na verdade Julio de Vilhena falhou completamente. Nem todos os meios lhe serviam, e em Portugal não existem correntes de idéas ou de principios que levem um homem ao poder. O que se chama opinião não se pronuncia. Os chefes de partido são simples chefes de bando. O Paço é que faz ou desfaz os politicos, ou outros meios obscuros, de que cada um se pode servir, como no tempo de Luiz XIV. Escolheram-no para chefe n'uma occasião em que nenhum dos outros o podia ser, mas atraz delle estava a tenacidade do Teixeira de Souza, a politiquice de Campos Henriques e a astucia de Wenceslau.—Esse sim, chame V. Magestade o Wehceslau—diz o Alpoim.—O Wenceslau sim—concorda o José Luciano. Elle é o homem do Paço e dos politicos. Começa a ser indispensavel. O outro tropeço não lhes sae da frente. Era a occasião de governar quem governasse, mas ao José Luciano só lhe convêm «governos mixtos em que elle mande, ou que, pelo menos, ponham o cofre das graças á sua disposição.» (P. Pinto). E todos ou quasi todos só pensam no Wenceslau, que promete muito, que sorri a toda a gente, e que não tem nada lá dentro. É o optimista necessario. Impõe-se pela parte decorativa, pela boa educação, pela maneira como contenta o mundo. As vezes chega a oferecer o governo a um, tendo-o já oferecido a outro... (J. de Vilhena). Só o lunatico não entende... Elle bem protesta: «Quem o conhece tem obrigação de saber que nunca foi um aventureiro ambicioso, nem um intrigante ordinario, capaz de empregar processos menos correctos para obter quaesquer posições». Mas foi exactamente isso que o perdeu! Num paiz onde não ha opinião, não pode haver chefes de partido. Que diferença entre elle e o Teixeira de Souza, espadaúdo e forte, abundante, abrindo logo os braços a toda a gente:—Tu que queres, filho?!—D'outro feitio era o Campos Henriques, procurador encartado do norte, escrevendo a meio mundo e satisfazendo a outro meio (agua molle em pedra dura...); d'outro feitio, emfim, era o palaciano Wenceslau de Lima, o favorito, que censurava as cartas do rei e lhe escrevia os borrões. Nenhum homem mais souple nem mais agradavel, sempre a mastigar e a sorrir. Está nas antecamaras quando o rei conferenceia, e ha um momento em que só elle põe e dispõe, e em que aconselha ao rei:—Chame-me a mim, para eu declinar!—E o rei chama-o. As duas grandes figuras do reinado, vinham a ser o Wenceslau de Lima e o Soveral. O proprio José Luciano estava condemnado...

Tudo isto se passa sob o olhar ironico ou severo dos republicanos e diante do phantasma da republica. Nem assim os interesses e as ambições abdicam. Nunca, nem no inferno, abdicaram! Acima de tudo está o odio do José Luciano, estão as paixões do Alpoim, que sonha no poder, e que na manhã de 5 d'Outubro ainda dizia:—Agora, sufocada a revolução, o rei não pode deixar de me chamar a mim...—Interesses e homens, tendo cada um «a sua policia», como diz o Teixeira de Souza. E o rei no trono, no palacio onde as paredes teem ouvidos, sempre a rabiscar papeis, incitando-os ás vezes (J. de Vilhena), sem prever o mundo de coleras que está para vir á superficie. Quando á noite se apanha só, abre a gaveta e desata a escrever aquelle interminavel romance politico, que caminha a galope para o remate da fuga e do exilio. E as vozes, cada vez mais altas, obstinaram-se:—Não pode haver ordem nem tranquilidade com o Alpoim no paiz—exclama um.—Elle é um espirito claro e nada mais! protesta outro.—É uma cambada! A propria dissidencia que é? É um inferno!—conclue o Alpoim.—É um idiota! O mal foi elegel-o para chefe.—E o Teixeira do Amaral observa ácerca d'um grupo:—São pescadores d'aguas turvas...

Quem ha-de conter os homens e os acontecimentos? O rei? O rei escreve, escreve sempre... O Credito Predial desaba:—Foi então que os burguezes, vendo-se roubados, nos deixaram fazer a republica...—asseverou Junqueiro. Ao poder sobe emfim o fatidico Teixeira de Souza. Os acontecimentos precipitam-se. Atraz dos homens está uma força monstruosa que parece empurral-os a todos—até ao rei, que, de quando em quando, pára de escrever e sorri enlevado para os dois bonecos que tem em cima da comoda, a caricatura d'um marinheiro inglez e a caricatura do Soveral—e vae leval-os a todos, sob o olhar impassivel do destino, para o desenlace fatal.

Todos esses homens tinham defeitos. Alguns eram até ridiculos. Mas, apezar de tudo, não ultrapassavam determinada linha, apegados a preconceitos e a formulas, de que não havia arrancal-os... Vae o senhor D. Manuel, não tarda, porque a monarchia ha-de voltar—tudo sucede vertiginosamente n'este paiz—conhecer outros, com muito menos escrupulos, que o hão-de encher de desgostos. V. Magestade verá.

FIM DO 1.º VOLUME







INDICES




LISTA DAS PESSOAS CITADAS NO 1.º VOLUME



A


Abel d'Andrade

Abrantes (Marquez de)

Ada Weinstin

Adelaide Coelho da Cunha

Adrião de Seixas

Affonso Costa

Affonso (Infante D.)

Affonso VI

Affonso XII

Affonso XIII

Agostinho Franco

Albano de Mello

Albano da Fonseca (Coronel)

Alberto Bramão (D.)

Alberto Braga

Alberto Pimentel

Alberto d'Oliveira

Albuquerque (Alexandre)

Alcaçovas (Conde de)

Alda Decken Lino

Alexandre Herculano

Alferrarede (Condessa de)

Alexandre Cabral

Alfredo Anjos

Alfredo Costa

Alfredo da Silva

Alice Lawrence

Alice Munró

Alpoim

Almada Carvalhais

Almeida Araujo (Condessa de)

Alvito (Marquez de)

Ameal (Conde do)

Amelia (D.)

Anna de Sousa Coutinho (D.)

Angejas

Anibal Soares

Anjos (As)

Anna de Jesus

Antonio Azevedo

Antonio Bandeira

Antonio de Brito

Antonio Cabral

Antonio Candido

Antonio Centeno

Antonio Emilio

Antonio da Costa e Silva

Antonio D. da Cruz Pinto

Antonio Ennes

Antonio José d'Almeida

Antonio José de Freitas

Antonio Manuel Teixeira

Antonia Morena

Antonio Moreira da Camara Coutinho

Antonio Nobre

Angela Pinto

Anselmo Vieira

Antero

Armando Navarro

Arnaldo Fonseca

Arnoso (Conde de)

Arnoso (Condessa)

Arroyo (Antonio)

Arroyo (João)

Arthur de Mello

Asseca (Viscondes de)

Augusto Cymbron

Augusto Machado

Augusto Pina

Augusto Ribeiro

Avelino d'Almeida

Aveiro (Duque de)

Avila e Bolama (Duqueza de)

Avila (Conde de)

Ayres de Gouveia


B

Baltar

Barão (Condes)

Barahona

Barbosa Colen

Barbosa du Bocage

Barjona

Barros Gomes

Batalha Reis

Bemposta Sub-Serra (Marquezes da)

Beirão

Bernard Lazare

Bernardino Machado

Bernardo Pindella

Bomtempo

Borges & Irmão

Bourbon de Menezes

Braamcamp

Branca de Gonta Colaço

Brazão

Brito Aranha

Brouillard (Madame)

Buiça

Bulhão Pato

Burnay


C

Caldeira

Camillo

Campos Henriques

Candida da Nora Kendall

Candido dos Reis

Capelo (Almirante)

Cardia

Carlos (D.)

Carlos de Freitas Jacome

Carlos Lobo d'Avila

Carlos Mayer

Carlota Joaquina (Dr.)

Carnaxide (Visconde de)

Carneiro de Moura

Carracida

Carrilho

Casal Ribeiro (Conde de)

Castello-Melhor

Castilho

Castro Solla (Conde de)

Celso Herminio

Chancelleiros

Chapuy

Christina Rezende da Silva

Cipriano Jardim

Coelho de Carvalho

Columbano

Conceição de Carvalho

Correia de Barros

Correia d'Oliveira

Costa Pinto

Costa Santos

Croneau

Cunha e Costa

Curry Cabral

Custodio Borja


D

Dantas Baracho

Delcassé

Dias Costa

Dreyfus

Duval Telles


E

Eça de Queiroz

Eça Leal

Edla (Condessa de)

Eduardo Burnay

Eduardo Cheira

Eduardo Cordeiro

Eduardo de Sousa

Eduardo Pimenta

Eduardo Tavares

Eduardo VII

Egas Moniz

Elisa Baerlein

Elisa Baptista de Sousa Pedroso

Elvino de Brito

Emidio Navarro

Emilia Adelaide

Emilia das Neves

Ernest George

Espregueira

Eugenio de Castro


F

Falcarreras

Fernandes Thomaz

Fernando (D.)

Fernando de Serpa

Fernando Martins de Carvalho

Ferreira d'Almeida

Ferreira do Amaral

Fialho

Ficalho (Conde de)

Ficalho (Condessa de)

Ficalho (Marquez de)

Fife (Duque de)

Figueiró (Conde de)

Figueiró (Condessa de)

Fonseca, Santos & Viana

Fontes

Foz (Marquez da)

França Borges

Francisco Figueira

Francisco Medeiros

Franco (Marquez de)

Francisco da Fonseca Benevides

Frederico Arouca

Frei

Freitas Branco

Freitas Brito

Freitas Rego

Fronteira (Marquez da)

Fumega (Major)

Fuschini


G

Garrett

Garaty (Mr. Garaty (Mr. e M.me)

Garrido

Guerra Junqueiro

Gervasio Lobato

Gomes dos Santos

Gomes Leal

Gomes Netto

Graça (Major)

Guilherme de Azevedo


H

Heitor Ferreira

Henrique de Vasconcellos

Hintze Ribeiro


I

Idanha (Viscondessa de)

Imperador do Brazil

Irene Gilman


J

Jacintho Candido

Jayme Arthur da Costa Pinho

Jayme de Seguier

Jayme Victor

João d'Alarcão (D.)

João Barreira

João Chagas

João Chrisostomo

João da Camara (D.)

João de Deus

João de Deus Guimarães

João Franco

João Pinto dos Santos

João de Menezes

João VI (D.)

Joaquim da Boa Morte Alves de Moura

Joaquim Pessoa

John Burnay

Jorge Colaço

Jorge O'Neill

José d'Azevedo

José Bacellar

José Dias (conego)

José Dias Ferreira

José de Figueiredo

José Lobo

José Luciano

José Maria dos Santos

José Nunes

José Paulo Menano

José Reinach

José Saragga

Julio de Vilhena

Judeu

Judice Bicker

Julia Bordallo

Justino


L

Latino Coelho

Leão XIII

Leitão (Ourives)

Lencastre de Menezes (General)

Lima Junior

Linhares (conde de)

Lopo Vaz

Loubet

Loulé (Duqueza de)

Luciano Monteiro

Lumiares (condes de)

Luiza Patricio de Balsemão

Luiz (D.)

Luiz da Camara (D.)

Luiz Campeão

Luiz de Castro (D.)

Luiz Fillipe (D.)

Luiz Osorio

Luiz Trigueiros


M

Machado (capitão)

Malaquias de Lemos

Manuela Rey

Manuel (D.)

Manuel Bordallo Pinheiro

Manuel Figueira

Manuel Hintze Ribeiro

Manuel Ramos

Manuel Ribeiro Borges

Manuel Vaz Preto

Marçal Pacheço

Magdalena Trigueiros

Mardel

Maria Augusta (D.)

Maria Emilia Seabra (D.)

Maria Emilia Macieira Lino (D.)

Maria (Infanta D.)

Maria II (D.)

Maria Kruz Brito (D.)

Maria Pia (D.)

Maria Tereza Pinto de Magalhães (D.)

Marquez da Foz

Marcelino de Mesquita

Mariano

Martins de Carvalho

Mathias de Carvalho

Matoso dos Santos

Maura

Max Nordau

Maximiliano d'Azevedo

May Figueira

Mello Barreto

Mesquitella (conde de)

Monpensier (Duqueza de)

Moreira d'Almeida

Moreira Marques

Moreirinha

Monteiro Milhões

Motta Marques Meirelles (Juiz)

Moser

Moura Cabral

Mousinho

Munhoz

Murça (condes de)


N

Napoles

Navarro

Nazareth

Norton de Mattos

Nuno Castello Branco


O

Oliveira (das cautellas)

Oliveira Martins

Oliveira Mattos

Ottolini da Veiga

Ouguella (Visconde de)

Ovidio d'Alpoim


P

Paccini

Paçô Vieira (conde de)

Pad' Zé

Padre Matos

Palmeirim

Palmeirim (General)

Palmella (Duqueza de)

Paraty (condes de)

Paris (condessa de)

Patrocinio (D.)

Paulucci

Pedro d'Araujo

Pedro Martins

Pedro de Noronha (D.)

Pedro IV (D.)

Pedro V (D.)

Pedro Victor

Penalva (Marquez de)

Penamacor (condessa de)

Penha Garcia (conde de)

Peniche (conde de)

Pequito

Pereira das Neves

Pimentel Pinto

Pinheiro Chagas

Pinto Basto

Poitier

Pombal (Marquez de)

Ponte de Lima (Marquezes)

Povolide (conde de)

Praia (Marquezes da)

Prim


Q

Queiroz

Queiroz Ribeiro


R

Ramalho

Rangel de Lima

Raphael Bordalo

Rebello da Silva

Regaleira (Baroneza da)

Ressano Garcia

Rezende

Ribeira Brava (Visconde da)

Ribeira Grande (conde da)

Ricardo Jorge

Rio-Maior (condessa de)

Rodin

Rodrigo da Fonseca Magalhães

Rosa Damasceno

Rosa pae

Rossini

Rufino d'Almeida


S

Sabugosa (conde de)

Saldanha (Duque de)

Sampaio (Visconde de)

Santos (Major)

Santos Viegas

Sarah da Motta Vieira Marques

Saraiva de Carvalho

Schwalbach

Sebastião Telles

Sergio de Castro

S. Boaventura

S. Lourenço (condessa de)

S. Luiz de Braga (Viscondes de)

Silva Bastos

Silva Canellas

Silva Carvalho

Silva Graça

Silva Pinto

Silva Telles

Sousa Holstein

Sousa Martins

Soveral (Marquez de)


T

Taborda

Tavares Festas

Taveira (condessa de)

Teixeira de Sousa

Teodoro d'Almeida

Theophilo Braga

Thomaz Ribeiro

Tompson

Torlades (casa)

Torre da Murta (Visconde da)

Totenbach

Trindade Coelho


U

Urbano de Castro

Urbano Rodrigues


V

Valbom

Valdez

Valença (conde de)

Val-Flôr (Marquez de)

Vallada (Marquez de)

Valladares (conde de)

Varzea (Visconde da)

Vasconcellos Porto

Vianna (Marquez de)

Vicente da Camara

Victor Hugo

Victoria (Rainha)

Vilaça

Villa de Fozcoa (Barão de)

Villa Nova de Cerveira (conde de)

Villa Real e Mello (condessa de)

Vimioso (conde de)


W

Wenceslau de Lima

Wernestein


Z

Zola

Zulmira Franco Teixeira