*
Contemplando o cadaver do Cardia:
—Só aos quarenta anos é que se sabe o que é isto!
Isto é a morte, á qual tem horror, assim como á velhice.
*
E falando a proposito do Cardia:
—Eu tambem sou assim... Ha dias em que ninguem me arranca seja o que fôr da cabeça. Sinto a mesma impressão de vasio que o Cardia sentia. Depois escrevo por impetos uma pagina, pedaços destacados que me matam de desespero para ligar. E se não escrever logo, passadas horas já não posso, não sei... Varreu-se-me tudo!
*
Está furioso com a inauguração do monumento ao Eça. No fundo nunca o pode vêr: faltou-lhe o carinho, a consideração—e isso maguou-o muito—que rodeou o grande escriptor dos Maias. Elle proprio diz: ganhou sempre a trabalhar menos que um pedreiro. No jornaleco A Tribuna escreveu em dois numeros successivos, sem assignatura, as seguintes notas com o titulo
o
monumento
Já noticiamos n'outro numero
do nosso jornal com
todos os seus detalhes e pormenores, como foi a festa
d'inauguração do monumento a Eça de
Queiroz. Damos
hoje um reflexo do humor da multidão que assistiu ao acto.
Porque, emfim, a nosso vêr, tudo é documento para
a historia.
—Sobre a nudez forte da Verdade, o manto diaphano da phantasia. Dizem os amigos que n'esta frase se alegorisa a obra de Eça. Mas olha cá. Estando a Verdade completamente nua do ventre para cima, e só rebuçada d'ahi para baixo, o que sob o manto da fantasia se guarda é indecente.
—Ahi está a razão porque a alegoria é flagrantissima.
—Tu, se fosses casado, davas o Primo Bazilio a lêr a tua mulher?
—Lá isso não. Mas não tinha a mais pequena duvida em o dar á tua.
*
—Sobre a nudez forte da Verdade, o manto diaphano da phantasia. Dizem os amigos que n'esta frase se alegorisa a obra de Eça. Mas olha cá. Estando a Verdade completamente nua do ventre para cima, e só rebuçada d'ahi para baixo, o que sob o manto da fantasia se guarda é indecente.
—Ahi está a razão porque a alegoria é flagrantissima.
*
—Tu, se fosses casado, davas o Primo Bazilio a lêr a tua mulher?
—Lá isso não. Mas não tinha a mais pequena duvida em o dar á tua.
*
—Que lhe parece a Verdade do monumento?
—Um calix de bitter para fazer bocca ao Chat Noir, que fica em baixo.
*
—Condessa, de todos os cavalheiros que fallaram, qual d'elles é o conde d'Avila?
—O conde d'Avila são todos.
*
—Este Monteiro Milhões, que inconveniencia! Consentir que das suas cavallariças um burro esteja a interromper os oradores!
—Condessa, é o echo.
*
—O que eu n'esta consagração sobretudo admiro, é o grande coração do conde d'Arnoso. O Municipio devia premiar tão nobre musculo.
—Com uma urna, como se fez ao D. Pedro IV?
—Com uma urna não. Com uma travessa.
*
—Seria interessante conhecer todos os tramites do trabalho de creação do esculptor, até ao momento da estatua apparecer.
—Ah, eu lh'os conto. Primeiramente, o Carlos Mayer, na sua qualidade de judeu, queria uma descida da Cruz, e por isso, o grupo do Eça e da Verdade cheiram um pouco á scena da Paixão. Veio depois o Arnoso a lembrar se dessem ao monumento reminiscencias mais contemporaneas, ex.: o Genio perguntando á Verdade quantos dentes queixaes queria tirar. D'esta dualidade d'inspiração resulta o mysterio, que faz com que o monumento seja o que v. ex.a quizer, sendo o melhor—não perguntar.
*
Apparece no estrado o Conselheiro António Candido.
—Silencio! Vae fallar o maior orador da Peninsula.
—«...[*espaço?]no povo portuguez ainda ha o grande brio dos feitos altos, (sussurro). Se ámanhã esta Verdade tão núa fôr ter ao Pelourinho, ninguem sabe até onde o amor da Pátria ha-de crescer! (ovação).
*
Interview com o conselheiro Barahona.
—V. Ex.a leu alguma vez o Eça?
—Ler, nunca, mas conheci-o em Evora, delegado do thesouro, e até por causa d'isso vim ao Principe Real ver-lhe um drama de ladrões, que estava mesmo escripto ao meu sabor.
—Mas isso não é o Eça de Queiroz, é o Eça Leal.
—O que?! Não é o mesmo? Ai, os meus ricos dois contos de réis!
*
Interview com o Snr. Monteiro Milhões.
—V. Ex.a que pensa do monumento?
—Penso que tenho de voltar a frontaria da minha casa, para o Theatro D. Amelia. Imagine que os meus netos estão constantemente a perguntar quem é aquella senhora sem camisa. Já o outro dia lhes disse que era D. Maria II, mas com estes frios, os pequenitos, educados na compaixão, não me largam para que lhe mande dar um cobertor.
—E que impressão faz das suas janellas a barriga da Verdade?
—Aqui entre nós (arregalando o olho) é uma d'aquellas barrigas que está mesmo a glorificar a «sensação nova» (irritado). Não era mais condizente á minha camoneana, transferirem o epico immortal aqui para o meu largo, e levarem aquelle senhor para as proximidades do Bairro Alto?
—De modo que V. Ex.a, irritado, nem chega á janella?
—Emquanto a Camara
não
mandar pôr, de roda da
figura um resguardo pintado de cinzento.
—Tu ouviste os discursos. Que opinião por elles se pode ter da capacidade mental dos oradores?
—Metade d'aquelles senhores não leu o Eça, e a outra metade não tem lucidez para o julgar. Isto foi uma festa de «snobs»; o monumento que ali está, não foi erguido á memoria do Eça litterato: é a glorificação do conde Reinaldo e da Alfonsine.
—E se o flamejante garoto agora cá tornasse? Mettia-os a todos n'um romance endiabrado.
—Já estão mettidos. Mas o que tu acabas de vêr é os Maias em quadro vivo.
Duas guapissimas, na turba.
—Pero Eça de Queiroz, quien és?
—Un caballero que escribió del minuete.
*
—Tu ouviste os discursos. Que opinião por elles se pode ter da capacidade mental dos oradores?
—Metade d'aquelles senhores não leu o Eça, e a outra metade não tem lucidez para o julgar. Isto foi uma festa de «snobs»; o monumento que ali está, não foi erguido á memoria do Eça litterato: é a glorificação do conde Reinaldo e da Alfonsine.
—E se o flamejante garoto agora cá tornasse? Mettia-os a todos n'um romance endiabrado.
—Já estão mettidos. Mas o que tu acabas de vêr é os Maias em quadro vivo.
*
Duas guapissimas, na turba.
—Pero Eça de Queiroz, quien és?
—Un caballero que escribió del minuete.
*
G..., antigo companheiro de Fialho, sepultado hoje no fundo d'uma biblioteca, diz assim a proposito da livraria do grande escriptor[2]:
«Eu chamo a estes livros as onze mil virgens. São apenas quatro mil volumes ou pouco mais, mas—vae surprehendel-o esta minucia—estam quasi todos por abrir. Ha aqui Balzac e Zola, Eça e Ibañez, os Goncourt e Ponson du Terrail. Fialho tinha muito Ponson na sua biblioteca. Esta litteratura de costureiras e guarda-portões era para as grandes horas amarguradas».
Era. A elle e a outros grandes espiritos basta-lhes o proprio drama para os amargurar. Anthero, nos dias aziagos de Villa do Conde, deitado n'um sofá, só lia Gaborieu. Para tragedia chegava-lhe a sua.
«O Fialho tinha uma admiração extraordinaria pela obra camiliana. Imagine que até n'um livro da mocidade poz uma dedicatoria a Camillo, em que dizia: «acabo de lêr toda a sua obra». E quasi nada lêra a esse tempo... Afora as obras portuguesas, na biblioteca de Fialho só ha volumes em espanhol e em francez. Nos ultimos anos merecera-lhe uma atenção particular a literatura espanhola.»
E a proposito de Fialho intimo assevera:
«O Fialho, que tinha grandes rasgos generosos e perversidades femininas—repito-o não era bem o Fialho que se vê atravez dos seus livros admiraveis. Era o outro. As suas irreverencias das paginas rubras eram fundamentalmente apenas o odio do plebeu que inveja o fidalgo. Sim, porque ele invejava a sociedade na sua fase demolidora só porque não tinha nela um lugar. Uma infantilidade de homem de genio.»
E explica:
«Como se sabe o Fialho não tinha meios de fortuna nem ascendencias nobres. Fez a sua vida ali no «Martinho», vivia de noite e era um blageur incorrigivel, e apezar de valer bem os seis milhões de portugueses que existem sobre esse solo, a Monarquia, o Paço, os conselheiros, não lhe achavam qualidades para triunfar nessa sociedade formalisada e cheia de convencionalismos. Está explicado o Fialho dos Gatos—foi a revolta. Meteu-lhes medo—oh sim, um medo terrivel com as suas blagues sangrentas—fazia-os passar de largo, mas ainda mais se afastou do ancien régime. Entre os republicanos, onde se lançou de alma e coração, sentiu-se depois desconsiderado. O Fialho continuava a ser... o blageur. Nunca lhe deram um cargo de confiança. Que pena teve o Fialho de não ficar na Comissão da subscrição nacional a quando do ultimatum!»
E termina com esta nota inedita:
«Sabe que o Fialho era um orador. Nunca ouviu dizer talvez que elle fizesse um discurso? Mas ouvi-lhe eu muitos, todos os dias, durante longos annos. A sua timidez invencivel nunca o deixou falar em publico apesar de, como ninguem, sentir a necessidade do aplauso. Muita vez me disse que desejaria ser actor, ser um grande actor, para ouvir bem de perto o som das palmas com que o saudariam, para viver intensamente, ruidosamente, uma grande hora de triunfo. Tinha coisas o Fialho... Registe esta nota curiosa pois muito poucos a sabem: era soberbo, orando alucinado para um auditorio de tres amigos intimos no alto da Avenida, ou noite alta, á beira do Tejo.»
*
Á figura que se senta ao pé de mim falta-lhe talvez a rigidez das estatuas. O gabinardo, reparem, está amachucado e encardido, a phisionomia retrae-se no escuro e só a bocca se salienta, enorme e prestes a escorraçar-nos com gritos e apupos. Atravessou a vida: foi injusto, foi cruel por vezes, foi amargo. Desatou a rir para não chorar. Atordoou-se com sarcasmos e phrases. Foi incoherente. Obedeceu ao impulso. Não se pôde furtar a sentimentos que veem do fundo dos fundos e nos deixam prostrados, reclamando da morte que nos apavora—enfim! enfim!—o primeiro dia de descanço bem ganho, ao termo desta discussão que nunca cessa e em que nos despedaçamos, sem nos comprehendermos a nós proprios quantos mais aos outros... Toda a sua alma, que deixou fragmentada em varias figuras, em todas as paginas dos seus livros, nos retratos, nos tipos, nas paisagens, no Manuel, em Guilherme de Azevedo ou na manhã do Tejo, se condensa enfim n'esta bocca amarga capaz ainda de nos fulminar de colera ou de acusar bem alto a vida que lhe foi impiedosa... É assim que te vejo ao pé de mim, com detrictos, escorrencias, lama, mas tão grande, tão vivo, tão humano, que para sintetisar a tua vida, só me servem as palavras com que um espectador ilustre sauda o Hamlet no fim da representação:—Boas noites, meu principe, és um homem, o homem e todo o homem!
4 de Janeiro—1908.
Morreu ante hontem d'albuminuria o pobre D. João da Camara. Tinha feito annos no dia 27. Conheci-o sempre, até nos maiores frios, de casaco d'alpaca, a sorrir... Antes de acabar sahiu do torpôr e, em dois acessos de delirio, descreveu o fim do mundo com terror e espanto. Depois rezou, disse versos seus, e ficou, n'um ultimo suspiro. Remexeram-lhe nos papeis e nos bolsos: só lhe encontraram recortes de jornaes, anuncios de desgraçados pedindo esmola.
Mezes depois ainda os pobres o procuravam nos sitios do costume:—O senhor D. João? o senhor D. João?—Morreu.—Morreu! morreu!...—E partiam a chorar.
Agora é que eu sinto todo o encanto d'esse homem falando baixinho, a olhar a gente por cima das lunetas. Andou mal vestido. Não soube o valor do dinheiro. Desceu aos desgraçados com uma ternura e uma simplicidade de fidalgo e de santo. Nos ultimos quatro annos ganhou alguns tão vivo, tão humano, que para sintetisar a contos de reis: deu tudo, levaram-lhe tudo. Até de madrugada o procuravam para lhe pedirem dinheiro emprestado. E nunca o ouvi queixar-se, nem dizer mal de ninguem. Foi um poeta e um santo. Deixa, alem de algumas obras admiraveis, uma peça incompleta, com poucas scenas escriptas—As comadres de Panoia, e talvez se lhe encontrem tambem apontamentos de outra em que tanto falou e em que tanto sonhou—O Sermão da Montanha.
18 de Março—1900.
Faz hoje annos que morreu Antonio Nobre. Foi uma figura inconfundivel de poeta. Por mim nunca encontrei tambem rapaz mais lindo. Um pouco afectado talvez... Em pequeno ia com Eduardo Caminha enterrar os seus versos no jardim solitario do Palacio, e pedia, com os olhos limpidos e sofregos, uma Biblia para repousar a cabeça quando o levassem no caixão... Estou a ve-lo, com uma camisola de pescador, saltar pela janella da casa á beira rio, de Mattosinhos, onde Alberto d'Oliveira já imperava, esse mesmo Alberto d'Oliveira, esperto e tão dominador, que, quando entrava em casa dos outros, começava por os convencer a desarrumar os móveis, para os arrumar de novo a seu modo... Antonio Nobre usava uma abotoadura de cabeças de pregos e sorria com um modo e um ar de ternura e desdem. Fugiam d'elle antes de publicar o Só; os poetas do seu tempo odiaram-no depois de publicar o Só. Ser diferente dos outros é já uma desgraça; ser superior aos outros é uma desgraça muito maior. Viveu efectivamente isolado. No concurso para consul quizeram reprová-lo: foi preciso que Alberto d'Oliveira explicasse ao jury quem era o poeta Antonio Nobre. Não pôde formar-se em Coimbra, e até os seus amigos mais intimos lhe fugiram. Entrou na morte como tinha vivido—só. Até Alberto d'Oliveira teve de interromper uma amizade de irmão quando se encontrou diante d'este dilema: ou deixar-se dominar por elle, que o tratava como uma creança, ou feril-o em pleno coração:—A nossa amizade é de tal ordem que não admite que lhe desçam dois ou trez pontos á craveira. Ou mante-la ou quebra-la.—Quebrou-a. O ilustre escriptor possue d'esse tempo um caixão enorme, tão pesado como o que levou o poeta para a cova, com as cartas afectadas e vivas de Antonio Nobre, as cartas que tem obrigação de publicar, com um prefacio que só elle pode e deve escrever.
Digamol-o, digamol-o... No fundo detestaram-no, detestaram-no todos. Não lhe poderam perdoar a impertinencia, o desdem, o genio. Era um sêr diferente. Não agradava a ninguem. Só as mulheres o amaram. Era um Poeta. Desconheceu a vida pratica. Tinha a consciencia do seu valor, e uma superioridade que se não podia aturar. Estavamos todos mortos por nos desfazermos d'esse ser aparte, d'esse eterno consul sem consulado, d'esse estudante de Coimbra que os lentes reprovavam e que nos fazia sombra. Mas debalde o arredamos: houve uma coisa nova que passou no mundo e que ficou no mundo—que nos ficou na alma...
Agora estamos todos apaziguados, todos podemos esquecer a superioridade, a afectação e o desdem infantil de Antonio Nobre.
Foi para a cova completar trinta e tres annos n'um dia de chuva como este, frio e sujo, o poeta insolente como um principe e adoravel como uma creança. Quantos estavam alli á beira do tumulo? Meia duzia escassa, o Frei, o Justino, o Eduardo de Souza, eu—e quem mais? quantos mais? Os jornaes deram a sua morte em duas rapidas linhas. Respirou-se.
Hoje é um dos poetas portuguezes com mais admiradores. É um poeta de simpathia. Nunca teve sorte senão depois de morto. Porquê? Porque não misturou, como nós todos, o sonho com a vida pratica. Ao contrario, raros homens terão posto tão de acordo a vida com o sonho. Fez mais: suprimiu a vida. Correu o globo e só a si proprio se encontrou. Viu o mundo e nunca assistiu a outro drama que não fosse o da sua alma. E poentes, arvores, estrellas ou pedras, entraram-lhe no coração como espadas. Nenhum outro exprimiu d'uma forma tão sua o universo. Que universo dirás? O meu? o teu?... Não, o que elle descobriu, scismando como um navegador, á prôa do seu barco... Por isso nunca hão-de faltar sonhadores que evoquem essa singular figura de poeta, que uma vez atravessou a terra, soluçou, monologou como Hamlet, e sumiu-se logo no sepulchro.
30 de Janeiro—1911.
Janota e coçado, com uma flor na botoeira e a fumar um charuto de dez reis, ahi vae o poeta Gomes Leal. Quem não viu n'outro tempo este homem extraordinario, não conheceu um verdadeiro, um authentico poeta satanico. Passou nas ruas de chapéo alto, falando com intimidade ás estrellas e tocando no céo com as guias do bigode. Escreveu as paginas das Claridades do Sul, da Traição e do Anti-Christo. Viveu alheado, como é indispensavel a quem convive todo o dia, tu cá, tu lá, com o sonho. Cantou a plebe, destruiu os deuses, arremessou sarcasmos aos banqueiros, satirisou o grotesco, e tocou-nos hombro com hombro, apontando altivo o cravo vermelho da lapela:
—Amigos, as flores são as condecorações dos poetas!
Prodigalisou-o a caricatura: teve na vida misterios perturbantes: um dia acometeram-no no comboio, em Espinho, quando regressava do Porto, até onde seguira a rainha Maria Pia, depois de lhe atirar uma rosa escarlate, que arrancou da botoeira, em plena praça, com um desdem supremo pela burguezia endinheirada... Sim, foi este que teve a gloria da cadeia, que cantou as estrellas, Jesus e Mephistopheles, foi este mesmo homem, a quem falta roupa na cama no inverno glacial, e que sorri com humildade para nós, avelhantado e timido... As janellas não teem vidros, a roupa é pouca, mas tu viveste o que não vive um rei, e o imperio deslumbrante, que creaste á custa de dôr, cheio de obscuridades e de genio, com catadupas d'oiro, como nas lendas, e palidas figuras; essa mescla de gritos, de paixão; esse sonho confuso e immenso, pertence-te, e não ha quem t'o roube, mesmo com as janellas abertas de par em par. Deixa entrar o frio—e sorri...
Agora vae todas as manhãs ouvir missa á Pena ou ao Resgate. É um homem encolhido e friorento, que a banalidade tem gasto e desgasto como as moedas fóra de curso que se fartaram de correr de mão em mão, e ainda ha dias o encontrei no Porto, n'uma manhã de sol, de casaco de borracha e colarinho suspeito. Ia pregar á Associação Catholica, e atravessava a Praça entre os aplausos dos palidos sachristas, que o rodeavam como quem força um deus, sem repararem que só levavam um simulacro. No sonho de outrora não ha mãos que se atrevam a tocar... Elle sorria enlevado, com o eterno charuto ao canto da bocca.
A vida feroz torna-nos grotescos. Consegue tudo. Deforma-nos. O proprio sonho entra ás vezes no dominio da chacota. Onde, porém, Garrett chega ao ridiculo, com tres cabelleiras postiças, Gomes Leal, de casaco de borracha e discursos de propaganda, atinge o tragico... Eu bem sinto a tristeza, bem sei, bem vejo o arranco, bem palpo a dôr. A figura que cheira a bafio como se sahisse do fundo do armario do passado para a plena luz, faz rir e faz chorar. No esforço para não ir ao fundo, no gesto de naufrago que se apéga com desespero, quando a dôr estala por todas as costuras, ha um rictus de clown. Olha lá: o peor é tu ousares tocar no que ha em mim de mais sagrado, o peor é tu transformares-me o sonho n'uma noticia do Seculo, o peor de tudo é tu atreveres-te a tocar n'este jardim da vida—e, peor ainda, é que eu continuo a sorrir como se possuisse o antigo thesouro de Ali-Baba. Mais um momento, outro passo e reduzes-me á condição de trapo. Deitas-te commigo, acordo comtigo ao meu lado, e ha occasiões em que até o som da minha voz me sobresalta. Por ora debato-me, por ora sinto o coração opresso, fingindo que não existes, mas ha já terror no meu sorriso, e, quando me ouço, ouço-te tambem os passos. Sei perfeitamente que o momento terrivel depende de um unico traço de separação—agora, já, d'aqui a bocado...
Estás por traz de mim e o minuto grotesco será quando eu deixar de te conhecer e quando sentir a tua mão gelada... Estás por traz de mim! estás por traz de mim! Bem sei que estás por traz de mim, e que vaes ser a minha companhia até á cova. Confesso-te: o que me aterra não é o momento que passou, nem o que ha-de vir—é o momento, que vale um seculo, em que tenho de galgar o abysmo. Por ora teimo, por ora ainda digo:—A sciencia, meu rapaz, sabes o que é? É um cifrão cortado.—Mas como o digo!...
...Ha um momento tetrico nos Espectros em que um novo personagem se introduz em scena. Desde o principio que o sabemos atraz da frandulagem de papelão: está alli presente, não como uma figura de theatro, mas monstruoso, real e patente, como o Destino, á espera de intervir. Desde então perco o fio da peça, não sigo mais os bonecos que se agitam no tablado, só ouço o meu proprio monologo, e quedo-me d'olhos atonitos n'outro espectaculo atroz. Tenho a certeza absoluta de que não ha forças humanas que lhe detenham a marcha. Começa então a tragedia...
É este mesmo personagem que se intromete na vida do poeta. As palavras conteem ainda e sempre as mesmas letras, mas até as palavras mirraram. Esqueci tudo, troquei tudo pelo sonho, e, quando tu quizeres, de mim proprio ficarei desconhecido! Como eu comprehendo agora aquella phrase de outro poeta: «Sinto que não posso trabalhar! sinto que não posso trabalhar!» É com esta angustia que te ouço os passos mais perto. Já não é só a scena que tu enches, é a sala toda, figura invisivel, unico personagem do drama, que te entranhas na alma dos espectadores. Emquanto os bonecos teimam em pronunciar palavras que não ouço, que não teem significação nem importam, tu levas-me, quer eu queira, quer não queira, a sorrir com enlevo á propria banalidade.
*
A casa em que mora Gomes Leal, na esquina do palacio da Bemposta, parece arrancada a um velho quadro de Velasquez, com a sua entrada de pedra e um arco na escada. O soalho entreaberto oscila, as janellas não teem vidros. Conheço-a. Já lá morei ha annos no mesmo quarto que dá para um quintalorio, com duas ou trez oliveiras carcomidas. Do buraco, onde nunca chega o sol, sae um frio de morte. Bato, a porta abre-se, o soalho range, e o poeta surge com o velho chapeu ás trez pancadas, luvas pretas—até de luvas escreve Gomes Leal!—e no quarto desagasalhado ha luvas por toda a parte, por cima das mezas, entre os livros, penduradas no tecto. O leito é um catre. Ao lado um Christo, uma mezinha de pé de gallo, e no soalho apodrecido, montões de jornaes e de livros. Na parede, que ressuma humidade, um quadro a crayon, com o vidro partido: o retrato da mãe de Gomes Leal.
—Vivo só, não tenho familia. Minha mãe morreu-me e aqui estou como um orphão.
—Vive isolado sempre?
—Levanto-me cedo, vou aos templos. Depois passo pelas bibliothecas e pelos livreiros e venho para casa escrever. Almoço e janto onde calha. Quando tenho bebo para esquecer, á noite escrevo, deito-me cedo e durmo... Tenho trez livros para publicar: As memorias d'um revoltado, continuação da historia da minha vida, O macaco de Nero, estudo de Roma, e o livro em prosa Cidade do Diabo, onde trato da decadencia do mundo moderno. Comecei tambem Christo nos infernos, poema em verso. Conservo as minhas ideias religiosas, que não são incompativeis com a republica, e ficarei contente por ver realisado o sonho de toda a minha vida, que acalentei como um poeta, e que desejo que se não dissolva como uma bola de sabão na cabeça d'um prego...
E queda-se n'um silencio amargo. A chuva cae lá fóra. A noite e um frio, uma humidade de poço, trespassam-me...
No seu genio houve sempre sincopes, falhas, absurdos. Se tropeçou, ergueu-se sempre mais alto. Aos trinta annos reage-se. Mas chega um momento da vida em que a gente se sente transida pelo ar do sepulchro e uma sombra desmedida avoluma-se e sufoca-nos. Foi d'esse negrume, que se chama a Morte, que elle ouviu sahir uma voz cheia de ternura—a ternura que toda a vida o envolveu—e que começou a falar-lhe baixinho. N'esse momento Gomes Leal deixou de viver no mundo da realidade para cohabitar com um phantasma...
Setembro—1907.
Antonio Corrêa d'Oliveira, ossos, nervos e a pelle necessaria para os cobrir—com um chapeu alto e lustroso em cima—grande poeta, com raizes profundas na natureza, tem na Beira uma tia que passa a vida em dialogos estranhos com as arvores e as pedras. E mal chega á noite eil-a começa a cumprir o seu fadario: leva até á madrugada a dar de beber indistinctamente ás plantas do seu quintal e ás dos quintaes vizinhos, n'uma aflicção, n'uma piedade que se estende até ás hervas ignoradas e ruins. Monologando sempre, vae e vem,—que não fique alguma com sede—com o regador nas mãos, até que a manhã a encontra exhausta, feliz, encharcada até aos ossos e ainda embebida n'aquelle sonho phrenetico de ternura... Toda a emoção do poeta está aqui, do grande poeta que diz:—Sinto em mim uma força da natureza... hei-de aproveital-a.—Os avós deram cabo da casa. O pae ninguem o arrancava ás suas arvores, e um tio, personagem de Camillo, morreu cosido de facadas. A mocidade do poeta foi tambem dolorosa. Chamavam-lhe magico. Para não pezar á mãe escreveu á raza n'um tabelião e foi proposto de recebedor em Cezimbra, elle que nunca soube sommar. Iam as mulheres dos pescadores pedir-lhe perdão das decimas; e nunca na memoria de homem se viu recebedor em semelhantes apuros, perplexo diante dos papeis, dos pobres, da desgraça, das contas e da sua propria alma! Um dia gostou d'uma mulher e escreveu os primeiros versos, Ladainhas,—Eu não sabia o que eram versos, nem medir versos. Sahiu-me aquillo... Troçaram-me tanto que estive para endoidecer. Sabe o que me valeu? Um artiguinho do Trindade Coelho no Reporter. Essas palavras salvaram-me!
Janeiro—1911.
Passei a noute de hontem em casa do Fernandes Thomaz, um velho bibliophilo, coleccionador de autographos, de livros raros, de gravuras antigas. Bom como o pão arruinou-se em papeis velhos... Eis emfim um homem feliz, suponho eu, entre as estantes que revestem os muros, como a traça entre as folhas d'um pergaminho. Ingenuo, surdo, com sessenta e tres annos e coleccionador apaixonado de papeis velhos ainda por cima—que sorte!...—De repente pega-me nas mãos e desata a chorar:
—Tenho sido um martir!
Á roda muitos documentos, muitos alfarrabios, muitos calhamaços preciosos. São duas, tres salas catalogadas, onde tem livros e papeis por toda a parte. A sua vida devia correr esquecida e placida, sem sobresaltos nem duvidas, folheando, rabiscando, anotando, sonhando sempre em coisas faceis.
—Não imagina o que tenho sofrido! Sempre gostei muito de creanças... Trouxe para casa uma sobrinha, morreu-me de raiva nos braços. Minha mãe um dia teimou:—Has-de casar.—Fiz-lhe a vontade. Casei. Minha mulher, ao fim de dois annos, abalou levando-me quasi tudo o que eu tinha. Demandas, processos—fiquei pobre. Agora meu filho quer ir por força para a Africa.
E põe-se a chorar como uma creança, com a cabeça branca pousada sobre os livros, os papeis, as gravuras...—deante d'aquella documentação cerrada e inutil, que tem sido a razão da sua vida.
1 de Fevereiro.
Venho de casa do Fernandes Thomaz. Teve um ataque apopletico. Está hemiplegico, deitado n'um sofá, somnolento e tremulo. Nunca encontrei bibliophilo que tivesse prazer em indicar, em ensinar, senão este... É outro homem adoravel que morre, mas felizmente não sabe que morre. Á beira do tumulo ainda me pede que lhe arranje um catalogo da guerra peninsular. E diz-me de Theophilo: (estes homens dos papeis velhos nunca se puderam vêr...):
—Pode crer que nunca passou necessidades como elle diz. Conheço-o de Coimbra, morava em casa do conde de Valença. Todos os mezes o pae lhe mandava pelo correio duas libras em oiro n'uma caixinha de madeira. Ora n'esse tempo valiam tanto como hoje quatro...
PÓ DA ESTRADA
Março—1902.
Este homem immenso e louro, o Alpoim, não tem um minuto de seu: não descansa, não pode. Escreve cincoenta cartas por dia, faz a chronica do Janeiro, corre ao parlamento, intriga nos corredores, enche uma pagina do jornal, recebe toda a gente, encanta e domina toda a gente n'um riso aberto:—Meu querido amigo...—e, mal se fecha por dentro, arranca os ultimos pêlos do bigode e cae exhausto, exclamando n'um pranto:—Ai que filhos da p...! ai que filhos da p...! Eu não posso! eu morro!—Nem para ser rei de Portugal valia a pena semelhante esforço.
No fundo é um politico com este fito: o poder. Mas alguma coisa o distingue dos outros que conheço, do espesso Ferreira d'Almeida, por exemplo, que exclama diante de mim sem pudor:—Hei-de ser ministro porque quero mandar! gosto de mandar!—É um fidalgo com talento, e tanto serve um amigo como um desgraçado de quem nada tem a esperar. O esforço é identico.—Vou ao inferno por um amigo...—Ha ainda quem se lembre dum Alpoim de chapeu desabado e capa á espanhola, mas o amor fel-o janota...
Na sua vida, como em todas estas existencias de aparencia e lucta, ha um trabalho de sapa, que quasi totalmente desconheço. Sabe tudo, pode tudo com os seus e com os outros. O Hintze tem por elle um fraco, o José Luciano entrega-lhe nas mãos a meada politica:—Nada se faz sem mim. Sei tudo!—diz muitas vezes com o olho esperto a luzir. O Teixeira de Souza é o seu amigo mais intimo. Uns temem-no, respeitam-no os outros. Este que lhe sorri atraiçoa-o—e elle fala-lhe amavelmente:—Não me podem vêr porque lhes faço sombra. Eu sei... Mas ninguem exija dos homens mais do que elles podem dar.—Conspira. Tem nas mãos os mil fios da emaranhada teia politica. Vae mais alto ou mais fundo?... Não sei, mas é talvez a isso que elle se refere quando afirma:—Ninguem sabe a que portas vou bater!
Hoje conta o movimento de protesto quando dos comicios contra o governo regenerador. Reuniam-se já ha tempos alguns pés de boi em casa de José Luciano, que um dia sae-se com esta:
—Bem, meus senhores, precisamos de acabar com isto senão cahimos no ridiculo. A tomar chá não fazemos nada. Que é que os senhores resolvem?
—A revolução! queremos a revolução!—concluiram todos.
—Eu disponho de seis mil homens.
—Vamos para a rua!
—Estamos dispostos a tudo, mas temos um pedido a fazer a V. Ex.a: é que se responsabilize a que a guarda municipal não atire sobre nós...
O José Luciano, a puxar pelo bigode, sem sahir da sua pachorra ironica:
—Oh senhores, mas se eu dispozesse da municipal não precisava dos meus amigos para nada!
—O José Luciano o que tem tido toda a vida é sorte,—observa alguem do lado.
—Garanto-lhes pela saude dos meus filhos, atalha logo o Alpoim—que é um homem inteligentissimo. E senão vejam como elle conseguiu arredar e vencer todos os do seu tempo. Ninguem luctou mais do que eu para a eleição do Mariano a chefe do partido progressista, ninguem!... E que succedeu?... O José Luciano tinha em segredo conseguido pôr o paço de seu lado. Na vespera da eleição o Mariano disse-me:—Está tudo perdido, votem no José Luciano...—Se não o elegessemos, o rei nunca mais chamava o partido progressista.
Sob aquelle aspecto de inalteravel bonhomia, é um homem d'uma alta inteligencia pratica. Muitos ao seu lado caminharam para o mesmo destino, e elle, não sendo nem um grande jornalista nem um grande orador, sem brilho mas solido—e com caracter! com tenacidade e caracter!—pouco a pouco ficou sosinho em campo: arredou-os todos.
Fui do seu meio e do seu tempo. O Fuschini chamava-lhe com desdem:—Essa vil alforreca...—Diz-se que no salão dos Navegantes se dava tudo o que se podia dar—e que não lhe pertencia: logares, negocios e empregos. Talvez. Mas se não teve a grandeza de resistir aos homens, conteve os interesses fataes dentro de certos limites. Não podendo ser nem um santo nem um genio, manteve essa linha de superioridade, chegando, mais tarde, a ser uma figura. Sentado na cadeira de rodas, o velho obstinado, n'uma sociedade a liquifazer-se, resistiu até á ultima, e adquiriu relevo e grandeza como se os alicerces fossem de pedra. Foi dono do paiz, dictou a lei, e, arredado e sempre lucido, leu no futuro pronunciando algumas phrases que a historia terá de registar...
Junho—1902.
Contava o marquez de Ficalho, pae deste Ficalho, e que era vivo ainda ha quinze annos, o seguinte caso, que mostra bem o medo que D. João VI tinha a Carlota Joaquina. Um dia o D. João VI, ia de sege para Cintra, Queluz, ou não sei para onde. Ao lado galopava o Ficalho, com dezasseis annos, cavalariço do rei. De repente, ao longe, avista-se na estrada uma nuvem de pó, e o rei, deitando a cabeça de fóra da sege, brada:
—Parem! para traz que ahi vem a p...!
A p...—era a mulher. As palavras são textuaes.
Março—1903.
Diz o Abel d'Andrade:
Dos oito mil contos de deficit, quatro mil é a casa real que os gasta. Que ministerio tem força para se impôr ao rei? Ambos os chefes estão com medo ao João Franco...
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Arroyo queria atacar o rei nas camaras. Houve mosquitos por cordas para o dissuadirem...
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Sabem quanto faz o Arroyo por anno? Dez contos.
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O rei foi aqui ha tempos para Setubal, e, depois de jantar, bateu o fado com um malandrão. O Duval Telles, no outro dia, ao jantar, aludiu ao de leve ao caso, achando-o improprio. Á noite encontrou na mezinha de cabeceira uma carta do rei com estas palavras: Dispenso-te do meu serviço. Seis meses não fez serviço; agora, antes da rainha partir, pediu-lhe apoquentadissimo a sua intervenção. Outra carta do rei com estas palavras: Entra outra vez de serviço, mas nunca mais me dês conselhos sem t'os pedir.
Março—1903.
Alpoim:
—Antes de seis meses temos ahi graves acontecimentos...
—?
—Um governo fóra dos partidos, uma dictadura feroz.
E a proposito dos acontecimentos de Coimbra:
—Em Coimbra existem sociedades secretas. O governo sabe. Quando foi da espera do Carrilho, tinham tudo combinado. Dois grupos fariam descarrilar o comboio, apoderando-se dos papeis que o Carrilho trazia e matando-o. Entravam lentes e estudantes...