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Minha formação

Chapter 13: X LONDRES
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About This Book

O autor reúne memórias e ensaios que traçam a sua formação intelectual e moral desde a escola até a vida pública, enfatizando a influência familiar, os anos de estudo e a evolução das convicções políticas. Intercalam-se relatos de experiências pessoais, reflexões sobre a ação pública e observações de outros contextos nacionais, além de considerações estéticas sobre memória, impressão e a fruição da experiência. O tom combina rememoração íntima com análise crítica das circunstâncias que moldaram posturas cívicas, incluindo dúvidas, revisões e a decisão de afastar-se de certas lutas políticas.

X
LONDRES

Talvez eu pudesse resumir o processo da minha solidificação politica, dizendo sómente que a monarchia faz parte da atmosphera moral da Inglaterra e que a influencia ingleza foi a mais forte e mais duradoura que recebi.

Quando pela primeira vez desembarquei em Folkestone, entrando na Inglaterra, eu tinha passado mezes em Pariz, tinha atravessado a Italia, de Genova a Napoles, tinha parado longamente á margem do lago de Genebra, e não me podia esquecer da suave perspectiva, á beira do Tejo, de Oeiras a Belém, cuja tonalidade doce e risonha nunca outro horizonte me repetiu. Por toda a parte eu tinha passado como viajante, demorando-me ás vezes o tempo preciso para receber a impressão dos logares e dos monumentos, o molde intimo da paizagem e das obras de arte, mas desprendido de tudo, na inconstancia continua da imaginação. Quando avistei, porém, da janella do wagon, por uma tarde de verão, o tapete de relva que cobre o chão limpo e as collinas macias de Kent, e no dia seguinte, partindo do pequeno appartment que me tinham guardado perto de Grosvenor Gardens, fui descortinando uma a uma as fileiras de palacios do West End, atravessando os grandes parques, encontrando em St. James’s Street, Pall Mall, Piccadilly, a maré cheia da season, essa multidão aristocratica que a pé, a cavallo, em carruagem descoberta, se dirige duas vezes por dia para o rendez-vous de Hyde Park, e, dias seguidos, penetrei em outras regiões da cidade sem fim, conhecendo a população, a physionomia ingleza toda, raça, caracter, costumes, maneiras,—posso dizer que senti minha imaginação excedida e vencida. A curiosidade de peregrinar estava satisfeita, trocada em desejo de parar alli para sempre.

Ás vezes me distraio a pensar que povo eu salvaria, podendo, si a humanidade se devesse reduzir a um só. Minha hesitação seria entre a França e a Inglaterra,—aliás, sei bem que no começo do seculo quem eliminasse a Allemanha do movimento das idéas, da poesia, da arte, eliminaria o que elle teve de melhor. Entre a França e a Inglaterra, porém, fico sempre incerto. O meu dever seria, talvez, soccorrer a França. «Si Mme. Récamier e eu estivessemos a nos afogar, qual de nós duas o senhor salvaria?» perguntou uma vez Madame de Staël ao seu amigo Talleyrand. «Oh! madame, vous savez nager.» A Inglaterra, tambem, sabe nadar.

O genio francez tem todos os raios do espirito humano, principalmente os raios estheticos; o genio inglez não os tem todos, tem até uma opacidade singular nos fócos do espirito, que merecem o nome de francezes, em quasi todos os que merecem o nome de athenienses. A Inglaterra—a associação de idéas tem sido muitas vezes feita,—é a China da Europa; isto é, tem uma individualidade inamolgavel, incapaz de tomar a physionomia commum. Latinos, Allemães, Slavos formarão uma só familia, por muitissimos traços communs, antes que o Inglez deixe de ser um typo sui generis, á parte do typo collectivo europeu. Por esse motivo, a França, só, representaria melhor a humanidade do que a Inglaterra; ha n’ella mais attributos universaes, maior numero de faculdades creadoras, de qualidades de tronco, maior somma de hereditariedade humana, de possibilidades evolutivas portanto, do que no particularismo e no exclusivismo inglez. Em compensação, a raça ingleza parece ser mais sã, mais elastica; ter maior vigor mesmo de genio e de creação; maior provisão de vida e de força,—ainda que a força sem a imaginação e a cultura, (que na Inglaterra tem sido, em grande parte pelo menos, estrangeira), possa degenerar em brutalidade e egoismo. Estão ahi as razões da minha hesitação, quando imagino um novo diluvio universal e me pergunto que paiz, nos mais altos interesses da intelligencia humana, mereceria o privilegio de construir a arca.

Qualquer que seja a explicação, o facto é que nunca experimentei esse prazer de viver em Pariz, que foi e é a paixão cosmopolita dominante em redor de nós. A grande impressão que recebi não foi Pariz, foi Londres. Londres foi para mim o que teria sido Roma, si eu vivesse entre o seculo II e o seculo IV, e um dia, transportado da minha aldeia transalpina ou do fundo da Africa Romana para o alto do Palatino, visse desenrolar-se aos meus pés o mar de ouro e bronze dos telhados das basilicas, circos, theatros, thermas e palacios: isto é, para mim, provinciano do seculo XIX, foi, como Roma para os provincianos do tempo de Adriano ou de Severo: a Cidade. Essa impressão universal, da cidade que campeia acima de todas, senhora do mundo pelo milliarium aureum, o qual no seculo XIX tinha que ser maritimo; essa impressão soberana, tive-a tão distincta como si a humanidade estivesse ainda toda centralisada. O effeito dessa impressão de dominio foi uma sensação de finalidade, que sómente Londres me deu:—não de finalidade intellectual, como dá a Athenas de Pericles, a Florença dos Medicis, a Roma de Leão X, ao homem de arte, a Versalhes do seculo XVII ao homem de côrte, a Roma das Catacumbas ao homem de fé, a Roma antiga ao homem do passado, Niebuhr, Chateaubriand, Ampère, a pequena Weimar do fim do seculo XVIII ao homem de letras, ou Pariz, ainda neste seculo, até Renan e Taine, ao homem de cultura; finalidade material, si me posso expressar assim, de grandeza esmagadora e imperio illimitado.

Donde procede essa impressão universal de Londres, seguida dessa sensação de finalidade, que talvez seja toda subjectiva? (Não me parece entretanto.)

O que dá á «Metropole» esse ascendente imperial, quero crer, é a sua massa gigantesca, as suas perspectivas infindas, a solidez eterna, egypciaca, das construcções, as immensas praças, e os parques que se abrem de repente na emboccadura das ruas, como planicies onde poderiam errar grandes rebanhos, á sombra de velhas arvores, á beira de lagos que merecem pertencer ao relevo natural da Terra. Este ultimo é, para mim, o traço dominante de Londres: o estrangeiro supporia ter entrado no campo, nos suburbios, quando está no coração da cidade; é a mesma impressão, porém, incalculavelmente mais vasta, que dava a Casa de Ouro: «O ouro e as pedras preciosas não causavam tanta maravilha, por serem já muito vulgares, e uma ostentação ordinaria do luxo, como os campos e os lagos, e por uma parte as artificiaes solidões e desertos, formados por bosques espessos, e por outra, as largas planicies e longas perspectivas, que dentro do seu immenso circulo se viam[2]

[2] Tacito, Trad. Freire de Carvalho.

Nem pára ahi o assombro. E a larga faixa do Tamisa, com as pontes colossaes que o atravessam e os monumentos assentados á sua margem desde Chelsea até á Ponte de Londres, principalmente o massiço dos edificios de Westminster, a extensa linha das Casas do Parlamento, a mais grandiosa sombra que construcção civil projecta sobre a terra. É, por outro lado, a City, em roda do Banco de Inglaterra, com o Royal Exchange ao lado, e Lombard Street defronte, o mercado monetario, o verdadeiro comptoir do mundo. Aqui, nas ruas calçadas a madeira, para ainda mais amortecer o ruido, causa uma impressão singular a multidão que não perde um minuto, indifferente a si mesma, á qual nada distrahiria o olhar nem arrancaria uma syllaba, e que transporta debaixo do braço, em suas carteiras, massas de capital que seriam precisos wagons para carregar em dinheiro, os cheques que vão para a Clearing-House, os billiões esterlinos, que por ella passam, transferidos de banco a banco, importados, reexportados, pelo telegrapho para os confins do mundo donde vieram. O transeunte pára no meio de todo esse fluxo e refluxo do ouro, sentindo não ouvir o tinido das libras; as oscillações continuas, subterraneas, dessas correntes contrarias de metal elle só as conhecerá pelo seu effeito sensivel: a taxa do desconto.

O que dá tambem a Londres o seu tom de majestade e soberania é a dignidade, o silencio que a envolve; a calma, a tranquilidade, o repouso, a confiança que ella respira; é o ar concentrado, recolhido, severo por vezes, da sua physionomia, e, ao mesmo tempo, a urbanidade das suas maneiras; é o retiro em que se vive no seio della, no centro das suas ruas mais populosas; o isolamento em que se está nas suas cathedraes, como no British Museum, nos seus parques, como nos seus theatros ou nos seus clubs. Esse traço de seriedade e de reserva define, a meu vêr, uma raça imperial, energica e responsavel, conscia da sua força, viril e magnanima. Além disso, ha uma feição notavel, caracteristica, expressão suprema de força e de dominio; não é uma cidade cosmopolita essa metropole do mundo: é uma cidade ingleza.

Pariz ao lado de Londres é uma obra d’arte, immortalmente bella, ao lado de uma muralha pelasgica; é um Erechteion, em frente ao Memnonium de Thebas. De certo não ha no mundo uma perspectiva architectural egual á que se extende do Arco do Triumpho pelos Campos Elyseos até o Louvre e do Louvre pelo cáes do Sena até apanhar Notre-Dame. Em Londres não se tem essa impressão de arte que corre por cima da velha Pariz toda como um friso grego. Para o artista que precisa inspirar-se exteriormente nas fórmas da edificação, viver no meio do bello realisado pelo genio humano, Londres está para Pariz como Khorsabad para Athenas. O genio francez alegre e festivo é em tudo differente da grande apathia ingleza, e em Pariz se está defronte da obra prima da arte franceza. Por ahi não ha que comparar. Para o intellectual que precise diariamente de um passeio artistico para vitalisar-se, assim como para o homem de espirito e de salão, Pariz é a primeira das residencias, porque é a que reune á arte o prazer de viver em suas fórmas mais delicadas e elegantes. Não ha nada em Londres que corresponda á aspiração franceza, hoje decadente e muito esvaecida, de fazer da vida toda uma arte, aspiração cuja obra prima foi a polidez do seculo XVII e o espirito do seculo XVIII. Deixando a grande arte que tem commettido infidelidades ao genio francez, como a de produzir fóra de França Goethe, Beethoven e Mozart, as pequenas artes,—e não chamo pequena arte á obra dos grandes ebanistas, incrustadores, cinzeladores do movel, de Riesener, Boulle, Beneman, Gouthière,—as pequenas artes são ainda exclusivamente francezas, como na Roma de Cicero eram gregas. O que ha em Londres como prazer da vida, não é a arte, é o conforto; não é a regra, a medida, o tom das maneiras, é a liberdade, a individualidade; não é a decoração, é o espaço, a solidez. Pariz é um theatro em que todos, de todas as profissões, de todas as edades, de todos os paizes, vivem representando para a multidão de curiosos que os cercam; Londres é um convento, em fórma de Club, em que os que se encontram no silencio da grande bibliotheca ou das salas de jantar não dão fé uns dos outros, e cada um se sente indifferente a todos. Em Pariz a vida é uma limitação; em Londres uma expansão; em Pariz um captiveiro, captiveiro da arte, do espirito, da etiqueta, da sociedade, captiveiro agradavel como seja, mas sempre um captiveiro, exigindo uma vigilancia constante do actor sobre si mesmo deante do publico, que repara em tudo, que nota tudo; em Londres é a independencia, a naturalidade, a despreoccupação. Ceci tuera cela.

Foi, talvez, este lado da vida ingleza o que me seduziu. A impressão artistica é, por sua natureza, fatigante, exclusiva, e, além de certo diapasão, inconfortavel, como toda vibração demasiado forte. Eu não quizera ser condemnado a passar uma hora por dia deante da Joconde, nem mesmo deante da Venus de Milo. Para renovar a minha curta faculdade de admirar e de gozar da obra d’arte, preciso de longos intervallos de repouso, para dizer a verdade, de obtusão. Londres era essa penumbra que quadra admiravelmente á minha fraca pupilla esthetica; alli tinha á minha disposição, excusez du peu, os marmores de Phidias; não havia epocha artistica ou litteraria que, querendo viver nella meia hora,—de mais não me sentiria capaz,—eu não achasse representada no British Museum, na National Gallery, em South Kensington, e nas outras grandes collecções nacionaes. Essa proximidade bastava-me; quanto a tudo mais que faz o prazer da vida, eu preferia, como disse, a naturalidade, a calma, o descanço, as grandes perspectivas, o isolamento, o esquecimento de Londres á constante vibração de Pariz, vibração cosmopolita de espirito, de prazer, de arte, através de uma atmosphera de luxo, de combate e de theatro.

Eu sei bem que ha alli outra vida; que ha indifferentes, solitarios, reclusos na grande capital, pequenos claustros de silencio e de meditação, onde não chegam até ao pensador e ao artista os ruidos de fóra. Sem isso, Pariz não produziria o grande pensamento; mas a viver isolado do movimento de Pariz, antes estar separado delle pela Mancha do que pelo Sena, como o meu amigo Rio Branco, que se fechava na Margem Esquerda, com a sua bibliotheca brasileira, as suas provas a corrigir, e os seus intimos do Instituto.

O facto é que amei Londres acima de todas as outras cidades e logares que percorri. Tudo em Londres me feria uma nota intima de longa resonancia: as suas extensas campinas e os seus bosques, como o tijolo ennegrecido das suas construcções; o movimento atordoador de Regent Circus ou Ludgate Hill, como os recessos de Kensington Park, á sombra do arvoredo secular; os seus dias quentes de verão, quando o asphalto amollece debaixo dos pés, a folhagem se cobre de poeira, e o ar tem o calor secco das thermas, como os seus deliciosos dias de maio e junho, quando as mais altas janellas se transformam em jardins suspensos, e as grandes cestas dos parques se enchem de tulipas e jacinthos; as suas noites de luar, que faziam Park Lane parecer-me ás vezes na nevoa, com a sua rua de palacios, um trecho de Veneza, e que de Piccadilly, olhando por cima da bruma de Green-Park para a illuminação em roda de Buckingham Palace, me davam sempre a illusão do outro lado da bahia do Rio, visto da esplanada da Gloria, como os seus dias escuros e tristes de nevoeiro, que eu não teria então trocado pelo azul do Mediterraneo nem pela pureza do céo da Attica; os seus traços de maior cidade do mundo, a esplendida belleza da sua raça, e os menores detalhes de sua physionomia propria; os mostradores das lojas de luxo de Piccadilly e New-Bond-Street, como os hansoms que paravam em frente; o Times, a Pall Mall Gazette, o Spectator, como o papel avelludado, o typo, grande e claro, o couro liso, macio, dourado dos livros; a tranquillidade dos clubs, o recolhimento das egrejas, o silencio dos domingos, como a confusão, o movimento, o atropelo em Charing-Cross e Victoria Station, da onda immensa de todas as classes e de todas as edades, que se espalha de Londres, á tarde dos sabbados, para as praias de mar, para as casas de campo, para as margens do Tamisa.

Tudo isso, eu vejo bem, não era sinão a minha propria mocidade... com a differença talvez de que os outros logares, era ella que os coloria, os animava, os assimilava a si, ao passo que em Londres ella transbordava naturalmente pelo jorrar de todas as suas fontes.

Esse sentimento paguei-o caro depois, porque foi em Londres que senti definhar mortalmente a planta humana que ha em cada um de nós e sobre a qual o nosso espirito apenas pousa, como o passaro no mais alto da ramagem: as suas raizes physicas e moraes precisavam do solo em que ella se tinha formado; as suas folhas, do nosso sol. Ainda assim, foi a Londres que vim a dever, annos mais tarde, uma restituição que bem compensou aquelle deperecimento. Foi em Londres, graças a uma concentração forçada, a qual não teria sido possivel para mim sinão em sua bruma, que a minha intelligencia primeiro se fixou sobre o enigma do destino humano e das soluções até hoje achadas para elle, e, insensivelmente, na escondida egreja dos Jesuitas, em Farm Street, onde os vibrantes açoites do padre Gallway me fizeram sentir que a minha anesthesia religiosa não era completa, depois no Oratorio de Brompton, respirando aquella pura e ciaphana atmosphera espiritual impregnada do halito de Faber e de Newman, pude reunir no meu coração os fragmentos quebrados da cruz e com ella recompôr os sentimentos esquecidos da infancia.