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Chapter 16: XIII O ESPIRITO INGLEZ
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About This Book

O autor reúne memórias e ensaios que traçam a sua formação intelectual e moral desde a escola até a vida pública, enfatizando a influência familiar, os anos de estudo e a evolução das convicções políticas. Intercalam-se relatos de experiências pessoais, reflexões sobre a ação pública e observações de outros contextos nacionais, além de considerações estéticas sobre memória, impressão e a fruição da experiência. O tom combina rememoração íntima com análise crítica das circunstâncias que moldaram posturas cívicas, incluindo dúvidas, revisões e a decisão de afastar-se de certas lutas políticas.

XIII
O ESPIRITO INGLEZ

Sem elle a convicção da superioridade do typo politico da Inglaterra não teria bastado. Quanto á sensação aristocratica da vida, de que tambem fallei, essa, no combate dos partidos, não teria resistido ao primeiro choque. O que entendo por espirito inglez neste caso é a norma tacita de conducta a que a Inglaterra toda parece obedecer, o centro de inspiração moral que governa todos os seus movimentos. Vi quasi nada da Inglaterra, sinto dizel-o, mas vi pedaços que me impedem quasi de querer vêr o resto, excepto Oxford, cujo logar tenho vago em minha galeria interior, á espera do seu pequeno quadro. Vi, por exemplo, Cantuaria, e tenho no pensamento a calma, o silencio, a grandeza daquella imponente massa recolhida em si mesma. Vi, na semana de Cowes, Southampton e a ilha de Wight, pequena sombra da Inglaterra no mar, sombra colorida, movente e alegre. Fui em carruagem,—poderá haver um dia mais completo de romance?—de Stratford-on-Avon, atravessando Warwick, a Kenilworth. Passei dias á margem do Tamisa, entre Windsor e Henley, e creio que tive reminiscencias do paraiso terrestre. É realmente a vinheta mais perfeita que se podia imprimir á margem do capitulo II, v. 10 do Genesis: «Deste logar de delicias sahia um rio que regava o paraiso.» Em toda parte a impressão que tive da Inglaterra foi a mesma: ruinas cobertas de hera, antigas gravuras expostas em Pall Mall, montes de trigo nos campos ceifados, castellos recortados no meio de parques florestaes, velhas estalagens á beira da estrada, botes encostados ao arvoredo de Cliveden, grandes transatlanticos nas docas de Southampton, sempre a mesma impressão, o cunho inglez estampado em tudo. A sensação foi a mesma para mim da Inglaterra, vista de dentro, na segurança de seus recursos, e vista de fóra, inatacavel nos seus altos cliffs brancos, a cujos pés o mar se abre como uma trincheira.

É, porém, na sua feição politica sómente que considero neste momento o espirito inglez, e, ainda mais restrictamente, o modo por que elle se manifesta nos movimentos reformistas, a influencia que tem sobre os espiritos innovadores. Politicamente, o espirito inglez póde decompôr-se em espirito de tradição, em espirito de realidade, em espirito de ganho, em espirito de força e generosidade, em espirito de progresso e melhoramento, em espirito de ideal: supremacia anglo-saxonia e supremacia christã no mundo.

A veneração imprime na Inglaterra aos precedentes uma auctoridade quasi sagrada, e tira a tudo que tem caracter historico ou funcção nacional, a feição individual em que se fixa a vista de outros povos. A rainha Victoria é mais do que a augusta, cuja imagem cada familia venera no seu lararium interior; é a realeza Normanda, Plantagenet, Tudor. Como a Rainha, a Constituição. Esta não é mais do que uma procuração em causa propria, dada pela nação ingleza á Camara dos Communs, e mesmo, assim, um mandato de que nunca se viu o instrumento. Nenhum grande legista a redigiu, nenhum homem de Estado a ideou: formou-se espontaneamente, inconscientemente, como a lingua ingleza, a architectura perpendicular, os contos da nursery. A tradição, como base do temperamento nacional, produz no Inglez a faculdade de admirar a massa historica de uma instituição, como o architecto admira a grandeza e o detalhe de uma cathedral gothica. Para o Inglez, si a liberdade é o grande attributo do homem, si elle a sente como o desenvolvimento da personalidade, a ordem é a verdadeira architectura social. Elle comprehende e penetra a grandeza do systema que se perpetúa mais do que a das revoluções, ao contrario do latino, que póde viver e ser feliz em um solo politico oscillante, sujeito a terremotos continuos. D’ahi, para elle o amor da lei e a sympathia, interesse, carinho mesmo, pela auctoridade encarregada de executal-a; d’ahi, tambem, o prestigio do juiz, a popularidade das sentenças que aterrorisam o criminoso, ao contrario das facilidades que este encontra nos paizes onde decáe o instincto de conservação.

Si n’uma organização assim formada existe, ao lado dessa quasi superstição do costume, o espirito de aperfeiçoamento e de progresso, o que resulta é que as reformas, as modificações serão governadas por algumas regras elementares. Uma destas será conservar do existente tudo o que não seja obstaculo invencivel ao melhoramento indispensavel; outra, que o melhoramento justifique,—e para justificar não basta só compensar,—o sacrificio da tradição, ou mesmo do preconceito que o embarga; outra regra é respeitar o inutil que tenha o cunho de uma epocha, só demolir o prejudicial; outra, substituir tanto quanto possivel provisoriamente, deixando ao tempo a incumbencia de experimentar o novo material ou a nova fórma, para consagral-o ou rejeital-o; uma ultima, esta rara e extrema, será reformar, no sentido originario da instituição, o mais antigo, procurando o traçado primitivo. Dessas regras resulta o dever de demolir com o mesmo amor e cuidado com que outras epochas edificaram. Nenhum explosivo é legitimo, porque a acção não póde ser de antemão conhecida; é preciso demolir a nivel e compasso, retirando pedra por pedra, como foram collocadas.

O que, porém, dirige o espirito de progresso é o espirito de realidade, espirito pratico, positivo, que se manifesta pela rejeição de tudo que é theorico, a priori, tentativo, logico, ou que pretenda á perfeição, á finalidade, á uniformidade, á symetria. A esse espirito corresponde, na ordem politica, a idéa de crescimento: as instituições têm o seu habitat como as plantas, as suas latitudes e terreno proprios, condições especiaes de acclimação, obstaculos e perigos de transplantação. Não basta que a reforma seja indicada pela experiencia, baseada em uma forte verosimilhança; é preciso que tenha affinidade com as outras instituições. Esse espirito pratico, positivo, é a experiencia do utilitarismo, do espirito de crear e accumular riqueza, caracteristico da raça. O utilitarismo manifesta-se em que as reformas devem ter uma vantagem economica, pelo menos indirecta, e justificar-se por algarismos. Ao lado, porém, da corrente utilitaria, ha a corrente imaginatíva ou de ideal, moral, nacional, religiosa.

A varonilidade impõe ao reformador não fazer victimas emissarias, responsabilisando individuos ou instituições pelos erros communs da sociedade, não lavar as mãos como Pilatos das injustiças da multidão, não preferir o fraco para sobre elle descarregar o golpe, em uma palavra, o fair-play. O patriotismo manda não consentir que o espirito de partido supplante o de responsabilidade para com o paiz. O que, entretanto, na Inglaterra alimenta, renova e purifica o patriotismo, é outra especie de responsabilidade: a do homem para com Deus. Só quando o orgulho britannico e a consciencia christã estremecem juntos e se unem em uma mesma causa, é que o sentimento inglez desenvolve a sua energia maxima. A inspiração da vida publica na Inglaterra vem em grande parte da Biblia. A politica e a religião sentem que terão sempre muito que fazer em commum, que uma e outra têm o mesmo objectivo pratico—elevar a condição moral do homem, e o effeito desse ultimo e, talvez principal elemento do espirito inglez, em relação ás reformas, é fazer o argumento moral prevalecer sobre o argumento utilitario.

Tomando-se o espirito inglez, como acabo de delinear, que é que elle inspirará na Inglaterra a republicanos de ideal, que se subordinem, entretanto, como individuos, á consciencia collectiva, ao instincto nacional? Ha uma pagina interessante em On Compromise, livro typico de casuistica intellectual ingleza, escripto por John Morley. Essa pagina é a melhor illustração do que eu disse antes sobre o republicanismo que póde existir por baixo do sentimento monarchico, até para dar-lhe vida e calor. Elle figura um Inglez convencido de que a monarchia, mesmo meramente decorativa, tende a engendrar habitos sociaes degradantes. O dever desse republicano será deixar a monarchia de lado e abster-se de todos os actos, em publico e em particular, que possam, mesmo remotamente, alimentar o espirito de servilismo. «Tal politica não interfere, diz-nos Mr. Morley, com as vantagens que se diz ter a monarchia, e tem o effeito de tornar as suas suppostas desvantagens tão pouco prejudiciaes quanto possivel...»

Desse espirito inglez eu disse que tive apenas um toque. Na questão da abolição, entretanto, não me desviei delle. A abolição era uma reforma que o espirito inglez anteporia a todas as outras por toda ordem de sentimento. Si a abolição se fez entre nós sem indemnisação, a responsabilidade não cabe aos abolicionistas, mas ao partido da resistencia. O meu projecto primitivo, em 1880, era a abolição para 1890 com indemnisação. Si em qualquer tempo um ministro da corôa chegasse ás Camaras e dissesse: «A escravidão não póde mais ser tolerada no Brasil, o nosso gráu de civilisação repelle-a, e eu venho pedir que decreteis a liberdade immediata dos escravos existentes, votando os precisos recursos para a respectiva desapropriação», poderia haver abolicionista que quizesse prolongar a escravidão? Nenhum da nós assumiria a odiosa responsabilidade. Esse homem, porém, não surgiu d’entre os estadistas do Imperio; todos pensavam, ou que a abolição arruinaria a lavoura e o credito do paiz, ou que o Brasil não era rico bastante para pagar a libertação moral do seu territorio. Podia haver abolicionistas contrarios á indemnisação; de facto, os houve; mas podiam elles, acaso, votar nunca contra uma lei de abolição immediata? A responsabilidade foi assim dos partidos, que se comprometteram perante a lavoura a resistir ao movimento, e que teriam, do seu ponto de vista, feito melhor sacando sobre o futuro e desapropriando os escravos, quando o principio da não-indemnisação ainda não tinha triumphado no projecto Dantas e na segunda lei de 28 de setembro. Essa intuição só a teve o meu querido amigo José Caetano de Andrade Pinto no Conselho de Estado; não lhe deram, porém, valor. Com relação á lei de 13 de maio devo dizer que em 1888 era tarde para se pleitear a equidade da desapropriação deante de um movimento triumphante, quando já a maior parte dos escravos tinham sido liberalmente alforriados pelos senhores e o resto da escravatura estava em fuga, depois, sobretudo, de estar por lei consagrado o principio de que a escravidão era uma propriedade anomala, a que o legislador marcava sem onus para o Estado o prazo de duração que queria.

Em relação á monarchia do Brazil aquelle toque do espirito inglez bastou para traçar-me uma linha de que eu não poderia afastar-me, mesmo querendo. Era um ponto de honra intellectual, um caso de consciencia patriotico definitivamente resolvido em meu espirito, aos vinte e tres annos. Supprimir a monarchia que tinhamos, ficou claro para mim desde então, era uma politica a que eu não poderia nunca associar-me; eu poderia tanto banir, deportar o Imperador, como atirar ao mar uma creança ou deitar fogo á Santa Casa. Quebrar o laço, talvez providencial, que ligava a historia do Brasil á monarchia, era-me moralmente tão impossivel, como me seria no caso de Calabar entregar Pernambuco por minhas proprias mãos ao estrangeiro. Faltar-me-iam forças para uma intervenção dessas no destino do meu paiz. Seria attrahir sobre mim um golpe de paralysia, ferir-me eu mesmo de morte moral. Minha coragem recuava deante da linha mysteriosa do Inconsciente Nacional. O Brasil tinha tomado a fórma monarchica, eu não a alteraria.

O que vi dos Estados-Unidos não fez sinão calcar mais profundamente a impressão monarchica que eu levava da Inglaterra. Foi uma segunda chave, de segurança, que fechou em meu pensamento a porta que nunca mais se devia abrir. O espirito politico americano, com certas modalidades que não quero amesquinhar, mas que me parecem secundarias, é uma variedade do espirito inglez, o qual merece antes ser chamado espirito anglo-saxonio, porque é um espirito commum de raça, de grande familia humana, superior a fórmas e accidentes de instituições.