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Chapter 18: XV O MEU DIARIO DE 1877
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About This Book

O autor reúne memórias e ensaios que traçam a sua formação intelectual e moral desde a escola até a vida pública, enfatizando a influência familiar, os anos de estudo e a evolução das convicções políticas. Intercalam-se relatos de experiências pessoais, reflexões sobre a ação pública e observações de outros contextos nacionais, além de considerações estéticas sobre memória, impressão e a fruição da experiência. O tom combina rememoração íntima com análise crítica das circunstâncias que moldaram posturas cívicas, incluindo dúvidas, revisões e a decisão de afastar-se de certas lutas políticas.

XV
O MEU DIARIO DE 1877

Darei ainda alguns trechos do meu diario dos Estados-Unidos; não são tanto impressões americanas que pretendo reproduzir, já antes o disse, como o meu modo de sentir naquella epocha:

«20 de junho. Hoje foram enforcados 11 criminosos de uma associação da Pensylvania, os Molly Maguires. Onze pessôas enforcadas em um dia no Brasil! Quantos discursos isso não daria na Camara dos Deputados? Aqui só faz vender maior numero de extras dos jornaes.»

«Junho, 8. Ha duas especies de movimento em politica: um, de que fazemos parte suppondo estar parados, como é movimento da terra que não sentimos; outro, o movimento que parte de nós mesmos. Na politica são poucos os que têm consciencia do primeiro, no emtanto esse é, talvez, o unico que não é uma pura agitação.»

«Julho, 8. A temperatura moral do futuro, a julgar pela americana, deve ser muito baixa. O sentimentalismo resfria aqui diariamente. A Inglaterra é um forno em comparação.»

«Junho, 26. A França parece-me a casa de Ulysses cheia de pretendentes a consumirem entre si a fortuna de Telemaco, á espera que Penelope se decida por um delles. Cada um está certo de ser o preferido e, emquanto ella pede a Minerva que acabe com os seus insupportaveis perseguidores, elles continuam a devorar os bois e os carneiros, repetindo: «Não ha duvida que ella se está preparando para o casamento.» Infelizmente não parece provavel que Ulysses volte para exterminal-os e tomar conta da casa.»

Essa nota é, quasi, puramente litteraria. Ulysses ahi era o conde de Chambord, e os pretendentes os partidos que arrastavam a França, depois da derrota nacional, talvez para a guerra civil. Eu pensava escrever um acto, intitulado Os Pretendentes, com a idéa do arco de Ulysses. Era, como o drama de que fallei, um caso da falta de coincidencia que se dava em mim, entre a imaginação litteraria e a sympathia politica.

Ha outras notas, com relação aos Pretendentes. Em 16 de julho:

«O conde de Chambord representa a theoria de que a politica é uma arte religiosa, e um reinado uma especie de monumento das crenças de uma epocha. A concepção de que governar é um acto religioso, como o confessar, e tem um fim religioso, destróe toda liberdade de pensamento. Um homem póde fazer da sua vida uma fórma de arte, mas não da vida de todo o mundo, que quer viver a seu modo. A politica, si é uma arte, não é arte ascetica, religiosa,—nem mesmo no seu periodo hieratico. A politica, arte religiosa, converte em crime de sacrilegio o menor acto de liberdade individual.»

Em 30 de julho: «Estive a pensar nos Pretendentes. O appel au peuple é feito pelo candidato respectivo ás rans, e a prova real é tirada por outro, que appella tambem para ellas. A tudo ellas respondem: couac

«Julho, 5. A posição do Presidente Hayes é a mais singular que já se viu neste paiz. Elle chegou ao poder por fraudes eleitoraes sem exemplo, empurrado até a Casa Branca pelos carpet-baggers do sul e wire-pullers do Senado, depois de uma campanha de que os empregados publicos fizeram os gastos: deve, assim, a sua eleição, ou, melhor, o seu posto, a um sem numero de politicians de todos os matizes, desde os fabricadores de actas falsas até os juizes da Côrte Suprema, que as apuraram. Chegando ao poder, porém, tem vergonha de tudo isso e torna-se elle o representante da pureza administrativa e eleitoral. Os ultimos carpet-baggers do Sul, com a amputação da membrana que os ligava ao Presidente eleito com elles e por elles, desapparecem para sempre da scena politica. Os politiquistas são enxotados, os senadores snubbed; os empregados publicos, senhores da machina eleitoral e que se cotisavam para a eleição solidaria, intimados a mudar de vida e a não subscrever mais um cent. De tudo isso se conclue que Hayes, assim como não quer outra vez ser eleito, entende que ninguem mais deve ser eleito Presidente como elle foi. Poucos homens teriam feito tão bom uso de um poder tão mal adquirido. Isto resgata, quasi, a falta de coragem civica que o levou a acceital-o.»

«Julho, 19 e Agosto 9. Não se póde dizer deste paiz que tenha ideal. É o paiz pratico por excellencia, e que tem a admiravel qualidade, de bem ou mal, governar-se a si mesmo. Não lhe falta manhood, mas tudo nelle preenche um fim material. O americano é, acima de tudo, um homem positivo, em cuja vida a metaphysica tem pequena parte; reconhece a cada instante que a vida é um business, que é preciso um lastro para não afundar nella; põe a arte, a sciencia, a cultura, a polity, depois do que é essencial, isto é, do dollar, indo sempre ahead como a locomotiva, tratando a mulher com o maior respeito, mas na vida pratica como uma obstruction, por isso entregando-a a ella mesma, ambicionando, acima de tudo, a riqueza de um grande operator de Wall Street, depois a influencia de um boss, insensivel á inveja, á má vontade, ao commentario, a tudo o que em outros paizes emmaranha, complica e, ás vezes, inutilisa grandes carreiras; nunca procurando o prazer para si, dando-o aos hospedes em sua casa, como se dão brinquedos ás creanças, superior ás contrariedades, sobrio de dôr, calmo na morte dos seus, e tratando a propria apenas como uma questão de seguro... «A vida privada» aqui é apenas uma expressão conservada do inglez. Todo o homem é um homem publico, e elle todo.»

São impressões de simples transeunte. Eu hoje não escreveria dos Estados-Unidos que é uma nação sem ideal; diria que é uma nação cujo ideal se está formando. Assim como o Inglez trata de adquirir fortuna e independencia antes de entrar para a Camara dos Communs, dir-se-ia que a nação americana trata de crescer, de povoar o seu immenso territorio, de chegar ao seu completo desenvolvimento, her full size, para depois fazer fallar de si e pensar no nome que deve deixar. Até hoje os Estados-Unidos têm feito vida á parte e se têm occupado de si só; mas um paiz que caminha para ser, si já não é, o mais rico, o mais forte, o mais bem apparelhado do mundo, tem, pela força das coisas, que ligar a sua historia com a das outras nações, que se associar e luctar com ellas.

«Agosto, 18. Gladstone, por ter attendido ás reclamações da guerra civil, é ainda mais impopular no Sul do que na Inglaterra entre os conservadores. O tempo em que se assignou o tratado de Washington, era entretanto para o estrangeiro, de perfeita unificação americana. Ha entre o Norte e o Sul mais que uma desintelligencia politica, ha reserva tacita de uma má vontade hereditaria, um estado de guerra latente.

«O que torna os dois grandes partidos nacionaes colligações accidentaes e impossibilita a unidade de vistas em cada um delles, é a divergencia dos interesses dos Estados. O partido Democrata, por exemplo, tem que conciliar em uma formula negativa a politica dos Estados de Leste, dos pagamentos em ouro e do resgate do papel, com a politica dos Estados do Oéste, dos green-backs; e o partido Republicano tem que harmonisar a politica de intervenção de Grant com a politica de Hayes de completo self-government para os Estados do Sul.»

«Julho, 25. As scenas destes ultimos dias (a parede das estradas de ferro) dão muito que pensar... Victor Hugo diz que o culpado de terem os communistas pegado fogo a Pariz é quem não lhes ensinou a lêr. Cada um dos incendiarios, porém, era provavelmente assignante do Rappel. Que povo calmo, o americano! A grande excitação de que se falla, não passa de uma conversa particular no bar-room de um hotel. Nova-York está, talvez, a ponto de se tornar o theatro de um riot amanhã, e as auctoridades concedem um parque aos communistas para o seu meeting. Tudo fraternisa: a tropa com os strikers, grevistas, os citizens com a mob, e ninguem perde a calma. O pessimista francez não existe neste paiz de optimistas que dizem sempre: «Não haverá nada», e si ha: «Isto passa logo», e si dura: «Podia ser peior.» A barba do vizinho, de que falla o dictado, não se entende aqui de cidade a cidade, nem de bairro a bairro, mas quasi de casa a casa. Os proprios que perdem tudo não acham meio de queixar-se sinão de si mesmos.»

«1.º de setembro. Ha poucos homens em politica que prefiram cahir por seus principios a sophismal-os para ficar de pé. O ministro que sustenta a preeminencia da Camara dos Deputados, procurará, si a Camara lhe fôr contraria, provar que ella não representa o paiz e apoiar-se na Camara alta. Durante o Imperio, Gambetta não fallaria do suffragio universal com o enthusiasmo de hoje, e nenhum bonapartista se submetteria agora, como sob os Napoleões, a um appello ao povo. No fundo só ha duas politicas: a politica de governo e a politica de opposição.»

«Setembro, 8. Bradley, o juiz da Côrte Suprema, que de facto fez a Hayes Presidente, tendo sido atacado pelos jornaes democratas e accusado de ter mudado de opinião depois de ouvir os directores do caminho de ferro do Pacifico, entendeu dever justificar-se pela imprensa. Nessa justificação, admittindo a possibilidade de ter expressado a seus collegas durante o processo uma opinião diversa da que deu, elle conta que escrevia razões ora em um sentido, ora em outro, sobre o voto da Florida, tendo chegado ao voto que deu, depois de muita duvida. Esta carta a um jornal de Nova-York é curiosa em muitos pontos de vista. Um juiz que vacilla, que chega a conclusões differentes durante muitos dias, deveria considerar definitiva a opinião que occasionalmente predomina em seu espirito no momento de ser tomado o voto? Não será provavel, pelo menos possivel, que elle mude ainda de juizo, depois de emittido o seu voto, isto é, de irreparavel? Por outro lado, essas duvidas não provarão a sinceridade do processo logico de investigação, e poder-se-á exigir do juiz que tenha, desde o começo de uma causa, opinião formada? A vacillação quadra menos com a distribuição da justiça, a qual deve sempre proceder de uma convicção inabalavel e inabalada, do que a obstinação, que muitas vezes é falta de percepção e exclusivismo de juizo. Quanto á força que a reflexão posterior tem dado em seu espirito ao voto que emittiu, é esse um phenomeno de assentimento da consciencia, muito commum na magistratura. Commettido o erro, a intelligencia o toma como verdade, porque é o interesse do bom nome do juiz.»

«Setembro 4. Thiers morreu hontem. Por toda a parte a noticia vae produzindo a mesma impressão. Pobre França! é o que se exclama. A perda é irreparavel. O leme fica sem homem. A confiança que a Europa toda tinha no velho conselheiro da França não acha a quem se entregar... O ultimo em França dos grandes homens do passado não nomeou successor...»

«Setembro, 11. Muito se tem dito sobre as mudanças de Thiers. Quando se procura saber porque esse pequeno marselhez, nascido pobre, sem familia, exposto ao ridiculo e ao desdem dos seus competidores aristocratas, atravessou tantos governos diversos, sem nunca perder a sua importancia politica, até vir a ser, na extrema velhice, o «Libertador do Territorio», encontra-se a explicação dessas mudanças. Quando tantos homens de talento, caracter, fortuna e prestigio social representavam o seu papel em um regimem e desappareciam, Thiers era sempre contado como um poder politico. Foi seu destino fundar e destruir governos, mas não se póde accusal-o de se ter divorciado da França em nenhum desses momentos. Mudou sempre com o paiz. A sua grande mudança final de monarchista para republicano concidiu com o seu interesse pessoal como primeiro Presidente da Republica, mas coincidiu tambem com a conversão das classes médias, não ao principio republicano, mas á idéa de que só a Republica era possivel. Sempre a França, nos seus movimentos liberaes, o encontrou ao seu lado. Durante o Imperio, elle fez uma opposição patriotica, que teria, talvez, evitado Sedan e conservado a dynastia, si o não considerassem orleanista. Quando concorreu para collocar Luiz Felippe no throno, o pensamento era que uma monarchia republicana dispensava a republica. A fraqueza da monarchia de 1830 foi que o principio da hereditariedade a minou desde o começo. Luiz Felippe destruiu o direito divino para subir e, depois, quiz servir-se delle para durar, transformando-o em bom senso, principio de auctoridade, etc. O que faz a unidade da carreira de Thiers, é que elle foi sempre pelo governo parlementar, pelo direito popular representado nas assembléas legislativas. Por esse principio renunciou a presidencia da Republica em mãos suspeitas. O segredo da sua fortuna politica consistiu em guardar fidelidade á França.

«Muitas vezes um paiz percorre um longo caminho para voltar, cançado e ferido, ao ponto donde partiu. É possivel que a França volte ainda á monarchia legitima, e si Thiers tivesse vivido mais tempo e a Republica trouxesse novas desgraças para a França, como a Communa, talvez fosse o mesmo Thiers quem entregasse a França ao herdeiro dos seus reis. Mesmo assim, quando a França comparar os dois typos de estadistas: Berryer, que não mudou nunca, fosse por uma convicção monarchica sempre renovada, fosse por um cavalheirismo digno do seu caracter, e ficou sempre no mesmo logar á espera de que a França voltasse ahi, e Thiers, que a acompanhou nas suas vicissitudes, eu acredito que ella se reconhecerá a si mesma no homem que encontrou sempre como seu conselheiro, que por vezes mudou para ficar ao lado della e poder valer-lhe com a sua consummada experiencia nos dias em que viesse a precisar de uma palavra amiga.»

Ao relêr hoje esta pagina do meu diario de 1871, vejo que a minha explicação da unidade da carreira politica de Thiers se parece muito com a que, ha alguns annos, foi publicada de Talleyrand, justificando-se em suas Memorias de só ter mudado com a França e por causa da França.

Esses trechos mostram que em Nova-York eu não me achava sob a influencia americana, mas que continuava em mim a influencia européa e eu era o espectador, que tinha sido em Londres, quasi desinteressado da politica, desinteressado pelo menos de toda a politica que não pudesse converter em assumpto litterario, ou em nota critica e observação. Agora direi a minha impressão geral dos Estados-Unidos, o que é hoje a minha idéa da democracia na America.