XVII
INFLUENCIA DOS ESTADOS-UNIDOS
Eu não podia, entretanto, ter vivido quasi dois annos nos Estados-Unidos sem em algum ponto ser modificado pela influencia norte-americana. Uma coisa é a Europa, outra a America do Norte. Entre os Americanos, o metal do caracter, o fundo de experiencia humana, o tacto da vida é, fallando do paiz como uma só pessôa moral, anglo-saxonio. Os Estados-Unidos, como a Australia e o Canadá, não pódem esconder a sua procedencia. O fundo anglo-saxonio revela-se, augmentado ou diminuido, na coragem e tenacidade, na dureza e impenetrabilidade, no espirito de empreza e de independencia da raça, tambem na brutalidade e crueldade do instincto popular, nas rixas de sangue, na bebida, nos lynchamentos, na sêde insaciavel de dinheiro, e tambem, outros traços, na necessidade de limpeza physica e moral, no espirito de conservação, na emulação e amor-proprio nacionaes, na religião, no respeito á mulher, na capacidade para o governo livre.
Que homem differente, porém, é o Americano do Inglez! Os moldes são tão diversos que, para explicar a differença, é preciso admittir uma influencia modificadora mais forte do que a de instituições sociaes, uma influencia de região,—cada grande região do globo produzindo como o tempo uma raça sua, differente das outras. As instituições modificam o caracter de um povo, mas não se provou ainda que lhe modificassem o typo e o temperamento physico. Qual seria a differença entre o Grego do tempo de Milciades e do tempo de Alexandre ou de Trajano? Qual a differença do Napolitano do tempo de Affonso o Grande para o do rei Umberto, ou do Portuguez manoelino para o de hoje?
A comparação do machinismo politico-social entre a America do Norte e a Inglaterra é, em quasi tudo, favoravel a esta. As instituições inglezas, tanto as politicas como as judiciarias, tanto as publicas como as privadas, têm mais dignidade, mais seriedade, mais respeitabilidade. Na Camara dos Communs não se imagina o processo do lobbying, não ha na administração ingleza o spoils system, ninguem pensaria em squaring um tribunal inglez, não ha na Inglaterra um trecho de territorio em que os cidadãos só tenham confiança na justiça que fazem por suas mãos, como nos lynchings americanos. A todos os que têm que tratar com a administração, que estão na dependencia da justiça, a organização americana offerece muito menos garantias de equidade e menor protecção do que a ingleza.
Isto, por um lado; por outro, quem entra na vida publica tem que procurar nos Estados-Unidos as boas graças de individuos muito differentes dos que na Inglaterra abrem aos principiantes as portas da politica; além disso, tem que apprender por um catecismo muito mais relaxado. A intervenção do grande pensador, do grande escriptor, do homem competente, faz-se sentir na Inglaterra mais do que nos Estados-Unidos, onde as massas obedecem a influencias que não têm nada de intellectual e não têm apreço por nenhuma especie de elaboração mental. Tudo o que é superior tem, com effeito, o cunho da individualidade, envolve, portanto, desdem pela sabedoria das massas. O genio politico, qualquer que seja, está para ellas eivado de rebeldia. Singularmente, o cidadão vale menos nos Estados-Unidos do que na Inglaterra. Para ser uma unidade na politica americana, é preciso que o individuo se matricule em um partido, e, desde esse dia, renuncie á sua personalidade. Na Inglaterra não ha semelhante escravidão do partido. O paiz é governado, como os Estados-Unidos, por dois partidos que se alternam e se equilibram, mas os partidos inglezes são partidos de opinião, não são machines, como os americanos, das quaes certo numero de bosses governam e dirigem os movimentos.
Tomando-se, porém, o individuo sem relação ao machinismo politico, o homem que não tem dependencias da administração nem da justiça e que renuncia o direito de desgovernar elle tambem os seus concidadãos, os Estados-Unidos são o paiz livre por excellencia. Os Americanos são uma nação que quizera viver sem governo e agradece aos seus governantes suspeitarem-lhe a intenção. D’ahi, a popularidade de seus Presidentes: elles não fazem sombra ao paiz, não pesam sobre a nação. A pressão de cima para baixo, do governo sobre a sociedade, a que a humanidade se habituou de tempos immemoriaes, de fórma a não poder viver sem ella, faz-se sentir nos Estados-Unidos menos do que em outra qualquer parte, menos do que na Inglaterra, onde a protecção governamental está sempre presente. A columna da autoridade é menor sobre os hombros do Americano do que sobre os de qualquer outro povo; a sua respiração é a mais franca, a mais larga, a mais profunda de todas. O governo póde ser melhor, mais perfeito na Inglaterra: que lhe importa isso, si o que elle quer é mesmo que a acção do governo se vá cada dia restringindo e elle a sinta menos e tenha menos que vêr com ella? A questão é saber si a columna de auctoridade, que é hoje tão leve nos Estados-Unidos, não virá um dia a ser a mais pesada de todas. O systema americano póde bem corresponder, dada a differença de epocha e adeantamento, á liberdade pessoal de que gozaram sempre mais ou menos as raças que tinham espaço illimitado para se estenderem e escassa vizinhança em paiz novo. No fundo, essa extrema liberdade é uma fórma de individualismo, de isolamento, de vida á parte, de reponsabilidade ainda não formada, do homem na sociedade. Isoladamente, o Americano será, como eu disse, o mais livre de todos os homens; como cidadão, porém, não se póde dizer que o seu contracto de sociedade esteja revestido das mesmas garantias que o do Inglez, por exemplo. A auctoridade é menor sobre os seus hombros, mas a solidariedade humana é tambem mais frouxa em sua consciencia.
Uma coisa o governo americano não é: não é o governo do melhor homem, como pretendiam ser as democracias antigas. Governo pessoal, as presidencias pódem ser, pelo menos foram algumas accusadas de o ser; não se póde, porém, apontar neste seculo o homem de influencia nos Estados-Unidos, o Gladstone ou o Gambeta americano. A nação dispensa tutores, directores, conselheiros, rejeita tudo o que pareça patronizing, ares de protecção e condescendencia para com ella. Aos seus olhos, o que faz um estadista consideravel e importante é a somma de confiança que elle lhe merece, é o reflexo da satisfação que causa a Uncle Sam.
A idéa de que o seu governo é o mais forte do mundo e o que mais economisa e occulta a sua força, é o orgulho por excellencia do Americano. Entre o militarismo europeu e a democracia desarmada dos Estados-Unidos póde um dia rebentar um conflicto que hoje parece quasi um paradoxo figurar, mas, até se experimentar em uma grande guerra estrangeira, como se provou em uma grande rebellião, a solidez e a elasticidade da americana, não se a póde considerar superior á velha textura européa.
O que se póde dizer é que os Estados-Unidos não tiveram ainda os mesmos perigos de que se acautelar que a Europa. Esse governo que muda todos os quatro annos, póde ser o mais forte do mundo, mas não foi experimentado nas mesmas condições que os outros, e está para estes, que são governos armados e em constante vigia pelo risco das coalições estrangeiras, como os magnificos transatlanticos, de vastos salões illuminados, cobertas altas, camarotes espaçosos e arejados, verdadeiras cidades fluctuantes, estão como habitação para os navios de combate.
A União, comparada á Inglaterra, é como a prairie americana comparada ao pateo interior de um castello normando. Em uma, ha de todos os lados o espaço descortinado, a planicie sem fim; em outro, o espectador está fechado por altas paredes, que lhe contam sempre a historia de outras epochas. O passado pesa sobre o presente na Inglaterra e o limita; na America, não ha vista retrospectiva. De tudo isto resulta para o Americano um sentimento de independencia, que o faria, como fazia o Grego, sentir-se metade escravo, si lhe dessem um rei, mesmo quando o effeito da realeza fosse augmentar a sua parte effectiva de direitos e de influencia na communhão. É nisto que consiste a maior «liberdade» americana: no sentimento da egualdade hierarchica entre governantes e governados.
Não havia perigo de que eu adquirisse essa idiosyncrasia americana: era evidente para mim que ella era o resultado das condições em que o paiz crescêra e que, si a independencia tivesse sido feita com um principe inglez, como a nossa foi feita com o herdeiro do throno, os Estados-Unidos, em um seculo de progresso e de adeantamento, teriam desenvolvido para com a sua casa reinante o mesmo sentimento de loyalty dos Inglezes. Si a realeza, na Inglaterra, passou, no nosso tempo, pela metamorphose que se observa do reinado de Jorge IV para o reinado de Victoria, teria passado na America do Norte por uma transformação ainda maior. Mr. King ou Mrs. Queen seria uma pessôa muito mais popular do que Mr. President, e diariamente receberia mais esmagadores shake-hands ou mais familiares cartões-postaes. No Brasil a monarchia foi o que vimos, uma pura magistratura popular; como não seria nos Estados-Unidos, onde o principio activo, a força corrosiva da democracia é ainda mais energica? A monarchia na Nova-Inglaterra, teria, provavelmente, exercido maior influencia sobre as velhas monarchias européas do que exerceu a grande Republica, e outra especie de influencia sobre o resto da America.
Depois da recepção e do acolhimento que Dom Pedro II teve nos Estados-Unidos em 1876, não era mais licito duvidar de que para a intelligencia culta do paiz a monarchia constitucional, representada por uma dynastia como a brasileira, era um governo muito superior ás chamadas republicas da America Latina. Perante multidões americanas nem sempre conviria, talvez, ao orador dizer isso; elle poderia ás vezes declamar que a peior das republicas é um progresso sobre a melhor das monarchias, mas eu sentia que fallar assim era o privilegio do demagogo irresponsavel, e que esse não fôra o sentimento dos Washingtons, dos Hamiltons, dos Jeffersons, nem é o dos que procuram seguir-lhes as tradições. O effeito do republicanismo norte-americano só podia ser para mim o de corrigir o que houvesse de supersticioso no meu monarchismo, tirar-lhe tudo o que parecesse direito divino, consagração super-humana. Entre os dois espiritos, o inglez e o norte-americano, eu não via opposição, como não ha opposição entre as duas raças e as duas sociedades; não havia nada mais facil de comprehender e conciliar do que a admiração com que Gladstone falla dos Estados-Unidos e a admiração dos escriptores mais respeitaveis da America pela Constituição ingleza.
Nenhuma das minhas idéas politicas se alterou nos Estados-Unidos, mas ninguem aspira o ar americano sem achal-o mais vivo, mais leve, mais elastico do que os outros saturados de tradição e auctoridade, de convencionanismo e cerimonial. Essa impressão não se apaga na vida. Aquelle ar, quem o aspirou uma vez, prolongadamente, não o confundirá com o de nenhuma outra parte; sua composição é differente da de todos.
Quanto a mim, fui tratado com tanta benevolencia, encontrei tão generoso acolhimento nos Estados-Unidos, que ainda hoje me reconforto nessas doces recordações. A impressão geral que me deixou o que vi na America do Norte, é uma impressão de nitidez; tudo é nitido, de contorno perfeito e incisivo, como uma medalha antiga. O Inglez fará tudo solido; o Francez, elegante; o Americano procura fazer nitido, clear cut. Isso reconhece-se logo em qualquer estampa americana. Ha uma perfeição á parte, que é a perfeição americana, distincta do ultimo toque que o Inglez ou o Francez dá ás coisas, perfeição real, incontestavel, como é a japoneza. Póde-se preferir o modo de vêr, ou, antes, o modo de olhar,—a arte não é no fundo sinão um modo de olhar, uma questão de angulo visual,—do Europeu ao do Americano, é tambem isso em grande parte uma questão de raça, mas não ha duvida que o traço americano é um traço que alcançou, por sua vez, a perfeição. Tudo o que vi me pareceu feito, desenhado com esse traço, que eu não confundiria com outro. O que o distingue é que elle não exprime, como os outros, um estado de espirito ou aspiração de ordem puramente esthetica; que não exprime uma resolução, uma vontade, um caracter. Si não fosse a imaginação historica, de que eu não poderia, nem quizera, desfazer-me, nenhuma residencia, nenhuma vida, nenhum espectaculo me teria nunca parecido tão encantador como o de Nova-York. Não sei si o céo de Nova-York não me pareceu o mais bello do mundo; o que sei é que elle derrama em ondas de luz a alegria, a vida, a coragem, sobre a mais admiravel procissão de mocidade e de belleza humana que jámais passou deante dos meus olhos, a que flue e reflue todas as tardes e manhãs da Quinta Avenida para o Central Park.
Ao Americano, ao homem, não á mulher, e ao homem que não pertence á élite do paiz, faltará o que se tem convencionado chamar maneiras, os toques ou signaes, desconhecidos dos profanos, pelos quaes os iniciados nos segredos mundanos se reconhecem entre si; isto quer dizer sómente que a americana é uma raça que ainda está crescendo na mais perfeita egualdade e ganhando a vida em desenfreada competição. Não ha, porém, no mundo uma escola egual a essa para se aprender o que, d’ora em deante pelo menos, é o mais importante dos preparatorios da vida,—a arte de contar comsigo só. O menino americano, e quando se diz o menino nos Estados-Unidos entende-se a menina tambem, é mettido desde quasi a primeira infancia em um banho chimico que lhe dá a cada fibra da vontade a rijeza e a elasticidade do aço. Qualquer que seja o valor da cultura, nenhum pae preferirá deixar ao filho mais um sentido intellectual a deixar-lhe o poderoso pick-me-up americano, o cordial que impede a enervação nos grandes transes moraes. E que o jogo da vida nos tempos modernos,—muito mais nos seculos que vão vir, em que a concurrencia será ainda mais numerosa e implacavel,—não se parece com figuras de minuete ou com divertimentos campestres do seculo passado, como os vemos em um Boucher ou em um Goya; parece-se com as chamadas montanhas russas: é um incessante despenhar a toda a velocidade, montanha abaixo, de trens que com o impulso da descida transpõem as escarpas fronteiras para se precipitarem de novo e de novo reapparecerem mais longe, e para essa continua sensação de vertigem é principalmente o coração que precisa ser robustecido. Segundo toda probabilidade, os Estados-Unidos hão de um dia parar, e então terão tempo para produzir a sua sociedade culta, como os velhos paizes da Europa. Já ha nos Estados-Unidos porções da sociedade que pararam e querem permanecer em repouso; essas formam o primeiro indicio de uma aristocracia, que um dia será um grande poder na União, uma grande influencia ou conservadora ou artistica.
Em uma entrevista que concedeu ha annos a um reporter americano, Herbert Spencer concluiu com esta previsão sobre o futuro dos Estados-Unidos: «De verdades biologicas deve-se inferir que a mistura eventual das variedades alliadas da raça Aryana que formam a população hão de produzir um mais poderoso typo de homem do que tem existido até hoje, e um typo de homem mais plastico, mais adaptavel, mais capaz de supportar as modificações necessarias para a completa vida social. Por maiores que sejam as difficuldades que os Americanos tenham que vencer e as tribulações por que tenham que passar, elles podem razoavelmente contar com uma epocha em que hão de produzir uma civilisação mais grandiosa do que qualquer que o mundo tenha visto.»
É possivel que seja aquella a lei biologica da mistura aryana, mas até hoje ainda nenhum galho americano de tronco europeu mostrou poder dar a mesma flôr de civilisação que a da velha estirpe. É possivel que a civilisação americana venha um dia a ser mais grandiosa do que qualquer que o mundo conheceu, mas eu consideraria perigoso, por emquanto, renunciar a Europa nos Estados-Unidos a tarefa de levar a cabo a obra da humanidade. Reduzida esta aos actuaes elementos americanos, muita nobre inspiração talvez nunca mais se pudesse renovar e o genio da raça humana não viesse nunca a reflorir. A educação americana parece a unica que não é convencional, que não é uma pura galvanisação de estados de espirito de outras epochas, de ideaes classicos e litterarios, que homens que vivem entre livros insinuam aos que não tem tempo para lêr. A idéa tem na America do Norte muito menor papel na vida do que nos outros paizes, onde tudo está escripto e convertido em regra, e dos quaes se póde dizer, invertendo a celebre phrase, que nada lhes cáe sob os sentidos que não tenha estado primeiro na intelligencia. Os Americanos, em grande escala, estão inventando a vida, como si nada existisse feito até hoje. Tudo isto suggere grandes innovações futuras, mas não existe ainda o menor signal de que a elaboração do destino humano ou a revelação superior feita ao homem tenha um dia que passar para os Estados-Unidos. A sua missão na historia é ainda a mais absoluta incognita. Si elle desapparecesse de repente, não se póde dizer o que é que a humanidade perderia de essencial, que raio se apagaria do espirito humano; não é ainda como si tivesse desapparecido a França, a Allemanha, a Inglaterra, a Italia, a Hespanha.