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Chapter 22: XIX ELEIÇÃO DE DEPUTADO
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About This Book

O autor reúne memórias e ensaios que traçam a sua formação intelectual e moral desde a escola até a vida pública, enfatizando a influência familiar, os anos de estudo e a evolução das convicções políticas. Intercalam-se relatos de experiências pessoais, reflexões sobre a ação pública e observações de outros contextos nacionais, além de considerações estéticas sobre memória, impressão e a fruição da experiência. O tom combina rememoração íntima com análise crítica das circunstâncias que moldaram posturas cívicas, incluindo dúvidas, revisões e a decisão de afastar-se de certas lutas políticas.

XIX
ELEIÇÃO DE DEPUTADO

Até 1878 foi propriamente o periodo da minha formação politica; o que se segue, de 1879 a 1889, é o do papel que me tocou representar; o final,—já agora devo esperar todo elle assim,—será o do amortecimento do interesse politico e de sua substituição por outros, talvez ainda mais irreaes e chimericos, porém, que de algum modo quadram melhor com o crepusculo da vida, quando o espirito começa a ouvir ao longe o toque de recolher. Durante aquelles dez annos a que me tenho referido, não fui sinão um curioso, attrahido pelas viagens, pelo caracter dos differentes paizes, pelos livros novos, pelo theatro, pela sociedade. Uma vida invejavel para mim teria sido então o assistir dos bastidores aos grandes factos contemporaneos, conviver com os personagens, e, como distracção do presente, ter direito de entrada nas excavações de Athenas ou de Roma. No fim desta phase de lazzaronismo intellectual, quando sou pela primeira vez eleito para o Parlamento, eu tinha necessidade de outra provisão de sol interior; era-me preciso, não mais o dilettantismo, mas a paixão humana, o interesse vivo, palpitante, absorvente, no destino e na condição alheia, na sorte dos infelizes; aproveitar a minha vida em qualquer obra de misericordia nacional; ajudar o meu paiz, prestar os hombros á minha epocha, para algum nobre emprehendimento. Nenhuma causa politica, dados os elementos que descrevi, poderia causar-me esse enthusiasmo, inspirar-me esses arroubos; a politica seria sempre a emoção partidaria, incerta, negativa, o temor de edificar desconfiado da solidez dos materiaes e do terreno. Era preciso que o interesse fosse humano, universal; que a obra tivesse o caracter de finalidade, a certeza, a inerrancia do absoluto, do divino, como têm as grandes redempções, as revoluções da caridade ou da justiça, as auroras da verdade e da consciencia sobre o mundo. No Brasil havia ainda no anno em que comecei minha vida publica um interesse d’aquella ordem, com todo esse poder de fascinação sobre o sentimento e o dever, egualmente impulsivo e illimitado, capaz do fiat, quer se tratasse da sorte de creaturas isoladas, quer do caracter da nação... Tal interesse só podia ser o da emancipação, e por felicidade da minha hora, eu trazia da infancia e da adolescencia o interesse, a compaixão, o sentimento pelo escravo,—bolbo que devia dar a unica flôr da minha carreira...

O facto que me lançou na politica foi a morte de meu pae, em março de 1878, anno em que serei eleito pela primeira vez deputado... Elle morreu a tempo ainda de assegurar a minha eleição que tinha ficado resolvida entre elle e o barão de Villa-Bella, chefe politico de Pernambuco. Souza Carvalho, que muito impugnou, depois de morto meu pae, a minha candidatura, foi a Villa-Bella e referindo-se áquella morte, disse-lhe:—«sublata causa, tollitur effectus». Domingos de Souza Leão, porém, tinha a religião da amizade e da lealdade, e a morte de Nabuco, em vez de delir o seu compromisso, tornára-o de honra... Meu desejo intimo era então continuar na diplomacia... Minha mãe, porém, conservava a ambição de meu pae, de me vêr entrar na politica, para um dia substituil-o, sentar-me na sua cadeira de senador, como elle se sentára na de meu avô, que já não fôra o primeiro senador Nabuco, porque encontrára no Senado seu tio José Joaquim Nabuco de Araujo, o primeiro barão de Itapoan. Eu representaria assim no Parlamento a quarta geração da mesma familia, o que não aconteceu, supponho, a nenhum outro. Com Martim Francisco Junior, filho, neto, e bisneto de parlamentares, as gerações politicas foram tres, por serem irmãos o avô e o bisavô, Martim Francisco e José Bonifacio.

Não me custou nada essa eleição... Custou sim a Villa-Bella na côrte e na provincia a Adolpho de Barros, que passou pela politica como um perfeito gentleman, seu presidente, incluirem-me na lista... Meu nome afastava os de outros que eram antigos luctadores, como o dr. Aprigio Guimarães, popular na Academia pelo seu liberalismo republicano e sua eloquencia tribunicia. Eu não tinha que ter remorso disso, fata viam invenient... Não era só meu nome que postergava o direito de antiguidade; a chapa estava cheia de nomes novos; eu representava uma tradição de serviços ao partido, os de meu pae, que valiam bem os de qualquer outro, e tinha confiança de que justificaria na Camara a minha promoção rapida. Si não me deu trabalho algum essa eleição, que foi feita pelo partido, dispondo de todos os elementos officiaes, não deixou de ter para mim o seu episodio... N’uma sessão academica de 11 de agosto, no theatro Santa Isabel, quando eu proferia, do camarote do Presidente, as primeiras palavras, fui acolhido pelos protestos e vozeria de um grupo numeroso, que se tornou dominante, e que depois transferia para uma praça da cidade o seu meeting de indignação contra mim... O thema do meu improviso, em resposta aos epigrammas e diatribes contra S. Christovão que tinham soado no palco, fôra este: a grande questão para a democracia brasileira, não é a monarchia, é a escravidão. Posso dizer que experimentei por vezes a doçura da popularidade; nada, porém, eguala o prazer de uma dessas tempestades levantadas contra si pelo orador que se sente de posse da verdade e ao serviço da justiça, quando antevê que esses que o injuriam naquelle momento, estarão com elle no dia seguinte... Eu deixava passar aquella onda raivosa e espumante, que a intriga, explorando a susceptibilidade propria da democracia pernambucana, as reminiscencias praeiras, e com imperfeito conhecimento do individuo, do papel que elle ia representar, impelliam contra a minha candidatura... Eu sabia que a palinodia havia de ser completa, que se desfaria o mal-entendu creado entre mim e o povo do Recife, desde que elle visse o fim para o qual eu aspirava ao seu mandato... Na verdade, a opinião do partido popular, ciumento dos seus fóros e tradições, mudou a meu respeito logo na primeira sessão em que tomei a palavra na Camara... Desde esse dia estabeleceu-se entre mim e o Recife uma affinidade que nunca se interrompeu e que ainda hoje, em que estou quanto á politica retirado de tudo, estou certo, será a mesma, porque foi como que o encontro de duas opiniões que se miraram uma na outra até ás fontes do sentimento e reconheceram na transparencia do seu fundo a sinceridade de cada uma.

Foi um anno de actividade e de expansão unico em minha vida, esse de 1879, em que fiz a minha estréa parlamentar. Posso dizer que occupei a tribuna todos os dias, tomando parte em todos os debates, em todas as questões... O favor com que era acolhido, os applausos da Camara e das galerias, a attenção que me prestavam, eram para embriagar facilmente um estreante... Como hoje seria diverso, e quanto tudo aquillo está desvalorisado para mim como prazer do espirito! Hoje é a gotta crystallina que mana da rocha do ideal,—fonte occulta que todos temos em nós,—e não os grandes chafarizes e aqueductos da praça publica, que unica me desaltera. Então tudo me servia para assumpto de discurso; eu fallava sobre marinha e immigração, como sobre a illuminação ou o imposto de renda, sobre o arrendamento do valle do Xingú ou a eleição directa... Tinha o calor, o movimento, o impulso do orador; não conhecia o valerá a pena? do observador que se restringe cada vez mais... O publico, os grandes auditorios eram para mim o que é hoje a minha cesta de papel, ou a labareda que dá conta da exuberancia superflua do pensamento. Só muito tarde comprehendi porque os que vieram antes de mim se retrahiam, quando eu me expandia: em muitos era a saciedade, o enojo que começava; em alguns a troca da aspiração por outra ordem de interesses mais utilitaria; em outros, porém, era a consciencia que chegava á madureza, o amor da perfeição... Desses discursos sem excepção que figuram em meu nome nos Annaes de 1879 e 1880 eu não quizera salvar nada sinão a nota intima, pessoal, a parte de mim mesmo que se encontre em algum. Não assim com os que proferi na Camara na semana de maio de 1888, nem com os do Recife em 1884-1885, pronunciados no theatro Santa Isabel. Esses são o melhor da minha vida.

Quando disse que o periodo que vae até 1879 é o de minha formação politica, quiz sómente dizer que é o periodo em que adquiro a ferramenta com que hei de trabalhar em politica; ainda assim a limitação do tempo não é precisamente exacta, porque é na propria politica, na Camara, sob o influxo e determinismo do papel que escolho, que a verdadeira formação se opera, isto é, que as contradicções se conciliam, a subordinação dos impulsos e das tendencias se dá, as affinidades essenciaes se pronunciam, os attritos interiores, as vacillações, as attracções ou repulsões prejudiciaes se eliminam, e o destino uma vez conhecido crêa a vocação, a tarefa mesma perfaz o instrumento.

Com effeito, quando entro para a Camara, estou tão inteiramente sob a influencia do liberalismo inglez, como si militasse ás ordens de Gladstone; esse é em substancia o resultado de minha educação politica: sou um liberal inglez,—com affinidades radicaes, mas com adherencias whigs,—no Parlamento brasileiro; esse modo de definir-me será exacto até o fim, porque o liberalismo inglez, Gladstoniano, Macaulayiano, perdurará sempre, será a vasallagem irresgatavel do meu temperamento ou sensibilidade politica; no emtanto, depois do primeiro ensaio, a feição politica tornar-se-á secundaria, subalterna, será substituida pela identificação humana com os escravos e esta é que ficará sendo a caracteristica pessoal, tudo se fundirá n’ella e por ella. N’esse sentido é a emancipação a verdadeira acção formadora para mim, a que toma os elementos isolados ou divergentes da imaginação, os extremos da curiosidade ou da sympathia intellectual, os contrastes, os antagonismos, as variações de faculdades sensiveis á verdade, á belleza, que os systemas mais oppostos reflectem uns contra os outros, e constróe o molde em que a aspiração politica é vasada, e não ella sómente, a intelligencia, a imaginação, os proprios sonhos e chimeras do homem.

Como eu disse, porém, ha pouco, eu trazia da infancia o interesse pelo escravo... Esse episodio não será talvez descabido n’estas recordações.