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Minha formação

Chapter 23: XX MASSANGANA[3]
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About This Book

O autor reúne memórias e ensaios que traçam a sua formação intelectual e moral desde a escola até a vida pública, enfatizando a influência familiar, os anos de estudo e a evolução das convicções políticas. Intercalam-se relatos de experiências pessoais, reflexões sobre a ação pública e observações de outros contextos nacionais, além de considerações estéticas sobre memória, impressão e a fruição da experiência. O tom combina rememoração íntima com análise crítica das circunstâncias que moldaram posturas cívicas, incluindo dúvidas, revisões e a decisão de afastar-se de certas lutas políticas.

XX
MASSANGANA[3]

[3] A razão que me fez não começar pelos annos da infancia foi que estas paginas tiveram, ao serem primeiro publicadas, feição politica que foram gradualmente perdendo, porque já ao escrevel-as diminuia para mim o interesse, a seducção politica. A primeira idéa fôra contar minha formação monarchica; depois, alargando o assumpto, minha formação politico-litteraria ou litterario-politica; por ultimo, desenvolvendo-o sempre, minha formação humana, de modo que o livro confinasse com outro, que eu havia escripto antes sobre minha reversão religiosa. É d’este livro, de caracter mais intimo, composto em francez ha sete annos, que traduzo este capitulo para explicar a referencia feita ás minhas primeiras relações com os escravos.

O traço todo da vida é para muitos um desenho da creança esquecido pelo homem, e ao qual este terá sempre que se cingir sem o saber... Pela minha parte acredito não ter nunca transposto o limite das minhas quatro ou cinco primeiras impressões... Os primeiros oito annos da vida foram assim, em certo sentido, os de minha formação instinctiva, ou moral, definitiva... Passei esse periodo inicial, tão remoto e tão presente, em um engenho de Pernambuco, minha provincia natal. A terra era uma das mais vastas e pittorescas da zona do Cabo... Nunca se me retira da vista esse panno de fundo da minha primeira existencia... A população do pequeno dominio, inteiramente fechado a qualquer ingerencia de fóra, como todos os outros feudos da escravidão, compunha-se de escravos, distribuidos pelos compartimentos da senzala, o grande pombal negro ao lado da casa de morada, e de rendeiros, ligados ao proprietario pelo beneficio da casa de barro que os agasalhada ou da pequena cultura que elle lhes consentia em suas terras. No centro do pequeno cantão de escravos levantava-se a residencia do senhor, olhando para os edificios da moagem, e tendo por traz, em uma ondulação do terreno, a capella sob a invocação de S. Matheus. Pelo declive do pasto arvores isoladas abrigavam sob sua umbella impenetravel grupos de gado somnolento. Na planicie extendiam-se os cannaviaes cortados pela alameda tortuosa de antigos ingás carregados de musgos e cipós, que sombreavam de lado a lado o pequeno rio Ipojuca. Era por essa agua quasi dormente sobre os seus largos bancos de areia que se embarcava o assucar para o Recife; ella alimentava perto da casa um grande viveiro, rondado pelos jacarés, a que os negros davam caça, e nomeado pelas suas

pescarias. Mais longe começavam os mangues que chegavam até á costa de Nazareth... Durante o dia, pelos grandes calores, dormia-se a sesta, respirando o aroma, espalhado por toda a parte, das grandes taixas em que cozia o mel. O declinar do sol era deslumbrante, pedaços inteiros da planicie transformavam-se em uma poeira d’ouro; a bocca da noite, hora das boninas e dos bacuraus, era agradavel e balsamica, depois o silencio dos céos estrellados majestoso e profundo. De todas essas impressões nenhuma morrerá em mim. Os filhos de pescadores sentirão sempre debaixo dos pés o roçar das areias da praia e ouvirão o ruido da vaga. Eu por vezes acredito pisar a espessa camada de cannas que cercava o engenho e escuto o rangido longinquo dos grandes carros de bois...

Emerson quizera que a educação da creança começasse cem annos antes d’ella nascer. A minha educação religiosa obedeceu certamente a essa regra. Eu sinto a idéa de Deus no mais afastado de mim mesmo, como o signal amante e querido de diversas gerações. N’essa parte a serie não foi interrompida. Ha espiritos que gostam de quebrar todas as suas cadeias, e de preferencia as que outros tivessem creado para elles; eu, porém, seria incapaz de quebrar inteiramente a menor das correntes que alguma vez me prendeu, o que faz que supporto captiveiros contrarios, e menos do que as outras uma que me tivesse sido deixado como herança. Foi na pequena capella de Massangana que fiquei unido á minha.

As impressões que conservo d’essa edade mostram bem em que profundezas os nossos primeiros alicerces são lançados. Ruskin escreveu esta variante do pensamento de Christo sobre a infancia: «A creança sustenta muitas vezes entre os seus fracos dedos uma verdade que a edade madura com toda sua fortaleza não poderia suspender e que só a velhice tera novamente o privilegio de carregar.» Eu tive em minhas mãos como brinquedos de menino toda a symbolica do sonho religioso. A cada instante encontro entre minhas reminiscencias miniaturas que por sua frescura de provas avant la lettre devem datar d’essas primeiras tiragens da alma. Pela perfeição d’essas imagens inapagaveis póde-se estimar a impressão causada. Assim eu vi a Creação de Miguel-Angelo na Sixtina e a de Raphael nas Loggie, e, apezar de toda a minha reflexão, não posso dar a nenhuma o relevo interior do primeiro paraiso que fizeram passar deante dos meus olhos em um vestigio de antigo Mysterio popular. Ouvi notas perdidas do Angelus na Campanha Romana, mas o muezzin intimo, o timbre que sôa aos meus ouvidos á hora da oração, é o do pequeno sino que os escravos escutavam com a cabeça baixa, murmurando o Louvado seja Nosso Senhor Jesus-Christo. Este é o Millet inalteravel que se gravou em mim. Muitas vezes tenho atravessado o oceano, mas si quero lembrar-me d’elle, tenho sempre deante dos olhos, parada instantaneamente, a primeira vaga que se levantou deante de mim, verde e transparente como um biombo de esmeralda, um dia em que, atravessando por um extenso coqueiral atraz das palhoças dos jangadeiros, me achei á beira da praia e tive a revelação subita, fulminante, da terra liquida e movente... Foi essa onda, fixada na placa mais sensivel do meu kodak infantil, que ficou sendo para mim o eterno cliché do mar. Sómente por baixo d’ella poderia eu escrever: Thalassa! Thalassa!

Meus moldes de idéas e de sentimentos datam quasi todos d’essa epocha. As grandes impressões da madureza não têm o condão de me fazer reviver que tem o pequeno caderno de cinco a seis folhas apenas em que as primeiras hastes da alma apparecem tão frescas como si tivessem sido calcadas n’esta mesma manhã... O encanto que se encontra n’esses eidoli grosseiros e ingenuos da infancia não é sinão o sentimento de que só elles conservam a nossa primeira sensibilidade apagada... Elles são, por assim dizer, as cordas soltas, mas ainda vibrantes, de um instrumento que não existe mais em nós...

Do mesmo modo que com a religião e a natureza, assim com os grandes factos moraes em redor de mim. Estive envolvido na campanha da abolição e durante dez annos procurei extrahir de tudo, da historia, da sciencia, da religião, da vida, um filtro que seduzisse a dynastia; vi os escravos em todas as condições imaginaveis; mil vezes li a Cabana do Pae Thomaz, no original da dôr vivida e sangrando; no emtanto a escravidão para mim cabe toda em um quadro inesquecido da infancia, em uma primeira impressão, que decidiu, estou certo, do emprego ulterior de minha vida. Eu estava uma tarde sentado no patamar da escada exterior da casa, quando vejo precipitar-se para mim um jovem negro desconhecido, de cerca de dezoito annos, o qual se abraça aos meus pés supplicando-me pelo amor de Deus que o fizesse comprar por minha madrinha para me servir. Elle vinha das vizinhanças, procurando mudar de senhor, porque o d’elle, dizia-me, o castigava, e elle tinha fugido com risco de vida... Foi este o traço inesperado que me descobriu a natureza da instituição com a qual eu vivêra até então familiarmente, sem suspeitar a dôr que ella occultava.

Nada mostra melhor do que a propria escravidão o poder das primeiras vibrações do sentimento... Elle é tal, que a vontade e a reflexão não poderiam mais tarde subtrahir-se á sua acção e não encontram verdadeiro prazer sinão em se conformar... Assim eu combati a escravidão com todas as minhas forças, repelli-a com toda a minha consciencia, como a deformação utilitaria da creatura, e na hora em que a vi acabar, pensei poder pedir tambem minha alforria, dizer o meu nunc dimittis, por ter ouvido a mais bella nova que em meus dias Deus pudesse mandar ao mundo; e, no emtanto, hoje que ella está extincta, experimento uma singular nostalgia, que muito espantaria um Garrison ou um John Brown: a saudade do escravo.

É que tanto a parte do senhor era inscientemente egoista, tanto a do escravo era inscientemente generosa. A escravidão permanecerá por muito tempo como a caracteristica nacional do Brasil. Ella espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contacto foi a primeira fórma que recebeu a natureza virgem do paiz, e foi a que elle guardou; ella povoou-o, como si fosse uma religião natural e viva, com os seus mythos, suas legendas, seus encantamentos; insufflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pezar, suas lagrimas sem amargor, seu silencio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte... É ella o suspiro indefinivel que exhalam ao luar as nossas noites do Norte. Quanto a mim, absorvi-a no leite preto que me amamentou; ella envolveu-me como uma caricia muda toda a minha infancia; aspirei-a na dedicação de velhos servidares que me reputavam o herdeiro presumptivo do pequeno dominio de que faziam parte... Entre mim e elles deve ter-se dado uma troca continua de sympathia, de que resultou a terna e reconhecida admiração que vim mais tarde a sentir pelo seu papel. Este pareceu-me, por contraste com o instincto mercenario da nossa epocha, sobrenatural á força de naturalidade humana, e no dia em que a escravidão foi abolida, senti distinctamente que um dos mais absolutos desinteresses de que o coração humano se tenha mostrado capaz não encontraria mais as condições que o tornaram possivel.

Nessa escravidão da infancia não posso pensar sem um pezar involuntario... Tal qual o presenti em torno de mim, ella conserva-se em minha recordação como um jugo suave, orgulho exterior do senhor, mas tambem orgulho intimo do escravo, alguma coisa parecida com a dedicação do animal que nunca se altera, porque o fermento da desegualdade não póde penetrar n’ella. Tambem eu receio que essa especie particular de escravidão tenha existido sómente em propriedades muito antigas, administradas durante gerações seguidas com o mesmo espirito de humanidade, e onde uma longa hereditariedade de relações fixas entre o senhor e os escravos tivessem feito de um e outros uma especie de tribu patriarchal isolada do mundo. Tal approximação entre situações tão deseguaes perante a lei seria impossivel nas novas e ricas fazendas do Sul, onde o escravo, desconhecido do proprietario, era sómente um instrumento de colheita. Os engenhos do Norte eram pela maior parte pobres explorações industriaes, existiam apenas para a conservação do estado do senhor, cuja importancia e posição avaliava-se pelo numero de seus escravos. Assim tambem encontrava-se alli com uma aristocracia de maneiras que o tempo apagou, um pudor, um resguardo em questões de lucro, proprio das classes que não traficam.

Fiz ha pouco menção de minha madrinha... Das recordações da infancia a que eclipsa todas as outras e a mais cara de todas é o amor que tive por aquella que me criou até aos meus oito annos como seu filho... Sua imagem, ou sua sombra, desenhou-se por tal modo em minha memoria, que eu a poderia fixar si tivesse o menor talento de pintor... Ella era de grande corpulencia, invalida, caminhando com difficuldade, constantemente assentada,—em um largo banco de coiro que transportavam de peça em peça da casa,—ao lado da janella que deitava para a praça do engenho, e onde ficava a estribaria, o curral, e a pequena casa edificada para o meu mestre e que me servia de escola... Ella não largava nunca suas roupas de viuva. Meu padrinho, Joaquim Aurélio de Carvalho, fôra conhecido na provincia pelo seu luxo e liberalidade, de que ainda hoje se contam diversos rasgos. Estou vendo, através de tantos annos, a mobilia da entrada, onde ella costumava passar o dia. Nas paredes algumas gravuras coloridas representando o episodio de Ignez de Castro, entre as gaiolas dos curiós afamados, pelos quaes seu marido costumava dar o preço que lhe pedissem... ao lado em um armario envidraçado as pequenas edições portuguezas dos livros de devoção e das novellas do tempo. Minha madrinha occupava sempre a cabeceira de uma grande mesa de trabalho, onde jogava cartas, dava a tarefa para a costura e para as rendas a um numeroso pessoal, provava o ponto dos doces, examinava as tisanas para a enfermaria defronte, distribuia as peças de prata a seus afilhados e protegidos, recebia os amigos que vinham todas as semanas attrahidos pelos regalos de sua mesa e de sua hospitalidade, sempre rodeiada, adorada por toda sua gente, fingindo um ar severo que não enganava a ninguem quando era preciso reprehender alguma mucama que deixava a miudo os bilros e a almofada para chalrear no gyneceu, ou algum morador perdulario que recorria demasiado á sua bolsa. Parece que seu maior prazer era trocar uma parte das suas sobras em moedas de ouro que ella guardava sem que ninguem o soubesse sinão o seu liberto confidente para me entregar quando eu tivesse edade. Era a isso que ella chamava o seu invisivel. Por occasião da morte do servo de sua maior confiança, ella escrevia á minha mãe pela mão de outros: «Dou parte a V. Ex. e ao meu compadre que morreu o meu Elias, fazendo-me uma falta excessiva aos meus negocios. De tudo tomou conta, e sempre com aquella bondade e humildade sem parelha, e ficou a minha casa com elle no mesmo pé em que era no tempo do meu marido. Nem só fez falta a mim como a nosso filhinho que tinha um cuidado n’elle nunca visto. Apezar d’eu ter parentes a elle era a quem eu o entregava, porque si eu morresse para tomar conta do que eu lhe deixava para entregar a VV. EEx... Mas que hei de fazer, si Deus quiz?» Em outra carta, mais tarde, a ultima que possúo, ella volta á morte de Elias:—«... o meu Elias, o qual fez-me uma falta sensivel, tanto a mim como ao meu filhinho, porque tinha um cuidado n’elle maior possivel, como pelas festas que elle gosta de passear ia sempre entregue a elle... Deus me dê vida e saúde até o vêr mais crescido para lhe dar alguma coisa invisivel, como dizia o defunto seu compadre, pois só fiava isso do Elias, apezar de ter ficado o Victor, mano d’elle, que faço tambem toda a fiança n’elle...» Ah! querida e abençoada memoria, o thesouro accumulado parcella por parcella não veiu a minhas mãos, nem teria podido vir por uma transmissão destituida das fórmas legaes, como talvez tenhas pensado... mas imaginar-te, durante annos, n’essa tarefa agradavel aos teus velhos dias de ajuntar para teu afilhado que chamavas teu filho um peculio que lhe entregarias quando homem, ou outrem por ti a meu pae, si morresses deixando-me menor; acompanhar-te em tuas conversas com o teu servo fiel, n’essa preoccupação de amor de teus derradeiros annos, será sempre uma sensação tão inexprimivelmente doce que só ella bastaria para destruir para mim qualquer amargor da vida...

A noite da morte de minha madrinha é a cortina preta que separa do resto de minha vida a scena de minha infancia. Eu não imaginava nada, dormia no meu quarto com a minha velha ama, quando ladainhas entrecortadas de soluços me accordaram e me communicaram o terror de toda a casa. No corredor, moradores, libertos, os escravos, ajoelhados, rezavam, choravam, lastimavam-se em gritos; era a consternação mais sincera que se pudesse vêr, uma scena de naufragio; todo esse pequeno mundo, tal qual se havia formado durante duas ou tres gerações em torno d’aquelle centro, não existia mais depois d’ella: seu ultimo suspiro o tinha feito quebrar-se em pedaços. A mudança de senhor era o que havia mais terrivel na escravidão, sobretudo si se devia passar do poder nominal de uma velha santa, que não era mais sinão a enfermeira dos seus escravos, para as mãos de uma familia até então estranha. E como para os escravos, para os rendeiros, os empregados, os pobres, toda a gens que ella sustentava, a que fazia a distribuição diaria de rações, de soccorros, de remedios... Eu tambem tinha que partir de Massangana, deixado por minha madrinha a outro herdeiro, seu sobrinho e vizinho; a mim ella deixava um outro dos seus engenhos, que estava de fogo morto, isto é, sem escravos para o trabalhar... Ainda hoje vejo chegar, quasi no dia seguinte á morte, os carros de bois do novo proprietario... Era a minha deposição... Eu tinha oito annos. Meu pae pouco tempo depois me mandava buscar por um velho amigo, vindo do Rio de Janeiro. Distribui entre a gente da casatudo que possuia, meu cavallo, os animaes que me tinham sido dados, os objectos do meu uso. «O menino está mais satisfeito, escrevia a meu pae o amigo que devia levar-me, depois que eu lhe disse que a sua ama o acompanharia.» O que mais me pesava era ter que me separar dos que tinham protegido minha infancia, dos que me serviram com a dedicação que tinham por minha madrinha, e sobretudo entre elles os escravos que litteralmente sonhavam pertencer-me depois d’ella. Eu bem senti o contragolpe da sua esperança desenganada, no dia em que elles choravam, vendo-me partir espoliado, talvez o pensassem, da sua propriedade... Pela primeira vez sentiram elles, quem sabe, todo o amargo da sua condição e beberam-lhe a lia.

Mez e meio depois da morte de minha madrinha, eu deixava assim o meu paraiso perdido, mas pertencendo-lhe para sempre... Foi alli que eu cavei com as minhas pequenas mãos ignorantes esse poço da infancia, insondavel na sua pequenez, que refresca o deserto da vida e faz d’elle para sempre em certas horas um oasis seductor. As partes adquiridas do meu ser, o que devi a este ou áquelle, hão de dispersar-se em direcções differentes; o que, porém, recebi directamente de Deus, o verdadeiro eu sahido das suas mãos, este ficará preso ao canto de terra onde repousa aquella que me iniciou na vida. Foi graças a ella que o mundo me recebeu com um sorriso de tal doçura que todas as lagrimas imaginaveis não m’o fariam esquecer. Massangana ficou sendo a séde do meu oraculo intimo: para impellir-me, para deter-me e, sendo preciso, para resgatar-me, a voz, o fremito sagrado, viria sempre de lá. Mors omnia solvit... tudo, excepto o amor, que ella liga definitivamente.

Tornei a visitar doze annos depois a capellinha de S. Matheus onde minha madrinha, Dona Anna Rosa Falcão de Carvalho, jaz na parede ao lado do altar, e pela pequena sacristia abandonada penetrei no cercado onde eram enterrados os escravos... Cruzes, que talvez não existam mais, sobre montes de pedras escondidas pelas ortigas, era tudo quasi que restava da opulenta fabrica, como se chamava o quadro da escravatura... Em baixo, na planicie, brilhavam como outr’ora as manchas verdes dos grandes cannaviaes, mas a usina agora fumegava e assobiava com um vapor agudo, annunciando uma vida nova. A almanjarra desapparecera no passado. O trabalho livre tinha tomado o logar em grande parte do trabalho escravo. O engenho apresentava do lado do «porto» o aspecto de uma colonia; da casa velha não ficára vestigio... O sacrificio dos pobres negros que haviam incorporado as suas vidas ao futuro d’aquella propriedade, não existia mais talvez sinão na minha lembrança... Debaixo dos meus pés estava tudo o que restava d’elles, defronte dos columbaria onde dormiam na estreita capella aquelles que elles haviam amado e livremente servido. Sosinho alli, invoquei todas as minhas reminiscencias, chamei-os a muitos pelos nomes, aspirei no ar carregado de aromas agrestes, que entretem a vegetação sobre suas covas, o sopro que lhes dilatava o coração e lhes inspirava a sua alegria perpetua. Foi assim que o problema moral da escravidão se desenhou pela primeira vez aos meus olhos em sua nitidez perfeita e com sua solução obrigatoria. Não só esses escravos não se tinham queixado de sua senhora, como a tinham até o fim abençoado... A gratidão estava do lado de quem dava. Elles morreram acreditando-se os devedores... seu carinho não teria deixado germinar a mais leve suspeita de que o senhor pudesse ter uma obrigação para com elles, que lhe pertenciam... Deus conservára alli o coração do escravo, como o do animal fiel, longe do contacto com tudo que o pudesse revoltar contra a sua dedicação. Esse perdão espontaneo da divida do senhor pelos escravos figurou-se-me a amnistia para os paizes que cresceram pela escravidão, o meio de escaparem a um dos peiores taliões da historia... Oh! os Santos pretos! seriam elles os intercessores pela nossa infeliz terra, que regaram com seu sangue, mas abençoaram com seu amor! Eram essas as idéas que me vinham entre aquelles tumulos, para mim, todos elles, sagrados, e então alli mesmo, aos vinte annos, formei a resolução de votar a minha vida, si assim me fosse dado, ao serviço da raça generosa entre todas que a desegualdade da sua condição enternecia em vez de azedar e que por sua doçura no soffrimento emprestava até mesmo á oppressão de que era victima um reflexo de bondade...