XXI
A ABOLIÇÃO
Quando a campanha da abolição foi iniciada, restavam ainda quasi dois milhões de escravos, emquanto que os seus filhos de menos de oito annos e todos os que viessem a nascer, apezar de ingenuos, estavam sujeitos até aos vinte e um annos a um regimen praticamente egual ao captiveiro. Foi esse immenso bloco que atacámos em 1879, acreditando gastar a nossa vida sem chegar a entalhal-o. No fim de dez annos não restava delle sinão o pó. Tal resultado foi devido a muitas causas... Em primeiro logar, á epocha em que foi lançada a idéa. A humanidade estava por demais adeantada para que se pudesse ainda defender em principio a escravidão, como o haviam feito nos Estados-Unidos. A raça latina não tem dessas coragens. O sentimento de ser a ultima nação de escravos humilhava a nossa altivez e emulação de paiz novo. Depois, á fraqueza e á doçura do caracter nacional, ao qual o escravo tinha communicado sua bondade e a escravidão o seu relaxamento. Compare-se nesse ponto o que ella foi no Brasil com o que foi na America do Norte. No Brasil, a escravidão é uma fusão de raças; nos Estados-Unidos, é a guerra entre ellas. Nossos proprietarios emancipavam aos centos os seus escravos, em vez de se unirem para lynchar os abolicionistas, como fariam os criadores do Kentucky ou os plantadores da Luisiana. A causa abolicionista exercia sua seducção sobre a mocidade, a imprensa, a democracia; era um imperativo categorico para os magistrados e os padres; tinha affinidades profundas com o mundo operario e com o exercito, recrutado de preferencia entre os homens de côr; operava como um dissolvente sobre a massa dos partidos politicos, cujas rivalidades incitava com a honra que podia conferir aos estadistas que a emprehendessem, e á propria dynastia inspirava de modo espontaneo o sacrificio indispensavel para o successo.
Cinco acções ou concursos differentes cooperaram para o resultado final: 1.º a acção motora dos espiritos que creavam a opinião pela idéa, pela palavra, pelo sentimento, e que a faziam valer por meio do Parlamento, dos meetings, da imprensa, do ensino superior, do pulpito, dos tribunaes; 2.º a acção coerciva dos que se propunham a destruir materialmente o formidavel apparelho da escravidão, arrebatando os escravos ao poder dos senhores; 3.º a acção complementar dos proprios proprietarios, que, á medida que o movimento se precipitava, diminuiam diante delle as resistencias, libertando em massa as suas «fabricas»; 4.º a acção politica dos estadistas, representando as concessões do governo; 5.º a acção dynastica.
As duas primeiras categorias formavam circulos concentricos, compostos como eram em grande parte dos mesmos elementos. É a ellas que pertence o grosso do partido abolicionista, os leaders do movimento. Para collocar cada figura no plano que lhe convem com seu tamanho relativo seria preciso outro juiz. Tendo visto na lucta e no esforço cada um dos veteranos dessa campanha, eu não me perdoaria a mim mesmo a menor injustiça involuntaria que fizesse a qualquer delles. Dissentimentos profundos me separaram de muitos depois da victoria, mas o espirito de imparcialidade que me anima a respeito de cada um faz ainda parte da lealdade que acredito ter mantido perfeita durante a abolição para com todos os auxiliares d’ella, os da primeira como os da undecima hora. Não farei tão pouco o livro d’ouro da grande propriedade brasileira nessa quadra. Na categoria dos chefes politicos posso destacar, porém, tres estadistas que prestaram ao movimento em epochas differentes um concurso decisivo: Dantas, que primeiro collocou ao serviço della um dos partidos constitucionaes do paiz, o liberal, serviço da ordem do que Gladstone prestou á causa irlandeza; Antonio Prado, que retirou o veto de S. Paulo á abolição, quebrando assim a resistencia até então compacta do Sul, a porção mais rica do paiz, e João Alfredo, que levou o partido conservador a apresentar a lei da extincção immediata, acto que mesmo nessa epocha foi uma grande audacia, e que pelo estado e disposição geral da politica só podia ter sido obra delle mesmo. José Bonifacio, cuja adhesão á idéa foi um contingente egual á libertação do Ceará, Christiano Ottoni, Silveira da Motta, e outros, eu os contaria na primeira classe, a dos propagandistas.
É-me quasi impossivel fallar hoje da abolição sinão por incidentes e figuras destacadas... Tudo o que digo é sob a resalva de que teria muito mais que dizer; quando pronuncio um nome está subentendido que é apenas um de um extenso calendario, e que os diptycos de um e outro lado estão cheios... Quem fará d’entre os contemporaneos essa historia com imparcialidade, justeza e penetração, sem deixar entrar nella a paixão politica, o preconceito sectario, a fascinação ou sujeição pessoal? Ninguem, de certo, o que quer dizer que haverá no futuro diversas historias. A minha contribuição para o assumpto ha de um dia ser o meu archivo, e alguns fragmentos a respeito de diversos factos em que estive envolvido ou de que tive conhecimento directo... Esse trabalho, essa desobriga, ao mesmo tempo que depoimento pessoal, espero que Deus me dará tempo e modo de o fazer como planejo. Seria uma especie de chave para o periodo que encerra a éra monarchica.
Dentre aquelles com quem mais intimamente lidei em 1879 e 1880 e que formavam commigo um grupo homogeneo, a nossa pequena egreja, as principaes figuras eram André Rebouças, Gusmão Lobo e Joaquim Serra... A egreja fronteira era a de José do Patrocinio, Ferreira de Menezes, Vicente de Souza, Nicolau Moreira, depois João Clapp com a Confederação Abolicionista. Si eu estivesse escrevendo neste momento um escorço do movimento abolicionista de 1879-1888, já teria citado Jeronymo Sodré, que foi quem pronunciou o fiat, e passaria a citar os meus companheiros de Camara Manoel Pedro, Corrêa Rabello, S. de Barros Pimentel, e outros, porque o movimento começou na Camara em 1879, e não, como se tem dito, na Gazeta da Tarde de Ferreira de Menezes, que é de 1880, nem na Gazeta de Noticias, onde então José do Patrocinio, escrevendo a «Semana Politica», não fazia sinão nos apoiar e ainda não adivinhava a sua missão. De certo pelos escravos já vinham trabalhando Luiz Gama e outros, mesmo antes da lei de 1871, como trabalharam todos os collaboradores dessa lei; mas o movimento abolicionista de 1879 a 1888 é um movimento que tem o seu eixo proprio, sua formação distincta, e cujo principio, marcha, velocidade, são faceis de verificar; é um systema fluvial do qual se conhecem as nascentes, o volume d’agua e valor de cada tributario, as quedas, os rapidos, o estuario, e esse movimento começa, fóra de toda duvida, com o pronunciamento de Jeronymo Sodré em 1879 na Camara... Esse pronunciamento vem resolvido da Bahia e rebenta na Camara como uma manga d’agua, repentinamente. Nada absolutamente o fazia suspeitar... Ao acto de Jeronymo Sodré filia-se chronologicamente a minha attitude dias depois... Mais tarde é que entram Rebouças, Patrocinio, Gusmão Lobo, Menezes, Joaquim Serra... Isto não é apurar a data dos primeiros escriptos abolicionistas de cada um; os meus, por exemplo, datavam da Academia... É reivindicar para a Camara, para o Parlamento, a iniciativa que se lhe tem querido tirar nesta questão, dando-se-a ao elemento popular, republicano... É uma pura questão de datas; desde que se dér a data certa a cada facto allegado, verificar-se-á o autem genuit acima... Reconheço que a minha inscripção vem na ordem do tempo depois da de Jeronymo Sodré... As outras, porém, vieram depois da minha... Foi o movimento popular talvez que mais tarde incubou o germen parlamentar, não o deixando morrer nas Sessões seguintes, mas que o germen foi parlamentar, que o liber generationis começou em 1879 com Jeronymo Sodré, é o que se póde demonstrar com os proprios documentos, mesmo com aquelles em que se pretenda o contrario, uma vez que sejam authenticos... A questão de iniciativa aliás tem um interesse todo secundario, sobretudo quando a idéa está no ar e o espirito do tempo a agita por toda a parte. Não ha nada mais difficil do que avaliar a importancia relativa dos diversos factores de um movimento que se torna nacional. O ultimo dos apostolos póde vir a ser o primeiro de todos, como S. Paulo, em serviços e em proselytismo. Tudo na abolição prende-se, não se póde escrever-lhe a historia supprimindo qualquer dos seus élos... É um facto a reter: a compensação vae sempre além, muito além, dos prejuizos que ella soffre, e, d’esse modo, até elles a favorecem... Assim morre Ferreira de Menezes, mas Patrocinio toma a Gazeta da Tarde; a minoria abolicionista de 1879 não é reeleita, surge a Confederação Abolicionista; quando o Ceará conclue a sua obra, o Amazonas começa a d’elle; demittido um presidente de provincia (Theodureto Souto), é nomeado um Presidente do Conselho (Dantas); organizada a acção da policia, apparece a agitação no exercito; ás sevicias da Parahyba do Sul e de Cantagallo succede o combate do Cubatão; morto José Bonifacio, toma o seu logar em S. Paulo Antonio Prado; repellido pela Camara José Marianno, o Recife derrota o ministro do Imperio; vacillando o partido liberal, move-se o partido conservador; parte o Imperador, fica a Princeza... Ninguem afinal sabe quem fez mais pela abolição: si a propaganda, si a resistencia; si os que queriam tudo, si os que não queriam nada... Nada ha mais illusorio que as distribuições de gloria... As lendas hão de sempre viver, como raios de luz na treva amontoada do passado, mas a belleza d’ellas não está em sua verdade, que é sempre pequena; está no esforço que a humanidade faz para assim reter alguns episodios de uma vida tão extensa que para abrangel-a não ha memoria possivel...
Não posso sinão dar ao acaso algumas impressões por isso deixo, não sem constrangimento, de referir-me a nomes que entrariam em qualquer resumo, por mais curto que fosse, note-se bem, do começo da propaganda... Os dois grupos de que fallei, encontravam-se, trabalhavam juntos, misturavam-se, mas a linha divisoria era sensivel: um representava a acção politica, o outro a revolucionaria, ainda que cada um reflectisse por vezes a influencia do outro. Isso no tempo em que a idéa está sendo lançada, pois dentro de pouco o movimento torna-se geral, e então ha o influxo das provincias, ha o Ceará, o Amazonas, o Rio Grande do Sul, Pernambuco, a Bahia, S. Paulo, que surgem como grandes fócos de propaganda... O movimento abolicionista teve com effeito duas phases bem accentuadamente divididas: a primeira, de 1879 a 1884, em que os abolicionistas combateram sós, entregues aos seus proprios recursos, e a segunda, de 1884 a 1888, em que elles viram sua causa adoptada successivamente pelos dois grandes partidos do paiz. Em 1884 deu-se a conversão do partido liberal e em 1888 a do partido conservador. A phase puramente abolicionista da campanha,—por opposição á phase politica, que poderia entrar na historia dos dois partidos rivaes,—foi a primeira.
De todos, aquelle com quem mais intimamente vivi, com quem estabeleci uma verdadeira communhão de sentimento, foi André Rebouças... Nossa amizade foi por muito tempo a fusão de duas vidas em um só pensamento: a emancipação. Rebouças encarnou, como nenhum outro de nós, o espirito anti-esclavagista: o espirito inteiro, systematico, absoluto, sacrificando tudo, sem excepção, que lhe fosse contrario ou suspeito, não se contentando de tomar a questão por um só lado, olhando-a por todos, triangulando-a, por assim dizer,—era uma de suas expressões favoritas,—socialmente, moralmente, economicamente. Elle não tinha, para o publico, nem a palavra, nem o estylo, nem a acção; dir-se-ia assim que em um movimento dirigido por oradores, jornalistas, agitadores populares, não lhe podia caber papel algum saliente, no emtanto elle teve o mais bello de todos, e calculado por medidas estrictamente interiores, psychologicas, o maior, o papel primario, ainda que occulto, do motor, da inspiração que se repartia por todos,... não se o via quasi, de fóra, mas cada um dos que eram vistos estava olhando para elle, sentia-o comsigo, em si, regulava-se pelo seu gesto invisivel á multidão,... sabia que a consciencia capaz de resolver todos os problemas da causa só elle a tinha, que só elle entrava na sarça ardente e via o Eterno face a face... É-me tão impossivel resumil-o a elle em um traço como me seria impossivel figurar uma trajectoria infinita... Depois da abolição elle sempre teve o presentimento de que a escravidão causaria uma grande desgraça á dynastia, como assassinára a Lincoln. Seu maior amor talvez tenha sido pelos seus alumnos da Polytechnica, mas como todas as suas recordações d’ «a Escola» transformaram-se em outros tantos tormentos, quando os viu glorificando o 15 de Novembro, que para elle era a desforra de 13 de Maio!...
Do seu quarto no Hotel Bragança, em Petropolis, onde durante annos notára no seu diario a nossa pulsação commum, até o despenhadeiro do Funchal, que linha a que descreveu André Rebouças! Elle foi o cortezão do Alagôas... Um republicano, a quem veiu a tocar na hora da amargura o papel de discipulo amado do velho Imperador banido... Foi um industrial, um engenheiro ousado e triumphante, que acabou praticando o tolstoismo... Foi um genio mathematico, um sabio, que reduziu sua sciencia a uma serpentina em que de tudo distillava a abolição... Seu centro de gravidade foi verdadeiramente o sublime... Não posso ainda fallar d’elle em relação a mim, porque não o quizera fazer de modo incompleto... Prefiro mostral-o em relação ao Imperador. Aqui está uma dessas provas rapidas, photogenicas, que elle sabia tirar de si, e nas quaes os que viveram com elle reconhecem-lhe a physionomia, apanhada com toda a mobilidade da sua expressão e com a inalterabilidade do seu affecto humano. É por acaso que encontro esta carta d’elle:
«Cannes, 13 de maio de 1892.
«Meu Mestre e meu Imperador,—Não passará o 3º anniversario da Libertação da Raça Africana no Brazil sem que André Rebouças dê novo testemunho de filial gratidão ao Martyr sublime da Abolição.
«Sinto-me feliz por ter sido escolhido pelo Bom Deus para representar a devotação da Raça Africana a V. M. Imperial e á Princeza Redemptora, e alegro-me repetindo-o incessantemente.
«É hoje grato relembrar a synthese da nossa vida, como meu Bom Mestre disse no Alagôas quando commemorámos seu 64º anniversario.
«Principiou em Petropolis, em 1850, ha quarenta e um annos, examinando-me em arithmetica, ainda menino de collegio, e continuou, quasi quotidianamente, nas lições e nos exames das Escolas Militar, Central e de Applicação na fortaleza da Praia Vermelha até dezembro de 1860.
«Os annos de 1861 e 1862 foram de estudos praticos de caminho de ferro e de portos de mar na Europa. A primeira Memoria, escripta com o Antonio, datada de Marselha, em 9 de junho de 1861, foi dedicada, como de justiça, ao nosso Bom Mestre e Imperador... Quando Vossa Magestade encontrava meu Pai, suas palavras primeiras eram:—Como vão os meninos?—Onde estão agora?—Recommende-lhes sempre que estudem e que trabalhem.
«Voltámos ao Brazil em fins de 1862, e encetámos a vida pratica nos trabalhos militares de Santa Catharina, motivados pelo conflicto Christie.
«A 28 de dezembro de 1863 separei-me, pela primeira vez, do meu irmão Antonio... Começa d’ahi em diante o periodo industrial da minha vida...
«Vossa Magestade e meu Pai não queriam que eu tivesse uma orientação além da vida tranquilla da Sciencia e do Professorado; mas o Visconde de Itaborahy, que tambem me devotava affeição paternal, dizia:—André!... Quero que você succeda ao Mauá!...
«Sabe Vossa Magestade quanto soffri da oligarchia politicante e da plutocracia escravocrata nesses afanosos tempos... Só tenho hoje delles uma consolação:—Projectei e construi as Docas de Pedro II; concebi e dirigi o caminho de ferro Conde d’Eu e sua bella estação maritima do Cabedello.
«Vossa Magestade gosta de recordar que, em Uruguayana, salvámos juntos, pelo nosso horror ao sangue, 7000 Paraguayos e centenas de Brazileiros... Na actual antipathia ao Militarismo, apenas lembro-me dos trabalhos de Itapirú e Tuyuty.
«Em 1880 começa a Propaganda Abolicionista. Nós, tribunos ardentes, só tinhamos uma certeza e uma esperança:—o Imperador. Em 1871 havia Vossa Magestade concedido á Filha Predilecta libertar o berço dos captivos com Paranhos, Visconde do Rio Branco.
«Em 1888 a iniciativa partiu d’Aquella que não póde ver lagrimas nem ouvir soluços de pobres, de infelizes e de escravos, no amor santo de Martyr do Christianismo Inicial, aspirando menos á gloria na Terra do que anhelando a benemerencia no Ceu, junto a Jesus, o Redemptor dos Redemptores.
«Emfim... Creio que podemos esperar tranquillos o juizo de Deus; porque havemos cumprido sua grande Lei trabalhando pelo Progresso da Humanidade.
«Agora, só tenho a dizer-lhe que desde 15 de novembro de 1889 perdi a linha divisoria entre meu Pai e meu Mestre e Imperador, e que é na maior effusão de amor que me assigno,—Com todo o Coração—André Rebouças.
Ou este itinerario, que elle traçára para a fuga de escravos de S. Paulo para o Norte, pura phantasia, mas tão cheio para todos nós de vestigios de sua originalidade, de toques da sua generosa sensibilidade, quasi impessoal:
CAMINHO DE FERRO SUBTERRANEO
do
ALTO S. FRANCISCO AO CEARÁ LIVRE
Estação inicial... S. Paulo; junto ao tumulo de Luiz Gama.
Segunda Estação... Pirassinunga.
Terceira Estação... Cachoeira de Mogy-Guassú.
Quarta Estação... Era pleno sertão, com rumo de Nordéste; o Sol deve amanhecer á direita e cair, á tarde, á esquerda.
Quinta Estação... Piumhy, nascente do Rio S. Francisco, acompanhando sempre o bello rio, abundante de peixes e de fructos deliciosos.
Sexta Estação... De um lado Goyaz livre; do outro o sertão da Bahia, onde não ha capitães do mato.
Setima Estação... Na Villa da Barra, onde começam as grandes cachoeiras do S. Francisco.
Oitava Estação... No varadouro das aguas do S. Francisco para as do Parnahyba.
Nona Estação... No Paraiso,—no Ceará Livre.»
Mathematico e astronomo, botanico e geologo, industrial e moralista, hygienista e philanthropo, poeta e philosopho, Rebouças foi talvez dos homens nascidos no Brasil o unico universal pelo espirito e pelo coração... Pelo espirito teremos tido alguns, pelo coração outros; mas sómente elle foi capaz de reflectir em si ao mesmo tempo a universalidade dos conhecimentos e a dos sentimentos humanos. Quem sabe si não foi a imagem que partiu o espelho! «Delirante ovação dos meus alumnos, escrevia elle em 15 de maio de 1888 no seu diario. Annuncio-lhes o projecto de Triangulação Moral e Cadastral do Brasil. Voto de louvor pela Congregação. Nova ovação. Carregado pelos alumnos por todo o peristylo.» Da abolição elle foi o maior, não pela acção exterior, ou influencia directa sobre o movimento, mas pela força e altura da projecção cerebral, pela rotação vertiginosa de idéas e sensações em torno do eixo consumidor e candente, que era para elle o soffrimento do escravo. Era uma fornalha cosmica a que ardia nelle. Si Rebouças inda é visto no seu tempo como uma estrella de segunda grandeza, é porque estava mais longe do que todas... Dos Evangelistas da nossa boa nova elle é que teria por attributo a aguia... Ha no seu estylo e nos seus moldes muita coisa que lembra S. João... Idealista todo elle, é quasi só por symbolos que escreve... A ilha da Madeira foi a Pathmos de um apocalypse infelizmente perdido, porque suas ultimas paginas, voltado para o Sul, elle as escrevia, tomando por lettras as estrellas e as constellações. Sua lenda, porém, está feita, não ha perigo para elle de esquecimento: a lenda do seu desterro e de sua amizade a D. Pedro II.
Outro com quem vivi até sua morte em grande approximação de idéas, foi Joaquim Serra. Desde 1880 até a abolição elle não deixou passar um dia sem a sua linha... Minado por uma doença que não perdôa, salvava cada manhã o que bastasse de alegria para sorrir á esperança dos escravos, a qual viu crescer dia por dia durante esses dez annos como uma planta delicada que elle mesmo tivesse feito nascer... Feita a abolição, desabrochada a flôr, morria elle... E que morte! que saudade da mulher e dos filhos, da filhinha adorada, que não se queria afastar um instante d’elle! Serra cumpriu a sua tarefa com uma constancia e assiduidade a toda prova, sem dar uma falta, e com o mais perfeito espirito de abnegação e de lealdade... Renunciando os primeiros logares, elle mostrava, entretanto, de mais em mais uma agudeza de vista e uma clareza de expressão dignas de um verdadeiro leader. Eu mesmo, que acreditava conhecel-o, fui surprehendido pela ousadia da sua manobra, quando uma vez elle prometteu ao barão de Cotegipe todo o nosso apoio,—nós respondiamos uns pelos outros,—si fizesse concessões ao movimento. Ao contrario de Rebouças, Serra era um espirito politico, mas acima do seu partido, do qual fôra durante a opposição o mais serviçal dos auxiliares, collocava a nossa causa commum com uma sinceridade intima que nunca foi suspeitada... «Passamento do grande Joaquim Serra, escreve Rebouças no seu Diario em 29 de outubro de 1888, companheiro de Academia em 1854 e de lucta abolicionista de 1880-1888, o publicista que mais escreveu contra os escravocratas.» «Ninguem fez mais do que elle, escrevia Gusmão Lobo por sua morte... e quem fez tanto...?»
Gusmão Lobo... É outro nome do nosso circulo interior... Alguns dos que combateram juntos sem descanço, durante os primeiros cinco annos da propaganda, os quaes foram os annos do ostracismo politico e social da idéa, acreditaram sua tarefa, si não acabada, pelo menos grandemente alliviada no dia em que um grande partido no governo, com os seus quadros, sua influencia, seu eleitorado, sua imprensa, adoptou a causa de que elles eram até então os unicos arrimos... Entre esses está Gusmão Lobo, que não teria deixado a penna de combate, si não tivesse visto a bandeira que ella protegia, passar triumphante das mãos dos agitadores para as mãos de Presidentes do Conselho. Na epocha decisiva do movimento, aquella em que se teve de crear o impulso e de tornal-o mais forte do que a resistencia, isto é, em que se venceu virtualmente a campanha, os seus serviços foram inapreciaveis... Elle sósinho enchia com a emancipação o Jornal do Commercio desde a columna editorial, onde por toda a especie de habilidades, artificios e subtilezas, graças á boa vontade do dr. Luiz de Castro, conseguia ter a questão sempre em evidencia... Seu talento, seu estylo de escriptor, airoso, perfeito, prismatico, um dos mais bellos e mais espontaneos do nosso tempo, era verdadeiramente inexhaurivel... Elle achava solução para tudo, tinha os expedientes e as finuras, como tinha a plastica da expressão... Todo o seu trabalho foi anonymo e poderia assim passar despercebido de outra geração, si não restasse o testemunho unanime dos que trabalharam com elle... Era um assombro a variedade dos papeis que elle desempenhava na imprensa, incalculavel o valor da sua presença e conselho em nossas reuniões, e depois no intimo do gabinete Dantas. Seu nome está escripto, por toda a parte, nas paredes das Catacumbas em que o abolicionismo nascente viveu os primeiros cinco annos como uma pequena egreja perseguida, mas apparece cada vez mais raro á medida que a nova fé se vae tornando religião official. É um dos enigmas do nosso tempo,—enigma nacional, porque se prende á questão do emmurchecimento rapido de toda a flôr do paiz,—como semelhante talento renunciou mais tarde de repente a toda a ambição...
Não quero fazer a galeria da abolição, mas, como dei, vencido pela saudade, dois ou tres perfis, tão imperfeitos, de amigos, pagarei tambem o meu tributo a José do Patrocinio... Este é o representante do espirito revolucionario que com o espirito liberal e o espirito de governo fez a abolição, mas que foi mais forte do que elles, e acabou por os absorver e dominar... Sem o espirito governamental de homens como Dantas, Antonio Prado e João Alfredo, não se teria chegado pacificamente ao fim, nem tão cedo; sem o espirito humanitario, extreme de odios e tendencias politicas, a abolição teria degenerado em uma guerra de raças ou em um encontro de facções; sem o trabalho vario, inapreciavel, de cada um dos grandes factores provinciaes, que conservarão sua autonomia na historia, como o do Ceará, com João Cordeiro, o de S. Paulo com Antonio Bento, o de Pernambuco com João Ramos, tomando esses nomes como collectivos, o resultado teria sido differente e talvez funesto. O que Patrocinio, porém, representa é o fatum, é o irresistivel do movimento... Elle é uma mistura de Spartaco e de Camille Desmoulins... Os que luctavam sómente contra a escravidão, eram como os liberaes de 1789, da raça dos cegos de boa vontade, sinão voluntarios, que as revoluções empregam para lhes abrirem a primeira brecha... Patrocinio é a propria revolução. Si o abolicionismo no dia seguinte ao seu triumpho dispersou-se e logo depois uma parte delle alliou-se á grande propriedade contra a dynastia que elle tinha induzido ao sacrificio, é que o espirito que mais profundamente o agitou e revolveu, foi o espirito revolucionario que a sociedade abalada tinha deixado escapar pela primeira fenda dos seus alicerces... Patrocinio foi a expressão da sua epocha; em certo sentido, a figura representativa della...