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Minha formação

Chapter 27: XXIV NO VATICANO
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About This Book

O autor reúne memórias e ensaios que traçam a sua formação intelectual e moral desde a escola até a vida pública, enfatizando a influência familiar, os anos de estudo e a evolução das convicções políticas. Intercalam-se relatos de experiências pessoais, reflexões sobre a ação pública e observações de outros contextos nacionais, além de considerações estéticas sobre memória, impressão e a fruição da experiência. O tom combina rememoração íntima com análise crítica das circunstâncias que moldaram posturas cívicas, incluindo dúvidas, revisões e a decisão de afastar-se de certas lutas políticas.

XXIV
NO VATICANO

Um episodio da abolição, a minha ida a Roma em começo de 1888, contarei aqui, porque será um élo em minha vida, um toque insensivel de despertar para partes longamente adormecidas de minha consciencia.

Eu tinha sempre lastimado a neutralidade do clero perante a escravidão, o indifferentismo do seu contacto com ella... Para o fim, porém, a voz dos bispos se fez ouvir em um momento de inspiração. Por occasião do jubileu sacerdotal de Leão XIII, elles publicaram, quasi todos, pastoraes convidando os seus diocesanos a offerecer como dadiva ao Santo Padre cartas de liberdade. Esse appello dos prelados offerecia uma opportunidade ao partido abolicionista de pedir ao Soberano Pontifice a sua intervenção em favor dos escravos, e eu resolvi aproveital-a.


Eu acabára de ser eleito deputado pelo Recife, batendo o ministro do Imperio, e essa eleição soou como o dobre da resistencia escravista. Nos poucos dias que restavam da sessão parlamentar de 1887, vim ao Rio de Janeiro tomar assento na Camara, mas o objecto principal da minha vinda ao Rio era conseguir, e consegui, o pronunciamento moral do exercito contra a escravidão, a dissociação absoluta entre a força publica e as funcções dos antigos capitães de matto. Para occupar as férias parlamentares hesitei entre essa ida a Roma e uma viagem aos Estados-Unidos, onde o acolhimento que eu teria por intermedio dos antigos abolicionistas podia dar grande repercussão á nossa causa em todo o continente americano. Preferindo ir a Roma, fui levado sobretudo pela idéa de que uma manifestação do Santo Padre tocaria o sentimento religioso da Regente.

Era-me, de certo, permittido recorrer ao Papa, como a qualquer outro oraculo moral que pudesse inspirar a Princeza, fallar-lhe ao ideal e ao dever. Durante dez annos não visei a outra coisa sinão a captar o interesse da dynastia, e a accordar o sentimento do paiz. A opinião publica do mundo parecia-me uma arma legitima de usar em uma questão que era da humanidade toda e não sómente nossa. Para adquirir aquella arma fui a Lisbôa, a Madrid, a Pariz, a Londres, a Milão, ia agora a Roma, e si a escravidão tivesse tardado ainda a desapparecer, teria ido a Washington, a Nova-York, a Buenos-Aires, a Santiago, a toda parte onde uma sympathia nova por nossa causa pudesse apparecer, trazendo-lhe o prestigio da civilisação. Si havia falta de patriotismo em procurar crear no exterior,—tomado não como poder material, mas como o reflector moral universal, que é para nós,—uma opinião que nos chegasse depois espontaneamente com a grande voz da humanidade, não posso negar que fui um grande culpado... Teria sido o mesmo crime que o de W.L. Garrison desembarcando na Inglaterra para commovel-a contra a escravidão nos Estados-Unidos; o mesmo erro que o dos delegados dos diversos congressos internacionaes anti-esclavagistas. A consciencia, a sympathia humana é, porém, uma força que nunca é prohibido procurar chamar a si e pôr ao serviço do seu paiz ou da causa que se defende.

Chegando a Londres em Dezembro, em Janeiro parti para Roma com cartas do cardeal Manning, que a Anti-Slavery Society e Mr. Lilly, da União Catholica ingleza, me tinham obtido. Em Roma encontrei um apoio egualmente util, o do nosso ministro, o sr. Souza Corrêa, antigo collega e amigo meu. Elle poz-me logo em contacto com o Cardeal Secretario do Estado, que me acolheu de modo supremamente benevolo. Roma estava repleta de peregrinos por causa do jubileu, no Vaticano o trabalho era enorme; apezar d’isso, consegui abrir caminho até o Santo Padre. Em 16 de Janeiro eu apresentava o meu memorial ao Cardeal Rampolla. Hoje eu o teria redigido de outro modo, mas hoje não tenho mais o ardor do propagandista... Aqui estão alguns trechos d’essa supplica; por elles se verá que o meu appello não era sómente pelos escravos do Brasil, mas por toda a raça negra, pela Africa, d’onde pouco tempo depois devia surgir arrebatadamente a grande figura do cardeal Lavigerie:

«Sem excepção quasi, os bispos brasileiros declararam em pastoraes, que o modo mais digno e mais nobre de celebrar o anniversario sacerdotal de Leão XIII era para os possuidores darem liberdade aos seus escravos e para os outros membros da communhão empregarem em cartas de alforria os donativos que quizessem offerecer ao Santo Padre.

«O appello moralmente unanime dos nossos prelados não podia deixar de exercer a maior influencia sobre o movimento abolicionista, que já arrastava comsigo a opinião, e d’ahi seguiu-se uma manifestação religiosa e nacional, que pela sua propria grandeza mostra que a abolição no Brasil não é mais uma divergencia entre partidos politicos... Pela manumissão de multidões de escravos em nome do Santo Padre, o seu jubileu ficará sendo a elevação á liberdade de centenas de novas familias brasileiras.

«De todos os dons postos aos pés de Leão XIII o tributo do Brasil sob a fórma d’esses libertos christãos, que tomam de longe parte em sua glorificação universal, é talvez a unica offerta que terá feito derramar ao Santo Padre lagrimas de reconhecimento.

«Eis ahi, Eminencia Reverendissima, a esplendida occasião que se offerece ao Soberano Pontifice de interceder, de intervir, de ordenar em favor dos escravos brasileiros. D’essas cartas de alforria depositadas deante de seu augusto throno, Leão XIII póde fazer a semente da emancipação universal. Uma palavra de Sua Santidade aos senhores catholicos no interesse dos seus escravos, christãos como elles, não ficaria encerrada nos vastos limites do Brasil, teria a circumferencia mesma da religião, penetraria como uma mensagem divina por toda a parte onde a escravidão ainda existe no mundo.

«O Papa acaba de canonisar a Pedro Claver, o Apostolo dos Negros. Na epocha adeantada da civilisação em que vivemos, ha infelizmente ainda escravidão bastante no mundo para que Leão XIII possa accrescentar aos seus outros titulos o de Libertador dos Escravos.

«Alguns dos seus illustres predecessores procederam por vezes contra a escravidão; tendo esta por unica origem o trafico, está de facto comprehendida nas bullas que o condemnaram, mas os tempos em que esses immortaes Pontifices fallaram não são os nossos, a humanidade então não havia feito esforços para apagar o seu crime de tantos seculos contra a Africa, cuja raça infeliz parece destinada a soffrer, sob fórmas diversas do mesmo preconceito, a fatalidade da sua côr. Um acto de Leão XIII, generoso, ardente, inspirado na espontaneidade de sua alma, contra a maldição que pesa sobre aquella raça, seria um beneficio incalculavel.


«Nenhum pensamento politico intervem na supplica que dirijo ao Chefe do mundo catholico em favor dos mais infelizes dos seus filhos. Não quero sinão pôr o seu coração de pae em communicação directa com o d’elles. D’esse contacto da caridade com o martyrio não póde jorrar sinão a onda de misericordia que eu espero. Por ella o jubileu de Leão XIII será assignalado como uma data da redempção humana em toda a parte onde a raça negra se possa julgar a orphã de Deus».

Em 10 de Fevereiro seguinte, Sua Santidade concedia-me uma audiencia particular. Dei conta d’ella no mesmo dia, escrevendo para o Paiz... D’entre os papeis velhos que formam as parcellas de minha vida, a expressão é de uma carta do Imperador,—outro papel velho que é para mim uma reliquia,—este ha de ser sempre um dos mais preciosos: a emoção que elle guarda não poderia ser repetida, e é d’essas que augmentam á medida que os annos se afastam... Por isso o reproduzo agora:

«O Papa e a Escravidão.

«Tive hoje a honra de ser recebido em audiencia particular pelo Papa, e como essa audiencia me foi concedida com relação ao assumpto politico que me fez vir a Roma, não devo demorar a reconstrução da conversa que tive com Sua Santidade e que eu trouxe do Vaticano tachygraphada, photographada na memoria. Foi uma insigne benevolencia de Sua Santidade conceder-me tal audiencia em um tempo em que cada um dos seus momentos está de antemão empenhado aos bispos, arcebispos, e catholicos proeminentes, que lhe vêm trazer algum dom por occasião de seu jubileu.

«O Papa está constantemente a receber numerosas deputações influentes de todas as partes do mundo e dirige-se sempre a ellas com uma allocução animada. Esse accrescimo de trabalho ás suas constantes occupações de cada dia não deixa muito tempo de descanço ao Santo Padre, sobre quem os seus 78 annos, juntos á majestade da tiara, começam a pesar; no emtanto é nessas horas de repouso que Sua Santidade recebe individualmente os homens notaveis do mundo catholico e conversa com elles largamente sobre o assumpto pelo qual cada um se interessa.

«Eu, porém, era um desconhecido e não vinha trazer nada ao Papa, vinha só pedir-lhe; nenhum serviço tinha prestado nunca á Egreja, e a questão que me occupava, exigia que Sua Santidade lesse antes uma série de documentos e fizesse alguma meditação sobre a grave resposta que me ia dar. Isto era um esforço, e, nas circumstancias especiaes do jubileu, a attenção a mim prestada pela mais alta de todas as individualidades humanas é um acto a que ligo ainda maior apreço e reconhecimento por saber que na minha humilde pessôa foi aos escravos do Brasil que Leão XIII quiz acolher paternalmente e fazel-os chegar até ao seu augusto throno, como, symbolicamente, o mais elevado de todos os logares de refugio.

«O Papa recebe em audiencia particular, sem testemunha alguma. Ninguém está na sala sinão elle e a pessôa a quem a audiencia é concedida. Em uma sala contigua está um secretario e um official da guarda, mas uma vez introduzido no pequeno salão, o visitante acha-se a portas fechadas em presença sómente de Leão XIII. O Papa, que lia um livro de versos latinos quando fui annunciado, mandou que me assentasse numa cadeira ao lado da sua e perguntou-me em que lingua devia fallar-me. Eu preferi o francez.

«A impressão que senti todo o tempo da audiencia, que não durou menos de tres quartos de hora, não se parece com a sensação causada pela presença de um dos grandes soberanos do mundo. O throno brasileiro é uma excepção. Nunca no Brasil houve homem tão accessivel como o Imperador, nem casa tão aberta como S. Christovão. Mas os monarchas em geral são educados e crescem, porque a sua condição é superior á do resto dos homens, na crença de que são melhores do que a humanidade. A todas as vantagens do Papado como instituição monarchica, notavelmente a electividade, é preciso accrescentar essa superioridade do Papa sobre os outros soberanos, que estes nascem, vivem e morrem no throno, e que os Papas só chegam á realeza nos ultimos annos da vida, isto é, que vivem toda a vida como homens e no throno não fazem quasi sinão coroar a sua carreira. Esse caracter humano da realeza pontificia é a condição principal de seu prestigio, assim como a electividade é a condição da sua duração illimitada e o espirito religioso a da sua selecção moral. Eu diria mesmo que a sós com o Papa a impressão é antes a do confessionario que a dos degráus do throno, si ao mesmo tempo não houvesse na franqueza e na reserva de Sua Santidade alguma coisa que exclue desde o principio a idéa de que alli esteja o confessor interessado em descobrir o fundo da alma do seu interlocutor. A impressão dominante é, entretanto, de confiança absoluta, como si, entre aquellas quatro paredes, tudo o que se pudesse dizer ao Summo Pontifice tomasse caracter de uma conversa intima com Deus, de quem estivesse alli o interprete e o medianeiro.

«As palavras que cahiram dos labios do Santo Padre, gravaram-se-me na memoria, e não creio que se apaguem mais, nem creio que eu deixe de ouvir a voz e o tom firme com que foram ditas. O Papa começou notando que elle me havia demorado muito tempo em Roma, mas que eram numerosos os seus deveres nesse momento, ao que respondi que o meu tempo não podia ser melhor empregado do que em esperar a palavra de Sua Santidade.—«Eu ia aos Estados-Unidos, disse eu a Leão XIII, onde está a maior parte da raça negra da America; mas quando os nossos bispos começaram a fallar com deliberação e de commum accordo a proposito do jubileu de Vossa Santidade e a pedir a emancipação dos escravos como o melhor e mais alto modo de o solemnisar no Brasil, pensei que devia antes de tudo vir a Roma pedir a Vossa Santidade que completasse a obra daquelles prelados, condemnando, em nome da Egreja, a escravidão. Conseguindo isto de Vossa Santidade, nós, abolicionistas, teriamos conseguido um ponto de apoio na consciencia catholica do paiz, que seria da maior vantagem para a realisação completa da nossa esperança.»

«Sua Santidade respondeu-me:—Ce que vous avez à cœur, l’Eglise aussi l’a à cœur. A escravidão está condemnada pela Egreja e já devia ha muito tempo ter acabado. O homem não póde ser escravo do homem. Todos são egualmente filhos de Deus, des enfants de Dieu. Senti-me vivamente tocado pela acção dos bispos, que approvo completamente, por terem de accordo com os catholicos do Brasil escolhido o meu jubileu sacerdotal para essa grande iniciativa... É preciso agora aproveitar a iniciativa dos bispos para apressar a emancipação. Vou fallar nesse sentido. Si a encyclica apparecerá no mez que vem ou depois de Paschoa, não posso ainda dizer...

«—O que nós quizeramos, observei, era que Vossa Santidade fallasse de modo que a sua voz chegasse ao Brasil antes da abertura do Parlamento, que tem logar em Maio. A palavra de Vossa Santidade exerceria a maior influencia no animo do governo e da pequena parte do paiz que não quer ainda acompanhar o movimento nacional. Nós esperamos que Vossa Santidade diga uma palavra que prenda a consciencia de todos os verdadeiros catholicos.

«—Ce mot je le dirai, vous pouvez en être sûr, respondeu-me o Papa, e quando o Papa tiver fallado, todos os catholicos terão que obedecer

«Estas ultimas palavras o Papa m’as repetiu duas ou tres vezes, sempre na forma impessoal; não:—quando eu tiver fallado, mas sempre:—quando o Papa tiver fallado.

«Acredito ter sido absolutamente leal para com os meus adversarios na exposição que fiz em seguida á Sua Santidade da marcha da questão abolicionista no Brasil. O Papa fez-me diversas perguntas, a cada uma das quaes respondi com a completa lealdade que devia primeiro ao Papa, e depois aos meus compatriotas. Descrevi o movimento abolicionista no Brasil, como tendo-se tornado proeminentemente um movimento da propria classe dos proprietarios, e dei, como devia, e é justo, aos operarios desinteressados da ultima hora a maior parte na solução definitiva do problema, que sem a sua generosidade seria insoluvel.

«Referi-me á brilhante acção do Sr. Prado e ao effeito moral do nobre pronunciamento do Sr. Moreira de Barros como factos do maior alcance. Expuz como não havia na historia do mundo exemplo de humanidade de uma grande classe egual á desistencia feita pelos senhores brasileiros dos seus titulos de propriedade escrava. Disse que essa era a prova real de que a escravidão no Brasil tinha sido sempre uma instituição estrangeira, alheia ao espirito nacional, o que é ainda confirmado, (isto não disse ao Papa), pelo facto de que os estrangeiros no Brasil foram, e são ainda hoje, de toda a communhão, os que menos sympathia mostraram ao movimento libertador. Quanto á Familia Imperial, repeti ao Summo Pontifice que o que ha feito em nossa lei a favor dos escravos, é devido á iniciativa e imposição do Imperador, ainda que seja pouco. «—Uma dynastia, accrescentei, tem interesses materiaes que dependem do apoio de todas as classes e não póde affrontar a má vontade de nenhuma, muito menos da mais poderosa de todas. O Papado, porém, não depende de nenhuma classe, por isso colloca-se no ponto de vista da moral absoluta, que nenhuma dynastia póde tomar sem destruir-se». Fallando do actual Presidente do Conselho, disse a Sua Santidade que elle era um homem a quem a Egreja no Brasil devia muito por ter sido elle o principal auctor da amnistia, que poz termo ao conflicto de 1873, mas que, nessa questão, não tinhamos motivo para suppôr que elle quizesse ir além da lei actual, o que era positivamente contrario ao desejo unanime da nação.—«Eu, porém, accrescentei, não peço a Vossa Santidade um acto politico, ainda que as consequencias politicas que a nação ha de sem duvida tirar do acto que imploro, sejam incontestaveis. Felizmente, Vossa Santidade está em uma posição donde não vê os partidos, mas só os principios. O que nós queremos é um mandamento moral, é a lição da Egreja sobre a liberdade do homem. Não ha governo no mundo que possa ter a pretenção de que o Papa, ao estabelecer um principio de moral universal, pare para considerar si esse principio está de accordo ou em conflicto com os interesses politicos d’esse governo. Agora mesmo um sacerdote brasileiro foi preso por acoitar escravos. Nós, abolicionistas, por toda parte acoitamos escravos. Fazemos o que faziam os bispos da média edade com os servos. O sentimento da nação, isto posso affirmar a Vossa Santidade, é unanime, e a palavra do chefe da Egreja não encontraria ninguem para disputal-a.»

«O Papa então repetiu-me que a sua encyclica abundaria nos sentimentos do Evangelho, que a causa era tão sua como nossa, e que o governo mesmo veria que era de boa politica reconhecer a liberdade a que todo o filho de Deus tem direito pelo seu proprio nascimento, e que o Papa fallaria ao mesmo tempo que da liberdade, da necessidade de educar religiosamente essa massa de infelizes, privados até hoje de instrucção moral.

«O cardeal Czacki me tinha fallado egualmente no dever de dar educação moral aos libertos, e n’esse sentido parece que na America do Norte e nas Antilhas o catholicismo vae tentar um grande esforço. Sympathisando com o principio da nossa propaganda abolicionista e pondo em relevo a responsabilidade que nós, abolicionistas, haviamos contrahido, o cardeal Czacki poz o dedo no que é a ferida da raça negra, ainda mais degradada talvez do que opprimida, e, do ponto de vista catholico, me disse que não havia outro meio para fazer d’esses escravos de hontem homens moralisados, sinão espalhar largamente entre elles a educação religiosa que não tiveram nunca. Como respondi ao cardeal, assim respondi ao Papa. «—Antes de começar o movimento abolicionista em 1879, disse eu ao Summo Pontifice, o partido liberal a que pertenço, em consequencia da lucta com os bispos em 1873, lucta sobre a qual os conservadores haviam pronunciado a amnistia, achava-se principalmente voltado para medidas de secularisação dos actos da vida civil, quasi todos ainda confiados entre nós á Egreja. Com essas medidas desenvolveu-se mesmo um estado de guerra entre o liberalismo e a Egreja. Desde que começou o movimento abolicionista, entretanto, morreram todas as outras questões, e litteralmente ha nove annos não se tem tratado de outra coisa no paiz. Estabeleceu-se então uma verdadeira tregua de Deus entre homens de todos os modos de sentir e pensar a respeito das outras questões. O primeiro que na Camara elevou a voz para pedir a abolição immediata, o deputado Jeronymo Sodré, é um catholico proeminente. O co-proprietario do jornal abolicionista de Pernambuco, que sustenta a minha politica, é o presidente de uma sociedade catholica, o Sr. Gomes de Mattos. Os bispos e os abolicionistas trabalham agora de commum accordo. Essa tregua tem durado até hoje sem perturbação, e espero que dure por muito tempo ainda. Abolida a escravidão, resta proteger o escravo livre. Nesse campo nada em nossas leis impede que a Egreja entre em concurrencia para obter a clientela da raça que tiver ajudado a resgastar. Não seremos nós, abolicionistas, que havemos de impedir a approximação entre os novos cidadãos e a unica religião capaz de os conquistar para a civilisação. As vistas do paiz voltar-se-ão para as outras questões do melhoramento da condição do povo, da creação da vida local, em que póde e deve continuar a tregua, ou melhor, a alliança. Si a Egreja conseguir recommendar-se ao reconhecimento da raça escrava, concorrendo para o seu resgate, os abolicionistas por certo não lhes hão de aconselhar a ingratidão.»

«O Papa ouviu-me todo o tempo com a maior sympathia e justificou-me de ter pedido mais do que o cardeal Manning julgára razoavel que eu pedisse. Sua Eminencia, cora effeito, aconselhou-me a pedir ao Papa a repromulgação das Bullas de alguns dos seus antecessores e eu pedi um acto pessoal de Leão XIII.—«As circumstancias mudam, disse-me o Papa, os tempos não são os mesmos; quando essas Bullas foram publicadas, a escravidão era forte no mundo, hoje ella está felizmente acabada.»

«—O acto de Vossa Santidade, disse-lhe eu, terminando, será uma pagina da historia da civilisação christã que illustrará o seu pontificado... Sua encyclica levantar-se-á tão alto aos olhos do mundo, dominando o movimento da abolição como a cupula de S. Pedro sobre a Campanha Romana.»

«Ahi está mais ou menos reproduzida a longa audiencia particular que Leão XIII me fez a excelsa honra de conceder-me, e que Sua Santidade terminou com uma benção especial para a causa dos escravos. Eu antes havia enviado ao sub-secretario de Estado, monsenhor Mocenni, a recente pastoral do bispo do Rio, sentindo não ter podido encontrar os numeros do Paiz em que appareceram as dos outros prelados. Assim mesmo tive a fortuna de achar em retalho as pastoraes dos bispos de Marianna, do Rio Grande do Sul e do arcebispo da Bahia, que todas foram enviadas ao cardeal Rampolla. A admiravel carta do bispo de Diamantina, á qual especialmente me referi, quando fallei ao Papa, não a pude encontrar. Com a encyclica promettida e já annunciada por toda a Europa, essas pastoraes formariam um bello livro de fraternidade humana.

«A demora que tive em Roma impede-me de voltar pelos Estados-Unidos, porque não teria mais tempo de preencher qualquer dos fins com que ia á grande Republica. Mas estou satisfeito, contente. A palavra do Papa terá para todos os catholicos maior influencia do que poderia ter qualquer outra manifestação em favor dos escravos. Nenhuma consciencia recusará ao chefe da religião o direito de pronunciar-se sobre um facto como a escravidão, que estabelece um vinculo entre o senhor e o escravo, equivalente a entrelaçar-lhes para sempre as almas e as responsabilidades. Na maneira de se exprimir de Leão XIII não vi a minima vacillação, a mais leve preoccupação de torcer o ensinamento moral para adaptal-o ás circumstancias politicas. Vi tão sómente a consciencia moral brilhando, como um pharol, com uma luz indifferente aos naufragios dos que não se guiarem por ella.

«Roma, 10 de Fevereiro de 1888.»


Como o cardeal Czaki tinha tido razão de dizer que eu ia levar ao Papa um verdadeiro bon-bon!... Infelizmente, a diplomacia envolveu-se na questão, o ministerio conservador alarmou-se com a intenção manifestada pelo Papa, e conseguiu demorar a Encyclica... A curta demora foi bastante para ella só apparecer depois de abolida a escravidão no Brasil... Entre a queda de Cotegipe e a abolição o espaço foi tão pequeno que a bella obra de Leão XIII só veiu a ser publicada quando não havia mais escravos no Brasil. A benção, porém, do Santo Padre á nossa causa, a palavra que elle ia proferir, essas desde os fins de Fevereiro, ainda sob o gabinete Cotegipe, o paiz as conheceu pelas minhas revelações... A surpreza da emancipação total foi tão agradavel a Leão XIII que, como post-scriptum á sua carta lapidaria sobre a escravidão, elle mandou á Princeza Imperial a Rosa de Ouro.

Meu papel foi, como se viu, muito humilde. Simples portador para o cardeal Rampolla e monsenhor Mocenni das cartas de apresentação do cardeal Manning, eu não fiz, apresentando a Leão XIII as pastoraes dos nossos bispos sobre o seu jubileu, sinão offerecer-lhe um assumpto a todos os respeitos digno d’elle... A imaginação do Papa abrangeu logo toda a grandeza do serviço que elle podia prestar á humanidade, o thema incomparavel proporcionado ás suas lettras... Si de alguma coisa me posso lisonjear é de ter ligado como uma aspiração commum á causa dos escravos no Brasil a causa da Africa... Poucos mezes depois do pronunciamento que suppliquei ao Santo Padre, chegará a Roma o cardeal Lavigerie e o Papa o investirá na cruzada africana que foi a nobre coroação da sua vida... Em uma carta da Anti-Slavery Society Mr. Charles Allen fez-me a honra de dizer que fui eu que preparei junto ao Papa o caminho para Mgr. Lavigerie... Nos discursos do grande apostolo d’Africa, no que elle disse tantas vezes ex abundantia cordis, o que se vê é que, quando elle chegou a Roma, Leão XIII estava possuido, dominado, inflammado do fervor anti-esclavagista... A parte que me coube em tudo isso foi apenas a de ser quem,—na occasião do seu jubileu sacerdotal e da canonisação de São Pedro Claver, occasião tão favoravel para o desabrochar d’essa e de outras generosas iniciativas e aspirações de reinado,—teve a fortuna de attrahir o grande espirito de Leão XIII, disputado por tantas solicitações, para o problema que mais o podia fascinar.


Foi bem forte a impressão que eu trouxe de Roma... Nos fins de Abril, não se sabendo ainda até onde iria a reforma annunciada pelo novo gabinete João Alfredo, assisto á festa da libertação em massa de uma fazenda do Parahyba e a lembrança que me occorre é a das maravilhas do Vaticano... Que emoções essas da abolição! Como tudo se fundia em uma mesma nota, mysteriosa e intima, como si tivessemos em nós nesses momentos o coração dos escravos em vez do nosso proprio! É este o trecho em que descrevi aquella emoção da Bella Alliança...

«Ha tres mezes tive a fortuna de assistir á missa do Papa na Capella Sixtina. Nesse tempo eu não esperava que a hora da abolição estivesse tão prestes a soar, e tinha ido pedir a Leão XIII, na desconfiança de que a Regencia era um vice-reinado e o vice-reinado da escravidão, uma palavra que movesse o sentimento religioso da Princeza... Como eu estava enganado e quem não estava a começar pelo proprio Presidente do Conselho! Durante aquella missa, em que tudo para mim era novo, e quando o vulto do Papa entre os cardeaes prendia todas as attenções, por entre a musica da Sixtina, ouvindo a qual sente-se que a voz humana é o unico de todos os instrumentos que sóbe além da terra, eu pelo menos não podia tirar os olhos d’esse tecto, que é a maior pagina do bello escripta pelo homem... Que opportunidade unica a de tal cerimonia e de tal acompanhamento para relêr a biblia de Miguel-Angelo e decorar o seu poema da creação!... Pois bem, a missa da Bella Alliança renovou-me a emoção infinita da Sixtina... Havia n’ella outros tantos elementos de grandeza combinados... Não havia o Summo Pontifice, nem o côro angelico, nem os frescos de Miguel-Angelo... Estava alli, porém, o representante do Papa abençoando em nome d’elle a reconciliação das duas raças; havia lagrimas em todos os olhos, a anciedade, egualmente apprehensiva para todos, os que iam dar e os que iam receber a liberdade, e para nós a mais suave de todas as sensações possiveis: a de vêr recuar as trevas da escravidão do rosto de uma raça, esse grande fiat lux, vêr o barro hontem informe, o escravo, accordar homem, como o Adão de Miguel-Angelo, na claridade matinal da creação... O pensamento voltava quasi quatro seculos atraz, á primeira missa dita no Brazil, quando elle tomou o nome de Terra de Santa-Cruz... Quatro seculos para a cruz recuperar o seu verdadeiro sentido de symbolo da redempção e para a missa significar o sacrificio de Deus pelo homem!... Vendo deante d’elles aquella a quem iam dever a liberdade, e olhando para a Senhora da Piedade no nicho do altar, os escravos na confusão dos seus dois grandes reconhecimentos deviam ter sentido os rubis, como lagrimas de sangue, do resplendor da mãe de Deus, baixar um momento sobre a cabeça da sua redemptora ajoelhada[4]...»

[4] A senhora a quem me referia era uma compatriota nossa, que casára em Pariz com um joven e elegante russo. Ha della um admiravel retrato em tamanho natural, obra de Richter. A suavidade e doçura de Madame Haritoff, a tão popular Dona Nicota, emprestavam-lhe uma belleza toda de expressão, que com seus longos cabellos pretos, seus grandes olhos luminosos, sua tez de um moreno mate, e a graça de seu corpo, tinha para os estrangeiros um caracter especial, distinctamente brasileiro.

Ah! os tempos em que se escrevia assim! em que o coração, e só o coração, era que fazia o dictado, e tão rapido que a penna não o podia acompanhar. Para mim teria sido uma diminuição sensivel da emoção humana que a campanha abolicionista me causou, si eu não tivesse essa pagina da minha ida a Roma para relêr, esse encontro comnosco da sympathia e do fervor de Leão XIII. Porque tão tarde tive eu a idéa d’esse appello, que devêra talvez ter sido o primeiro? Quero crer que na abolição, tão subita foi ella, tudo veiu a tempo... A lembrança d’essa visita a Roma seguida tão de perto do fim da escravidão e da queda da monarchia, que era o termo forçado da minha carreira politica, não podia deixar de crescer no vazio da minha tarefa acabada e da impossibilidade de assumir outra equivalente... Uma nova vida vae datar d’aquellas impressões religiosas assim assimiladas no ardor de um combate que devia encerrar e resumir a minha vida militante... Uma nova camada de minha formação desenha-se insensivelmente desde esse meu momentaneo contacto com Leão XIII,—ou por outra a camada primitiva começa a descobrir-se depois de perdido por tão longos annos o veio de ouro da infancia... Qualquer que seja a verdade theologica, acredito que Deus nos levará de algum modo em conta a utilidade pratica de nossa existencia, e emquanto o captiveiro existisse, estou convencido de que não eu poderia dar melhor emprego á minha do que combatendo-o. Essa vida exterior, eu sei bem, não póde substituir a vida interior, mesmo quando o espirito de caridade, o amor humano, nos animasse sempre em nosso trabalho. A satisfação de realisar, por mais humilde que seja a esphera de cada um, uma parcella de bem para outrem, de ajudar a illuminar com um raio, quando não fosse sinão de esperança, vidas escuras e subterraneas como eram as dos escravos, é uma alegria intensa que apaga por si só a lembrança das privações pessoaes e preserva da inveja e da decepção. Essa alegria todos que tomaram parte no movimento abolicionista devem tel-a sentido por egual. Emquanto a lucta contra a escravidão durasse, penso que a religião não sahiria para mim do estado latente de acção humanitaria... Muitas vezes mesmo, a religião não consegue desprender-se da tarefa ordinaria da vida, e é sómente quando essa tarefa acaba ou se interrompe que as perquisições interiores começam, que se quer penetrar o mysterio, que se sente a necessidade de uma crença que explique a vida. Até lá basta o proprio papel que desempenhamos; o critico não apparece sob o actor; a duvida não distráe da acção exterior continua. Emquanto se é um simples instrumento, por pequeno que seja o circulo traçado em torno de nós, a imaginação se encerra nelle, e a vida interior não se insinua siquer á consciencia... A acção é uma distracção. E só acabada ella que em certa ordem de espiritos as affinidades superiores se pronunciam... Quero crer, para os que succumbem nessa phase, que o beneficio que elles possam fazer elimine parte da impureza que carregam em sua inconsciencia moral, ou religiosa,—o que é o mesmo, e aida peior... Não posso hoje pensar na minha ida a Roma em 1888 sem sentir que então germens esquecidos nos primeiros sulcos da meninice reviveram, para germinar mais tarde ao calor de outras influencias... Não fui em vão a Roma, do ponto de vista do meu sentimento religioso...