XXV
O BARÃO DE TAUTPHŒUS
Nenhuma influencia singular actuou sobre mim mais do que a de meu mestre, o velho barão de Tautphœus. Com sua imaginação toda tomada pela historia, elle costumava nos annos de meu ardente liberalismo chamar-me Alcibiades. Certamente elle realisava para mim o typo de Socrates. Si não trazia a mascara de Sileno emprestada ao grande atheniense, mesmo physicamente, sobretudo para a velhice, elle tinha muitos dos traços socraticos: a coragem fria, a calma imperturbavel, a resistencia á fadiga, o gosto da palestra, da conversação intellectual, da companhia dos moços, a completa abstracção de si, a modestia, a alegria de viver como espectador do Universo, cedendo sempre todavia aos outros o melhor logar, o forte espiritualismo, a indifferença pelo ridiculo, o respeito da ordem social, quem quer que a encarnasse. Sua mocidade é um tanto legendaria ainda, e nada seria mais interessante do que apurar os factos a respeito d’ella. O que ouvi por vezes a meu irmão Sizenando,—esse tinha por Tautphœus uma admiração enthusiastica e conviveu com elle muito mais intimamente do que eu, a quem em compensação elle deu o melhor de seus ultimos dias, suas derradeiras tardes,—foi que, joven, Tautphœus, antes forçado a expatriar-se da Baviera por motivo revolucionario, acompanhára o rei Othon á Grecia, depois viera viver em Pariz, nas vizinhanças do anno 30, e frequentava a pleiade liberal do Journal des Débats até que emigrou para o Brazil.
Muito myope, usava de um vidro quadrado, que pelo habito continuo da leitura como que se collocava automaticamente; e ainda menos do que o monoculo, deixava elle o charuto... Sempre com um grosso volume allemão debaixo do braço, caminhava horas inteiras no mesmo andar, alheio ao mundo exterior... Era um homem que sabia tudo. Sua conversação era inexgottavel, e raro elle mesmo a dirigia. O assumpto lhe era indifferente, e até o fim, annos seguidos, dia após dia, nunca elle se encontrou sinão com interlocutores curiosos de ouvil-o sobre os pontos que mais lhes interessavam. Era litteralmente como um diccionario que a cada instante alguem manuseasse, ou uma encyclopedia que um abrisse no artigo Babylonia, logo outros nos artigos Invasão dos Barbaros, Adam Smith, Luthero, Hieroglyphos, Logarithmos, Amazonas, Architectura Gothica, Liberdade de Testar, Raizes Gregas, Papel-Moeda, Culturas Tropicaes, Alberto Dürer, Divina Comedia, ao acaso. Era sómente ferir a tecla, pôr a pergunta no apparelho, e esperar o desenrolar da resposta, como a que daria o Lexicon de Meyer, ou a Historia Universal de Cesar Cantu. Elle fallava de um modo uniforme, sem emphase, sem colorido, sem expressão mesmo, mas era um jorrar sem fim de sciencia, de erudição, como si n’aquelle mesmo dia tivesse estado a estudar o assumpto. Nada mais differente da ostentação frivola de sciencia com que tanta gente se apraz em deslumbrar o ouvinte que lhe offerece inadvertidamente um assumpto ao seu alcance, do que essas dissertações scientificas, up to date, a que Tautphœus se entregava perante os seus discipulos, que todos o ficavam sendo, para sempre, jornalistas, professores, ministros de Estado que fossem...
A abundancia de idéas geraes, de pontos de vista suggestivos, de materia para reflexão em sua conversa, era notavel. Póde-se dizer que esse homem que não escreveu nunca, pelo menos no Brasil, publicou maior numero de ensaios, de theses historicas e outras, do que todos os nossos escriptores juntos: unicamente suas continuas edições tiradas a pequeno numero de exemplares dissipavam-se como a palavra, quando não eram convertidas em trabalho alheio. Que lhe importava isto? Elle era destituido de ambição. Esse respeitador por systema da ordem hierarchica e da pragmatica social, que nunca levou a mal que os poderes de um dia se considerassem seus superiores, que os afidalgados da vespera olhassem com desdem para o seu titulo hereditario, vendo-o mestre de meninos, era um sabio da Grecia, praticando com o espirito e a inteireza pagã a philosophia do Ecclesiaste: Vanitas vanitatum... Desde muito cedo elle adquiriu a esse respeito a perfeita immunidade. Tendo que ganhar a vida em paiz estrangeiro por meio de lições, enterrou tudo que pudesse restar-lhe dos velhos preconceitos aristocraticos de seu paiz, das aspirações á elegancia, á vida de prazer, ostentação, e successos mundanos da sua mocidade em Pariz, entrou no papel que lhe fôra distribuido com a mesma simplicidade como si o recebesse por herança... em uma palavra, sem resentimento, sem queixa, sem murmurio. Bebeu a agua da Carioca com o mesmo espirito de conformação com que teria bebido a agua do Lethes... Esqueceu-se de si mesmo para entrar em seu novo destino... Mas tambem desde logo como elle penetrou os mais intimos refolhos e singularidades do paiz que devia ser sua segunda patria, e que elle amou como tal! Sua posição era involuntariamente considerada subalterna ainda pelos mais capazes de comprehender,—o que não é o mesmo que sentir,—a profissão do creador intellectual como essencialmente nobre. Elle, porém, movia-se indifferente no meio da arlequinada social, sabendo bem que no mundo, ninguem o disse melhor do que Calderon, todos sonham o que são.
Mas que profundeza no sentir! Si todo o mundo estava fóra do seu logar,—elle não pretendia isso, pelo contrario, pensava que a distribuição era justa, que as posições e responsabilidades eram dadas aos melhores, sómente estes não faziam o melhor, não procuravam dar o mais que podiam,—quando todo o mundo estivesse, elle ao menos queria estar no seu... Conservador e catholico, conheci-o muito abalado com o Kulturkampf, por sua idéa allemã de que o maior politico do mundo,—para elle Bismark certamente o era,—não podia ser atraiçoado n’aquella questão ao mesmo tempo pelo seu faro nacional e pelo seu instincto conservador. O seu conservatismo entranhado era tambem parte da sua philosophia, por isso elle tinha pelas nossas instituições um sentimento de que nós mesmos eramos incapazes: o de veneração idealista. D’esse simples funccionario do Estado, que não tinha de seu sinão seu modesto ordenado de cada dia, e além d’isso, estrangeiro de origem, partiu talvez o unico grito de: Viva a Constituição do Imperio! que se ouviu, si alguem o ouviu,—tão fraca era já a voz,—em 15 de Novembro ao desfilar das tropas do general Deodoro pela rua do Ouvidor. Talvez alguem olhando para o velho que fazia sem medo tal protesto, pensasse que era um protegido do Imperador allucinado pela catastrophe que o tragaria tambem. Não o era porém; favores, elle os não devia, nem gratidão; tudo o que tivera, fôra em concurso, do qual os competidores desistiam, louvando-se em sua fama... Não era um despeitado, era um philosopho, era o homem que melhor estudára a psychologia do nosso paiz e que mais se conformára a ella até áquelle acto, que lhe pareceu nacionalmente fatidico, como para os Judeus o partir-se ao meio do véo do templo...
Um traço d’essa sua penetração já assignalei uma vez, lembrando que foi elle quem me fez notar que o nosso interesse pelas coisas publicas é tanto menor quanto o assumpto mais de perto nos concerne. É assim, dizia-me elle, que os negocios do municipio nos interessarão sempre a todos menos que os da provincia, os da provincia menos que a politica geral. Para mostrar quanto era precario o nosso self-governement, não bastava essa indifferença que cresce na razão directa do interesse que deviamos sentir? Outra observação d’elle que revela a promptidão do seu espirito, foi a nossa conversa sobre a impermeabilidade ingleza a idéas e concepções alheias. Eu dava a lentidão dos inglezes em apanhar e comprehender o ponto de vista, a novidade estrangeira, como um signal talvez de menor vivacidade intellectual do que a dos povos continentaes: «Pelo contrario, observou-me elle, as palavras serão minhas, a idéa é d’elle, essa repugnancia ao que vem de fóra do paiz, essa suspeita contra o que não é conforme ao instincto da raça, prova antes a originalidade della, a força de sua propria productividade, o orgulho das suas creações nacionaes... Essa resistencia foi que permittiu á Inglaterra dar ao mundo um Shakespeare.» Foi essa reflexão talvez que me levou a pensar que o cosmopolitismo, na esphera da concepção intellectual, não é um elemento creador, nem uma superioridade invejavel: pelo contrario, a difficuldade de assimilar, de sentir o que não tem affinidades com a nossa propria producção, é antes uma virtude do que um defeito; a permeabilidade prejudica a solidez e conservação das qualidades proprias, isto é, da propria natureza.
Si eu tivesse que precisar o que devo a Tautphœus, assignalaria, entre tantos outros trabalhos de lapidação que acredito serem d’elle, duas acquisições, a que em certo sentido, se poderiam chamar transformações intimas. A primeira, sem que aliás a suggestão partisse d’elle, nem mesmo que elle tivesse consciencia d’este ponto de vista meu,—quem sabe si elle o não combateria?—é que deante delle, pensando nelle, me habituei a considerar o juizo do historiador como o juizo definitivo, o que importa, final, e por isso aquelle a que se deve desde logo visar. Não póde haver maior revolução para o espirito do que essa, de collocar-nos espontaneamente em frente do solitario juiz de bibliotheca do futuro e não dos juizes sem numero de praça publica do momento actual. Perante aquelle juiz o nosso nome póde não ser citado, os testemunhos incompletos pódem ser-nos injustamente favoraveis ou desfavoraveis, mas a sua opinião é a que conta, é a que vale... O juizo da multidão que hoje nos eleva ou nos deprime, esse representa apenas a poeira da estrada. Não é preciso que sejamos actores para que essa concepção da verdadeira instancia que decide das reputações nos affecte, por assim dizer, em cada um dos nossos moveis de acção, estimulos e affinidades moraes: o effeito é o mesmo sobre o espectador, o curioso, o transeunte, o indifferente. É, em menor escala, está visto,—porque esta é a maior de todas as possiveis differenças nos motivos de inspiração e de conducta,—como a mudança da concepção pagã, que o importante é a vida, para a concepção christã, que é a eternidade. Feita a reducção das aspirações da propria alma para as da intelligencia ou do espirito, a metamorphose é tambem profunda entre viver, ou vêr viver, tendo-se em vista os contemporaneos e tendo-se em vista a posteridade. Tratando-se da posteridade, está claro que é sempre preciso imaginar o espaço de algumas gerações, dar toda a margem ao esquecimento... No momento actual são milhares, milhões que julgam; pouco a pouco o tribunal se vae reduzindo, até que os grandes personagens vêm a depender da sentença de um juiz singular, um Mommsen, um Ranke, um Curtius, um Macaulay, encerrado em sua livraria, procurando animar-se para com elles de uma paixão retrospectiva, toda ella puro enthusiasmo, illusão de auctor, na qual não figura nenhum dos sentimentos, um unico siquer, nem das paixões verdadeiras que elles inspiraram...
Outra transição que lhe devi... Como hei de explical-o que se entenda sómente a nuança, e não mais? porque quero crer que os germens se desenvolveriam por si mesmos, mas sinto que o seu influxo benefico penetrou até o terreno onde elles se estavam talvez formando sem eu o sentir...
Nós tinhamos nos ultimos tempos da vida de Tautphœus uma pequena solidão em Paquetá, para as vizinhanças do chamado Castello, em um remanso daquellas encantadoras paragens. Era uma antiga casa terrea a que um dos proprietarios, um inglez, juntára uma varanda em roda e a meio um pequeno sobrado com venezianas verdes e balcão por onde subia uma trepadeira, dando-lhe um aspecto ao mesmo tempo singelo e pittoresco de residencia estrangeira. A frente deitava para o mar, e a parte baixa da costa do outro lado formava um suave fundo de quadro. A casa estava sobre uma pequena elevação, e o declive para a praia era tomado por um grande taboleiro de gramma, cuidadosamente tratado, como em um parque. A ilha de Paquetá é uma joia tropical, sem valor para os naturaes do paiz, mas de uma variedade quasi infinita para o pintor, o photographo, o naturalista estrangeiro. Para mim ella tinha a seducção especial de ser uma paizagem do Norte do Brazil desenhada na bahia do Rio. Emquanto por toda parte á entrada do Rio de Janeiro o que se vê são granitos escuros cobertos de florestas continuas guardando a costa, em Paquetá o quadro é outro: são praias de coqueiros, campos de cajueiros, e á beira-mar as hastes flexiveis das cannas selvagens alternando com as velhas mangueiras e os tamarindos solitarios. Ao lado, entretanto, d’essas miniaturas do Norte encontram-se na ilha a cada canto do mar rochas revestidas com a mesma caracteristica vegetação fluminense.
Tautphœus fôra sempre um apaixonado da nossa natureza. Desde que chegára ao Brasil tinha sido um explorador de suas bellezas. A madrugada, a alta noite, a distancia não eram impedimento para elle, tratando-se de um nascer de sol, um effeito de luar, um fio de agua descendo pela pedra, um jequitibá escondido na matta virgem. Toda a vida elle vivera n’esse colloquio intimo de namorado com a luz e a terra do Brasil; um raio de sol illuminando o Corcovado ou o Pão de Assucar, era uma saudação mysteriosa do poder creador a que elle sempre respondia... Ao vêl-o sentado, a escutar os passaros na matta ao lado, eu associava insensivelmente o mestre com as minhas primeiras lições de inglez e lembrava-me do vizir do sultão Mahmud. Os arredores do Rio de Janeiro especialmente o seduziam. Elle era de todos os passeios a que o convidassem para qualquer dos pontos pittorescos, que ahi são sem numero. Passar a tarde sob o arvoredo secular que se encontra em tantas das ilhas, observando o glorioso colorido das montanhas ao pôr do sol, era uma verdadeira volupia para elle. A nossa vivenda de Paquetá agradava-lhe por lhe dar, com o silencio e isolamento que cercava a bibliotheca, a escolha, á vontade, do mar, do campo e da montanha: as praias extensas, a floresta accessivel, a planicie atapetada, si lhe agradava passear; a agua serena, o mar fechado á vista, como um lago suisso, si queria tomar o nosso barco e mandar o Mudo, o nosso saudoso remador, abrir a vela para os pequenos ilhotes de onde se avistam em um extremo os Orgãos de Theresopolis, e no outro a serrania da cidade ... Elle vinha sempre aos sabbados e ficava o domingo, e ás vezes, nas curtas férias que tinha, dias seguidos... Era visivelmente a despedida. Suas faculdades estavam intactas, elle era desses em quem se sente que o espirito não soffrerá deperecimento, que se apagará de repente no meio de uma contemplação ou meditação mais intensa e prolongada; mas as forças physicas estavam em declinio, via-se o cançaço de ter pensado tanto e o involuntario tributo á duvida: si teria bem aproveitado o tempo, ou si teria vivido em vão. Elle tomára muito ao serio o gosto da obscuridade, a modestia, o retrahimento; cortejára de mais o esquecimento, e via talvez que este estava a ponto de envolvel-o, excepto em alguns raros espiritos, onde sua lembrança duraria mais algum tempo, até elles mesmos serem por sua vez envolvidos...
Como foram suaves esses dias finaes que elle nos deu, tão penetrantes, tão profundamente melancolicos, da melancolia, porém, dos momentos que quizeramos tornar eternos, ou que outros viessem gozar delles ao nosso lado para não se esvaecerem de todo, como um meteóro deslumbrante!... O seu prazer, muitas vezes, era sentar-se em um banco á beira do mar, do lago, eu devia dizer pela impressão que dava, e d’alli assistir á tarde, cujas cambiantes no ar, no céo, na agua, nas côres do horizonte, no murmurio e no silencio da solidão, eram uma gamma de que elle não perdia a mais insignificante transição... Quantas outras vezes, de dia, ao passearmos na matta ao lado da casa, quando se ia abrindo caminho para passarmos, não me pedia elle que não tocasse na natureza, que respeitasse o intricado, o selvatico, o inesperado, de tudo aquillo, porque aquella desordem era infinitamente superior ao que a arte pudesse tentar... Elle achava a mais pobre e arida natureza mais bella do que os jardins de Sallustio ou de Luiz XIV. Ah! si tem sido elle o descobridor e possuidor da America, o machado nunca teria entrado nella... E o tição? Uma queimada era para elle egual a um auto de fé. O incendio ao lamber essas resinas preciosas, essa seiva, esses suecos de vida, esse sem numero de desenhos caprichosos de artistas inexcediveis cada um no seu genero, modelos de côr e de sensibilidade, todos elles unicos, parecia consumir com uma dôr cruel, vibrante, todas as suas ligações sensiveis com a natureza e a vida universal, os nervos todos de sua peripheria intellectual.
O seu amor pela nossa natureza foi muito grande. Quantas vezes introduzi em nossas conversas a idéa de uma viagem á Europa para vêr si despertava n’elle affinidades esquecidas, recordações latentes. Toda essa parte européa, porém, estava morta, atrophiada; em vez della o que havia, esta, vivaz e peregrina, era uma sensibilidade nova, a americana, a brasileira... Era um eterno encantado da nossa terra. Ella lhe dizia o que a nós não diz, e que talvez seja preciso ter tido e renunciado por ella uma primeira encarnação, um outro mundo, para se poder sentir. Si nós brasileiros pudessemos ter aquelle amor! Esse perenne embevecimento de Tautphœus foi uma das influencias que desenvolveram em mim o gosto, o encanto, ainda que de minha parte puramente sentimental e ingenuo, que o contacto de nosso paiz tem hoje para mim... Em Tautphœus aquelle amor era differente: era fino, espiritual, intellectual, esthetico:... em mim será uma simples affinidade do coração, uma ternura, uma saudade da vida, mas esta affinidade deverá muito ao espectaculo do carinhoso devaneio d’aquelle sabio, d’aquelle grego antigo, d’aquelle philosopho nascido e formado em outros climas, perante a amenidade, a doçura dos tropicos, o pittoresco da nossa moldura agreste, os toques de mutação de nossa scenographia natural, a modulação, o colorido, a solidão intima de nossa paizagem.
No tempo da minha vangloria litteraria duas cousas me feriam nelle: que com toda sua sciencia elle não escrevesse nada e que pudesse ser tão submissamente catholico. Agora em nossos passeios pela floresta, em nossas «soirées» á beira da minha pequena enseada, dourada pelo luar, era sobre a religião que versavam nossas conversas... Oh! que admiraveis monologos os delle! A ultima vez que atravessou o nosso mare clausum voltou para casa para morrer. O vestigio do seu pensamento ficou por muito tempo commigo, e ainda por vezes lhe sinto a ondulação fugidia. Foi por minhas palestras com elle que comprehendi por fim que um grande espirito podia ficar á vontade, livre, em um religião revelada, do mesmo modo que foi graças a elle que comprehendi que os escriptores não formam por si sós a élite dos pensadores, que ha ao lado delles, talvez acima, uma especie de Trappa intellectual votada ao silencio, e onde se refugiam os que experimentam o desdem da publicidade, de sua ostentação vulgar, de seu mercenarismo mal disfarçado, de seu modo frivolo, de sua apropriação do bem alheio, de sua falta de sinceridade interior. O horror da scena, hoje do mercado, não póde ser um signal de inferioridade intellectual.
O resumo da impressão que eu guardo delle está feito por Goethe conversando com Eckermann sobre Alexandre de Humboldt: «Que homem elle é! Ha tanto tempo, tanto, que o conheço, e elle é sempre novo para mim. Póde-se dizer que não tem egual, nem em sciencia, nem em experiência. Além d’isso, ha uma variedade de aspectos nelle como não encontrei em ninguem. Qualquer que seja o assumpto de conversa que se procure, está sempre no seu proprio terreno e despeja sobre nós thesouros de informações. É como uma fonte de varias bicas, sob as quaes basta collocar um cantaro para logo o encher, e donde estão sempre a correr jorros de agua fresca inexgottavel. Elle passará aqui alguns dias, e já me parece que ha de ser para mim como si tivesse vivido muitos annos.» Ouvil-o, vêl-o, viver com elle, era litteralmente esquecer o presente e reunir-se á comitiva de Sócrates... Elle era uma d’essas copias, que nem por serem copias, nem por se reproduzirem seguidamente de epocha em epocha entre differentes nações, deixam de conservar a superioridade, a primazia do original, o mais nobre dos modelos humanos.