IV
ATTRACÇÃO DO MUNDO
Nesses annos de mocidade a que me estou referindo, a politica era, de certo, para mim uma forte excitação; em qualquer scena do mundo o lance politico interessava-me, prendia-me, agitava-me; por isso mesmo, eu não era, nunca fui, o que se chama verdadeiramente um politico, um espirito capaz de viver na pequena politica e de dar ahi o que tem de melhor. Em minha vida vivi muito da Politica, com P grande, isto é, da politica que é historia, e ainda hoje vivo, é certo que muito menos. Mas para a politica propriamente dita, que é a local, a do paiz, a dos partidos, tenho esta dupla incapacidade: não só um mundo de coisas me parece superior a ella, como tambem minha curiosidade, o meu interesse, vae sempre para o ponto onde a acção do drama contemporaneo universal é mais complicada ou mais intensa.
Sou antes um espectador do meu seculo do que do meu paiz: a peça é para mim a civilisação, e se está representando em todos os theatros da humanidade, ligados hoje pelo telegrapho. Uma affeição maior, um interesse mais proximo, uma ligação mais intima, faz com que a scena, quando se passa no Brasil, tenha para mim importancia especial, mas isto não se confunde com a pura emoção intellectual; é um prazer ou uma dôr, por assim dizer domestica, que interessa o coração; não é um grande espectaculo, que prende e domina a intelligencia. A abolição no Brasil me interessou mais do que todos os outros factos ou séries de factos de que fui contemporaneo; a expulsão do Imperador me abalou mais profundamente do que todas as quedas de thronos ou catastrophes nacionaes que acompanhei de longe; por ultimo, não experimentei nenhuma sensação tão cheia, tão prolongada, tão viva, durante mezes ininterrompidos, como durante a ultima revolta, quando se ouvia o canhão da guerra civil no mar e o silencio ainda peior do terror em terra. Em tudo isto, porém, ha muito pouca politica: nesses tres quadros, por exemplo, a politica suspende-se: o que ha é o drama humano universal de que fallei, transportado para nossa terra. Não se poderia dizer isto da lucta dos partidos, nem do que, exclusivamente, é considerado politica pelos profissionaes. Esta é uma absorpção como a de qualquer habito, circumscreve a curiosidade a um campo visual restricto: é uma especie de occlusão das palpebras. Esse gozo especial do politico na lucta dos partidos não o conheci; procurei na politica o lado moral, imaginei-a uma especie de cavallaria moderna, a cavallaria andante dos principios e das reformas; tive nella emoções de tribuna, por vezes de popularidade, mas não passei d’ahi: do limiar; nunca o officialismo me tentou, nunca a sua deleitação me foi revelada; nunca renunciei a imaginação, a curiosidade, o dilettantismo, para prestar siquer os primeiros votos de obediencia; só vi de muito longe o véo jacintho e purpura do Sanctum Sanctorum,—(tão de longe, que me pareceu um velho reposteiro verde e amarello),—por traz do qual o Presidente do Conselho contemplava sósinho face a face a majestade do poder moderador.
Isto quer dizer que a minha ambição foi toda em politica de ordem puramente intellectual, como a do orador, do poeta, do escriptor, do reformador. Não ha, sem duvida, ambição mais alta do que a do estadista, e eu não pensaria em reduzir os homens eminentes que merecem aquelle nome em nossa politica ao papel de politicos de profissão; mas para ser um homem de governo é indispensavel fixar, limitar, encerrar a imaginação nas coisas do paiz e ser capaz de partilhar, si não das paixões, de certo dos preconceitos dos partidos, ter com elles a mais perfeita communhão de vida, individuæ vitæ consuetuoinem. Assim, quando eu tivesse, que não tive, as qualidades precisas, estava impedido para a politica pela incompressibilidade do meu interesse humano. Politicamente, receio ter nascido cosmopolita. Não me seria possivel reduzir as minhas faculdades ao serviço de uma religião local, renunciar a qualidade que ellas têm de voltar-se espontaneamente para fóra.
Assim, por exemplo, desses annos de minha vida, a que me refiro: em 1870, o meu maior interesse não está na politica do Brasil, está em Sedan. No começo de 1871, não está na formação do gabinete Rio-Branco, está no incendio de Pariz. Em 1871, durante mezes, está na lucta pela emancipação,—mas não será tambem nesse anno o Brasil o ponto da terra para o qual está voltado o dedo de Deus? Em 1872, o que me occupa o espirito é o centenario dos Luziadas; estou então imprimindo um livro sobre Camões, e a quem trabalha em um livro, apezar do seu nenhum valor litterario, como o mostrou Theophilo Braga, não sobra muita attenção ou interesse para dar ao que acontece em redor de si. 1873 é o meu anno, como disse, de fixação monarchica, mas tambem,—o que mostra que a razão amadurece por partes,—o anno em que me atiro contra a Egreja com o furor iconoclasta da mocidade, suppondo estar dizendo coisas novas, nunca ouvidas por ella em 19 seculos de lucta, pensando que ella vae gemer sob os golpes das terriveis hyperboles que lhe arrojo em pamphletos e artigos da Reforma: theocracia, invasão ultramontana, conquista jesuita!... Apezar disso, o anno de 1873 é no meu registro o anno da primeira viagem á Europa, facto de metamorphose pessoal, que é em minha vida a passagem da chrysalida para a borboleta.
Não posso mais,—si feliz, si infelizmente, é uma questão que me levaria muito longe deslindar,—não posso mais sentir o que sentia aos 24 annos, quando pela primeira vez me fiz de vapor, hoje eu preferiria fazer-me de vela, para a Europa. Como já vi Leão XIII carregado na sedia gestatoria e tive a fortuna de fallar longamente a sós com um Papa, creio que não faria mais uma viagem para conhecer nenhum grande personagem, excepto, talvez, o imperador da China. Já que não vi um rei mouro em Granada, passo bem sem ter visto Abdul-Hamid no Bosphoro. Mesmo o imperador da China talvez eu me contentasse em conhecel-o pela imagem que me dariam delle, si eu os avistasse, dois rising men da alta diplomacia européa, de quem sou amigo, que tiveram occasião de penetrar no recinto inviolavel e de estudar a infantil figura do Incognoscivel sob as afflições da guerra japoneza. O que me interessa nelle, bem se o póde imaginar, não é o seu throno de almofadas de seda, o seu porta-voz, os seus cachimbos, os seus perfumadores, os seus collares; é a originalidade que o envolve, maravilhosa como o proprio sobrenatural, é a psychologia accumulada de seculos.
Em 1873, porém, a minha ambição de conhecer homens celebres de toda ordem era sem limites; eu tel-os-ia ido procurar ao fim do mundo. Do mesmo modo, com os logares. O que eu queria, era vêr todas as vistas do globo, tudo o que tem arrancado um grito de admiração a um viajante intelligente. Nessa qualidade de camara photographica só lastimava não ter o dom da ubiquidade. Esta febre itinerante passou-me tambem. Posso lêr, sem perigo, qualquer geographia nova, o Elisée Reclus inteiro; é só uma boa pagina de Pausanias ou de Strabão, com os seus nomes antigos, que me perturba ainda. Os mais preciosos livros da minha estante intima são os meus Baedekers; diversos logares ahi estão marcados com um signal, e si eu pudesse, tomaria ainda, para visital-os, o bilhete (hoje não se diz mais o bastão), do peregrino; mas são os logares sómente a que está associada,—ha annos eu teria dito uma impressão de minha vida,—uma das grandes impressões da humanidade, uma das suas revelações na arte, ou na religião.
O que em materia de viagem, de paizagens me tentaria hoje,—quem sabe si não é uma pura restituição de um atavismo longinquo? o meu avô materno, que se transplantou em 1530 para Pernambuco e fundou o Morgado do Cabo, João Paes Baretto, era de Vianna,—seria, talvez, o Lima, si eu tivesse certeza de ter deante delle a mesma impressão dos soldados romanos que chamaram ás suas margens Campos-Elyseos e lhe deram o bello nome de Lethes. A verdade é que sinto cada dia mais forte o arrocho do berço: cada vez sou mais servo da gleba brasileira, por essa lei singular do coração que prende o homem á patria com tanto mais força quanto mais infeliz ella é e quanto maiores são os riscos e incertezas que elle mesmo corre.
N’esse tempo, porém, na minha éra antes de Christo, em pleno polytheismo da mocidade, o mundo inteiro me attrahia por egual; cada nova fascinação da arte, da natureza, da litteratura e, tambem, da politica, era a mais forte; eu quizera conhecer as celebridades de todos os partidos. Depois do Papa, a mais nobre figura da Europa era para mim o conde de Chambord, que acabava de rejeitar a corôa de França para não repudiar a bandeira branca; um Henrique V, bem pouco parecido com Henrique IV, e, no emtanto, eu contava como uma boa fortuna a noite que passei no salão de Monsieur Thiers[1].
[1] A respeito dessa visita, eis a nota que encontro no meu jornal de 1874: «10 de Janeiro. Á noite fui com o Itajubá (o nosso arbitro em Genebra) á casa de Monsieur Thiers, hotel Bagration, faubourg Saint-Honoré. Apresentado a Monsieur Thiers, a Madame Thiers, a Mlle Dosne. Apresentado a Jules Simon. Itinerario que este me deu: vêr Pierrefonds. Coucy, Reims, Tarascon, Arles e a Grande Chartreuse. Conversei com Monsieur Thiers sobre o Brasil. Opinião delle sobre a desegualdade da raça negra, de que provem o direito não de escravisal-a, mas de forçal-a ao trabalho, como a Hollanda, faz com os Javanezes.»
A viagem á Europa em taes condições não podia deixar de ser para mim, como foi, o eterno impulso dado ao pendulo imaginativo. Pelo sentimento, pela attitude, pelo emprego da vida, acredito ter sido, em meu plano inferior, uma das mais consistentes figuras de nossa politica; acredito mesmo que passarei nella como um homem de uma só idéa, persona unius dramatis, porquanto a minha fidelidade monarchica póde ser considerada, como a de André Rebouças, ainda um ultimo compromisso, uma gratidão, um episodio da libertação dos escravos. Quanto ás affinidades espontaneas, porém, ás sympathias naturaes, ao movimento interior do espirito, difficilmente se encontrará um pendulo que descreva um raio de oscillação mais largo do que a minha imaginação e a minha curiosidade. O que é um homem politico assim dilettante, viajante, a quem tudo attráe egualmente, que admira as grandes construcções sociaes, qualquer que seja o systema da architectura, convencido de que em todos ha o mesmo espirito, porque o espirito creador é um só?
Nós, brasileiros, o mesmo póde-se dizer dos outros povos americanos, pertencemos á America pelo sedimento novo, fluctuante, do nosso espirito, e á Europa, por suas camadas estratificadas. Desde que temos a menor cultura, começa o predominio destas sobre aquelle. A nossa imaginação não póde deixar de ser européa, isto é, de ser humana; ella não pára na Primeira Missa no Brasil, para continuar d’ahi recompondo as tradições dos selvagens que guarneciam as nossas praias no momento da descoberta; segue pelas civilisações todas da humanidade, como a dos europeus, com quem temos o mesmo fundo commum de lingua, religião, arte, direito e poesia, os mesmos seculos de civilisação accumulada, e, portanto, desde que haja um raio de cultura, a mesma imaginação historica.
Estamos assim condemnados á mais terrivel das instabilidades, e é isto o que explica o facto de tantos sul-americanos preferirem viver na Europa... Não são os prazeres do rastaquerismo, como se chrismou em Pariz a vida elegante dos millionarios da Sul-America; a explicação é mais delicada e mais profunda: é a attracção de affinidades esquecidas, mas não apagadas, que estão em todos nós, da nossa commum origem européa. A instabilidade a que me refiro, provem de que na America falta á paizagem, á vida, ao horizonte, á architectura, a tudo o que nos cerca, o fundo historico, a perspectiva humana; e que na Europa nos falta a patria, isto é, a fôrma em que cada um de nós foi vasado ao nascer. De um lado do mar sente-se a ausencia do mundo; do outro, a ausencia do paiz. O sentimento em nós é brasileiro, a imaginação européa. As paizagens todas do Novo-Mundo, a floresta amazonica ou os pampas argentinos, não valem para mim um trecho da Via Appia, uma volta da estrada de Salerno a Amalfi, um pedaço do Caes do Sena á sombra do velho Louvre. No meio do luxo dos theatros, da moda, da politica, somos sempre squatters, como si estivessemos ainda derribando a matta virgem.
Eu sei bem, para não sahir do Rio de Janeiro, que não ha nada mais encantador á vista do que, ao acaso, a escolha seria impossivel, os parques de S. Clemente, o caminho que margeia o aqueducto de Paineiras na direcção da Tijuca, a ponta de S. João, com o Pão de Assucar, vista do Flamengo ao cahir do sol. Mas tudo isto é ainda, por assim dizer, um trecho do planeta de que a humanidade não tomou posse; é como um Paraiso Terrestre antes das primeiras lagrimas do homem, uma especie de jardim infantil. Não quero dizer que haja duas humanidades, a alta e a baixa, e que nós sejamos desta ultima; talvez a humanidade se renove um dia pelos seus galhos americanos; mas, no seculo em que vivemos, o espirito humano, que é um só e terrivelmente centralista, está do outro lado do Atlantico; o Novo-Mundo para tudo o que é imaginação esthetica ou historica é uma verdadeira solidão, em que aquelle espirito se sente tão longe das suas reminiscencias, das suas associações de idéas, como si o passado todo da raça humana se lhe tivesse apagado da lembrança e elle devesse bulbuciar de novo, soletrar outra vez, como creança, tudo o que apprendeu sob o céo da Attica...
Em um soberbo livro hespanhol, que faz honra á Sociedade de Jesus, Pequeñeces, romance de um padre jesuita, que é um grande auctor, L. Coloma, ha um personagem que diz a cada instante—Usted me entiende. Todos nós temos algum conhecido que pontua as suas phrases com esse fatigante entende? que os nervos do marquez de Paraná não podiam supportar. O entende? do individuo que quer forçar o ouvinte a nada perder do que elle diz, é muito diverso da formula habitual com que o imbecil marquez de Villamelon exprimia o que lhe faltava força para pensar. Ha tambem pontos, idéas, modos de sentir que o escriptor desejaria expressar por um outro Usted me entiende, levantando apenas a ponta do véo ao seu pensamento, alludindo a elle vagamente, sem nada precisar, de facto, sem nada dizer. Cada um de nós é só o raio esthetico que ha no interior do seu pensamento, e, emquanto não se conhece a natureza desse raio, não se tem idéa do que o homem realmente é. Nesta confissão da minha formação politica, devo, para não deixar vêr sómente a mascara, o personagem, dar uma especie de photographia dos symbolos que se imprimiram e reproduziram mais profundamente no meu cerebro. Assim se reconhecerá que a politica não foi sinão uma refracção daquelle filete luminoso que todos temos no espirito.
A instabilidade a que me estou referindo, está grandemente modificada; a dualidade desappareceu em parte, não tão perfeitamente como em meu amigo Taunay... Este, apezar do seu sangue de Cruzado, apezar de ter escripto o seu livro classico em francez, e apezar da sua brilhante propaganda contra o nativismo, é o mais genuino nativista que eu conheço, porque não comprehende siquer a vida em outra terra, em outra natureza. Brasileiro de uma só peça é aquelle que não póde viver sinão no Brasil. Na mocidade fui um erratico, como o proprio Imperador acabou na velhice... Quando, porém, entre a patria, que é o sentimento, e o mundo, que é o pensamento, vi que a imaginação podia quebrar a estreita fôrma em que estavam a cozer ao sol tropical os meus pequenos debuxos d’almas, Ustedes me entienden, deixei ir a Europa, a historia, a arte, guardando do que é universal só a religião e as lettras.