VI
A FRANÇA DE 1873-74
A epocha em que eu pela primeira vez tinha Pariz por menagem, era historicamente tão interessante que um espirito sujeito como o meu a fortes tentações politicas não poderia deixar de voltar-se para o espectaculo dos acontecimentos, apezar dos meus deslumbramentos artisticos e litterarios. Comprehende-se, porém, que a attracção contraria á politica era ainda mais poderosa, pela novidade, pelo esplendor das suas revelações continuas, do que o proprio drama contemporaneo. No Rio de Janeiro ou em S. Paulo, quem se alimente de politica, quando a sensação de um grande acontecimento se apossa delle, não encontra nada em redor de si que a corrija ou lhe sirva de contrapeso; felizmente, os acontecimentos raro são grandes. Para um joven brasileiro, porém, que pela primeira vez chega a Pariz, é quasi impossivel imaginar acontecimento que possa tornal-o indifferente ao maravilhoso que o surprehende a cada passo, ou sensação politica que não fosse amortecida, dominada logo, pela sensação de arte.
Realmente, a lucta entre o duque de Broglie e monsieur Thiers, o theatro do palacio de Versalhes convertido em Assembléa Nacional, o Trianon dando as suas salas para o conselho de guerra de Bazaine, attrahiam-me, e fui um dos mais anciosos espectadores que assistiram nessa epocha aos debates daquella assembléa, ou que participaram da emoção daquelle grande processo militar, apezar de tudo pouco generoso.
Nunca hei de esquecer as frias manhãs de novembro em que o meu querido amigo José Caetano de Andrade Pinto, depois conselheiro de Estado, e eu atravessavamos de carro aberto as alamedas de Versalhes para tomar os nossos logares na propria tribuna do marechal Bazaine, por detraz delle, quasi os unicos que, talvez por lhe sermos estranhos e sermos estrangeiros, tinhamos a coragem de acompanhar daquelle logar os interrogatorios, a accusação e a defesa. No ultimo momento, quando se mandou fechar a tribuna particular do marechal, passámos para o prétoire. Que emoção a nossa quando o duque d’Aumale, de pé, como todo o Conselho, que formava semi-circulo em torno delle, a fita vermelha da Legião de Honra passada sobre o grande uniforme, o chapéo de plumas na cabeça como em um campo de batalha, na mão uma grande folha de papel sobre a qual se projectava o reflector de uma lampada sustentada por traz delle por um imponente vulto de huissier, com a solemnidade de quem depois de um exilio de vinte e cinco annos representava outra vez perante a França, leu os tres Oui, à l’unanimité, que sibilaram pela sala toda como as balas de um pelotão!
Tambem me hei de lembrar sempre da sessão da Assembléa Nacional em que se votou o septennato de Mac-Mahon como medida provisoria, dilatoria, entre a restauração, temporariamente impossibilitada por causa da bandeira branca, e a republica, que não queriam proclamar. Si nesses sete annos morresse o conde de Chambord, regnante ainda o duque de Magenta, quem sabe si o conde de Pariz não reuniria os votos dos Chevaulégers e da alta finança do Centro Esquerdo! Afianço a quem me lê que, depois de um discurso pronunciado pelo duque de Broglie, com o seu accento nasal, a sua perfeição academica, sua maneira e suas maneiras ancien régime, vêr subir á tribuna o velho Dufaure e de improviso, sem phrases cadenciadas, sem periodos embutidos uns nos outros como um mosaico litterario, tomar entre as mãos o discurso do neto de Mme. de Staël, amassal-o, dar-lhe as fórmas que queria, até ninguem mais o poder reconhecer; assistir a um duello desses, da elegancia com a eloquencia, é um prazer que não se esquece mais. E não ouvi Berryer! Alli, em Versalhes, eu encontrava ainda os restos da grande geração parlamentar que começou na Restauração e que trouxe as suas tradições, a sua escola de oratoria, para as Camaras de Luiz Felippe. Tudo isto, não é preciso dizel-o, me interessava no mais intimo de mim mesmo, intellectualmente fallando, mas um simples relance sobre quaesquer paginas do meu diario n’essa epocha basta para mostrar quanto o meu interesse se dividia e o meu espirito era solicitado em direcções contrarias por sensações quasi do mesmo valor...
Assim, por exemplo (o italico é para mostrar as opposições repentinas): «19 de novembro. A sessão do Septennato (em que foi votada a prorogação dos poderes do marechal).—21 de novembro.—Começo a ir ao processo Bazaine.—22 de novembro. Visita a Ernesto Renan.—2 de janeiro (1874) Chateauroux.—3 de janeiro. De manhã. Route de la Châtre. Bosques de álamos batidos pela ventania. Em Nohant ás 11 horas. Esperavam-me desde a vespera, tinham um aposento para mim. Maurice Sand, a mulher filha de Calamatta. Fazem-me almoçar. Ao meio-dia, vem George Sand. Conversámos até as 3 horas. Pediu-me para ficar algum tempo em Nohant. Fallámos de Renan, da Joconde, do theatro, de Bressant, do Imperador, que ella não viu.—4 de janeiro. Orleans. Cathedral. Casas de Jeanne d’Arc, Agnès Sorel, Diane de Poitiers. Noticia da queda de Castelar...—3 de janeiro. Fomos ao château de Chambord. Escadaria de pedra à double rampe. Os FF e as Salamandras de Francisco I. O Bourgeois Gentilhomme, 1670. Souvent femme varie. Château de Blois. Quarto de Henrique II. Escada exterior espiral. Renascença Franceza.—10 de janeiro. Visita a monsieur Thiers».
Talvez o dia em que viram pela primeira vez a Venus de Milo ou a Joconde tenha passado indifferente para muitos que notaram as suas menores impressões politicas. Eu, porém, não poderia siquer lembrar-me de que fôra politico deante do marmore dos marmores ou do colorido que se esvae e de um traço que se apaga de Leonardo. Na propria politica eu achava-me dividido pela mais positiva dualidade que se pudesse dar. De sentimento, de temperamento, de razão, eu era um tão exaltado partidario de Thiers como qualquer republicano francez; pela imaginação historica e esthetica era porém legitimista; isto é, perante o artista imperfeito e incompleto que ha em mim, a figura do conde de Chambord reduzia a de Thiers a proporções moralmente insignificantes. Quando em um mesmo homem ha um lyrico e um politico, a lenda tem para elle uma projecção duas vezes maior que a da historia.
Nesse espaço de tempo a que me refiro, a Republica estava ainda em questão em França; Thiers havia sido forçado a demittir-se, e a sua substituição, com surpresa delle, recahira no seu general em chefe, que dispunha, absolutamente, do exercito, o marechal de Mac-Mahon. A reconciliação do conde de Pariz com o chefe da casa de França tinha-se effectuado em Frohsdorf, em 5 de agosto; os cavallos para a entrada solemne do rei em Pariz estavam sendo negociados, quando o ministerio recuou, sentindo-se sem forças para impôr aos soldados a bandeira branca. A Restauração, póde-dizer, tinha abortado; mas, de um momento para outro, Henrique V podia inspirar-se no precedente de Henrique IV e acceitar a bandeira da Revolução. Ainda ha pouco, o general du Barail, que era o ministro da guerra do duque de Broglie, confessou que, si o conde de Chambord tivesse querido, não era o septennato, era sim, a monarchia que teria sido acclamada.
«O marechal, escreve elle, estava convencido de que o Principe cedêra a uma consideração patriotica: ao receio de attrahir sobre o seu paiz a animosidade e até as armas da Allemanha.» O testemunho recente do duque de Broglie e do embaixador em Berlim, o conde de Gontaut-Biron, indicam isso mesmo, que o conde de Chambord viu que a Restauração seria a guerra com a Allemanha e quiz poupar á França uma segunda e peior mutilação. Quem sabe, tambem, á vista dessas revelações diplomaticas, si não foi esse mesmo o motivo secreto superior de Thiers para desertar a monarchia?
Quem viu o velho estadista empenhar-se na consolidação da Republica com todo o seu prestigio e o seu poder de persuasão, desde que levantára a França dos campos de batalha onde jazia ferida e retirára do poder da Communa Pariz ainda em chammas, póde pensar que não se dá toda essa dedicação a uma causa que não se tenha intimamente a peito. A verdade é que, si Thiers tivesse empregado em restaurar a monarchia a metade do esforço e do trabalho que empregou em consolidar a Republica, a realeza provavelmente teria sido proclamada, talvez ainda em Bordéos. Durante muito tempo elle manteve-se como o fiel da balança entre os partidos. Não se póde lêr sem emoção esses seus discursos de 1871, quando elle se vê entre os dois lados da Assembléa e inventa distincções para impedir que elles se tratem como inimigos deante do invasor estrangeiro, todas essas distincções subtis, como entre constituir e reorganizar, entre renunciar e reservar o poder constituinte.
Eu era como politico francamente thierista, isto é, em França, de facto republicano. Isto não quer dizer, porém, que me sentisse republicano de principio; pelo contrario. A terceira Republica em França foi fundada por monarchistas; foi uma transacção de estadistas monarchicos, como Thiers, Dufaure, Rémusat, Léon Say, Casimir Périer, Waddington, e todo o Centro Esquerdo.
«Sôa como um paradoxo, escreveu, com admiravel lucidez, um dos habeis redactores da Quarterly Review em 1890, mas não é por isso menos exacto, que a principal barreira deante de uma restauração monarchica em França é o crescente conservatismo que foi sempre inherente ao caracter francez no meio de todas as ebullições do sentimento excitado. O povo sabe que uma mudança na fórma de governo só poderia ser realisada por meio de uma revolução ou como resultado de uma guerra, e recúa deante da perspectiva de uma e outra eventualidade, preferindo acceitar o presente estado de coisas, ainda que este não lhe desperte enthusiasmo.»
Esse espirito conservador da França, inimigo das mudanças bruscas, mesmo para melhorar, é bem caracterisado por esta anecdota, como a contou ha annos um correspondente do Times. Durante as barricadas de junho, quando se ouvia o canhão nas ruas de Pariz, mandaram uma companhia guardar o Ministerio de Estrangeiros. O official que commandava, de espada desembainhada, entrou na Secretaria, mas parou á porta de uma das salas, vendo que os empregados continuavam tranquillamente em suas mesas de trabalho, como si nada estivesse acontecendo. Vendo-o, o director levanta-se com uma porção de papeis, promptos para a assignatura do ministro, approxima-se d’elle e, inclinando-se, pergunta-lhe com a maior deferencia e naturalidade: «É ao novo governo que tenho a honra de dirigir-me?»
Era esse conservatismo que pelo orgão, principalmente, de Thiers fundava então a terceira Republica; o mesmo que não deixou ainda divorciar-se della o espirito da burguezia liberal,—espirito a que se póde chamar Centre Gauche,—e nenhum analysta negará que a quinta-essencia desse conservatismo fosse monarchica, mais sinceramente monarchica do que o espirito de fronde das côteries restauradoras.
Essa primeira grande escola estrangeira em que apprendi, não me podia fazer republicano de sentimento, como não fez republicano de sentimento a nenhum dos seus fundadores, como não fez, nem faz, republicanos aos liberaes e conservadores inglezes, ou ás testas corôadas da Europa, que, sem má vontade á França, preferem a Republica á Realeza ou ao Imperio; como não faz republicano ao Papa, que protege poderosamente o actual systema francez. O grande effeito sobre mim daquella attitude de Thiers e dos parlamentares da Monarchia de Julho era dar-me uma grande prova experimental de que a fórma de governo não é uma questão theorica, porém pratica, relativa, de tempo e de situação, o que em relação ao Brasil era um poderoso alento para a minha predilecção monarchica. O grande effeito era este: destruir o germen republicano latente, germen de intolerancia e de fanatismo. E esse foi o grande serviço de Thiers á França moderna: o de acabar com o antigo monopolio jacobino sobre a idéa republicana.
É o mesmo escriptor da Quarterly quem finamente observa: «Ainda que, por um lado, o genuino sentimento realista esteja quasi extincto, por outro, o sentimento republicano tambem por sua vez esfriou. A nova geração é republicana no sentido de não acreditar na possibilidade de uma restauração monarchica; o ardente republicanismo dos velhos doutrinarios, esse, porém, está quasi tão morto como a advocacia do direito divino dos reis.» Essa modificação, que está hoje terminada, começou em 1871, e foi o resultado da adhesão, não foi conversão, do Centro Esquerdo á situação republicana creada para a França na Europa pela derrota de Sedan. Esse duplo e egual esfriamento do realismo e do republicanismo, póde-se dizer que fórma a atmosphera natural do liberalismo contemporaneo e da cultura politica moderna, e, assim como elle aproveitava em França á republica, devia aproveitar no Brasil á monarchia. Foi esta a grande influencia politica que exerceu sobre mim a minha estada em França de 1873-74. Agora resta-me precisar a influencia rival que soffri, e a que chamarei influencia litteraria, graças á qual voltei da Europa consideravelmente menos politico do que partira.