Signal é que de orelha arrebitada
bem vigilante andava a canzoada.
Encontra o lobo um dógue forte, grosso,
nutrido, luzidio, uma belleza!
que distraído abandonára a estrada.
Sorri-lhe a nedia preza!
Saltar-lhe logo ali, fazêl-a em postas
o seu desejo fôra. Dura empreza!
A lucta era infallivel. Voltar costas
não usam perros quando são valentes,e, mais, os brutos! dão ás vezes cabo
do fero contendor! Diabo!... Diabo!
Então aquelle, com aquelles dentes!
*
Humilde o lobo, pois, encolhe a cauda;
chega-se ao cão; abaixa-lhe a cabeça;
puxa conversa; diz que folga em vêl-o,
que deixe que elle admire, que elle applauda
topal-o assim... e com tão bom cabello!...
e rijo! e gordo! Um frade! Uma abbadessa!
«Esplendido senhor»,—o cão responde;—
«de vós depende o ter igual gordura.
Fugí dos bosques, onde
por teima da desgraça
de fome e frio só achaes fartura,
vós, senhor lobo, e a vossa pifia raça.
Dias e dias sem comerem nada!
e lá por festas, raras, esquecidas,
um petisquinho conquistado á espada,
tragado ás escondidas!
Ahi é certa a morte! Furtae-vos a seus braços!
Seguí... seguí meus passos;
tereis outro destino e melhor sorte.»
—Mas como?—volve o lobo.
—Fazer então que devo?—
«Bagatella:
nem morte d'homem nem de egreja roubo;
simplesmente estas coisas: não dar tregoa
á santa gente rôta, mendicante,
bordão n'uma das mãos, n'outra a tigela,
que vem inda a distancia d'uma legoa
e já tresanda a essencia de tratante.
Lamber as mãos ao dono; ser submisso...
dar cóca, é o termo proprio, ao dono e a todo
quanto bicho careta houver em casa.
Salario apanhareis que vos apraza:
ossos das aves, rodas de chouriço,
restos vindos da mesa, e tudo a rôdo!
Até uns tagatés em cima d'isso!»
*
Tendo prestado ao cão attento ouvido
o lobo, coitadinho!
com perspectiva tal enternecido
não tugiu nem mugiu, mas fez beicinho.
*
Iam caminho já do povoado
quando o lobo notou que no pescoço
o cão era pellado.
—Que tens ahi?—pergunta em alvoroço.
«Nada, que eu saiba.»
—Nada?!—
«Frioleira.»
—Mas afinal o que é?—
«Ora!... A colleira
com que á noite me prendem junto á porta...»
—Prender-te?!—o lobo exclama.—Não saes fóra,
não corres livre pela terra inteira
quando te dá na gana, e a toda a hora?—
«Nem sempre. Isso que importa?!»
—Tanto importa que toda a trincadeira
com que me acenas, um thesouro embora,
por tal preço não quero.—
O lobo finda;
põe-se logo na perna, e corre ainda.
DEUS E O AMOR
(1870)
um d'estes dias entrava.
O pobresito levava
impressa no rosto a dôr
e as settas todas na aljava.
Ao vêl-o o Eterno exclama:
«Que vens tu fazer aqui?!»
—De Lysia, meu Deus, fugi
porque lá vivo da fama;
os meus freguezes perdi.
Busca a moça um noivo rico
sem lhe importar nada mais.
São fumo as paixões e os ais;
pintos, nina. Apanha o mico!—lhe bradam os proprios paes.
Por isso, feito o consorcio,
sae da egreja o par fiel,
e o noivo compra papel
para requ'rer o divorcio,
passada a lua de mel.
Torto já, e á vara larga,
o fino dandy seduz.
O mais que faz o lapuz
quando em finezas se alarga
é roncar: Que tal te eu puz!
Do patrio amor todo o fogo
traduz-se no venha a mim.
Quem faz d'um jornal pasquim,
sem trunfos entra no jogo
e sae-se trunfo por fim.
Bellini foi-se!... não presta.
Da harmonia a nata, a flôr,
veio encontrar successor
no Fado, que é o rei da festa,
o canto que faz furor!—
A virgem martyr Cecilia,
ao ouvir blasphemia tal,
ataca o si natural,
e, pedindo um chá de tilia,
cae em deliquio mortal.
Sem reparar no que passa
soluça o Amor e diz:
—Murcha pende a flôr de liz.
Jaz prostrada na desgraça
a patria de São Luiz!
O Krupp a morte semeia
de Sarbruck até Sedan,
e París, a cortezã,
nas garras da fome anceia!
Que serás, França, ámanhã?!
Pois n'estes dias sombrios
a velha Europa sagaz,
cuidando ter um antraz,
fez ataduras e fios
em vez de fazer a paz!
Lisboa, toda vergonhas,
e orgulhosa, e esmoler,
atraz ficar-lhe não quer
e desata a fazer monhas;
mas fios, nem um, sequer!
Acima da humanidade
ha n'esse bom Portugal
o novilho e o boi real.
A dôce fraternidade
anda nos paus do animal.
De meu seio a pura chamma
deixa, ó Deus, arder aqui.
De Lysia a correr fugi
porque lá já ninguem ama
nem mesmo, Senhor, a ti!
Nem mesmo! que sem respeito
tonsurado berrador
troveja em voz de Stentor,
batendo murros no peito,
que o teu braço é vingador;
Que ao reino teu infinito,
á mansão da eterna luz,
tua mão, Senhor, não conduz
quem fez o enorme delicto
de ignorar que houve Jesus;
Que tu, meu Deus, que és o forte
que destruiu Jericó,
que és a Justiça... tu só,
habitas n'aquella córte;
encarnas no immundo pó!
E para acabar o quadro,
para lhe dar mais unção,
afoga o impio sermão
junto á cruz que está no adro
em ondas de carrascão!
No templo teu, Pae divino,
apparato theatral!
Em redoma de crystal
vestido Jesus Menino
de chéché do Carnaval;
E o alvo lirio, Maria,
a pura depois de mãe,
caracoes e rolos tem
como usava a minha tia
quando ia ao Paço em Belem!
No altar-mór o scenario
que effeito fazendo está!
Pallida a lua... acolá!...
Além a cruz... o Calvario...
Fóra, author! Bravo, Rambois![1]
Na nave central—cavaco;
e no côro, ai! pobre fé!
latagões côr de café
uivando dentro d'um sacco:
—Sou o Barba-Azul! Olé!—
A catholica Judêa,
o christianismo pagão,
ousa mais! Põe em acção
do Homem-Deus a epopêa
na sensual procissão!
Ás enfeitadas janellas
corre a curiosa avidez.
Fazem cauda. Esperam vez
como se elles e ellas
fossem vêr um entremez!
Depois começa o serviço.
Olho aqui... e olho lá...
no seu tudo, e no papá
que embirra co'o tal derriço
por andar no b-a-ba.
Namorando as carnes núas
do que vae no floreo andor,
outras dizem:—«Salvador,
se todas são como as tuas
quem não será peccador?!»
Emquanto se eleva o incenso
na caprichosa espiral,
o garoto, essa vestal
dos vates de hoje, no lenço
faz mão baixa e no metal.
E, manso, por entre o grupo
da ondulante multidão,
serpenteia a procissão.
Rumoreja em torno o apupo.
Consternam-se alma e razão.
Que brutos cêpos são esses?
Vae Deus ali? Christo nú
posto a par do manitú,
homens dos torpes int'resses,
filhos glotões de Esaú?!...
Tartufo os impetos doma.
Vive agachado o chacal
a espreitar se o olhar fatal
de Filippe á voz de Roma
lampeja no Escurial!
Fiar n'elle!... O incendio lavra
occulto. Na escuridão
forja de novo o grilhão
á consciencia, á palavra,
a satanica legião.
Em teu nome o lar deserto!...
O pranto manando a flux!...
Morta a esp'rança! Extincta a luz!
e da cruz contra o liberto
mudada em punhal a cruz!—
Largamente aqui respira
sêcca a lingua e falto de ar,
que o terno Amor, a fallar,
não é como os de Tavira:
—dá-lhe... dá-lhe até 'stoirar!—
Mas, depois, como o Vesuvio
irrompe. Ao rosto gentil
assoma a raiva, e febril
bate o pé; grita;—um diluvio
manda ao infame covil!
Outro diluvio! incessante
a subir... subir... até
que não fique nada em pé!
nem possa nenhum farçante
fazer arca e ser Noé!—
Deus, que os seus ouvidos presta
ás queixas que Amor lhe faz,
sorri e diz: «Ó rapaz,
um T escripto na testa
porventura me verás?
Eu dei-lhes a lei sublime
nas alturas do Sinai.
Se contra a lei, contra o pae,
conspira Lysia—no crime
do crime o castigo vae.
Triumpha o Milhão, e Hero
não houve mais que uma só?
O Creso do oiro em pó
a flauta fará de Nero,
e da flauta um bom cipó.
E se os maridos, tontinho,
fugindo ás esposas vão,
deixa-os lá. Por fim terão,
em vez do calor do ninho,
os gêlos da solidão.
A vida passa ligeira;
e, quando a morte vier,
qual d'elles é que não quer
dôce oração derradeira
entre beijos de mulher?!
Ai!... Acabar longe d'isto!...
sem perdão!... sem paz!... e meu
sem ser nenhum!... Galileu,
tu que fizeste?... Ó Christo,
teu sangue que fructos deu?!...
Fiz de ti a rósea aurora
da universal redempção;
inda após o teu clarão
o Deus cêpo é o Deus que adora
a proterva multidão!
Pois para amar-me é preciso
mais que os olhos alongar
pelos ceus, por terra, e mar?
mais que o pallôr indeciso
d'uma noite de luar?!
Pois n'esses milhões de mundos,
que girar no espaço fiz,
não falla tudo? não diz
em seus canticos jucundos:
—Senhor! Senhor, existis?!—
Erriça o leão a coma?
Nas sombras do Escurial
ergue a pedra sepulchral
de Filippe a astuta Roma?...
Erga!... e surja o rei fatal!...
Antro, e fera, e vil Tiberio,
tudo no pó sumirei!...
que dos reis eu sou o rei,
e as chaves do meu imperio
a mão nenhuma entreguei!
Perdes o tempo, creança!
Se o perdes, meu doido Amor!
Sei quanto és enganador!
quanto és feroz na vingança
e folgas da alheia dôr!
És vendado, és cego, e ousas
como se visses fallar?!
Pois has de á terra voltar.»—
E o pae de todas as cousas
foi-lhe os olhos desvendar.
Então o dôce fedelho,
tão dôce como cajú,
repara em si... vê-se nú...
faz-se azul... faz-se vermelho
como um monco de perú.
Depois a fugir desata
pelas ethereas regiões.
Atraz d'elle as maldições
de quanta velha beata
foi ao ceu... por alçapões.
Que o ceu que estamos mirando
occultas entradas tem,
e sem fiscal! Inda bem.
A não ser por contrabando
já lá não entra ninguem.
Vôa... vôa... É mesmo um raio
rapido o espaço a rasgar.
Vôa... Á força de voar
perde o alento, e n'um desmaio
vem no chão co'as azas dar!
N'essa noite a authoridade
metteu, zelosa qual é,
o menino em São José;
mas ninguem crê na cidade
que a sciencia o ponha em pé.
Quem tem os dias contados
mais viver não póde, não.
É do amor finda a missão
dês que os fundos, bem cotados,
valem mais que o coração.
[1] Pronuncie Ramboá.
ENTEADA
que sempre á viuvez torceu a cara.
Deixára-lhe uma filha o velho leito,
e mimo egual o novo lhe offertára.
Quando eu as conheci, uma era forte,
córada, alegre, brincalhona, viva;
pallida a outra, triste, pensativa,
como quem traz em si a dôr e a morte.
Das duas a mais nova, a que é sadía,
a lapis, n'um papel, graciosos traços
d'um corpo de mulher hontem fazia.
No fim as palmas bate, e, erguendo os braços,
«Olha a mamã!» gritou, «De longe basta...
basta vêl-a d'ahi!... Não será ella?»—
Volve-lhe a outra em voz que o sangue gela:
—Agora pinta lá uma madrasta!—
Miserrimos poetas que nós somos!
Por mais inspiração que nos abraze,
por mais phantasiar tomos e tomos
não valem juntos, não, aquella phrase.
N'UM ALBUM
nosso caminho é diff'rente.
Eu vou por onde se chora;
tu por onde canta a gente.
Tu chegas; tu vens agora;
tu sobes qual sobe a aurora;
eu, tal qual o sol poente,
desço... desço!... Vou-me embora.
RAPHAELA
I
dando o braço ao Carnaval,
entrava em Dona Maria.
Não sei que idea fatal
me levou tambem á festa.
Sei que fui. Sei que vestia
dominó côr de giesta,
e que a mascara, que ao rosto
trago presa todo o dia,
eu trocára, ébrio de gosto,
por outra que não mentia.
II
quando os pés na sala puz.
Os gritos, a dança, a luz
que os novos encanta, e creio
que mais os velhos seduz,
tocaram-me o coração
por tão estranha maneira,
que a não ter ali á mão
as costas d'uma cadeira,
dava co'as minhas no chão.Persuadiam-me que a Sorte
quer que o homem seja egual
sómente perante a morte,
e vi eu que o Carnaval
tinha o mesmo poder forte!
Junto a mim o sôr Sovela,
disfarçado em lord inglez,
trata por tu o freguez,
que n'outro tu se nivela
com quem as botas lhe fez.
Ao longe o sujo vadio
que, para impingir á gente
um bilhete do Pão quente,
corre a Baixa e o Rocio
dando Excellencias a rodo,
agora vestido á turca,
turca por dentro elle todo,
grunhindo sem tom nem som
paga depois da mazurka
ponche ardente a quem tem Dom.
N'aquelle canto escondido
o calvo e gordo marido
ás moças falla d'amor;
e como deve o traidor
pela traição ser punido,n'outro canto anda a mulher
a brincar co'o deus Cupido...
dê o brinquedo o que dér!
Cada flôr, rosa ou jasmim,
com seu calix entreaberto
embalsama este jardim,
e ás abelhas que andam perto
como que as oiço dizer:
—Oh! Bebei dôce prazer
que rendida vos offerto!—
Isto é vida! Isto aqui, sim!
que a humilde e santa egualdade
o mundo mergulha emfim
no sol da eterna verdade!...
III
—Só isso me dizes?—
«Só.
—Pois desde já te requeiro
que ámanhã fiques na cama,
e manda o teu travesseiro
dar umas voltas por cá.
Na chalaça, no epigramma,
as lampas te levará.—«Quem de espirito é tão fino
devêra ser mais cortez.»
—Vestiu-se de peregrino
a cortezia...—
«Talvez
d'essa longa romaria
a que foi não voltaria!»
—Assim parece. Não vês?!
IV
d'esta infame grosseria?...
Consultando minha tia,
disse-me ella:—És um ratão!
Coisas tuas!...—
«Coisas minhas?!
Ora essa!»
—De quem são?
Se teu pae sem ter gallinhas
te deu boa creação?!—Mais ainda me condemna
ser a mulher que offendi
segunda Venus de Milo!
Que remorso o que eu senti,
e que nó no gorgomilo,
quando, absorto, o que era vi!...
Que ao fallar olhei... Por Christo!
juro que olhei sem ter visto.
V
da formosa Andaluzia,
sob a elegante mantilha
pelos hombros lhe caía
de negro e farto cabello
a madeixa ondeada e crespa.Na cinturinha de vespa...
Alto lá! De vespa, não;
que é corriqueira a figura
e tola a comparação.—
A cintura... Se lhe chamo
só delgada—aqui d'el-rei!
porque é prosa. Ah! Já sei.
Delgadinha como um ramo
que sustém duas laranjas...
E da voz os sons tão finos
com que os hei de comparar?
Com voz d'anjos pequeninos,
travêssos, loiros, meninos
que andam no ceu a cantar,
aos quaes não tira o chapeu
este pobre filho d'Eva
emquanto Deus o não leva
a conhecel-os no ceu?!...
Impossivel!... Pois com quê?...
Deixe-se lá d'essas franjas,
ruim poeta! Você
não sabe que a natureza
faz coisas de tal bellezaque um homem, se logra vêl-as,
ha de pasmado ficar,
e pasmar... pasmar... pasmar;
mas não tentar descrevêl-as?!
VI
que no prado anda brincando
estremece e foge quando
sente rumor perto d'ella,assim Dona Raphaela...
Podia chamar-lhe Jónia,
Mathilde, Elisa ou Antonia.
Era o mesmo. Á mulher bella
todo o nome fica bem.
Toma-lhe a graça, a frescura:
participa da candura
de su'alma... se é que a tem.
Que a minha airosa andaluza
como a gazella fugio,
se o não disse a casta musa
que me inspira, o leitor pio
(não ha calemburgo aqui)
certo de si para si
a crêl-o não se recusa;
mas o que o leitor ignora
é que eu proprio, eu que ind'agora
lhe dissera: Vae-te embora,
ao vêl-a fugir fiquei
triste, só, desamparado
como o valido d'um rei
quando cae em desagrado!...
Ai! se o pensamento é vário
mais varía o coração.
Coração—Contradicção—
affirma-me o diccionario
que dois synonymos são.
VII
nos pesam sobre o cachaço;
quando os frios desenganos
guias são do incerto passo
que nos vae levando á campa;
quando a edade a correr vem
e nas faces nos estampa
oitenta rugas, ou cem!
amar sem crenças; amar
sem possuir attractivos;
é padecer, é penar
dôres do inferno entre os vivos.
Sabia-o; mas se fadado
fôra eu já para essa dôr!
e diz Garrett, o doutor
em taes materias versado,
que ninguem foge ao seu fado!
Funesto foi sempre o meu!
Est'alma, que Deus me deu,
em quantos affectos nutre
que devorou Prometheu!.
VIII
com seu limpido clarão,
sorrindo, ao ceu vinha a aurora
soltar do prégo as azelhas
d'onde pende a escuridão
sobre chaminés e telhas.
A festival harmonia
pouco e pouco esmorecêra;
e co'a luz do novo dia
d'outra oschestra a afinação
mais altos cantos rompêra,
pois que entre os rocios do orvalho
levantára escopro, e malho,
um hymno de gratidão
ao Deus, author do trabalho.
Este aranzel, espremido
n'uma phrase clara e chã,
quer dizer:—era manhã,
e a solfa dos caldeireiros
matava o bicho do ouvido
na rua Augusta aos parceiros.
IX
tambem dorme o seu bocado;
nem ha nada como a cama
para amor ser bem tratado.
Vêde as ratices do mundo!
Sentados no mesmo throno
amor, que é vida;—e o somno,
que da morte é irmão segundo!...
Em tão doloroso trance
é praxe no bom romance
surgir a pallida insomnia
beliscando a cachimonia
do que ás paixões não se poupa;
mas eu, que sigo outra lei,
fui-me enroscando na roupa,
e dormi. Fiz mais: sonhei.
Sonhei, sim. O que é sonhar?
É fugir do captiveiro
d'esta bola sublunar.
A noss'alma, que gemia
entre os ferros, encontrar
a paz, o amor, a alegria,
vivo, real, verdadeiro,
o mundo da phantasia.
É n'um divinal momento
conquistar, possuir, haver
o que nunca o pensamento,
por mais audaz, ousou crêr
que um dia á mão nos viria.
Sonhar é vêr palpitante
a toda a luz da existencia
o pae, os filhos, a amante
que a morte apartou de nós!
Ouvir-lhes a dôce voz...
interromper essa ausencia
eterna, a eterna saudade
que nos deixára o perdêl-os!
Sonhar é esta piedade
do ceu pelas nossas dôres;
esta mão cheia de flôres
que Deus esparge nos gelos!—
Tudo mais são pesadelos.
Pois eu sonhei, e não digo
o sonho que tive então.
Não por ser segredo, não,
que á terra desça commigo;
mas quem tem, como eu, vergonha,
mesmo ao leitor seu amigo
nem sempre diz o que sonha.
X
frugal almoço invejado
ao pobre e triste empregado
a quem aos mezes o Estado
permitte rilhar um osso,
muitas vezes esbrugado;no outro dia a Gertrudes,
velha magra, feia, teza,
inda cheia, á portugueza,
de calvas e de virtudes,
as quentes papas de milho
veio pôr-me sobre a meza.
A mim a quem nada escapa
logo ali me deu no gôto
O vêl-a andar n'um sarilho
a peneirar-se, e á socapa
sorrindo com ar garôto.
—Gertrudes, que historia é esta?—
E ella a rir.
—De que ri?!...—
A rir-se mais.
—Temos festa!
Vae grande baralha aqui
se me não diz, como quero,
porque essa bocca escancára,
e se desengonça, e rebola...Ella, atalhando:
«Salero!.
Soy, señorito, española!»
Figurem-se a minha cara!!
A visão, a Raphaela
com quem ha pouco sonhára.
o bello typo andaluz,
a flôr de um dia... era ella
saída das mãos do Cruz![2]
XI
implica artigos de fé:
1.º
Quem vê masc'ra não vê rosto.
2.º
Belleza vista de dia
dê-se-lhe sempre o desconto
de trinta por cento em cré.
3.º
Depois do sol se haver posto
até a Virgem Maria
precisa ser vista ao pé.
4.º
Mesmo assim, inda que perto,
não se diga nunca ao certo
que se está longe da Sé.
[2] Guarda-roupa.
AS MINHAS MEMORIAS
Á Exc.ma Snr.ª D. A. F. Pinto
ser inutil, vulgar, emquanto moço.
De dôr em dôr, cançado peregrino,
chego á triste velhice sem conforto.
Nunca pude saber o que era tino,
como a bolsa não soube o que é caroço.
Quando voltares hei de ser um morto.
ESTRELLA CADENTE
Eu já cincoenta, ou mais. Poucos enganos
podia haver na conta. Trouxe-a ao cóllo!
Não fôra um pólo em frente do outro pólo;
mas, inda assim, contando-se este caso,
dir-se-ia ao certo: Era uma vez o Occaso,
e era uma vez a Aurora... Não sei como
n'um bello dia, por ser vedado o pomo,
por ser appetitoso, finalmente
não sei porquê!... por eu ser um demente...
por ser ella o retrato da que é morta...
fosse lá porque fosse!—Isso o que importa
n'um bello dia—amei-a!... Uma doença
que a gente apanha quando menos pensa.
*
Sorriam de piedade os meus amigos
todos á uma, e os novos e os antigos.
Nas salas bichanava-se em cochichos:
«Ora, o ginja! aparando inda os esguichos
com que o bisnaga amor! Atraz da pomba,
o perfido lacrau!»
Deitavam tromba
os outros pretendentes. Um barulho
por nada. Então porquê?! Por um arrulho?...
Um simples suspirar?... Pois que mau era
brotar-me em pleno inverno a primavera?...Durava pouco?... Tanto quanto dura
em toda a terra tudo o que é ventura.
Engeita-se por isso?...
A minha idade?!
Fui de Mathusalem socio e confrade.
Adão dizia ao vêr-me: Olá, compadre!Contemporaneo eu sou do eterno Padre.
Não ha mais nada acima. Querem isto?...
O Padre, o velho, foi mais tarde o Christo.
Ondas d'amor jorrou d'aquelle peito.
Remiu. Salvou. Pôz termo ao longo pleito
entre as trevas e a luz, e, porque vinha
em nome só do amor, annos que tinha
ninguem lh'o perguntou.
Sinceramente:
ha rugas dentro d'alma?!...
*
Impenitente
morrera n'esta fé; sobre o Evangelho
jurára que mais ama o que é mais velho;se o ponto da questão, o delicado,
outro não fôra; um velho ser amado!
Aqui é que me dóe!
É necessario
primeiro formular um questionario.
Menos se quer á flôr, menos se trata,
por ser de argilla o vaso e não de prata?
Aqui... além... embora onde estiveres...
não és, ó flôr, a mesma?... e das mulheres,
—não digo já de todas; mas d'algumas—
igualmente o boudoir tu não perfumas?...
Não busca asylo a crença, a christandade
não presta o culto seu á Divindade
no templo secular, de negro aspecto,
humida arcada, abobadas por tecto,
como na alegre ermida redourada,
quente aos raios do sol, sempre inundada
de jubilos e festa?!... Amor travêsso,
só por vêr para dentro, vê do avêsso?
*
Não te illudas, ó louco! A Providencia
dependente do amor fez a existencia.Para estimulo a amor fez a belleza,
o viço, a força, quanto com certeza
tu já não tens. Por isso no concurso
aos vagos corações a pelle do urso,
a penna luzidia do bom pato,
dão por si preferencia ao candidato.
Esta a verdade crua. O sentimento
depois é que se faz. É-lhe fermento,
é mister que primeiro insuffle a arteria,
e n'ella o sangue injecte, a vil materia.
A bocca, um pé, a guia d'um bigode
mais que as almas em fogo sempre póde.
E tu não valsas!... tu não tens bocca
o argot da moda, a phrase insossa e ôca!
Por mais ciré, torcido, repintado,
que o teu bigode vá... bigodeado
és tu que ficas, velho! a torto e a esmo!
Justo e fatal!... Fatal e justo é o mesmo.
No chão não rojes teus cabellos brancos
n'um desespero ignobil! Para arrancos,para entrares no inferno como o Dante,
a dôr da tua cólica é bastante.
Outras não queiras, outras não procures
improprias já de ti. Não; em nenhures
rejuvenesce o Fausto; e, dês que ha mundo,
quem disse um velho—disse um moribundo.
*
Ella não tinha ainda os seus vinte annos.
Por não tel-os vivia n'uns enganos
que eu não devia ter nos meus cincoenta.
Distraída commigo olhou attenta
para um moço qualquer. Nem eu me lembro
do nome d'elle já! Era em setembro.
Isso sei eu. Que noite!... Estou a vêl-a!
Ultima noite azul!... Rasto d'estrella,
curva de luz nos amplos ceus cadente,illuminar-nos veio de repente.
Ella assustou-se, e disse: Dieu te garde!
Pouco tempo depois, horas mais tarde,
tal qual a estrella, em rapido trajecto,
no mundo novo entrou d'um novo affecto.
AO ACTOR JOÃO ANASTACIO ROSA
que, na sua officina de sapateiro, mandára fazer para uso do author umas botas impermeaveis
Ha que tempos que te eu digo
que, de pequeno, o teu geito
é ser sapateiro, amigo!
Afóra o bico da moda,
que é moda o bico hoje em dia,
quem da terra andasse á roda
mestre assim não toparia.
E lá no mar,—tens ratices!—
com ellas por sobre as ondas
anda a gente como Ulysses
nas aguas das Trabisondas.
O povo grita: Milagre!—;
teus filhos:—Estamos salvos!—;
e tu com graxa e vinagre
vaes enganando os papalvos.
Queima a Sciencia as pestanas
buscando o que seja aquillo;
e nem passadas semanas
conclue que é sebo de grillo!
Tu proprio chuchas no dedo,
avis rara, ó raio d'ave;
pois ao fechar teu segredo
perdeste-lhe o tino e a chave.
Seja qual fôr teu systema,
graxa só ou graxa e sebo,
eu, indigena na gemma,
applaudo o que não percebo.
De tão prodigioso invento
só entendo, e não é pouco,
que ou me saíste um portento
ou és rematado louco!
Mas que importa qual diploma
um logar nos dá na Historia?
Toda a estrada leva a Roma.
Por atalhos vae-se á gloria.
É certo que ao fim da vida
a luz do provir é tua:
luz accêsa sem torcida!...
porta aberta com gazua!—
Vê quanto o sec'lo é fecundo!
Vê; regista em tuas notas.
Em poucos annos ao mundo
botou dois homens das botas!
ÁS RÃS PEDINDO REI
Traducção da fabula de Lafontaine—Les Grenouilles
em republica plena. Era um pagode!
Tal qual uns democratas que ha no mundo
julgando que a republica, no fundo,
outra coisa não é senão a gente
fazer o que bem quer e quanto póde,
a rã tripudiava impunemente.Todos os dias era certo o choque
entre o batrachio forte, intransigente,
e parte da nação já descontente
que a Jupiter pedia ou rei ou roque.
O deus fez-lhe a vontade.
Largou-lhe lá do ceu um rei pacato,
de summa gravidade.
Das alturas tombando, o rei na quéda
fez tal espalhafato,
que as fêmeas em pavor, os machos fulos,
aquellas saltitando, estes aos pulos,
como é uso das rãs nas grandes crises,
cada qual a gritar:—arreda! arreda!—
entre os juncaes, no lôdo, nas raizes
dos salgueiraes se enreda.
*
Por longo tempo em seus esconderijos
das rãs esteve homiziado o povo.
Transformaram-se em medo os regosijos
da antiga bacchanal. Gigante novo
cuidavam ser o rei que o ceu lhes déra.
Não ousavam sequer saír da tóca;
pois, não raro, os instinctos maus da fera
por imprudente a presa é que os provoca.
Já n'essas eras muito a pêllo vinha
dizer: Cautela e caldos de gallinha...
O rei era um pedaço de madeira.
Nem mais, nem menos.
N'uma bella tarde
uma das rãs, por ser menos covarde
ou mais bisbilhoteira,
tirou-se de cuidados, manso e manso
na flôr das aguas surge, e ás guinadinhas
com muito tento e geito
do cêpo se aproxima.Após ella vem outra... e outra... aos centos.
Vendo que o rei não sae do seu ripanso,
rodeiam-no; coaxam: Salta acima!... e coaxado e feito!...
O rei, temido outr'ora, ás pecuinhas
d'essa chusma villã se vê sujeito.
Em rapido momento
sobre elle a malta audaz se encarapita,
e faz do bom monarcha um bom assento.
Nem chus nem bus! Calado que nem porta,
qual fôra n'outros tempos!...
Isto irrita.
Rompem as rãs então n'uma algazarra
que o pantano atordôa,
os fios d'alma a quem as ouve corta.
«Leva d'aqui, ó Jove, esta almanjarra
que nem mexe, nem pune, nem perdôa,
e mais parece uma alimaria morta,
cabide d'uma c'rôa,
em vez de nosso rei—nossa vergonha!»
Vae Jupiter que faz? Uma cegonha,
das muitas que possue, logo destaca,
e manda que das rãs ponha e disponha,
n'uma das mãos o queijo e n'outra a faca.Ora a cegonha, apenas em seu throno
dona das rãs se vê e sem ter dono,
diz comsigo:
—Nasci dentro d'um folle!
Quem tira agora o papo da miseria
sempre sou eu!...—
Passeia toda séria,
perna aqui... perna além, n'um andar molle,
e quanta rã apanha quanta engole.
*
Geral consternação o charco enluta.
Renovam-se as lamurias:
que o rei é doido e tem ás vezes furias;
que, doido ou não, o povo trata á bruta;
por fim, que faça o deus formal promessa
d'outro rei que as não coma tão depressa! O Jupiter tonante
d'est'arte lhes responde:
«Inutil prece!
Dei-vos um rei tranquillo, inoffensivo,
que nem sempre se tem nem se merece:
um rei que era um regalo!
Foi vêl-o e pôl-o pela barra fóra!
Dei-vos segundo: um genio um pouco vivo...
um pouco extravagante...
Meninas, aguental-o!
Era bom o primeiro e foi-se embora.
É mau este de agora.
Contentae-vos com elle, ó meus endezes,
pois venha quem vier... peior mil vezes.»
ONZE DE NOVEMBRO
rival do velho Noé.
Cae agua em logar de vinho,
e—milagre!—o meu visinho
entra em casa por seu pé!...
Memorias do alegre santo,
porque é que tanto duraes
se eu já nem bailo nem canto
dês que me deram quebranto
as peças originaes?!
Até as caras meninas,
socias minhas na funcção,
rosas, d'antes, purpurinas,
por muito favor—cravinas...
d'Ambrosio cravinas são.
Martinho, ao que chega a gente!
Ellas feitas uns pasteis
de carne velha e doente;
eu comprando cada dente
por tres e quatro mil reis!
Bem me toucaram taes flôres!
Bem com ellas me touquei!
Da cabeça agora as dôres
quem m'as faz são os tenores,
as portarias, e a lei!
A lei!... a eterna cantiga!
o eterno sarapatel!
Na nossa edade, e na antiga,
lá para uns certos—espiga;
lá para uns outros—papel.
Só uma córta direito:
só a lei da morte é egual.
Para calcular-lhe o effeito
vou, deitado no meu leito,
dormir um somno real.
ASSIM É QUE EU GÓSTO D'ELLA!
mostrar depois de velho pretensões
quando as não tive em horas de ventura,
de tão dôces, mas breves, illusões.
Então era a minh'alma que gemia
no vago anceio d'onde nasce o amor;
mas hoje sei que amor no mesmo dia
nasce, esmorece, e morre como a flôr.
Da meiga briza o tépido bafejo,
a rosa perfumada, o pôr do sol,
as nuvens d'oiro,—esplendido cortejo
do astro-rei, a voz do rouxinol;
Esse hymno immenso com que a terra exprime
viva saudade pela extincta luz,
se para mim então era sublime,
ai! que já por meu mal me não seduz!
Quando contemplo agora o fim da tarde,
quando ao sumir-se no crystallino mar
o facho accêso sobre as ondas arde
e vae depois nas ondas mergulhar;
Sabeis vós o que penso em tal instante?
—Vêde a que prosa vil isto chegou!—
Sabeis vós o que penso?'... o que lamento?...
O dia mais de vida que passou.
De vida, sim, meus senhores,
que não ha pechincha egual!
Só algum sarrafaçal
em horas de maus humores
grunhirá sombrio e rouco
que pelo seu fim anhela!
Eu cá por mim acho pouco
e morro d'amores por ella!
A vida saboreada
de um certo modo que eu sei.
Nem limpa-botas nem rei;
trazer camisa lavada;
bem lavada a consciencia;
libras velhas na algibeira;
ter um trem e por decencia
um garoto na trazeira.
Cadeiras... todas de braços,
fôfas como pão de ló.
Nunca dar ponto sem nó
nem pôr ponto em dar abraços. Caçadas... feitas no prato,
e sobre a caça café.
Charutos... dos de contracto
Lib'ra nos! antes galé.
Vejam se eu dava o cavaco
ou se quebrava o toutiço
por ser tudo quebradiço
n'este mundo como um caco!
Em se quebrando... acabou-se.
Ora, adeus! Fortes lamechas!
Era bonito se fosse
ficando tudo p'ra mechas!
Amor de marrafa branca
como o cão e a cadellinha
sempre fiel! Que gracinha!...
Ao chá por baixo da banca
dando ternas pizadellas
que as meias deixam de luto,
que fazem vêr as estrellas,
e provam que o par é bruto.
Ter sempre o mesmo barbeiro
e sempre o mesmo topete!...
Á mesa do voltarete
defronte o mesmo parceiro!...
O molle ser sempre o molle!...
sempre esperto o serigaita!...
Na mesma gaita de folle
soprar quem sopra tal gaita!...
Quem pensa assim... ai! coitado!
ou perdeu todo o juizo,
ou se tem dente do sizo
pelo alveitar foi achado.
Para mim que sou amante
do que muda e do que mexe,
como havia ser seccante
o tal mundo de escabeche!
Beijar nos pulsos a algema
com que Amor nos manietava;
amanhã mandal-a á fava;
a belleza eis do systema. Ser hoje amigo do Brito,
amanhã sêl-o dos Soisas!...
Viajar hoje no Egypto;
vêr ámanhã novas coisas!
Isto, sim, que é prazer certo!
Quem julgar que assim não presta
diga adeus a esta festa
que o cemiterio está perto!
Pois póde haver tolerancia
na China, aqui, ou em Gôa
com quem defende a constancia
que é a maçada em pessoa?!
Aqui d'el-rei porque mente
toda a humana geração!...
Grande pena!... pois então,
se mente, mente-lhe a gente.
Por mentira, mentirola.
Por esparrella, esparrella.
Assim vae esta charola:
assim é que eu gosto d'ella!
Dizem que a vida os assusta
porque em tudo encontram móca;
que o bem a todos não toca,
que a Justiça não é justa.
Eu, por mim, quero-a mais larga,
que, se acaso um dia fôr
parar-lhe ás mãos, menos carga
sobre os hombros me ha de pôr.
E se o bem me não tocar
tambem uma vez sómente,
ferro commigo no quente
e, lá, desato a chorar.
Não é mau. Dou de conselho
a quem quizer divertir-se
que chore em frente do espelho
e por força acaba a rir-se.
Chorar é bom! Quem me dera
nos tempos que já lá vão
quando, moço, o coração,
ao romper a primavera sobresaltado tremia,
e da terra toda em flôr
juntava á meiga harmonia
doces lagrimas d'amor!
Se á vida não acham geito
porque todos têm chorado,
cá para mim vem barrado
quem lhe põe este defeito.
Elles que foram pequenos
e contra as lagrimas chiam,
de lacrima christi ao menos
um copo não beberiam?
Tal resmuneia e se queixa
que as filhas não fecha a mãe;
que a mãe namora tambem,
e mais que torna e que deixa!
Ih! Jesus!... Que gritaria!
Se a mãe as filhas fechasse,
nenhuma as portas abria.
Ai de quem as arrombasse!
Caturras! Se ha quem supponha
nas politicas regiões
que inda póde haver Catões
sendo tão rara a vergonha!...
O galante é que no jogo
cada qual puxa o seu trunfo
quando sem armas nem fogo
alcançar póde o triumpho!
Deploram republicanos
que lhes tosquiam as azas?
Pois vão lá p'ra suas casas
fazer dos creados—manos.
Os outros temem que os thronos
se despedacem? Demonio!
Não lhes resta ainda, monos,
os thronos de Santo Antonio?—
Tudo aqui se remedeia;
tudo tem facil saída
se as honras dermos á vida
d'um jantar ou d'uma ceia. Quem tentar pôl-a a direito
perde o tempo e a razão
porque luta peito a peito
com phantastica visão.
Eu nunca fui poeta. Agora vêdes
que menos do que nunca aspiro a sêl-o.
Se espalmar-me tentei pelas paredes
do teu Parnaso, Apollo, vae-me ao pêllo!
Põe-me nú se conservo n'este fato
algum resto de parvoas pretensões,
já que o mundo como é, o mundo ingrato,
despir-me soube as dôces illusões.
Dormi. Sonhei. Do sonho hoje acordado
na prosa da verdade emfim caí;
mas como tudo tem sempre um bom lado
ganhei gordura se illusões perdi.