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Musa Velha

Chapter 19: RAPHAELA
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About This Book

A collection of lyrical and satirical poems in which a speaking voice alternates dark meditation and comic digression, personifying Death, imagining funerary scenes, and protesting burial rites while yearning for a vanished beloved. Other pieces mix ironic reflections on marriage, bachelorhood, and social vanity with sensual glimpses and domestic or rural detail. Tone shifts between melancholy, mockery, and exuberant description, and the verse relies on vivid imagery, dramatic monologue, and playful rhetoric to examine longing, mortality, and everyday follies.

Não tinha um lobo mais que a pelle e o osso.
Signal é que de orelha arrebitada
bem vigilante andava a canzoada.
Encontra o lobo um dógue forte, grosso,
nutrido, luzidio, uma belleza!
que distraído abandonára a estrada.
        Sorri-lhe a nedia preza!
Saltar-lhe logo ali, fazêl-a em postas
o seu desejo fôra. Dura empreza!
A lucta era infallivel. Voltar costas
não usam perros quando são valentes,e, mais, os brutos! dão ás vezes cabo
do fero contendor! Diabo!... Diabo!
Então aquelle, com aquelles dentes!

               *

Humilde o lobo, pois, encolhe a cauda;
chega-se ao cão; abaixa-lhe a cabeça;
puxa conversa; diz que folga em vêl-o,
que deixe que elle admire, que elle applauda
topal-o assim... e com tão bom cabello!...
e rijo! e gordo! Um frade! Uma abbadessa!

«Esplendido senhor»,—o cão responde;—
«de vós depende o ter igual gordura.
      Fugí dos bosques, onde
      por teima da desgraça
de fome e frio só achaes fartura,
vós, senhor lobo, e a vossa pifia raça.
Dias e dias sem comerem nada!
e lá por festas, raras, esquecidas,
um petisquinho conquistado á espada,
      tragado ás escondidas!
      Ahi é certa a morte!
      Furtae-vos a seus braços!
      Seguí... seguí meus passos;
tereis outro destino e melhor sorte.»
      —Mas como?—volve o lobo.
—Fazer então que devo?—
                         «Bagatella:
nem morte d'homem nem de egreja roubo;
simplesmente estas coisas: não dar tregoa
á santa gente rôta, mendicante,
bordão n'uma das mãos, n'outra a tigela,
que vem inda a distancia d'uma legoa
e já tresanda a essencia de tratante.
Lamber as mãos ao dono; ser submisso...
dar cóca, é o termo proprio, ao dono e a todo
quanto bicho careta houver em casa.
Salario apanhareis que vos apraza:
ossos das aves, rodas de chouriço,
restos vindos da mesa, e tudo a rôdo!
Até uns tagatés em cima d'isso!»

               *

Tendo prestado ao cão attento ouvido
      o lobo, coitadinho!
com perspectiva tal enternecido
não tugiu nem mugiu, mas fez beicinho.

               *

Iam caminho já do povoado
quando o lobo notou que no pescoço
      o cão era pellado.
—Que tens ahi?—pergunta em alvoroço.
      «Nada, que eu saiba.»
                           —Nada?!—
                                     «Frioleira.»
—Mas afinal o que é?—
                       «Ora!... A colleira
com que á noite me prendem junto á porta...»
—Prender-te?!—o lobo exclama.—Não saes fóra,
não corres livre pela terra inteira
quando te dá na gana, e a toda a hora?—
      «Nem sempre. Isso que importa?!»
—Tanto importa que toda a trincadeira
com que me acenas, um thesouro embora,
por tal preço não quero.—
                          O lobo finda;
põe-se logo na perna, e corre ainda.

DEUS E O AMOR

(1870)

No ceu, cabisbaixo, o Amor
um d'estes dias entrava.
O pobresito levava
impressa no rosto a dôr
e as settas todas na aljava.

Ao vêl-o o Eterno exclama:
«Que vens tu fazer aqui?!»
—De Lysia, meu Deus, fugi
porque lá vivo da fama;
os meus freguezes perdi.

Busca a moça um noivo rico
sem lhe importar nada mais.
São fumo as paixões e os ais;
pintos, nina. Apanha o mico!—
lhe bradam os proprios paes.

Por isso, feito o consorcio,
sae da egreja o par fiel,
e o noivo compra papel
para requ'rer o divorcio,
passada a lua de mel.

Torto já, e á vara larga,
o fino dandy seduz.
O mais que faz o lapuz
quando em finezas se alarga
é roncar: Que tal te eu puz!
Do patrio amor todo o fogo
traduz-se no venha a mim.
Quem faz d'um jornal pasquim,
sem trunfos entra no jogo
e sae-se trunfo por fim.

Bellini foi-se!... não presta.
Da harmonia a nata, a flôr,
veio encontrar successor
no Fado, que é o rei da festa,
o canto que faz furor!—

A virgem martyr Cecilia,
ao ouvir blasphemia tal,
ataca o si natural,
e, pedindo um chá de tilia,
cae em deliquio mortal.

Sem reparar no que passa
soluça o Amor e diz:
—Murcha pende a flôr de liz.
Jaz prostrada na desgraça
a patria de São Luiz!

O Krupp a morte semeia
de Sarbruck até Sedan,
e París, a cortezã,
nas garras da fome anceia!
Que serás, França, ámanhã?!

Pois n'estes dias sombrios
a velha Europa sagaz,
cuidando ter um antraz,
fez ataduras e fios
em vez de fazer a paz!

Lisboa, toda vergonhas,
e orgulhosa, e esmoler,
atraz ficar-lhe não quer
e desata a fazer monhas;
mas fios, nem um, sequer!

Acima da humanidade
ha n'esse bom Portugal
o novilho e o boi real.
A dôce fraternidade
anda nos paus do animal.

De meu seio a pura chamma
deixa, ó Deus, arder aqui.
De Lysia a correr fugi
porque lá já ninguem ama
nem mesmo, Senhor, a ti!

Nem mesmo! que sem respeito
tonsurado berrador
troveja em voz de Stentor,
batendo murros no peito,
que o teu braço é vingador;

Que ao reino teu infinito,
á mansão da eterna luz,
tua mão, Senhor, não conduz
quem fez o enorme delicto
de ignorar que houve Jesus;

Que tu, meu Deus, que és o forte
que destruiu Jericó,
que és a Justiça... tu só,
habitas n'aquella córte;
encarnas no immundo pó!

E para acabar o quadro,
para lhe dar mais unção,
afoga o impio sermão
junto á cruz que está no adro
em ondas de carrascão!

No templo teu, Pae divino,
apparato theatral!
Em redoma de crystal
vestido Jesus Menino
de chéché do Carnaval;

E o alvo lirio, Maria,
a pura depois de mãe,
caracoes e rolos tem
como usava a minha tia
quando ia ao Paço em Belem!

No altar-mór o scenario
que effeito fazendo está!
Pallida a lua... acolá!...
Além a cruz... o Calvario...
Fóra, author! Bravo, Rambois!
[1]
Na nave central—cavaco;
e no côro, ai! pobre fé!
latagões côr de café
uivando dentro d'um sacco:
—Sou o Barba-Azul! Olé!—

A catholica Judêa,
o christianismo pagão,
ousa mais! Põe em acção
do Homem-Deus a epopêa
na sensual procissão!

Ás enfeitadas janellas
corre a curiosa avidez.
Fazem cauda. Esperam vez
como se elles e ellas
fossem vêr um entremez!

Depois começa o serviço.
Olho aqui... e olho lá...
no seu tudo, e no papá
que embirra co'o tal derriço
por andar no b-a-ba.

Namorando as carnes núas
do que vae no floreo andor,
outras dizem:—«Salvador,
se todas são como as tuas
quem não será peccador?!»

Emquanto se eleva o incenso
na caprichosa espiral,
o garoto, essa vestal
dos vates de hoje, no lenço
faz mão baixa e no metal.

E, manso, por entre o grupo
da ondulante multidão,
serpenteia a procissão.
Rumoreja em torno o apupo.
Consternam-se alma e razão.

Que brutos cêpos são esses?
Vae Deus ali? Christo nú
posto a par do manitú,
homens dos torpes int'resses,
filhos glotões de Esaú?!...

Tartufo os impetos doma.
Vive agachado o chacal
a espreitar se o olhar fatal
de Filippe á voz de Roma
lampeja no Escurial!

Fiar n'elle!... O incendio lavra
occulto. Na escuridão
forja de novo o grilhão
á consciencia, á palavra,
a satanica legião.

Em teu nome o lar deserto!...
O pranto manando a flux!...
Morta a esp'rança! Extincta a luz!
e da cruz contra o liberto
mudada em punhal a cruz!—

Largamente aqui respira
sêcca a lingua e falto de ar,
que o terno Amor, a fallar,
não é como os de Tavira:
—dá-lhe... dá-lhe até 'stoirar!—

Mas, depois, como o Vesuvio
irrompe. Ao rosto gentil
assoma a raiva, e febril
bate o pé; grita;—um diluvio
manda ao infame covil!

Outro diluvio! incessante
a subir... subir... até
que não fique nada em pé!
nem possa nenhum farçante
fazer arca e ser Noé!—

Deus, que os seus ouvidos presta
ás queixas que Amor lhe faz,
sorri e diz: «Ó rapaz,
um T escripto na testa
porventura me verás?

Eu dei-lhes a lei sublime
nas alturas do Sinai.
Se contra a lei, contra o pae,
conspira Lysia—no crime
do crime o castigo vae.

Triumpha o Milhão, e Hero
não houve mais que uma só?
O Creso do oiro em pó
a flauta fará de Nero,
e da flauta um bom cipó.

E se os maridos, tontinho,
fugindo ás esposas vão,
deixa-os lá. Por fim terão,
em vez do calor do ninho,
os gêlos da solidão.

A vida passa ligeira;
e, quando a morte vier,
qual d'elles é que não quer
dôce oração derradeira
entre beijos de mulher?!

Ai!... Acabar longe d'isto!...
sem perdão!... sem paz!... e meu
sem ser nenhum!... Galileu,
tu que fizeste?... Ó Christo,
teu sangue que fructos deu?!...

Fiz de ti a rósea aurora
da universal redempção;
inda após o teu clarão
o Deus cêpo é o Deus que adora
a proterva multidão!

Pois para amar-me é preciso
mais que os olhos alongar
pelos ceus, por terra, e mar?
mais que o pallôr indeciso
d'uma noite de luar?!

Pois n'esses milhões de mundos,
que girar no espaço fiz,
não falla tudo? não diz
em seus canticos jucundos:
—Senhor! Senhor, existis?!—

Erriça o leão a coma?
Nas sombras do Escurial
ergue a pedra sepulchral
de Filippe a astuta Roma?...
Erga!... e surja o rei fatal!...

Antro, e fera, e vil Tiberio,
tudo no pó sumirei!...
que dos reis eu sou o rei,
e as chaves do meu imperio
a mão nenhuma entreguei!

Perdes o tempo, creança!
Se o perdes, meu doido Amor!
Sei quanto és enganador!
quanto és feroz na vingança
e folgas da alheia dôr!

És vendado, és cego, e ousas
como se visses fallar?!
Pois has de á terra voltar.»—
E o pae de todas as cousas
foi-lhe os olhos desvendar.

Então o dôce fedelho,
tão dôce como cajú,
repara em si... vê-se nú...
faz-se azul... faz-se vermelho
como um monco de perú.

Depois a fugir desata
pelas ethereas regiões.
Atraz d'elle as maldições
de quanta velha beata
foi ao ceu... por alçapões.

Que o ceu que estamos mirando
occultas entradas tem,
e sem fiscal! Inda bem.
A não ser por contrabando
já lá não entra ninguem.

Vôa... vôa... É mesmo um raio
rapido o espaço a rasgar.
Vôa... Á força de voar
perde o alento, e n'um desmaio
vem no chão co'as azas dar!

N'essa noite a authoridade
metteu, zelosa qual é,
o menino em São José;
mas ninguem crê na cidade
que a sciencia o ponha em pé.

Quem tem os dias contados
mais viver não póde, não.
É do amor finda a missão
dês que os fundos, bem cotados,
valem mais que o coração.

[1] Pronuncie Ramboá.

ENTEADA

N'UM ALBUM

RAPHAELA

I

Era em março, e a Folia,
dando o braço ao Carnaval,
entrava em Dona Maria.
Não sei que idea fatal
me levou tambem á festa.
Sei que fui. Sei que vestia
dominó côr de giesta,
e que a mascara, que ao rosto
trago presa todo o dia,
eu trocára, ébrio de gosto,
por outra que não mentia.

II

III

IV

V

VI

VII

VIII

IX

X

XI

[2] Guarda-roupa.

AS MINHAS MEMORIAS

Á Exc.ma Snr.ª D. A. F. Pinto

Nasci. Vivi. Foi meu cruel destino
ser inutil, vulgar, emquanto moço.
De dôr em dôr, cançado peregrino,
chego á triste velhice sem conforto.
Nunca pude saber o que era tino,
como a bolsa não soube o que é caroço.

Quando voltares hei de ser um morto.

ESTRELLA CADENTE

Ella não tinha ainda os seus vinte annos.
Eu já cincoenta, ou mais. Poucos enganos
podia haver na conta. Trouxe-a ao cóllo!
Não fôra um pólo em frente do outro pólo;
mas, inda assim, contando-se este caso,
dir-se-ia ao certo: Era uma vez o Occaso,
e era uma vez a Aurora...                          Não sei como
n'um bello dia, por ser vedado o pomo,
por ser appetitoso, finalmente
não sei porquê!... por eu ser um demente...
por ser ella o retrato da que é morta...
fosse lá porque fosse!—Isso o que importa
n'um bello dia—amei-a!... Uma doença
que a gente apanha quando menos pensa.

               *

Sorriam de piedade os meus amigos
todos á uma, e os novos e os antigos.
Nas salas bichanava-se em cochichos:
«Ora, o ginja! aparando inda os esguichos
com que o bisnaga amor! Atraz da pomba,
o perfido lacrau!»
                    Deitavam tromba
os outros pretendentes. Um barulho
por nada. Então porquê?! Por um arrulho?...
Um simples suspirar?... Pois que mau era
brotar-me em pleno inverno a primavera?...
Durava pouco?... Tanto quanto dura
em toda a terra tudo o que é ventura.
Engeita-se por isso?...
                        A minha idade?!
Fui de Mathusalem socio e confrade.
Adão dizia ao vêr-me: Olá, compadre!Contemporaneo eu sou do eterno Padre.
Não ha mais nada acima. Querem isto?...
O Padre, o velho, foi mais tarde o Christo.
Ondas d'amor jorrou d'aquelle peito.
Remiu. Salvou. Pôz termo ao longo pleito
entre as trevas e a luz, e, porque vinha
em nome só do amor, annos que tinha
ninguem lh'o perguntou.
                        Sinceramente:
ha rugas dentro d'alma?!...

               *

                            Impenitente
morrera n'esta fé; sobre o Evangelho
jurára que mais ama o que é mais velho;
se o ponto da questão, o delicado,
outro não fôra; um velho ser amado!
Aqui é que me dóe!
                   É necessario
primeiro formular um questionario.
Menos se quer á flôr, menos se trata,
por ser de argilla o vaso e não de prata?
Aqui... além... embora onde estiveres...
não és, ó flôr, a mesma?... e das mulheres,
—não digo já de todas; mas d'algumas—
igualmente o boudoir tu não perfumas?...
Não busca asylo a crença, a christandade
não presta o culto seu á Divindade
no templo secular, de negro aspecto,
humida arcada, abobadas por tecto,
como na alegre ermida redourada,
quente aos raios do sol, sempre inundada
de jubilos e festa?!... Amor travêsso,
só por vêr para dentro, vê do avêsso?

               *

Não te illudas, ó louco! A Providencia
dependente do amor fez a existencia.
Para estimulo a amor fez a belleza,
o viço, a força, quanto com certeza
tu já não tens. Por isso no concurso
aos vagos corações a pelle do urso,
a penna luzidia do bom pato,
dão por si preferencia ao candidato.
Esta a verdade crua. O sentimento
depois é que se faz. É-lhe fermento,
é mister que primeiro insuffle a arteria,
e n'ella o sangue injecte, a vil materia.
A bocca, um pé, a guia d'um bigode
mais que as almas em fogo sempre póde.
E tu não valsas!... tu não tens bocca
o argot da moda, a phrase insossa e ôca!
Por mais ciré, torcido, repintado,
que o teu bigode vá... bigodeado
és tu que ficas, velho! a torto e a esmo!

Justo e fatal!... Fatal e justo é o mesmo.

No chão não rojes teus cabellos brancos
n'um desespero ignobil! Para arrancos,
para entrares no inferno como o Dante,
a dôr da tua cólica é bastante.
Outras não queiras, outras não procures
improprias já de ti. Não; em nenhures
rejuvenesce o Fausto; e, dês que ha mundo,
quem disse um velho—disse um moribundo.

               *

Ella não tinha ainda os seus vinte annos.
Por não tel-os vivia n'uns enganos
que eu não devia ter nos meus cincoenta.
Distraída commigo olhou attenta
para um moço qualquer. Nem eu me lembro
do nome d'elle já! Era em setembro.
Isso sei eu. Que noite!... Estou a vêl-a!
Ultima noite azul!... Rasto d'estrella,
curva de luz nos amplos ceus cadente,
illuminar-nos veio de repente.
Ella assustou-se, e disse: Dieu te garde!
Pouco tempo depois, horas mais tarde,
tal qual a estrella, em rapido trajecto,
no mundo novo entrou d'um novo affecto.

AO ACTOR JOÃO ANASTACIO ROSA

que, na sua officina de sapateiro, mandára fazer para uso do author umas botas impermeaveis

ÁS RÃS PEDINDO REI

Traducção da fabula de Lafontaine—Les Grenouilles

Viviam certas rãs n'um charco immundo
em republica plena. Era um pagode!
Tal qual uns democratas que ha no mundo
julgando que a republica, no fundo,
outra coisa não é senão a gente
fazer o que bem quer e quanto póde,
a rã tripudiava impunemente.
Todos os dias era certo o choque
entre o batrachio forte, intransigente,
e parte da nação já descontente
que a Jupiter pedia ou rei ou roque.

      O deus fez-lhe a vontade.
Largou-lhe lá do ceu um rei pacato,
      de summa gravidade.

Das alturas tombando, o rei na quéda
      fez tal espalhafato,
que as fêmeas em pavor, os machos fulos,
aquellas saltitando, estes aos pulos,
como é uso das rãs nas grandes crises,
cada qual a gritar:—arreda! arreda!—
entre os juncaes, no lôdo, nas raizes
dos salgueiraes se enreda.

               *

Por longo tempo em seus esconderijos
das rãs esteve homiziado o povo.
Transformaram-se em medo os regosijos
da antiga bacchanal. Gigante novo
cuidavam ser o rei que o ceu lhes déra.
Não ousavam sequer saír da tóca;
pois, não raro, os instinctos maus da fera
por imprudente a presa é que os provoca.

Já n'essas eras muito a pêllo vinha
dizer: Cautela e caldos de gallinha...
O rei era um pedaço de madeira.
Nem mais, nem menos.
                     N'uma bella tarde
uma das rãs, por ser menos covarde
      ou mais bisbilhoteira,
tirou-se de cuidados, manso e manso
na flôr das aguas surge, e ás guinadinhas
      com muito tento e geito
      do cêpo se aproxima.
Após ella vem outra... e outra... aos centos.
Vendo que o rei não sae do seu ripanso,
rodeiam-no; coaxam: Salta acima!...      e coaxado e feito!...

O rei, temido outr'ora, ás pecuinhas
d'essa chusma villã se vê sujeito.
      Em rapido momento
sobre elle a malta audaz se encarapita,
e faz do bom monarcha um bom assento.
Nem chus nem bus! Calado que nem porta,
qual fôra n'outros tempos!...
                              Isto irrita.
Rompem as rãs então n'uma algazarra
      que o pantano atordôa,
os fios d'alma a quem as ouve corta.
«Leva d'aqui, ó Jove, esta almanjarra
que nem mexe, nem pune, nem perdôa,
e mais parece uma alimaria morta,
      cabide d'uma c'rôa,
em vez de nosso rei—nossa vergonha!»
Vae Jupiter que faz? Uma cegonha,
das muitas que possue, logo destaca,
e manda que das rãs ponha e disponha,
n'uma das mãos o queijo e n'outra a faca.
Ora a cegonha, apenas em seu throno
dona das rãs se vê e sem ter dono,
diz comsigo:
            —Nasci dentro d'um folle!
Quem tira agora o papo da miseria
sempre sou eu!...—
                   Passeia toda séria,
perna aqui... perna além, n'um andar molle,
e quanta rã apanha quanta engole.

               *

Geral consternação o charco enluta.
      Renovam-se as lamurias:
que o rei é doido e tem ás vezes furias;
que, doido ou não, o povo trata á bruta;
por fim, que faça o deus formal promessa
d'outro rei que as não coma tão depressa!
      O Jupiter tonante
d'est'arte lhes responde:
                          «Inutil prece!
Dei-vos um rei tranquillo, inoffensivo,
que nem sempre se tem nem se merece:
      um rei que era um regalo!
Foi vêl-o e pôl-o pela barra fóra!
Dei-vos segundo: um genio um pouco vivo...
      um pouco extravagante...
      Meninas, aguental-o!
Era bom o primeiro e foi-se embora.
      É mau este de agora.
Contentae-vos com elle, ó meus endezes,
pois venha quem vier... peior mil vezes.»

ONZE DE NOVEMBRO

ASSIM É QUE EU GÓSTO D'ELLA!

Eu nunca fui poeta. Era loucura
mostrar depois de velho pretensões
quando as não tive em horas de ventura,
de tão dôces, mas breves, illusões.

Então era a minh'alma que gemia
no vago anceio d'onde nasce o amor;
mas hoje sei que amor no mesmo dia
nasce, esmorece, e morre como a flôr.
Da meiga briza o tépido bafejo,
a rosa perfumada, o pôr do sol,
as nuvens d'oiro,—esplendido cortejo
do astro-rei, a voz do rouxinol;

Esse hymno immenso com que a terra exprime
viva saudade pela extincta luz,
se para mim então era sublime,
ai! que já por meu mal me não seduz!

Quando contemplo agora o fim da tarde,
quando ao sumir-se no crystallino mar
o facho accêso sobre as ondas arde
e vae depois nas ondas mergulhar;

Sabeis vós o que penso em tal instante?
—Vêde a que prosa vil isto chegou!—
Sabeis vós o que penso?'... o que lamento?...
O dia mais de vida que passou.

    De vida, sim, meus senhores,
    que não ha pechincha egual!
    Só algum sarrafaçal
    em horas de maus humores
    grunhirá sombrio e rouco
    que pelo seu fim anhela!
    Eu cá por mim acho pouco
    e morro d'amores por ella!

    A vida saboreada
    de um certo modo que eu sei.
    Nem limpa-botas nem rei;
    trazer camisa lavada;
    bem lavada a consciencia;
    libras velhas na algibeira;
    ter um trem e por decencia
    um garoto na trazeira.

    Cadeiras... todas de braços,
    fôfas como pão de ló.
    Nunca dar ponto sem nó
    nem pôr ponto em dar abraços.
    Caçadas... feitas no prato,
    e sobre a caça café.
    Charutos... dos de contracto
    Lib'ra nos! antes galé.

    Vejam se eu dava o cavaco
    ou se quebrava o toutiço
    por ser tudo quebradiço
    n'este mundo como um caco!
    Em se quebrando... acabou-se.
    Ora, adeus! Fortes lamechas!
    Era bonito se fosse
    ficando tudo p'ra mechas!

    Amor de marrafa branca
    como o cão e a cadellinha
    sempre fiel! Que gracinha!...
    Ao chá por baixo da banca
    dando ternas pizadellas
    que as meias deixam de luto,
    que fazem vêr as estrellas,
    e provam que o par é bruto.

    Ter sempre o mesmo barbeiro
    e sempre o mesmo topete!...
    Á mesa do voltarete
    defronte o mesmo parceiro!...
    O molle ser sempre o molle!...
    sempre esperto o serigaita!...
    Na mesma gaita de folle
    soprar quem sopra tal gaita!...

    Quem pensa assim... ai! coitado!
    ou perdeu todo o juizo,
    ou se tem dente do sizo
    pelo alveitar foi achado.
    Para mim que sou amante
    do que muda e do que mexe,
    como havia ser seccante
    o tal mundo de escabeche!

    Beijar nos pulsos a algema
    com que Amor nos manietava;
    amanhã mandal-a á fava;
    a belleza eis do systema.
    Ser hoje amigo do Brito,
    amanhã sêl-o dos Soisas!...
    Viajar hoje no Egypto;
    vêr ámanhã novas coisas!

    Isto, sim, que é prazer certo!
    Quem julgar que assim não presta
    diga adeus a esta festa
    que o cemiterio está perto!
    Pois póde haver tolerancia
    na China, aqui, ou em Gôa
    com quem defende a constancia
    que é a maçada em pessoa?!

    Aqui d'el-rei porque mente
    toda a humana geração!...
    Grande pena!... pois então,
    se mente, mente-lhe a gente.
    Por mentira, mentirola.
    Por esparrella, esparrella.
    Assim vae esta charola:
    assim é que eu gosto d'ella!

    Dizem que a vida os assusta
    porque em tudo encontram móca;
    que o bem a todos não toca,
    que a Justiça não é justa.
    Eu, por mim, quero-a mais larga,
    que, se acaso um dia fôr
    parar-lhe ás mãos, menos carga
    sobre os hombros me ha de pôr.

    E se o bem me não tocar
    tambem uma vez sómente,
    ferro commigo no quente
    e, lá, desato a chorar.
    Não é mau. Dou de conselho
    a quem quizer divertir-se
    que chore em frente do espelho
    e por força acaba a rir-se.

    Chorar é bom! Quem me dera
    nos tempos que já lá vão
    quando, moço, o coração,
    ao romper a primavera
    sobresaltado tremia,
    e da terra toda em flôr
    juntava á meiga harmonia
    doces lagrimas d'amor!

    Se á vida não acham geito
    porque todos têm chorado,
    cá para mim vem barrado
    quem lhe põe este defeito.
    Elles que foram pequenos
    e contra as lagrimas chiam,
    de lacrima christi ao menos
    um copo não beberiam?

    Tal resmuneia e se queixa
    que as filhas não fecha a mãe;
    que a mãe namora tambem,
    e mais que torna e que deixa!
    Ih! Jesus!... Que gritaria!
    Se a mãe as filhas fechasse,
    nenhuma as portas abria.
    Ai de quem as arrombasse!

    Caturras! Se ha quem supponha
    nas politicas regiões
    que inda póde haver Catões
    sendo tão rara a vergonha!...
    O galante é que no jogo
    cada qual puxa o seu trunfo
    quando sem armas nem fogo
    alcançar póde o triumpho!

    Deploram republicanos
    que lhes tosquiam as azas?
    Pois vão lá p'ra suas casas
    fazer dos creados—manos.
    Os outros temem que os thronos
    se despedacem? Demonio!
    Não lhes resta ainda, monos,
    os thronos de Santo Antonio?—

    Tudo aqui se remedeia;
    tudo tem facil saída
    se as honras dermos á vida
    d'um jantar ou d'uma ceia.
    Quem tentar pôl-a a direito
    perde o tempo e a razão
    porque luta peito a peito
    com phantastica visão.

Eu nunca fui poeta. Agora vêdes
que menos do que nunca aspiro a sêl-o.
Se espalmar-me tentei pelas paredes
do teu Parnaso, Apollo, vae-me ao pêllo!

Põe-me nú se conservo n'este fato
algum resto de parvoas pretensões,
já que o mundo como é, o mundo ingrato,
despir-me soube as dôces illusões.

Dormi. Sonhei. Do sonho hoje acordado
na prosa da verdade emfim caí;
mas como tudo tem sempre um bom lado
ganhei gordura se illusões perdi.

EM CINTRA