VIII
Os dois namorados ficaram confusos, como colegiais surpreendidos a furtar maçãs.
—Senhor, balbuciou André, não pense que... Juro-lhe, pela minha honra, que é a primeira vez que...
—Meu caro vizinho, permita-me que lhe diga que é um parvo! interrompeu o senhor Germinal, que se assentou sossegadamente, e puxou para junto de si, ameaçando-a com o dedo, a linda Rosa, um tanto enleada.
Quem, então, ficou de todo embatocado foi o pintor...
Pois supõe, continuou o senhor Germinal, que iria eu próprio meter o lobo no aprisco, se não tivesse... cá o meu plano?
—Será possível!... exclamou Sauvain
—Tudo é possível, meu caro. E possível que, à{45} força de deitar o nariz fora da janela, esta criança reparasse em certo vizinho; é possível que o pai, vendo-a pensativa, procurasse descobrir o que a preocupava; é possível que, adivinhando ele o que de ordinário atormenta uma rapariga de dezassete anos, a seguisse à dita janela e aventurasse um olhar por cima do ombro da filha; é possível enfim, que, por entender que ao longe se vê mal, aproximasse os dois curiosos para se verem de perto.
André lançara-se de joelhos na areia do jardim: com uma das suas mãos apertava a dextra escabrosa do senhor Germinal, com a outra levava aos lábios a alva mão da donzela.
—Rosa!... minha Rosinha! anjo querido! sonho dourado da minha vida! repita diante de seu pai aquelas palavras, que há pouco me iluminaram o coração!
—Amo-o; André! disse ela ingenuamente e sem hesitar.
—Não se morre de alegria!... exclamou o enamorado moço.
—E o senhor... meu bom amigo... meu pai... dá-ma?
—Ela ama-o, André! respondeu o senhor Germinal, arremedando Rosa. Mas levante-se daí, vizinho! há mais janelas e mais inquilinos, no prédio!
André obedeceu: nos seus olhos ardiam fogos de{46} artifício, o coração tocava-lhe a rebate, e no cérebro sentia ressoar uma banda regimental.
—Escute-me, disse o velho.
—Sou todo ouvidos!...
—Não se vive só de ar: não lhe parece?
—É verdade, infelizmente!...
—Bem. E que trará o senhor para a comunidade conjugal?
André mordeu o bigode, e consultou as nuvens, como se elas estivessem encarregadas de trazer-lhe barras de oiro e se houvessem demorado no caminho.
—Trarei, respondeu enfim, o meu amor, a minha coragem, a minha perseverança e... a minha fé no futuro.
—Muito bem, disse o senhor Germinal. E tu Rosa, que levarás em dote a teu marido?
—A felicidade, respondeu ela simplesmente, mas com profunda convicção.
—Muito bem, repetiu o velho. Pois, meus filhos, possuís exactamente o mesmo capital, que eu possuía quando casei.
—E foi feliz, afirmou Rosa.
—Feliz!... redarguiu ele com amargura; feliz, como o ladrão, que se apressa a dissipar o que roubou, pensando incessantemente nas galés que o esperam!... feliz, como o condenado à morte, que afoga a razão numa orgia efémera, e que despertará no cadafalso!... Não sabe, André, quanto custa{47} ver a mulher que adoramos, uma criatura delicada a quem desejaríamos entretecer um ninho com todas as maravilhas do universo, estragando a vista num trabalho ingrato para poder comprar um miserável vestido de chita!... sorrir forçadamente para nos esconder as pálpebras avermelhadas pela vigília!... definhar-se; a fogo lento, à mingua de um pouco de supérfluo!... E tu ignoras também, minha pobre Rosa, o que é ver entrar à noite um homem desanimado, abatido, prostrado pelo excesso de um trabalho mecânico, humilhado por superiores insolentes, escarnecido por subalternos mais bem trajados do que ele, consentindo, para poder ganhar um salário irrisório, em calcar aos pés a sua inteligência e a sua dignidade!... Tu não sabes, repito, o que é sentir-se uma pessoa esmagada por esta luta com a pobreza, prever próxima a morte, e inclinar-se de noite sobre um berço, murmurando: «Que será desta criança, quando eu lhe faltar?»
Rosa e André achegaram-se um ao outro, trocando olhares altivos, que desafiavam a adversidade.
—Ignoram tudo isto, prosseguiu o senhor Germinal; porém eu, que o sei por experiência própria, jurei sobre o túmulo de minha mulher, morta de miséria, vítima de privações de toda a espécie!... que nunca daria minha filha a um homem pobre.
André levantou-se, pálido e com as feições transtornadas.{48}
—A não ser que ela tenha um dote razoável... concluiu o velho.
Os dois jovens ficaram aterrados.
—Oh, meu pai!... meu pai!... exclamou Rosa, quase irrompendo em pranto.
—Senhor! bradou André, trémulo de indignação, se o que diz é um gracejo... é bem cruel!
Papá Germinal esfregou as mãos, produzindo desta vez o ruído de um raspador colossal.
—Senhor Sauvain, a quantos estamos do mês?
—Oh!... o senhor está abusando...
—Responda-me por favor: quantos são hoje?
—Não sei!... 8 de maio, creio eu.
—Pois bem, senhor Sauvain; hoje mesmo, 8 de maio de 1854, minha filha possui um dote.
—Um dote?... eu! exclamou Rosa, incrédula.
—Isso pouco me importa, disse André, o essencial para mim...
—Pelo contrario, deve importar-lhe muito; sem dote, não consentiria eu que casasse com minha filha. Dou-lha... com noventa e dois mil francos.
Desta feita, o susto sufocou Rosa e André. Pareceu-lhes palpável que o senhor Germinal trilhava o caminho que conduz a Charenton[2].
Mas o velho, sempre sério, tirou convulsivamente do bolso um grande maço de notas de banco, folheou-o{49} perante os olhares atónitos dos dois namorados, e repetiu, acentuando cada silaba: «Noventa e dois mil francos!» Tome lá, meu genro!{50}
IX
Sauvain abriu desmesuradamente os olhos. Tantos valores nas mãos do senhor Germinal, cuja miséria igualava a de Job!... O caso era de natureza a inspirar suposições extravagantes: até Rosa se inquietou.
—Como assim, meu pai! disse ela, tudo isso lhe pertence?
—Pertence-te a ti; pois que to dou.
—E de onde lhe veio tanta riqueza?
A fronte do velho enrugou-se; até aquele momento desenvolvera insólito desembaraço, mas a esta pergunta de sua filha, reapareceram o seu constrangimento anterior, o seu balbuciar e timidez habituais.
—De onde me veio este dinheiro!... retorquiu ele; queres sabe-lo?
—Certamente!...{51}
—Das minhas economias.
—Economias!... quando cem vezes nos tem faltado o necessário!... quando não era raro ignorarmos na véspera se jantaríamos no dia seguinte!
—Minha filha, é bom sofrer no presente para assegurar o futuro.
—Economias!... quando o pai, estando doente, ia morrendo por falta de remédios e de dinheiro para os comprar!
—Sou avarento!... balbuciou o senhor Germinal, evidentemente constrangido.
—Talvez... Mas explique-me por favor, meu pai, como pôde poupar perto de cem mil francos, dos seus seiscentos francos de ordenado?
—Há muito tempo que comecei, disse o velho enxugando o crânio; os pequenos regatos tornam-se em rios, os soldos transformam-se em francos, e os francos em notas do banco.
—Para isso mesmo era necessário recorrer ao cambista, e há doze anos que meu pai não põe os pés fora de casa!
—Estás importuna!... articulou o senhor Germinal, que, de amarelo cor de palha, passou ao amarelo do enxofre; além de que... há mais de doze anos que tive uma herança...
—Agora diz que o herdou!...
—Foi ainda em vida de sua mulher? perguntou André secamente.{52}
—Ao que parece...
—Entretanto, senhor, acaba de confiar-nos que a mãe de Rosa morreu à míngua do necessário!...
—Vão para o diabo! bradou o senhor Germinal. Dar-se-á acaso que me tomem por um ladrão?
—Meu pai!...
—Vizinho!...
—Minha filha... Meu amigo... Não querem o meu dinheiro, não é assim? julgam-no de origem impura? Pois não o queiram. Reembolso-o, e... basta de amor... nada de casamento! Voltemos para nossas casas, e não falemos mais em tal!
—Senhor, exclamou André, afiance-nos ao menos que existe um motivo grave que o obriga a ocultar a origem da sua riqueza!...
—Nada mais desejam?... Pois bem; é verdade, com a breca! Tenho um motivo grave... gravíssimo! tenho dez... tenho cem... tenho mil!
O senhor Germinal estava extremamente agitado.
—Porém, continuou André, como o consideramos um dos homens mais honrados deste mundo...
—Não carecemos saber mais nada, concluiu Rosa.
—Ora... ainda bem! Graças a Deus! exclamou o velho, respirando mais livremente.
E, enlaçando Rosa nos seus braços, envolveu-a num olhar cheio de ternura, e beijou-a na testa.
—Criança má!... murmurou ele, estás com{53} muita pressa de abandonar o teu velho pai?... Porque não esperas cinco ou seis anos?
—E quinze, porque não? resmoneou André.
—Nós não te deixaremos, papá!
O senhor Germinal abanou a cabeça.
—É o mesmo, acrescentou ele, foi uma grande tolice enamorares-te deste arganaz desengonçado!
—Obrigadíssimo pelo elogio, disse o pintor.
—E, a final de contas, se não casasses com ele... nem por isso adoecerias!
—Perdão, meu pai, respondeu Rosa resolutamente, morreria!
—Está bom! basta! interrompeu o velho assustado; já mo disseste... E foi mister essa ameaça, continuou ele entre dentes, para me resolver...
Não disse mais, soltou um suspiro, apalpou as notas do banco através do usado pano da sobre-casaca, e passados poucos segundos exclamou de súbito:
—Vamos! abracem-se diante de mim!
O pintor não se fez rogar, e as faces de Rosa tingiram-se de vivas cores.
—E trabalhe cada um por sua parte, prosseguiu o senhor Germinal. A riqueza de minha filha não deve impedi-lo de dar ao pincel, senhor Sauvain.
—Antes duplicará as minhas forças, lhe tornou André; quero ganhar um dote igual ao de Rosa, e... ganhá-lo-hei!{54}
—Então vá para o seu atelier, e volte depois para jantar connosco. À sobremesa fixaremos... sim, talvez possamos fixar o dia da cerimonia!
Quando acabou de proferir estas palavras, que visivelmente lhe custaram a soltar dos lábios, ouviu-se no pátio o rumor de uma violenta altercação.
Duas vozes masculinas, uma das quais era a da senhora Poussignol, discutiam calorosamente:
—Mas aonde vai o senhor?... uivava a barbuda porteira.
—A casa de um dos seus inquilinos, já lho disse, com mil demónios! respondeu um baixo profundo, de timbre metálico e pronúncia meridional.
—Qual inquilino?
—De certo o menos tolo.
—Isso não basta... Como se chama ele?
—Não sei.
—Ora essa!...
O senhor Germinal, ao ouvir o som de um órgão humano, mudara de semblante.
—Quem está aí? perguntou ele, quem é esse homem?... que quer?... Vamo-nos embora, não digam que estou em casa!
Os olhos rolavam-lhe assustados nas órbitas; os membros tremiam-lhe, os queixos batiam um no outro a seu pesar.
—Mas, disse Rosa, não pode ser para nós, meu pai; não conhecemos pessoa alguma!...{55}
—Vamo-nos... vamo-nos embora! repetia o velho.
—Que tem ele?... perguntou o pintor em voz baixa.
—Sempre esta doença nervosa! respondeu a jovem. A presença de um desconhecido transtorna-o completamente! Veja quem é, meu amigo... e sossegue-o.
André subiu a um banco, e olhou por cima da sebe. Viu a senhora Poussignol, calando baioneta com a vassoura, diante de um individuo de pequena estatura, largo de ombros, e de pernas arqueadas.
—Vamos! Rua! vociferava a digna mulher; falhou-lhe o plano; para cá vem barrado, freguês! Safe-se quanto antes, quando não grito «ó da guarda!»
—Não faça tanta bulha, tiasinha, cale-se aí!... Com mil amarras!... Por quem me toma, você?
—Por um velho larápio, que tratava de se encaixar cá em casa! Ah, seu grande velhaco! julgava que o não viam, quando passou diante da minha loja?
Uma gargalhada sonora acolheu a conjectura da porteira, e o desconhecido fez uma pirueta, apertando as ilhargas. Resultou deste movimento achar-se em frente de André, cujo rosto admirado aparecia por cima da sebe de buxo.
—Ah, ah! exclamou ele; eis o meu homem! E,{56} caminhando direito ao pintor, estendeu-lhe a mão, gritando:
—Como passa, querido amigo, cujo nome ignoro! Estou encantado pelo encontrar!
Depois, vendo o senhor Germinal e sua filha, tirou o chapéu e cumprimentou-os com galantaria.
—Desculpe-me, senhor; peço mil perdões, menina, se os interrompo na sua conversação... São apenas duas palavras que tenho a dizer ao meu jovem amigo. Permitam-me que lho roube por um segundo...
—Perdão, senhor, disse André, estupefacto; a quem tenho a honra de falar?
—Que diabo!... pois não me reconhece?
—Confesso que não.
—Ora olhe bem para mim, com a breca!
André olhou. A sua verificação deu em resultado: uma cabeça calva, um nariz cor de violeta, uma comprida barba de duas pontas, um casaco sórdido, umas botas acalcanhadas, e um chapéu pardo. Tudo isto, iluminado por dois olhos buliçosos, brilhantes e cheios de malícia, despertou-lhe pouco a pouco a memoria...
—Então não se recorda? perguntou o recém-chegado.
—Ora espere!...
—Em 24 de Dezembro, à noite... na véspera de Natal...{57}
—Ah!... sim!...
—Defronte da vidraça...
—De uma casa de pasto, concluiu o pintor. Estou às suas ordens, meu bravo!
Durante este tempo, o senhor Germinal, convencido de que o objecto da visita lhe não dizia respeito, voltara a si do seu estranho pavor. Esfregava lentamente as mãos, soprando como uma baleia ferida. Rosa contemplava Pedro Toucard.
—É um novo conhecimento, disse-lhe baixinho André, sorrindo-se; esta noite lhe contarei como o adquiri.
E despediu-se do pai e da filha.
—Senhor... Menina... disse Pedro Toucard, saudando os dois, tenho a honra de apresentar-lhes os meus respeitos... Linda criatura, com mil amarras! observou ele a André, seguindo-o; e o pai parece bom homem...{58}
X
Às vessas de certo romano, que desejava que os seus compatriotas tivessem todos uma só cabeça, para lha cortar de um golpe, André Sauvain desejara, nesse momento, que o género humano tivesse um só peito, para poder estreita-lo amigavelmente nos braços.
Portanto, fez boa cara e bom acolhimento àquele indigente desconhecido, cuja companhia teria apreciado mediocremente noutra ocasião.
—Irra!... mancebo, disse-lhe o provençal enquanto atravessavam o pátio, pode gabar-se de me ter dado que fazer! Há quatro meses que corro Seca e Meca por sua causa.
—Como assim!... Julgava ter-lhe dito onde morava?
—Nem o nome, nem a morada... No momento{59} em que lhe perguntava uma e outra coisa, zás! partiu como uma bala!
—Sim, recordo-me... Uma pessoa a quem desejava falar...
—Farsista!... A verdade é que lhe desagradava o papel de meu credor, e queria tacitamente dar por saldada a minha dívida.
—Ora... uma bagatela!
—Uma bagatela, que me impediu de morrer de fome. Felizmente vi-o ontem à noite; reconheci-o à luz de um bico de gás, quando atravessava para a rua dos Mártires; movia-se como uma locomotiva! Corri atrás de si, mas as minhas pernas já não são setas, e cheguei justamente a tempo de receber com a sua porta na cara. Não eram horas para visitas. Tomei o numero da casa, e eis-me aqui!
—Seja bem vindo, disse Sauvain, introduzindo-o no atelier.
Pedro Toucard entrou, com o chapéu à banda, bamboleando-se e retorcendo com afã uma das pontas da sua barba grisalha. Começou reembolsando o pintor da módica soma que lhe devia; e depois, sentindo-se mais à vontade. instalou-se como se estivera em sua casa, e tornou-se de uma familiaridade cada vez maior.
Num volver de olhos, inventariou a mobília e permitiu-se fazer um trejeito de capitalista extraviado num casebre. Em seguida passou a examinar vários{60} esboços; fez careta a uns, e sorriu para outros com ar aprovador. Depois, voltou muitas telas encostadas à parede, e descobriu sucessivamente uma, duas, três, quatro cabeças de mulher... sempre a mesma, com olhos negros e cabelos louros.
—Bravo! exclamou ele.
—Que temos? interrogou André descontente.
—A virgem do jardim! Sim, senhor!... Não é digno de dó, meu amigo... porque naturalmente é correspondido!
—Senhor, disse o pintor, um pouco irritado pela demasiada sem-cerimónia, estou com pressa; tenho um negócio urgente, e se lhe não sou já preciso...
—Não vale zangar!... replicou Pedro Toucard. O senhor agrada-me, com mil bombardas! e é por isso que me interesso no que lhe diz respeito. Além de que, fui sempre curioso, tagarela e indiscreto... Ninguém se corrige nesta idade, com todos os diabos!
—Tanto pior! observou-lhe André.
—Pelo contrário, tanto melhor! Tenho apego aos meus defeitos; estou habituado a eles, há sessenta anos, e ser-me-ia penoso deixa-los.
André sorriu-se; e o velho, vendo isto, foi buscar uma cadeira.
—Quer que lhe conte a minha historia? perguntou ele.
—Para quê?{61}
—Ora essa!... para que me conheça bem. Embora por sorte mofina me veja reduzido a um ente miserável, velho e pobre, sou com tudo um patusco aproveitável; posso servir para alguma coisa... principalmente a quem me prestou serviços. À falta de dinheiro, tenho ideias: a felicidade de um homem depende, algumas vezes, do maltrapilho que lhe pediu esmola.
—Pelo que toca à minha felicidade, lhe tornou André, outra pessoa se encarregou dela. É negócio concluído. Porém... não lhe agradeço menos a boa intenção, meu bravo!
—Vejam lá como são os rapazes! Este julga-se completamente feliz, porque vai desposar a sua bela das tranças doiradas!
—Como o sabe?
—Que grande mistério! Qualquer caraíba o teria adivinhado, só de os ver ao lado um do outro. E os quatro retratos dela? Aposto que foram feitos de memória!... Mas, meu caro... a felicidade não consiste só numa afeição, aguda ou crónica; a felicidade, não obstante o que têm dito os trovadores, prefere tectos doirados a barrotes... assim!
E Pedro Toucard designava o tecto, que aranhas centenárias haviam ornado com bambinelas de seu lavor.
—Dar-se-á acaso que o senhor tenha a veleidade de doirar os meus? perguntou André, rindo.{62}
—Presentemente não, respondeu o provençal, contemplando melancolicamente as suas velhas botas esburacadas. Falta-me o metal necessário... Agora estou muito em baixo!... Mas tenho diante de mim o futuro; ainda hei de trepar, creia! É a minha sina! E, quem sabe?... talvez que eu algum dia lhe compre quadros.
André contemplou com admiração aquele sexagenário, falando do futuro, na idade em que geralmente só se pensa no repouso.
—Nada o faz desanimar! disse o pintor.
—E tenho boas razões para isso. Repito a pergunta: Quer que o inicie na minha historia?
—Venha ela!
O velho exumou da algibeira um cachimbo, curto e enegrecido, e logo em seguida um cartucho de papel, contendo um resto de tabaco.
—Pode a gente fumar em sua casa?
—De certo!
Pedro Toucard acendeu o seu queima-goelas, po-lo ao canto da boca, escarranchou-se numa cadeira, torceu em cada mão uma das pontas da sua longa barba, e contou por miúdo o que nós vamos contar... por grosso.{63}
XI
Pedro viera ao mundo sob a influência de uma estrela buliçosa, e trouxe a bossa da especulação. Em pequeno, o pensamento de ser rico meteu-lhe o diabo no corpo; e o sobredito diabo nunca mais de lá saiu. Foi este que obrigou Pedro, ainda criança, a trocar umas vacas, de que lhe haviam confiado a guarda, por um pesado fardo de bufarinheiro. Havia ali, na sua opinião, o gérmen de uma casa de comércio. Mas Pedro foi agarrado; Pedro levou uma boa surra de pancadas; e Pedro... recomeçou as suas operações em mais larga escala.
Dentro em pouco, o seu furor pelo negócio, a necessidade de agitação, o seu carácter irrequieto e extravagante, tornaram-no um ente insuportável. Seu pai, humilde lavrador, que nada percebia de indústria, pediu-lhe que escolhesse uma carreira e partisse quanto antes. Pedro quis ser marujo. Aos{64} doze anos embarcou como grumete, com a cabeça recheada de projectos, de cálculos e de empresas futuras. Levava consigo um pacote de peões, de bolas, de fitas e de missangas, que obtivera barato dos seus camaradas, e que contava impingir muito caro aos rapazotes negros, ou peles-vermelhas, que encontrasse na viagem.
Com a ajuda das chicotadas, Pedro depressa se fartou da sua profissão. Na primeira paragem do navio, desertou sem dizer «água vai». Não tinha as pernas muito compridas, mas a ambição forneceu-lhe botas de sete léguas, e lançou-se a galope atrás da fortuna.
Desde então, a sua vida não foi mais do que uma carreira desenfreada. Só à sua parte, viajou mais do que dez Judeus errantes e vinte ingleses spleenaticos. A terra e o oceano pareceram-lhe pouco; esperava encontrar maiores extensões. Contudo empregou em percorre-los todos os meios de locomoção conhecidos, e inventou alguns novos. Vagueou durante cinco anos a pé, a cavalo, em burro, em dromedário, em piroga, em paquete, a nado, em diligência, pela posta, em patacho... traficando, vendendo, comprando, trocando, especulando em trigo, em vinho, em peliças, em azeite, em peles de castor, em negros e negras, etc. Engraxa-botas em S. Francisco, mercador de estofos em Esmirna, banqueiro em Génova, expositor em Londres, mestre{65} de dança em S. Petersburgo, caçador em Arkansas, vendedor de ópio em Cantão, fotografo em Madrid, livreiro em Leipziek, e... um tanto corsário por toda a parte, exerceu cem profissões, pela maior parte honestas, e outras... um pouco menos.
Dez vezes alcançou a cega deusa e a deixou fugir: chegou a possuir cem mil escudos, que um desastre reduziu a quinhentos francos, os quais depois se tornaram em duzentas mil libras, para mais tarde recaírem em zero... E sempre assim, durante meio século!
O acaso, que tomara por bússola, brincava com este homem, como um colegial com uma pela, lançando-a a grande altura, ou mergulhando-a no fundo de um poço. Porém ele comprazia-se no meio destas alternativas, que lhe proporcionavam uma febre perpetua de inteligência. Tão ardente no prazer, como tenaz no lucro, levava uma existência faustosa nos seus dias felizes; dava festas gigantescas, semeava oiro às mãos cheias, e saciava-se de todas as sensualidades. Mudava a sorte, vivia de uma côdea de pão e de um cachimbo de tabaco, não se importando de servir de criado àqueles mesmos que recebera à sua mesa.
Desconhecia preconceitos e falsas vergonhas: respirava só pelas comoções corrosivas da perda e do ganho.
Entretanto fixara um limite à sua futura riqueza,{66} e dissera consigo: «Não irás além!» Queria dois milhões. Por varias vezes conseguiu o seu fim; mas... vinha um incêndio, uma falência, uma revolução, um cataclismo qualquer, que tudo absorvia. Acontecera-lhe um dia seguir uma caravana, carregada por ele de perfumes, marfim, ébano e pedras preciosas. Pelo caminho calculou os lucros prováveis dessas mercadorias, e como achasse o seu ideal muito excedido, jurou que seria aquela a sua última tentativa. Eis senão quando, uma nuvem de salteadores árabes ataca a caravana e rouba-a, deixando Pedro quase morto no meio dos seus servos estrangulados. E Pedro, sempre filósofo, recomeçara pacientemente a sua teia despedaçada.
Assim rolando, de quedas em triunfos, e de vitórias em derrotas, sentiu chegar os sessenta anos; e, como aventureiro já saciado de fadigas, opulento à medida dos seus desejos, singrava enfim para as terras da pátria. Porém a tempestade arrojara o navio sobre a costa; dispersara os seus marinheiros e aniquilara a carregação, arruinando Pedro pela décima ou duodécima vez.
Um brigue estrangeiro recolheu-o das ondas, meio-morto, atado a uma tábua, louco de sede e de dor, fantasiando ainda no seu delírio uma sociedade colossal de comercio, que imaginava ter fundado. Apenas pôde sair do hospital, para onde o tinham transportado, a braços com um tétano, dirigiu-se{67} para Paris. Foi lá que André Sauvain o encontrou andrajoso e faminto.
—E, desde esse dia, que mais empreendeu? perguntou o pintor, que escutara esta narrativa com crescente interesse.
—Um pouco de tudo, respondeu Pedro Toucard. Com o que me restava do seu dinheiro, comprei fósforos e revendi-os, apanhei pontas de charutos, serrei madeira, abri as portinholas das carruagens, fui moço de recados, escritor público, contratador de bilhetes de teatro, professor de esgrima, dei serventia a pedreiros, etc.; enfim, tal como me vê, possuo já alguns centos de francos, que me produzirão avultados lucros. Vou alugar uma tenda; venderei seja o que for... seja a quem for: e, quando tiver mil francos de meu, visto-me de novo e vou jogar na Bolsa.
—Com que fundos?
—Com os da minha inteligência, respondeu Pedro Toucard, batendo na testa com gesto inspirado. Que grande habilidade jogar com capitais!... Com a breca!... se me emprestassem agora cinquenta mil francos, num mês teria ganho o quádruplo!
—Ou ficaria sem nada...
—Qual história! só os tolos é que se enterram, e eu tenho olho vivo... Aposto que ainda me verá milionário!
—Irra! disse Sauvain maravilhado daquela rara audácia, já é ter confiança em si!{68}
—Porque tenho sorte... e ideias, replicou Pedro Toucard. Sou o amante preferido da fortuna: abandona-me às vezes, mas volta sempre para junto de mim... As ideias vêm-me, como aos outros o ar que respiram; uma palavra proferida pelo primeiro transeunte, o latido de um cão, uma tabuleta, a forma de uma nuvem, a musica de um realejo, tudo me gera uma ideia... Eis porque eu tenho confiança!...
Assim falando, o provençal enchera o cachimbo; e como o seu cartucho de tabaco ficara vazio, desenrolou-o maquinalmente, e alisou-o sobre o joelho.
—Olhe! acrescentou ele, mostrando o papel; quando me acho em embaraços, leio um anuncio, abro um jornal, ou o primeiro impresso que se me depara... este, por exemplo, e zás! uma ideia me...
Interrompeu-se de súbito, e o seu olhar ficou fixo no pedaço de papel, que lhe estava servindo para demonstração...
—Com mil amarras! exclamou ele, com voz tonante e erguendo-se de chofre.
—Que foi?... interrogou o pintor, erguendo-se também. O velho fez-se amarelo, logo carmesim, depois branco como um sudário, e por fim agarrou no pulso de Sauvain, e apertando-lho com força, balbuciou:
—Que numero é o desta casa?
—Oitenta e sete.
—Rua dos Mártires?{69}
—Sem dúvida.
—Há cá alguém que se chame Germinal?
—Há, sem dúvida!... respondeu André estupefacto.
—Aonde mora?
—Aqui... ao lado... Era com ele que eu conversava há pouco!...
—Com mil raios! bradou Pedro.
E, num salto de jaguar, atravessou o atelier, abriu a porta, correu para o pátio, e chegou ao jardim, seguido do pintor, ofegante e desnorteado.
Rosa e seu pai conservavam-se ainda sentados no mesmo lugar.
—É o senhor Germinal a quem tenho a honra de falar? perguntou Pedro Toucard.
O senhor Germinal, sufocado por esta pergunta à queima-roupa, respondeu apenas com o seu eterno raspadouro.
—Sim senhor, disse Rosa.
—Muito bem!... continuou o provençal, pois eu chamo-me Pedro Toucard e sou...
Não teve tempo de dizer mais. O pobre senhor Germinal soltou um grito abafado, a ferrugem da sua pele transformou-se em verdete, agitou o ar com os braços, e caiu pesadamente sobre o banco.
—Meu pai!... exclamou Rosa assustada.
—Que aconteceu? perguntou Sauvain na maior. ansiedade.{70}
—Aconteceu... que tudo está desfeito, articulou o velho com voz estrangulada; casamento, amor, futuro... foi tudo um sonho! Separem-se... pois nunca serão um do outro. Depois, dirigindo-se bruscamente a Pedro Toucard, que o observava com impaciente curiosidade, disse-lhe:
—Siga-me, senhor. E afastou-se, mal podendo suster-se nas pernas, seguido pelo provençal, não menos agitado do que ele.
Rosa e André entreolharam-se com terror: dir-se-ia que caíra um raio ao pé deles. Por um movimento espontâneo, a jovem refugiou-se nos braços do seu amado André.
—Separar-nos!... murmurou ela.
—Quem o ousaria!... rugiu, o pintor.
—Mas... que significa isto, meu Deus?! André, no auge da desesperação, meteu loucamente os dedos pelos cabelos banhados em suor... depois, abatido, deixou pender a cabeça sobre o peito. Nesse instante, descobriu por terra o pedaço de papel, que ocasionara esta peripécia. Levantou-o.
Era um pedaço de jornal, em que se distinguiam ainda alguns fragmentos de anúncios.
O pintor leu o que se segue:
«Aos herdeiros ou parentes do senhor Onésimo Toucard, falecido em 8 de maio de 1872, roga-se com instância, para seu interesse, que se dirijam a M. Germinal, rua dos Mártires, n. 87.»{71}
XII
É indispensável agora, para clareza desta narrativa, que volvamos alguns anos atrás.
Em 1842, num esplêndido domingo de primavera, o senhor Germinal, então empregado numa repartição publica, dirigiu-se para o caminho de ferro da margem esquerda, e subiu para o comboio com alegria, difícil de descrever.
Durante toda a semana, o senhor Germinal consultara o barómetro; através da espessa névoa, que embaciava os vidros das janelas, interrogara cem vezes o aspecto do firmamento; cem vezes os seus companheiros de trabalho o haviam surpreendido a olhar fixo para o céu; cem vezes perpetrara erros nas contas; cem vezes, enfim, esboçara na mesa, com a ponta da raspadeira, árvores, campanários, carneiros e choupanas. Tantas distracções num empregado-modelo, atraiçoavam algum projecto, amorosamente{72} acalentado; e, se bem que o senhor Germinal fosse taciturno e pouco comunicativo, todos sabiam qual era esse projecto: ia no próximo domingo a Viroflay.
Nesta época, o senhor Germinal roçava pelos seus quarenta e sete anos, e havia vinte e cinco que vinha, trezentas vezes por ano, assentar-se à mesma hora, na mesma cadeira, à mesma secretária, com as mesmas mangas de lustrina, em frente dos mesmos indivíduos, e recebendo o mesmo ordenado, cujo quantitativo era de cento e trinta e três francos e trinta e três cêntimos.
O senhor Germinal passava, e com razão, entre os seus chefes e colegas, por um homem de medíocre inteligência, mas trabalhador assíduo, de inteira probidade e inflexível honradez. As suas ideias, somadas, ofereceriam por certo um diminuto total, mas eram rectas, firmes e alinhadas, como uma tábua de Pitágoras. Quando à noite se deitava, exausto de fadiga, com os dedos inteiriçados de segurar a pena, e o espírito baralhado de algarismos, não pensava sequer em meter-se nas questões sublimes da politica, religião, moral ou filosofia, que fazem divagar nas alturas o pensamento dos que nada têm que fazer. Limitavam-se os seus esforços de imaginação à saudade de sua falecida mulher, a um impulso de ternura por sua filha, e a um plano de trabalho no dia seguinte; depois, o sono{73} envolvia-o nas suas pesadas dobras e levava-o ao mundo do esquecimento. Nunca um fermento de inveja, nem uma dessas veleidades maldosas, que mancham a consciência, o agitava sequer por um segundo; adormecia puro e acordava inocente.
Aquela existência de ostra pegada ao rochedo, fará compreender o extraordinário alvoroço, que sentia o senhor Germinal com a perspectiva de uma digressão, por mais curta que fosse. Entretanto, era por ele classificado em segundo lugar o gozo material, que o esperava, respirando o ar puro do campo e dilatando a vista pelas colinas vicejantes; o que mais o deleitava era o prazer próximo de beijar sua filha, que tinha então cinco anos, e de apreciar, por intuição própria, os progressos que ela fizera em saúde, estatura e vigor, durante os dezoito meses, em que deixara de a ver.
O senhor Germinal aproveitara dois dias de feriado, na Páscoa, para desposar uma rapariga... um pouco mais pobre do que ele. Era de natureza humilde e tímida, como a dele, mas delicada, fraca e demasiado franzina para resistir ao sopro gelado da miséria. Morreu de parto, deixando-lhe uma filha, com as suas feições, e a quem o empregado pôs o nome de Rosa, em memoria dela.
A criança era débil; a sua vida parecia depender de um sopro. O senhor Germinal procurou e descobriu uma camponesa de Viroflay, moça e robusta,{74} que levou a pequerrucha banhada das lágrimas de seu pai, e prometeu restituir-lha, dentro em pouco, esperta, robusta e traquinas. E com efeito, cumpriu tão bem a sua palavra, que o senhor Germinal, achando-a de dia para dia mais rechonchuda e chilreadora, resolveu deixá-la mais tempo em casa da ama, e mesmo vê-la só de longe em longe, porque a despesa das viagens abria sensível brecha no seu modesto orçamento.
Eis o motivo porque, no dia a que nos referimos, o senhor Germinal se sentia ligeiro como um pássaro. Entreabria-lhe os lábios, cor de ferrugem, um franco sorriso (sorria ainda nessa época...) e o ruído de raspador, produzido pelo esfregar das suas mãos, confundia-se com os silvos da locomotiva. O vento incomodava os seus companheiros de viagem; ele porém acolhia-o com delicias, pensando que aquela mesma brisa teria talvez acariciado os faces de sua filha. Bem que o comboio deslizasse veloz sobre os seus cordões de ferro, acusava-o de lentidão, e vinte vezes olhou para fora, desconfiado de que o horizonte, por pirraça, se afastava dele.
Entretanto ia depressa! e tão depressa, que nenhum dos viajantes se recordava de semelhante celeridade.
As árvores, os prados, as sebes, as colinas, os postes que ladeavam a estrada, fugiam arrebatados num turbilhão infernal... Apareciam e desapareciam{75} antes que se pudesse distinguir-lhes as formas... E a rapidez aumentava, de minuto para minuto... Pouco a pouco, os objectos exteriores confundiram os seus perfis indecisos... era uma confusão extraordinária... um vertiginoso turbilhão... uma miragem louca, análoga à que reflectiria uma onda violentamente agitada...
Dentro do comboio, os passageiros consultavam-se com terror; entrechocavam-se os dentes uns nos outros, os seios arfavam, as mãos uniam-se convulsivas e alagadas de frio suor.
E a velocidade aumentava... aumentava sempre, de segundo para segundo...
Houve um momento solene, um momento longo como um século, um momento durante o qual cada um orou do intimo de alma ao que perscruta as consciências, e pensou nos entes queridos que o prendiam à vida... Depois... um choque espantoso... e um clamor, ainda mais espantoso!... Eram 8 de maio de 1842.
Como escapou o senhor Germinal àquele desastre? Ele mesmo nunca pôde recordar-se.
À mingua da rasto, que o abandonara, o instinto, esse guia cego do animal, conduziu-o intacto a salvamento. Quando deu acordo de si, corria através dos campos, espavorido, ofegante, meio-louco; mas apenas recuperou o espírito, o seu primeiro acto foi voltar atrás e auxiliar os socorros, que de todos os lados acorriam.{76}
Passou-se então um facto, que deixou na sua vida indelével impressão.
Um homem, um moribundo, que ele debalde tentava salvar, desprendeu-se-lhe dos braços, e entregou-lhe uma carteira, murmurando estas palavras:
—Guarde: é um depósito... que lhe confio... Entregue-o pela sua própria mão a... Eu chamo-me...
Fez um esforço supremo para concluir, mas não pôde; caiu morto no wagon, que começava a ser invadido pelo fogo.{77}
XIII
No dia seguinte, regressou o senhor Germinal a Paris. Inútil é acrescentar que foi de carruagem.
Quando se reinstalou na sua habitação, a senhora Possignol recusava-se a reconhecê-lo; em vinte e quatro horas envelhecera vinte e quatro anos. O seu semblante parecia uma planície devastada por um ciclone; para o corpo fez à involuntária aquisição de um tremor nervoso; e para o espírito, a de dois cuidados graves: o depósito, que lhe fora confiado; e sua filha, que trouxera consigo, não querendo estar por mais tempo separado dela, depois de ter visto a morte tão de perto.
A pequena Rosa dormia a sono solto. Ele improvisou-lhe um leito, correu as cortinas, aferrolhou-se solidamente, e foi sentar-se imóvel ante um objecto, que exumara das profundezas do seu sobretudo.{78}
Era uma carteira assaz volumosa, denegrida pelo uso, e tendo gravado no couro, em letras outrora douradas, o nome de Onésimo Toucard.
Continha noventa e dois mil francos.
Perante aquele maço de papeis, que representavam mais de sessenta anos do seu ordenado, o digno burocrata por pouco não perdeu os sentidos; eriçaram-se-lhe os raros cabelos, ergueu-se, e arrastou um móvel, com o qual barricou a porta.
Depois, prosseguiu nas suas investigações com ardor febril.
Não levaram essas muito tempo: a carteira não continha papel algum, que pudesse servir de esclarecimento; as folhas, pela maior parte em branco, só forneceram ao senhor Germinal algumas notas de compras e várias despesas, escritas com má caligrafia, umas a lápis, outras a tinta.
O viúvo ficou imerso em profunda perplexidade; reflectiu tanto tempo que os objectos se lhe baralharam diante dos olhos, multiplicando-se confusamente; a final, exausto por tão diversas comoções, arrecadou a carteira no fundo de uma gaveta, cuja chave meteu debaixo do travesseiro, e deitou-se.
Se o sono não chegou, veio em seu lugar o pesadelo; pelas fendas da janela, pelo buraco da fechadura, ou pela chaminé, insinuavam-se ladrões, que esquadrinhavam na gaveta com deplorável afinco.{79}
O senhor Germinal, inundado de suores frios, saltou fora da cama, e em pé, descalço, imóvel no seu traje alvejante, passou o resto da noite a perguntar a si próprio onde poderia ocultar melhor o seu importuno tesouro.
Ao romper do dia, surgiu-lhe uma ideia. Desarrumou a cama, ergueu uma tábua do soalho, e por debaixo dela escavou um esconderijo, assaz engenhoso.
Feito isto, vestiu-se e foi de corrida dar a sua demissão da secretaria, e fazer valer os seus direitos à aposentação.
À secretaria!... Bem lhe importava agora a secretaria! Só cuidava em desencantar a família Toucard, e desembaraçar-se de uma aterradora responsabilidade, em proveito dela.
Outro qualquer julgaria ter feito muito, indo depositar a soma no mais próximo comissariado de polícia, mas o senhor Germinal não era do feitio de outro qualquer; na sua escrupulosa delicadeza, considerava-se como ligado ao morto por um compromisso; tinha sempre presente na memoria aquele rosto contraído, sentia aquela mão fria apertando a sua, ouvia aquela voz agonizante a dizer-lhe:
—Entregue-o pela sua própria mão a...
Mas... a quem? A alma, fugindo, levara a chave do enigma. Fosse a quem fosse: Onésimo dissera «Pela sua própria mão»... e isso era o bastante{80} para o senhor Germinal não se arredar um passo da vontade expressa do moribundo.
Pôs mãos à obra sem tardança. Durante muitos meses, viram-no sair quotidianamente ao romper de alva, para só voltar depois de noite, estafado, moído e de mau humor. Interrogou o Almanaque do comercio, gastou dez pares de botas nas ruas de Paris, fatigou os ecos da prefeitura de polícia, por pouco não pegou de estaca em cada uma das legações estrangeiras, percorreu os arrabaldes, esquadrinhou Versailles e seus subúrbios, revolveu céu e terra, e contudo não descobriu em parte alguma vestígios da passagem ou da morada de Onésimo Toucard.
Ora, enquanto as suas pernas funcionavam ao longe, as notas de banco aboloreciam no buraco, à mercê dos ladrões ou do incêndio; e a pequerrucha, confiada a uma ou outra vizinha obsequiosa, desaprendia de sorrir à máscara ferrugenta de seu pai. Um tal estado de coisas não podia prolongar-se, e o senhor Germinal desistiu enfim das suas correrias infrutíferas; quebrou o mealheiro, no qual, desde que enviuvara, ia juntando, soldo por soldo, os elementos de um dote para sua filha; e com esse dinheiro, deduzido do seu passadio, fez publicar um anuncio nos jornais... depois dois... depois três... depois vinte...
À medida que o tempo decorria, o senhor Germinal tornava-se mais frenético, mais nervoso, mais{81} pusilânime. Os noventa e dois mil francos invadiram-lhe o cérebro, submergindo todos os seus pensamentos. Tiraram-lhe o sono e o apetite absurdos terrores; paralisaram-se-lhe as faculdades morais a ponto de não ousar mais afastar-se de casa, e dispôs as coisas de modo que nada interrompesse o seu cativeiro voluntário. Primeiramente, matriculou Rosa em um colégio próximo, com a condição expressa de a virem buscar todas as manhãs, e trazê-la de tarde. Depois, contratou com uma agência de anúncios para que, até nova ordem, o seu reclame fosse publicado duas vezes por mês. E feito isto, aferrolhou-se dentro de casa e entrou de sentinela.
Ninguém o rendeu do seu posto; e aí adquiriu, pouco a pouco, uma doença singular. Ou fosse porque aquela perpétua expectativa, sempre alerta e sempre frustrada, tivesse enfraquecido as suas faculdades mentais, ou porque o contacto incessante do dinheiro desenvolvesse nele predisposições latentes, começou a manifestar sintomas de avareza. Achou-se muitas vezes, sem saber como, a mergulhar as mãos, trémulas de voluptuosidade, no maço das noventa e duas notas de banco, a amarrotá-las, rindo de prazer ao escutar deliciosamente o seu macio fru-fru... E então, envergonhado de si mesmo, afastava-se de súbito, fazendo votos sinceros pela aparição de um Toucard qualquer.{82}
Sete anos se passaram assim. Rosa tinha doze, e o colégio já a enfastiava. Logo que se instalou definitivamente no domicílio paterno, a sua fisionomia, fresca e louçã, iluminou-se como uma aurora boreal...
Foi uma felicidade para o pobre homem; algum tempo mais de solidão, e a loucura não tardaria. Contudo, a influência daquela criança adorada não tranquilizara o senhor Germinal; apenas imprimiu outra direcção às suas inquietações. Rosa prometia ser extremamente bela, e, de todas as promessas que as mulheres fazem, é essa a única que geralmente costumam cumprir. O viúvo admirava nela as feições queridas da sua defunta; tinha a mesma graça, a mesma afectuosa alegria, a mesma expressão no olhar, mas também a mesma débil constituição. O pobre pai suspirava, vendo-a estragar, em grosseiras ocupações, as suas mãos pequeninas e brancas; empalidecia, observando que o menor trabalho a fatigava.
À força de temer para ela a miséria, acostumou-se gradualmente a desejar-lhe o impossível... isto é, dinheiro. Os seus vagos, instintos de cobiça pelo que diariamente remexia, aumentaram de consistência desde que tiveram um fim nobre e elevado. Chegou um momento em que, contemplando a carteira de Onésimo Toucard, o senhor Germinal dissera consigo:{83}
—Se o não reclamassem!...
Esta ideia, uma vez encaixada no cérebro do senhor Germinal, alastrou-se como uma nódoa de azeite. Tudo poderia obter para Rosa com noventa e dois mil francos: ar, sol, espaço, prazeres e saúde... tudo simultaneamente lhe passou pela imaginação fascinada. Em vão se desculpava para com a sua consciência, murmurando:
—É uma simples hipótese!... A hipótese era já uma esperança, que fizera mudar de causa a sua impaciência e agitação; tanto estremecera de júbilo, quanto estremecia agora de receio, à vista de um estranho; cessara de publicar anúncios, e cada dia, que passava, era riscado no almanaque, como um perigo de menos a evitar.
Três anos decorreram ainda, e foram terríveis! A pensão do senhor Germinal, até então suficiente para um velho e uma criança, não o era já para duas pessoas; as suas economias tinham desaparecido na educação de Rosa e nos gastos da publicidade. Mais de uma vez, deitado na sua enxerga, a braços com a febre ou com a fome, sentindo através do tabique sua filha a chorar, tivera horripilantes tentações, relativas a esse dinheiro, que dormia inútil ao alcance da sua mão. Contudo não tirou dele a mínima parcela, nem sequer trocou uma nota.
Decorridos dez anos, aquele homem probo, escrupuloso,{84} austero até ao superlativo, chegou, de concessão em concessão, a formar o seguinte raciocínio:
«Fiz tudo quanto era humanamente possível para descobrir os herdeiros de Onésimo: o meu dever está cumprido. Restituir esta soma ao estado, que não carece dela, seria um absurdo. Acaso não quereria a Providencia compensar-me dos meus sofrimentos, proporcionando-me os meios de me utilizar destes valores? Portanto, sou livre de dispor deles.»
Conspirava consigo mesmo para fazer uma surpresa a sua filha: seria uma casinha branca, no campo, um retiro florente, onde Rosa gozasse enfim dos ócios e distracções, de que até então fora privada a sua mocidade. Mas, logo que pegou nas notas com a intenção formal de se apossar delas, empalideceu e deixou-as cair no fundo do esconderijo. Parecia-lhe que ia cometer um roubo.
«Não é de urgência, pensou o velho. Rosa tem apenas quinze anos... É uma criança nobre e corajosa, que soube criar-nos recursos e trouxe um pouco de bem-estar à nossa pobre casa. A verdade é que não nos falta o pão! Esperemos mais dois anos... Doze anos é um prazo razoável...»
Todavia, é provável que o fosse adiando, de ano para ano, detido sempre pelos mesmos escrúpulos, se Rosa lhe não houvesse confessado o seu amor por André Sauvain.{85}
Aquela noticia afligiu o senhor Germinal, mas acabou com as suas hesitações. Convenceu-se de que existia uma séria paixão, de parte a parte; estudou o pintor, afeiçoou-se-lhe, e, meio desesperado, meio satisfeito, resolveu conceder-lhe a mão de Rosa, com os noventa e dois mil francos, no dia em que expirasse o décimo segundo ano do depósito.
Foi desse modo que, entre perpetuas angustias, com a consciência oprimida e o espírito torturado, o senhor Germinal dotou e chamou noivos aos dois jovens.
Vimos já como surgira nesse momento Pedro Toucard, qual outro Desmancha-prazeres.{86}