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Nas Cinzas

Chapter 16: XVI
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About This Book

A young, impecunious painter in Paris devotes himself to art while clinging to a humble childhood home; a sudden glimpse of a neighboring young woman at a window—her smile, song and a spray of violets—ignites passionate longing that disrupts his routine and work. Torn between frugal discipline aimed at preserving a modest inheritance and the intoxicating hopes awakened by love, he wanders the nocturnal city and finds his imagination invading his canvases and everyday life. The narrative examines poverty, artistic vocation, memory and the tension between romantic desire and the demands of creative labor.

XIV

Ao centro do quarto, que escondera um tesouro sob o seu pavimento, estavam sentados Pedro Toucard e o senhor Germinal, um em frente do outro, na atitude de duas esfinges que tentassem adivinhar-se.

Ambos estavam pálidos, comovidos e agitados.

Os olhos do provençal luziam como carbúnculos; torcia a barba a ponto de quase lhe arrancar os cabelos.

—Como íamos dizendo, começou ele, os parentes ou herdeiros de Onésimo Toucard foram rogados, com instância, para, a bem de seus interesses, se dirigirem ao senhor... O que, segundo creio, significa que em sua mão existem alguns fundos, os quais devem pertencer àqueles, não é assim?»

O senhor Germinal hesitou. Pensava na sua querida Rosa, na felicidade que lhe prometera e que{87} ia roubar-lhe. Verdade era que podia ainda negar o depósito, e desembaraçar-se de Toucard, mentindo; mas... não se é honrado impunemente!

—Sim, senhor, respondeu com voz sumida.

Pedro Toucard reteve um grito de alegria. Respirou estrepitosamente e aproximou a cadeira.

—Queira continuar, disse ele; sou todo ouvidos.

—É ao senhor que compete falar, replicou o pai de Rosa, analisando tacitamente os andrajos de Pedro, que lhe inspiravam pouca confiança.

—Em que grau era parente de Onésimo Toucard?

Uma vermelhidão, cor de tijolo, invadiu as faces crestadas do provençal; abaixou os olhos: dir-se-ia que se travava nele uma luta interior. Contudo, após alguns segundos de reflexão, recobrou o seu habitual desembaraço e respondeu:

—Em grau muito próximo; sou seu irmão, e o único representante da família, hoje extinta.

—Então... porque não deu sinal de existência durante doze anos?

—A razão é simples. Há doze anos que vagueio do outro lado dos mares, e apenas quatro meses que habito em Paris, aonde nunca tinha vindo; enfim, ignorava a morte do meu pobre Onésimo, e só esta manhã a soube.

—De que modo?

—Por um dos seus anúncios.{88}

—Há cinco anos que os não publico!...

—É possível que o pedaço de jornal, em que o encontrei, datasse dessa época... Mas não percamos tempo com bagatelas. A quanto monta a herança?

—Não calcula o seu valor? perguntou o senhor Germinal.

—Aproximadamente... talvez. Meu irmão era sócio da minha casa comercial; em 30 de Abril de 1842, liquidámos, partilhando os lucros, que se elevavam a... cerca de duzentos mil francos. Se Onésimo morreu em 8 de maio, devia ter em caixa de oitenta a noventa mil libras...

—Foi em Paris que se efectuou a partilha?

—Não, em Liverpool.

—Nesse caso, quando seu irmão faleceu estava em França, havia quatro ou cinco dias apenas?

—Um ou dois, se tanto.

—E o senhor?

—Eu, a 8 de Maio, embarcava em Liverpool e fazia-me de vela para Calcutá, sem pressentir que nesse mesmo dia Onésimo esticava a canela em Versailles.

—Como sabe que foi em Versailles que ele morreu?

—Presumo-o; ele tinha tenção de lá fixar a sua residência...

O senhor Germinal ergueu-se? passeando no quarto com agitação.{89}

—Senhor, disse ele, todas as suas respostas combinam com os documentos que possuo, mas desculpar-me-á se exijo provas mais palpáveis da sua identidade...

—Ora essa! disse o provençal; é muito justo. Felizmente trago sempre comigo os meus papeis, visto não ter domicilio certo, nem fechadura segura...

E dizendo isto, a mão do aventureiro mergulhou no andrajoso casaco e reapareceu à superfície, carregada com uma carteira grande e sebenta.

Logo que para ela lançou os olhos, o senhor Germinal ficou inteiramente convencido. Aquela carteira era irmã gémea de outra, que por tanto tempo namorara! o mesmo feitio, as mesmas dimensões, e os mesmos caracteres, outrora dourados, indicando o nome do seu proprietário: Pedro Toucard.

—Aqui tem, em primeiro lugar, a minha certidão de baptismo, disse o provençal; eis aqui, também, diferentes passaportes; e enfim, duas cartas de Onésimo... Conhece-lhe a letra?

—Conheço, respondeu o senhor Germinal, examinando as duas missivas.

Eram curtas; tratavam unicamente de negócios e tinham a assinatura de Onésimo Toucard. Ambas as cartas começavam por estas palavras: «Meu querido irmão...»

O pai de Rosa abriu uma gaveta, tirou de dentro a carteira do morto, e comparou a letra dos{90} apontamentos com a das cartas. Não podia conservar a sombra de uma dúvida.

—Senhor, disse ele ao provençal, cujos olhares impacientes revistavam todo o quarto, como procurando descobrir onde se escondia a herança, reconheço-o por irmão e herdeiro de Onésimo Toucard. Só me resta...

—Entregar-me a herança, interrompeu Pedro, ofegante. Desencante-a pois... meu bravo!

—Permita-me que, primeiro, lhe conte de que morte desgraçada seu irmão pereceu.

Ora!... ora!... ora!... é inútil. Não percamos tempo precioso!

—Entretanto...

—Que morresse de bexigas, ou tísico, pouco importa. O positivo é que morreu; agora vamos às contas...

—Mas, disse Germinal admirado, preciso de fazer-lhe saber como, e porquê, ele me confiou as suas últimas vontades.

—Pois sim, diga lá! Mas seja conciso, com mil bombardas!

O senhor Germinal foi tão conciso, quanto parecia desejá-lo o seu interlocutor.

—Pobre Onésimo! disse Pedro. Acabou mal; lamento-o, mas... era um grande traste!

Porém, notando o espanto e estranheza, que produzira no velho uma oração fúnebre tão pouco fraternal, apressou-se a acrescentar:{91}

—Que quer! Nas famílias numerosas, é raro deixar de haver... há sempre algum tratante... Mas tratemos agora...

—Agora, disse o velho suspirando, vou entregar-lhe os valores do defunto.

E, proferindo estas palavras, tirou do bolso as notas do banco e depô-las sobre a mesa, uma por uma.

A cada macete de dez mil francos, o rosto de Pedro coloria-se um pouco mais.

—Noventa e dois mil francos! exclamou ele afinal, ébrio de alegria. Viva a França! e vamos à Bolsa! Com a breca! farão bem em ter cuidado comigo, lá na Bolsa!... Se, daqui a seis meses, não possuir dois milhões, consinto em que me enforquem!

O senhor Germinal ficou impassível e pensativo ante aquela exuberância de júbilo. Para ele estava consumado o sacrifício...

Pedro bateu-lhe no ombro.

—Não lhe farei a injuria, disse ele maliciosamente, de oferecer-lhe uma recompensa...

O senhor Germinal abanou a cabeça.

—Tanto mais, continuou o manhoso velho, que os interesses deste capital devem ter produzido uma continha menos má...

—Os interesses!... observou o pai de Rosa; que quer dizer com isso? Estes valores são os próprios que recebi em depósito; não saíram de minha casa!{92}

—Farsista! Então não os empregou em acções, em rendas, em obrigações, em terras, ou em inscrições sobre hipoteca?... em suma, não os fez render de alguma forma?

—Não, senhor.

—E guardou-os doze anos, assim... num buraco?

—Certamente!...

—Ignorava então, meu camarada, que um capital se duplica ao fim de catorze anos?

—Não o ignorava. Mas acaso tinha eu o direito de dispor do dinheiro de outrem?

—Maganão!... disse Pedro, sorrindo com ar incrédulo.

—Senhor! exclamou Germinal, rubro de indignação, esquece que, se acaso eu fosse um tratante, nada me impedia de apropriar-me da soma toda.

—Isso é verdade... respondeu Toucard.

E, olhando em torno de si, acrescentou:

—E com efeito, este quarto não é dos mais luxuosos... Decididamente, a virtude é uma bela coisa!

E, enrolando as notas com evidente voluptuosidade, continuou:

—Visto isso, considero-me seu devedor, e quero pagar...

O senhor Germinal desdobrou um papel e apresentou-o a Pedro.{93}

—O que é? perguntou este último.

—É a conta circunstanciada do que desembolsei: despesas de anúncios, aluguer de carruagens, etc. Total: mil quarenta e dois francos e cinquenta cêntimos.

—Com mil amarras!... Ora vá passear, mais as suas contas de boticário! exclamou Pedro; atirando fora o papel. Toma-me por algum sovina?... Aqui tem o maço, tire o que quiser.

O senhor Germinal endireitou-se com altivez.

—Não aceitarei um soldo, sequer, a mais do que se me deve! disse ele.

Pedro Toucard insistiu vivamente. O senhor Germinal resistiu com firmeza. Cansado de lutar, o provençal cedeu, porque estava ardendo por ver-se dali para fora, e esboçar nova especulação. Reembolsou-o dos mil quarenta e dois francos e meio, e tomando nas suas as mãos do velho, disse-lhe:

—Meu bom amigo, eu sou espertalhão, e conhecedor de fisionomias. Gosto de ler na sua, posto não seja das mais belas... O senhor é teimoso como um burro, mas é o homem mais honrado que tenho conhecido. Isto não ficará assim, palavra de Pedro! Havemos de tornar a ver-nos! Adeus.

Recitado este discurso, enterrou com um murro o chapéu na cabeça, enfiou as notas nos bolsos das suas calças esfarrapadas, e, radiante, com os olhos{94} a cintilar, e a boca entreaberta por um franco sorriso, desceu a escada cantarolando.

O senhor Germinal seguiu-o, um pouco pálido ainda, mas desta vez tranquilo... e quase alegre também!

Havia exactamente doze anos, que o desastre se dera.{95}

 

XV

À ténue sombra do microscópico jardim, através das moitas de liláses, distinguiam-se dois rostos juvenis, que não tinham vontade de rir.

Rosa e André, conchegavam-se um ao outro, como duas aves ao aproximar da tempestade. Lendo o anúncio, tinham quase atinado com a verdade, e as últimas palavras do velho retumbavam ainda aos seus ouvidos.

Entretanto, não bastavam palavras para desarreigar as firmes raízes da esperança, e Rosa encostando a loura cabeça no ombro do seu prometido, tranquilizava-se ouvindo-lhe a voz altiva é varonil repetir:—Amemo-nos, apesar de tudo!

Quando o senhor Germinal passou, precedido do triunfante provençal, envolveu o lindo par num olhar terno e contristado.{96}

—Olhe, disse Pedro parando; ali está o que nos rejuvenesce trinta anos, meu amigo!...

O senhor Germinal carregou o sobrolho e, esforçando-se por mostrar-se severo, bradou:

—Rosa!

—Meu pai? respondeu a jovem, estremecendo.

—Vá já para casa.

Ela ergueu-se com tímida lentidão e, oferecendo a fronte aos lábios de seu pai; fitou-o com os seus grandes olhos negros, cheios de súplicas e de amargura.

—Vai para casa, minha filha, emendou mais meigamente o velho. Preciso de falar com André.

Rosa afastou-se sem voltar a cabeça. Não queria que lhe vissem as lágrimas.

—E o senhor, balbuciou Germinal, meu querido senhor Sauvain...

Pedro Toucard, que torcia a barba sorrindo, recuou de um salto, como se tivesse pisado uma serpente; decompôs-se-lhe a fisionomia e, segurando o senhor Germinal pela gola do casaco:

—Que nome foi o que acaba de pronunciar? articulou ele, passado um momento.

—O do senhor Sauvain.

—E quem é que se chama assim?

—Este mancebo.

O provençal saltou por cima da sebe de murta, e achou-se em face de André, que mediu com olhar inflamado.{97}

—Sauvain!... Pois o senhor chama-se Sauvain?

—Certamente!...

—Nasceu perto de Granville?

—É exacto.

—E seu pai era marinheiro?

—Era.

—A bordo da Ariana, que se perdeu com a carga e tripulação... há vinte anos?

—Sim, mas porque acaso?...

—Com mil amarras! com mil bombas! com mil raios! gritou Toucard, tornando-se carmesim.

E como sufocasse, arrancou a gravata, rasgou o colete e atirou fora o chapéu.

—E sua mãe? continuou ele ofegante.

—Minha mãe...

—Não receberia ela?...

—O quê?

—Quero dizer... sua mãe... Onde está sua mãe, senhor?

—Minha mãe morreu. Conheceu-a, porventura?

—Eu! exclamou o provençal, nunca a vi.

—Entretanto...

—Não, já lho disse; nunca a vi na minha vida!

—Então teve relações com meu pai?

Toucard não respondeu. A sua agitação atingiu proporções assustadoras.

—Não! não! mil vezes não! balbuciou ele, tropeçando no chapéu sem reparar; tenho de fazer fortuna...{98} c'os diabos! Mais tarde não digo que... mas presentemente...

Interrompeu-se, e vendo ali perto um balde com água, destinada provavelmente à rega do jardim, mergulhou dentro dele, por muitas vezes, o seu crânio calvo, que ficou vermelho e fumegante.

Depois de refrescado pela imersão, sacudiu-se como um cão molhado, e sentou-se num banco para tomar alento.

O senhor Germinal e André observavam-no com crescente estupefacção.

—Que é isso? que tem?... perguntou-lhes Pedro. Porque olham para mim assim? Que disse eu, que tanto os espante?

—Nada disse por ora, respondeu André, mas peço-lhe que me explique...

—A explicação será curta, meu rapaz. Encontrei nas minhas viagens um marinheiro chamado Sauvain... seu pai, ao que parece... Soube depois que morrera num naufrágio: eis o motivo por que o seu nome me abalou. Demais... sou propenso à apoplexia... a menor comoção faz-me subir o sangue à cabeça! Mas não façam caso... já passou.

O provençal falava com dificuldade, procurando as palavras e pensando noutra coisa. As suas feições expressivas revelavam a maior irresolução.

Apesar do banho que se aplicara, corria-lhe o suor da fronte.{99}

André Sauvain não se contentou com tão sucinto esclarecimento.

—Mancebo, lhe disse Pedro Toucard, venha comigo a três passos daqui, quero dar-lhe duas palavras.

O pintor seguiu-o, assaz intrigado.

—Escute-me, meu caro: entrei na posse de fundos com que não contava. O senhor vai pôr casa... Se duas ou três notas de mil francos... ou mesmo quatro... Sim, se quatro, ou cinco mil francos, lhe podem ser úteis nesta ocasião, não faça cerimonia... Hei-los!

E Pedro folheava com mão trémula o maço das notas.

André corou muito, e endireitou-se quanto a sua estatura lho permitia.

—A que título me faz esse oferecimento? perguntou ele.

—A título de amigo.

—Vimos-nos apenas duas vezes!...

—A título... de antigo amigo de seu pai.

—Conhecia-o de leve, segundo disse.

—Então... a título de gratidão. Fez-me um favor, quando eu precisava... É a minha vez agora. Que diabo!...

—Agradeço-lhe a intenção, mas recuso.

—Porquê?

—Por muitos motivos, e eis o principal: Sou demasiado{100} pobre para aceitar qualquer empréstimo, não sabendo quando poderei pagá-lo.

—Ora? que importa isso?...

—Importa-me muitíssimo!

—Com mil bombas! que esquisitices! e que demónio de casa esta, onde se recusa aceitar o que tantos outros...

Um relógio da vizinhança vibrou no espaço.

—Uma hora! exclamou Pedro, cujas ventas se dilataram, e cujo olhar faiscou. A hora da Bolsa! Vamos, Pedro Toucard! em campo, meu velho! Vais aventurar-te sobre um terreno movediço... Prova a essa súcia de imbecis que lhe és superior no artigo inteligência.

—Um momento, senhor, disse André; rogo-lhe que me explique...

—Coisa nenhuma, neste momento!...

—Aonde vai a correr?

Pedro apanhou do chão o chapéu, amolgado em dez partes, brandiu-o com gesto majestoso, e partiu exclamando:

—A casa do meu banqueiro!

E desapareceu.{101}

 

XVI

—É fora de dúvida, disse o pintor, que este aventureiro teve relações com a minha família. Mas, porque fará mistério disso? É, na verdade, um homem surpreendente! Que impaciência, que febre de agiotagem! Veja como corre!... É um furacão!

—Sim... um furacão, murmurou Germinal, passando amigavelmente o braço pelo de Sauvain, um furacão que derrubou os nossos castelos no ar! Entremos em sua casa: preciso de falar-lhe. André obedeceu, cerrando os punhos de raiva.

Adivinhava o fim da conferência, que iam ter, e, já ardendo em indignação, revestia-se de uma tríplice couraça para entrar na luta.

Pela sua parte, o senhor Germinal também não se sentia em leito de rosas. Assentou-se, tossiu, esfregou as mãos, piscou os seus olhos de peixe cozido,{102} e antes de tomar a palavra, suspirou cinco ou seis vezes, com intervalos.

Dava-lhe em cheio a luz no crânio, cor de ferrugem, e essa circunstância fez notar a André, não sem terror, que aquela caixa ossuda, estreita e deprimida, tinha bem característica a bossa da teima invencível.

O senhor Germinal começou pela narração do seu triste encontro com Onésimo Toucard; contou a vida que levara durante onze anos, as suas más tentações reprimidas, as suas esperanças, os seus receios e os seus desalentos.

Quando acabou, André disse-lhe friamente:

—Muito bem: o dinheiro foi reembolsado, a sua consciência ficou em repouso; está tudo o melhor possível. Porém devia ter a certeza de que nós, mesmo depois de casados e em posse dessa fortuna, a entregaríamos sem hesitação ao seu legítimo proprietário.

—Não tenho a menor dúvida, retrucou o senhor Germinal; sei que é um mancebo digno. Quanto melhor o conheço, mais o aprecio... Teria orgulho em chamar-lhe meu filho...

André tornou-se pálido, mas fingiu não ter ouvido aquele condicional.

—Agora, senhor, disse ele sorrindo, conversê-mos um pouco sobre coisas mais importantes; voltemos ao que esta manhã se combinou...{103}

—Que foi o que se combinou? disse o viúvo, corando.

—Que hoje mesmo se fixaria a época do meu casamento com Rosa.

O senhor Germinal levantou-se bruscamente.

—Não me entendeu, pelo que vejo?

—Peço perdão: entendi perfeitamente que lhe confiaram um depósito, e que o restituiu. Mas, que tem de comum uma acção tão simples com o facto, muito mais importante, de que dependerá o nosso futuro?

—Não há surdos piores do que os que não querem ouvir! replicou asperamente o senhor Germinal. Aquela soma garantia-me a felicidade material de minha filha...

—Não, senhor, porque bem sabia que, de um momento para o outro, a podiam reclamar. Para quando prefixa a bênção nupcial?

—Para as calendas gregas! gritou o senhor Germinal, exasperado por aquela obstinação sistemática. Como ousa o senhor pretender associar à sua a sorte de Rosa? Onde estão os seus meios de subsistência? Há-de ela viver neste cacifo? Virão os filhos, e com eles as dificuldades, os expedientes, as dívidas, os cuidados, a doença... a morte!

—Nego-o energicamente! retorquiu André, não menos furioso. Mas, embora o senhor tivesse carradas de razão, era tarde para desdizer-se. Se este{104} consorcio lhe desagradava, para que veio, há quatro meses, procurar-me ao fundo deste cacifo, como acaba de chamar-lhe?... Porque incitou um amor, que, entregue a si mesmo, talvez houvesse sido sufocado?

—Rosa assim o exigia... Rosa amava-o...

—E pensa que deixará de amar-me por lho ordenar?

—Ignoro-o, mas não casará consigo.

—Ora, senhor!... se o casamento fosse só permitido às pessoas ricas, extinguir-se-ia o sol.

—Pois que se extinga. Não casará com minha filha; é escusado pensar mais nisso.

—Não pensar mais nisso!... Imagina que um sentimento, igual ao meu, se aniquila à vontade, como a chama de uma vela! Rosa é o sangue das minhas artérias, a seiva da minha mocidade, o paraíso da minha alma, a primavera do meu coração!... Peça-me que viva sem respirar, mas não ouse pedir-me que esqueça Rosa!

—Peço-lho, e, sendo preciso, ordeno-lho!... Nunca consentirei em vê-la miserável! A imagem de sua mãe... tenho-a sempre diante dos olhos! Não casará com minha filha!

—Homem teimoso! Quem lhe disse que, mesmo no seio da abundância e do luxo, sua mulher teria vivido? Quem lhe disse que ela não encerrava no peito o gérmen de uma doença mortal? E com que{105} direito aquilata pelo seu passado o meu futuro? Por ventura os recursos de um amanuense, acorrentado a um trabalho estúpido, e cujo ínfimo salário nunca aumenta, embora trabalhe noite e dia, podem comparar-se aos de um artista, moço, corajoso, inteligente e forte?

—Não ponho em dúvida a sua coragem, nem o seu talento: mas presumo que, quando os resultados forem apreciáveis, já Rosa terá os cabelos brancos. Não possuirá minha filha, senhor Sauvain.

—Possui-la-hei! gritou o pintor... Juro-o!

—Não gracejemos, peço-lho!... Ouça, senhor André: vim falar-lhe, movido por verdadeira simpatia. Lamento-o e estimo-o. Dê-me a sua palavra de honra de que não tentará ver, nem falar a minha filha, ou fazer-lhe acalentar ilusões inúteis. Com essa condição...

—Nunca!

—Nesse caso, estão quebradas as nossas relações.

—É a sua terminante decisão?

—É.

—Basta. Graças a Deus há leis em França; não se coage ninguém. Rosa e eu esperaremos...

—A minha morte?

—Não, senhor; a maioridade de sua filha.

—Seja assim, disse o senhor Germinal. Mas, até então, desculpará que eu lhe feche a minha porta,{106} e terá a bondade de renunciar à conversação de minha filha.

—Engana-se! vê-la-hei, falar-lhe-hei, ama-la-hei e casarei com ela; mesmo contra sua vontade!

—Tomarei as medidas necessárias para obstar a essas loucuras.

E o senhor Germinal, erguendo-se com um gesto ameaçador, saiu do atelier.

Apenas transpôs o liminar, André correu atrás dele. Arrependia-se da sua arrogância. Queria lançar-se-lhe aos pés e enternecê-lo à força de súplicas; mas, quando ia a alcançá-lo, as abas flutuantes de um enferrujado casaco abriram-se como duas asas, e o senhor Germinal, veloz como uma seta, encaixou-se em casa e trancou ruidosamente a porta. André voltou desanimado; ao desânimo seguiu-se o furor; ao furor, o desespero; depois... os projectos extremos, as resoluções insensatas, e até uns vagos desejos de lançar fogo ao edifício, precipitar-se através das ruínas fumegantes, estreitar Rosa nos braços e fugir com ela... fosse para onde fosse!...

André Sauvain mordia os dedos e andava de um para outro lado, como um tigre na jaula. Perto da noite, não podendo conter-se, trepou quatro a quatro a escada do que recusava ser seu sogro; tocou à campainha, primeiro timidamente, depois com mais força.

Nenhuma resposta.{107}

Tocou outra vez, bateu, suplicou, disse quem era, tornou a tocar, atroou o patamar com as suas imprecações. Mas ninguém apareceu, a não ser um vizinho desagradável, que resmungou vagamente as palavras: comissario de policia.

Depois disto, André desceu ao atelier, atirou consigo para cima do canapé, estorcendo-se e invocando Rosa.

Após muitas horas deste exercício incoerente, um colosso ficaria prostrado. Havia muito que era noite. O pintor adormeceu num sono febril, assaltado de sonhos extravagantes, e interrompido de dez em dez minutos. Vinte vezes acordou em sobressalto para ver se o dia não surgira ainda.

Pela madrugada julgou ouvir ao longe a voz da sua noiva, que, com queixumes angustiosos, o chamava por entre soluços. Correu à porta, e, com os cabelos eriçados e o ouvido à escuta, olhou para fora.

Já nascera o sol; ténue claridade se coava a custo através das nuvens escuras; a chuva caía vertical e em grossas gotas, marulhando no pátio pedregoso e nos canteiros do jardim, que exalavam um odor terroso. Entretanto a casa estava inteiramente tranquila, e as janelas de Rosa, hermeticamente fechadas, não deixavam filtrar o mínimo raio de luz.

O frio da manhã atenuou a sobre-excitação febril de André; tornou a deitar-se, vestido como estava,{108} dizendo consigo... que ninguém já sequestra raparigas; que de certo Rosa tomaria ar de vez em quando; que ele aproveitaria essas ocasiões, mesmo nas barbas do senhor Germinal, e finalmente que era tolo em preocupar-se assim. Com estas reflexões, adormeceu sossegadamente, e tão deveras, que a senhora Poussignol, na sua habitual visita matutina, não logrou despertá-lo inteiramente.

—E esta!

Tal foi a exclamação, que retumbou aos ouvidos de Sauvain. Semi-abriu os olhos e contemplou a porteira, que estava de pé, em frente dele, com o bigode eriçado, com os punhos fincados nas ancas, e firmada nos seus sapatos de ourelo, como um pato nos seus pés espalmados.

—Então, disse ela, não o tinha eu prevenido!...

—De quê?

—De que fazia muito mal em frequentar aquela gente...

—Que gente?

—A família Germinal.

André sentou-se de súbito no canapé.

—Faça favor de falar mais respeitosamente dos meus vizinhos.

—Não lhes falto ao respeito, mas isso não impede que eu volte à minha primeira opinião, de que aquele homem é um antigo criminoso.

—Ainda a mesma tolice!{109}

—Tolice!... A prova é que fugiu, e a polícia vai-lhe no encalço.

—Do senhor Germinal?... Você endoideceu!

—Ah, endoideci!... Pois bem! quando souber o que aconteceu...

—O que foi? Vamos, explique-se! bradou André com impaciência.

—Esta manha, às quatro horas, ainda não era dia claro, bateram nos vidros do meu quarto. Quem é? perguntei eu.—Sou eu, Germinal, responderam. Era já caso para admirar!... pois não era? Um homem que, durante doze anos, não deitou o nariz fora da porta, e que hoje, sem mais nem menos, vai passear antes de luzir o buraco!... Levantei-me, acendi a candeia, e que vejo?... O senhor Germinal, com a mala debaixo de um braço e a filha pelo outro, chorando, a pobrezita, que enternecia um rochedo! Que deseja? perguntei eu. Em resposta, paga-me o mês por inteiro, pespega-me dez francos na mão (primeiro dinheiro dele, a que vejo a cor—sempre é bom saber-se!) participa-me que vai viajar, e não sabe quando voltará; mas que me não inquiete eu pelos móveis, porque brevemente os mandará buscar. Então, a menina Rosa, que continuava a chorar, tentou dizer-me duas palavras em voz baixa, porém o pai levou-a de repelão. Puxei a corda e... boas noites!

André parecia uma estátua.{110}

—Partiu!... partiu!... Rosa partiu!... murmurou ele afinal; é impossível!

—A prova é que tenho aqui a chave da casa.

O pintor arrancou a chave das mãos da senhora Poussignol, que ficou pasmada. Dez segundos depois, penetrava em casa do seu velho vizinho.

O quarto do senhor Germinal estava limpo e em ordem, como sempre; a cama não fora desfeita.

André, lívido, gelado, empurrou uma porta, a do quarto de Rosa. Entrou nele com passo de fantasma; mas, quando percorreu com a vista aquele mimoso retiro abandonado, quando aspirou o suave perfume de violetas, que lhe recordava a ausente, encostou-se à parede, inclinou a cabeça sobre o peito e perdeu os sentidos.{111}

 

XVII

Durante quinze dias, André Sauvain vagueou pelas ruas de Paris, como um cão que perdera seu dono.

Quem visse aquele gigantesco moço, com a fisionomia espantada, os cabelos flutuantes, o bigode arrepiado, e o vestuário em desalinho, correr como um doido atrás de qualquer transeunte, mirá-lo em face, e logo voltar-lhe as costas para correr atrás de outro, teria acusado mentalmente de negligencia os guardas e o porteiro de Bicêtre.

Naquele lapso de tempo, um desconhecido visitou, por duas vezes no mesmo dia, a casa do senhor Germinal. Da primeira visita, examinou escrupulosamente os móveis; da segunda, levou-os, depois de exibir um acto de venda perfeitamente em regra. Pode presumir-se como o pintor se agarrou, com ambas as mãos a essa suposta tábua de salvação! Interrogou,{112} suplicou, afagou, ameaçou, e maçou de mil maneiras o infeliz comprador para extorquir-lhe a nova residência do fugitivo, ou ao menos algum indício, que o guiasse na busca de Rosa.

Todavia, a vítima não lhe fornecera o menor esclarecimento. Era um ebanista do faubourg Saint-Antoine; comprara em globo a mobília do senhor Germinal, que lhe anunciou estar em vésperas de empreender uma longa viagem.

Podiam cortar o ebanista em mil pedaços, ou oferecer-lhe os tesouros de Golconda, que ele não saberia dizer mais nada.

Como o senhor Germinal pagara religiosamente o aluguer da casa, ninguém opôs dificuldades à remoção dos moveis. André seguiu-os com os olhos até à esquina da rua; levavam-lhe a última esperança.

Depois recomeçou as suas furibundas correrias. O comer, o beber e o dormir, foram tratados por ele como importunos credores, que se deixam gritar e a quem se não paga. Mas a natureza tem os seus limites; este estado de exaltação originou uma febre cerebral, e o pobre André desceu rapidamente o declive que conduz ao cemitério.

Felizmente, sua mãe moldara-o em bronze: a doença apenas o apalpou de leve, e, não obstante a senhora Poussignol ter chamado dois médicos, o pintor escapou. O seu físico restabeleceu-se à{113} custa do moral: André, sempre profundamente melancólico, atirou-se ao trabalho como quem se atira a um poço.

Este género de suicídio não era dos menos eficazes: André prosseguia nele com uma pertinácia de mau agouro, e qualquer outro convalescente, menos bem construído do que ele, não duraria três semanas com semelhante afã.

Entretanto, onde ele esperava encontrar a morte, encontrou um paliativo. A fadiga do corpo adormentou-lhe, pouco a pouco, a dor do espírito. E a arte ganhou com isso: a pintura de André ressentiu-se das tribulações da sua vida. Desenvolveu nos seus quadros um vigor de colorido, uma fúria de concepção, um arrojo de pensamentos, uma originalidade de meios, que não teriam de certo brotado das plácidas inspirações de um espírito tranquilo. O homem feliz já não existia: revelou-se o artista.

Enfim, o acaso também entrou em cena. Como André, a tudo indiferente, não corria atrás do dinheiro nem da fama, aconteceu naturalmente que a fama e o dinheiro correram atrás dele.

Surgiram no horizonte sinais precursores de gloria. O mercador de quadros, que até ali o explorara sem vergonha, e lhe comprara muitas telas por preços fabulosamente baixos, aumentou-os... oh, prodígio!... e aumentou-os de seu moto próprio.{114}

Fez mais ainda: concordou, sem hesitar, em que o nome de Sauvain ecoava já na opinião de alguns ricos amadores, e que, se André quisesse, o oiro, de ora em diante, seria para ele uma realidade.

O pintor encolheu os ombros, pagou as dívidas que contraíra durante a doença, e voltou à sua lida obstinada.

O verão acabou lentamente. A julgar pelo número de encomendas, os créditos de André não diminuíam; apenas concluído um dos seus quadros, era logo vendido. O seu Faust au sabbat tornou-se propriedade de um capitalista misterioso, que o pagou muito caro e desejou conservar o anónimo.

Noutro tempo, aquela veia de bom êxito teria enlevado Sauvain; agora era-lhe mais um motivo de ironia e de amargura. Pensava em Rosa perdida para ele, em Rosa talvez infiel, em Rosa que o esquecia, pois nem sequer lhe escrevera, e repetia a si mesmo: «De que me serve isto?»

Contudo, a abastança substituíra a pobreza; nada impedia André de trocar o seu escuro cubículo da rua dos Mártires por um atelier mais cómodo e decente; todavia não o quis deixar. Invisíveis cadeias o ligavam ali. Alugara os dois quartos, habitados anteriormente pela sua Rosa e pelo pai. Podia acaso afastar-se daquela janela, onde ela lhe aparecera na flor da sua radiante beleza? Podia afastar-se daquele jardim, onde ela lhe fizera a{115} primeira confissão do seu amor?... daquele banco, onde se sentava a par dele?... daquela casa, onde lhe decorreram horas tão venturosas?...

Ficou, e continuou a torturar a alma na saudade, como torturava o corpo na fadiga.

Porém, quando veio o outono, quando as árvores, que vira frondosas e virentes, amareleceram e deixaram cair as folhas... então abandonou-o a coragem: à sua fictícia actividade seguiu-se uma indolência invencível; como o trabalho o não matara, amaldiçoou o trabalho e aborreceu-o; pálido, enervado, emagrecido, com os olhos brilhantes de febre, sem forças, nem energia, passou os seus dias, inúteis, ruminando a própria dor.

Como as folhas caíam das árvores, uma a uma, assim se desprendiam as suas quimeras. Crenças de gloria e crenças de amor... todas iam pelo mesmo caminho. Da sua mocidade florescente, restava apenas o esqueleto.

Era a estação cismadora, em que a terra e o sol confundem num beijo os seus últimos adeuses, em que o céu se vela num crepe cor de opala, bruma transparente, que o voo das andorinhas rasga ao partirem. Era a estação temerosa, em que o enfermo melancólico pressente o seu próximo fim, e busca um seio amigo, onde reclinar a fronte.

E André, pressentindo também o inverno para a sua alma, buscava ao redor de si um conforto, uma{116} dedicação, uma simpatia... Mas... debalde: nada encontrava... nem um ente, a quem amar! No seu passado, no presente ou no futuro, nenhuma ligação, nenhuma alegria, nenhuma esperança! Em tudo o deserto, em tudo o vácuo, em tudo o desalento!...

Então, prostrado de corpo e desfalecido de espírito, com o peito entumecido de lágrimas, exalou instintivamente o queixume habitual da criança em aflição. Bem como a pérola, lançada nas ondas, volta à superfície, assim uma palavra de há muito esquecida, subindo do fundo da sua fraqueza, do abismo do seu isolamento, lhe vibrou nos lábios: «Minha mãe!»

Oh, maternidade! afeição puríssima e inexcedível, consolação sobre-humana, único amor desinteressado, único apoio... que resiste quando todos os outros se nos despedaçaram nas mãos, e ainda quando os mais indeléveis sentimentos se esvaíram em fumo! Maternidade! santa encarnação do sacrifício! O homem só te aprecia quando te perde!

Oh! se sua mãe vivesse!... Como iria refugiar-se no seu seio! Como ela teria derramado naquele coração o bálsamo da sua ternura! Como o embalaria com aqueles misteriosos acentos, que as mães tiram do vocabulário dos anjos!...

Ai dele! sua mãe era morta!

Àquela recordação pura, tanto tempo abandonada{117} por amor de uma ingrata, André corou de remorsos.

Lembrou-se do tempo, em que o seu máximo desejo fora cobrir com uma campa as cinzas da viúva, e o seu mais acariciado projecto restaurar as ruínas da casinha onde vivera com ela.

O oiro necessário possuía-o agora.

Que significava, pois, o ficar ali covardemente suspirando? A morta esperava.

—Coragem! exclamou André. A caminho!...

E, numa linda manhã de Setembro, partiu com a mala aos ombros, levando sob a blusa de linho os seus modestos haveres, e sentindo amarga satisfação em pensar que ia morrer no tugúrio em que nascera. Para cumprir escrupulosamente o seu voto, empreendeu a viagem a pé, como no tempo em que era tão alegre, quanto pobre. Nesse tempo, sua mãe não tinha rival no coração do pintor; a sua imagem adorada sorria-lhe de entre as árvores do caminho. Agora não acontecia o mesmo: a seu pesar, uma outra imagem substituía a primeira. Queria chorar pela santa guarda da sua infância, e chorava pela fada da sua juventude, Rosa! Debalde concentrava o pensamento no termo da sua peregrinação; a cada passo voltava insensivelmente a cabeça para trás. Em vão evocava o semblante frio e macilento da morta; a memoria só lhe reproduzia um rosto animado, com olhos negros e cabelos louros...{118}

Assim caminhou André por muitos dias, descansando nas estalagens dos almocreves, bebendo na palma da mão, dormindo no meio dos campos matizados de amarelo e púrpura.

Desses esplendores do outono, nada notou... ele, o artista, o entusiasta! Nada o comoveu; nem o horizonte, nem a verdura, nem os efeitos da luz, nem a poesia campestre que a terra emanava por todos os seus poros, no intervalo abençoado, que vai da ceifa à vindima. Somente, quando por acaso descobria dois namorados, ocultos entre as ervas, uma dor atroz lhe apertava a garganta, e fugia blasfemando.

Enfim, uma tarde, à hora do crepúsculo, André atravessou a última aldeia, que o separava de sua casa: os camponeses sentados à soleira das suas portas, as velhas fiando na roca, as crianças semi-nuas, as frescas mocetonas de riso sonoro, acompanharam-no com olhar curioso, perguntando a si mesmos para onde se dirigiria aquele forasteiro, tão pálido e com os pés embranquecidos da poeira.

Uma hora depois, André avistava o seu casebre.{119}

 

XVIII

Lá estava ainda, mudo, negro e meio-derrocado, ao cimo da colina. O vento da Costa não o derrubara de todo.

Os seus contornos desenhavam-se vigorosamente no acinzentado do céu, com o seu tecto de verde musgo, e as árvores desfolhadas do velho jardim. Uma brisa áspera, precursora do inverno, fazia bater as portas das janelas, arrancadas dos seus gonzos; e aranhas enormes urdiam tranquilamente as suas teias nos buracos dos vidros quebrados.

Mais adiante estendia-se, a perder de vista, o vasto oceano. Balouçava-se pacífico, com o seu monótono e solene murmúrio: da superfície das ondas elevava-se lentamente um intenso nevoeiro, qual gigantesco sudário.

André parou, possuído de religiosa comoção; abriu a porta carunchosa e entrou em casa. Um{120} odor indefinível se exalava daquele recinto, onde ninguém penetrara depois da morte de sua mãe. À luz indecisa do dia, que acabava, André pôde distinguir o grande leito de colunas, com os seus cortinados de ramagens e flores fantásticas, a arca de nogueira, o crucifixo com palmas bentas, os escabelos maciços, e as redes da pesca, herança de seu pai. Sobre a mesa, via-se ainda uma tapeçaria por acabar. Parecia que a obreira saíra de casa... momentos antes.

André beijou aquele pedaço de estofo, que as mãos de sua mãe tinham bordado.

Depois fechou a porta e sentou-se pensativo junto da chaminé. E aí, mergulhado nas trevas, que rapidamente aumentavam, com os olhos fitos na lareira vazia, transportou-se em espírito ao sombrio passado.

O marulhar cadente do oceano acompanhava-o na sua tristeza. Ao menor estalido do vigamento, André comprazia-se em fantasiar que sua mãe estava ali; que, terna e risonha, se aproximava com passos ligeiros; e que ele ia sentir na fronte o doce contacto dos seus lábios...

Entregue completamente às suas recordações, dizia de si para consigo, que, se Deus recompensa o martírio, a pobre mulher devia ser bem feliz no outro mundo.

O pintor não confessara tudo a Rosa.{121}

Filha de um rico rendeiro, cortejada pelos melhores proprietários dos arredores, a mãe de André preferira-lhes Sauvain, um simples pescador da costa. Ao cabo de um ano de vida conjugal, esse homem enfastiara-se dela; maltratou-a, desbaratou em deboches e embriaguez, quanto possuíam, e afinal desapareceu, abandonando à miséria a esposa e o filho recém-nascido.

Três anos depois, soube ela simultaneamente, do seu alistamento a bordo da Ariana, e da perda daquele navio com toda a tripulação.

Bela e virtuosa, fácil lhe teria sido tornar a casar. Mas... idolatrava seu filho, e temia impor-lhe um tirano. Além disso, não obstante as brutalidades de Sauvain, não cessara de ama-lo. Dedicou à sua memoria um culto, aliás pouco merecido, e conservou-se viúva.

Então começou para ela uma vida heróica, toda de sacrifícios e abnegação. Privou-se de comer e de dormir, para poder dar a seu filho uma educação conveniente; desejava-lhe uma carreira modesta, um emprego que o fixasse em Granville, a dois passos da sua casa natal, perto de si enfim...

Mas André iludiu aquele plano materno. Atormentava-o uma inquietação incompreensível, tinha sede de movimento e de espaço; começavam a nascer as suas asas de artista... Não tinha ainda doze anos, quando um escultor, passando por ali, o{122} encontrou, e apreciando a sua inteligência precoce, propôs-lhe levá-lo consigo. André bateu as palmas de alegria; e a viúva, engolindo as lágrimas, deixou-o ir.

Alguns meses depois, chamou-o ela a toda a pressa: André veio logo, mas chegou só a tempo de assistir-lhe ao enterro.

Aquela súbita doença, aquela morte inesperada, fulminaram a criança de surpresa e terror; interrogou os que tinham assistido a sua mãe, mas apenas puderam responder-lhe que um dia, ouvindo em casa da viúva um grito estridente, acudiram e encontraram-na pálida e trémula, com o rosto desfigurado, segurando-se a um móvel para não cair no chão. Por um prodígio de coragem, conseguiu ainda escrever duas linhas a seu filho; deitaram-na na cama, pediu um padre, e expirou no dia seguinte. Não podia duvidar-se de que, mais uma desgraça pousara a sua mão de ferro sobre aquela humilde existência... Que desgraça fora, nunca o soube André.

Quantas vezes, desde então, torturara ele o espírito para penetrar o sinistro enigma?

Naquele momento ainda, decorridos tantos anos, sozinho entre aquelas paredes mudas, ora aglomerava, ora repelia, e logo reconstruía, na sua imaginação ardente, mil hipóteses contraditórias; e as rajadas impetuosas do vento, abalando o tecto,{123} sucediam-se, como gargalhadas de escárnio, mofando de suas loucas conjecturas...

Entretanto adiantava-se a noite, e pelas mil fendas do casebre filtrava-se glacial humidade. André, transido de frio, ergueu-se enfim às apalpadelas, acendeu luz, dirigiu-se a uma pequena carvoeira contígua, e aí ajuntou algumas achas, que dispôs na lareira.

Tentou fazer uma boa fogueira, mas a tarefa não era fácil.

Um montão de cinzas, extintas havia doze anos, obstruía a chaminé. O pintor quis desvia-las; porém, ao enterrar a pá, tocou num objecto duro, resistente, metálico, que não pôde logo adivinhar o que fosse. Tirou-o e limpou-o ao forro da blusa.

Era uma chave ferrugenta, de mui exígua dimensão e de forma particular. Evidentemente só podia pertencer a um pequeno cofre, ou a um indispensável de mulher.

André olhou em volta de si, mas não descobriu nenhum utensílio daquele género. Atirou com a chavinha para cima da mesa e acendeu a lenha, que começou a crepitar.

O velho recinto iluminou-se de alegre claridade. O pintor tentava reatar o fio dos seus pensamentos, mas debalde; a seu pesar, a pequena chave intrigava-o; não sei que vaga intuição lhe segredava ao ouvido que, entre aquela chave e o mistério{124} que procurava desvendar, havia talvez íntima relação...

De repente, à força de a virar e revirar nos dedos. Lembrou-se de haver brincado em criança com uma caixinha, habilmente coberta de conchas multicolores, como muitas que se vendem em certos portos de mar.

Sua mãe apreciava-a muito: fora um presente do marido, que lha comprou na feira de Granville... Conservava-a como uma relíquia, e nela guardava o que tinha de mais precioso. A caixa existiria ainda?

André começou a procurá-la, e, sempre guiado pelas suas recordações, descobriu-a sobre um resto de roupa branca, que ficara a um canto da arca de nogueira. Tomou-a nas mãos e, pelo seu pouco peso, julgou que estava vazia. Contudo meteu a chave na fechadura.

A caixa abriu-se; continha apenas um papel.

Era uma carta aberta. O sobrescrito, matizado pelos selos da posta inglesa, indicava a procedência de Liverpool.

Durante alguns minutos, o pintor ficou imóvel, perplexo, comovido, em frente daquele escrito, que sem dúvida encerrava o segredo da morte de sua mãe.

Contudo sentou-se, aproximou a luz, desdobrou a missiva, e buscou primeiramente a assinatura.{125} Ao vê-la, escapou-se-lhe dos lábios um grito de surpresa.

No fim da terceira página de uma caligrafia incorrecta mas de traços vigorosos, desenhava-se em letras enormes, o nome de Pedro Toucard!

Depois, André leu o que se segue:

«Liverpool, 4 de Maio de 1842.—Minha senhora: O meu nome, embora lhe seja desconhecido, é o de um homem, que a lamenta e lhe dedica sincero interesse. Julga poder provar-lho, e cumprir ao mesmo tempo um dever, informando-a de uma particularidade que, sem isso, ignoraria sempre.

«Há nove anos, que a senhora chora Onésimo Sauvain, seu marido; porém Onésimo Sauvain não morreu.

«Quando a Ariana naufragou, era eu passageiro a bordo daquele navio, do qual ele era marinheiro. Só eu e ele, dentre toda a tripulação, tivemos a boa fortuna de escapar.

«Arrojados a uma praia pouco hospitaleira, igualmente esfaimados, igualmente desprovidos de recursos, associámos os nossos destinos. Seu marido é um malandro, mas inteligente e resoluto. Ajudou-me nas minhas empresas, e, navegando de conserva, levámos a cabo não poucas especulações lucrativas.

«Desde o princípio, e sem dizer-me a razão, manifestava ele o desejo de passar por morto; anunciou-se por toda a parte como meu irmão, e{126} de Onésimo Sauvain, que era, transformou-se em Onésimo Toucard. Ora eu, que não sou tolo, não tardei em fazê-lo dar à língua. Confessou-me que deixara por aí... a qualquer canto; uma mulher e um filho, e que não tinha grande empenho em tornar a vê-los. A coisa pareceu-me ignóbil; disse-lho claramente, porém ele mandou-me para o diabo. Entretanto persegui-o com tais instâncias e ameaças de desmentir o boato da sua morte, que me prometeu, não sem repugnância, escrever-lhe logo que tivesse adquirido meios suficientes para viverem cómoda e honradamente.

«Hoje, minha senhora, decorridos nove anos de alternativas de boa e má fortuna, depois de uma viagem feliz, liquidámos as nossas contas. A parte de Onésimo eleva-se a perto de dez mil francos; a nossa sociedade dissolveu-se; ele renuncia ao comércio, e quer, segundo diz, gozar em paz da sua modesta abastança. Quanto a mim, que não me contento com tão exíguo capital, reembarco para a Índia, daqui a três dias, e vou de novo tentar fortuna.

«Onésimo volta para França, e jurou-me reintegrar o domicílio conjugal; mas, como depois me pediu que lhe dirigisse provisoriamente as minhas cartas para Versailles, posta restante, e sob certas iniciais, inclino-me a crer que ele roerá a palavra a este seu criado, continuando a deixar a esposa em viuvez,{127} e que dissipará em orgias o capital, que pertence legitimamente a seu filho.

«Previno-a pois, minha senhora, para que, pelos meios que julgar convenientes, impeça seu marido de cometer novas loucuras, imperdoáveis na sua idade, e também para que procure restituir o pai a seu filho.

«Talvez esta advertência vá demasiado tarde; porventura estará morta, ou tornaria a casar a mulher de Onésimo... Em todo o caso, obedeço às ordens que me dita a consciência.

«Onésimo partiu ontem, 3; segundo todas as probabilidades deve chegar a Paris no dia 6, e a Versailles, de 7 a 10. Ignoro o segundo pseudónimo que adoptará; mas, indicando-lhe a terra onde tenciona esconder-se, não me parece difícil que consiga descobri-lo.

«Queira aceitar, minha senhora, as expressões do profundo respeito de==Pedro Toucard

Quando André voltou a si do espanto, que lhe causara aquela carta, estremeceu ao pensar na impressão dolorosíssima, que ela devia ter produzido em sua mãe.

Saber que seu marido vivia, e a detestava a ponto de preferir a morte civil à vida de família!... Saber que esse homem era relativamente rico, e não lhe importava sequer se seu filho tinha pão!...

Sem dúvida, aquelas terríveis decepções, as suas{128} ilusões violentamente arrancadas, tinham morto a pobre mulher, sem dar-lhe tempo, nem forças, para comunicar a André a noticia, que tivera.

Depois, o pintor tentou reunir as suas ideias, porém elas dançavam em vertiginoso galope, e com grande custo conseguiu desembaraçar a meada dos acontecimentos, que o acaso enredara em tão extraordinárias complicações.

Então... aquele viajante, vitima da catástrofe de 8 de Maio, era seu pai!

Então... os noventa e dois mil francos, depositados pelo moribundo nas mãos de um estranho, pertenciam-lhe!

Então... o senhor Germinal, que durante doze anos procurara, e receara encontrar, o herdeiro de Onésimo, morou defronte dele todo esse tempo!

Então... desposando Rosa, e aceitando o dote que o velho lhe oferecera, era André quem enriquecia a mulher que amava!

Então... Pedro Toucard, levado ali por essa série de singulares coincidências, abusou do seu falso parentesco com Onésimo para apossar-se de uma soma, a qual todavia tentara em tempos fazer reverter para os seus legítimos donos!

André compreendia agora a extraordinária comoção do provençal ao ouvir o nome de Sauvain. A consciência do aventureiro era elástica, mas ainda não estava gangrenada; apesar dos seus escrúpulos,{129} não pudera vencer o seu frenesim de especulação, nem deixar fugir a ocasião de traficar mais uma vez.

Entretanto tinha, sem o saber, despedaçado a felicidade futura de Rosa e de André!

«Pela memoria de minha mãe! exclamou o pintor, juro que lhe farei restituir o dinheiro!»

E logo um clarão de alegria lhe iluminou e reanimou o espírito. Reflectiu em que, uma vez na posse daquela soma, disporia de meios enérgicos para descobrir o senhor Germinal, e que o velho teimoso não teria então mais nenhum obstáculo, que opor ao seu casamento com Rosa.

Passou grande parte da noite a passear pela casa, como um louco. Depois, prostrado de fadiga, deitou-se, adormeceu com a cabeça escandecida, e teve um pesadelo.

Sonhou que Pedro Toucard, trajando um fato recamado de oiro e pedras preciosas, pendendo-lhe do rosto uma barba em duas pontas, de prata maciça, galopava, ao longo dos boulevards, numa carruagem puxada por doze cavalos... André perseguia-o, correndo a bom correr... Queria gritar: «Agarra, que é ladrão!» mas a sua garganta não soltava o menor som... E Pedro fugia sempre, semeando às mãos cheias, por sobre a multidão, noventa e duas mil notas do banco, carimbadas com o nome de Sauvain...{130}