Eu chamo impiedade, no nosso caso, ao desprezo pela religião e portanto á incredulidade religiosa. Ora o seculo XVIII instruiu de mais a mulher, roubou-lhe a meu vêr a timidez que lhe é natural, e portanto a candura que a caracterisa. Roselli de Lorgues trata bem esta questão no Jesus Christo perante o seculo. Na minha opinião a mulher deve ter a instrucção da preceptora, não a erudição de uma academia. Já vê que não quero a mulher ignorante mas que tambem a não quero sabia.
O Legouvé, cuja leitura me recommenda, já era meu conhecido,—estava na minha estante.
Acho a Histoire morale des femmes um bonito livro, mas não um livro irrespondivel, irrefutavel.{117}
Vejamos o capitulo Educação que friza ao nosso caso, e permitta-me que lhe riposte o golpe com as suas mesmas armas.
Cita Legouvé o caso d'um rapaz e d'uma rapariga que estavam aprendendo astronomia. Elle immovel, concentrado, meditativo. Ella exaltada, enthusiasmada, em extasi. Isto que prova? Que ella sentia mais, o que não é o mesmo que comprehender melhor.
N'outro relanço diz Legouvé: «Ser esposa e mãi é simplesmente dirigir um jantar, governar os criados, velar pelo bem-estar material e pela saude de todos, que sei eu, é simplesmente amar, orar, consolar? Não! É tudo isso; mas é mais ainda; é guiar e educar, por consequencia é saber.» Ora guiar e educar é saber, mas saber astronomia não é guiar e educar. Dando-se tão lata instrucção á mulher, occasiona-se um desequilibrio na familia, desapparece um dos elementos primordiaes,—o pai. Ha um excesso de intelligencia, mas ha uma diminuição de sensibilidade, porque a mulher usurpou as funcções educativas do esposo.
Tinha muito que lhe dizer, mas nós tratamos tantos pontos ao mesmo tempo, que é impossivel continuarmos assim.
Resta-me dizer-lhe como eu explico o desamor da sociedade pela poesia.
A Europa está n'uma verdadeira época de transição. Tudo é fluctuante, incerto. Não tarda, segundo penso, uma evolução geral, que se presente através{118} dos acontecimentos presentes. A sociedade está em ebullição e por conseguinte falta de instrucção; a litteratura resente-se d'este estado geral, e por isso produz pouco e mal.
Ha seculo e meio que estamos a traduzir, disse-o Garrett. Temos perdido os nossos grandes homens, uns porque morreram, outros porque se retiraram da arena, e nem a sociedade lê, porque não entende, nem a poesia canta, porque não tem voz.
O que se dá entre nós esta-se dando actualmente em França onde o theatro vai na extrema decadencia como em Portugal, e onde os ultimos livros são apenas inspirados pelos ultimos acontecimentos da sociedade franceza. Sedan parece-me que não é um facto sem proximas consequencias europêas. A litteratura e a politica estão n'uma indolencia esterilisadora, e isto assim não póde continuar.
A respeito de Portugal, escrevia Lopes de Mendonça: «A nossa decadencia litteraria retrata-se com a mais severa exactidão nos factos da nossa historia politica.» O mesmo é em todos os outros paizes.
Estas evoluções são fataes em todos os povos. Os grandes e os pequenos corpos não podem subsistir sem a renovação incessante da materia. As nações são corpos collectivos, e estão sujeitas a esta lei de renovação perpetua. A poesia está defecada porque respira no meio d'uma sociedade igualmente defecada;—d'aqui o queixarem-se uma da outra. Isto é o que me parece.{119}
Deixe-me,—e já me ia esquecendo,—levantar uma phrase sua a respeito de Chateaubriand, o qual «se esqueceu de metrificar o Genio do Christianismo, unica qualidade que falta ao livro para poder ser recitado ao piano.»
Eu não esperava isto de si, meu caro Conceição. O Genio do Christianismo afigura-se-me um livro pensado, formoso e concludente.
Guizot escreveu algures palavras de respeito ao author e ao livro; Lopes de Mendonça tambem, e Garrett escreveu simplesmente no Tractado da educação: «Mr. de Chateaubriand diz em sua obra immortal do Genie du Christianisme, etc.»
O meu amigo dir-me-ha agora se Guizot, Garrett e Lopes de Mendonça são uns futeis.
Visto que me não permitte que publicamente confesse que tenho muito a aprender da sua intelligencia, consinta ao menos que me assigne
seu admirador,
Porto, 20 de fevereiro de 1872.
Alberto Pimentel.{120}
[6] Nós vêmos, por exemplo, um musico mediocre produzir um effeito mediocre com um excellente instrumento, e pelo contrario um excellente musico produzir um admiravel effeito com um instrumento mediocre. Aqui o genio não se póde medir pelo instrumento material. Vêmos as lesões do instrumento compensadas pelo genio do executante, tal instrumento doente e maltratado tornar-se uma origem de maravilhosa emoção nas mãos d'um artista arroubado e sublime. Vêmos um Paganini obter sobre a corda unica d'um violino effeitos que um artista vulgar procuraria em vão n'um instrumento completo, ainda que fosse obra do mais habil fabricante; vêmos Duprez sem vos sobrepujar pela alma todos os seus successores. Em todos estes factos, é indubitavel que o genio não se mede, como ha pouco vimos, pelo valor e integridade do instrumento de que se serve.»
PAULO JANET—Le cerveau et la pensée.
O snr. Alexandre Herculano escreveu tambem em nota ao Eurico:
«Se a arte fôra facil para todos os que tentam possuil-a, não nos faltariam artistas!»
{121}
Terceira carta do snr. Alexandre da Conceição ao author
Ill.mo amigo.
Este nosso palestrear leva geitos de não terminar este anno, e estamos apenas em principios de março. Em cada folhetim seu surgem a par da primitiva questão, que me traz aqui representando o papel de cavalleiro da triste figura, outras questões qual d'ellas mais grave e mais complicada. Vamos mais uma vez á primeira questão, a vêr se conseguimos entender-nos no meio do estrondo d'estes exercicios de polvora secca.
É ou não verdade que o Pimentel, no periodo que deu origem a esta amigavel correspondencia e que vem transcripto no seu ultimo folhetim, revela manifestamente a opinião de que o estudo das mathematicas é inimigo inconciliavel da aptidão poetica, pois que{122} muitas das nossas melhores reputações litterarias, como Garrett, Camillo Castello-Branco, etc., mostraram com o seu muito amor ás letras e ás musas horror igual pelos numeros e pela algebra? Creio que é verdade, e esta opinião já o meu amigo concordou que não é segura, pois que me diz na sua ultima carta:
«Não admira que os grandes mathematicos sejam ao mesmo tempo grandes poetas, porque quando a intelligencia attinge o maximo grau de desenvolvimento, está apta para abranger todos os conhecimentos humanos.»
Confessa o meu amigo pois que pelo estudo das mathematicas se póde attingir o maximo grau de desenvolvimento intellectual—o que não implica que esse grau de desenvolvimento se não possa attingir com outra qualquer ordem de estudos—e confessa mais que uma intelligencia chegada a essas luminosas alturas está apta para a comprehensão de todas as verdades scientificas, litterarias e artisticas. Ora é isto exactamente o que eu me tinha proposto demonstrar-lhe desde todo o começo, pois que se o estudo das mathematicas robustece e eleva a intelligencia, e o maximo grau de desenvolvimento intellectual não é incompativel com o desenvolvimento da aptidão poetica, é claro que, em principio—que, como todos os principios, tem as suas excepções—o estudo das mathematicas não faz nem póde fazer mal algum ao gosto{123} litterario ou á inspiração artistica. Permitta-me pois dizer-lhe que não sou eu que estou de accordo comsigo, mas que é o Pimentel que se pôz de accordo commigo, não pela força dos meus argumentos, que são d'uma debilidade lastimosa, mas pelo esplendor proprio da verdade, na qual eu o convidei a attentar.
Depois d'isto será desnecessario dizer-lhe que eu não chamo aptidão poetica ao geito para fazer versos. Tomo a palavra poesia na sua accepção mais ampla e mais elevada, na altura em que o meu amigo a comprehende e a cultiva. Que o estudo das mathematicas seja avesso á poesia pequenina, lymphatica, entanguida e constitucional que por ahi nos ministram quotidianamente, não serei eu que o duvide, que com as mathematicas me lavei da ridicula monomania de fazer versos ao palôr da lua, ás brisas, á alvura dos lirios, á modestia das violetas e a outras especies similhantemente insipidas; mas que o seja a poesia digna de tal nome, a este lyrismo interior, a este santo enthusiasmo que produz nas almas a sublime loucura do genio, não creio, nem o meu amigo o póde crêr tambem, porque a poesia assim comprehendida é a manifestação da intelligencia no seu estado de graça.
Esta questão por conseguinte, em que eu ganhei os seus folhetins para me compensarem do descredito que me devem ter acarretado os meus, levantada a apparente contradicção que o meu amigo notou nas minhas idéas sobre este assumpto, termina aqui, porque{124} isto vai tomando geitos d'uns dize tu direi eu interminaveis.
Vou pois responder á contradicção que me aponta, e passar a conversar comsigo sobre uns outros pontos do seu folhetim.
Diz o meu amigo que sustentando eu que os estudos mathematicos não são contrarios ao desenvolvimento das faculdades poeticas e do gosto litterario, estou em opposição commigo mesmo quando avanço que se dessem á França mais arithmetica e menos versos Sedan seria impossivel.
Crivei este periodo umas poucas de vezes e, á parte o joio dos meus defeitos grammaticaes—com que já me não afflijo porque estou calejado no peccado—não achei cousa que se parecesse com uma contradicção.
Eu accuso os francezes de futeis; accuso-os de tratarem as questões mais serias com a leviandade que lhes é propria, de fazerem romances quando se trata de escrever historia, de recitarem versos quando se trata de discutir sciencia, de sonharem theorias de governação platonica quando se trata de assentar principios de democracia pratica, de orarem ás turbas em estylo academico e repolhudo quando se trata de pegar em armas e defender a patria.
Foi isto o que eu quiz dizer e que o meu amigo não podia deixar de entender assim.
Que contradicção ha entre isto e a minha these de que o estudo das mathematicas não póde ser prejudicial á aptidão poetica?{125}
Póde acaso entender-se que eu quiz apresentar os francezes como eminentemente aptos para a poesia, e ao mesmo tempo e por isso mesmo rebeldes ao senso pratico e á comprehensão das questões positivas?
Creio que não, porque sendo a litteratura, como não podia deixar de ser, o espelho onde se reflecte em toda a sua verdade o genio d'um povo n'uma dada época, um povo futil ha-de ter uma litteratura futil, e é o que se está vendo em França actualmente, e o que se tem visto sempre e em toda a parte em identicas circumstancias: á falta de tino pratico, de seriedade de espirito, de robustez d'alma e de convicções corresponde o abaixamento litterario filho d'essa depressão de espirito e de caracter.
Menos contradictorio com as minhas opiniões actuaes é o facto que me aponta de eu ter trocado a lyra ferrugenta das minhas Alvoradas pelas contemplações astronomicas; já acima lhe disse que foi com as mathematicas que eu me penitenciei do peccado mofino da poesia piegas, e eu nunca dei outra.
Surprendeu-me este periodo do seu ultimo folhetim:
«É facto averiguado pela critica physiologica que a intelligencia varia de homem para homem segundo as mesmas condições physicas do cerebro.»
Se não se offende peço licenca para lhe dizer{126} que eu estou na innocente persuasão de que a physiologia ainda não chegou a averiguar um facto tão importante, a não ser alguma physiologia official ad usum delplini.
Acredito mais que a physiologia em questões de analyse organica, quantitativa e qualitativa, está ainda muito áquem das suas elevadissimas aspirações, e que o ponto que o meu amigo diz averiguado me parece sufficientemente duvidoso para me aconselhar a prudente resolução de ter para com elle uma espectativa benevolente, como se diz em S. Bento.
Isto porém é uma questão incidente, que eu não posso nem sei discutir. Adiante.
Apesar de ter o Legouvé na sua estante, apesar das minhas amigaveis reclamações sobre este ponto, insiste o meu amigo em sustentar que a educação litteraria completa faz mal á mulher e acrescenta:
«Dando-se tão lata instrucção á mulher occasiona-se um desequilibrio na familia, desapparece um dos elementos primordiaes—o pai. Ha um excesso de intelligencia, mas ha uma diminuição de sensibilidade, porque a mulher usurpou as funcções educativas do esposo.»
O meu amigo crê que ha actualmente equilibrio na familia? Mas que qualidade de equilibrio, permanente, estavel ou instavel, e permitta-me, por graça, a caturrice da distincção mathematica? Mas como quer{127} que haja equilibrio se as duas forças que solicitam a familia são desigualissimas e incidentes?... Como ha-de haver equilibrio se o homem, o esposo vive em pleno seculo XIX e a mulher em plena idade media?... Que vê o meu amigo na familia moderna em geral, e não n'esta ou n'aquella familia especial que é honrosa excepção á regra? Marido e mulher são duas creaturas que se não conhecem: o marido trabalha, estuda, pensa, lucta, é funccionario, é politico, é deputado, é escriptor, é poeta, é homem de sciencia; a mulher não sabe em que elle trabalha, não conhece o que elle estuda, não comprehende o que elle pensa, ignora-lhe as ambições, não o coadjuva nas luctas, não o estimula, não o consola, não o anima, por que não póde, por que não sabe, ou melhor, por que nós lhe não damos a força, por que nós lhe não damos educação. O casamento actualmente, em geral, não é a união de dous individuos, de duas forças, de duas almas para a constituição da familia, esta instituição verdadeiramente divina, por que é sublimemente humana, é apenas a juncção de dous corpos, cujas almas ou se desconhecem ou se repellem. D'ahi a desordem ou a indifferença, tomando-se esta muitas vezes por felicidade. D'ahi a crescente desmoralisação dos costumes privados, o celibato commodo e prudente que tem por origem o egoismo; d'ahi o desregramento das ambições politicas e argentarias, como compensação á esterilidade das ambições domesticas legitimas.
Vive-se na rua, por que a casa, o lar só serve{128} para lá ir comer ou dormir, quando se não dorme e come pelas orgias. A mulher não é uma companheira, é um camarada militar, uma creatura que nos escova o fato, que nos arruma o toucador e que nos põe em ordem a mesa do trabalho. D'ahi estes ares ridiculamente protectores que nós nos permittimos com as mulheres; d'ahi estes compadecidos modos cathedraticos com que nós lhes fallamos em letras, em sciencia, em artes, em politica; d'ahi esta nossa insolente superioridade intellectual ganha a custa do isolamento a que as votamos, da ignorancia a que as condemnamos; d'ahi este estado social violento, hypocrita, convencional e esteril em que nos arrastamos sem convicções, sem dignidade, sem enthusiasmo, por que nos vêmos obrigados a estudar a sciencia pelo ganho, a arte pelo lucro, a litteratura por officio, a politica por vaidade; d'ahi esta burguezia de sentimentos, este plebeismo de educação que nos faz tributar uns respeitos hypocritas e convencionaes á mulher, quando a encontramos nos salões de baile, e que nos leva a apedrejal-a quando a encontramos pela rua.
A mulher actualmente ou vive annullada pela ignorancia, ou resignada com o despotismo das leis, ou em guerra aberta com a nossa autocracia conjugal.
Andamos aqui a escrever artigos do fundo sentimentaes e floridos a favor dos escravos do Brazil, e por que não havemos de pedir franca e logicamente a emancipação para a ametade do genero humano? Pois acham utopia ridicula a emancipação da mulher{129} e não acham grotesca a emancipação do escravo? Que maiores direitos tem o negro ignorante e brutalisado pelo chicote á instrucção, á igualdade social, do que a mulher? Utopia! Chamem-lhe utopia embora, mas tenham tambem a franqueza de chamar despotismo e brutalidade ao direito da força. Parece que temos medo do espirito feminino, parece que nos assusta a concorrencia do trabalho intellectual da mulher!...
Dizemo-nos liberaes, e fechamos as portas dos nossos parlamentos á opposição! Parece que nos dóe a consciencia!... Porque não ha-de a mulher collabolar comnosco na obra da civilisação?... Pois a ethnologia nota as profundas differenças de constituição do craneo que caracterisam as diversas raças de homens que povoam o universo, nota ao mesmo tempo a perfeita igualdade d'essa constituição entre o homem e a mulher, e nós, pedindo a brados a igualdade de direitos para todos os homens, sem distincção de raça, pedimos ao mesmo tempo que se neguem esses direitos á mulher porque abusa d'elles? Mas como é que a mulher abusa d'esses direitos, se nunca usou d'elles?... Quem disse que a mulher abusa d'esses direitos?... quem o sabe?... quem o demonstrou? Dil-o a historia?... sabe-o a philosophia?... demonstrou-o a sciencia? Pois démos sempre á mulher a ignorancia pôr dote, e gritamos que lhe faz mal a instrucção? E porque é que a instrucção faz mal á mulher e faz bem ao homem? A muita instrucção embota-lhe a sensibilidade, diz o meu amigo! Perigosa sensibilidade a que{130} prescinde da intelligencia; e é com effeito essa a sensibilidade feminina, sensibilidade desregrada, impetuosa, indomavel muitas vezes, que as martyrisa, que as adoenta, que as exalta, que as perde, porque sentir, na accepção cruamente physiologica do termo, é o unico modo de ser da sua vida interior, vida riquissima de aptidões, mas que nós lhe circumscrevemos aos estreitos limites do trabalho domestico quotidiano, vulgar e quasi mecanico.
A mulher muito instruida é perigosa, diz ainda o Pimentel, por que usurpa as funcções educativas do esposo. Diga-me em que paiz os pais, a não ser os muitos ricos ou os que tenham uma profissão muito especial, educam seus filhos. As funcções educativas do esposo!... Mas então que quer deixar á mulher, se até a esbulha do sublime encargo de primeira preceptora de seus filhos? Nós é que somos e temos sempre sido usurpadores de taes funcções. Eu creio muito pelo contrario que o principal trabalho destinado na familia e na sociedade á mulher é o trabalho da educação, e para educar é preciso saber, e para saber é preciso estudar e pensar, duas cousas que a sociedade prohibe á mulher actualmente.
É convicção minha, e n'isto como em quasi tudo estou com o meu estimavel Legouvé, que a sociedade não chega á solução satisfactoria d'um certo numero de problemas gigantes que assombram o mundo moderno, em quanto a mulher não collaborar com todas as forças de que é capaz na resolução d'essas questões.{131} Por exemplo: as questões de beneficencia, de instituições de caridade, de sociedades cooperativas e de previdencia, com as quaes se prende a magna questão do proletarismo e da miseria, só o concurso do espirito feminino as póde encaminhar para uma solução completa. Depois, e prendendo-se ainda com estas, vem a questão do ensino, em que a mulher póde e deve prestar grandissimos serviços. Depois ainda, ou talvez antes de todas estas, vem a questão religiosa, esta mole gigante que traz ahi a sociedade vergada sob o peso da hypocrisia, da duplicidade, da indifferença da tibieza de caracter, da frouxidão de convicções, do cynismo; esta sphynge esculpida na frente de todas as questões sociaes e para a qual não ha Edipo possivel emquanto a sociedade beber com o leite todos os preconceitos, todos os sonhos, todas as phantasias, todos os absurdos de que se nutre o espirito da mulher contemporanea.
Já vê a importancia que eu dou á educação da mulher; quero essa educação amplissima e tão completa quanto o requeira a aptidão especial que cada mulher revelar. Quero a sua emancipação intellectual, moral, civil e politica... e politica, creia n'isto, por que não sei recuar nem me assustam as consequencias legitimas de principios que considero verdadeiros, embora o mundo, e o meu amigo com o mundo, me taxem de utopista, de exaltado e de revolucionario.
Apresento-me bem a descoberto e francamente n'esta questão, para que o meu amigo ataque tambem{132} francamente os pontos que julgar vulneraveis. Espero-o com o respeito que me impõe a sua superioridade, mas com a coragem que me dão as minhas profundas convicções.
Vou terminar por hoje.
O Garrett, o Lopes de Mendonça e outra gente de cothurno disseram cousas muito boas é muito bonitas ácerca do Genio do Christianismo de Chateaubriand. Sei isso e pouco mais saberei do que isso; mas ou por ignorancia, ou por falta de gosto, ou por caturrice é certo que, apesar de todas essas authoridades, eu considero o Genio do Christianismo um bom livro apenas como producção meramente litteraria, e n'este caso tenho só a observar que o titulo me parece um pouco ambicioso. Como livro de historia porém, e elle tem pretenções a isso, permitta-me dizer-lhe que o julgo deploravel, e como livro de philosophia por que se quer fazer passar, acho-o simplesmente piegas e lamuriante, e olhe que não faço ao livro grande injustiça, creio eu. O meu amigo pensa porém d'outro modo, e eu não lhe quero mal por isso, comtanto que me creia sempre
seu amigo e admirador,
Bragança, 3 de março de 1872.
Alexandre da Conceição.{133}
Resposta do author ao snr. Alexandre da Conceição
Meu bom amigo:
Conservo-me impenitente.
Não me confesso convencido, nem siquer vencido, apesar do Conceição ter já começado a cantar-me piedosamente o De profundis.
Quero ainda enviar-lhe um grito de vida e rebellião da margem do imaginario sepulchro para o fundo da qual o meu amigo julgou arrojar-me com a sua argumentação um pouco sophistica, é certo, mas sempre habil e benevola. Não acabou esta amigavel pendencia pela morte d'um dos contendores, como vê; ella é que de per si mesma, como o meu amigo deu a entender com a sua phrase do dize tu, direi eu, se está contorcendo nos derradeiros paroxismos, porque realmente não tem vida para mais.
Deixe-me dizer-lhe pela ultima vez a minha opinião,{134} que se me afigura sempre a mesma. Supponho eu que me tenho conservado no terreno onde comecei a pugnar.
A mathematica é uma sciencia positiva, em que a razão caminha de demonstração em demonstração até chegar á verdade final,—a conclusão. Por conseguinte póde-se ter á conta de gymnastica intellectual, que, á força de evoluções trabalhosas, chega a descortinar ao espirito por ella cultivado as eminencias olympicas, defesas á vulgaridade chata.
A litteratura é caprichosa como a borboleta, adeja, volteia, sobe, desce, doudeja, vive da imaginação, por ella e só para ella, porque muitas vezes, poderia dizer quasi sempre, o ideal a que aspira é uma ficção, uma utopia, um ponto vago, emfim. É por isso que os grandes poetas, e os grandes artistas tambem, são uns doudos sublimes, que pensam umas chimeras côr de rosa que a multidão não entende; e é por isso que antes querem morrer abraçados ao seu ideal do que transigir com a realidade das cousas e dos homens. Ora o mathematico não phantasia, não devaneia, não sonha,—raciocina. Segue um methodo, um processo, um calculo. O poeta é livre, póde escolher voluntariamente o seu norte, póde amarar a gondola da sua imaginação por aparcellados pégos, como Byron, ou deixal-a deslisar mansamente pelos lagos serenos da Italia, como Lamartine.
Agora pegue d'uma alma poeta de vinte annos, essencialmente livre e essencialmente sonhadora, e em{135} vez de a educar em Homero, em Virgilio, em Dante, em Camões, em Garrett, metta-a no carcere do positivismo mathematico, a rações de Serrett ou quejandos, entre um compendio arido e uma lousa funebre. Não quer sujeitar-se, resiste, lucta, e o mais das vezes o que lhe acontece é renunciar á gloria d'um pergaminho academico para ficar em plena posse da sua liberdade intellectual. É como se transportassem subitamente um viajante, que vai atravessando uma campina florida, a uma charneca solitaria, coberta por um céo plumbeo. E resiste, e lucta este poeta de vinte annos porque nasceu fadado para outros destinos, e aborrece a mathematica, e detesta-a, porque uma voz intima lhe diz que a sua missão é cantar como os rouxinoes dos salgueiraes, viver devaneiando como elles, e morrer de cansaço modulando á porfia com o echo melodioso do seu ideal...
Note que eu fallo, e sempre fallei, dos que nascem predestinados para a gloria, dos grandes poetas e dos grandes mathematicos, porque um poeta mediocre e um mathematico igualmente mediocre fazem-se, conseguem fazer-se com o auxilio d'uma paciencia evangelica.
Disse eu e repito-o:
«Não admira que os grandes mathematicos sejam ao mesmo tempo grandes poetas, porque quando a intelligencia attinge o maximo grau de desenvolvimento, está apta para abranger todos os conhecimentos humanos.»{136}
Então um homem que tem uma intelligencia acima do vulgar, que atravessou uma longa educação scientifica, que sujeitou a razão a uma trabalhosa gymnastica intellectual, não estará mais habilitado para comprehender toda a casta de bellezas artisticas, do que um sugeito que não sabe analysar grammaticalmente uma oração? De certo que sim; isto é intuitivo a meu vêr. Ora o grande mathematico póde comprehender Homero, tel-o á cabeceira como Alexandre, mas o que não póde conseguir de certo, salva uma ou outra rarissima excepção, é escrever a Illiada, e ser Homero. Um grande poeta, Lamartine ou Byron, pouco importa, não comprehenderá melhor que outro qualquer homem a alma sublime de Herschell ou Newton, apesar de reconhecer comsigo mesmo que não nasceu para se nivelar com Newton ou Herschell? Tambem creio que sim; tambem creio que isto é intuitivo.
O meu amigo accusa os francezes de devaneiadores e por isso mesmo de pouco analyticos, de pouco mathematicos. Quer dizer, accusa-os de viverem para o amor e para a alegria, de amarem as flôres, os versos e as mulheres, e de não preverem as funestas consequencias, já realisadas, da ultima crise sociologica.
É tambem certo que quando a França dava ao mundo um grande mathematico, primeiro havia gerado uma duzia de grandes poetas. Porque é então? Porque isto mata aquillo, porque a mathematica, que é a razão, mata aquillo, a poesia, que é a verdadeira liberdade da phantasia e do coração.{137}
O meu amigo, que era mavioso poeta,—sinceramente lh'o digo,—teve de suffocar em si a chamma vivaz da inspiração com os gelados orvalhos das sciencias exactas. D'outro modo, teve de esmigalhar a sua alma, por amor aos cabellos brancos de seu pai, que lhe queria dar uma posição social, para poder regressar ao lar paterno com uma carta de bacharel em mathematica. A inspiração de que brotaram as Alvoradas era dôce, gentil e donairosa. Todavia o Conceição quiz abafal-a, apagar a chamma, desfolhar no altar da sua mocidade as flôres candidas e perfumadas da poesia. Teve de andar nos campos a medir terrenos, a rasgar estradas, a levantar plantas.
Tranquillisou a velhice de seu pai, e como elle já não podia receiar pelo destino do filho estremecido, e o meu amigo tivesse em horas de melancolia umas secretas saudades dos seus tempos de poeta, porque para isso nascera, esboçou no seu gabinete um quadro, cuja idéa é formosa, mas que não tem, a meu vêr, o colorido mimoso e delicado dos seus primeiros versos. Refiro-me ao seu poemeto—Abençoada esmola—e desculpe-me esta franqueza, que a nossa amizade authorisa de certo, e que eu tenho comsigo, porque sei que é franco, leal e cavalheiro.
Conhecia-se que o poeta se havia secularisado. Infelizmente era assim.
Do Alexandre da Congeição, o academico sempre apercebido para celebrar as grandes iniciativas e as grandes glorias, restava o poeta esmagado pela pressão{138} da mathematica. Creio que a sua propria consciencia lhe ha-de dizer isto mesmo.
Ah! meu amigo, como eu quizera vêr o seu espirito a espannejar-se ainda, livre, alado, inquieto, deixando vêr aqui e acolá a dôce melancolia das suas estrophes! Perdemol-o, confessa o meu amigo que se secularisou, e eu sinceramente sinto que tenha de sahir pela honra do seu convento mathematico para digladiar com o mais obscuro soldado das suas antigas fileiras.
Ponho aqui ponto para que isto não enfade mais o bom publico que nos escuta, e que por fim de contas não nos quer mal. Não é meu proposito, entenda-se, mostrar que o meu amigo vai succumbir a este golpe final. Eu conheço a qualidade das minhas armas, e os recursos da sua vasta intelligencia. Confesso-me não convencido nem siquer vencido, e sou eu mesmo que declaro ao publico que o meu amigo dispõe de meios que lhe permittem resistir á minha lastimavel dialectica.
Tratarei de passagem os demais pontos da sua terceira carta.
Quanto ás relaçõs physiologicas da intelligencia com o cerebro, julgo-me obrigado a transcrever, para me fazer comprehender melhor, estas palavras de Paulo Janet:[7]
«A experiencia nos ensina, é certo, que o cerebro entra por uma certa parte, por uma grandissima{139} parte no exercicio do pensamento; mas qual seja a causa unica e rigorosa medida, é o que não está demonstrado.» É a massa cerebral, a composição chimica, a electricidade, o phosphoro? Não está averiguado, tem razão, e a isso não era eu estranho.
Todavia era meu proposito referir-me ao que a experiencia nos mostra, e Paulo Janet corrobora, que o cerebro entra por muito no exercicio do pensamento.
Creio que a maxima parte da gente assim o havia de entender.
Adiante.
Com relação á educação da mulher sou a dizer-lhe que tenho certas convicções adquiridas no tranquillo silencio do meu gabinete, uma das quaes, e das não menos profundas, diz respeito ao assumpto que vou tratar. Posso estar em erro, mas por ora ainda não tenho razões para me demover. Quando tiver, confessarei a minha abjuração solemnemente. Se estou em erro, redunda apenas em detrimento meu, por isso que os homens que teem restricta obrigação de estudar pausadamente esta questão são os philosophos e os legisladores.
Ora eu nem quero ser uma nem outra cousa.
Na questão da educação da mulher aceito inteiramente as idéas do snr. D. Antonio da Costa no seu livro—A instrucção nacional. Permitta-me, pois, que me soccorra da respeitosa amizade que me liga a tão sympathico escriptor, e que me defenda com elle.
É preciso, é indispensavel, é urgente promover a{140} instrucção da mulher, que está em Portugal na proporção d'uma escóla para 6:000 habitantes, sendo que dos 146:000$000 réis votados para as escólas primarias, apenas 18 revertem em favor das creanças do sexo feminino.
Isto está d'accordo com o que eu expuz previamente, porque me lembro de dizer que se não queria a mulher sabia tambem não a queria ignorante.
Urge pois educar a mulher, porque nasceu para mãi, e da mãi é que brota a humanidade, da mãi é que deriva a felicidade social. Mas note-se, entenda-se bem, quero a mulher educada para as funcções pedagogicas que possa exercer na escóla ou no collegio, para as attribuições industriaes que precise desempenhar, para as occupações artisticas que lhe possam caber, e especialmente, e primeiro que tudo, para mãi, para directora, não só destinada a versar negocios de economia domestica, mas tambem para ser espelho na sociedade, divindade na familia,—para ser mãi e esposa.
Deverá defender-se e favorecer-se a absoluta emancipação da mulher?
Digo que não,—convictamente digo que não.
Eu quero que a familia se condense, se unifique, se levante, não desejo portanto roubar-lhe o unico meio de rehabilitação que ella tem,—a mulher. Não quero que a mulher se masculinise para a sociedade, porque não desejo desmembrar a familia.
«Dizeis—escreve o snr. D. Antonio da Costa,—que{141} a somma da intelligencia e das qualidades da mulher se acha actualmente perdida para ella e para a sociedade uma vez que lhe fecham as carreiras politicas e scientificas? Vêde que esta razão fundada na capacidade igual dos sexos, exigiria, para haver logica na vossa doutrina, que as funcções hoje especiaes da mulher, educação infantil, governo da casa, costurar e bordar, formação dos costumes publicos pela influencia domestica, devessem tambem pertencer ao homem, aliás seriamos nós as victimas da desigualdade cujo principio combateis.»
Que igualdade querem para a mulher? A igualdade politica e scientifica? Sou contra ella, resolutamente contra ella, pelas razões já expostas. Igualdade civil? Convenho, e conspiro contra a tutella oppressora que soffre a mulher quer seja casada ou viuva. Igualdade moral? Quem lhe disputa essa? que «é verdadeira, como diz Paulo Janet na Familia—é evidente, e condição essencial em uma familia completa e feliz.»
Isto é o que eu penso, a convicção que eu tenho adquirido n'uns estudos placidos a que me dou, porque eu estimo os livros serenos e crystallinos, e não se desvirtue a minha opinião, e não se diga que eu quero a mulher analphabeta e só apta para fiar ou coser.
Isto penso eu.
Mas para que discutil-o, Conceição?
Que o discutam philosophos e legisladores, que{142} façam luz no espirito publico, que demonstrem, que provem, que eu então irei após a verdade.
Para questão de tal magnitude não me julgo habilitado.
Poz o meu amigo em duvida as funcções educativas do esposo! Pois o pai não educa, não dirige a educação do filho! Sabe que eu não quero a mulher ignorante, mas por não a querer ignorante, não deixo de reconhecer que os pais são, como diz o Garrett no tractado Da Educação, «os mentores e educadores naturaes de seus filhos.» Plenamente concordo com Janet, quando expõe que «o pai esboça com firmeza a estatua do homem futuro, e a mãi retoca, aperfeiçoa e alinda-a.» Para isto cumpre não ser ignorante, mas não é indispensavel que seja sabia.
Aqui tem com franqueza as minhas opiniões. Estou firme n'ellas, e estarei sempre, até que os factos sociaes se encarreguem de mostrar-me o erro.
Agora deixe-me dizer-lhe que não tardam nada as andorinhas e que podemos intimidal-as com estes exercicios de polvora secca. Vão cantar os rouxinoes e eu, que mercê de Deus não tenho de resolver nenhuma operação arithmetica, folgava de poder ouvil-os por estas tardes de primavera em que o céo é azul e sereno. Combato mal, porque quando me tiram dos meus dilectos remansos vou saudoso de tão socegada obscuridade. No meu lar espera-se a primavera como uma festa, e o que é certo é que tenho descurado as flôres da minha janella por causa d'estes malditos{143} algarismos, que eu suppunha ter afugentado de vez, não obstante a honra que me deu o Conceição em descer até pelejar lealmente commigo.
Aperto-lhe cordealmente a mão.
Creia-me sempre
seu amigo e admirador,
Porto, 14 de março de 1872.
Alberto Pimentel.{144}
[7] La cerveau et la pensée.
{145}
PHYSIOLOGIA HISTORICA
Beethoven
A biographia é uma nova fórma dada á historia por Plutarcho.
Seguindo o methodo seguro da inducção, caminhamos da biographia para a synthese, do caracter individual para o caracter collectivo, do homem para a época. Não concordamos portanto com mr. Paul Albert[8] que vê n'esta evolução historica mais uma decadencia que um progresso.
A biographia é a historia do homem, quer dizer, tem de o estudar na dupla manifestação da sua actividade, e é por isso que ultimamente a critica e a historia não prescindem da alliança da physiologia com a psychologia. Por tal razão foi que o doutor Moreau, de Tours, estudou a Psychologia morbida nas suas relações com a historia; que Emilio Deschanel escreveu a Physiologia dos escriptores e dos artistas, e que recentemente{146} o doutor Laborde se entregou ás lucubrações medico-psychologicas que originaram o seu livro sobre Os homens e os actos da insurreição de Paris perante a psychologia morbida.
Esboçando na tela do folhetim alguns perfis historicos, tivemos sempre em vista a noção de temperamento, ou antes, e melhor, o dualismo de Platão, que definiu o homem na expressão «d'uma alma que se serve d'um corpo», e porque, segundo uma expressão feliz de Emilio Deschanel, para conhecer o fructo é preciso conhecer a arvore.
Posto isto como exordio já demasiadamente longo, fallemos d'um grande genio que enche de esplendor a historia da musica, d'um compositor nervoso, hypocondriaco, melancolico,—Beethoven.
Antes de escrevermos do artista, saudemos a arte, esta linguagem sublime, que parece revelar-nos o infinito, d'origem divina, porque se nos remontarmos ao pantheismo oriental teremos de vêr a musica considerada como imperfeita imitação da harmonia que produzem os movimentos dos corpos celestes.
Na tradição asiatica, devemos procurar a origem da musica na organisação do universo. As sete nymphas Swaras são a personificação das sete notas. Saraswati, filha, mulher e irmã de Brahma, representa a primeira nota da escala dos sons[9].{147}
Pythagoras acreditava na harmonia como alma do mundo, e era d'esta grande alma collectiva que dimanava a substancia harmonica das almas particulares.
Seja o que fôr a musica, venha ella do céo ou da terra, dos astros ou dos homens, bemdita seja, que nos leva após si a umas paragens ethereas de um paraiso desconhecido. Abençoados sejaes, sacerdotes do bello, que lançaes para dentro da nossa alma a esmola valiosa da harmonia.
Entre os maximos sacerdotes da arte divina, avulta o perfil venerando de Beethoven.
Este nome é per si só uma epopêa.
Tem a grandeza do mar, e a irradiação do sol.
Em torno do berço d'este homem sublime quer a nossa imaginação que volitassem as particulas sonoras, exhaladas da grande alma harmonica da terra, na philosophia devaneadora de Pythagoras, e que perpassando em revoltos enxames no espirito do futuro maestro o afinassem pelas mais dôces harmonias da musica universal e pelas mais dôces gravitações dos astros melodiosos.
Todavia a historia é que não admitte hypotheses romanescas e devaneios poeticos; e á historia pertence o testemunho de Baden, companheiro da infancia de Beethoven, pelo qual sabemos que os primeiros rudimentos de musica os aprendera elle com violencia, e que só abancava ao piano quando a voz paterna trovejava ameaçadora.{148}
O grande genio de Beethoven faz lembrar o oceano velado pela neblina.
É um abysmo que se não póde abranger com a vista através do vaporoso involucro. Mas ao primeiro raio de sol vôa desfeito o véo, e arqueiam-se as vagas, e doudejam as espumas, e scintillam as escamas crystallinas, e tudo são fremitos, movimentos, prodigios,—e apparece finalmente o mar, pregoando Deus e assombrando os homens.
O véo que resguardava o genio colossal de Beethoven voou todavia em fragmentos, volvidos os primeiros annos da vida, como a neblina se rarefaz ao primeiro raio da aurora.
Muito moço ainda, improvisou em Colonia, diante do compositor Junker, e em Vienna, na presença de Mozart. Beethoven executou brilhantemente, o que todavia não impediu Mozart de suppôr que elle reproduzia de memoria. Então Beethoven pediu um thema, e devaneiou ao piano longo tempo. Este prodigio arrancou a Mozart uma prophecia: «Escutai-o com attenção; dentro em pouco ouvireis fallar d'elle.»
Luctar é o condão do genio; o mar creou-o Deus para a ebullição eterna.
Por mais d'uma vez se bateu Beethoven ao piano, em duello artistico, com o compositor Woelff.
Essas noites de calorosa porfia foram ruidosas e agitadas, porque o partido de Beethoven era capitaneado pelo principe de Lichnosky, e o de Woelff presidido pelo barão Raymundo de Wezslar. Uma deliciosa{149} villa do barão, em Grunberg, era o theatro d'estas luctas homericas, onde o genio fecundo de Beethoven revelava uma prodigiosa faculdade de concepção, e uma imaginação estupenda, que tinha alguma cousa das noites sombrias e mysteriosas das florestas.
Não obstante, o demonio da melancolia havia empolgado o espirito de Beethoven desde os primeiros annos.
Era uma consequencia do seu temperamento, aggravado pelos primeiros signaes de surdez, em plena mocidade.
Aos vinte e nove annos escrevia Beethoven a um amigo da adolescencia, lamentando-se amargamente da perda imminente do ouvido, e pedindo-lhe que não transmittisse a confidencia a ninguem, nem mesmo a Leonor de Breuning, outra companheira da adolescencia, que fôra de certo a mulher amada de toda a vida. A unica opera que Beethoven escreveu, movido por instancias de amigos, tomou o nome de Leonora, sendo que depois de reprovada pelo publico de Vienna reappareceu em scena com a denominação de Fidelio.
Gustave Bertrand, no seu livro Les nationalités musicales, diz que a opera fôra cantada n'uma época politicamente calamitosa, que o libreto era deploravel, e que o desempenho orçára pelo libreto, com quanto os mesmos partidarios de Beethoven, reunidos em congresso, lamentassem ter de accusar o maestro de certa culpabilidade no desastre. Quatro annos depois voltou{150} á scena a opera, mudado o nome, e foi igualmente rejeitada.
Então começou a cerrar-se uma noite profundissima na alma de Beethoven. Minguado de recursos, ameaçado de completa surdez, agitado pelas nevroses continuas do seu temperamento, escondendo talvez no peito uma dôr mais que todas dilacerante, porque Leonor de Breuning havia desposado Wegeler, o amigo do maestro, a quem primeiro fizera a confidencia das suas apprehensões, viu-se Beethoven compellido a aceitar o lugar de mestre de capella do rei de Westphalia, Jeronymo Napoleão. Quasi ao mesmo tempo, o archiduque Rodolpho, o principe Lobkowitz e o conde de Kinsky resolveram obrigal-o por um contracto, mediante a renda annual de quatro mil florins, a não sahir do territorio austriaco. Beethoven, grato a esta consideração já então muito para estranhar, e hoje impossivel, fixou residencia em Vienna.
Era em Baden, a cinco leguas da capital, que elle vivia a maior parte do anno.
Cortadas as suas relações com o mundo exterior, doente, melancolico, quasi surdo, concentrava-se todo nos seus arroubos artisticos. Passeava pelos campos, horas seguidas, e era, passeando, que elle compunha, a despeito da opinião geral de que a posição perpendicular é a que menos favorece os actos do espirito, e a mais adversa á inspiração.
Vem de geito arrancar, n'este ponto, uma pagina{151} dos Grotesques de la musique, de Hector Berlioz, porque frisa ao nosso caso:
«A posição horisontal é evidentemente a mais favoravel ao trabalho da intelligencia, á expansão do espirito, e isso concebe-se. O nosso cerebro é a caldeira onde se formam os vapores conhecidos pelo nome de idéas, que fazem marchar e muitas vezes desencarrilhar a trem das cousas humanas; o sangue e a agua ebulliente que ahi se transforma em vapor; todos os physiologistas vol-o dirão. Quanto mais este liquido affluir facilmente á caldeira, tanto mais, e necessariamente, deve produzir idéas ou vapores.
«Voltaire doente, e por conseguinte, deitado quando escreveu a Candida, gozava de vigorosa saude quando poz mão na Henrieida. Bernardin de Saint-Pierre trouxe das Indias, segundo dizem, uma rede onde gostava de se deitar para compôr; foi onde elle pensou as suas deliciosas obras primas, Paul et Virginie e a Chauniére de la Nature. Quando em seguida compoz as Harmonies de la Nature e quiz explicar o phenomeno das mares pela liquidação dos gelos polares, já a rede estava velha, e não pôde servir-se d'ella.».
Quando o povo de Baden ou de Vienna via passar Beethoven, rapido como a sombra, mas triste, melancolico, concentrado, sentia-se tornado de subito respeito, e crianças, velhos e mulheres não o deixavam de saudar com estas palavras: «Alli vai Beethoven!» saudação que o maestro não podia ouvir, mas que era um preito espontaneo de admiração.{152}
Como n'essas longas horas de excursão campestre ou urbana redemoinhariam na alma de Beethoven as recordações dolorosas de melhores tempos! A imagem de Leonor, da querida confidente dos primeiros annos, devia de apparecer-lhe desenhada no horisonte longiquo do passado, colorida com aquellas meias tintas que a saudade sabe dar. Ter-se-iam amado? A menor observação dos factos parece demonstral-o. D'uma carta escripta a Leonor de Breuning em novembro de 1793 claramente se deprehende que foram dissenções de familia que separaram para o resto da vida os dous amigos de outr'ora. Todavia a distancia não pôde endurecer o coração, porque, na mesma carta, dizia Beethoven em tom de meio segredo:
«Para terminar, arrisco-me a fazer um pedido: julgar-me-ia feliz, se possuisse um collete de pêllo de coelho, costurado pelas vossas mãos, minha cara amiga. Perdoai ao vosso amigo este pedido indiscreto. Culpa é do muito valor que eu ligo a tudo o que vos sahe das mãos, e depois tambem posso dizer que ha no fundo de tudo isso uma pequena vaidade: é poder dizer que possuo alguma cousa da melhor e da mais estimavel filha de Bonn.
Conservo ainda o primeiro collete que tivestes a bondade de me dar, em Bonn; mas a moda proscreveu-o e agora só me resta conserval-o n'um guarda-roupa, como um objecto que me é muito caro porque vem de vós...»
Ah! o coração namorado palpita ainda sob estas{153} formulas respeitosas da epistolographia. É manifesto. O collete, costurado pelas mãos de Leonor, queria-o Beethoven para que o peito lhe estivesse hora a hora segredando umas recordações sempre vivas.
Foi satisfeito o pedido? Foi e não foi. Em vez d'um collete, recebeu Beethoven uma gravata, o que não é menos significativo, porque uma gravata, dada por uma mulher, é o mesmo que dizer-nos ella: «Com este delicado esparto estrangula tu todas as palavras que não sejam para mim.»
Beethoven agradeceu epistolarmente: «A bella gravata, obra de vossas mãos, causou-me a mais viva surpreza. Despertou em mim um sentimento bem doloroso, apesar do mimo do presente: fez-me renascer a recordação do tempo passado, e a vergonha, que me cabe, ao vêr como sois generosa para commigo...»
Em 1806 o nome de Leonor é substituido pelo de Julieta, em tres cartas, das quaes se deprehende que o destino havia cavado um abysmo profundo entre as duas almas. As conveniencias, mais talvez que as conveniencias, as circumstancias, obrigaram Beethoven a lançar este véo transparente sobre a imagem de Leonor. O segredo desvenda-se, e a historia não póde duvidar.
Os ultimos annos da vida de Beethoven foram o declinar d'um nervoso, que sente accumularem-se as sombras da melancolia sobre a lampada interior, já bruxoleante.
De longe a longe descia um raio de sol aos carceres{154} d'aquella alma. Os nervos, fatigados de continuas descargas electricas, descançavam por momentos. N'essas raras intermittencias de paz, lia Homero, o seu poeta favorito, e as novellas de Walter Scott, o seu romancista dilecto.
Á surdez sobreveio a hydropesia, e Beethoven acamou durante quatro mezes, findos os quaes foi transportado ao sepulchro.
O catre onde agonisou cento e vinte dias realisou as angustias do leito de Procusto. A alma, mortalmente entenebrecida, gemia dentro do ergastulo dos nervos, cada vez mais excitados.
Uma atmosphera de melancolia enchia a camara, e as poucas palavras do maestro ressumbravam o fel do sarcasmo ou a lava do desespero. Nem o governo, nas suas espheras mais elevadas, escapava ás verberações de Beethoven. «Escrevei uma collecção de psalmos de penitencia,—dizia elle a Hummel—e dedicai-os á imperatriz.» Era ainda a Hummel que elle confidenciava entre afflicto e pensativo: «Sois feliz, porque não vos falta uma mulher que vele por vós. Mas eu, ai de mim, povero que sou!»
N'uma das poucas horas de tranquillidade, esboçou no papel a casa onde nascera Haydn; pendurou o desenho á beira do catre, e por mais de uma vez revelou que lhe era consolação estar contemplando as paredes dentro das quaes viera á luz do mundo um grande homem.
Dous dias antes de morrer, sentado no leito, apostrophava{155} a duas pessoas que acabavam de entrar no seu quarto: Plaudite, amici, comoedia finita est. Nas horas que lhe restaram de vida parece que não mais referveu nos seus labios a espuma da ironia. Assim partiu da terra, angustiada por um soffrimento inexplicavel, a grande aima do Goethe da musica, como lhe chama Deschanel. E é certo que os livros de Goethe e as partituras de Beethoven resumem o que ha de mais profundo no pensamento humano. São como os grandes lagos, que ora se anilam sob um céo transparente, ora se revolvem e entenebrecem agitados por mysteriosas correntes.
Perto de Schoenbrunn ha ainda dous carvalhos vetustos, entre os quaes Beethoven costumava sentar-se para descançar dos seus longos passeios, mas as frondes annosas, que deixam cahir uma sombra espessa sobre o pouso devoluto, não contam ás gerações os monologos do maestro, nem quantas vezes lhe ouviram ciciar nos labios o nome de Leonor...{156}