NEWTON,
POEMA.
CANTO III.
Tinha ficado em extase profundo
Do protentoso Mausoléo co'a vista:
Mas da pasmosa suspensão me chama
A Fadiga outra vez; eis abro os olhos,
Junto ao sepulcro vejo em lédo aspecto
Matronas duas de belleza estranha:
Humanos hombros veste argenteas azas,
Na dextra mão sustenta argentea tuba;
Vi que era a Fama, que immortaes escritos
De Newton celebrou; era outra a Gloria,
Que os sustenta nas mãos, defende, e guarda.
Da Fama, e Gloria he obra, he maravilha
O immortal Cenotafio: aos pés sentada
A Verdade admirei simplice, e núa:
Ella serve de baze ao grande, illustre
Monumento immortal onde a pressága
Mente me diz, que saberão no Mundo,
Que eu no Mundo existi, tardios netos.
Do seio extractos da materia prima
Dois pedestaes estão, que no encendrado
Ouro conservão symbolos diversos,
E as bazes são de lúcidas columnas.
No meio huma Pyramide que mostra
No mui subtil triangular remáte
Do fogo, e clara luz o throno; e assento,
Qual entre os Gregos o mais douto o mostra,
Crendo que deste fogo era alma chêa,
Que qual laço entre si sustenta, e prende
Intelligivel Mundo ao Mundo inerte,
Incorporea substancia á sensitiva:
(Methafysico abysmo, ou sombra he isto,
Que eu débil, que eu mortal romper não posso).
Daquelle fogo interminavel fonte
Vi d'átomos sahir, que o Sol brilhante
Desde o seu seio luminoso espalha,
Donde o Immenso esplendor dalvez se forma.
Além do alcance do saber humano
He sua rapidez, correm velozes
Dos Ceos o immenso espaço, em toda a parte
Se difundem no ar; destas pequenas
Particulas tem luz, tem lume os corpos;
Sempre impellido vai, vibrado sempre
(Continua undulação) primeiro raio
D'outro, que delle apóz o Sol despede.
Diante da Pyramide sublime
Entre as columnas se elevava ingente,
Firme, segura baze; ordem Toscana
Com magestade seus adornos fórma;
Nella esculpido teu grão nome eu leio,
Immortal Galileo, tu preço, e gloria
Da Etrusca Sapiencia, e timbre illustre
D'alma Cidade qu'em seu gremio ouvira
Os magos sons da Cythara suave,
Que a Laura celebrou, qu'ouvira outr'ora
Da boca de Ficino auri-eloquente
Do excelso Platonismo expor mysterios;
Que dera o berço ao que descobre hum Mundo,
Que o nome seu tomou; qu'inda hoje o guarda.
Immortal Galileo, devem-te os sabios,
Da Terra aos astros o caminho aberto;
Qual deve a Magalhães o nauta a estrada,
Que cerca todo o globo em mar profundo:
He teu brazão sômente, he gloria tua
Desta mesquinha, inerte escura Terra
Avizinhar as lucidas estrellas;
E, se o Toscano ceo d'astros he rico,
Que ao throno Medicêo docel formárão,
A ti se deve, a ti!... Memoria triste!
O throno Medicêo, he sombra, he cinzas,
Depois que o Tygre, ou Vandalo do Sena
Despreza a Sapiencia, avilta os thronos!
O teu engenho inaccessivel abre
Nova estrada ao saber: Britanno illustre,
Com ella architectou obra estupenda,
Que, consagrada á lucida verdade,
Da proterva ignorancia o orgulho opprime.
Immortal Galileo, ao dia, ás luzes
Que ao Mundo trouxe teu saber profundo,
Se oppôz a cega audaz insipiencia
E inda agora se oppõe; que hum véo sombrio
Tentou no Sena despregar-te em cima.
Ah! não se lembrão que se a Italia culta
Não dera o berço a Galileo, não forão
Tão ufanas de si Gallia, e Britannia,
Hum Newton dando á luz, e á luz Des-Cartes!
Dos lados sobre a baze alta, e segura
Eu vi dois globos da pezada, e dura
Magnete, que he mysterio ao sabio, a todos:
Virtude de attracção nella reside,
Se a mente a não conhece, a vista a sente:
Pegando, unindo a si (profundo arcano!)
Esse metal cruel, sagrado a Marte,
Que hoje a misera Europa em sangue inunda,
E he dos mortaes na mão rival do raio.
Esta ao sabio, esta ao vulgo ignóta força,
Como em triunfo se descobre, e mostra.
De teu contínuo meditar foi obra,
Ó Genio do Tamiza, este prodigio;
Mostra a tendencia qu'entre si conservão
Alternativamente os corpos todos,
Que a hum centro que he commum gravîtão sempre.
Ignóto nome aos seculos antigos,
Foi attracção reciproca, e foi sempre,
Centrífuga, e centrípeta ignorada,
Com que estranhos fenomenos s'explicão.
Em seu lugar as gárrulas escolas
Sonhárão Nume occulto, occulta força,
D'odio, e d'amor combate, ou guerra eterna,
Horror do vácuo, e qualidade ignóta.
N'hum dos globos está gravada em ouro
Por mãos de Ptolomeo etherea esfera,
Á qual d'ambito immenso a Terra he centro:
Acima della brilha argentea Lua,
Que o nocturno clarão do Sol recebe.
O mensageiro dos celestes Numes
Muito acima fulgura; e essa, que teve,
Alma belleza, no Oceano o berço,
No que he terceiro Ceo, resplende, e brilha;
Precede o dia; quando nasce, e surge
Quando o disco do Sol se encobre, ou morre!
D'aurea luz coroado, e ardentes raios
O Sol succede: e se descobre Marte
Sanguineo, e triste n'outro Ceo rodando.
De Jupiter o globo immenso, e claro,
Em mui remoto circulo se agita.
Inda além delle, vagaroso, e frio,
Vai do antigo Saturno o debil raio.
Immoveis pontos, lucidas estrellas
Brilhão no immobil crystallino assento.
Obra do grão Copérnico descubro
N'outro globo esculpida, immensa esfera,
Della, o Sol luminoso he centro, he fóco,
Que mui proximo a si Mercurio observa;
Vai n'hum carro apoz elle a Cypria Deosa
Roseos freios batendo ás alvas Pombas,
(Dos astros todos o mais bello, he este);
E n'outro ceo mais alto a escura Terra,
Tornada astro rotante, o gyro absolve;
Da Lua seu satéllite seguida,
Da qual ao vario movimento he centro.
Das feras armas lugubres o Nume
(A quem tanto tributo, incenso tanto,
Em lagrimas, em luto a Europa off'rece!)
Segue-se apoz da terra; e apoz de Marte
O vivo, o claro, o desmedido Jove,
De brilhantes satellites cercado
Que tu, grão Galileo, primeiro achaste!
E do tardo Saturno a immensa, e vasta
Mole apparece, de Clientes muitos,
E variante annel cercado avança.
Hum longo estudo architetou tão bella,
Tão engenhosa machina prestante,
Entre os gelos Sarmaticos levada
Á maior perfeição, pois já n'antiga
Idade a vio sahir absorto o Mundo
Das mãos do escravo do eloquente Tullio,2
A quem, deposta a consular soberba,
Se dignou de escrever, chamar-lhe amigo.
Sobre os dois globos se sustenta, e firma
A illustre, sepulcral Urna estupenda;
Architetada, e repellida brilha
De Prisma em fórma, e de materia ignóta;
Se o brilho he do diamante, inda mais brilha,
Se he solido o rubim, mais dura existe.
Nas folhagens de Acanto, ou de Cypreste
Alli pôz Escultura: em vez de adorno,
Em vez dos negros symbolos da morte,
Só gravou Mathematico Instrumento,
Com que medir dos Ceos a immensa estrada
Usa idéa Astronomica segura.
Do negro Paragon moldura observo,
Que em si contém de Izác a illustre imagem;
He relevada em solida Esmeralda,
Parece q' inda volve, e q' inda espalha
Filosofica vista em torno aos astros,
Que respirando está Filosofia.
E tanto ao vivo está, tal arte o fórma,
Que, se meus olhos acredito, ainda
Cuido que solta a voz, que os labios move.
Este relevo portentoso, e raro
He sustido nas mãos d'hum Genio illustre,
A quem deo berço d'Adria a grão Rainha,
(Hoje escrava tambem d'escravos feros)
Genio que objectos da terrena estima
Aos pés soube pizar, e além subindo
Onde o fragil mortal mui raro chega,
Teve ao lado Virtude, e teve o gosto,
Que o bello sabe achar nas artes bellas,
Rival sublime, ou vencedor de Horacio,
Na mente sempre á Poezia dada
Seguro alvergue achou Filosofia;
Pelas varedas da sciencia segue
De Newton o farol brilhante e puro.
Caro ao Monarcha, que juntou n'hum laço
De Minerva, e Bellona o genio, e as artes,
Minerva n'alma tem, nas mãos tem Marte,
E a pacifica Oliva ao louro ajunta:
Monarca invicto, que estendeo vivendo
A mão benigna ás Musas desvalidas,
E ao lado como amigo os vates senta,
E no Reino, onde agora a Guerra existe,
De Augusto, fez raiar dourados dias:
Foi-lhe caro Algarotti; oh fausto nome,
Tão doce e grato ao lisongeiro sexo,
Que une mil vezes formosura, e letras!
Da nivea mão travando-lhe o dirige
Pelas agras do calculo varedas,
E lhe ensina a não vêr com medo, e pena
Os labyrinthos das traçadas linhas
Nos cubos, nos triangulos de Newton;
Este nas mãos sustem o Oval relevo,
Que ao vivo representa, ao vivo exprime
Do grande explorador da Natureza
O magestoso, e respirante vulto.
D'Optica o Genio na moldura estende,
Moldura sup'rior, brilhantes azas:
Com septemplice luz se expandem bellas,
Que as côres todas primitivas guarda:
O corpo todo he nú, cercado apenas
D'hum sendal claro azul que estrellas bordão;
Na dextra mão sustenta, huma grinalda,
E acena de cingir com ella a frente,
De pedraria Oriental composta;
Na esquerda mão conserva os luminosos
Crystaes, em lentes que affeiçoa e pule
Co'as doutas mãos Filosofo tranquillo
O Portuguez Hebreo na Hollanda escura,3
Que, a vil lisonja despresando altivo,
Banha o pão com suor, trabalha, e vive.
D' aurea madeixa o Genio hum raio expande,
Que, composto de mil, fulgura ao longe.
Resulta delle a côr candida aos olhos:
Da Urna sepulcral no seio o raio
Se refrange instantaneo, em parte opposta
Quadrilongo se vê, posto que fosse
Esferico ao partir da origem sua.
Diversos gráos, e proporção distincta
As côres entre si guardão, conservão;
O brilhante escarlate occupa o fundo,
O laranjado o meio, e, qual no Goivo
O amarello se mostra, alli campêa;
O verde então se vê, que enroupa as plantas;
Vegetação Rainha assim se veste,
Ópa com que se adorna, e o Mundo enfeita:
Do azul, que forra os Ceos, o Indico he perto,
E da saudade o symbolo tristonho,
Matiz da violeta; eis brilha o rôxo.
Escala harmoniosa! Eis della em torno
D'huma composta côr listões s'estendem,
Que outros compostos gradativos formão,
Que adornos são do Mausoléo soberbo:
E, n'hum Rubim profundamente expressas,
Estas palavras portentosas erão:
"Com suas Leis a vasta Natureza
Immersa estava em tenebrosa noite;
Surge, ó Newton, bradava a voz do Eterno;
Nasceo Newton no Mundo, e nasce o dia."
Eis tres figuras mais, do grão Sepulcro
Ornamento, diviso em torno postas;
Primeiro a de Ancião curvo, e rugoso,
Fontenelle se diz, meditabundo,
Aos Ceos aponta, e contemplando os astros,
Diz que habitados são, que a argentea Lua
He do pensante, e do mortal morada;
Qu'existem Mundos mais no éther immenso.
De vórtices cingido, outro apparece,
Em cujo seio envolve o Sol brilhante;
Em seu gyro assignala o móto aos astros.
Tem sobre o Cenotáfio os olhos fitos,
O simulacro observa, e mudo o adora.
Entre elles ambos Maupertúis descubro,
E sobre hum globo estende aureo compasso,
E sem temer as cerrações do pólo,
Geómetra sublime, os gráos lhe mede.
Eternidade sobre tudo existe,
De insupportavel luz clarão diffunde,
Onde se perde, e se deslumbra a vista,
S' ousa fitar-se ao seu seio immenso.
Mal contemplava o monumento augusto,
De homem tão grande consagrado á gloria;
De tão sublimes extasis me arranca
A Fadiga outra vez: "He tempo, ó filho.
Que o transportado espirito se torne
Á habitação mortal, que desça á Terra:
Vai: quanto viste, aos homens anuncîa;
Vai declarar insólitos protentos
Sobre esta móle sepulcral gravados.
O Mundo vivirá: Newton sublime
Em quanto exista, existirá com elle.
Sobre as ruinas do acabado Mundo
A gloria existirá fastosa, inteira,
Seu throno erguendo sobre immensa, e clara
Luz, que só Newton dividio na Terra."
Disse; eis foge a visão, eis foge o Templo.
Eu, não diff'rente d'hum mortal que vôa,
Desço do cume do fadado monte.
O mesmo monte s'escondeo: vapores
Levantados em torno á vista enferma
Sobre mim denso véo de nuvens formão,
Roubão-me ao claro Olympo: a planta apenas
Se me antolhava que na Terra firmo,
Do novo dia sou chamado ao duro
Lagrimoso trabalho, herança minha,
N'huma absoluta escuridade, inglorio,
Sómente a mim deixado, e á Natureza,
Sem murmurar do Ceo que assim lhe aprouve,
Tranquillamente o tumulo esperando
(Pouco dista de mim!) repouso eterno.
Mas sem que a vil lisonja hum pão mendigue;
Nem aos soberbos porticos dos grandes
A dependencia guiará meus passos,
Nem vergonhosa súpplica, aos ouvidos
D' hum homem meu igual levei té agora.
Falte em que ponha os pés mesquinha terra,
Injusta collisão d'almas obtusas,
Menos que vermes na sciencia, em tudo,
Só grandes na ignorancia, e na impostura,
Me procure azedar cadentes dias;
Nem duro, e negro pão banhado em pranto,
E obtido com suor me escóre a vida;
Nem tenha onde evitar (paredes nuas)
Das estações a dura alternativa;
Nunca abatido o peito em males tantos,
Nem triste o rosto me verão no Mundo;
N'alma assentado o presupposto tenho
De huma voz Filosofica, que brada:
"Dos males todos, o menor he morte."
Se he preciso morrer, sou grande, e livre,
Sou nobre, independente, e sou ditoso;
Do estudo, e da sciencia o fructo he este.
Não he caduca vida hum bem q' valha
De hum vicio só, de huma vileza o preço,
Mas em quanto não finda este intervallo,
Breve entre o berço, e tumulo, desejo
Ó Patria minha, engrandecer teu nome,
Dar-te, qual hes, a conhecer ao Mundo.
Isto busco, isto quero, isto medito,
Neste seculo infausto á paz negado,
Em que tudo se esquece, excepto o sangue;
Em que he sciencia o calculo da morte;
Em que hum Tigre feroz se chama hum grande;
Em que amor do retiro, amor do estudo
Como fraqueza, e pedantismo he tido,
E a sciencia maior lembrar-se o nome
Da terra em que os mortaes seu sangue entornem.
Menos barbaro foi por certo o tempo
Em que do polo aquilonar marchando
Fero Ataúlio, ou Genserico veio
He Theodorico barbaro, mas teve
Ministro ao lado seu Cassiodoro:
Deo-se apreço ao saber, respeito ás Musas.
Filosofo he Boecio; aurea eloquencia
Apolinar, e Símacho sustentão,
E do Grego saber riqueza, e brilho
Nas escolas Ecléticas conserva
Á foz do Nilo transplantada Athenas.
Mas agora!... ah com lagrimas augmento
Do patrio rio a turbida corrente!...
Porém eu torno a mim, que a mim me rouba:
Melancolico véo que alma me enluta.
Trago do Templo excelso inda gravadas
Na fantazia férvida as imagens,
Que eu alli descobrira, inda me lembro
De quanto ao grão Britanno as Artes devem.
Cultas nações extaticas o louvão,
Nunca a lingua mortal cança em louvallo:
Unico Genio, cujo estudo, e fama,
Sómente ha de acabar quando se solte
A chamma voracissima do fogo,
Que a Terra, os astros lucidos consuma,
Com que do Mundo a machina vacille;
Como tu prometeste, e tu cantaste,
Ó dulcissimo Vate, a quem por louros
Deo do Tybre o Tyranno a Scitia, e morte.
Newton; foste mortal; mas quasi eu creio,
(Qual he crença de extatico Poeta)
Que d'hum astro natal vieste ao Mundo
Mostrar prodigios aos mortaes ignótos.
Tu, c'o Prisma na mão mostraste a fonte
Da septiforme côr, que a luz encerra,
Qual seja a essencia sua, e qual a vida.
A superficie dos terrenos corpos,
Em parte absorve os luminosos raios,
E, reflectidos n'outra parte, os manda
Aos olhos nossos com diversas côres.
Opáco eis apparece o corpo, quando
A luz não tópa com directos póros;
Na obliquidade a escuridão consiste,
Pois menor transparencia a luz encontra:
Tu decifraste as primitivas côres,
Ó grande Genio escrutador do Mundo!
Tu das mixtas nos dás brilhante idéa,
Que effeitos são dos reflectidos raios,
E qual seja o poder donde dimane
Á refracção, e reflexão principio.
Nem são de teu engenho obras supremas
As qu'em suave metro expuz té agora.
Não so da luz as vibrações potentes
Refrangiveis mostrou nos corpos densos,
Que no incessante, moto encontrão sempre;
Mas a mais progredindo, a mente excelsa,
Não se perdeo no calculo infinito:
Abysmos onde hum novo ignóto brilho
Aos mortaes pode abrir; sahindo ovante
Do labyrintho de infinitas curvas,
Quando a recta propoz, porque he finita;
Se hum pouco só diverge, então se fórma
Sempre em curva infinita. Ó sombra, as Musas
De ti se espantão, se intimidão, fogem:
Só lhe apraz terra donde brotem flores;
Só manejão pinceis, calculo odêão;
Ou he pequeno emprego á fantazia,
Que se escalda, se expande, e se remonta,
Juntar com sequidão cifras a cifras;
Outro quadro maior minha alma occupa.
Bastava, ó Newton immortal; bastava
A dar-te hum nome eterno, a luz, e as côres;
Mas tu, da clara luz transpondo o Imperio,
Foste os astros seguir no eterno móto.
A pestilente Inveja em vão contrasta
A teu nome immortal memoria, e honra.
Da Geometria nas valentes azas
Nunca tentado despregaste hum vôo,
E d'huma esfera n'outra esfera foste
Viver entre mil soes sem deslumbtar-te;
Lá tu foste encontrar, de lá revélas
Lei q' a hum centro commum chama os Planetas;
E a lei com que do centro os astros fogem.
O móto desigual da argentea Lua
A teus profundos calculos sugeitas.
Tu no móto annual, tu no diurno,
Vais passo a passo acompanhando a Terra.
Tu do grande fenomeno espantoso,
Exposto á nossa vista, e sempre ignóto,
Com que ora sobem na arenosa praia,
Ora descem na praia as turvas ondas,
A verosimil causa, ou certa apontas.
E teu profundo espirito em repouso,
Assombroso mortal, jámais deixaste.
Se, os tubos astronomicos depondo,
Deixas de ir vêr os Ceos, correndo os astros,
Não satisfeito de rasgar o obscuro,
Denso véo que encobria a Natureza,
Pelos sombrios pennetraes entrando
Com luminoso facho, e nunca extincto,
Tu, nascido a dar luz, rasgas as sombras
Talvez mais densas, que no seio envolvem
Marcado já periodo dos tempos,
Vai correndo teu fio, e apenas paras
No momento em q' á voz do Eterno o Mundo
Surge do cáhos, se organiza, e brilha.
Tu, da impostura oriental mofando,
E do fallaz mysterioso Egypto,
Só da verdade oraculos respeitas.
Petavio, Usserio te contemplão mudos
Quando outras luzes contemplando mostras
Da Natureza na observada marcha
Tão remoto não ser da Terra o berço.
A baze, as progressões, a gloria, a quéda
De Imperios vastos que ambição formára,
Interpetre das leis dos Ceos, dos astros,
Quizeste ser Legislador dos tempos.
Quem póde a gloria recuzar-te, ó Newton,
De dar ao Mundo a luz que elle não tinha?
A transcendente Geometria elevas
Ao ponto além do qual finda o perfeito.
Da Natureza sacerdote, acclaras
Mysterios que ignorára a Grecia, o Lacio.
Pelas sombras da Historia a luz derramas
Quando a baze maior, Chronologia,
Tu deixas em teus calculos segura.
Se o profundo Varennio a terra, os mares
Co'a régoa Filosofica medindo,
Este, ai! tão triste! domicilio humano
Em quadro multiforme off'rece á mente;
Tu te dignas polir, dar brilho, e preço
Talvez ao mór Geógrafo que exista;
A Newton por interpetre merece!
Nelle a luz he brazão, que tu lhe emprestas;
Em ti timbre maior, sendo tu Newton,
Confessar, conhecer merito estranho.
Da Natureza expositor, quizeste
As azas despregar n'hum ceo mais alto,
As cortinas fatídicas rasgando,
Com que a mão do Immortal cobre o futuro,
Foi teu maior estudo esse volume;
Onde as visões de extatico Profeta
Em sombra impenetravel se sepultão,
Não vadeaveis, não, que os aureos sellos
Só lhos deve romper momento extremo,
Quando de espanto agonizante o Mundo,
Vir das nuvens baixar do Eterno o filho.
Não foste grande aqui; mas são pequenos
Quantos ousão rasgar comtigo as sombras,
Em que Deus quiz guardar mysterios tantos.
No Templo Filosofico dest'arte
Tu mereceste hum tumulo sublime,
Que he seu mais nobre altar; não pompa infausta,
Qual ser dos Reis o mausoleo costuma;
Neste a gloria se acaba, o nome expira;
O teu dalli começa, e dalli manda
Raios de luz a esclarecer o Mundo.
Se tens a mente de sciencia cheia,
Tens de virtude, o coração cercado:
He mais arduo ser bom, que douto, e sabio;
E huma Virtude só tem mais valia
Que o teu compasso d'ouro, as linhas tuas,
E as leis que dás, ou que suppões nos astros.
Entre o fausto incivil entre a grandeza,
Podeste ser Filosofo modesto.
Ah! sem virtude, a sapiencia he nada!
A Inveja te assaltou, (e a quem perdoa
Este monstro o maior do escuro Inferno?)
Mas tu, qual no Oceano altivo escolho
Das negras ondas, que rebentão, zombas.
E, se hum novo Palacio á Sapiencia
Levantárão mortaes no Tybre, e Sena,
Os enfeites são seus, e as bazes tuas,
Ó feliz Albion, berço de tantos,
Magnanimos Heroes, que o Mundo illustrão,
Da honra e da virtude asylo, e Patria,
Vê que ha no Tejo quem conheça o grande
Alumno teo que legislou nos astros;
Quem seu saber adore, e seu profundo
Systema vá seguindo em todo, em parte;
Quem possa ser maior, e igual ao menos.
Este dos versos meus, tributo acceita
Que eu consagro a teu nome, á gloria tua:
Pendura-os em seu tumulo, e se tanto
Nem desejar, nem merecer eu devo,
Junto da pedra, que os despojos fecha
De Tompson teu Pintor, meus dons conserva:
Se elle traçou da Natureza o quadro,
Dos seculos té alli co'a Lyra intacta,
Eu do Interpetre seu pinto em meus versos
O grande Genio, e lhe eternizo a Fama.
Fim do III. Canto.
NEWTON,
POEMA.
CANTO IV.
Da luz que o Templo magestoso enchia
Nunca a meus olhos o clarão s'extingue,
Com elle vejo d' outra sorte a Terra:
S'era envolta até alli na sombra escura
Do cáhos da ignorancia, eis fulge, eis brilha
De novos astros, nova luz banhada.
Era tréva até alli quanto pousara,
Em Athenas outr'ora, outr'ora em Roma.
Era frouxa a impulsão de sabios tantos,
Que, mestres do Universo, aos homens davão
Lições de sapiencia. Ah! nunca o Templo
Aos miseros mortaes se abrio de todo!
Quando a barbarie Góthica domina
Por tantos, tantos seculos no Mundo,
Dos continuos fenomenos a causa
Sempre ignorada foi. De espaço a espaço
Surgía hum Genio, forcejando apenas
Por quebrar os grilhões. Baldado intento!
Hia o volume universal fechado,
Com sellos de Diamante, á força humana;
Qual no tristonho tenebroso Inverno,
Quando a densa, importuna, e grossa neve,
Abafa em torno o ar; se o Sol brilhante
Rasga c'o vivo raio o manto espesso,
Subito foge; subito o negrume
Tapa de novo o fulgurante aspecto,
O Imperio estende da imperfeita noite.
Tal da Verdade, e Natureza estava
Envolto sempre o rosto em véo sombrio;
E, se hum frouxo vislumbre hum pouco a treva
Tentava dividir, mais carregada
Vinha cahindo a sombra da ignorancia:
Ou porque o cego Fanatismo as luzes
Demorava continuo, ou porque ainda
O marcado periodo não vinha
Na vasta, immensa successão dos tempos,
Que a mão que rege o todo ás artes marca,
Quaes os Imperios são que nascem quando
Do nada á vida a Providencia os chama.
Quantos Genios nutrio no seio a Italia
Antes que Newton fulgurasse ao Mundo?
Tilesio, Cisalpino, e Bruno, aquelle
Que entre chammas fataes seu crime expia!
E Cardano, que entr'Arabes idéas
Tantas centelhas luminosas lança!
Mas nunca rompe o dia, e o Mundo aclara.
Tu mesmo ó Galileo, teu passo apenas,
Ao Peristillo do grão Templo levas:
Não te foi dado os porticos de todo
Aos homens franquear. Germania hum Sabio
Produz, q' aos Ceos se lance, os astros peze,
E ouse fallar de perto á Natureza;
Kepler as leis universaes sentia,
Que seguem na carreira ethereos corpos.
E Gallia, então n'Aurora, então no berço,
Ou não escuta, ou não conhece o Sabio,
Que entre os gelos da Hollanda hum mundo finge
De turbilhões, de vortices sonhados:
E de Epicuro nos jardins se assenta
Renovador dos átomos errantes
Pensativo Gassendi, e em tréva envolto,
Corpuscular Filosofia ensina,
Onde engenho só brilha, e nunca hum passo
A sempre douta experiencia avança.
Ah! se mais á razão, que á fantazia
Desse o Germano illustre a quem patente
O vasto Imperio foi das artes todas,
Se as primitivas mónadas, se aquella
Pré-existente enfática harmonia
Hum pouco s'esquecesse, e a voz ouvisse
Da contumaz observação das causas,
Mais cedo, e mais brilhante a luz raiára!
Do immenso livro do Universo os sellos
Aos olhos dos mortaes s'espedaçárão!
Mas Newton existio, e a Terra he outra;
O que era só mysterio, o que era sombra,
Foi tudo luz, e sapiencia tudo,
Bem como he todo luz, e he dia o Mundo
Quando o disco do Sol do Ganges rompe,
De arcanos naturaes expoz a cifra
Rasgou-se o manto a toda a Natureza!
Eis do infinito o calculo profundo
Pôde abrir, e forçar cerradas portas
Da Sapiencia o recatado Templo
Visto apenas ao longe entre inaccessas
Róchas quebradas de escarpados montes
Se abrio de todo, e se mostrou qual era.
Oh! que scena espantosa, oh quadro augusto!
Enthusiasmo que minha alma agita
Te abrange todo, te contempla, e pinta.
Em teu claro vastissimo horizonte
As gradações da luz, da sombra eu sigo,
Empreza digna de espantar por certo
A rica fantazia, o fogo, a força
De Tintoreto, ou de Jordão pintando!
Eu não sei que ardimento interno eu sinto,
Irresistivel violencia aos versos
Me leva todo, e da memoria eu tiro
Thesouros cuja posse eu mesmo ignóro:
Sobre mim me levanto, e alheio aos males,
Que outra vez tão de perto, em copia tanta
Terrivelmente minha Patria assombrão,
A Lyra Filosofica tactêo,
E onde não chega estrepito da guerra
Eu vejo a luz que a Terra a Newton deve,
De antigos évos óptica ignorada
De Sarpi, e Porta aos immortaes cuidados,
Ah! por certo deveo primeiros passos!
Porém co' Prisma, a calculos de Newton
Pode formar a analyse das côres:
Do Genio, tymbre d'Anglicos triunfos,
O volume doutissimo propaga
A luz que em só vista, e ignota sempre.
Vãos systemas té alli que o throno occupão
Cahem sem força, e vigor no abysmo, e nada
A Experiencia só, corrige, emenda
Quanto á moderna observação se oppunha;
E a nova escóla Eclectica se eleva
Sobre a verdade, e calculo sómente.
Eis-Eulér, e Clairault, profundos genios,
Sobre o problema dos tres corpos lanção
A baze ao grão saber, e altos progressos
Do magestoso simplice systema,
Que La Place immortal do Mundo off'rece.
Quão gloriosas consequencias vejo
De teus principios, ó Britanno illustre!
A nutação do eixo em que se firma,
Em que rodando vai pezada Terra:
Do mar a exaltação, do mar a fuga,
(Que fluxo, e que refluxo a proza chama):
D'astros primarios movimento eterno,
Dos satélites seus que ao centro tendem;
Dos cometas excentricos, que o moto,
E sempre incerto, irregular conservão,
Os constantes periodos se marcão.
A libração da prateada Lua,
Astro proximo a nós, mas sempre ignóto,
E a causa achada dos bramosos ventos,
Do ar sonoro oscilações pasmosas;
Tudo he patente já. Methodo exacto,
E de integrar, de aproximar se abraça,
E tudo, ó grande Inglez, tua gloria augmenta!
A longa duração de quasi um cento
D'annuas revoluções da Terra inerte
De teus principios á cultura entrega
Fontenelle dulcissimo, que Mundos
Vio mais no espaço, e aridas sciencias
De nova graça e formosura enfeita.
Da Germania, que hum tempo, e núa, e simples
A' Historiador Filosofo se mostra,
Surge o grão Wolfio, e se offerece ao Mundo;
Segue o trilho de calculos profundos:
Mathematica luz lança no campo
De quanta a Terra vio Filosofia.
De ti, grão Newton, os vestigios piza,
E da exacta sciencia entra o Sacrario,
Em sombras methafysicas s'entranha;
Quadro bem digno da attenção do sabio,
Nunca em meus versos ficarás inglorio!
A Inveja perseguio genio tão raro;
Entre agitadas borrascosas ondas
Em seu peito existio tranquilidade,
E a cada tiro venenoso dava
A grão resposta de hum volume douto
Com que da sapiencia o erario augmenta.
Do Lycêo de Berlin lá foge expulso
Vai com elle a Virtude, e vai Sciencia.
Da Hollanda nebulosa os sabios surgem.
Ah! porque foge á magica harmonia
De meus versos seu nome! As Musas fogem,
E os alpes vendo, os Pyreneos não passam.
Só do Tibre, ou do Téjo as aguas gostão
Depois que o Trace barbaro, e que o Scytha
Do Eurotas, de Hypocrene a margem pizão!
Mosckembroêke, Sgravesande illustrão
Da Fysica os confins. Conspicua em tudo,
Antes que ao jugo Vandalo dobrasse
O tão nobre até alli livre pescoço,
Nevosa Helvecia n'huma só familia
Da sciencia o deposito conserva.
Fadada para as letras Baziléa
Tantos Bernullis dá, quantos os sábios.
Claro ornamento da sciencia exacta,
Onde hum tempo foi Grecia, e Roma outr'ora
Onde em Sena mudado, eu via o Tibre,
Quanto a Fysica val, quanto se avança!
Á Luz de Newton nova luz empresta,
E não deixou que dezejar á Terra.
Da grande Academia o Templo eu vejo,
Alcaçar da sciencia ao Mundo aberto
Do grande Newton a memoria, o nome,
Alli qual genio tutelar preside
No vasto erario de immortaes volumes
Encerra, e fêcha a Natureza toda,
E a Natureza toda aos olhos abre.
De luz tão clara não carece Italia;
Paiz tão caro ao Ceo, tão grato aos sabios,
Ah! nunca os Brennos te pisassem, nunca!
Devera em Cima de teus Alpes vêr-se
A gráo Minerva sobraçando a Egyde
Co'a angui-crinita frente de Medusa
Onde os Hydros fataes s'enroscão, silvão,
Petrificar as Vandalas Cohortes,
Qual já Perseo c'o diamantino escudo
As iras suspendeo do equoreo monstro,
E Andromeda livrou. Italia, Italia,
Belligeranres torreões nos mares
De contrarias nações, a Hesperia, a Gallia,
E a soberba Albion, respeitão, guardão
Lenho que leva La Peyrouse, e marcha
Co'as raras produções do opposto Mundo
A enriquecer a Europa armi-potente:
Não he de huma nação, da Terra he todo
O sabio que a riqueza augmenta ás artes.
Tal acatáda ser, tal tu devias,
Ó domicilio do saber immenso,
E não hirem turvar profanas armas
Teus sabios immortaes, teus monumentos;
Tudo em ti tinha o Mundo, e as Musas todas
Tinhão firmado em ti seu Templo, e throno.
De hum vate acceita o pranto, acceita os votos,
Sabe que o Téjo te conhece toda
Entre as cultas nações, tu só me illustras,
Eu nada tenho que invejar ao Mundo,
Quando em viva abstracção te roubo ao Globo;
Sem Filicasa, eu Lyrico me acclamo,
Ah! sem Tasso, o Cantor do acceso Oriente
Cedera a nenhum outro Epica tuba;
E meditando harmoniosamente
Eu só fôra o Pintor da Natureza
Se Arrighi, e Conti co'os pincéis não dérão
A tão grande painel mais alma, e vida.
A accesa fantasia hum pouco, hu' pouco
Das Musas se lembrou deixando as linhas,
Os cubos, e os triangulos de Newton,
E a regua de marfim, compasso d'ouro
Com que elle mede a Natureza toda.
Com quanta gloria te serviste delle,
Tu, que a tudo primeiro o exemplo deste!
Não cede, não, Bolonha ao grão Tamisa
Menos Florença, que, em jardins envolta,
Da Fysica sciencia o Imperio estende;
De Newton ao clarão marcha Zanotti:
Curvo, e velho Ricatti, abstracto, e mudo
A seu sacrario te conduz, Urania;
De Newton nas fluxões tu luz derramas.
Se teve crime a Sociedade extincta
Aos olhos da razáo, tu lho disculpas,
E tu pedes por ella o pranto ao Mundo.
Manfredi, e Grandi, e Nicolai, de assombro
Enche do Neva, e do Danubio os sabios;
Não mais, não mais a progredir se atreve
O grande Imperio da sciencia exacta.
Onde o claro Sebéto as aguas volve,
E ao perto ouve bramir, troar escuta
Do medonho Vesuvio o seio horrendo,
Chega de Newton a sciencia, e chega
O desejo de abrir com aureas chaves
Da recatada Natureza o Templo,
Orlandi, e Galiani aos astros sobem,
O grão Maraldi lhes franqueia a estrada;
Com Cassini outra vez s'exalta o Mundo.
Se muito a Galileo deveste, ó Newton,
Mais a Italia te deve, as Artes devem,
Na Hesperia á perfeição levadas sempre.
Mecanica, aos mortaes proficuo estudo,
Depois de Newton teu sacrario aberto
Eu vejo pela Europa, e mais se apura
Do maquinista Siculo o talento,
Que atalha os vôos das Romanas Aguias;
A força cede a força ás artes sabias!
Quasi vejo surgir Numes na Terra,
A Cujo aceno os corpos obedecem;
Não he a Lyra de Anfião que os montes
Manda a Thebas chegar, são leis profundas,
Que ás sombras arrancou da Natureza
O estudo da Mecanica pasmoso
Náos se suspendem, diques s'apresentão
Á furia sempre indómita dos mares.
Sobe hum rio em Marly, corre hum penhasco
Á ribeira do Neva, e a baze fórma
Da colossal, prodigiosa móle,
Que representa o creador de Imperio,
Que hoje a razão defende, o crime insulta.
Sem a Italia meu canto erguer não posso;
Se Imperio Mathematico contemplo,
Musckembroêcke, e Belidoro a guerra
(Guerra dos sabios são, que o sangue ignorão)
Accendem entre, si, disputão doutos
Do movimento de impelidos corpos,
Que a força perdem gradativamente,
Até que a resistencia o móto acabe.
Do Sena, e do Tamiza os sabios todos
De Newton, de Amontons nas leis insistem;
Eis surge, eis brilha o Bolonhez Palcani,
E onde co'as doutas maquinas não chega,
Mysterios da razão co'a força abrange;
Traça hum ramo hyperbolico engenhoso,
Assintótico o diz, com elle explica,
Com elle aclara o disputado arcano.
Se as leis dos corpos sólidos se mostrão
Em soberana luz, quanto escondida
Guardava a Natureza a lei constante,
Que pôz desde o começo ao rio undoso,
Que elle na marcha accelerada observa!
Mil equações algebricas a escondem;
Vencem-se em fim mysteriosas sombras.
Depois de quanto afan, de quanto estudo
Tu, Saladini, a theoria expunhas,
Que escólho da mecanica tu chamas,
Não superavel quasi a engenho humano!
Tu deste a Hydrodinamica pasmosa;
Teu hemisferio hydraulico os louvores
Do taciturno pensador La-Grange
Te soube merecer. Ricatti o grande
Te abraça terno com silencio augusto,
Sobre teu rosto lagrimas derrama;
Do Sabio velho a candida ternura
Mais te explica, e te diz, que o louro, o premio
Que Berlin te mandou, promette o Sena.
Mas teus cuidados, as vigilias tuas,
Ó tu de Urania Sacerdote, e filho,
Á sciencia dão luz, que os ceos abrange,
Por ti seu Reino estende a Astronomia;
Desde o culto Caldeo, do douto Egypcio
Té quasi ao berço teu jazia em sombras;
Nada avançado tinha Árabe estudo,
Guardador do deposito das letras,
Que á furia se evadio do Turco indouto
Depois que a sabia Grecia he cinza, ou nada:
Nem mesmo entre os de Dánia agrestes montes,
Onde Ticho elevou seu tubo aos astros,
Solar systema se aclarou de todo.
Mas apenas os Ceos co'a mente excelsa,
Sem te assustar o espaço indefinito,
Ousaste passear, como vencida
Da douta audacia a Madre Natureza,
Ou fez que o Ceo, se aproximasse á Terra,
Ou que a Terra de perto os astros visse.
Leis occultas té alli se patenteão
E o que Newton expoz, Cassini indaga.
Seguindo a piza ao fundador, ao mestre
Da sciencia astronomica, empunhava
O Telescopio do subtil Campani;
De Saturno os satellites descobre
Quasi todos então; busca as estrellas,
Que immortal Galileo Primeiro achára,
Luas de Jove são; fanal aos nautas;
O espantoso fenomeno nos mostra
Da luz Zodiacal, co'a parallaxe
Do sanguineo, medonho, accezo Marte
A distancia marcou do Sol á Terra,
Distancia que confunde a mente humana,
E que a luz n'hum momento abrange, e corre;
Sabio traçou Meridiana linha,
E por ella nos mostra o variante
Moto veloz da Terra ao Sol em torno.
Então mais claro no volume immenso,
Dos Ceos, já quasi aberto, os homens lêrão.
Foi-lhe sugeita a abobeda brilhante
A radío mathemático, qual era
O mortal domicilio aos homens dado:
Parallaxe annual d'altas estrellas,
Que engastadas nos Ceos fixas se amostrão;
Idéa falsa se aniquila, e foge,
E a lei da aberração mostra a verdade.
Peregrinando pelos Ceos supremos
Vão sabios indagar da Terra a fórma
Co'a sciencia astronomica se marca
Da nossa habitação figura, e termo.
Quasi se amostra a longitude ignóta
Sobre inconstante mar, onde em cavado
Pinho, avaro mortal circunda o globo.
Incessante fadiga a luz derrama
No arcano presentido, e ignóto ainda
Da obliquidade do angulo, que hum pouco
Em cem annos na Ecliptica decresce!
Quasi deixão seu tom da Lyra as cordas
Quando dest'arte nos umbraes me entranho
Da linguagem dos calculos, que he sombra,
Que estrema immensamente, e que divide
O frio Euclides do fervente Milton.
Ah! de Ariosto aos extases divinos
Calculador pousado em vão se ajusta.
Como indignado das prescriptas metas,
Achadas até alli no espaço immenso
Herschell sobe mais alto, além das tardas,
Luas, que escoltão frigido Saturno.
Lá corre a suspender na marcha Urano,
Leva comsigo a Carolina, e ambos
Revolução continua, e varia encontrão,
No luminoso annel que o globo cinge,
Do nem remóto, ou ultimo Saturno;
Quando com elle hum Hercules comparo,
Q' Olbers descobre, que a carreira immensa,
No gyro de dois seculos absolve.
De mais perto se observa a argentea Lua,
Gelados montes tem, gelados mares,
E tem Vesuvios que vomitão chammas.
He cidadão, e morador he quasi
Na Terra inda o mortal do ethereo assento.
Desgraçado Bailly, fuma o teu sangue
No cadafalso vil: tua alma agora,
Já solta das prizões, lá vê nos astros
Se o grão discurso teu, falhou no Mundo.
Se a Terra, dizes tu, se outros Planetas
Por centro do seu gyro o Sol conhecem,
Talvez, que o nosso Sol, que os Soes, que fixos
Parecem ser na abobeda azulada?
Tenhão centro commum n'hum Sol mais puro,
Mais vasto, e luminoso, e que descrevão
Em roda delle, essa orbita assombrosa,
Que mais remotos tem limite, e termo,
Que a fantasia fervida d'hum Váte!
La-Lande a imaginou, La-Lande a sente;
Mas, foge, foge aos calculos, ás cifras.
Virá talvez hum tempo... ah! se na Terra
Não tiver duração Vandalo Imperio!
Em que outros vidros, outros tubos mostrem,
Que foi verdade, e luz tão grande idéa!
Depositada está no aureo volume,
Que sobranceiro ao cadafalso, ao sangue,
Não ferio com Bailly furor de Tigres,
Que ao Sena derão leis, e as dão na Europa,
Que os ferros beija voluntaria escrava:
Vileza, e corrupção, chegaste a tanto!
Não foi sem fructo, não, ou foi deleite
A sciencia Astronomica entre os homens!
Ah! quanta, e quanta luz se deve a Newton!
Só são dignas de apreço as artes uteis.
Quão proficuo aos mortaes he nauta ousado!
Se tu, Lysia, tens gloria, ao nauta o deves,
Que abrio primeiro do Oriente as portas:
E teu nome immortal soou na Terra,
Porque teu lenho undívago a cercára,
Nas Ilhas do Oceano, e mares todos,
Dos Lusos se conserva o nome, e a fama.
Muito pôde o valor, pouco a sciencia
No seculo inda rude, alheio ás artes!
Por que inda hum Newton não subira aos astros,
Newton, sciencia, calculos, systemas
Só Magalhães não necessita; basta
Que ao lado delle vão, vingança e honra;
Eis todo o Globo rodeado; he esta
A façanha maior da especie humana.
Era extincto o fervor nos Lusos peitos
Depois que estranhas leis o Tejo ouvira,
Do mar o senhorio então transfere
Ás mãos Britannas o Senhor dos Mundos.
De Vatennio a fadiga illustra hum Newton,
Correm Bretões o mar, e o globo cercão,
Não levados do sordido, e terreno
Insaciavel interesse de ouro;
Mas só por illustrar, dar mór grandeza
Á esfera immensa das sciencias todas.
Vai Cook, e vai Byron cercando o Globo
Por inda não tentada, incerta via
Então suspendem generosa marcha
Quando em gelado mar, gelada terra
Da Natureza no decreto attentão,
Que atraz lhes manda bracear as vélas;
Que onde a Terra acabou, findar se deve
O trabalho mortal, o amor da gloria.
Ó nome Lusitano, ó Patria minha,
Eu culpo o teu silencio, a huma virtude,
Que se apraz de esconder-se, eu chamo inercia.
Descreve Newton c'o compasso d'ouro
O globo que Varennio exposto havia;
Foi Cook, e foi Byron, foi Bougainville,
Qual Anson foi guerreiro, e os mares gyrão.
Do Continente austral foge o fantasma,
Que avarento Hollandez (nem hoje avaro;
Nem já por crimes se conhece a Hollanda)
Julgou grande porção do globo, e sua.
Assombrado do gelo atraz voltárão,
Mas nunca hum passo além co' lenho óvante
Da Terra forão que tocára hum Luso;
Magnanimo Queiroz, déste-lhe hum nome
Para ti foi brazão, e he meta aos outros
Do nebuloso Sul prescrutadores:
E a gloria de buscar no Mundo hum Mundo,
Se ao pensativo Bátavo pertence,
E ao pertinaz navegador Britanno,
No Tejo as bazes tem, no Tejo a fonte,
Mais além de Queiroz nenhum se avança.
Foi entre tantos Magalhães primeiro,
Todos de hum centro os raios se derramão,
Que vem tocar d'hum circulo os extremos,
Tal do centro de luz, que accende hum Newton
Se derrama ao grão circulo das artes
O perpetuo clarão com que hoje medrão.
Quanto a vetusta Fysica ignorava,
Sobre a essencia do ar se mostra aos olhos;
Piza-se a immensa fluida substancia;
E já senhor do mar n'hum curvo lenho
Não lhe basta do Globo o Imperio inteiro,
Se o dominio o mortal não tem dos ares;
Lá sóbe, la passêa, e vê seguro
Debaixo de seus pés cruzando os raios.
Do antigo Architas se escureça a Pomba;
Maior prodigio guarda a idade nossa.
Eu vejo pelo ar volantes carros,
Quaes vão nas ondas os baixeis arfando;
E nelles os mortaes tranquillos vejo
Sem temer o despenho, e não lhes lembra,
Que afrontada dest'arte a Natureza,
Tire vingança da famosa injuria.
Eu vejo o golpe, e a victima primeira
Em Rosier intrepido, que sobe;
Elle o primeiro foi, mas prestes passa,
Do regaço da gloria ás mãos da morte.
Porém mais uteis os trabalhos vejo
Dos sabios, que o caminho a Newton seguem;
Eis a fonte de incognitos arcanos
Aberta aos olhos dos mortaes absortos;
Eis o electrico fluido pasmoso
De fenomenos mil já causa ignóta;
Do raio a patria se conhece, e teme,
He das nuvens a electrica peleja.
Se trôa, se rebrama o escuro Inferno
Dentro do bojo de Vesuvio, e exhala
O fumo que se expande, e o Ceo nos rouba,
E traz ao dia de repente a noite,
E aquella chamma, que entre estragos tanto,
Chora o Mundo o maior, de Plinio a morte;
Aqui descobre electricismo o Sabio.
Sabios illustres, que mysterios tantos
Descortinar, e conhecer podestes;
Legislador Americano, os évos
Teo nome guardarão; Nollet, teu nome
Da sapiencia nos annaes gravado
Eternamente vivirá; se as artes
Barbaridade, que extermina tudo,
Quizer poupar da aluvião de ultrages,
Que ás leis, á Natureza, e aos Ceos tem feito.
Da multi-forme Boreal Aurora
Mairan, seguindo os calculos de Newton,
Expoz a causa aos seculos ignota.
Da atmosféra solar porção tirada
Por veloz rotação do terreo globo.
Ao ar então se communica espesso,
Que as tristes regiões do Polo abafa.
Tu, de Bérgamo o tymbre, sabio illustre,
Tu, Savióli, que na Lyra d'ouro,
Cantaste os dons de Eráto, os dons d'Urania,
Do Volga, e do Boristhenes ás margens
Foste observar de perto o accezo quadro,
Do Boreal Fenomeno, tu viste
Nos gelos que c'os Ceos quasi confinão
A reflexão dos luminosos raios,
E tantos, taes listões formar nos ares,
Que pelas vastas regiões das sombras,
Ou da morte talvez, suprem hum dia.
Das Artes no progresso a gloria vejo
Da indagadora Chimica, que tanto
Da Europa pelos angulos se acclama
(Com tanto ardor, que enthusiasmo he, certo!)
Interpetre fiel se diz da vasta,
Té agora occulta Natureza toda.
Já de antigos delirios despojada,
Se ella analyza os simplices, não busca,
Lisongeando sordida avareza,
As pedras converter, (que insania!) em ouro!
Té mãos Imperiaes viste, ó Florença,
Depondo o sceptro, tactear cadinhos,
Tanto o prestigio de tal arte póde!
Mas se delles a Purpura não foge,
Fogem por certo as Musas d'espantadas:
Nega-se a Lyra a barbaros, e escuros
Termos, que jurão sanguinosa guerra
Do metro Luso á mágica harmonia.
Morre-me a chamma, que me ferve n'alma,
Se hydrogenio, se azóte, ou se oxigenio,
Ousados vem barbarizar meus versos.
Não te negão porém lugar, nem gloria,
Lavoisier illustre, que hum momento
Inda pediste ao barbaro Tyranno,
Da vida, ai dor! que despiedado córta,
Em que inda mais á Natureza abrisses,
Nunca de todo, o sanctuario, aberto!
Mas hum Tigre quer sangue, e não sciencia;
Tu não choras a vida, a perda choras,
De huma verdade, que comtigo em sombra
Perpetuamente no sepulcro he posta.
Nem do globo as reconditas entranhas
Da vista ao sabio indagador se occultão;
Tal he o Imperio do brilhante facho,
Que Newton accendeu! Henckel, Bomare
Então das minas pela tréva espessa
Perdem de vista o Sol, da vista o dia,
E á debil luz de palida lanterna
O profundo vão ver Laboratorio,
Em que os metaes prepara a Natureza:
Dos homens os quiz pôr, tão longe, e longe!
Vio que do ferro só, não curvo arado,
Mas liza espada fabricar devião,
E do bronze os canhões, que o raio imitão,
A tanta assolação chamando gloria.
Mais o ouro escondeu no abysmo, e sombra,
Devendo ser do mérito a corôa,
Quasi sempre he do crime o premio, e causa.
Mas eu duros metaes deixo nas sombras:
Distem pouco do Inferno, eu busco o quadro,
Que em sua face a Natureza mostra.
Estudo immenso, dos mortaes só digno,
Perenne fonte das sciencias todas,
Das mesmas Artes mãi que estende o Imperio
Por quanto abraça o ar, a terra, os mares
Desde o vasto Elefante, á vaga, e bella
Borboleta gentil, que beija as flores:
Da gigantesca, ou colossal Balêa
Ao pequenino lucido testaceo,
Que, igual ao grão de arêa, á vista foge:
Desde o cedro soberbo, á relva humilde,
Que os gados tózão, que tapiza os prados.
Estudo liberal, que engenho humano
Descobre vasto, interminavel campo,
Que o orgulho scientifico confunde
Com tanto, vario, e differente objecto,
Que imperceptiveis relações conservão;
Quaes anneis entre si ligados sempre,
Interminavel a cadêa formão,
Que prende, e tem principio em Ser Eterno.
Tão vasto estudo, glorioso, e bello,
Tanto mais se cultiva, e mais florece,
Quanto é menos pezada, e menos densa
Nuvem que assombra o social estado
De Antiquario pedante, ou Vate inerte,
Vadio adorador d'alta belleza,
Cuja vida he desprezo, a morte he fome:
De hebdomadal efémera caterva,
Que do nada surgio, e ao nada torna
Depois que o povo no momento d'ocio
Escarneceo profeticas promessas.
Estudo augusto, que propaga e cresce
Onde menos o estólido Forense,
E impertinente Puritano existe,
Rico de frases só, de cousas pobre;
Onde menos a enfática Impostura
Precursora da morte, a morte apressa;
E o Quinhentista moedor, mysterios
Nos parece mostrar, se mudo, e triste
Pulverulento códice idolátra,
Que he rico só de antiguidade, e traça.
De insectos taes em ti não viste a praga,
Aviltada Germania, ah! quando ao Mundo
O grande author das mónadas off'rece
A Prothogea. Nem Britannia a sente
Quando Johnston, Derrham, e hum Lister dava.
Nem com elles, Italia, então gemeste
Quando dava a Botanica Zanoni:
Quando hum Morgagni teu, quando hum Borelli,
Nos penetraes da Natureza entravão:
Equando Valisnéri a expunha toda;
Já limpa, e livre de pedantes eras,
Quando a tócha accendia Spalanzani,
E arranca de seu seio altos arcanos,
Quaes desde o grande Peripáto os evos,
Nunca atélli descortinar podérão.
Nem Gallia (agora escrava em sangue, e ferros,
Qual de Piratas viz n'Africa Emporio,
Que o mar Tirreno co'as Galés infesta;)
E de rapina, e violencia existe,
De Novellistas oppremida estava
Quando o grande Buffon n'hum quadro immenso
A Natureza á Natureza mostra.
Se a tempestade das Novellas surge,
Se os Jornaes a si mesmo, e os homens matão,
Se a militar, politica mania
Começa de deixar tão ermo o Globo,
He pastor Daubenton, Sonnini expira
(Inda feliz que ao cadafalso escapa)
Do esquecimento, e da penuria em braços.
Da Natureza não prospéra o estudo,
Nem se conhece hum Newton, se estes vermes
Da sciencia os alcaçares maculão:
Nunca do Tejo ás margens se aproximem,
Terá throno a sciencia, as Artes preço:
Lusitania terá Buffons, e Plinios;
E Vates, que estudando a Natureza,
Saibão dar justo emprego ao dom das Musas,
Se tem tal nome, o ingenito talento,
Que alta facundia a numeros sugeita,
Que em grande tudo vê, que imagens falla,
E que, a razão ligando á fantazia,
Dá força, dá calor, dá vida a tudo.
Mas de tristeza hum véo me envolve, e fecha
Tudo o que palpo, e que diviso, he sombra!
Della vejo romper Fantasma horrendo;
Ao rosto atroz, ás Sanguinosas vestes
Eu conheci, (que dor!) Barbaridade!
De Omar a ferrea Simitarra empunha,
Na esquerda, e negra mão fulgura a tócha,
E se me antolha já q' hum vasto incendio
Das Artes o deposito consume:
Que já são pasto da estridente chamma
Das Musas todas as vigilias doutas!
Nem teu mesmo volume escapa, ó Newton.
Oh perda!... Oh Albion, manda os teus raios
Elles podem vedar barbaro incendio.
Corre, e na Hespanha pulveriza os monstros,
Que onde quer que do corpo a sombra espalhão,
Turva se o ar, se esteriliza a terra,
Da vida, e da sciencia amor expira.
Em quanto além do Vistula rompendo
D'honra, e valor o sufocado incendio
Desfeicha o raio, que talvez da Europa
De huma vez para sempre a injuria vingue.
Então do cáhos recuando o Imperio,
Hum dia assomará que traga ao Mundo
A luz que a Grecia vio, quando na escóla
O Genio de Estagira absorta ouvia;
Quando acceso Demosthenes da boca
D'aurea elequencia as ondas entornava,
E além das nuvens Pindaro subia;
A luz já vista fulgurar em Roma
Quando Augusto a seu lado assenta Horacio,
Ou Tullio a dubia liberdade escóra:
Qual seculos depois raiou mais clara
Do Decimo Leão no Imperio eximio,
Quando o Segundo Julio ás Artes abre
O Templo, que até alli fechara o Godo:
A luz que a França mais ditosa vira
Do tão Grande Luiz brilhar nos dias.
Então dos Ceos descendo a Paz serena,
Da porficua Oliveira ao lado os Louros
Fará brotar, reverdecer, c'roar-se
Com sua rama a magestosa frente
Do profundo Filosofo, e do Vate.
Fim do IV. e ultimo Canto.