WeRead Powered by ReaderPub
Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 06 (de 12) cover

Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 06 (de 12)

Chapter 14: DECLARAÇÃO
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

This work presents a collection of letters and historical accounts related to the House of Braganza, focusing on the lineage and significance of the ducal family in Portugal. It explores themes of loyalty, honor, and the responsibilities associated with nobility, as well as the socio-political context of the time. The correspondence includes reflections on the past and the legacy of notable ancestors, emphasizing the importance of maintaining the integrity and reputation of the royal lineage. Through these narratives, the text provides insights into the dynamics of power, heritage, and the societal roles of various craftspeople in relation to the nobility.

..................................... Pomona e Flora
Seus dons vem pelos campos espalhando,
Cantando espalha Fauno a voz sonóra.

Fazem doce harmonia os arvoredos
Que o vento bole, e as aguas derivadas
Das asperas entranhas dos penedos.

As aves umas d'outras namoradas
Enchem de saudosa queixa o monte
N'um desconcerto alegre concertadas.

Boninas varias vai regando a fonte
Que convida, correndo manso e manso,
O rouxinol, que suas maguas conte.

A qualquer parte, pois, que os olhos lanço
Materia me offerece de alegria
Tudo quanto co'a vista alegre alcanço.

Etc., etc.

E, ao mesmo tempo, vou aconchegando os pés do varandim do fogão, e fazendo-me um estio interior de café de Moka.

N'esta situação, deixa-se a natureza aos naturalistas; e a gente, que vem ao campo em cata de brisas olorosas, não sahe de casa, e lê sempre, a fim de desviar a tentação ao suicidio inglez, que é a congestão fulminante do tædium vitæ.

Tenho, pois, seis livros de escriptores brazileiros, a quem devo a fineza de m'os enviarem a esta região de getas.

Os Idyllios do snr. doutor Caetano Felgueiras. As Tetèyas, em prosa do mesmo poeta. Os Apontamentos de viagem do snr. J. C. da Gama e Abreu (1.º tomo). O Pantheon maranhense (1.º tomo). Sciencias e letras. Apontamentos para a historia dos jesuitas no brazil (1.º tomo). As tres ultimas obras são do mesmo author, o snr. dr. Antonio Henriques Leal.

Ha annos que o snr. Felgueiras me enviou a sua Epistola a Machado de Assis. Era a revelação de um espirito antigo no affecto ás maviosas cousas do campo. Versos que recendem o tomilho e a madre-silva. Desenhos correctos da corporatura gigante das arvores americanas. Rumorejos dos meandros que serpejam na tige das boninas. O estridor das cascatas que ruem estrepitosas. A suavidade dos jardins. O verde das arvores, e os pomos a lourejal-as. E, depois, o espirito da alegria no sorriso da paz a colher as bençãos que Deus cruza por sobre as almas modestas que se alam até Elle, desde o estrado de seus pés, desde as magnificencias da terra até aos estrellados silencios do céo. Esta formosa poesia vem entre os Idyllios, que se lhes irmanam na alteza do pensamento e no primor da phrase.

Não me agradam por igual as suas prosas (Tetèyas). Sobram ahi arabescos de linguagem: muito rendilhado, muita filagrana, que enreda a idéa, e accusa o escopo muito moroso de Cellini. Sei que o snr. J. de Alencar tem dado o exemplo d'este esmerilhar da phrase, que, a meia volta, se desaira no amaneirado. Isto não é pobreza da lingua: é um luxo vicioso da abundancia. Augmentemos, porém, quanto ser possa o concurso dos que nos percebam, e imaginemos sempre que até os mais cultos nos agradecem a simplicidade de Luiz de Sousa, o nitido puritanismo dos Castilhos, e a correcção chã, sem plebeismo, de Teixeira de Vasconcellos.

Os Apontamentos de viagem do snr. Gama e Abreu é um livro muito bem escripto, com resaltos de humorismo discreto, graça anecdotica a interpôr-se nos usuaes fastios das descripções de viagens; apreciações de Portugal na maior parte benevolas, e, por excepção, reparaveis; a França e as suas recentes desventuras atiladamente compendiadas em poucas paginas, que se revalidam com bem cabidas noticias historicas. É um livro de cunho moderno, com o superior quilate da despretenção, sem desvanecimento, por onde se nos antolha optima lição, bom discernimento, critica despreoccupada, lhaneza de apreciação, e excellentes predicamentos de espirito. Os subsequentes volumes hão de corresponder ao titulo que amplia as viagens desde o Amazonas ao Sena, Nilo, Bosphoro e Danubio.

O Pantheon maranhense, do snr. dr. Henriques Leal, como do titulo se transluz, é um selecto feixe de biographias de homens, que se illustraram no Maranhão, por prendas da intelligencia. Este livro é tanto mais de estimar entre portuguezes quanto nós andamos arredados da convivencia de escriptores brasileiros. O snr. Leal, que reside em Lisboa, ha annos, é o escriptor a quem os seus conterraneos mais devem no pregão incessante das eminencias intellectuaes do Brazil. É vêr o esplendido, e, ainda mal, que incompleto, vestibulo que elle erigiu como entrada para as obras completas de Gonçalves Dias, o portentoso poeta, o prosador inviolavel na pureza da dicção.

Larga resenha da litteratura brazileira nos dá o snr. Leal no seu livro intitulado Locubrações. Ahi se queixa judiciosamente das graves iniquidades com que alguns syndicos, sem legitima alçada na critica, desdenham dos escriptores brazileiros, não lhes sabendo sequer o nome de baptismo. Que quer o illustre escriptor? A necedade impa de petulancia. A barateza dos prelos, a profusão dos periodicos e a mingua de escriptores escorreitos abriram praça a todo o adventicio, tanto monta que elle proceda das covas de Salamanca como do café da Aurea. Gonçalves Dias, apoucado pela ignara bitola de um zoilo vêsgo, tem dous monumentos: um de marmore na sua patria, outro nos livros que são d'ella, que são nossos, que os temos na memoria do coração desde a mocidade. Mas a nossa mocidade era tão amoravel com os seus contemporaneos, quanto respeitosa com os antepassados. Nós não ousariamos descrêr dos mestres, e desacatar-lhes as cãs aureoladas sem que o longo estudo, sem que a consciencia nos désse a intima certeza de que não eramos tão nescios e tão ignorantes quanto hoje se faz mister para abrir barraca de mordacidades, mascaradas em critica.

Derivemos d'este mau trilho para as placidas e serenas regiões do livro chamado Apontamentos para a historia dos jesuitas no Brazil.

N'este complexo de rapidas biographias, narrativas, e, esclarecida analyse das chronicas da companhia de Jesus, e onde a fórma, a execução e o castiço da linguagem se aprimoram mais, de envolta com a riqueza das noticias históricas. É trabalho de mão experimentada, de consulta detençosa, e juizo muito attento. Quando o tomo 2.º me vier satisfazer o desejo de o lêr, formarei mais dilatado e completo conceito d'esta importante publicação do abalizado escriptor.


ÁCERCA DE JOAQUIM 2.º

(RESPOSTA A UMA CARTA)

 

A carta, a que respondo, veio do Porto. E o periodo respondido reza assim:

.....Asseveram-me que o teu Plutarco, annunciado na Actualidade, é o Joaquim de Vasconcellos, que tem batido á porta dos teus antigos inimigos, pedindo factos e calumnias para urdir a tua biographia. Se isto é tão verdade como é verdadeira a pessoa que m'o afiançou, prepara-te para desprezar a affronta, e veste arnez de aço que rebata o ferro do couce. Alguem lhe perguntou que motivo teve para te provocar; respondeu que apenas te conhecia de vista; eu, porém, se a memoria me não falha já te ouvi dizer que este Joaquim de Vasconcellos foi teu hospede em S. Miguel de Seide, etc.

RESPOSTA

 

Tens boa memoria. Joaquim de Vasconcellos foi meu hospede em S. Miguel de Seide; mas procedeu honradamente, e logo te direi a razão que tenho para te affirmar que se houve briosamente na hospedagem que lhe dei.

Foi assim o grão caso. Um dia, no anno do 1870, me escreveu de Guimarães o maestro Francisco de Sá Noronha, prevenindo-me que viria a S. Miguel de Seide apresentar-me um seu amigo de grande talento, notavel theorista musical, educado em Allemanha, e litterato de muitas esperanças. Alvoroçou-me a noticia, tanto pela visita do celebre violinista, como pela apresentação de um moço prendado das bellas cousas do coração e do espirito, que todas brotam de seu onde o amor das amenidades litterarias e das deleitações da harmonia lhes aquece os germens.

Em uma alegre manhã de julho chegaram os snrs. Noronha, e Vasconcellos a esta casinha, á volta da qual os sylphos da poesia borboleteam, desde que o visconde de Castilho e Thomaz Ribeiro por aqui estiveram.

Recebi o snr. Joaquim de Vasconcellos com quanta cordealidade e lhaneza cabia nas minhas posses de aldeão. Dei-lhe o lugar de honra na minha mesa. Ouvi-lhe attenciosamente por espaço de dez horas as suas idéas republicanas, sem lh'as impugnar, e as suas theorias sobre musica sem lh'as perceber, e os seus dislates em litteratura sem lh'os contrariar.

Ao cahir da tarde, o snr. Vasconcellos, que não podia demorar-se, fez-me o obsequio de aceitar o meu cavallo, que teve a honra de o levar á estrada do Porto. Ao despedir-se de mim, o meu affavel hospede abraçou-me com effusão de vehementissimo jubilo por me haver conhecido e devido alegres horas tão rapidamente passadas.

Devolveu-se um anno, sem que eu tornasse a vêr o snr. Vasconcellos; não obstante, a imagem d'este cavalheiro, uma vez por outra, acudia ás minhas reminiscencias d'aquelle dia tão litterario, tão cheio de palavras, de systemas, em fim, de mutuas promessas, que me faziam esperar d'aquelle moço alguma cousa menos cruel que um inimigo.

Eis que o snr. Vasconcellos dá á luz um livro de critica á versão do Fausto, pelo snr. visconde de Castilho; e, ainda antes de o lêr, já eu sabia que o meu hospede tão graciosamente recebido, me insultava como escriptor e como homem, enxovalhando-me com vilipendiosas aleivosias, como se não bastasse ao seu injusto rancor malsinar-me de ignorante.

Aqui tens, meu caro amigo, repetido o assignalado successo do advento do snr. Vasconcellos a esta quinta de Seide.

Como elle está escrevendo os escandalos da minha vida, que naturalmente veio espionar quando cá entrou, bom seria que elle dissesse que ca tenho grandes infamias na minha historia lendaria, e uma das mais graúdas foi recebel-o em minha casa.

Falta-me explicar-te onde está o procedimento honroso do snr. Vasconcellos na hospedagem que lhe dei. Está no seguinte: quando elle sahiu da minha mesa, contaram-se as colheres de prata, e não faltava nenhuma! Honra lhe seja!

Teu do coração,

 

Etc.

---------

 

P. S. Se o snr. Joaquim de Vasconcellos, depois da publicação d'esta carta, entender que me deve pagar o aluguer da cavalgadura, o almoço e o jantar, authoriso a thesoureira das Velhas do Camarão a receber a importancia, e passar recibo.


ESTUPIDO E INFAME

ACTUALIDADE)

 

Alguns rapazes sem habilidade, nem estudo que lhes supprisse a incapacidade do engenho, appareceram ahi a pinchar na vaza das letras como sapos de lameiro em tarde trovejada de julho. O mais sapo nas verdes podridões, consoante o phrasear colorido do snr. Guerra Junqueiro, é este marau da Actualidade.

Veio de Lisboa assoldadado para a imprensa do Porto, em serviço de um ignobil aventureiro. Pôz o seu pulso á disposição do estomago, e aviltou a probidade de homem no começo da vida publica, prestando-se a dar vaias,--piadas no calão fadista do birbante que o estipendía--a pessoas que pareciam respeital-o com o seu desprezo silencioso.

Fui eu, desde muito, insultado em livros e folhetos por este gandaieiro da vadiagem lisboeta. Perguntei um dia quem era o enxovêdo, e que razões lhe teria eu dado para não perder lanço de me offender. Responderam-me que era um dos Báthylos do Joaquim Theophilo; e que um dia, o sordido Anachreonte, que poetára amores de Gomorrha na Visão dos tempos, desembuçára-se da mascarrada chlamyde, e dera á luz este safado pinto que sahiu grôlo do ovo.

Já sabem d'onde elle vem.

Disseram-me, outro sim, que um escriptor brioso, chamado Santos Nazareth, jogára com elle a bilharda nas pontas das botas em pleno café-Martinho; de modo que nenhuma pessoa medianamente briosa póde hoje roçar-lhe na cara a palma de uma luva. A parte, portanto, que porvindouramente me houvesse de caber em despiques de pundonor, essa--aviso á Actualidade--pertence á alçada do meu gallego.

Não sei se o publico portuense tem reparado que os seus bons escriptores ou morrem ou fogem. O visconde de Benalcanfor, Ricardo Guimarães, aquelle florido talento que disputou a Lopes de Mendonça as galanterias do folhetim;--Ramalho Ortigão, o prosador elegantissimo, o fidalgo da graça senhoril, a revelação mais assignalada que ainda tivemos do espirito francez;--Alberto Pimentel, a quem se estão desentranhando em fino ouro os minerios mais copiosos da vernaculidade; Sousa Viterbo, dulcissimo poeta e prosador correcto, estes, que seriam para o Porto bastantes padrões de sua litteratura, passaram para Lisboa;--e Silva Pinto, a escoria da cainçada litterateira de Lisboa, baldeou-se no Porto.

É sorte funesta!

Entra o homem na fiscalisação de uma sentina jornalistica; e, apenas me vê a sombra na pagina de um livro, insulta-me. Lanço mão do ferro, carmeio-lhe parte da lã, almofaço-lhe a carepa, e deixo-o. O leitor das Noites bem viu. Mostrei ao insolente que não sabia portuguez nem francez; que não estava na plana dos criticos; que a sua ignorancia, com alguma modestia, poderia grangear a caridade publica; emfim, este sentimento da compaixão ia manietar-me, quando elle, sacudindo o aziar, volveu a espojar-se-me na testada da casa.

O desgraçado resvalou á ignominia. Como não teve que redarguir contra as lagantadas litterarias que lhe verberei á ignorancia, ameaça-me com devassar os actos da minha vida particular. São-lhe franqueados os umbraes da minha vida. Póde entrar o infame.

Ahi está o homem que denigre e deshonra as pugnas litterarias. Estrangulado pela critica severa, resfolegará ainda pela vilta da calumnia.

Veja-se o n.º 94 da Actualidade.

Ao mesmo passo (leia trote) que me insulta, espolia-me o ratoneiro. Cotejemos, e veja-se que até lhe escasseia o brio para se desforçar com palavras de lavra sua. Em um folhetim meu, intitulado a Corôa de ouro, publicado em 1872, escrevêra eu as seguintes linhas:... Uns taes cujo nome infame ha de sobreviver ás producções gafadas, e cuja probidade é tão sómente a necessaria para não serem enforcados, como dizia Molière... Os magarefes da carne putrida que lhes sobeja nas alcovas... E vai elle, o escroc litterario, com pouca alteração, como o leitor ahi viu, faz suas, assignalando-as em grypho para lhes imprimir energia, essas mesmas phrases.

Este bargante, se um dia vier a ganhar a vida esfaqueando a gente, rouba primeiro a navalha á victima. Lacénaire foi muito mais intelligente e honrado: era melhor escriptor, e comprava as facas com que escrevia as suas locaes no redenho do proximo. E Pasquino, quando injuriava, era com palavras proprias.

Supponhamos, porém, que o traste é originalmente insultador. Que motivos lhe dei para o insulto? Dissera-lhe eu que elle estupidamente chamára trilogia a tres comicos. E defendeu-se elle d'essa arguição, que era o ponto da contenda?

Veja o leitor a defeza. Primeiramente attribue a erro do typographo a bestidade. Que villão! Se o artista, que lhe compôz o artigo, tivesse bastante dignidade ou independencia, devia desfazer-lhe o original na cara. Eu de mim creio que na officina da Actualidade não ha typographo tão soez como o gamenho que a redige.

Depois (veja o leitor a meio da columna) nega que houvesse escripto a noticia como eu a interpretára. E escreve que eu alludira ao seguinte periodo de uma local do seu n.º 28: Estão em scena Robespierre, Marat e Danton, a trilogia collossal (com tres ll.--Nem orthographia!)

E acrescenta:

O chapado ignorante que só serve para fabricar descomposturas, não percebeu o porquê da trilogia applicada aos tres nomes que representam tres quadros distinctos da tragedia da Revolução.»

Nega, pois, que chamasse trilogia aos tres artistas; e o leitor mais ou menos desmemoriado, ou indeciso a respeito da lealdade da minha critica, fica talvez imaginando que eu distendêra iniquamente as orelhas elasticas da besta, calumniando-a.

Ah! não. Eu vou dar á respeitavel opinião publica o fiel traslado da asneira em litigio.

 

«Actualidade» n.º 51 de 7 de abril de 1874.

 

«Baquet.--Corre que estão escripturados, ou que vão sel-o, n'aquelle theatro os actores Polla e Pinto de Campos, e actriz Maria das Dôres, de Lisboa.

«É uma esplendida acquisição para aquelle theatro a da trilogia que acima fica. Agouramos bellas noites ao publico e á empresa.»

Que faz o leitor depois que leu isto? Vai extrahir da propria noticia uma palavra composta de duas syllabas. É um passatempo que tem seu tanto ou quê de philologico. Procuremos as duas palavras com pachorra, visto que a temos para as charadas novissimas. Eu ponho em versaletes as syllabas quando fôr tempo. Vamos lá: «É uma esplendida acquisição (diz elle) para aquelle theatro a trilogia que acima fica. gouramos etc.» O publico depois de compor a torpissima palavra, entendeu mentalmente, e de si comsigo, que o escriptor previa o que o leitor lhe faria na reputação.

---------

 

Agora, canalha! levanta-te d'ahi, e senta-te n'uma tripeça! Antes que faças da penna faca de sicario, converte-a em sovella.

E tu, divino Apollo, que uma vez escorchaste Marcyas, permitte que eu te deponha nas aras este fétidissimo bode esfolado.


CARTA AO SNR. CONSELHEIRO VIALE

Ill.mo e exc.mo snr.

 

Não sei se v. exc.ª é assignante d'estas Noites de insomnia. A certeza affirmativa ser-me-hia por tanta maneira estimulo de desvanecimento que eu não ouso preluzir-me a hypothese de que v. exc.ª contribue com dous tostões para a minha gloria. Quero antes, absorvendo as fumaças da vaidade, prefigurar-me que v. exc.ª nunca se apoucou até ás futilidades dos meus livros. Na modesta conjectura, pois, de que estes folhetos lhe são menos conhecidos que as lyricas ineditas de Amphião, filho de Jupiter e Antiope, afouto-me até á temeridade de enviar-lhe este n.º 6 das Noites, solicitando da sua cortezia a graça de m'o lêr desde paginas 88 até paginas 94.

O bode que eu ahi offereço a Apollo, á imitação do cultrarius dos sacrificios antigos, chama-se fulano de Silva Pinto, e diz que foi discipulo de v. exc.ª em historia antiga, depois de ter escripto que uma actriz e dous actores eram uma trilogia.

Tenho a honra, exc.mo snr., de trasladar, para escarmento de tão erudito professor, as textuaes palavras d'este seu discipulo, estampadas no n.º 94 da Actualidade: ...Nós merecemos a honra de obter do professor Viale officiaes informações em aula de litteratura antiga.

Realmente, snr. conselheiro, este sujeito foi discipulo de v. exc.ª em historia antiga? No caso affirmativo, deu-lhe v. exc.ª a tal citada honra de o informar officialmente?

É de esperar que v. exc.ª me não responda; todavia ouso pedir-lhe que ao menos se digne indicar-me como devo interpretar o seu silencio; a não querer v. exc.ª antes, em carta confidencial ao seu discipulo, dizer-lhe em grego: χελευω πινειν ao mesmo tempo que eu cá lh'o digo a elle em portuguez.

Ponho á disposição de v. exc.ª a minha ignorancia com as informações officiaes de que sou digno, e a relevante bravura com que entro ao circo qual outro bestiarius (θηριομάχης), a arcar com esta besta-fera que sahiu da escola que v. exc.ª tão vantajosamente rege.

De v. exc.ª

Ill.mo e exc.mo snr. conselheiro Antonio José Viale

devoto humilimo e derreado admirador

Etc.


QUINTA-ESSENCIA DE MALANDRIM

ACTUALIDADE)

Trata-se de Silva Pinto.

Este pifio e latrinario jornaleiro da Actualidade, escreveu, no dia 11, que eu pedira que me apresentassem a Castellar, no theatro.

No dia 16 e 17, publicaram o Commercio do Porto e o Primeiro de Janeiro a seguinte correspondencia:

 

DECLARAÇÃO

Constando ao snr. Camillo Castello Branco que uma local inserta na Actualidade, de 11 do corrente, com a epigraphe--Elle--se refere á entrevista que o referido senhor teve com o snr. Emilio Castellar no theatro do Principe Real, d'esta cidade, na qual se inverte a verdade dos factos, apressamo-nos, como testemunhas presenciaes, a declarar com toda a imparcialidade como as cousas se passaram.

Achando-nos n'um dos intervallos do espectaculo em companhia do snr. Camillo Castello Branco, junto á varanda que separa a orchestra da plateia, appareceu alli o snr. D. Marcos Arguelles a convidar o snr. Camillo para uma entrevista com o notavel orador, o snr. Castellar. O snr. Camillo, depois de agradecer as attenções do snr. D. Marcos, pediu-lhe escusa, apresentando para isso algumas razões muito dignas e a circumstancia de não estar n'aquelle momento com um vestuario proprio para uma tal apresentação. O snr. D. Marcos continuou, porém, a insistir e, como o snr. Camillo persistisse na sua recusa, disse-lhe por ultimo que, se era preciso, ia chamar o consul hespanhol para o convidar, e que o snr. Castellar já estava no salão á sua espera para o comprimentar. Foi então que o snr. Camillo se resolveu a aceitar o convite do snr. D. Marcos.

Eis aqui a narração fiel de tudo quanto alli se passou, com relação a este facto e que está em completa contradicção com a local da Actualidade, se com effeito o que n'ella se affirma, se refere ao snr. Camillo Castello Branco.

 

Porto, 15 de junho de 1874.

João Pereira d'Albuquerque.

Antonio Nicolau d'Almeida Junior.

Ahi fica o perfil do mariola, e a torpe vida que se vive n'aquella gazeta.

No dia seguinte, a Actualidade injuriava a probidade d'essas duas assignaturas que me honraram com o seu testemunho.


Já ouvi dizer a certas pessoas incautas que este Silva era um bom rapazinho, forçado pela fome a rabiscar diffamações.

Não póde ter bondade quem, de animo frio, divulga aleivosias: o mais que póde ter é fome.

Desista o snr. Silva de trocar calumnias por meios-bifes, que eu lhe prometto obter-lhe entrada no asylo dos Garotos desamparados; e, desde já, escrevo ao snr. David, da rua de Santo Antonio, para que o vista de novo; e, pois que a sua hyndiocrasia é o couce, recommendarei que lhe deixe bem folgada a retranca.

 

FIM DO 6.º NUMERO