OS SALÕES
CAPITULO III
VOX POPULI
A definição mais exacta da democracia é chamar-lhe o reinado da justiça.
. . .
Il n'y a que deux choses qui puissent sauver la société: la justice, et la lumière.
BASTIAT.
O papel do veterano e operário dizia assim:
«O que é a democracia?
«É o governo do povo pelo povo--é a omnipotencia soberana de toda a nação--é o predominio do poder popular em qualquer governo.
«Quanto mais um estado social se aproxima do ideal da justiça, tanto mais se confundem os interesses particulares com os interesses publicos.
«A democracia é, entre todas as fórmas de governo, a que melhor corresponde ás exigencias da verdadeira justiça social.
«Mas não nos illudamos. Estudemos-lhe os perigos, e evitemos-lhe os inconvenientes. Para que um paiz verdadeiramente democratico possa crescer, engrandecer-se e prosperar, carece de certas e determinadas condições. A democracia nunca surgiu, nem se manifestou na infancia das sociedades.
«Pelo contrario--a democracia exige uma civilisação largamente desenvolvida, a completa ausencia das classes privilegiadas, a exclusão absoluta da nobreza hereditaria, uma certa homogeneidade nas populações, uma grande diffusão de luz--pela instrucção--, o desejo real da paz interna, e externa, e a intelligencia, e o trabalho, como unicas fontes da riqueza, da prosperidade, e da consideração publica. São os perigos, e a morte inevitavel da democracia os privilegios das castas, o espirito de conquista, a ignorancia, a ociosidade, e a falta de educação em todos os ramos, e nas diversas aptidões de todos os homens, que compõe uma nação.
«Os erros, e os vicios que sepultaram as republicas da antiguidade servem-nos de luzeiro, e são o pharol, para nos indicarem as condições em que a humanidade deve viver, nos rasgados horisontes do futuro.
«Não se illudam com a Roma pagã. Nunca conheceu a democracia--nem nas preconisadas fórmas tribunicias da republica, nem nas grandezas, e no fastigio do imperio.
«As republicas podem ser, e algumas d'ellas teem sido, excessivamente aristocraticas.
«A democracia não pôde nunca eslabelecer-se em Roma, por diversas e ponderosissimas causas.
«De passagem mencionaremos algumas d'ellas.
«Durante cinco seculos, foi o governo de Roma a guerra declarada ou latente, entre dous corpos sociaes inimigos. Era o antagonismo das classes, era o espirito de conquista, era a falta de homogeneidade nas populações, era a variedade de crenças, era a hedionda e asquerosa ociosidade das massas, era a escravidão, repugnante e execranda, decretada na lei, era a ignorancia do povo, que o trazia submerso nas trevas espessas da peor das servidões, e que lhe abria abysmos na consciencia. Ora, a desigualdade de cultura intellectual é a agonia lenta da democracia, e a arma mais poderosa da ignobil tyrannia do poder.
«Alumiemos o tugurio do proletario, levemos a luz da instrucção até ao antro mais recondito da desgraça.
«Que as ondas de luz se diffundam, emittidas pelas ultimas classes sociaes. Todos os despotismos fugirão espavoridos, porque são elles, na sua pueril tyrannia e oppressâo teimosa, os escravos das ridiculas e insustentaveis tradições de épocas que passaram.
«Interroguemos o seculo.
«Perguntemos aos democratas: quem sois?
«Somos milhares de familias, menos algumas--a classe media, e a nobreza--que queremos um regimen de igualdade, em que honradamente possamos viver do fructo do nosso suor, sem olhar com inveja nem despeito para o patrimonio de ninguem. Vós, as classes privilegiadas, vós, que vos dizeis distinctos pela casta, pela raça, pelos nomes que sabeis de vossos avós, tendes arvores genealogicas, e apresentaes-nos pergaminhos carcomidos pelos seculos.
«Nascemos nós hontem por acaso?
«Vimos de tão longe como vós. Dizeis-vos catholicos por excellencia--pois estudai, no genesis biblico da vossa crença, a origem de todos nós. Os nossos brazões não datam de nenhum salteador afamado, que responderia hoje, se existisse, em audiencia criminal, e soffreria, pelos seus feitos e façanhas, a pena de prisão cellular ou de degredo para os climas africanos. Os nossos titulos de nobreza não os devemos a complacencias cortezãs, nem á officiosidade torpe e obscena de alguns avoengos, derreados junto dos thronos, a levar da ante-camara para a alcova as Messalinas, Pompadours e Dubarrys, que não sabiam, nem sabem resistir á lascivia e impudicicia dos reis. Não foi nos prostibulos, nem nas encruzilhadas, que calçaram os nossos avós as suas esporas de ouro. Cingiram elles, com mais lustre e gloria, a espada de cavalleiros. Vem de mais longe os nossos brazões, e estão gravados, por fórma indelevel, na superficie do globo.
«Quereis vêl-os? Examinai-os. Os titulos nobiliarchicos, que possuimos, datam do primeiro homem, que cavou o solo, que accendeu o fogo, que descobriu e bateu o ferro, que sulcou a terra com a relha do arado, que desenterrou e fundiu metaes, e que devassou, no primeiro fragil lenho, as vastas solidões do oceano.
«Fomos nós que metamorphoseamos este globo, triste, arido e deserto, n'um paraiso esplendido e animado. Creamol-o segunda vez, para cumprir a palavra de Deus, que nol-o deu para este fim: ut operaretur eum.
«Se os céos celebram a gloria do Eterno, se, como clamava o psalmista, o firmamento annuncia e proclama as obras do Senhor, a terra--que é a nossa obra--narra a nossa propria gloria.
«Fomos nós que lhe fendemos a crusta, que a semeamos, cultivamos, aformoseamos, cobrimos de monumentos, que, como perolas desenfiadas, rolaram pela vastidão das campinas, e que lhe demos, como cinto da sua propria formosura, essa rede infinda de estradas e canaes, que se cruzam, e estendem por toda a amplidão da esphera terrestre. Fomos nós que descemos ao centro das suas entranhas, para lhe extorquir os seus inapreciaveis, e inexhauriveis thesouros. Não ha flôr, que desabroche nos campos, não ha espiga, que se erga robusta, em toda a vastidão da cultivada leziria, não ha fio de linho, nem de algodão, nem de sêda, não ha lamina de ferro, de ouro, ou de platina, não ha pedaço de pedra, prancha de madeira, capitel de columna ou mastro de navio, que não conserve o cunho das nossas mãos, e o perfume do nosso amor. Sim, o perfume do nosso amor--porque o trabalho é a oração--e o perfume do nosso amor é o incenso e a myrrha, que acompanham as nossas offerendas ao Eterno.
«Subi da galeria subterranea das minas até á cupula das sumptuosas basilicas, e das calhedraes mais augustas e imponentes, sahi das elegantes capitaes da civilisação moderna e devassai as praias selvagens mais longinquas, encontrareis, em toda a parte, os passos dos filhos do povo: a democracia.
«Somos o lavrador, que prende os bois ao arado, e que sulca a terra laboriosamente--o nosso insaciavel e inesgotavel thesouro. Somos o segador, que ceifa o trigo, nas ardentes, e afflictivas calmas do estio; o robusto ceifeiro, que corta, nos prados, esmaltados de papoulas e boninas, o alimento constante dos rebanhos; o vinhateiro, que poda, empa, e cava a vinha; o navegante, que se afadiga em transportar os artefactos da creação humana; e o commerciante, que leva e faz circular em todas as zonas habitadas--como o sangue nas arterias--os succos da terra, e os productos das mais variadas industrias.
«Nós somos o operario curvado sobre o tear, o mineiro, que vive soterrado, e arranca das entranhas da terra o carvão, que alimenta a machina, multiplicando os productos; o ferreiro, que forja e bate o ferro; o carpinteiro, que aperfeiçoa e adelgaça a viga; o pedreiro, que abre os caboucos, e levanta os muros do edificio; a fiandeira, que estende na roca a estriga de linho; o tecelão, que faz o panno, transformado em enxoval da familia; o soldado, que vela nos limites sagrados do solo da patria; e o marinheiro, que atravessa os mares, levando bem alto o pavilhão, que é o emblema d'um povo, e o estandarte sacrosanto do seu paiz.
«Nós somos tudo. O nosso nome é legião.
«Somos nós, que nutrimos, vestimos, e abrigamos a humanidade, e que lhe damos a paz, a abundancia, o repouso moral, e a tranquillidade publica. As artes, que alindam, e encantam a vida, as letras, que robustecem, desenvolvem, e fortificam a alma, as sciencias, que a illuminam, e esclarecem, somos nós, que as cultivamos, que as honramos, e desenvolvemos. Quaudo fallamos, quando reivindicamos os nossos direitos é sempre pela voz dos nossos apostolos.
«Temos tido guerreiros para vencerem, poetas para cantarem as nossas fadigas, e as alegrias modestas do nosso lar, e artistas para commemorarem os nossos heroismos no trabalho, e esculpirem, no bronze, as imagens dos grandes inventores.
«Temos tido operarios, para crearem machinas maravilhosas, e astronomos para nos narrarem as maravilhas dos céos, devassando os esplendores e magnificencias do universo. As lentes, preparadas por nós, teem-nos feito conhecer, pelo telescopio, os globos luminosos que giram no espaço, e teem descido comnosco, pelo microscopio, aos mundos infinitamente pequenos.
«Os raros talentos d'essas ociosas, e rachiticas aristocracias, d'essas estereis, e inuteis classes privilegiadas, quando lhes estala a ultima corda da lyra, nas tristes estrophes das suas sinistras e tenebrosas lendas de familia, vem sentar-se na lareira do povo, e buscar ahi as harmonias mais sonoras, mais suaves, e mais duradouras--as unicas que hão de achar echo nos seculos do futuro--as lutas incessantes, pelo progresso, em que lida a geração actual. A sua derradeira canção é para o povo: o canto do cysne é o hymno da democracia.
«Nós somos a arvore gigante e immensa da humanidade, com as raizes perdidas nos limbos do passado, com o tronco vigoroso, que resiste aos embates dos tempos, com os festões de flôres que desabrocham, e emmurchecem passando, e com os fructos sazonados do presente, na esperança das odoríferas flôres, que, com o seu calix radiante de vida, hão de perfumar o espaço no futuro.
«Eis-aqui a democracia.
«E quem são os seus adversários junto d'esta frondosa e copada arvore da humanidade?
«São os cogumelos parasitas e venenosos, que vegetam á sombra d'este cedro magestoso e secular.
«Os privilegios e as castas são o absurdo, são a torpeza dos costumes, são o desconhecimento completo do seculo que atrevessamos, são as tristes relíquias das épocas feudaes, são os distinctos das ridículas nobiliarchias byzantinas, são a ignorancia e o odio ao trabalho, são, finalmente, a protecção dada em premio, por feitos e acções, que, as mais das vezes, tem sido um poderoso obstaculo ao progresso, e á civilisação da humanidade.
«As recompensas, as glorificações, e as apotheoses, quando justas, quando bem merecidas, quando conquistadas pela aptidão, pela sciencia, pela arte, pela industria, pela propria virtude ou pelas grandes dedicações, são vitalicias, e passam á posteridade com o nome que se engrandeceu, e vem a historia esculpil-o nos marmores dos seus fastos.
«A democracia, como hereditario, só reconhece um direito, um dever, e uma nobilitação para o homem: é o trabalho.
«É absolutamente necessario que se contem todos os partidarios sinceros e leaes da justiça, e que pela palavra, pelo livro, e pelo exemplo, arrastem os indecisos, e abandonem o restante--os poderosos do dia--aquelles, que não aprendem, nem esquecem nada.
«Attendam a que chegou a hora, em que a menor hesitação, a menor duvida, o menor passo irreflectido, ou a mais timida concessão, podem fazer recuar, para muito longe, o reinado da justiça--o governo do povo pelo povo.
«E povo somos nós todos, que vivemos debaixo do mesmo céo, sujeitos ás mesmas leis, e que exercemos, na sociedade, funcções e misteres diversos, mas igualmente uteis e necessarios.
«Hoje, ha uma só nobilitação: é o trabalho.
«Trabalhemos todos para a revolução nos espiritos--porque concorremos para o advento da verdadeira liberdade, para o governo da justiça social, e para a emancipação da humanidade.
«E assim realisaremos a democracia.»
*
* *
Terminava aqui o papel, escripto pelo ancião, condecorado em Souto-Redondo.
O MANUSCRIPTO DO DESEMBARGADOR
IV
CARTHAGO
Cæturum, censeo Carthaginem esse delendam.
MARCUS PORTIUS CATO.
L'histoire n'est pas seulement un drame, elle est une justice.
LAMARTINE.
A philanthropia ingleza é puramente mercantil, assim como o são todas as suas virtudes, que deixam de o ser logo que se não conformam com os seus interesses.
FREIRE DE CARVALHO.
Na deslumbrante e magnificente descripção da aurora biblica do nosso globo, diz o Genesis, que o Espirito de Deus era levado sobre as aguas: Et Spiritus Dei ferebatur super aquas.
Parece que a magestade divina escolhera este elemento, na sua esplendida grandeza, para encetar a obra da creação.
Seja assim n'este modesto trabalho.
Busquemos os primeiros salões do nosso seculo nas solidões immensas do oceano. E a Carthago moderna, a nobre e fiel alliada de Portugal, á luz sinistra do execrando bombardeamento de Copenhague, em 1807, ao clarão avermelhado dos primeiros foguetes do coronel Congréve, ensaiados no acto da mais atroz e inaudita pirataria, mostrar-nos-ha o Bellérophon, o Windsor Castle, e o Belfast, tres salões em que a fé punica da Grã-Bretanha se expandiu, no seio das ondas, á sombra das suas flammulas, que são a divisa dos bastardos da raça latina.
Ha duas infancias na vida: a juvenil, e a senil. Perdoem ao homem, que já vê a sombra projectada na beira do fosso da sua ultima jazida, estes echos longinquos, que vem ferir-lhe o tympano nas vesperas da sua dissolução physica.
Convém que nos entendamos:
A Carthago na designação latina, a Karkhédôn no vocabulo grego, a Kereth-hadeshot ou em pronunciação dialectica Karth-hadtha, segundo os termos punicos e phenicios, finalmente a cidade nova pela traducção e tradição da capital carthagineza significa, para mim, na actualidade, a futura ruina da rainha dos mares, da soberba, orgulhosa e egoista Albion. E nada mais.
Deixemos passar as correntes historicas.
A analyse verdadeira, justa e consciente d'uma sã e severa critica atira ás faces dos romanos com esse ignominioso epitheto de fé punica, que só a elles cabe na antiguidade das ambições latinas, e no ardiloso espirito dos Machiaveis da Italia, transmittido até ao ultimo papa. E a mais ninguem.
Desde Romulo até Antonelli são vastas as concepções de perfidia, erguidas, a principio, no capitolio, para ficarem mais tarde, como tradição e doutrina, nos salões do vaticano.
Havia um dia em Roma, em que, ao commemorar o supplicio e resurreição de Christo, subia ás sumptuosas varandas da basilica de S. Pedro o escolhido entre os bispos, arremessava o facho do incendio, o emblema do inferno á praça publica, anathematisava os herejes, e invocava sobre elles a colera do Eterno.
Era a fé punica, na singela e curta interpretação de Scipião o Africano.
A igreja catholica, na ingenuidade d'estas crenças ferozes, segue as tradições latinas, e a innocencia virginal de Scyla, de Mario, de Nero, de Constantino, de Alexandre VI, de S. Domingos, e de todos os Simões de Monforte, e de todos os Torquemadas da religião do operario nazareno.
Olhemos para Carthago.
Vejamos o que era a fé punica.
A cidade phenicia assombrava Roma. Dobrava-se, porém, aquella diante do orgulho da cidade de Romulo. Curvava-se submissa a raça semitica na presença do povo indo-europeu. Carthago sujeitára-se á dura condição de não defender os seus direitos, nem a sua propria independencia sem authorisação de Roma. Aproveitou-se Massinissa, principe da Numidia, d'este abjecto e humilissimo pacto, para avassallar o emporio das riquezas d'Africa;--e quando a commissão, enviada pelo senado, voltava ao Lacio, depois de ter fomentado e atiçado a discordia, Catão--no seu odio implacavel, e cego pela torpe e abjecta cubiça, que o movia, terminava constantemente os seus discursos com a celebre phrase, que revelava toda a negrura d'aquella alma: «E de mais é preciso destruir Carthago»--Delenda quoque Carthago.
E quando Carthago, confiando na lealdade romana, entregava e depunha todas as suas armas e machinas de guerra, ficando indefesa, e inerme--agradecia-lh'o com a mais hypocrita e pungente das ironias, o consul Marcio Censorino, dizendo aos carthaginezes: «Louvo-vos pela vossa prompta obediencia em cumprir as ordens do senado. Sabei agora a sua ultima vontade: manda-vos sahir de Carthago porque resolveu destruil-a.»
E mais tarde--ardia dezesete dias a cidade nova dos phenicios, por ordem expressa do senado, e, na voragem e horror do incendio, saqueava a soldadesca infrene as immensas riquezas, que sete seculos alli tinham accumulado.
A fé punica é uma calumnia historica, inventada pelos romanos, cujo odio e ciume, sem repouso nem tregoa, sobreviveram á carnificina mais cruel e hedionda de que rezam as chronicas e lendas da antiguidade.
Aceitemos, pois, Carthago como a imagem do aniquilamento, e da destruição.
Seja a fé punica, na inversão da phrase, o estigma e ferrete da lealdade latina.
A Grã-Bretanha será a Carthago do futuro, como é, na sua machiavelica e perfida politica, a Roma do passado, do presente e do porvir.
Alliança e alliados, na bocca de qualquer governo inglez, diz um escriptor liberal, quando não são palavras enganadoras, são, pelo menos, palavras sem sentido.
Sem sahirmos do seculo XIX, desde o porto da capital da Dinamarca até ás muralhas de Metz e trincheiras de Sédan, são longas e monstruosas as provas da fé britannica, e da lealdade ingleza. Hudson Lowe, o carcereiro do Prometheo moderno--imagem do abutre roendo-lhe as entranhas nos rochedos de Santa Helena, será a ignominia e affronta eternas dos algozes da Irlanda.
Estamos nas amuradas de Bellérophon.
Entremos no convez.
Antes do desenlace final d'esta tragedia antiga, que parece modelada por Sophocles ou Euripides--escrevia Napoleão ao principe regente de Inglaterra a seguinte carta:
«Alteza Real.
«Alvo das facções, que dividem o meu paiz, e da inimizade das grandes potencias da Europa, acabei a minha vida publica, e, á semelhança de Temistocles, venho sentar-me no lar do povo britannico. Abrigo-me á sombra das suas leis, e para isso invoco vossa alteza real, como o mais poderoso, o mais constante, e o mais generoso dos meus inimigos.
«Napoleão.»
Responder com um asylo magnanimo, e grandioso a esta invocação escripta, teria sido para a Inglaterra a mais nobre das vinganças, e a pagina mais magestosa da sua historia.
Irrisoria illusão! A orgulhosa Albion não vive de gloria: vive de dinheiro. Quem deixou mutilar a Polonia, quem escravisou a India, quem fomentou a guerra civil nos Estados-Unidos, quem viu impassivel as desgraças da França, e quem subjuga, pisa, e tortura a Irlanda, escolheu adrede os leopardos, para insignia e emblema heraldico dos seus armazens da city. A Inglaterra é a feira da Ladra da Europa. Seja assim para honra da raça latina, onde não ha filhos espurios dos chatins do Oriente.
Napoleão vestiu aquella farda dos caçadores da velha guarda, como se estivera em Marengo, Austerlitz ou Iena. Entrou com o general Becker, e com os legionarios dedicados da sua heroica Iliada, n'um escaler--ultimo refugio das suas glorias--e subiu para o brigue francez, que ia leval-o á esquadra ingleza. Becker quiz acompanhal-o n'esta via dolorosa. «Não, não, general, bradou-lhe o vencedor de Arcoli, cuidemos da França. Se entrardes commigo no Bellérophon dirão que me entregastes aos inglezes. Não quero que a França soffra a responsabilidade, a suspeita, e nem sequer a apparencia d'uma traição tamanha.
A bordo do Bellérophon estava o commandante Maitlaud, os seus officiaes, e toda a equipagem esperando o vencido de Waterloo. Dias depois entrava na bahia de Plymooth o Bellérophon ás ordens do almirante Keith, que o recebeu com o respeito obrigado com que o visitára a bordo d'um pontão inglez o almirante Hotham.
A Inglaterra aceitou a affronta e o escarneo das potencias alliadas. Disseram-lhe estas no artigo 2.º da sua famosa declaração: «A prisão de Napoleão Bonaparte é confiada especialmente ao governo britannico.»
Foi a Inglaterra o carcere, foi o traidor, e foi o algoz.
Aceitou tres papeis infames.
Entregou á Europa o banido, que lhe vinha pedir refugio e hospitalidade, investiu-se na missão execranda de carcereiro, e gizou, com a sua fertil imaginação, o carcere da aguia da Corsega, o antro onde ia sepultar o genio das batalhas.
Cuspam na memoria, em parte talvez calumniosa, de Judas de Kerioth, no drama sanguento de Jerusalem, e respeitem e curvem-se reverentes diante dos suffetas da Carthago britannica.
Arrancaram-lhe a espada epica das cem batalhas, quando elle, abandonado e indefeso, meditava encostado á proa do seu carcere fluctuante--e foi preciso, que o genro do imperador da Austria, o antigo tenente de Toulon, os encarasse face a face, para que os almirantes da velha Albion estremecessem de vergonha, e corassem de pejo, satisfazendo-se, no seu vil orgulho, com as adagas de Bertrand, Savary, Lallemand, Gourgand, e de todos os outros legionarios d'esta phalange homerica.
Napoleão não sabia chorar. Passou impassivel por sobre quatrocentos mil homens, que juncavam os gelos da Russia. Viu immovel os desastres de Leipsick. Escutou silencioso, em Fontainebleau, o ruido surdo da catastrophe quando o imperio desabava. Afastou-se de Waterloo sereno, implacavel e severo como o destino--e nem uma lagrima deslisava por aquellas faces, assentes n'um busto grego, e que pareciam rasgadas pelo scopo de Phidias, como ornamento do mais vasto craneo, que a Providencia ousou modelar.
Mas rebentou em pranto desfeito, e corriam-lhe as lagrimas como em torrente caudal, ao lêr os pormenores aviltantes da segunda occupação de Paris.
Não era o imperador, não era o general, não era o tenente d'artilheria, não era o corso: era o ultimo dos francezes, se assim querem--que chorava de vergonha e de raiva ao vêr a nobre e formosa terra das Gallias pisada vilmente pelos cossacos do Don, e pelos ignobeis escravos do Czar de todas as Russias.
Virtude, tu não és mais do que um nome!--Estas palavras, attribuidas a Bruto, e que são apenas a citação d'um verso da Medéa de Euripides, vieram reboar em Sédan, e feriram, ainda n'esta geração, as traições, as insidias, e os ardis do segundo imperio, que cahiu a pedaços esphacelado e podre sob as garras da aguia da Prussia.
O almirante Keith recebeu o ultimo protesto de Napoleão. Era o seu testamento de vingança arremessado á posteridade.
Terminava assim:
«Appello para a historia: dirá ella que um inimigo, que durante vinte annos combateu o povo inglez, veio, em liberdade, no seio do seu infortunio, buscar um abrigo á sombra das suas leis--que demonstração mais brilhante podia elle dar da sua estima, e da sua confiança? Mas como respondeu a tanta magnanimidade a Inglaterra? Simulou estender-lhe mão hospitaleira, e quando o segurou nas garras, quando elle se lhe entregou na grandeza da sua boa fé--trahiu-o, e immolou-o.»
O nome do heroe firmava este protesto. Foi com a mão habituada a empunhar a espada da victoria, que o vencedor dos reis, escolhidos por direito divino, escreveu: Napoleão.
Pouco depois, um vaso de guerra, o Northumberland arrostava as vagas do oceano, levando a seu bordo o homem, que fôra o terror do commercio da Inglaterra, e o missionario inconsciente da liberdade europêa.
E no meio d'uns rochedos de granito, na solidão dos mares, na insulação completa de todas as aspirações d'aquella vasta e grandiosa intelligencia, amarravam ao poste da mais tremenda perfidia o homem, que o mundo inteiro acclamára imperador, e a quem a Inglaterra, mesquinha e ridiculamente, nos seus odios e pavores vilissimos, regateava o ave! imperator! que duas gerações lhe votaram, mandando-o appellidar seccamente: o general Bonaparte.
Detesto o heroe, mas choro ao lado do martyr. Curvo-me perante os altos designios da Providencia, que levantou sobre os broqueis da victoria o Attila moderno, o açoute de Deus--e vélo a fronte cheio de horror e de indignação, quando considero este homem feito á imagem do Creador, caminhando sobre cadaveres, na sua sêde insaciavel de conquistas; e por um rasto de sangue humano subia ao throno das monarchias do occidente, depois de perdidas as illusões com que sonhára o imperio da Asia.
Morreu em Santa Helena, no seio dos mares, para além das lutas democraticas da Europa, o mais ambicioso dos conquistadores, e o maior genio d'este seculo.
Alexandre lia Homero. Napoleão meditava os commentarios de Cesar. E Alexandre, Annibal, Scipião, Cesar, Attila, Frederico II, e Carlos XII, são pallidos meteoros, que fulgiram, e passaram diante d'este esplendido luzeiro, d'esta magestade immensa, que, como o astro do dia, tingindo de purpura o firmamento, vai immergir-se lentamente nas vastas solidões do oceano.
Hudson Lowe foi a synthese dos odios selvagens, e das cubiças inexcediveis da nação ingleza.
Por mais que a Inglaterra simule os enthusiasmos d'um povo livre, por mais que apparente respeitos, e affirme sentimentos generosos, e magnanimos--em quanto Santa Helena fôr uma ilha e Hudson Lowe uma verdade historica, temos nós todos, nós--raça latina--o direito, e o dever de lhe atirar ás faces, no soberano desprezo da nossa lealdade, com um nome só:--o nome do Bellérophon.
Este vocabulo é o epitaphio sinistro, lugubre, e affrontoso da generosidade britannica.
VISCONDE D'OUGUELLA.
MANOELINHO DE EVORA
É errada a presumpção historica de que o Manoelinho--pseudonymo grutesco de uma assembléa de revolucionarios--figurasse tão sómente nos decretos expedidos durante o levantamento do povo eborense, acaudilhado por Sezinando Rodrigues e João Barradas, em 1638.
Consigne-se de passagem que eu ainda não vi algum d'esses decretos, nem D. Francisco Manoel de Mello, o mais detençoso historiador dos tumultos de Evora, nos transmittiu traslado de algum.
Representações a Filippe IV, e satyras aos portuguezes infamados de hespanholismo, em fim a gazeta manuscripta, como ella podia clandestinamente correr n'aquelle tempo, começou a circular, em 1635, logo depois, que a duqueza de Mantua chegou a Lisboa.
Entre os manuscriptos relativos á ultima decada do nosso captiveiro, possuo dous. É um assignado por Manoelinho menino, em Evora, aos 29 de agosto de 1637, poucos mezes antes do motim: Uma carta que os meninos de Evora mandaram ao bispo do Porto.
Este bispo era D. Gaspar do Rego, nomeado n'aquella prelazia n'esse mesmo anno, anteriormente bispo de Targa, muito affecto a Filippe IV de Castella, e um dos tenacissimos alvitristas dos impostos sobre a sua patria. O seu biographo padre Agostinho Rebello da Costa (Descripção da cidade do Porto, pag. 83) exalta-lhe as virtudes prelaticias, a termos de o sentar no refeitorio comendo com a sua familia, virtude que todos nós possuimos pouco mais ou menos.
Mas nem essa lhe concediam os detrahidores que se chamavam os Meninos de Evora; e eu não sei o que lhe fariam em 1640, se elle não tivesse morrido em 13 de julho de 1639, fóra da sua diocese em Lisboa, onde o tinham chamado Miguel de Vasconcellos e os outros que se temiam do rugir soturno do vulcão popular.
Vai vêr o leitor pela primeira vez, se me não engano, qual era a prosa do Manoelinho. No proximo numero d'estas Noites, lhe darei amostra das musas acamaradadas com os heroicos revolucionarios de Evora.
Eis a carta:
«Á noticia d'esta cidade chegou, reverendissimo bispo tyranno, ser v. s.ª a origem de que este reino tão catholico padeça oppressões tão insoffriveis, como elle testefica no miseravel estado em que se vê, tomando-vos para executar a mais infame empresa que em nossos tempos vimos, nem de nossos antepassados sabemos;--que até considerada envergonha. Porque, quando a desventura chegasse a tanto, que, como por prophecia, houvesse alguem de tyrannisar a patria, fosse o fidalgo pobre, rico de filhos e falto de rendas; e ainda n'este, depois de satisfeito, cessaria a ambição. Mas um prelado, a quem havia de faltar o tempo para dar graças a Deus de o chegar a ser, e que aos pobres havia de dizer: tribuo vobis pro omnibus quæ retribuis mihi--grão maldade! e com razão podem dizer por vós o que Platão por Dionisio: Vidimus monstrum in natura honimis.
«Que naus vistes entrar n'estes portos? Que frotas vistes vir lá das Indias? Que riquezas n'este pobre reino? E que farturas n'este nosso Alemtejo que, como filho tão mimoso de seus paes, sentiu como de padrasto o pão de vosso alvitre? Mas a verdade, Aquelle que é a mesma verdade, diz no Deuteronomio, cap. 4: Colligite ex vobis viros sapientes, et nobiles. A sciencia em vós é em tudo um retrato natural da de Nero, que aprendeu todas tendo por mestre ao grande Seneca, e foi um dos mais torpes tyrannos do mundo, até chegar a matar sua propria mãi, como vós agora quereis fazer á amada patria; porque em fim, sciencia sem virtude, não vem a ser uma nem outra cousa; mas elle já nenhuma professava, e vós professaes ambas, e não exercitaes alguma. A nobreza conservam os que carecem d'ella, e o dar-lhe nascimento, na benigna clemencia, é para que, convocando os animos, esqueçam a baixeza dos seus progenitores. E vós, pelo contrario, querereis dar vida ás de Antonio Fernandes, vosso pai, e de Anna Antonia, sua mulher... Os extremos todos são maus. Temos rei catholico, não o façaes tyranno; é principe benevolo, não o façaes cruel. Deixai Portugal ser pobre já que vos deixou ser bispo. Não vêdes que por Targa ser de herejes, vos fizeram do Porto? e que por o Porto não querer, vos faziam de Coimbra? As cidades são como os parentes; corre-lhes a dôr pelas veias como o sangue a ellas. Ao menos estai advertido no salto em claro que haveis de fazer por este arcebispado, tomando o pé atraz como Sebastião de Mattos8, mas não seja d'estas partes. Não sei se vos poderão valer os fóros das casas de Luiz de Miranda. O cavalleiro, se lhe chamam tardo, madruga; se desbocado, cala-se; se demasiado, tempera-se; se adultero, abstem-se; se peccador, emenda-se; mas, se é traidor á patria, não ha emenda nem desculpa. Sabei que a propriedade d'este reino foi sempre não desobedecer nunca ao seu rei, nem deixar-se mandar de tyrannos, e que vale mais pobre, dando pouco, que desesperado.
«De muito atraz trazemos por criação a distribuição de tres cousas: a alma para Deus, o melhor para nós, e a fazenda para el-rei; e quem se viu n'isto, não duvída dar quartos, mas quintos para quintas; e por vosso conselho não havendo n'este reino quintaes (digo de arvores, que de canella já nem sabemos de que côr é) soffre-se mal. E se vós quereis excessos para a patria, e permittir-se contra ella o favor que houve Nuno Alvres para Pedralves traidor, a quem o céo subverteu, haverá meninos em Evora para Gaspar do Rego se abrazar.
«Por Ithaca, nobre ilha de asperos penedos, passou Ulysses immensos trabalhos. Disfarçado el-rei Codro para libertar a patria, se offerece á morte; pela patria renunciou o imperio; e Mucio Scævola renunciou a esperança da vida por a tirar á propria que como vós a perseguia9. E os naturaes que a isto não se oppõe vem a acabar n'ella, como Annibal em Carthago e Catilina em Roma. Attendei ao que diz o apostolo: Anna militiæ nostræ non sunt carnalia, sed spiritualia. Sois christão, sois sacerdote, sois prelado, sois natural do reino: dizei d'elle o que n'elle vêdes, informai das Necessidades; e, se não sabeis d'ellas, ahi amam a caridade, vereis de quantas sois secretario, quantos fidalgos padecem, quantos senhores acabam, quantas donzellas perecem. Falta o ouro, a prata; o contracto, por que vós não faltaes, que nem Deus o quer dar superfluo, nem o necessario se promette dar-se. Perguntando-se a Alexandre para que queria ser senhor de todo mundo, respondeu: Todas as guerras que se levantam são por uma de tres causas: ou por haver muitos deuses, ou por haver muitos reis, ou por haver muitos tributos: quero ser senhor de todo o mundo e rei para que não haja n'elle mais que um Deus, nem se conheça mais que um rei, nem se pague mais que um tributo.
«Elle era pagão, e vós christão; elle rei, e vós bispo; elle creado na terra, e vós na igreja; nunca ouviu o nome de Christo, e vós jurastes defender o Evangelho. Parece que muito differe uma cousa das outras. Se o fazeis por fama, já é geral, pois nós vos sabemos o nome. O vosso nome é flagellum patriæ. Se o fazeis por interesse, já basta o que tendes; se mais quizerdes, já cá passamos signal; se nós podermos, com o mais constará a pontualidade... Tende lastima de um reino que, sendo antigamente um mar, se vai esgotando a Castella por um Rêgo. Nosso Senhor vos converta, e vos traga a nossas mãos, para augmento d'este reino, e vida e paz e quietação de seu rei. Evora 27 de agosto de 1637. Por mandado do povo todo junto
Manoelinho Menino.»
8 Este Sebastião de Mattos é o arcebispo de Braga que depois conspirou contra D. João IV, e morreu no carcere.
9 Não nos parece clara a redacção, ou ha elisão de palavra no meu traslado.
A MORTE DE D. JOÃO
(POR GUERRA JUNQUEIRO)
É um livro de 330 paginas que eu li sem intermittencias.
A poesia é quasi sempre portugueza e dos mais altos quilates; mas a substancia do livro é estrangeira.
Aquellas podridões, desenhadas do vivo com primorosa execução, não fermentam n'este paiz mais atrazado e menos devasso que o restante da Europa.
É verdade que ha creaturas um tanto putridas nos hospitaes, e lá se dissolvem: peor seria, se não tivessem aquelle paradeiro onde a misericordia humana lucta com a fatalidade da morte á beira do catre da agonia.
O D. João portuguez, por via de regra, aos quarenta annos, tem a espinha dorsal amollecida, cauterisa as frieiras e lima os callos. As Imperias, entre nós, não acabam por tanger cornelim em companhia de ursos; mas tem ursos e dromedarios, uns Tenorios farinaceos que lhes tornam a velhice divertida e, ás vezes, serodiamente honesta.
Não obstante, eu, em Lisboa, conheci um D. João, que, tirante a chalaça e o urso, era o D. João de Guerra Junqueiro.
Conheci-o gentil, capitão de lanceiros, com um appellido dos mais nobres do reino, bizarro, petulante, fatuo, bandarreando com os seus cavallos oriundos da Lybia alli pelo Chiado. Amavam-no as burguezas e as princezas. Amavam-no tão doudamente que se perderiam, se não estivessem perdidas quando elle as achava. Alli, em Lisboa, um D. João acha sempre uma D. Joanna tão boa como elle.
Era isto em 1849.
Onze annos depois, estando eu na casa-da-saude, vi entrar, no quarto de certo doente, um homem maltrapido, com o nariz rubido, a cara esvurmando brotoeja, os dentes ferruginosos, os beiços esfoliados como escama de sarda de barrica, os olhos broslados de malaguêta, e a pupilla oleosa. Era o capitão de lanceiros, que vinha alli visitar um homem que costumava dar-lhe um tostão para aguardente. E n'essa tarde levou o tostão e roubou-lhe um relogio de prata, um caldeirão que valia um quartinho!
--O meu relógio!--exclamava o pobre Sousa Netto--é o que me restava da minha mocidade!
Sousa Netto orçava pelos sessenta e seis; tinha gota, intervallos de demencia, havia sido tambem D. João, e usava constantemente habito de Christo no peito, mouras vermelhas nos pés, e um capacete de lontra na cabeça.
O outro, aquelle que encontrava Imperias no paço, esphacellou-se na testada de uma taverna; os guzanos da cova de certo taparam os seus narizes microscopicos quando o esquife o vasou nas entranhas da natureza, mãi carinhosa do cão podre, do homem podre e de tudo que é perfeito n'este mundo.
O homem espoliado do caldeirão ensandeceu a final, abrazado em concupiscencias que resfolegavam em colcheias, em decimas, em sonetos, que me recitava a mim e a Matheus de Magalhães com uns olhos tamanhos e tão accesos que parecia o diabo de Santa Thereza de Jesus.
Estes dous typos teem moldura no poema de Guerra Junqueiro.
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As mais nervosas e engraçadas paginas de versos que eu tenho lido de lavra portugueza são a parte d'este poema intitulado Romanticismo, e a outra chamada Os saltimbancos. São trovoadas de talento. Paradoxos assombrosos que vos tiram do diaphragma epilepsias de riso.
Ás vezes, magôa uma especie de motejo que parece rebellar-se contra tudo que grande parte da sociedade respeita. Vem alli de camaradagem com a ironia implacavel do snr. Junqueiro o estylete sarcastico de lord Byron e de Alfred de Musset; mas o nosso poeta avantaja-se na crueza das invectivas contra o dogma, afistulando soberbos versos de um atheismo que de certo lhe não está no coração, nem na educação nem nos irreprehensiveis costumes. Tirante isto, ahi é tudo alegria; e até, quando a musa philosopheia por transcendentes contemplações, lá surde a palavra comica, o simile galhofeiro, esta cousa moderna que não tem nome,--uma bella extravagancia que nos regosija. E assim é como se querem os livros, porque lá diz Aristoteles no 2.º da Ethica, cap. 12, que a melancolia corrompe a natureza e faz pasmar o coração.
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Este modo de poetar será o Ideal moderno? É, com toda a certeza. Quando eu era rapaz, o poeta ideal era o ethereo, o metaphysico, o espiritualissimo. Por tanto, o ideal, segundo Taine, não tem que vêr com o ideal, segundo Lamartine. No livro do snr. Junqueiro, bem que os carnalissimos assumptos alli poetisados não pareçam ideaes, abona-os o indeclinavel legislador n'esta materia. A obra d'arte--diz Taine--põe o fito em manifestar algum caracter essencial ou relevante, mais perfeita e lucidamente do que os objectos reaes nol-o mostram. O artista, por tanto, concebeu a idéa d'esse caracter, e, a sabor da sua idéa, transformou o objecto real. Este objecto assim transformado, sahe conforme á idéa, ou, para melhor o dizer--é o ideal. Assim, pois, passam as cousas do real ao ideal, quando o artista, ao reproduzil-as, as altera a bel-prazer da sua idéa, etc. (L'Ideal dans l'Art).
Quer dizer, ao que parece, que o ideal é uma modificação do real a talante do artista; por maneira que o sobrepor miserias imaginarias ás miserias positivas--exulcerar desgraças inevitaveis com a imprecação de desgraças ficticias--é o Ideal.
Em fim, são seitas, e o impugnal-as quando ellas ainda verdejam é perigoso: o melhor é deixal-as apodrecer.
O que ha de ficar e sobreviver ás escolas (porque o snr. Guerra Junqueiro de certo não crê em Taine, e é realista na maxima latitude da palavra) são estas paginas da Morte de D. João, alumiadas pelos relampagos do genio. Este livro será lido por aquelles mesmos que o malsinarem de propagador de peçonha em calices de ouro. É a obra prodigiosa de uns annos muito em flôr. Quando a mão do tempo, a desgraça dos annos, e algumas noites de meditação dolorosa, levarem á consciencia do admiravel poeta a imagem da Justiça, enquadrada na moldura fatal em que ha seis mil annos a conhecemos na historia, então os poemas do snr. Guerra Junqueiro serão por igual bem versejados, mas muitissimo mais consolativos para os infelizes que elle deplora com generoso coração.
POETAS E PROSADORES BRAZILEIROS
Seis livros de variada leitura me vieram aligeirar as horas da aldeia, n'este inverno de junho; que no decantado Minho já não ha primavera nem estio, nem melros nem rouxinoes. D'esta familia de cantores tão gabados nas eglogas de Sá de Miranda e Diogo Bernardes abalou-se a especie, desde que o Minho, policiando-se do agro primitivo da sua natureza alpestre, estrondêa com o caboucar das vias-ferreas e o estridor das diligencias. De rouxinoes restam-nos apenas aquillo que os francezes chamam Roussignol à gland, e Roussignol d'Arcadie. Estou a vêr se me desmente o meu presado amigo D. Antonio da Costa no seu promettido livro das delicias do Minho.
Eu por mim, se quero convencer-me que estou na sazão do calor e das flôres, mando abrazar o fogão, accendo a machina do café, espalho uma abada de rosas no estrado, cubro-me com um cobertor, imagino que estou no junho de Fernão d'Alvares do Oriente, e, com o nariz de fóra, e espirrando, exclamo, em nome do poeta: