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Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 09 (de 12) cover

Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 09 (de 12)

Chapter 9: I
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About This Book

This work presents a collection of essays that delve into social studies, reflecting on the complexities of Portuguese society and politics. It explores themes of historical consciousness and the challenges of navigating political landscapes, emphasizing a thoughtful approach to social issues. The author articulates a vision of civic responsibility and moral integrity, encouraging a connection to noble traditions. The text is characterized by a blend of personal reflection and broader societal commentary, aiming to inspire readers to engage with their cultural heritage and the pressing concerns of their time.

Tenho dado uma curta idéa do pouco que a poesia dramatica concorre n'esta parte para a gloria nacional, assim como do pouco que os nossos actores contribuem para fazer brilhar uma arte que os povos mais polidos amam com tanto excesso, porque n'ella acham uma dôce e agradavel distracção aos seus negocios civis, quando ella é cultivada principalmente por aquelles talentos sublimes que ennobrecem tanto as nações que os viu nascer e creou, como a mesma arte que souberam aperfeiçoar.

Os limites de uma simples carta não me permittiram que eu tratasse este assumpto com aquella extensão que elle requeria para desilludir os muitos ignorantes que se persuadem da boa direcção dos nossos theatros e dos grandes talentos dos nossos actores. Contentei-me unicamente com tocar este ponto pela superficie conforme convinha a uma simples carta, em que a casualidade quiz que o fizesse entrar, a fim de dar a conhecer o nosso grande atrazamento n'esta parte; e creio que algumas das minhas observações não serão frivolas na opinião d'aquelles que tem frequentado os theatros estrangeiros, em que as peças que se representam n'elles concorrem tão poderosamente para a educação publica se ir aperfeiçoando cada vez mais, o que, a meu vêr, é o principal objecto da instituição dos theatros.

O povo de Lisboa não gosta com preferencia senão de farças e entremezes, por que só quer rir e divertir-se com as baboseiras que se dizem n'elles; mas é porque não conhece ainda a grande utilidade que poderia tirar de uma escóla de costumes e de maneiras que lhe quadrariam melhor que as muitas chalaças que ouvem, que lhes pervertem toda a inclinação que poderiam ter para aprenderem a ser polidos, decentes, modestos e virtuosos cidadãos—o que as peças theatraes que estão vendo representar, todos os dias, lhes não ensinam.

Adeus, meu bom amigo; perdôe esta matraca que lhe dou em favor do espirito com que a escrevi, que é o do bem publico, que se estende tambem a este ramo, que produz os fructos delicados do bom gosto, o qual se adquire nos theatros, e d'aquella urbanidade que não é filha da imitação; mas de uma intelligencia dirigida pela razão—tão util ao homem na sua condição particular, como gloriosa para a nação a que elle pertence.

Sou sinceramente

amigo fiel e affectivo

M.

[1] Talma, primeiro actor tragico do theatro de Paris.


BIBLIOGRAPHIA

(Padre Senna Freitas—Cunha Vianna—Monsenhor Joaquim Pinto de Campos)

Padre Senna Freitas. No presbiterio e no templo, vol. I, Livraria Internacional de E. Chardron. Porto. 1874.—Este primeiro tomo comprehende dezesete artigos que se rivalisam na excellencia da doutrina e da linguagem. Alguns, sem destoar da seriedade do livro, movem o leitor a um sorriso complacente. N'este genero, estrema-se o intitulado Asphyxia... pela imprensa. Tem resaltos de graça e nervo epigrammatico. Faz lembrar as paginas felizes de Luis Veuillot nos Odeurs de Paris. «Livros, opusculos, livrorios, livrecos, nacionaes, nacionalisados, in folio, in quarto, in octavo, em dezeseis; obesos, normaes, anemicos, succulentos, indigestos, aquosos; edicionados aos mil, aos dous, aos tres mil, de mais de dez a menos de dous tostões; impressos a capricho, moldurados, coloridos, iriados, rendilhados, casquilhos.» (Pag. 215 e 216).

Recenseia d'esta arte o snr. padre Senna Freitas as producções asphyxiosas; mas não se deprehenda que elle, o illustrado escriptor respiraria melhor oxygeneo em regiões onde escasseassem prelos e authores. O que o suffoca é o gaz acido carbonico das inepcias em dicção, em philosophia, e em moral. Contra as da linguagem protesta o snr. Senna Freitas, abrasado nas risonhas coleras do padre Francisco Manoel do Nascimento: «Pois ha nada comparavel em elegancia castiça de terminologia áquellas paginas e áquellas columnas arrebicadas de gallicismos, e anglicismos tão expressivos e engraçados que deixam a nossa lingua corrida? Travemos, por exemplo, d'uma gazeta (salvas, bem entendido, as que fazem honra ao jornalismo). A pouco fundo, já lá apparecem a boiar os «meetings», os «comités», as recriminações do articulista contra as «chicanas» parlamentares, e as «coalições» ministeriaes, e o estylo por demais «descosido» em que se exprimiu o deputado fulano de tal, etc... Passemos á revista interna e noticiosa—prosegue o analysta bem humorado.—Acaba de dar-se um successo tristemente «remarcavel» que o noticiador conta «em detalhe» aos leitores, «tirando d'elle partido» para fazer uma discreta consideração moral. Em seguida, dá um leve «golpe de vista» pelo «high-life» da terra, e analysa o ultimo livro publicado por... que é na sua apreciação um verdadeiro «chefe d'obra.» (Pag. 219).

E assim, com razão e discreto sal, o esclarecido moço, que tão digna e exemplarmente allia o viçor da idade ao respeito do habito clerical, vai desfiando o ruim tecido dos maus livros, quer na fórma, quer na substancia.

Culpa os romances nimiamente realistas de perversores dos bons costumes: «Ha o romance serio, instructivo, philosophico, moral, espiritualista, da tempera do Promessi Sposi de Manzoni, que nos transporta a uma atmosphera salubre, onde se respira um ar impregnado de oxygeneo; que photographa todo o lado bello, puro e grande da humanidade. E ha o romance enervante, declinação insipida e interminavel d'elles e d'ellas; o romance bohemio ou cigano, composto pelo mancebo apaixonado, que come no restaurante de terceira classe, e morre etico aos vinte e cinco annos; e o romance realista ou positivista, ainda peor que o precedente, sem ideal algum; condensado de todos os miasmas da lama, de todas as corrupções do esphacelo, e de todos os sarcasmos e negações do atheismo, sem outra esphera por conseguinte mais que a materia pura, só por uma ironia de mau gosto chamado a alma nova.» (Pag. 227 e 228).

Acato a opinião do snr. Senna Freitas, quanto ás novellas descriptivas da vida contemporanea; mas desliso da severidade do seu juizo. Creio que assim como os bons e moralissimos romances não morigeram, tambem os immoraes não desmoralisam. Não são os romances que formam os costumes bons e maus; são os costumes que fazem os romances. E casos ha em que as novellas saturadas de virtude são inverosimeis e puramente phantasticas. Eu já escrevi algumas, nomeadamente as Lagrimas abençoadas e as Tres irmãs. Ninguem acreditou aquillo; e toda a gente aceitou como copias do natural Os brilhantes do brazileiro e A mulher fatal—dous livros miasmaticos, que só podem lêr-se com o interior do nariz plantado de alfadega e mangericão. Quando o marquez d'Urfé escrevia as suas novellas pastoraes, embrincadas de polidissima cortezia nos amores, vivia-se em França, pouco mais ou menos, como nos romances de Soulié, de Kock e de Feydeau. Ha de tudo. Ha muitissima gente honesta que lê a Lelia de Sand, e muitissima gente de ruins manhas que lê a Fabiola do cardeal Wisemann. Sem embargo estes reparos não desluzem a efficacia das considerações do snr. Senna Freitas.

Da summa do seu livro direi, com sincera admiração e devida justiça, que se revela ahi um excellente escriptor, um padre illustradissimo, um homem de bem, um argumentador convicto e em grande parte irrefutavel. D'este modo ajuiza o author da sua obra: É um livro christão que não fará ruim companhia junto ao lar das boas familias: nada mais.

É muito mais; porque afervora as crenças tibias, alvoroça as almas marasmadas na indifferença religiosa, descondensa a escuridade que fez noite algida nos corações abatidos pela desgraça. O snr. Senna Freitas nobilita o clero portuguez e honra as letras patrias. Se não fosse a palavra religião, quem explicaria tão obscura vida em tão alumiado espirito?

Congratulo-me com o meu benemerito amigo Ernesto Chardron, quando vejo entre as edições da sua copiosa livaria a estreia gloriosa do snr. Senna Freitas.


Cunha Vianna. Relampagos, com um prologo por João Penha. Livraria Internacional. Porto, 1874.—O author está na primeira florecencia dos annos. Reçumbra-lhe do rosto a branda tristeza dos que soffrem com o encontro da incerteza nos umbraes da vida. Nuta entre os parceis, quando as vagas descahem, e lhe abrem um vacuo onde as idealisações lhe não dão pé, nem o positivismo ancora. É um dos muitos, cuja salvação depende de pouco: a experiencia da vida, o entrar na inanidade das cousas, o acordar com a cabeça ferida na corrente que fecha a galé dos obreiros do ideal—especie de somnambulos que fallam comsigo proprios, como João Penha, o redactor do Prologo.

Este, ainda assim, tem momentos de apégar no commum da vida. O seu fechar dos sonetos conhecidos e decorados é sempre a zombaria das altas cousas, dos raptos á divindade que se esconde, e aos mysterios do céo que atira estrellas a milhões sobre os seus interrogadores. O paio de Lamego e o presunto de Melgaço raro deixam de testemunhar que o espirito de João Penha é escorreito, e que a poesia, quando lhe apparece, como as revoadas das andorinhas, passa, não deixando de si no azul um vestigio de saudade.

O snr. Cunha Vianna está ainda entre os poetas de consciencia e inspiração. N'estes seus poemas não ha os desmandos e dislates que individualisam a poesia ultimamente inventada. É muito moço, e a sua musa parece filha da que floreceu em Portugal ha trinta annos. Não se dôa por isso o esperançoso escriptor. Do bom senso dos seus versos ha de derivar-se o bom senso da sua prosa. Quando as flôres fenecerem, e os fructos se desabotoarem, verá quanto proveitoso é ter sido, a um tempo, o interprete do vago da alma e o aprendiz do positivo dos bons diccionarios.

Entre as suas poesias escolho um fragmento da Armada para que o leitor se convença de que lhe não inculco no snr. Cunha Vianna um arrolador de podridões, de anemias, de chloroses, e de tanta outra moxinifada com que intentam fazer-nos da imaginação hospital.

N'este poema, o oceano interroga Portugal algemado na grilheta do despotismo. Veleja ao longe a esquadra da Terceira que aprôa ao Mindelo. O grande Atlante pergunta á armada o seu destino:

—Somos a Liberdade!
a esplendida epopéa!
a voz da humanidade!
o sol da Nova-Idéa!
Somos, oh monstro aquatico,
o verbo democratico,
tão forte como Deus!
mais rijo que a tormenta!
Astros, descei dos ceus!
Nuvens, descei do espaço!
vinde beijar o traço
das nossas naus possantes!
Nós somos os gigantes,
os Cyclopes modernos:
vimos livrar os mundos
de horrificos infernos.
Vimos fazer a guerra,
bradar a Torquemada:
—pódes fugir da terra,
que o teu imperio é nada!
Somos a Liberdade!
a esplendida epopéa!
a voz da humanidade!
a luz da Nova-Idéa!

«—Eu vos saúdo, ministros
d'uma idade d'esplendores!
Expulsai corvos sinistros
d'essa terra de condores!
—aves d'arrojo inaudito,
que muitas vezes s'elevam
ás solidões do infinito!
Que lindo paiz! é vêl-o:
por toda a parte boninas,
e, mais além, do Mindelo
as vicejantes campinas!
E mais ao longe a cidade,
que reflora ao Douro a estancia,
a Ostende da liberdade,
nova rival de Numancia!
—o Capitolio altaneiro
d'um povo livre e guerreiro,
que, n'um heroismo ardente,
unico, bello, e assombroso,
roubou mais d'um continente
ao meu reino tormentoso!
Heis de vencer, porque a historia,
a virgem que vos inspira,
já vos prepara na lyra
os hosannas da victoria!
Vencerá ao retrocesso
quem este abysmo venceu:
tendes por guia o progresso—
d'esta idade o Prometheu!»

        *        *        *

Tempos depois a luz da nova aurora
illuminava os montes e a cidade!
A tyrannia, aniquilado o sceptro,
        como livido espectro
lá transpunha os umbraes da soledade;
e um povo inteiro, a quem a paz inflora,
        salvava estrepitoso
        o brilho radioso
        da augusta Liberdade!

Eis aqui um poeta.


Jerusalem, por Joaquim Pinto de Campos, etc. Lisboa, 1874.—Precede este precioso livro uma carta do snr. visconde de Castilho. Ahi se annunciam primores, quanto ao modo como a obra é escripta, e se dá de suspeito o snr. visconde quanto á substancia, ao contexto da idéa. «Creei-me semi-pagão entre pagãos millenarios do melhor engenho, sociedade minha ainda hoje», diz o grande poeta, em quem reviveram as almas de Anacreonte e Ovidio.

Comprehende-se este retrocesso no rasto esplendoroso que nos leva até casa dos Mecenas; mas, se ahi nos convida Petronio para uma cêa de Trimalcião, dá-nos vontade de fugir para uma das ágapes lôbregas em que o bocado de pão se ungia de lagrimas.

Magestade, estrondo, alegrias, febris prazeres e infernaes delicias tudo teriam de seu as musas pagãs com que deleitar a inspiração e o officio dos seus dilectos; mas poesia, a sincera, a ideal, a que aformosêa a vida dentro dos abysmos das suas quedas, essa não nos vem herdada de Horacio nem de Catullo: deu-nol-a o christianismo.

Aos muito affeiçoados a reliquias do velho Oriente suscita o monsenhor Pinto de Campos as reminiscencias dos cyclos anteriores á sagração do local em que passaram os lances da divina missão de Jesus Christo. A cada passo, resaltam ahi recordações da Roma imperial, com todos os accessorios que lhe lustraram a prosperidade como contraste da voragem que de um hausto a sorveu para sempre apagada.

O livro é tão de molde para todos os paladares, cinge-se tão caroavel ao deleite do curioso, do sabio e do devoto, que a ninguem será estranho o prazer da leitura. Em duas palavras qualifica um doutissimo critico fluminense o livro do snr. Pinto Campos: para mim tenho que a opinião classificará esta obra entre as de mór vulto que este seculo ha visto em lingua portugueza. (Reflexões de um solitario relativas ao livro Jerusalem, pag. 3).

Evidentemente, o snr. Pinto de de Campos conhece e exercita as menos communs bellezas da nossa lingua. Já o haviamos admirado nas fluencias descuidadas da conversação, antes de o reconhecermos no purismo d'este livro perfeitamente executado. O seu estylo tem a sobriedade, a parcimonia de enfeites que se adquirem quando a sã e alumiada razão os escolhe. As pompas e os recamos da dicção occorrem-lhe a ponto com rigorosa propriedade. A unção religiosa dos quadros nunca é prejudicada pelos estofos da rhetorica. As figuras cedem a sua luz ficticia ao brilho permanente da verdade. A relanços descriptivos da Terra Santa, resôa ás vezes o dizer chão e affavel de fr. Pantaleão de Aveiro, alternando-se com os raptos vehementes da piedade de Chateaubriand e do apaixonado lyrismo de Lamartine; mas tudo isto tão nosso, tão portuguez, tão condimentado do idioma de Sousa e de Bernardes, que não póde ser senão de monsenhor Pinto de Campos.

O leitor, que lê os telegrammas vindos do Brazil, já viu que lá se ergueu uma voz calumniadora acoimando de plagiario o author da Jerusalem. Sem interposição de tempo, sahiu pela honra e lealdade do calumniado escriptor um dos maiores sabios que hoje se contam viventissimos na rareada fileira dos sinceros homens de letras em Portugal. Parece-nos ter entrevisto no Solitario, que tão egregiamente repelle os detrahidores de Pinto de Campos, o conselheiro José Feliciano de Castilho, o mais poderoso talento alliançado á mais tenaz memoria de que temos noticia, e, mais que noticia, lição aturada e incansavel.

Eis aqui a repulsão da aleivosia, que trasladamos textualmente:

 

Li uns artigos em que, confrontando-se trechos da Jerusalem com outros semelhantes das obras de Pozada Arango e de Perinaldo, se qualificam essas transcripções de plagiatos escandalosos, furto na mão, bocca na botija, acto proprio para fazer subir o pejo ás faces do culpado, motivo de indignação, etc., etc. Assim enfeixadas as injurias, não se dirá que as attenuo; e quanto ao facto da reproducção d'esses e outros passos no soberbo livro, começo declarando que elle é real, licito; publicado, antes de o ser pelos censores, pelo proprio escriptor; e que, nas circumstancias d'esta polemica, pouca prova de lealdade de quem occulta essa declaração com que o author de antemão desmorona todo esse castello de cartas. Ah! isso não convinha aos sinceros Aristarchos: esmerilharam tudo, mas fecharam olhos nada menos que sobre o peristilo do monumento, ao qual apenas fazem uma referencia vaga, passando como cão por vinha vindimada.

«O author podia, como grande numero dos seus predecessores em um assumpto d'esta ordem, reproduzir aquillo que bem entrasse no plano da sua obra, em materia de descripções, de averiguações e narrações dos successos, sem citar as fontes. Pois acaso inventa-se a religião? Inventa-se a historia? Inventa-se a natureza? Inventam-se factos? Sempre que em tudo isso se toca, é evidente que se repete o que já se ha dito; e todas as vezes que essas descripções estão bem feitas, que utilidade ha em alteral-as? Nada haveria mais facil que dar sempre as mesmas idéas por diversas palavras, mas n'isso então é que se daria manifesta má fé, porque transpareceria a intenção culposa, o que nunca póde imputar-se a quem, uma ou outra vez, traduz litteralmente de livros que andam em todas as mãos.

«Não desenvolverei este ponto em these, como tão facil seria; limitar-me-hei a demonstrar a candura com que monsenhor Pinto de Campos, logo ao romper o seu livro, nos denunciou... isso mesmo que hoje se lhe assaca? Completa elle o seu prologo (pag. XVI e XVII), revelando a quem vai lêr, que transcreveu largos trechos de escriptores antigos e modernos; enumera os principaes d'esses escriptores; affirma, com inexcedivel modestia, que só a ess'outros (o que é descabido) deve ser restituida qualquer gloriola, que das suas paginas se possa colher; que se embrenhou na floresta d'esses authores; que das flôres d'elles sugou o mel. Transcreverei (com as almejadas aspas):

«Na averiguação e narração dos successos, tomei por norma seguir os varões doutissimos e diligentissimos, citando lealmente suas palavras ás vezes, muitas outras suas sentenças; assim como é certo que lhes addicionei outras muitas, que pelo proprio estudo alcancei... Segui de preferencia a Sagrada Escriptura, Flavio José, S. Jeronymo, e entre os proporcionalmente modernos, Quaresmio... Em muitos outros, antigos e modernos, procurei flôres que em meu ramilhete ennastrasse, e a todos os quaes fiquei mais ou menos devedor; se n'este rescende alguma fragrancia, a elles e não a mim se deve. Sem ordem nem de merito nem de idades, aqui apontarei Adricomio, Biagio Terzi, Calmei, Mariano Morone de Maléo, Chateaubriand, Lamartine, conde Marcellus, Valiani, Geramb, Poujoulat, Michaud, fr. Pantaleão d'Aveiro; Mislin, fr. Lavinio, Renazzi, Gaume, Pozada Arango, Escrich, Munk, Dupin, De Saulcy, Saint Aignan; e particularmente os padres Dupuis e Perinaldo me foram de inexcedivel auxilio... Não se destina esta enumeração a ostentar pompa de erudição; serve, ao contrario, para restituir a outros qualquer gloriola que de entre estas paginas podesse ser colhida. Solícita abelha, embrenhei-me n'essa vasta floresta e sem estragar as flôres, suguei-lhes o mel; e se em alguma havia veneno, lá o deixei.»

«O que ahi fica (idéa que mais de uma vez apparece reiterada no corpo da obra), constitue um luxo de precauções, a fim de que nenhum mal intencionado ousasse attribuir-lhe a intenção de locupletar-se com a jactura alheia. «Eu segui varões doutissimos», «suas palavras ás vezes, muitas outras suas sentenças.» «Em muitos authores procurei flôres que em meu ramilhete ennastrasse, e a todos fiquei mais ou menos devedor.» «Apontarei entre estes Pozada Arango, Michaud, Milsin.» «Particularmente o padre Perinaldo me foi de inexcedivel auxilio.» «Se n'este ramilhete rescende alguma fragrancia, a elles, e não a mim se deve.» «Seja a elles restituida qualquer gloriola que d'entre estas paginas podesse ser colhida.» «Na vasta floresta dos authores citados, suguei o mel de suas flôres. »

«Santo Deus! É n'estas circumstancias que se imputa a um escriptor a perpetração de (nada menos!) plagios escandalosos! O que ahi fica, se pecca é pela repetição, até á saciedade, do proprio facto com que os inimigos hoje o criminam. Foi innocentemente o monsenhor quem deu essas armas contra si. Leram no prefacio os seus detractores que elle declarava haver transcripto numerosos passos de Michaud, Mislin, Pozada Arango; e que Perinaldo principalmente lhe havia sido de inexcedivel auxilio. O processo da malevolencia tornava-se, desde então, singelissimo.

«Ah! elle diz que ha um escriptor chamado Perinaldo, que lhe foi de inexcedivel auxilio? que ha um Pozada Arango, etc., de quem extrahiu as proprias palavras, ás vezes, ou sentenças? que para este ramilhete colheu d'esses livros muitas flôres, e as mais preciosas? Ora, copiosas flôres, colhidas de livros, não podem ser rosas, nem malmequeres, são forçosamente paginas. Toca a procurar esses livros, cuja existencia elle nos patentêa; a pesquizar ahi os trechos do que nos revela ter-se apoderado; e depois, lançando-lhe em rosto o que elle mesmo nos denunciou, tripudiaremos, e subindo ao capitolio, iremos render graças aos deuses!»

«Em tal procedimento, a lealdade pede meças á justiça.»

 

Delida a macula com que a malevolencia, aborto de odios politicos, tentou denegrir a mais notavel obra modernamente escripta com os primores da lingua portugueza por um brazileiro—que entre os seus e os nossos a escreve como os distinctissimos—não temos senão a louvar o grande alento que tirou a salvo de tropeços esta obra perduravel com que monsenhor Pinto de Campos brindou os seus conterraneos e os da patria de seus avós. Já conheciamos e reverenciavamos o orador religioso e parlamentar. Agora lhe recebemos de sua mão um livro que vamos reler e collocar entre os que nos ensinaram a escrever.


QUE SEGREDOS SÃO ESTES?...

Fosse terror ou sentimento fosse
De mais occulta origem...

Garrett.


A pallida doença lhe tocava
Com fria mão o corpo enfraquecido.

          Camões.

 

I

—Fui hoje vêr á casa da saude o Duarte Valdez.

—O nosso companheiro de casa em Coimbra?

—Justamente.

—Que tem elle?

—Os dias contados.

—Tisico?

—Perguntei ao doutor Arantes que doença era a do Valdez. Fez com os hombros um tregeito significativo de que a medicina nem sempre tem alçada para devassar das doenças que matam, e denominal-as com terminações inflammatoriamente gregas. Quando, porém, é a alma que mata o corpo, os medicos lavam d'ahi as mãos como o governador da Judêa.

Tive este dialogo, em Lisboa, ha hoje doze annos, e, seguidamente, fui á casa da saude no largo do Monteiro.

Quando, na ida, atravessava o jardim da Estrella, sentei-me a encadear as lembranças vagas e desatadas que eu tinha de Duarte Valdez.

Tres épocas me occorreram.

Primeira, a da nossa jovial convivencia em um casebre da Couraça dos Apostolos, em Coimbra, no anno 1845. Segunda, outra menos modesta e menos alegre camaradagem de quarto, no hotel Francez, do Porto, em 1851.

Antes de mencionar a terceira época, urge saber-se que nenhum de nós se formára. Elle contentára-se com um diploma de insufficiencia em rhetorica, e eu com a prenda não commum de arpejar tres varios fados na viola. Não rivalisavamos em sciencia. Formavamos da nossa reciproca ignorancia um conceito honesto. Não queriamos implicar com sabios, nem para os invejar nem para os detrahir.

A terceira época ou terceiro encontro foi em 1856. Vi-o em S. João da Foz, e ouvi-lhe revelar mysteriosamente que estava emboscado em uns arvoredos, entre Lordello e Pastelleiro, com uma extremosa e estremecida menina, fugida aos paes. Não me recordo os pormenores d'estes amores que elle me disse serem os primeiros e ultimos. Tenho, porém, a certeza de que me ri d'uns amores ultimos, aos vinte e cinco annos de idade.

N'aquelle tempo a fuga de uma menina qualquer não era successo por tanta maneira horrido, que eu devesse desmaiar na presença do meu acelerado amigo. Eu já contava então uns decrepitos vinte e nove annos, e conhecia varios acontecimentos impudicos, por exemplo, aquelle da D. Hermenigilda d'Amarante, que eu exhibi ás lagrimas do publico sensivel nas Scenas da Foz. Aquella especie de pellicula carmezim que assetina a epiderme do rosto, e se chama pudicicia nos droguistas da moral, tinham-m'a delido as aguas lustraes da nossa civilisação pagã, para o que tambem muito contribuiram as reuniões semanaes da Philarmonica, na rua das Hortas, onde os rabecões entravam cheios de cupidos e sahiam cheios de suspiros. Muitas senhoras portuenses, que hoje cedem a primazia da ternura ás filhas, viram n'aquellas salas da Philarmonica os anjos com quem se maridaram. Os annuncios das festas lyricas, enviados dos corações aos corações, rezavam assim: Sabbado, ás 7 da noite, musica de Mozart, e Laços de Hymemeu. Tudo antigo e bom.

Isto veio a proposito de eu não ter uma congestão de pudor, quando Duarte Valdez me segredou que se embrenhára nas selvas rumorosas do Pastelleiro com uma menina perdida de amor, e tão cega de alma que já não via na imaginação, sequer, as lagrimas da mãi, e o mortal abatimento do pai que a amaldiçoava.

II

O enfermeiro-mór da casa da saude conduziu-me ao quarto de Duarte. Com certeza, se eu o encontrasse desprevenidamente, não o conheceria. O espasmo dos olhos seria bastante a desfigurar-lhe as outras feições, quasi sumidas na desgrenhada cabelleira e nas barbas. Immobilisava-lhe o semblante a sinistra quietação da demencia contemplativa.

Tambem elle me não reconheceu a mim, sem que eu lhe dissesse o meu nome. Fitava-me com repulsão, como se a presença de um desconhecido o molestasse fortemente; porém, depois que eu me nomeei, sahiu do torpor, levantou-se de golpe, e abraçou-me com transporte.

—Que tens tu, Duarte?... Estavas aqui, e não me participavas?

—Eu não sabia que estavas em Lisboa, nem tinha a vaidade de suppôr que ainda me conhecesses. Desde que te fallei na Foz, em 1856, nunca mais nos encontramos nem escrevemos.

—É verdade; mas nem por isso me eram estranhos os principaes passos da tua vida. Soube que casaste...

—Sim... casei...

—Com aquella menina que então... estava comtigo?

—Não...—respondeu Duarte com assombrado aspecto, e um sacudir de cabeça indicativos de azedume por tal pergunta.

Hesitei, á vista de tão subita mudança, se devia proseguir em tal interrogatorio. Foi elle quem interrompeu o silencio, repetindo:

—Não, não casei com essa...—e acrescentou, pondo-me no hombro a mão tremula—casei com outra... que já morreu...

—Morreu?

—Sim, morreram ambas; matei-as eu...

E, erguendo-se, travou-me do braço, levou-me comsigo para a janella, que abria sobre um jardim, alongou a vista na direcção da cupula do convento de Jesus, fez um gesto com a mão direita apontando para o céo, e quiz dizer umas palavras que, abafadas pelos gemidos, pareciam rever-lhe nos olhos em lagrimas copiosas.

E eu, que poderia imaginar agora phrases muito apropositadas á situação do meu amigo, não as invento, porque não lh'as disse então.

E quem seria mais verboso que eu, em lance tão desusado? Se elle, com effeito, havia matado as duas mulheres, eu, na verdade, não devia ensaiar maneiras de o consolar, dizendo-lhe que, se as matou, fizera muito bem. Figurou-se-me que Duarte fallára figuradamente. Porque ha muitos sujeitos, ainda mal, que vivem penalisados com remorsos de ter matado certas senhoras, sem ao menos admittirem que os medicos collaborassem com elles. Ora eu que reputára, n'outro tempo, aquelle Duarte Valdez tanto ou quê desarranjado pelas novellas, attribui ao seu romanticismo a parte odiosa no assassinio das duas senhoras.

Passados alguns segundos, fiz-lhe esta vulgarissima pergunta:

—Como as mataste tu?

—Despedaçando-as uma contra a outra.

Póde ser que o leitor esteja sorrindo; saiba, porém, que o tremor d'aquellas palavras vibrava tanto do seio do afflicto moço que uns calefrios me correram a espinha, e o turvamento das lagrimas me embaciou a vista. Situações analogas terá experimentado o leitor no theatro. Duas palavras, em uma ficção dramatica, exprimidas pelo actor que pintou os vincos da desgraça no rosto com fino pó de carvão, obrigam ás lagrimas pessoas que não chorariam, se a desgraça fosse com ellas.

—Chora, chora!—me disse elle, com vehemente exaltação.—Preciso que me chorem, porque... eu morrerei, adorando as duas mulheres que matei... e ninguem me ha de chorar.

—Pódes tu contar-me a tua historia?—perguntei eu.

—Posso... quero contar-t'a; mas receio que m'a não creias... A minha familia, e os medicos da provincia dizem que eu me deixo matar pela superstição, indigna da minha intelligencia... É um phantasma que me mata, dizem elles... Ah! se o vissem! se eu te podesse contar...

—Mas olha, Duarte, conta o que poderes... Eu hei de comprehender das tuas dôres alguma cousa mais que o vulgar dos homens. Até as superstições, se as tens, eu t'as entenderei; porque ha infortunios que não podem entender-se, sem a intervenção de alguma cousa sobrehumana.

—Pois então, vou contar-te a minha desastrada vida... Aquella infeliz menina que esteve na Foz, ha dez annos—começou Duarte com pausadas intercadencias—seria a minha bemaventurança, se eu não viesse a este mundo com a predestinação dos reprobos. Meu pai, desde que eu a tirei da casa paterna, ganhou-me entranhado odio; não por causa da culpa; mas com receio que eu remediasse a culpa com o casamento. O seu primeiro acto de vingança foi dar a casa a meu irmão, e reduzir-me a um patrimonio tão escasso que não chegaria ás minhas despezas de dous annos. Maria do Resgate era mais pobre que eu. Não desisti ainda assim de casar com ella. Pedi um emprego com a eloquencia da virtude desgraçada, já quando a minha subsistencia corria por conta dos paes de Maria. Estava eu em vespera de ser despachado amanuense do governo civil de Bragança, quando meu pai conseguiu inutilisar os esforços humilhantes que eu fizera para adquirir tão mesquinho emprego. Fui ajoelhar aos pés de meu pai: estava ao pé de mim, para me defender dos primeiros impetos da ira d'elle, minha mãi. Eu pedi-lhe simplesmente que não se oppozesse á minha collocação. Respondeu que se dava por aviltado, se seu filho fosse exercer tão ignobil occupação; e, sem me dar a confiança de questionar com o seu orgulho, disse que me dava recursos para estar dous annos em Lisbôa, ou o tempo necessario para me esquecer da filha do procurador de causas.

Minha mãi chamou-me de parte, e aconselhou-me que annuisse; na certeza de que, no espaço de dous annos, se eu não esquecesse Maria do Resgate, ella conseguiria o consentimento de meu pai.

Cedi forçado pela extrema necessidade. Maria, tão confiada em mim quanto eu confiava no meu proprio coração, accedeu na ausencia dos dous annos. Assim que eu sahi para Lisboa, sahiu ella para um convento de Bragança.

Cheguei aqui, e encontrei dinheiro em abundancia, amigos, relações, mulheres, liberdade, distracções, theatros, cêas, um desafogo de vida tão agradavel quanto amargurado me tinha corrido o ultimo anno.

Ás vezes, em meio dos meus divertimentos, assaltavam-me remorsos. Era então que eu respondia ás cartas apaixonadas de Maria, e perguntava a minha mãi se já tinha conseguido amollecer o duro coração de meu pai. Respondia-me que esperasse, e Maria respondia-me que esperava uma de duas cousas, que ambas lhe serviam: sahir da sua cella para mim ou para a sepultura. Os meus amigos viam estas cartas, e riam-se da minha credulidade.

Ao cabo de um anno, os remorsos que me incutiam as cartas, já nem a virtude tinham de as inspirar verdadeiras. Maria graduou por ellas o sentimento frio que as disfarçava, e disse-me que eu era tão ingrato que nem ao menos a deixava morrer enganada.

Aborreciam-me já as lastimas e a obrigação de as consolar. Sentava-me constrangido para lhe escrever. Já me queixava da sua pertinacia em me accusar de ingrato, quando ella mesma se acommodára á cruel necessidade da separação. Culpando-a de indiscreta, perguntava-lhe se quereria para mando um homem que teria de mendigar ou roubar para sustental-a. Aqui havia uma occulta infamia na mentira. Se eu pretendesse em Lisboa um emprego, tel-o-hia, sufficiente á sustentação de uma familia modesta; mas eu, desde que pisei os tapetes dos salões, pensava em ter salões com tapetes, e desde que as carruagens dos meus amigos me levaram aos theatros, desejei possuil-as para me desquitar de obrigações aos meus amigos. Eu estava perdido como meu pai me desejára; estava deshonrado bastantemente para desviar a imaginação da filha do procurador de causas, quando as titulares de Lisboa me perguntavam quem era a rainha dos bailes.

Ao fim de dous annos, minha mãi, quando eu já não perguntava o resultado das suas diligencias, avisou-me que meu pai vinha a Lisboa, na companhia de um nosso primo e de nossa prima, chegados do Brazil, com o proposito de nos visitarem.

Estes nossos primos eram naturaes do Rio de Janeiro. Alli ficára meu tio, pai d'elles, quando meu avô, que para lá fôra com o principe regente na qualidade de desembargador do paço, voltou para Portugal. Eu sabia d'estes parentes, e muitas vezes meu pai dissera que seria convenientissimo casar um de seus filhos com a prima brazileira, cuja fortuna rendia mais n'um mez que toda a nossa casa em um anno.

Confesso-te miseravelmente que me sobresaltou o aviso da vinda de minha prima. Vi salões com tapetes, e vi as suspiradas carruagens. Quem eu não vi foi a imagem de Maria do Resgate.

Minha prima Olinda era adoravel, ainda sem riqueza.

Este conceito que formei ao vêl-a e ouvil-a, dispensou-me de o formar, de mim, de grande villão. Amnistiava-me com a idéa de que, sendo ella pobre, eu a quereria para esposa. Amei-a, é certo que a idolatrei. Não tenho outra virtude que contrabalance com os meus delictos na presença de Deus, e d'ella e da outra desgraçada.

Havia dous mezes que Maria do Resgate me não escrevia, quando aqui chegou Olinda, e, passados dous mezes, sahia eu de Lisboa, casado com minha prima, a ir visitar minha mãi, para depois ir ao Rio receber os trezentos contos de minha mulher, e d'alli passarmos a residir em Lisboa, n'um palacio, com tapetes e carruagens.

Meu pai foi adiante preparar as festas da recepção, e ornamentar as salas para o baile, e a hospedagem para os convidados da nossa grande parentella.

Entrei profundamente triste na minha villa. As janellas da casa de Maria do Resgate estavam fechadas como se houvesse alli morrido alguem. Nas casas visinhas, havia senhoras e crianças que choviam abadas de flôres sobre o nosso carro.

Pouco depois que sahimos da mesa do jantar, atravessei com minha mulher a sala de espera, para descermos ao jardim. N'este transito, vimos sahir de um canto da sala uma mulher trajada de luto, que marchou de encontro a Olinda, sem levantar o véo espesso do rosto.

Não a conheci; mas mal podia suster-me de convulso.

—Que tens?!—disse minha mulher.—Esta senhora parece que tem alguma cousa que me dizer...

—Tenho, sim, minha senhora—acudiu a mulher de luto—v. exc.ª não me conhece nas salas de seu marido, porque eu sou a viuva de um pobre procurador de causas que morreu ha quinze dias, quando perdeu a esperança de vêr remediada a deshonra de nossa filha. Em quanto ella teve pai, embora perdida no conceito do mundo, tinha o pão, que seu pai lhe ganhava; mas agora, reduzida á orphandade, á pobreza, e á deshonra, venho implorar a v. exc.ª que a receba como sua criada, visto que foi seu marido que a perdeu. V. exc.ª fará o que a sua virtude e caridade lhe aconselhar.

E sahiu sem esperar resposta.

Estas palavras ouço-as ainda como se a alma da mulher que as disse m'as estivesse escrevendo na consciencia com um estylete de fogo.

—Que é isto?—perguntou-me minha mulher.

—É uma desgraça que eu te contarei—respondi torvamente.

—Conta-m'a já, e remediêmol-a sem demora—tornou ella.

Escondi-me com Olinda no mais sombrio do jardim, e tudo lhe referi com a sinceridade de um penitente. Ella ouviu-me com semblante carregado, avincando a testa, e ás vezes com signaes de compaixão, que de certo não era por mim.

Depois, ergueu-se, repelliu com brandura a minha mão que lhe acariciava o rosto e murmurou:

—Eu ignorava tudo isto. Desgraça irremediavel, já agora! Eu quero fallar com a mãi d'essa infeliz menina.

E assim que foi noite fechada, sahiu com um escudeiro, que a conduziu a casa da viuva do procurador.

Suspeito que a conferencia versou sobre a rica dotação de Maria do Resgate. A viuva repelliu a proposta, porque minha mulher voltando ao seu quarto, disse, como se ninguem a escutasse:

—As deshonradas... de certo não são ellas.

Até aqui—proseguiu Duarte Valdez—não ha nada maravilhoso na minha historia...

—De certo não; tudo vulgar—obtemperei eu que sabia centurias d'estas historias, cuja trivialidade nenhum romancista de tino hoje em dia aproveita da fardagem dos vicios communs.

—O horrivel maravilhoso começa agora—continuou Duarte.—Passados vintes dias, divulgou-se a noticia de estar moribunda no convento de Bragança Maria do Resgate. E em uma das seguintes noites, estando eu a dormir profundamente em um leito proximo do de minha mulher, acordei, sentindo no pescoço os apertões convulsos de duas mãos que me estrangulavam; e, abrindo os olhos, vi distinctamente nas trevas o rosto macerado de Maria muito perto do meu rosto; e, ao mesmo tempo que as suas mãos me asphyxiavam, sentia que o joelho d'ella me esmagava o coração. N'este lance dei um grito, e ouvi o estrebuchar de minha mulher, que soltava uns gemidos afflictissimos, como se lá sentisse angustias de suffocação iguaes ás minhas. Saltei do leito, e fui á recamara buscar a lamparina. Quando voltei, minha mulher estava de joelhos á beira da sua cama, com as mãos postas, com as faces cobertas de lagrimas, e os olhos esgazeados de terror.

—Que é isto, Olinda?—exclamei.

E ella, escondendo o rosto entre as mãos, murmurou:

—Vi agora a desgraçada menina que tu abandonaste. Já estava amortalhada. Era formosa como as martyres, e bem mais linda do que eu... Disse-me adeus... Sabia que eu tinha chorado por ella... Veio dizer-me que estava remida das suas dôres.

Eu não disse a Olinda que tambem vira Maria do Resgate.

O meu terror abafava-me a voz na garganta. Recorri á oração...—eu que desde a infancia não tinha orado. Fui ao quarto de minha mãi; acordei-a; pedi-lhe que viesse commigo para o oratorio. Contei-lhe as torturas da minha visão, e a visão de Olinda. Ella pegou de tremer e chorar. Se eu lhe dizia, sobre-posse, que a coincidencia dos sonhos podia acontecer, sem intervenção do phantasma de Maria, minha mãi não achava isto possivel, e mais me trespassava de horror.

No dia seguinte, chegou a noticia de ter expirado á uma hora da noite antecedente a reclusa do convento de Bragança. A pessoa que trouxe a nova, era encarregada de me entregar o maço de minhas cartas. Em volta das ultimas, que eu lhe escrevêra de Lisboa, havia uma cinta de papel e um escripto interposto com estas palavras:

 

Quando receber isto, que lhe deixo, para se convencer de que não ha testemunho escripto da sua crueldade, a mais feliz serei eu, porque estarei morta. O senhor de certo nunca será feliz, porque infamia e boa consciencia não se encontram juntas. Perdôo-lhe o que me fez: mas não posso perdoar-lhe a morte de meu pai nem o desamparo em que fica minha mãi.

 

Resta-me dizer-te—ajuntou Duarte, arquejando de cansaço e commoção—que minha mulher desde aquella hora nunca mais teve um instante de alegria nem saude. Viemos, passados dias, para Lisboa. D'aqui partimos para o Rio de Janeiro. Ao cabo de oito mezes, eu estava viuvo, e rico, muitissimo rico, e cada dia, cada hora mais desgraçado, mais combalido de uma enfermidade indescriptivel. Voltei ao seio de minha familia. Já não encontrei minha mãi; e a presença de meu pai coava-me nas veias um estremecimento de pavor. Ha cinco annos que arrasto esta vida sem a coragem de a despedaçar. Sinto ainda na garganta a pressão dos dedos fincados do phantasma. Ajoelho-lhe, alta noite, e imploro-lhe que me deixe morrer socegado. Peço á alma de minha mulher que suavise com palavras compassivas a vingança da desgraçada que deve estar na presença de Deus... Em fim...

 

E não proseguiu, porque n'este momento entrava o doutor Arantes, o previsto medico da casa da saude, que, sem ouvir esta narrativa, sabia que aquelle enfermo devia morrer, pela mesma razão mysteriosa que muitos atacados de semelhante morbus engordam e porejam saude por todos os orificios da sua enxundiosa epiderme.

*
*      *

Duarte Valdez, que ainda vi na vespera da sua ida para a Madeira, foi e não voltou. As supplicas de Olinda lograriam que a misericordia divina o resgatasse da presa do seu remorso.

Que segredos são estes da natura?

Perguntaria Luiz de Camões.

FIM DO 9.° NUMERO