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O Assassino de Macario: Comedia em tres actos cover

O Assassino de Macario: Comedia em tres actos

Chapter 21: Barnabé e Liborio
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About This Book

The play unfolds in an elegant setting, introducing Barnabé, who expresses frustration over his servant Sebastiana's tardiness. As he prepares for the day, he reflects on a dream about fishing and his aspirations for marriage. The dialogue reveals a humorous dynamic between Barnabé and Sebastiana, highlighting themes of laziness, domestic life, and the absurdity of dreams. The interactions are characterized by witty exchanges that explore the characters' personalities and their social roles, setting the stage for comedic situations that arise throughout the three acts.

SCENA IX

Barnabé e Liborio

BARNABÉ

(vendo Liborio) Olha o Liborio!... (á parte) que veio aqui fazer este typo?

LIBORIO

O meu parceiro do quino!...

BARNABÉ

O grande pandego por aqui?

LIBORIO

(á parte) E eu que ainda hontem estive a jogar com elle... Isto vae transtornar a patranha...

BARNABÉ

Então que feliz acaso o trouxe aqui a minha casa?

LIBORIO

A sua caza?... É celebre coisa! Eu não sabia que o amigo Barnabé era o pae da menina... Muito gôsto em o conhecer...

BARNABÉ

Ainda me não explicou o mais importante.

LIBORIO

Acabo de ter o prazer de communicar a sua filha uma tristissima noticia...

BARNABÉ

Sim? então que foi?

LIBORIO

(querendo sahir) Não... Já bastará... dispenso o bis... Ella cá lh'o contará...

BARNABÉ

(sustendo-o) Snr. Liborio, eu sou pae... ouviu?

LIBORIO

(á parte) A pequena é encantadora, e não será máo sondar o pae... (alto) O senhor conhece o Macario?

BARNABÉ

Muito... de mais.

LIBORIO

Vim annunciar-lhe que elle morreu.

BARNABÉ

(com jubilo) Que me diz?

LIBORIO

(admirado) Gosta?

BARNABÉ

(reconsiderando-se) Não... pobre moço... Sem duvida, deploro esse caso palpitante! mas em fim (alegremente) faz-me conta.

LIBORIO

Sim? Faz-lhe conta?

BARNABÉ

É o que eu lhe digo. Elle ia casar com a pequena... Consenti com muito custo. Não gostava do homem, eu; e persuado-me que minha filha se daria mal com elle. Por tanto, como individuo, lamento-o; como pae, exulto.

LIBORIO

(á parte) Isto vae bem, vae bem... mas então é inutil que eu o convença de que... (alto) Snr. Barnabé... (Leva-o para a esquerda) Psiu... Macario está de perfeita saude.

BARNABÉ

O Macario que morreu?

LIBORIO

Não é isso... não morreu...

BARNABÉ

Isso máo é!...

LIBORIO

Ahi vae o inigma em duas palavras. Macario fez á sua filha juramentos que não quer cumprir, percebe?

BARNABÉ

Diga o resto.

LIBORIO

E para fugir á vingança, pediu-me que viesse dar parte da sua morte.

BARNABÉ

É um caso bonito e extraordinario, esse...

LIBORIO

Eu fiz um relatorio em regra... um duelo em Braga, etc., etc., etc.

BARNABÉ

Ella havia de fazer ahi o diabo!... Ella não lhe bateu, hein?

LIBORIO

Não; mas soluçou, desmaiou, escabujou... Oh! soberba creatura na sua angustia!

BARNABÉ

Está alli uma linda viuva, não acha?

LIBORIO

A final quer que eu vá com ella a Braga.

BARNABÉ

O senhor?

LIBORIO

Eu e mais o senhor. Quer que vamos os trez.

BARNABÉ

Então desconfia da pêta?

LIBORIO

Não, senhor. Quer ir vingar a morte do noivo.

BARNABÉ

Toma!

LIBORIO

E exige que eu lhe diga o nome do assassino; e como até esta data o unico assassino de Macario sou eu...

SCENA X

Os mesmos e Itelvina, que vinha entrando pela direita, e, ao ouvir a ultima phrase, se esconde.

ITELVINA

(á parte) Que disse elle?

LIBORIO

Agora, já o meu amigo entende a minha atrapalhação...

ITELVINA

(á parte) A sua atrapalhação!...

BARNABÉ

Porque lhe não disse um nome qualquer?

LIBORIO

Não me occorreu essa idéa...

ITELVINA

(á parte) Que mysterio é este?

LIBORIO

Já vê em que entalas eu me acho... A cada instante, quasi que me estendia... Que colicas eu rapei! Eu não queria de modo algum que ella soubesse que...

ITELVINA

(á parte) Que horrores eu estou adivinhando!

BARNABÉ

Soubesse o quê?

LIBORIO

Jogo franco. Macario fallou-me de sua filha n'uns termos que espicassaram a minha curiosidade...

BARNABÉ

Com effeito... espicassaram-no os termos...

LIBORIO

Meu amigo, sympathiso com esta menina original...

ITELVINA

(á parte) Hein?

LIBORIO

É o que lhe digo... Amo as plantas exoticas... Gosto d'estes licores capitosos de fabrica estrangeira, e regeito os charopes amelaçados da fabrica nacional.

BARNABÉ

Em summa, o senhor gosta de minha filha...

LIBORIO

Deveras.

ITELVINA

(á parte) Elle ama-me!... que horror!

BARNABÉ

Querido Liborio! (á parte) Elle é rico... (alto) O seu pedido faz-me muita honra... mas...

LIBORIO

Recusa?

BARNABÉ

Acceito. (Dão-se as mãos).

ITELVINA

(á parte) Que revelação!

BARNABÉ

Mas o essencial é conquistar a vontade d'ella... Uma feliz lembrança! vamos partir todos para Braga...

LIBORIO

Parece-lhe?...

BARNABÉ

(gracejando) O senhor não se arrisca a encontrar o assassino de Macario, pois não?

LIBORIO

(rindo) É muito provavel que não...

BARNABÉ

Vocês viajam juntos; e em quanto finge que faz indagações, vae lhe fazendo a côrte.

LIBORIO

É isso, perfeitamente.

BARNABÉ

Eu vou tambem... bem me custa; mas em fim não ha conveniencias a guardar quando se trata do futuro de uma filha.

LIBORIO

Mil graças, snr. Barnabé.

BARNABÉ

Venha commigo ao meu quarto, e ajuda-me a fazer a mala.

LIBORIO

Com muito prazer! Estou contentissimo!

BARNABÉ

E então eu! Vi-me livre do Macario! Que bem fez o senhor em matar esse bigorrilha! (Entram pela esquerda)

SCENA XI

Itelvina

() Elle! foi elle o assassino de Macario! E meu pae sabia-o! e ambos elles querem que eu caze!... Mas que paiz é este... este Portugal... este mundo onde o assassino cubiça a noiva da victima! E pude conter-me! E não avancei para elle como uma leôa, como a pantera ferida! Oh! mas elle torna, e então... Não, não é com um golpe de punhal que elle hade morrer! Para crimes monstruosos é necessario vinganças excepcionaes! Hade morrer não a golpes de punhal, mas a picadellas de alfinete! Elle ama-me!... ama-me!... quer esposar-me!... por que não? por que não? Pois não é justo que o seu nome e a sua honra me pertençam? (ironica) Ah! com que jubilo eu não proferirei deante do sacerdote, o ditoso sim, a doce renuncia de mim toda! Nunca uma noiva apaixonada, mais ternamente, nunca uma solteirona de 35 annos terá proferido esse sim com maior exultação! Ah! parece-me que me estou vendo e ouvindo quando o padre me disser: «Recebe como esposo o snr. Liborio?» e eu com a coroa de virgem na fronte e a raiva no coração e a injuria nos labios e os olhos em terra, responderei «sim, sim, sim!» Ó meu Macario, conta com uma vingança desconhecida na Europa! uma vingança mexicana! Ah! lá da mansão celeste, tua derradeira morada, ver-me-has com ufania!... Vem gente... é elle!... Cala-te, meu coração!... Sorride meus labios! Silencio, minhas saudades! É forçoso! é forçoso!... (Senta-se junto ao piano).

SCENA XII

Liborio, Barnabé, Itelvina

BARNABÉ

(fóra) Confio-lh'a; mas não lhe dê grandes abalos. (Entra pela esquerda com Liborio).

LIBORIO

(com uma grande mala) Peza que tem diabo!

BARNABÉ

Peza, peza... Obrigado... Eu é que já não posso com isso.

LIBORIO

(vendo Itelvina, baixo a Barnabé) Cá está ella... Álerta!

BARNABÉ

Justo... Façamos caras dolorosas. (Avança e pára) Cuidei que ella estava arranjando as malas...

LIBORIO

(baixo) Está a pensar n'elle...

BARNABÉ

(aproximando-se em tom maguado) Itelvina, Itel...

ITELVINA

Quem me chama?

BARNABÉ

Ninguem... isto é, sou eu, teu pae. (Aponta para Liborio e faz com que ella o veja com a mala). Estamos promptos para partir...

ITELVINA

(como se não entendesse) Partir não entendo...

BARNABÉ

Não entendes? boa!... O snr. Liborio contou-me...

ITELVINA

Então já sabe?

BARNABÉ

Sim, sei. Que se lhe ha de fazer? A Parca é inflexivel!

ITELVINA

E o papá tem grande pena, não tem?

BARNABÉ

E que pena! aqui tens a prova... ali está a mala... Resigno-me a ir a Braga, auxiliar-te nas tuas indagaçoens.

ITELVINA

Quaes indagaçoens?

BARNABÉ

Então nós não vamos procurar o assassino de...

ITELVINA

(erguendo-se de golpe) O assassino de Macario?... (Avança para Liborio, que sustenta sempre a mala, e recua deante do olhar d'ella) O senhor que tem? que tem o snr. Liborio?

LIBORIO

Eu?... nada...

ITELVINA

Pensei que estava atarantado...

LIBORIO

Um pouco, com esta mala...

ITELVINA

(á parte) O remorso estrangula-o!... (alto) O senhor era amigo d'elle, não era? muito amigo d'elle, pois não?

BARNABÉ

Está bom, está bom... tem muito tempo de conversar na jornada...

ITELVINA

Qual jornada?

BARNABÉ

Pois nós não vamos a Braga?

ITELVINA

Fazer o quê?

BARNABÉ

Mas o snr. Liborio não me disse que tu...

ITELVINA

Ah! sim... no primeiro momento, queria... pensava mas mudei de tenção... Não vamos.

LIBORIO

(deixando cahir a mala) Hein?

BARNABÉ

Boa vae ella!

ITELVINA

De que serve procurar esse feliz contendor... O duelo é um jogo d'azar... e a minha vingança não se submette ao acaso... (Passa para a direita)

BARNABÉ

Apoiada! tens muita rasão! isso é que é ter juiso! (A Liborio) Está applacada!... Bravo!

LIBORIO

(á parte) É o arco da velha a annunciar trovoada.

SCENA XIII

Os mesmos e Sebastiana

SEBASTIANA

(entrando pelo fundo) Está o almôço na meza.

ITELVINA

Põe mais um talher.

BARNABÉ

Trez talheres?

ITELVINA

Pois então, meu pae! não ha nada mais natural... O snr. Liborio, que chegou de Braga, e que veio prestar-nos um serviço, não duvidará acceitar...

LIBORIO

Eu... mas... (á parte) Bem disse eu que era o arco da velha... (alto) com muito prazer.

ITELVINA

O seu braço, snr. Liborio. (Liborio offerece-lh'o e sobem).

SEBASTIANA

(á parte) Este será tambem um noivo?

BARNABÉ

(á parte) Que mudança ella fez!

ITELVINA

(para o pae) (Parando á porta do fundo) Então, meu pae? Vem? está a pensar no Macario, ou no assassino de Macario? Vamos almoçar. (Sahem).

BARNABÉ

(pensativo) Máo! máo! Bem dizia o Liborio... O arco da velha vae dar muita chuva... (Segue-os).

FIM DO 1.º ACTO

ACTO SEGUNDO

SCENA I

Itelvina, () Liborio, (no leito meio occulto)

(Ao correr do panno, a scena está alumiada pela lanterna, deixando na penumbra o leito. Quando corre o panno, Itelvina, erguida ao fundo sobre uma cadeira, pendura uma das botas de Liborio n'um painel; depois desce, pega da lanterna, examina a bota, e diz:) Bem... está como se quer... d'um bello effeito! Mas, se elle não visse... Ah! tenho aqui linha... (Põe a lanterna sobre a meza, e sacando da algibeira um novello de linha torna a subir á cadeira, prende a extremidade da linha á bota; e descendo, traça com o fio no taboado uma linha que vae até á meza sobre a qual põe o novello; ahi pega d'um bocado de gis, senta-se e escreve sobre a meza, fallando em voz alta.) «Seguir o fio». (Ergue-se, e vae ao pé do leito). Acordaria elle?... não. (Ouve-se resonar ao fundo) Elle resona, o miseravel resona! Condemnei-o a passar as oito primeiras noites de casado em uma completa solidão, e elle resona indifferente á minha auzencia! Antes assim!... Hoje entramos na nova crize, a crize das pequenas mizerias, as picadellas dos alfinetes antes das punhaladas... Vejamos se me lembrou tudo. (Senta-se á meza, e lê em uma carteira á luz da lanterna). «Despregar por tres lados os cortinados do leito para que lhe cáiam sobre o nariz.» Isso está feito e bem me custou...(Lendo:) «Furar os charutos». Já furei. «Polvilhar de pimenta o bonnet.» Já tem. «Coser os lenços ás algibeiras». Estão cosidos. «Esconder um dos chinelos e uma das botas; adiantar a pendula e atrazar o relogio; deixar-lhe só um tostão no porte-monnaie, e cortar os elasticos dos suspensorios». Está tudo feito. (Lendo:) Acordal-o de sobresalto para lhe causar um grande estonteamento». É o que se vae fazer. (Ergue-se e dirige-se com a lanterna para a porta da direita). Ah! Liborio, assassino de Macario, o céo é justo, e a hora da vingança soou! (Proferindo esta phrase, tira da algibeira uma pistola; dita a ultima palavra, dá um tiro e sahe fechando sobre si a porta. Completa escuridão.)

SCENA II

Liborio

() Ui! isto que foi? Que é isto? (Espreita por entre as cortinas). Entre quem é! Quem está ahi? Não é ninguem... quem foi que me acordou? Parece que ouvi um tiro ou um espirro enorme, não sei bem o que foi... Estaria eu a sonhar? Ninguem aqui vem espirrar de noite no meu quarto, e mais sou casado, casado ha oito dias! Tudo está em repouso, excepto a minha imaginação. Isto que horas serão? As cortinas estão fechadas... não se vê boia... escuro como um prego... Felizmente o meu relogio é de repetição (Toca na mola do relogio pendurado no espaldar do leito, e ouve 4 horas). Quatro horas! ainda quatro horas! Ah! as noites solitarias!... como são eternas! Vamos vêr se se adormece... (Deita-se, a pendula dá horas, e elle conta-as em voz alta, erguendo a cabeça a cada nova pancada). Uma, duas, tres, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez... Dez horas! Como dez horas! E o meu relogio que só dá quatro... (Assenta-se na cama) E são ambos do mesmo relojoeiro! Mas, se ja fôssem dez horas, eu devia estar a pé. Principiemos por abrir os cortinados. (Puxa pelas cortinas que cahem e o embrulham) Que é isto, com dez raios de diabos... Larguem-me, larguem-me!... Larguem-me o quê?! Grande besta que eu sou! Ninguem me prende... são os cortinados que eu agarro... que me agarram a mim. (Ao desembaraçar-se das cortinas cahe da cama ao chão) Que trapalhada é esta! o dia principia mal... Vou correr as cortinas e os stores. Não gosto da escuridão. (Abre: é dia claro) É dia claro! A pendula tinha rasão. Toca a vestir depressa. (Pega das calças e vae vestil-as atraz do fauteuil; calça um chinelo e procura o outro) Onde estará o outro sapato? Não me apparece senão este... Parece-me obra do diabo isto! Vou calçar as botas. (Depois de calçar uma) Onde está a outra? Como é isto de achar só um chinelo e uma bota? Seria a Sebastiana? Ella ficou de me chamar ás nove horas, e entraria sem eu dar fé... mas para que fim me levaria só uma bota? (Trata de cruzar um suspensorio que quebra) Irra! agora são os suspensorios! (Aperta o outro, enraivado) Que inferno este! (Quebra o outro) Lá vão ambos! (Atira-os ao chão) A fivela estará direita? está... segura-se... Valha-nos isso. (Procurando) O meu bonet? Está acolá... (cobre-se) A camisola? está aqui... (veste-a). Agora, vou procurar... (suspende-se) Mas se ainda é cedo... (espirra) que raio de cheiro a pimenta! Se a Sebastiana tivesse vindo, acordava-me como eu lhe ordenei... Não serão ainda nove horas? Receio de ir acordar... Vou fumar um charuto. (Pega de um charuto e phosphoro) O fumar de manhan aclara-me as ideas. Santo Deus, como é incommodo passear com uma bota e um chinelo! (Assenta-se á esquerda do gueridon) Em quanto Sebastiana não vem, recapitulemos os meus infortunios fumando um delicioso havano... (espirra) Que é o que cheira aqui tanto a pimenta? (Pretende accender o charuto) Era meia noite. Itelvina pertencia-me ao cabo de trez mezes de scenas exquisitas; ella tinha proferido, de manhan, com uma voz energica o sim encantador que me dava sobre ella direitos senhoriaes absolutos. Dançava-se no salão amarello, e havia uma hora que eu amaldiçoava os relogios (Não podendo accender o charuto atira-o ao fogão e vae buscar outro) que me pareciam todos parados. Annunciára-se finalmente a ultima quadrilha, os dançantes começavam a cancanizar-se um pouquito... (espirra) D'onde virá este cheiro a pimenta? Minha mulher dançava com o tabellião, e parecia muito emocionada... Eu attribuia a mim esta emoção que o tabellião não justificava de modo nenhum... Em fim, sôa a meia noute. (Ergue-se). Ouve-se um grito agudissimo... Corro e exclamo... (Atira fóra o segundo charuto) Que é o que tem estes charutos? (Pega n'um terceiro)... e exclamo: Céos! minha mulher! Itelvina estava desmaiada. Tinha torcido um pé quando polkava com o tabellião; e eis-me aqui, á meia noute, a primeira das minhas nupcias, á procura d'um indireita. A final, topo um; e cuidando que á meia hora depois da meia noite, tinha direito a examinar o estorcegão do pé da minha esposa, entro com a faculdade algebrista até ao seu leito de dôr. (Accende o terceiro charuto) Baldada esperança! Nega-se-me obstinadamente este primeiro favor, e sou obrigado a esperar n'um quarto proximo, com o papá Barnabé, a sahida do doutor que, depois de um quarto d'hora de angustias, veio em fim declarar-nos que uma forte distensão dos ligamentos, uma contracção terrivel da articulação, reteriam minha mulher quinze dias de cama; e com effeito, depois... T'arrenego, diabo! este charuto está rôto! E os outros? (Examina a caixa) Estão todos estripados! (espirra) Com toda a certeza, tenho pimenta nas ventas! (Tira o bonnet) Ah! aqui está a pimenteira! É possivel!... como é isto? Sebastiana mette a pimenta no meu bonnet... (atira-o fóra) para o preservar do bicho... hade ser isso, mas ella é idiota!... (espirra) Que é do meu lenço? Está cosido! Cozeram-me o lenço á algibeira, como aos rapasinhos de escola... Ah! isto é um cumulo! (Puxa por um cordão de campainha proximo á cheminé) Não me importa acordar toda a gente! (sacode a campainha).

SEBASTIANA

(fóra) Lá vae, lá vae, senhor!

LIBORIO

Vamos a esclarecer isto tudo...

BARNABÉ

(fóra) Que banzé é este?

LIBORIO

O sôgro... sôgro de mão cheia... (gesto ironico. Barnabé e Sebastiana entram pelo fundo).

SCENA III

Sebastiana, Liborio, Barnabé

SEBASTIANA

O senhor está doente?

BARNABÉ

Será preciso chamar os bombeiros?

LIBORIO

(a Sebastiana) Vem cá... e responde.

SEBASTIANA

Quem, eu?

BARNABÉ

Que tem o meu genro?

LIBORIO

Passados cinco minutos, tem-me ás suas ordens. (a Sebastiana) Vem cá... Que horas são?

BARNABÉ

Então foi para saber que horas eram...

LIBORIO

Snr. Barnabé, não é comsigo que eu fallo. (a Sebastiana) Quantas horas são?

SEBASTIANA

Oito e meia, senhor.

LIBORIO

Por que é então que o meu relogio tem quatro e a pendula dá dez e meia?

SEBASTIANA

Eu sei cá! pergunte-o ao relojoeiro.

BARNABÉ

Ella tem rasão; o seu officio não é esse. Ella de pendulas não percebe nada.

LIBORIO

Espera um pouco. (a Sebastiana) Por que metteste pimenta no meu bonnet?

SEBASTIANA

Eu?! que metti eu?

BARNABÉ

Sim... isso lá da pimenta é com ella... Responde sobre a pimenta, rapariga!

LIBORIO

Por que furaste os meus charutos?

SEBASTIANA

Eu furei os seus charutos!...

BARNABÉ

Ella furou os charutos?... Tu furaste... (a Sebastiana)

LIBORIO

Por que me coseste os lenços ás algibeiras?

SEBASTIANA

Olha que espiga!

BARNABÉ

Pois tu coses os lenços?...

SEBASTIANA

Isso é falso, senhor!...

LIBORIO

(mostrando) Estão cosidos ou não estão cosidos?

SEBASTIANA

Eu cá não fui.

LIBORIO

E os cortinados do leito... e os chinelos que deviam estar aos pés da cama...

BARNABÉ

Nos seus pés, quer dizer o meu genro.

LIBORIO

Meu sogro, queira amordaçar o seu espirito que me está arreliando. (a Sebastiana) Em fim, responde, explica-te.

SEBASTIANA

Não percebo patavina.

BARNABÉ

E dois.

LIBORIO

Não percebem que se está aqui representando uma magica de pessimo gosto... uma diabrura de auctores anonymos...

BARNABÉ

Não está má essa! O senhor disfructa-nos!

SEBASTIANA

É lá possivel a diabrura! cruzes, canhoto!

LIBORIO

Desde esta manhan estou sendo uma almofada em que mão desconhecida espeta alfinetes... Notem isto... Aqui está uma bota. Pergunto eu: onde está a outra? Aqui está um chinelo; e o outro onde está?

SEBASTIANA

(procurando) Eu procuro... (Aproxima-se da meza e vendo o que está escripto) Esperem lá!... (Lendo) «Seguir o fio.»

LIBORIO

(approximando-se) Seguir o fio?!

BARNABÉ

(o mesmo) Então sigamos o fio. (Seguem os tres o fio da linha. Sebastiana á frente vae innovelando o fio. Barnabé atraz) Onde vae isto parar? (Vão indo até chegar á parede) A linha aqui, trepa! (Levantam as cabeças).

SEBASTIANA

(vendo a bota) Olha!

BARNABÉ

É ella!

LIBORIO

A minha bota!

BARNABÉ

A sua bota!

SEBASTIANA

É verdade, a bota!

LIBORIO

(passando para a direita) Quem a pendurou acolá?

SEBASTIANA

(tirando a bota para baixo) Eu não fui.

BARNABÉ

Menos eu.

LIBORIO

Por consequencia...

SEBASTIANA

O snr. Liborio tem estado a mangar comnosco... Isto é uma chalaça... não ha que vêr...

LIBORIO

Hein?

BARNABÉ

(rindo) O meu genro hade ser sempre um pandego...

SEBASTIANA

Quiz-nos impingir esta comedia.

LIBORIO

Irra! Foste tu; olha que te ponho no olho da rua!...

SEBASTIANA

Oh senhor!...

BARNABÉ

Como imagina o senhor que esta rapariga...

LIBORIO

Se não foi ella... foi o senhor.

BARNABÉ

Meu genro!... ousar desconfiar que um antigo negociante...

LIBORIO

Tem razao... seria espirito de mais para um antigo negociante... Mas o certo é que nós aqui não sômos senão trez. Minha mulher não póde ser, porque está de cama com um pé torcido.

BARNABÉ

A respeito d'isso, parece que ella está melhor do pé... O senhor sabe que ella está melhor do pé...

LIBORIO

Como eu que sei?

BARNABÉ

Eu ouvi o meu genro esta noite abrir a porta do quarto d'ella.

LIBORIO

Eu?

BARNABÉ

E que balburdia o senhor fez!...

LIBORIO

Eu?

BARNABÉ

Se não receasse ser indiscreto, vinha cá abaixo.

LIBORIO

O senhor está doudo! Eu não sahi d'aqui!

BARNABÉ

Ora, deixe-se d'isso...

SEBASTIANA

(reflectindo) Achei o que é... Já sei...

LIBORIO

(vivamente) Achaste quem é que manga comigo?

SEBASTIANA

É o senhor mesmo.

LIBORIO

Eu?

BARNABÉ

Elle? dize lá...

SEBASTIANA

(a Barnabé) Eu tive um primo que fazia o mesmo... levantava-se de noite...

BARNABÉ

Um somnambulo! Ella tem razão... O snr. Liborio é somnambulo.

SEBASTIANA

É isso, é isso, somnambulo...

LIBORIO

Eu somnambulo!... está bem!... fico sciente!...

SEBASTIANA

É que o senhor não se lembra do que fez. Uma noite, meu primo, entrou pelo meu quarto dentro, e abraçou-me; e eu como sabia que é um perigo acordar os somnambulos, nada lhe disse, e elle ao outro dia não se lembrava de nada.

LIBORIO

É lá possivel que fôsse eu!...

BARNABÉ

Então quem havia de ser?

LIBORIO

É assim... é--está tudo bem explicado... mas será dificil fazer-me crer que eu a dormir rompesse os meus charutos, que deitasse pimenta no meu bonnet e cozesse os meus lenços.

BARNABÉ

Aqui estou eu que fui somnambulo quando era pequeno, e escrevia os traslados a dormir...

LIBORIO

(á parte) Estou inquieto... (Alto) Meu sôgro, e tambem tu, Sebastiana, peço-lhes que não digam nada do acontecido a minha mulher.

SEBASTIANA

Eu cá por mim...

BARNABÉ

Fique na certeza...

LIBORIO

(scismando) De mais a mais, eu não sei cozer... Como é possivel que eu soubesse cozer a dormir?...

SEBASTIANA

Ó meu senhor, o meu primo só sabia abraçar-me quando estava a dormir... Chama-se a isso vista dobrada.

LIBORIO

(á parte) Este caso faz-me desconfiar...

SCENA IV

Os mesmos e Itelvina

ITELVINA

(fóra) Quem me acode, quem me acode!

BARNABÉ

Minha filha!

SEBASTIANA

Senhora!... (Todos se dirigem para a porta da direita que se abre para dar passagem a Itelvina que entra em toilette de noute com a perna direita ligada encostando-se á parede).

ITELVINA

Socorram-me... uma cadeira... amparem-me... (Liborio e Barnabé pegam em Itelvina em quanto Sebastiana puxa a cadeira para o centro da scena).

BARNABÉ

Pois tu ergueste-te?

LIBORIO

Então isso como vae? melhorzinha?

ITELVINA

Pelo contrario... cada vez peor.

LIBORIO

Era melhor ter tocado a campainha.

ITELVINA

(deixando-se cahir no fauteuil) Ai! devagar, devagar... Sebastiana, um banquinho...

LIBORIO

(chegando-lh'o) Aqui está... venha uma almofada... (Sebastiana traz a travesseirinha que elle colloca sobre o banquinho; depois quer pegar na perna da mulher) Com licença...

ITELVINA

Não lhe toque... Ai! a menor pressão... (pondo a perna sobre o banco) Ai!... como eu estou!... (Sebastiana tem passado para a direita).

BARNABÉ

Para que te ergueste tu?

ITELVINA

Eu estava melhor... quiz experimentar... E, depois que me levantei, achei-me tão boa, que pensei poder vir até cá; mas receio bem ter aggravado o mal...

LIBORIO

(á parte) Vamos bem!... o casamento está para demora... O meu matrimonio está pendente d'um pé desnocado... Se isto não fôr pé de cantiga, fico toda vida a fazer pé de alferes a minha mulher coixa.

BARNABÉ

(que tem estado a conversar com a filha) Fizeste muito mal em te levantares... Eu não posso demorar-me por que tenho de fallar com o José Francisco Braga que me quer ceder a quinta da Carriça... E, como não pude arranjar a de S. Mamede de Infesta, vou-me lá.

ITELVINA

Então o pae quer deixar-nos? Muda de casa?

LIBORIO

Ó meu sôgro!... (á parte) Não seria máo...

BARNABÉ

Sôgro... precisamente... um sôgro entre uns casados que se adoram, é incommodo... é emprasador...

ITELVINA

Ora...

LIBORIO

Ora... (á parte) Diz muito bem...

BARNABÉ

E, n'esse caso, resolvi... com muito pezar... com muita saudade... ir viver sósinho... o que me hade custar muito... na aldeia... É um sacrificio... vou victimar-me á felicidade dos meus filhos... E além d'isso, está no meu gosto... a meditação... divagar solitario no seio da natureza...

ITELVINA

Então não o demoramos, meu pae; mas esperamo'l-o para o almoço.

BARNABÉ

Não será possivel... Tenciono almoçar no botequim... Não gosto de almoçar de garfo; prefiro o meu café com leite, uma torrada, e o Primeiro de Janeiro que é tudo leve.

ITELVINA

Plena liberdade...

BARNABÉ

Liberdade... liberdade...! E, se tu agora peorasses...

ITELVINA

Não... eu sinto-me melhor... Sebastiana ficará ao pé de mim, e se fôr preciso, o Liborio vae chamar o medico.

BARNABÉ

E eu não me demorarei muito tempo... Se o José Francisco lá estiver, antes do meio dia volto a casa... Vou tratar depressa este negocio... Então é verdade que estás melhorsinha?

ITELVINA

Sim... n'este momento quasi que não soffro.

BARNABÉ

Então vou acabar com isto... Meu genro, aqui lh'a entrego...

LIBORIO

Vá descançado, meu sôgro.

BARNABÉ

(abraçando Itelvina) Até logo, minha Lili... Vou-me já safando, por que, se fôsses a peor, teria de ficar, e fazia-me desarranjo. (Sahe pelo fundo).

LIBORIO

(acompanhando-o) Arrange lá os seus negocios e não se apresse...

SCENA V

Itelvina, Sebastiana e Liborio

ITELVINA

(á parte) Vou em fim saber o resultado das minhas primeiras picadellas de alfinete.

LIBORIO

(voltando de bom rosto para junto de sua mulher) A senhora aqui... na minha alcôva... Que surpreza!

ITELVINA

Ora esta! O senhor traz uma bota e um chinelo?!

LIBORIO

Foi a Sebastiana que...

SEBASTIANA

Eu? E elle a dar-lhe...

LIBORIO

Ou eu... É muito possivel que fôsse eu... Eu tenho padecido tanto depois do nosso casamento... que posso estar doudo... (Ergue-se).

ITELVINA

(á parte) É possivel que elle se persuada...

SEBASTIANA

(ao pé do leito) Ora esta! as cortinas estão rasgadas! quer vêr?

LIBORIO

É isso, é isso; fui eu... Quando me erguia, puxei pelos cortinados, e zás!... é preciso chamar o estofador.

ITELVINA

(á parte) Está persuadido que foi elle...

LIBORIO

(á parte) Ella acredita que eu sou somnambulo!...

SEBASTIANA

(arrumando) Este quarto está n'uma felga...

LIBORIO

(á parte) A mulher é capaz de ficar... Detestavel creatura!

ITELVINA

(olhando para a pendula) São onze horas?

LIBORIO

(á parte) Ai! já onze!

SEBASTIANA

Não, minha senhora, só são nove horas... Eu não sei como isto seja! A pendula do senhor adianta-se, e o relogio atraza-se.

LIBORIO

Como será isso? entende-se bem... é muito simples... Sou eu que desmancho tudo... Como heide eu andar direito, se o pé torto de minha mulher não me sáe do espirito?!

ITELVINA

Pobre Liborio! (á parte) Elle será tão estupido? (Alto a Sebastiana, mostrando-lhe os suspensorios que estão no chão) Sebastiana, levanta isso.

SEBASTIANA

(erguendo os suspensorios) O senhor estragou assim os seus suspensorios?

LIBORIO

É verdade, é verdade... Foi de proposito.

ITELVINA

De proposito?

LIBORIO

Encommodavam-me. (á parte) A creada já me inoja...

ITELVINA

(á parte) Como elle é tão philosopho, dobrarei a doze...

LIBORIO

(a Sebastiana) Sebastiana...

SEBASTIANA

Senhor.

LIBORIO

Seria bom tratar do almoço.

SEBASTIANA

Sim, meu senhor; mas, se a senhora precisar de mim?

LIBORIO

Se precisar, chamo-te... Faze um almoço ligeiro, refrigerante. (Sebastiana tem passado para a direita).

ITELVINA

Eu tinha dado as ordens; mas, se as não approva...

LIBORIO

Eu? tudo o que a minha esposa quizer é o que eu quero... Sebastiana, vae preparar o almoço que a senhora ordenou.

SEBASTIANA

Sim, meu senhor. (Sae pelo fundo).