SCENA VI
Itelvina e Liborio
ITELVINA
Ah! tu queres um tête-à-tête... Vamos a isso...
LIBORIO
(á parte) Sosinhos! estamos sosinhos! (com transporte, sentando-se ao lado de Itelvina) Ah! Itelvina! Minha esposa! querida...
ITELVINA
LIBORIO
Desculpa a minha perturbação!... esta emoção!... este primeiro tête-à-tête... porque é o primeiro... o primeiro... depois que és minha mulher, e que me pertences, Itelvina!... por que tu és minha, és o meu bem, o meu thesouro, a minha vida...
ITELVINA
Sim, Liborio; somos um do outro, são inseparaveis os nossos destinos... Eu sou sua como o senhor é meu... O senhor póde esquecer isso... eu é que jámais!...
LIBORIO
Esquecer, esquecer, eu! Se tu soubesses as noites tormentosas que eu passo!... o que me custa a adormecer... as reflexões que precedem o meu somno... os sonhos que o acompanham... Queres que eu t'os conte?
ITELVINA
Pois sim, conte lá.
LIBORIO
(erguendo-se) Ás vezes, vejo-te sahir d'uma floresta como a Armengarda do Alexandre Herculano das penhas da Covadonga; outras vezes estamos os dois n'um paraizo terreal como Adão e Eva... e eu a apertar-te ao coração (aproxima-se) a apertar-te... (Cinge-a com os braços).
ITELVINA
(gritando) Ai! ai!
LIBORIO
(recuando) Tu que tens!
ITELVINA
Ah! que dôres!
LIBORIO
(á parte) Diabolico torcegão!...
ITELVINA
Isto passa... não é nada... foi um geito que o senhor me fez dar. (com a voz natural) Póde continuar, meu amigo.
LIBORIO
Em que estavamos nós?
ITELVINA
LIBORIO
É verdade, um ao lado do outro.
ITELVINA
O senhor abraçava-me...
LIBORIO
Mas, presentemente, não me atrevo...
ITELVINA
Isso não faz nada ao caso... o abraço era a sonhar...
LIBORIO
Itelvina!
ITELVINA
Liborio!
LIBORIO
O nosso cazamento não é um sonho... pois não?
ITELVINA
Decerto não, meu amigo.
LIBORIO
E todavia...
ITELVINA
E todavia...
LIBORIO
Olha, Itelvina, eu queria que o pé torcido fôsse meu; ainda que tivesse torcidos ambos os pés não deixaria de me lançar nos teus braços... Não ha supplicio comparavel... Ah! Tantalo no meio da agua, debaixo de arvores carregadas de fructos que elle não podia trincar... Eis a minha posição!... a arvore... és tu! Tantalo, sou eu! Tenho fome, e não posso comer... Horrivel!
ITELVINA
Então o senhor padece muito, não é verdade?
LIBORIO
Até ao extremo de me tornar cruel e insensivel ás tuas dôres... Quando ahi te vejo, face a face, não ouço senão a minha paixão e... (abraça-a)
ITELVINA
Ai! ai! meu Deus! ai!
LIBORIO
(erguendo-se) Não, não, não... nada de novo... mesmo nada... (á parte) Tudo como d'antes... Quartel general d'Abrantes...
ITELVINA
Ai que dôres! que dôres lancinantes!
LIBORIO
Se sou o culpado, peço desculpa...
ITELVINA
Ah!... vae passando... adormece... Ah! respiro! (tom natural:) Póde continuar, meu amigo.
LIBORIO
Continuar... o quê?
ITELVINA
Isso que me estava contando... que era muito bonito...
LIBORIO
(á parte) Ella parece innocente como uma ovelhinha recem-nascida! (alto) Minha senhora, se me dá licença, ataremos o fio partido do cavaco quando a senhora estiver san.
ITELVINA
Mas... por quê?
LIBORIO
Porque esta palestra... agita-me... agita-me bastantemente.
ITELVINA
Ah! sim? então fallemos d'outra coisa.
LIBORIO
Sim... de coisas frias... historias da Siberia... Fallemos do Marão, da Serra da Estrella.
ITELVINA
Diga-me cá, não o incommoda andar com uma bota e um chinelo?
LIBORIO
Incommoda-me horrivelmente... e, se me dás licença, calço a outra.
ITELVINA
Se dou licença? ora essa... Póde calçar.
LIBORIO
(calçando a outra bota) De mais a mais, este acto não é por nenhuma maneira provocante nem estimulante... até acho que faria bem em me vestir... (tira a camisola)
ITELVINA
Vestir-se?
LIBORIO
Sómente vestir um colete e uma rabona (á parte) Creio que um marido, sem faltar á decencia... (Emquanto falla, vae abrir o gabinete da toillete, e recebe na cara o outro chinelo que pendia d'uma guita) Cá está o outro chinelo!
ITELVINA
Tinha-o perdido?
LIBORIO
Nada, fui eu... Estou no habito de todas as noites...
ITELVINA
Pendurar um dos chinelos no gabinete de toillete...
LIBORIO
Sim... isto é... quero dizer... Ordinariamente penduro os chinelos... não, eu ponho-os ambos aos pés da cama; mas aconteceu que pendurei este...
ITELVINA
(á parte) É admiravel! nada o espanta! Forte idiota!
LIBORIO
(á parte, tirando a gravata do gabinete) É inevitavel que eu seja somnambulo... acabou-se... sou somnambulo.
ITELVINA
É singular coisa! Tenho momentos em que não me doe nada o pé... perfeitamente bôa...
LIBORIO
Esses momentos duram pouco (Procurando atar a gravata) Não me ageito!... maldita gravata... estou muito perturbado...
ITELVINA
Quer que o ajude, meu amigo?
LIBORIO
Agradeço, mas receio...
ITELVINA
Venha cá... pois eu não sou sua mulher?
LIBORIO
Ah!
ITELVINA
O senhor diz ah!
LIBORIO
Eu cá me intendo... (Ajoelha aos pés da mulher estendendo-lhe o pescoço e dando-lhe a gravata) Tu não me percebes... mas eu é que me comprehendo... Mysterios...
ITELVINA
(sorrindo) Então tem segredos para mim, Liborio?
LIBORIO
Ah! Itelvina! que gentil, que formosa tu és! (Itelvina aperta a gravata) Ai!
ITELVINA
(ingenuamente) Que tem?
LIBORIO
É que me afogas!
ITELVINA
É por que o senhor mexe-se.
LIBORIO
Eu mexo-me por que tu me asphixias.
ITELVINA
(maviosamente) Esteja assim quietinho... para eu lhe fazer um lindo laço. (Elle quer abraçal-a).
ITELVINA
LIBORIO
(erguendo-se) Não, não... não me lembrou... (á parte) Apre! que situação! (Passa para a esquerda, e vae vestir o collete e a rabona que tira do gabinete).
ITELVINA
Que dôres! que dôres!
SCENA VII
Os mesmos e Sebastiana
SEBASTIANA
(entrando pelo fundo) Está prompto o almoço, senhora. Onde quer a meza?
ITELVINA
Não tenho appetite...
LIBORIO
Nem eu tão pouco, a não ser que... Que ha que almoçar?
SEBASTIANA
Ostras cruas, pasteis de camarão e sallada de lagosta.
LIBORIO
Ui! querem-me incendiar!
ITELVINA
Não gosta do almôço?
LIBORIO
Ha occasiões, menina, ha occasiões... mas, no estado actual, o que eu precisava era limonadas e orchatas.
ITELVINA
Porque não vae almoçar com meu pae ao botequim?
LIBORIO
Pensa que eu a deixava...
ITELVINA
Não tem duvida... vá que eu preciso descançar.
LIBORIO
Tambem eu...
ITELVINA
Cá fica a Sebastiana... Vá e demore-se por lá, que eu preciso dormir.
LIBORIO
(que passou para a direita) Pois bem, seja assim; vá dormir, que eu vou tomar um pouco d'ar. (á parte) Ah! Itelvina, Itelvina, por que polkaste tu com o tabellião! (Sahe pelo fundo).
SEBASTIANA
(que passou para a esquerda) Então, pelo que vejo, ninguem almoça...
ITELVINA
Depois, Sebastiana, depois... mas tu não esperes. Almoças quando tiveres vontade.
SEBASTIANA
Eu não posso deixar a senhora sósinha...
ITELVINA
Pódes... Vou dormir... Vae, e fecha-me esta porta. (Sebastiana passa para a direita) Olha, para eu não acordar estremunhada, espreita, e quando o senhor vier, vem prevenir-me.
SEBASTIANA
Sim, minha senhora. (á parte) Ella quer aqui dormir sósinha... porque será? (Sahe pelo fundo).
SCENA VIII
Itelvina
(só) (está um instante quieta, mas, logo que a porta se fecha, desata precipitadamente as tiras que lhe ligam a perna, e entra a caminhar rapidamente). Ah! sim? tu comerás o almoço incendiario... hasde comêl-o por força! quando só encontrares no teu porte-monnaie um tostão para pagar o leite e as limonadas, é natural que voltes ao teu posto... Essa felicidade espero eu têl-a. Seja como fôr, vou tratando de armar as engenhocas para a noite que vem. Comecemos pelas campainhas de que elle abusa... Onde acharei eu com que as corte? (Vae ao gabinete da toilette e encontra lá uma faca de mato) Uma faca de mato! Ah! tu tens facas nos teus guarda-roupas?... tens!... está bom... esta hade servir-me... Vamos primeiro cortar... Cortar, não! (Atira com a faca para dentro do gabinete que fecha) O que se deve quebrar é o arame... Ah!... com a cadeira sobre o leito, chego acima... (Pega da cadeira, que põe sobre a cama, e sobe acima cantarolando. Ergue-se, de costas para a parede, e pega no arame com as mãos ambas) Oh! c'os diachos! parece-me muito rijo!... An! é puxar... (ouve-se tilintar a campainha) Ai que eu toquei! Se a Sebastiana me vê aqui...
SCENA IX
Itelvina e Sebastiana
SEBASTIANA
A senhora chamou?
ITELVINA
Ai!
SEBASTIANA
Onde é que está? (Vendo-a) Ah!...
ITELVINA
Sio! cala-te!
SEBASTIANA
Foi a senhora que...
ITELVINA
Cala-te, que te heide dar uma prenda.
SEBASTIANA
Então que quer que eu faça, senhora?
ITELVINA
Espera ahi. (Puxando pelo fio) Záz! Záz! Está quebrado! (Quebra o fio, e o mesmo tilintar da campainha continua).
SCENA X
As mesmas e Liborio
LIBORIO
(entrando pelo fundo quando sôa a campainha) Ella a chamar, a minha querida a chamar...
SEBASTIANA
Ui!... meu Deus!...
ITELVINA
Oh! co' a breca! Estou aviada!
LIBORIO
(não encontrando a cadeira em que Itelvina ficou sentada e passa á esquerda) Como é isto? Ella não está aqui? (Vendo-a) Ólé!
ITELVINA
(sempre sobre a cadeira; e com a maior naturalidade) Então já por cá?
LIBORIO
ITELVINA
Como estava melhor do pé, quiz experimentar um passeio.
LIBORIO
Passear lá por cima?... Ah! tudo se explica! O somnambulo não era eu... eram vocês as duas que...
SEBASTIANA
Ó senhor! os diabos me leve se...
LIBORIO
Retira-te.
SEBASTIANA
Mas senhor... Raios me parta, se...
LIBORIO
(avançando para ella) Rua! rua!
SEBASTIANA
Rua?... mas...
LIBORIO
Safa-te, ou eu... (Sebastiana dá um grito e foge pelo fundo. Liborio dá um pontapé no banquinho).
SCENA XI
Liborio e Itelvina (Durante estas ultimas fallas, Itelvina desce serenamente da cadeira, depois desce do leito, e ahi fica fria e impassivel).
LIBORIO
(fechando a porta do fundo, e approximando-se de Itelvina) Agora nós dois, senhora! (silencio de Itelvina). Quando eu entrava no botequim, a inquietação fez-me regressar... Vejo que fiz bem... (silencio) Que geringonça é esta? queira responder.
ITELVINA
Geringonça, dizes tu? perguntas-me que geringonça é esta?
LIBORIO
Sim!... pergunto e quero saber.
ITELVINA
(formalisada) Liborio, tu esmagaste o coração de uma mulher, o seu primeiro amor...
LIBORIO
ITELVINA
Despedaçaste a minha vida, cobriste o meu céo com um crepe negro!... Assassinaste Macario!
LIBORIO
Lerias!
ITELVINA
Atráz, assassino! atráz, que me horrorisas!
LIBORIO
Como? então é p'ramôr d'isso que?... Ora adeus! isso é pêta... eu não matei Macario nenhum.
ITELVINA
Pois tu não assassinaste Macario?
LIBORIO
Não tinha eu mais que fazer!... E a prova é que Macario está vivo e são.
ITELVINA
Macario vive?
LIBORIO
(reconsiderando) Eu cá de mim não o matei... (á parte) que ia eu a dizer? Ella ama-o! e, se sabe que elle vive, temos novo chinfrim...
ITELVINA
Ah! tu negas? não tens a coragem do teu crime?
LIBORIO
Itelvina, palavra d'honra!... Quem te disse?...
ITELVINA
Nada de questoens... Você está condemnado!
LIBORIO
Condemnado!
ITELVINA
Eu fiz um juramento, Liborio! e na minha patria não se quebram juramentos!
LIBORIO
Isso nós veremos depois... A senhora jurou de encher de pimenta os meus carapuços? coser os meus lenços?...
ITELVINA
Isso era um preludio... a farça antes da tragedia...
LIBORIO
ITELVINA
Para vingar Macario, cumpria que a sua vida me pertencesse, e por isso casei comsigo!
LIBORIO
Então foi só para isso que...
ITELVINA
Unicamente para me vingar, e nunca pelos seus attractivos, percebe?
LIBORIO
Mas a senhora, casando comigo, tambem me deu a sua vida e...
ITELVINA
A minha estava despedaçada... O sacrificio que eu lhe fazia era d'uns pedaços da minha existencia.
LIBORIO
Mas a senhora sabe que eu sou uma especie de balão que não obedece ao movimento de vontades alheias?
ITELVINA
Os baloens obedecem ao capricho do vento, e os homens ao capricho das mulheres.
LIBORIO
Sim? estou com curiosidade de vêr isso...
ITELVINA
Eis o meu programma: (Com energia) Quero que cada um dos teus dias seja uma catastrophe! cada uma das tuas horas uma tortura! cada um dos teus minutos um grito de dôr!...
LIBORIO
(com ironia) Diga lá o resto.
ITELVINA
Heide fazer-te tragar todas as amarguras! cravejar-te com todos os punhaes!... passarás a vida sobre umas grelhas como S. Lourenço, e eu de vez em quando a voltar-te nas grelhas... e tu a arder, a rechinar... oh!...
LIBORIO
Que enorme têlha!
ITELVINA
É o teu futuro!
LIBORIO
Mas é que eu fujo-te... podéra!...
ITELVINA
E eu vou atraz de ti. Sou tua mulher; a lei obriga-te a receber-me.
LIBORIO
Excellente separação de corpos a que já estou habituado!... Divorcio-me.
ITELVINA
E as provas? Pensas no divorcio? Cuidas que eu não previ já esse caso muito natural de me quereres escapar? Eu já li o teu codigo civil. Ninguem se separa sem provas e testemunhas; e tu nunca hasde arranjar testemunhas nem provas. Mulher mais terna do que eu, em publico, não hade haver segunda, heide acariciar-te, ameigar-te, se fôr preciso, que isso me não custa nada...
LIBORIO
(á parte) Irra! estou a sentir uns calefrios na espinha...
ITELVINA
Em publico, serás o meu amante, o meu heroe, o meu Deus! Serás um mortal ditoso e invejado!... possuirás uma gentilissima esposa, dedicadissima... e, se, um dia, ousares queixar-te de mim, se promoveres o divorcio, passarás por um monstro extraordinario, por um ignobil... malandro!
LIBORIO
(á parte) Isto é o José do Telhado disfarçado em mulher!
ITELVINA
(indo para Liborio que passa á esquerda) Mas o anjo das salas será o demonio dos lares! quero que a tua vida se teça de espinhos dilacerantes. Não entrarás em tua casa sem cahir n'uma esparrela! Não poderás sahir sem te palpitar uma desgraça imprevista. E este amor... este amor que me pedias, heide dál-o a outro!
LIBORIO
Oh! Shocking!
ITELVINA
Sim! heide cuspir na tua honra!
LIBORIO
(furioso) Senhora!
ITELVINA
Eis o teu futuro, Liborio! eis o teu futuro! (sahe pela direita).
SCENA XII
Liborio
(só, atordoado) Safa! caramba! É bècarre! Estou a abafar! ardem-me os miolos! Anda-me tudo á roda! Parece-me que estou n'uma jaula tête-à-tête com uma panthera solta... Falta-me a coragem para a lucta! (Cáe prostrado perto do gueridon) Que a panthera me devore! Resistir-lhe é-me impossivel!... (Fecha os olhos e fica immovel...)
SCENA XIII
Liborio e Barnabé
BARNABÉ
(entrando alegremente pelo fundo) O meu negocio vae bem... optimamente.
LIBORIO
É elle!... (levanta-se e sobe um pouco).
BARNABÉ
Ah! meu amigo Liborio, obterei a casa. O Braga ainda hesita quanto ao preço, mas eu conheço-lhe o genio... elle é condescendente... e emfim, viverei em paz e socego.
LIBORIO
(dirigindo-se-lhe) Em paz?... Sorri-lhe essa esperança? Pois não viveste...
BARNABÉ
Sim... sorri-me esta esperança.
LIBORIO
O senhor é cumplice, não é?
BARNABÉ
Cumplice de quem?
LIBORIO
Da besta-fera de quem se intitula pae?
BARNABÉ
Snr. Liborio! Modere-se!
LIBORIO
É cumplice d'ella... Concorde... Apraz-me a sua confissão... Ao menos que a minha colera encontre um homem em frente d'ella...
BARNABÉ
Eu não o percebo! Será isto um ataque de somnambulismo?!
LIBORIO
Somnambulo! Ainda está n'isso, o senhor! Não sabe que a farça se desenvolveu depois... o véo veio á terra... descobri o inimigo do meu descanço, o ente mal-fazejo que se mettia, de noite, no meu quarto, para me transtornar tudo...
BARNABÉ
Então... quem é?
LIBORIO
A sua hedionda filha... a sua filha que o senhor teve artes de me impingir!...
BARNABÉ
Itelvina? o senhor está a mangar...
LIBORIO
Sim... finja-se espantado!...
BARNABÉ
Com um pé desnocado? a minha filha?
LIBORIO
(rindo amargamente) Pé desnocado! (rindo) Ah! ah! ah! ah! Não vê que ella me bigodeou?
BARNABÉ
Mas para quê?
LIBORIO
Para quê? para vingar Macario que ella me accusa de eu ter assassinado!
BARNABÉ
Isso é incrivel!
LIBORIO
E quer saber o futuro que ella me destina? A sorte de Meneláo de Sganarello, de Vulcano e d'outras testas celebres.
BARNABÉ
E ella disse-lh'o? Mas, quando isso se dá, as mulheres nunca previnem os maridos...
LIBORIO
É uma excepção...
BARNABÉ
Tudo isso é tão anormal... tão extravagante... (como assaltado por uma idea) Ah!
LIBORIO
Que é?
BARNABÉ
Lá vou... Foi a palavra extravagancia que me orientou... Estou no caminho...
LIBORIO
Caminho de quê?
BARNABÉ
O snr. Liborio sondou o pulso de sua mulher?
LIBORIO
Ora essa!... sondar-lhe o pulso!... Não.
BARNABÉ
Fez mal. Esta excentricidade no seu proceder, este humor extravagante... explica-se tudo...
LIBORIO
O quê? o que é que se explica?
BARNABÉ
É a crize ordinaria... Amigo Liborio, não succumba ao pezo da sua felicidade... Liborio, vou dar-lhe um jubilo immenso... Olhe que vae ser progenitor! Vae ser pae!
LIBORIO
(exasperado) Pae!
BARNABÉ
Sim! esses appetites desvairados... essa desordem moral...
LIBORIO
(agarrando-o pelo colete) Ah! patife!
BARNABÉ
Hein? você chame-me patife? a mim?
LIBORIO
É a minha deshonra que você apregôa!
BARNABÉ
(desagarrando-se sem poder) Que diz?
LIBORIO
Você sabia-o e não me gritou: acautele-se!
BARNABÉ
LIBORIO
Mas agora estou convencido... (sacode-o cada vez mais).
BARNABÉ
Largue-me! socorro! ó da guarda!
SCENA XIV
Os mesmos e Itelvina (Itelvina entrando agitadamente pela direita; está em toilette de quem vae a passeio).
Que é isto? que aconteceu? (Liborio larga Barnabé, que cahe assentado ao pé da jardineira. Liborio fica um momento immovel entre o sogro e a mulher, olhando-os alternadamente; depois despede um suspiro abafado, e sahe precipitadamente pelo fundo, fazendo um gesto de horror).
SCENA XV
Barnabé e Itelvina
BARNABÉ
(assentado) Uf! (bufando)
ITELVINA
O pae que tem! parece que está sobresaltado!
BARNABÉ
Sim... com certeza... eu não me sinto bastante bem. (respira fortemente).
ITELVINA
Mas que aconteceu?
BARNABÉ
(erguendo-se) Aconteceu... mas não, as explicações são inuteis... Vou deixar esta caverna...
ITELVINA
Mas emfim... que lhe disse o meu marido? onde foi elle?
BARNABÉ
Não sei nem me importa... Cá te avêm sem mim... Lavem cá a sua roupa suja como poderem, que eu tenciono ser estranho a esta barrela. Boas tardes. (Vae para sahir).
ITELVINA
Mas... meu pae! venha cá...
BARNABÉ
Convence-te de que me vou embora (sobe).
ITELVINA
(tolhendo-lhe o passo) Ao menos diga-me...
BARNABÉ
Não digo... deixa-me!
ITELVINA
Não hade sahir!
BARNABÉ
Impedir-me! (indo para ella) Minha filha!
ITELVINA
Não sahe antes de me dizer...
BARNABÉ
Tudo o que eu tenho no coração? Vaes ser satisfeita! Tu, a meu pezar, envolves-me nas tuas combinaçoens ferozes! Pois bem... Tambem eu vou torturar-te... e desde já fica sabendo uma pequena coisa que te vae dar grande prazer! Macario existe! Macario vive!
ITELVINA
Macario!
BARNABÉ
Nunca se bateu... não era tão bêsta, como isso... É um maltrapilho, mas é velhaco... Elle logo conjecturou a linda mulhersinha que tu serias... e disse lá com os seus botões: «Não quero contas com a mexicana» e pediu a este bajojo do Liborio que viesse annunciar-te a sua morte, e este parvoeirão foi tão asno... que...
ITELVINA
O pae está blasphemando...
BARNABÉ
Que é blasphemar?
ITELVINA
Macario vivo!... Macario auctor de tal perfidia!... não, não, é impossivel!
BARNABÉ
Com que então impossivel! E, se eu te disser, que elle, bem contente por não entrar n'este langará, se consola em uma mancebia...
ITELVINA
Mancebia?
BARNABÉ
Sim... com uma creaturinha, de pouco mais ou menos, rua de Miragaya n.º 1071, lado direito.
ITELVINA
Rua de Miragaya n.º 1071, lado direito...(Passa para a esquerda).
BARNABÉ
Mudou de freguezia; mas não de costumes... O fedor dos escandalos de Miragaya não passa da Cordoaria, e confunde-se com as flôres do jardim e do peixe do barracão...
ITELVINA
Oh! isso seria horrivel! horrivel! (Liborio entra pelo fundo).
SCENA XVI
Os mesmos e Liborio
LIBORIO
(com o porte-monnaie na mão) Minha senhora, eu tinha aqui 12$000 réis. Foi a senhora que lhe deitou o gatazio?
ITELVINA
Logo o saberá quando eu voltar (Sahe).
LIBORIO
ITELVINA
Rua de Miragaya n.º 1071. (Sahe precipitadamente pelo fundo).
LIBORIO
Que é? Rua de Miragaya n.º 1071! Quem lh'o diria? (A Barnabé) Foi o senhor... Rua de Miragaya, é lá effectivamente (Ouve-se fechar á chave a porta do fundo) Ella fecha-nos! e vae a casa d'elle! a casa d'elle! (Indo á porta da direita) Por esta porta... (Ouve-se o rodar da chave que a fecha) Fechada! fechada tambem! (correndo á chaminé) Sebastiana! (pucha pelo cordão da campainha) Não ha campainha! está quebrada a campainha!
BARNABÉ
E o Braga que me está esperando para assignar a escriptura!
LIBORIO
Eis-me encarcerado!
BARNABÉ
E eu!
LIBORIO
(fóra de si, ameaçando Barnabé) Ah! seu biltre! foi você a causa de tudo isto! (Atira-se a Barnabé, que procura fugir-lhe, aos encontroens aos trastes. Liborio persegue-o vivamente. Cahe o panno, quando Barnabé está apitando).