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O Assassino de Macario: Comedia em tres actos cover

O Assassino de Macario: Comedia em tres actos

Chapter 60: Liborio e Barnabé
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About This Book

The play unfolds in an elegant setting, introducing Barnabé, who expresses frustration over his servant Sebastiana's tardiness. As he prepares for the day, he reflects on a dream about fishing and his aspirations for marriage. The dialogue reveals a humorous dynamic between Barnabé and Sebastiana, highlighting themes of laziness, domestic life, and the absurdity of dreams. The interactions are characterized by witty exchanges that explore the characters' personalities and their social roles, setting the stage for comedic situations that arise throughout the three acts.

SCENA VI

Itelvina e Liborio

ITELVINA

Ah! tu queres um tête-à-tête... Vamos a isso...

LIBORIO

(á parte) Sosinhos! estamos sosinhos! (com transporte, sentando-se ao lado de Itelvina) Ah! Itelvina! Minha esposa! querida...

ITELVINA

Que é, meu amigo?

LIBORIO

Desculpa a minha perturbação!... esta emoção!... este primeiro tête-à-tête... porque é o primeiro... o primeiro... depois que és minha mulher, e que me pertences, Itelvina!... por que tu és minha, és o meu bem, o meu thesouro, a minha vida...

ITELVINA

Sim, Liborio; somos um do outro, são inseparaveis os nossos destinos... Eu sou sua como o senhor é meu... O senhor póde esquecer isso... eu é que jámais!...

LIBORIO

Esquecer, esquecer, eu! Se tu soubesses as noites tormentosas que eu passo!... o que me custa a adormecer... as reflexões que precedem o meu somno... os sonhos que o acompanham... Queres que eu t'os conte?

ITELVINA

Pois sim, conte lá.

LIBORIO

(erguendo-se) Ás vezes, vejo-te sahir d'uma floresta como a Armengarda do Alexandre Herculano das penhas da Covadonga; outras vezes estamos os dois n'um paraizo terreal como Adão e Eva... e eu a apertar-te ao coração (aproxima-se) a apertar-te... (Cinge-a com os braços).

ITELVINA

(gritando) Ai! ai!

LIBORIO

(recuando) Tu que tens!

ITELVINA

Ah! que dôres!

LIBORIO

(á parte) Diabolico torcegão!...

ITELVINA

Isto passa... não é nada... foi um geito que o senhor me fez dar. (com a voz natural) Póde continuar, meu amigo.

LIBORIO

Em que estavamos nós?

ITELVINA

Estavamos no paraiso terreal.

LIBORIO

É verdade, um ao lado do outro.

ITELVINA

O senhor abraçava-me...

LIBORIO

Mas, presentemente, não me atrevo...

ITELVINA

Isso não faz nada ao caso... o abraço era a sonhar...

LIBORIO

Itelvina!

ITELVINA

Liborio!

LIBORIO

O nosso cazamento não é um sonho... pois não?

ITELVINA

Decerto não, meu amigo.

LIBORIO

E todavia...

ITELVINA

E todavia...

LIBORIO

Olha, Itelvina, eu queria que o pé torcido fôsse meu; ainda que tivesse torcidos ambos os pés não deixaria de me lançar nos teus braços... Não ha supplicio comparavel... Ah! Tantalo no meio da agua, debaixo de arvores carregadas de fructos que elle não podia trincar... Eis a minha posição!... a arvore... és tu! Tantalo, sou eu! Tenho fome, e não posso comer... Horrivel!

ITELVINA

Então o senhor padece muito, não é verdade?

LIBORIO

Até ao extremo de me tornar cruel e insensivel ás tuas dôres... Quando ahi te vejo, face a face, não ouço senão a minha paixão e... (abraça-a)

ITELVINA

Ai! ai! meu Deus! ai!

LIBORIO

(erguendo-se) Não, não, não... nada de novo... mesmo nada... (á parte) Tudo como d'antes... Quartel general d'Abrantes...

ITELVINA

Ai que dôres! que dôres lancinantes!

LIBORIO

Se sou o culpado, peço desculpa...

ITELVINA

Ah!... vae passando... adormece... Ah! respiro! (tom natural:) Póde continuar, meu amigo.

LIBORIO

Continuar... o quê?

ITELVINA

Isso que me estava contando... que era muito bonito...

LIBORIO

(á parte) Ella parece innocente como uma ovelhinha recem-nascida! (alto) Minha senhora, se me dá licença, ataremos o fio partido do cavaco quando a senhora estiver san.

ITELVINA

Mas... por quê?

LIBORIO

Porque esta palestra... agita-me... agita-me bastantemente.

ITELVINA

Ah! sim? então fallemos d'outra coisa.

LIBORIO

Sim... de coisas frias... historias da Siberia... Fallemos do Marão, da Serra da Estrella.

ITELVINA

Diga-me cá, não o incommoda andar com uma bota e um chinelo?

LIBORIO

Incommoda-me horrivelmente... e, se me dás licença, calço a outra.

ITELVINA

Se dou licença? ora essa... Póde calçar.

LIBORIO

(calçando a outra bota) De mais a mais, este acto não é por nenhuma maneira provocante nem estimulante... até acho que faria bem em me vestir... (tira a camisola)

ITELVINA

Vestir-se?

LIBORIO

Sómente vestir um colete e uma rabona (á parte) Creio que um marido, sem faltar á decencia... (Emquanto falla, vae abrir o gabinete da toillete, e recebe na cara o outro chinelo que pendia d'uma guita) Cá está o outro chinelo!

ITELVINA

Tinha-o perdido?

LIBORIO

Nada, fui eu... Estou no habito de todas as noites...

ITELVINA

Pendurar um dos chinelos no gabinete de toillete...

LIBORIO

Sim... isto é... quero dizer... Ordinariamente penduro os chinelos... não, eu ponho-os ambos aos pés da cama; mas aconteceu que pendurei este...

ITELVINA

(á parte) É admiravel! nada o espanta! Forte idiota!

LIBORIO

(á parte, tirando a gravata do gabinete) É inevitavel que eu seja somnambulo... acabou-se... sou somnambulo.

ITELVINA

É singular coisa! Tenho momentos em que não me doe nada o pé... perfeitamente bôa...

LIBORIO

Esses momentos duram pouco (Procurando atar a gravata) Não me ageito!... maldita gravata... estou muito perturbado...

ITELVINA

Quer que o ajude, meu amigo?

LIBORIO

Agradeço, mas receio...

ITELVINA

Venha cá... pois eu não sou sua mulher?

LIBORIO

Ah!

ITELVINA

O senhor diz ah!

LIBORIO

Eu cá me intendo... (Ajoelha aos pés da mulher estendendo-lhe o pescoço e dando-lhe a gravata) Tu não me percebes... mas eu é que me comprehendo... Mysterios...

ITELVINA

(sorrindo) Então tem segredos para mim, Liborio?

LIBORIO

Ah! Itelvina! que gentil, que formosa tu és! (Itelvina aperta a gravata) Ai!

ITELVINA

(ingenuamente) Que tem?

LIBORIO

É que me afogas!

ITELVINA

É por que o senhor mexe-se.

LIBORIO

Eu mexo-me por que tu me asphixias.

ITELVINA

(maviosamente) Esteja assim quietinho... para eu lhe fazer um lindo laço. (Elle quer abraçal-a).

ITELVINA

Ah! Deus do céo! que dôr!

LIBORIO

(erguendo-se) Não, não... não me lembrou... (á parte) Apre! que situação! (Passa para a esquerda, e vae vestir o collete e a rabona que tira do gabinete).

ITELVINA

Que dôres! que dôres!

SCENA VII

Os mesmos e Sebastiana

SEBASTIANA

(entrando pelo fundo) Está prompto o almoço, senhora. Onde quer a meza?

ITELVINA

Não tenho appetite...

LIBORIO

Nem eu tão pouco, a não ser que... Que ha que almoçar?

SEBASTIANA

Ostras cruas, pasteis de camarão e sallada de lagosta.

LIBORIO

Ui! querem-me incendiar!

ITELVINA

Não gosta do almôço?

LIBORIO

Ha occasiões, menina, ha occasiões... mas, no estado actual, o que eu precisava era limonadas e orchatas.

ITELVINA

Porque não vae almoçar com meu pae ao botequim?

LIBORIO

Pensa que eu a deixava...

ITELVINA

Não tem duvida... vá que eu preciso descançar.

LIBORIO

Tambem eu...

ITELVINA

Cá fica a Sebastiana... Vá e demore-se por lá, que eu preciso dormir.

LIBORIO

(que passou para a direita) Pois bem, seja assim; vá dormir, que eu vou tomar um pouco d'ar. (á parte) Ah! Itelvina, Itelvina, por que polkaste tu com o tabellião! (Sahe pelo fundo).

SEBASTIANA

(que passou para a esquerda) Então, pelo que vejo, ninguem almoça...

ITELVINA

Depois, Sebastiana, depois... mas tu não esperes. Almoças quando tiveres vontade.

SEBASTIANA

Eu não posso deixar a senhora sósinha...

ITELVINA

Pódes... Vou dormir... Vae, e fecha-me esta porta. (Sebastiana passa para a direita) Olha, para eu não acordar estremunhada, espreita, e quando o senhor vier, vem prevenir-me.

SEBASTIANA

Sim, minha senhora. (á parte) Ella quer aqui dormir sósinha... porque será? (Sahe pelo fundo).

SCENA VIII

Itelvina

() (está um instante quieta, mas, logo que a porta se fecha, desata precipitadamente as tiras que lhe ligam a perna, e entra a caminhar rapidamente). Ah! sim? tu comerás o almoço incendiario... hasde comêl-o por força! quando só encontrares no teu porte-monnaie um tostão para pagar o leite e as limonadas, é natural que voltes ao teu posto... Essa felicidade espero eu têl-a. Seja como fôr, vou tratando de armar as engenhocas para a noite que vem. Comecemos pelas campainhas de que elle abusa... Onde acharei eu com que as corte? (Vae ao gabinete da toilette e encontra lá uma faca de mato) Uma faca de mato! Ah! tu tens facas nos teus guarda-roupas?... tens!... está bom... esta hade servir-me... Vamos primeiro cortar... Cortar, não! (Atira com a faca para dentro do gabinete que fecha) O que se deve quebrar é o arame... Ah!... com a cadeira sobre o leito, chego acima... (Pega da cadeira, que põe sobre a cama, e sobe acima cantarolando. Ergue-se, de costas para a parede, e pega no arame com as mãos ambas) Oh! c'os diachos! parece-me muito rijo!... An! é puxar... (ouve-se tilintar a campainha) Ai que eu toquei! Se a Sebastiana me vê aqui...

SCENA IX

Itelvina e Sebastiana

SEBASTIANA

A senhora chamou?

ITELVINA

Ai!

SEBASTIANA

Onde é que está? (Vendo-a) Ah!...

ITELVINA

Sio! cala-te!

SEBASTIANA

Foi a senhora que...

ITELVINA

Cala-te, que te heide dar uma prenda.

SEBASTIANA

Então que quer que eu faça, senhora?

ITELVINA

Espera ahi. (Puxando pelo fio) Záz! Záz! Está quebrado! (Quebra o fio, e o mesmo tilintar da campainha continua).

SCENA X

As mesmas e Liborio

LIBORIO

(entrando pelo fundo quando sôa a campainha) Ella a chamar, a minha querida a chamar...

SEBASTIANA

Ui!... meu Deus!...

ITELVINA

Oh! co' a breca! Estou aviada!

LIBORIO

(não encontrando a cadeira em que Itelvina ficou sentada e passa á esquerda) Como é isto? Ella não está aqui? (Vendo-a) Ólé!

ITELVINA

(sempre sobre a cadeira; e com a maior naturalidade) Então já por cá?

LIBORIO

Que fazes tu ahi?

ITELVINA

Como estava melhor do pé, quiz experimentar um passeio.

LIBORIO

Passear lá por cima?... Ah! tudo se explica! O somnambulo não era eu... eram vocês as duas que...

SEBASTIANA

Ó senhor! os diabos me leve se...

LIBORIO

Retira-te.

SEBASTIANA

Mas senhor... Raios me parta, se...

LIBORIO

(avançando para ella) Rua! rua!

SEBASTIANA

Rua?... mas...

LIBORIO

Safa-te, ou eu... (Sebastiana dá um grito e foge pelo fundo. Liborio dá um pontapé no banquinho).

SCENA XI

Liborio e Itelvina (Durante estas ultimas fallas, Itelvina desce serenamente da cadeira, depois desce do leito, e ahi fica fria e impassivel).

LIBORIO

(fechando a porta do fundo, e approximando-se de Itelvina) Agora nós dois, senhora! (silencio de Itelvina). Quando eu entrava no botequim, a inquietação fez-me regressar... Vejo que fiz bem... (silencio) Que geringonça é esta? queira responder.

ITELVINA

Geringonça, dizes tu? perguntas-me que geringonça é esta?

LIBORIO

Sim!... pergunto e quero saber.

ITELVINA

(formalisada) Liborio, tu esmagaste o coração de uma mulher, o seu primeiro amor...

LIBORIO

Eu? que esmaguei eu?

ITELVINA

Despedaçaste a minha vida, cobriste o meu céo com um crepe negro!... Assassinaste Macario!

LIBORIO

Lerias!

ITELVINA

Atráz, assassino! atráz, que me horrorisas!

LIBORIO

Como? então é p'ramôr d'isso que?... Ora adeus! isso é pêta... eu não matei Macario nenhum.

ITELVINA

Pois tu não assassinaste Macario?

LIBORIO

Não tinha eu mais que fazer!... E a prova é que Macario está vivo e são.

ITELVINA

Macario vive?

LIBORIO

(reconsiderando) Eu cá de mim não o matei... (á parte) que ia eu a dizer? Ella ama-o! e, se sabe que elle vive, temos novo chinfrim...

ITELVINA

Ah! tu negas? não tens a coragem do teu crime?

LIBORIO

Itelvina, palavra d'honra!... Quem te disse?...

ITELVINA

Nada de questoens... Você está condemnado!

LIBORIO

Condemnado!

ITELVINA

Eu fiz um juramento, Liborio! e na minha patria não se quebram juramentos!

LIBORIO

Isso nós veremos depois... A senhora jurou de encher de pimenta os meus carapuços? coser os meus lenços?...

ITELVINA

Isso era um preludio... a farça antes da tragedia...

LIBORIO

Tragedia?!

ITELVINA

Para vingar Macario, cumpria que a sua vida me pertencesse, e por isso casei comsigo!

LIBORIO

Então foi só para isso que...

ITELVINA

Unicamente para me vingar, e nunca pelos seus attractivos, percebe?

LIBORIO

Mas a senhora, casando comigo, tambem me deu a sua vida e...

ITELVINA

A minha estava despedaçada... O sacrificio que eu lhe fazia era d'uns pedaços da minha existencia.

LIBORIO

Mas a senhora sabe que eu sou uma especie de balão que não obedece ao movimento de vontades alheias?

ITELVINA

Os baloens obedecem ao capricho do vento, e os homens ao capricho das mulheres.

LIBORIO

Sim? estou com curiosidade de vêr isso...

ITELVINA

Eis o meu programma: (Com energia) Quero que cada um dos teus dias seja uma catastrophe! cada uma das tuas horas uma tortura! cada um dos teus minutos um grito de dôr!...

LIBORIO

(com ironia) Diga lá o resto.

ITELVINA

Heide fazer-te tragar todas as amarguras! cravejar-te com todos os punhaes!... passarás a vida sobre umas grelhas como S. Lourenço, e eu de vez em quando a voltar-te nas grelhas... e tu a arder, a rechinar... oh!...

LIBORIO

Que enorme têlha!

ITELVINA

É o teu futuro!

LIBORIO

Mas é que eu fujo-te... podéra!...

ITELVINA

E eu vou atraz de ti. Sou tua mulher; a lei obriga-te a receber-me.

LIBORIO

Excellente separação de corpos a que já estou habituado!... Divorcio-me.

ITELVINA

E as provas? Pensas no divorcio? Cuidas que eu não previ já esse caso muito natural de me quereres escapar? Eu já li o teu codigo civil. Ninguem se separa sem provas e testemunhas; e tu nunca hasde arranjar testemunhas nem provas. Mulher mais terna do que eu, em publico, não hade haver segunda, heide acariciar-te, ameigar-te, se fôr preciso, que isso me não custa nada...

LIBORIO

(á parte) Irra! estou a sentir uns calefrios na espinha...

ITELVINA

Em publico, serás o meu amante, o meu heroe, o meu Deus! Serás um mortal ditoso e invejado!... possuirás uma gentilissima esposa, dedicadissima... e, se, um dia, ousares queixar-te de mim, se promoveres o divorcio, passarás por um monstro extraordinario, por um ignobil... malandro!

LIBORIO

(á parte) Isto é o José do Telhado disfarçado em mulher!

ITELVINA

(indo para Liborio que passa á esquerda) Mas o anjo das salas será o demonio dos lares! quero que a tua vida se teça de espinhos dilacerantes. Não entrarás em tua casa sem cahir n'uma esparrela! Não poderás sahir sem te palpitar uma desgraça imprevista. E este amor... este amor que me pedias, heide dál-o a outro!

LIBORIO

Oh! Shocking!

ITELVINA

Sim! heide cuspir na tua honra!

LIBORIO

(furioso) Senhora!

ITELVINA

Eis o teu futuro, Liborio! eis o teu futuro! (sahe pela direita).

SCENA XII

Liborio

(só, atordoado) Safa! caramba! É bècarre! Estou a abafar! ardem-me os miolos! Anda-me tudo á roda! Parece-me que estou n'uma jaula tête-à-tête com uma panthera solta... Falta-me a coragem para a lucta! (Cáe prostrado perto do gueridon) Que a panthera me devore! Resistir-lhe é-me impossivel!... (Fecha os olhos e fica immovel...)

SCENA XIII

Liborio e Barnabé

BARNABÉ

(entrando alegremente pelo fundo) O meu negocio vae bem... optimamente.

LIBORIO

É elle!... (levanta-se e sobe um pouco).

BARNABÉ

Ah! meu amigo Liborio, obterei a casa. O Braga ainda hesita quanto ao preço, mas eu conheço-lhe o genio... elle é condescendente... e emfim, viverei em paz e socego.

LIBORIO

(dirigindo-se-lhe) Em paz?... Sorri-lhe essa esperança? Pois não viveste...

BARNABÉ

Sim... sorri-me esta esperança.

LIBORIO

O senhor é cumplice, não é?

BARNABÉ

Cumplice de quem?

LIBORIO

Da besta-fera de quem se intitula pae?

BARNABÉ

Snr. Liborio! Modere-se!

LIBORIO

É cumplice d'ella... Concorde... Apraz-me a sua confissão... Ao menos que a minha colera encontre um homem em frente d'ella...

BARNABÉ

Eu não o percebo! Será isto um ataque de somnambulismo?!

LIBORIO

Somnambulo! Ainda está n'isso, o senhor! Não sabe que a farça se desenvolveu depois... o véo veio á terra... descobri o inimigo do meu descanço, o ente mal-fazejo que se mettia, de noite, no meu quarto, para me transtornar tudo...

BARNABÉ

Então... quem é?

LIBORIO

A sua hedionda filha... a sua filha que o senhor teve artes de me impingir!...

BARNABÉ

Itelvina? o senhor está a mangar...

LIBORIO

Sim... finja-se espantado!...

BARNABÉ

Com um pé desnocado? a minha filha?

LIBORIO

(rindo amargamente) Pé desnocado! (rindo) Ah! ah! ah! ah! Não vê que ella me bigodeou?

BARNABÉ

Mas para quê?

LIBORIO

Para quê? para vingar Macario que ella me accusa de eu ter assassinado!

BARNABÉ

Isso é incrivel!

LIBORIO

E quer saber o futuro que ella me destina? A sorte de Meneláo de Sganarello, de Vulcano e d'outras testas celebres.

BARNABÉ

E ella disse-lh'o? Mas, quando isso se dá, as mulheres nunca previnem os maridos...

LIBORIO

É uma excepção...

BARNABÉ

Tudo isso é tão anormal... tão extravagante... (como assaltado por uma idea) Ah!

LIBORIO

Que é?

BARNABÉ

Lá vou... Foi a palavra extravagancia que me orientou... Estou no caminho...

LIBORIO

Caminho de quê?

BARNABÉ

O snr. Liborio sondou o pulso de sua mulher?

LIBORIO

Ora essa!... sondar-lhe o pulso!... Não.

BARNABÉ

Fez mal. Esta excentricidade no seu proceder, este humor extravagante... explica-se tudo...

LIBORIO

O quê? o que é que se explica?

BARNABÉ

É a crize ordinaria... Amigo Liborio, não succumba ao pezo da sua felicidade... Liborio, vou dar-lhe um jubilo immenso... Olhe que vae ser progenitor! Vae ser pae!

LIBORIO

(exasperado) Pae!

BARNABÉ

Sim! esses appetites desvairados... essa desordem moral...

LIBORIO

(agarrando-o pelo colete) Ah! patife!

BARNABÉ

Hein? você chame-me patife? a mim?

LIBORIO

É a minha deshonra que você apregôa!

BARNABÉ

(desagarrando-se sem poder) Que diz?

LIBORIO

Você sabia-o e não me gritou: acautele-se!

BARNABÉ

Você esgana-me!...

LIBORIO

Mas agora estou convencido... (sacode-o cada vez mais).

BARNABÉ

Largue-me! socorro! ó da guarda!

SCENA XIV

Os mesmos e Itelvina (Itelvina entrando agitadamente pela direita; está em toilette de quem vae a passeio).

Que é isto? que aconteceu? (Liborio larga Barnabé, que cahe assentado ao pé da jardineira. Liborio fica um momento immovel entre o sogro e a mulher, olhando-os alternadamente; depois despede um suspiro abafado, e sahe precipitadamente pelo fundo, fazendo um gesto de horror).

SCENA XV

Barnabé e Itelvina

BARNABÉ

(assentado) Uf! (bufando)

ITELVINA

O pae que tem! parece que está sobresaltado!

BARNABÉ

Sim... com certeza... eu não me sinto bastante bem. (respira fortemente).

ITELVINA

Mas que aconteceu?

BARNABÉ

(erguendo-se) Aconteceu... mas não, as explicações são inuteis... Vou deixar esta caverna...

ITELVINA

Mas emfim... que lhe disse o meu marido? onde foi elle?

BARNABÉ

Não sei nem me importa... Cá te avêm sem mim... Lavem cá a sua roupa suja como poderem, que eu tenciono ser estranho a esta barrela. Boas tardes. (Vae para sahir).

ITELVINA

Mas... meu pae! venha cá...

BARNABÉ

Convence-te de que me vou embora (sobe).

ITELVINA

(tolhendo-lhe o passo) Ao menos diga-me...

BARNABÉ

Não digo... deixa-me!

ITELVINA

Não hade sahir!

BARNABÉ

Impedir-me! (indo para ella) Minha filha!

ITELVINA

Não sahe antes de me dizer...

BARNABÉ

Tudo o que eu tenho no coração? Vaes ser satisfeita! Tu, a meu pezar, envolves-me nas tuas combinaçoens ferozes! Pois bem... Tambem eu vou torturar-te... e desde já fica sabendo uma pequena coisa que te vae dar grande prazer! Macario existe! Macario vive!

ITELVINA

Macario!

BARNABÉ

Nunca se bateu... não era tão bêsta, como isso... É um maltrapilho, mas é velhaco... Elle logo conjecturou a linda mulhersinha que tu serias... e disse lá com os seus botões: «Não quero contas com a mexicana» e pediu a este bajojo do Liborio que viesse annunciar-te a sua morte, e este parvoeirão foi tão asno... que...

ITELVINA

O pae está blasphemando...

BARNABÉ

Que é blasphemar?

ITELVINA

Macario vivo!... Macario auctor de tal perfidia!... não, não, é impossivel!

BARNABÉ

Com que então impossivel! E, se eu te disser, que elle, bem contente por não entrar n'este langará, se consola em uma mancebia...

ITELVINA

Mancebia?

BARNABÉ

Sim... com uma creaturinha, de pouco mais ou menos, rua de Miragaya n.º 1071, lado direito.

ITELVINA

Rua de Miragaya n.º 1071, lado direito...(Passa para a esquerda).

BARNABÉ

Mudou de freguezia; mas não de costumes... O fedor dos escandalos de Miragaya não passa da Cordoaria, e confunde-se com as flôres do jardim e do peixe do barracão...

ITELVINA

Oh! isso seria horrivel! horrivel! (Liborio entra pelo fundo).

SCENA XVI

Os mesmos e Liborio

LIBORIO

(com o porte-monnaie na mão) Minha senhora, eu tinha aqui 12$000 réis. Foi a senhora que lhe deitou o gatazio?

ITELVINA

Logo o saberá quando eu voltar (Sahe).

LIBORIO

Onde vae você?

ITELVINA

Rua de Miragaya n.º 1071. (Sahe precipitadamente pelo fundo).

LIBORIO

Que é? Rua de Miragaya n.º 1071! Quem lh'o diria? (A Barnabé) Foi o senhor... Rua de Miragaya, é lá effectivamente (Ouve-se fechar á chave a porta do fundo) Ella fecha-nos! e vae a casa d'elle! a casa d'elle! (Indo á porta da direita) Por esta porta... (Ouve-se o rodar da chave que a fecha) Fechada! fechada tambem! (correndo á chaminé) Sebastiana! (pucha pelo cordão da campainha) Não ha campainha! está quebrada a campainha!

BARNABÉ

E o Braga que me está esperando para assignar a escriptura!

LIBORIO

Eis-me encarcerado!

BARNABÉ

E eu!

LIBORIO

(fóra de si, ameaçando Barnabé) Ah! seu biltre! foi você a causa de tudo isto! (Atira-se a Barnabé, que procura fugir-lhe, aos encontroens aos trastes. Liborio persegue-o vivamente. Cahe o panno, quando Barnabé está apitando).

FIM DO ACTO SEGUNDO