ACTO TERCEIRO
SCENA I
Liborio e Barnabé (ao levantar do pano, Barnabé está sentado no colchão, e Liborio, á direita sobre uma cadeira de braços, cahida. Depois de instantes de silencio, Liborio levanta-se e vae á janella).
LIBORIO
(examinando a rua) Nada, não vejo vir ninguem. Que horas são, snr. Barnabé?
BARNABÉ
Outra vez... Depois do nosso combate... singular, já me perguntou isso trez vezes.
LIBORIO
A quem heide eu perguntal-o? ao meu relogio? á minha pendula? Tudo aqui está desmanchado (á parte) como a cabeça de minha mulher (Levanta a cadeira).
BARNABÉ
Ha cinco minutos que eu lhe disse que eram 3 e 25; agora, por consequencia, são trez e meia.
LIBORIO
(passeando com grandes passos) Ella sahiu ás duas horas... (dirige-se a Barnabé) Como explica o senhor isto? Auzente á hora e meia! (Arruma os trastes).
BARNABÉ
Não que d'aqui de Malmerendas a Miragaya são dois kilometros. Dê-lhe tempo...
LIBORIO
Que lh'o dê? Ella toma o que quer! Fechar o pae e o marido para ir...
BARNABÉ
Minha filha é incapaz de tal...
LIBORIO
É capaz de tudo: é Mexicana, e basta.
BARNABÉ
Não o contrarío, para você não pegar de novo comigo. (Levanta-se e põe o colchão sobre o leito).
LIBORIO
Ah! o senhor tem magnificas ideias! Que eu era pae! Esta só pelo diabo! eu podia lá ser pae, homem!
BARNABÉ
E eu podia lá imaginar que o senhor depois de casado?... Emfim, o que eu lhe disse era para o applacar...
LIBORIO
E para applacar minha mulher disse-lhe que o Macario era vivo. Foi isso?
BARNABÉ
Está claro; as minhas intençoens fôram sempre boas... eu não tive culpa, se o senhor é um marido... distincto.
LIBORIO
BARNABÉ
(tirando o relogio pacientemente) Trez e trinta e dous minutos. Outra vez. O melhor é ficar com o relogio na mão, (fica assobiando) até o senhor acertar o seu.
LIBORIO
O senhor assobia?
BARNABÉ
Então o senhor quer que eu chore? Deixe-me assobiar, homem! Ha paixoens d'alma que não desafogam se não pelo assobio... situaçoens crueis em que um homem sente a necessidade de estar sempre não só a assobiar, mas até a apitar.
LIBORIO
Tem rasão. Quando se possue uma filha como a sua, e uma esposa como a minha, todas as manifestaçoens do assobio e do apito são permittidas. (Barnabé continua a assobiar) Tem rasão. Assobie á sua vontade... use de todos os instrumentos de sôpro... Desabafe, snr. Barnabé, que eu faço o mesmo. (Assobia tambem. Ouve-se ruido de passos). Sio... escute...
BARNABÉ
Será?... (rumor na fechadura).
LIBORIO
É ella!
BARNABÉ
Prudencia, snr. Liborio, prudencia...
LIBORIO
(sentando-se n'uma cadeira á esquerda, e pegando de um jornal de sobre o fogão) É ella... (atira os pés para cima de uma cadeira).
BARNABÉ
(á parte) Elles vão-se agatanhar!... se eu podesse tingar-me...
SCENA II
Os mesmos e Itelvina (Abre-se a porta do fundo precipitadamente. Itelvina entra muito agitada, fita o pae e o marido, tira o chaile e o chapeu que atira sobre a cama; depois, desce, torna a fitar o marido e o pae, e diz a Barnabé):
ITELVINA
Meu pae! deixe-nos sós. (Barnabé, sem responder, safa-se apressadamente pelo fundo).
SCENA III
Liborio e Itelvina (Itelvina está momentos sem fallar, olhando para o marido que a não encara; depois faz um gesto de impaciencia e diz:)
ITELVINA
Vi Macario. Não estava só... Estava com uma creatura com um penteado de estardalhaço, muito estapafurdio. Iam sentar-se á meza... e eu puxei pela toalha e quebrei tudo... (Movimento de Liborio, que logo se riprime, e retoma a sua apparente tranquilidade). Levantaram-se ambos e avançavam para mim; eu fiquei de braços cruzados, serena, immovel, encarando-os assim! Depois affastei-me lentamente, sem dar palavra, e sahi! (Silencio. Itelvina dá uns grandes passos) Ah! o que são os homens! o que são os homens! (Torna para o marido) Por que é que o senhor me annunciou a morte d'elle? (Silencio) Eu sei-o, disse-m'o meu pae... foi elle, esse miseravel que assim o quiz, não foi? O infame Macario escarneceu o meu amor, ludibriou a minha angustia! Ah! é incomprehensivel! é execravel! (Pega da cadeira em que o marido tem os pés e senta-se ao lado d'elle) Como é que nós havemos de matar Macario?
LIBORIO
(agitado, erguendo-se) Que diz?
ITELVINA
(fazendo-o sentar-se) Ambos nós andamos mal, Liborio. Eu cuidei que tu o matáras... Não se falle mais no passado... acabou-se... Agora, unamo-nos para a vingança... Como é que se hade assassinar Macario?
LIBORIO
(erguendo-se) A senhora terá o diabo no corpo?
ITELVINA
Se estivessemos na minha patria, eu não o consultava; mas aqui, os homens que fizeram as leis, reservam para si o monopolio da vingança, e a honra de uma mulher nada importa, se não implica com a honra do homem. Pois então, snr. Liborio, visto que me esposou, a minha honra é a sua. Um pulha, um sacripanta escarneceu sua mulher... cumpre-lhe evitar que elle o escarneça tambem a si... (com ternura) Mata-o! filho! mata-o!
LIBORIO
(á parte) Arreda! estou em braza!
ITELVINA
(formalisada) Dar-se-ha caso que o senhor, escravo de vãos prejuizos, não queira attentar contra a vida d'elle sem expor a sua? Se é isso, esteja descançado. Se Macario o matar, eu não lhe sobreviverei, nem elle, por que morrerá ás minhas mãos; matal-o-ei, matal-o-ei, e depois lá nos veremos... no ceu! (Apontando-lhe para o ceu, bate-lhe com a outra mão no hombro).
LIBORIO
A senhora com toda a certeza está doida!
ITELVINA
Doida?
LIBORIO
Então a senhora quer que eu vendime o Macario por que elle não quiz cazar comsigo... Tomára eu obrigal-o a cazar...
ITELVINA
Senhor! veja lá o que diz!
LIBORIO
Olhe, menina; isso que a senhora me propõe já Hermione o propoz a Orestes em uma tragedia de Racine, e sabe o que fez a canalha da Hermione, depois que o parvo do Orestes matou Pyrrho? Poz-se a chorar por Pyrrho, e mandou o Orestes á fava. Aqui tem a gratidão das mulheres...
ITELVINA
Por tanto, recuza?
LIBORIO
Redondissimamente. (á parte) Isto é que é o chic da patifaria!
ITELVINA
Bem! Eu pedia-lhe a cabeça de Macario para salvar a sua... Você não quer? não quer? não se falla mais n'isso.
LIBORIO
Isso que quer dizer... explique-se!
ITELVINA
Macario recuou deante dos laços indissoluveis; mas amava-me, estou certa d'isso, e eu... ainda o amo.
LIBORIO
(levantando os dois braços) Que diabo!
ITELVINA
E visto que o senhor desculpa o proceder passado de Macario, terá de desculpar tambem o futuro...
LIBORIO
(agarrando-a pelos braços) Mulher!... Ah! tu pensavas que...
ITELVINA
Largue-me!
LIBORIO
Amas Macario?
ITELVINA
Você magoa-me!
LIBORIO
Os indigenas do Mexico que é o que fazem ás mulheres que se parecem comtigo?
ITELVINA
O senhor está-me a quebrar os braços...
LIBORIO
Póde ser; por que em Portugal, nós os homens, ao lado da lei, tambem temos a força.
ITELVINA
Isso é uma covardia!
LIBORIO
Não sei se é; mas eu, se houvesse de matar alguem, não mataria o Macario...
ITELVINA
Ai! (Cahe de joelhos).
LIBORIO
Olhe bem para mim, senhora! (Ella quer morder-lhe a mão) e não môrda! Se cuidou que cazava com um cordeirinho, mude de opinião a meu respeito. Este homem que se chama Liborio, nascido no Porto, no Poço das Patas n.º 610, é de per si só mais feroz que todos os leopardos do Mexico... Não môrda, ouviu?
ITELVINA
Ai!
LIBORIO
Por emquanto, deixo-a viver; mas tenha juizo, muito juizo, ou dou-lhe a minha palavra de honra que não tardarei a passar a segundas nupcias! (Deixa-a).
ITELVINA
(conserva-se um instante immovel, como humilhada de sua fraqueza; relança á volta de si olhos furiosos, depois levanta-se de um pulo, exclamando:) Ah! a faca de mato! (Corre para o gabinete da toillete).
LIBORIO
Bem sei... (Vae atraz d'ella, e fecha-lhe a porta por fóra logo que ella entra).
ITELVINA
(fechada) Abra, abra a porta!
LIBORIO
(pegando do chapeo) Medite, senhora, que eu passados tres dias, volto cá. (Sahe pelo fundo).
ITELVINA
(batendo na porta) É infame, é abominavel! Snr. Liborio! Olhe que quebro a porta. (Pancadas cada vez mais fortes) Abra-me a porta; peço-lhe que me abra a porta por quem é! Oh! que vil, que indigno procedimento!
SCENA IV
Itelvina (fechada) e Barnabé
BARNABÉ
(entrando pelo fundo) Ora aqui está! Em quanto eu estive aqui fechado, o Braga vendeu a casa da Carriça... Tenho de procurar outra... (Itelvina bate á porta do gabinete. Barnabé que está perto, recua assustado) Que diabo é isto?
ITELVINA
Abra-me a porta!
BARNABÉ
A minha filha fechada! (alto) Tu que fazes ahi?
ITELVINA
Abra, meu pae, abra!
BARNABÉ
Mas como foi isto? (Vae para abrir).
ITELVINA
Foi meu marido... Abra que eu lhe contarei.
BARNABÉ
(retirando-se) Teu marido!... diabo! diabo! isso é mais serio...
ITELVINA
Então, abre?
BARNABÉ
Minha filha, um sôgro não deve intervir entre marido e mulher.
ITELVINA
Então não abre?
BARNABÉ
Procedo como fino politico... Mantenho-me na neutralidade, na não intervenção.
ITELVINA
Mas eu suffoco!... (Grando tropel dentro).
BARNABÉ
Não suffocas, não... Isso passa!... (á parte) Ella arromba o sobrado!... (Sahe).
ITELVINA
(batendo sempre) Meu pae! meu pae! Foi-se?... Socorram-me! Acudam-me!
SCENA V
Sebastiana e Itelvina (Sebastiana entra pela direita, trazendo pratos, talheres, pães e guardanapos)
SEBASTIANA
A voz da senhora no gabinete de vestir... (Pousa o que traz sobre o marmore do fogão). É a senhora?
ITELVINA
Abre, Sebastiana, abre a porta.
SEBASTIANA
Ahi vou, ahi vou. (Abrindo) Que foi isto?
ITELVINA
Péga! (Dá uma bofetada em Sebastiana).
SEBASTIANA
Ah! a senhora bate-me?
ITELVINA
(percorrendo o theatro furiosa) Ó raiva! ó furor!
SEBASTIANA
Se eu soubesse que estava fechada...
ITELVINA
Perdôa-me, perdôa-me, Sebastiana... É a colera, são os nervos... (Dá-lhe dinheiro) Pega lá, guarda...
SEBASTIANA
Obrigado, minha senhora! (á parte) Ella é muito boasinha! (Põe a meza na jardineira).
ITELVINA
(cahindo n'uma cadeira á direita) Tudo que me succede é incrivel! é estupido! Este homem que eu julgava um choninhas, um maricas, um fracalhão, agarrou-me, e prostrou-me supplicante! Elle furioso, parecia-me até bonito! (Voltando-se para Sebastiana que põe a meza) Que estás a fazer?
SEBASTIANA
Ponho a meza, senhora.
ITELVINA
SEBASTIANA
A senhora esqueceu-se das ordens que me deu esta manhan?
ITELVINA
Ah! sim, sim, esta manhan... então ainda eu me preoccupava com pieguices... Mas agora... (Ouve-se a campainha) Tocaram.
SEBASTIANA
Vou vêr. (Sahe pelo fundo).
ITELVINA
(só) Não póde ser meu pae nem meu marido... elles não tocavam. Se fôsse elle... ah! talvez seja... Macario! Quem sabe se a minha presença, despertando-lhe lembranças, acordou a sua paixão... Ah! se fôsse elle, se fôsse elle...
SEBASTIANA
(entrando pelo fundo. Traz uma garrafa, copos e um papel) Senhora, é um homem, enviado pelo snr. Macario, com este papel.
ITELVINA
(pegando no papel com anciedade) D'elle? dá cá, dá cá. (Passa para a direita, em quanto Sebastiana põe a garrafa e os copos sobre o gueridon. Á parte) Ah! não me enganei! Elle ama-me!... Triumpho, em fim!
SEBASTIANA
(á parte) Ella que terá?
ITELVINA
(lendo) «Anno do Nascimento de... 1885, aos 24 dias de... a requerimento...» Hein? papel sellado! (lendo) «A requerimento do snr. Macario dos Anjos, eu, official de justiça abaixo assignado, citei a snr.ª D. Itelvina Barnabé para pagar a quantia de 64$460 réis de porcellanas e crystaes quebrados, etc. etc. etc.» Ah!... (Cahe em uma cadeira á direita e fica silenciosa).
SEBASTIANA
(que tem continuado a pôr a meza, corre para ella) Ai! meu Deus! a senhora achou-se mal?
SCENA VI
Os mesmos e Barnabé
BARNABÉ
(entrando cautamente pelo fundo e vendo Sebastiana que encobre a senhora) Sebastiana! A senhora ainda está no gabinete?
ITELVINA
(indo para o pae) Meu pae!
BARNABÉ
(querendo safar-se) Olha!...
ITELVINA
Venha cá!...
BARNABÉ
Eu volto logo.
ITELVINA
Fique, meu pae. Vae-te embora, Sebastiana.
SEBASTIANA
Sim, minha senhora. (Sahe pelo fundo).
BARNABÉ
Vou-te contar... Descobri outra quinta no Candal.
ITELVINA
Meu pae, eu volto para o Mexico.
BARNABÉ
ITELVINA
Já não tenho homem.
BARNABÉ
Não tens homem? Então Liborio o que é? Parece que tens razão... Elle para homem parece-me muito atrazado... Tu lá sabes...
ITELVINA
Fujo de Portugal, das suas leis, do seu codigo, dos seus costumes (ironicamente) e da sua justiça...
BARNABÉ
Mas, desgraçada, tu vaes encontrar a mesma coisa no Mexico.
ITELVINA
No Mexico?
BARNABÉ
Portugal não tarda a lá chegar com a sua influencia, com os seus jornaes...
ITELVINA
BARNABÉ
Não sabes que Portugal está em Macáo! Basta lá estar o Camoens na gruta.
ITELVINA
Vou para o Japão.
BARNABÉ
Estão lá missionarios portuguezes... os jesuitas que tem um olho muito fino...
ITELVINA
Irei para uma ilha deserta. (Passa para a esquerda).
BARNABÉ
Ah! sim! se achares uma... Ilhas desertas são hoje rarissimas... Não se apanha meia...
ITELVINA
O pae vae comigo?
BARNABÉ
Eu!
ITELVINA
BARNABÉ
Nunca! Pede-me o que quizeres; mas viver só comtigo, isso, nunca!
ITELVINA
Não importa. Vou sosinha. (Repassa para a direita).
BARNABÉ
Filha!... juisinho, filha.
ITELVINA
Eu já não tenho pae... nem marido... nem familia. Parto! adeus! (sahe pela porta da direita).
BARNABÉ
(vendo-a sahir, depois diz tranquillamente) Fallaram-me d'uma casinha no Candal, e, se não fôr humida, tem muitas commodidades. Fiquei de me encontrar com o agente ás cinco horas, e...
SCENA VII
Barnabé e Liborio
LIBORIO
(entrando pelo fundo, sem vêr Barnabé, e olhando para a porta do gabinete que está aberta) Ah! já a soltaram! Sim... definitivamente é a melhor resolução... (Vendo Barnabé) Olá! o senhor!
BARNABÉ
Eu ia sahir.
LIBORIO
Eu tambem parto.
BARNABÉ
E para onde vae?
LIBORIO
Isso é que eu não sei; sei que vou para muito longe. (Passa á esquerda).
BARNABÉ
Muito longe?
LIBORIO
Se vir sua filha, diga-lhe que morri.
BARNABÉ
(tranquillamente) Está bem; direi.
LIBORIO
Diga-lhe que me matou Macario--dê-lhe esse regalão.
BARNABÉ
Está dito. Vá descançado.
LIBORIO
Vou arranjar a mala. (Entra no gabinete).
BARNABÉ
(vê-o sahir e ata o seu monogolo) É no Candal, suburbios de Villa Nova de Gaya; visitarei os armazens. Gaya dizem que tem um castello feito por um rei Mouro, e uma fonte celebre com uma agua muito fina, que seria a melhor bebida do mundo, se não estivessem ali perto as garrafeiras de 1815. Logo ali ao pé está o convento da serra, um logar historico... É um bello arranjo... com repuxo. (Desapparece pelo fundo--A scena fica vasia).
SCENA VIII
Liborio e Itelvina
ITELVINA
(entrando pela direita com uma malêta) Creio que deixei aqui o meu chaile e o meu chapeu (Põe a malêta sobre a meza).
LIBORIO
(sahindo do gabinete com a mala) Onde diabo deixei eu a minha Guia de viajantes?
ITELVINA
(achando o chaile e o chapeo sobre a cama) Cá estão.
LIBORIO
(achando a Guia) Ella aqui está.
ITELVINA
(parando junto d'elle) Ah!... o senhor...
LIBORIO
(surprehendido) Ólé!... a senhora.
ITELVINA
Você parte?
LIBORIO
Parto.
ITELVINA
É boa! temos a mesma ideia!
LIBORIO
Tambem vae?
ITELVINA
Sim senhor... As ideas encontram-se.
LIBORIO
Muito bem; mas, embora se encontrem as ideas, é necessario que nós nos desencontremos. Para onde vae?
ITELVINA
Para onde o senhor não fôr.
LIBORIO
Temos o mesmo itinerario. (Assenta-se perto da jardineira, tendo a mala sobre os joelhos cujas correias afivela, depois de lá ter mettido pequenos objectos que tirou do marmore do fogão).
ITELVINA
Eu vou para o sul.
LIBORIO
Paizes quentes... vae muito bem. N'esse cazo, tomarei o caminho de ferro do norte.
ITELVINA
Ás mil maravilhas.
LIBORIO
Ora olhe... (consulta o Guia) Segue para Lisboa?
ITELVINA
Sigo no expresso.
LIBORIO
Ás 7 da tarde.
ITELVINA
Tão tarde!
LIBORIO
Vejamos a linha do norte. Quatro e quarenta e cinco... que zanga!
ITELVINA
D'aqui até lá, que se hade fazer?
LIBORIO
Uma ideia que o estomago me inspira. Estou em jejum. Jantarei antes de partir.
ITELVINA
Na estação de Campanhã? Pois vá!... Eu faço o mesmo.
LIBORIO
(a sahir com a mala) Adeusinho, e estimo que coma com bom appetite.
ITELVINA
Da mesma sorte. (Vão ambos a sahir pela porta do fundo, e param, cedendo a passagem um ao outro cortezmente). Faz favor.
LIBORIO
Queira passar, minha senhora...
SCENA IX
Os mesmos e Sebastiana
SEBASTIANA
Aqui está a sopa. (Passa por deante de Liborio e colloca a terrina sobre o gueridon).
LIBORIO
A sopa!... Como cheira bem!
SEBASTIANA
Está uma delicia, meu senhor! (sahe pelo fundo).
ITELVINA
(á parte) Uma senhora sosinha n'um restaurante...
LIBORIO
(aproximando-se da meza) Que aromatica!...
ITELVINA
(á parte) O que eu devo fazer é deixar-me estar (Depõe a malêta, o chaile e o chapeo).
LIBORIO
(largando a mala) Se eu tomasse um caldo...
ITELVINA
(indo á jardineira, e achando Liborio a destapar a terrina) Então sempre se resolve?...
LIBORIO
Ah!... é que eu... como o outro que diz...
ITELVINA
Sim... eu tambem reflecti que jantar sosinha n'um restaurante... Repara-se, não é verdade?
LIBORIO
(pegando da mala e passando para a direita) Tem razão e eu cedo-lhe a sopa.
ITELVINA
Então o senhor... não come!
LIBORIO
Boa viagem. (sahe pelo fundo).
SCENA X
ITELVINA
(só, parece muito agitada, e observa se Liborio não volta) O tempo deve estar entroviscado... Cá o sinto nos nervos! (Senta-se á esquerda da jardineira, e serve-se da sopa atabalhoadamente; come em silencio) Esta sopa é detestavel! e depois não tenho appetite nenhum! (Arremessa a colher) Que é o que eu vou fazer a Lisboa? É uma tolice. Viajar, para quê? Lisboa já eu conheço... Se eu fôsse para o norte... (Erguendo-se raivosa contra si) Oh! Itelvina! tu és incrivel!... fazes coisas!... Eu fui muito injusta... porque elle amava-me... Meu pae foi o causador de tudo... Para que lhe disse elle... «Fez bem em matar Macario»? Oh! com certeza, teria elle feito uma boa acção, e a minha maior injustiça foi eu querer castigal-o por isso... Papel sellado!... que patife!...
LIBORIO
(fóra) Vae ahi á Batalha chamar o trem, depressa.
ITELVINA
É a voz d'elle!... tornou!...
SCENA XI
Itelvina e Liborio
LIBORIO
(entrando pelo fundo) Queira perdoar, minha senhora! Chove a cantaros; hade consentir que eu espere o trem que mandei buscar.
ITELVINA
Póde esperar, e como está em jejum, e a sopa está excellente... se quer...
LIBORIO
A sopa cheira bem... muito bem... Isso é verdade.
ITELVINA
Se não receia que o envenene...
LIBORIO
Oh!... (reconsiderando) Em fim... (jovialmente) visto que a senhora tambem come...
ITELVINA
Então sente-se.
LIBORIO
Pois sim... Nada, não quero... Tenho visto muitas comedias em que esposos zangados commettiam a imprudencia de comer juntos, e á sobremeza tinham a desgraça de fazer as pazes... Eu não quero que a senhora se persuada...
ITELVINA
Sem cerimonia... Não quer?
LIBORIO
Não duvido... mas peço licença para comer a minha sopa, longe, acolá, sobre aquella meza (Leva para a meza da direita o seu talher e prato; á parte) Antes quero isto.
ITELVINA
Á sua vontade... talvez estivesse mais seguro no páteo.
LIBORIO
Isso não, porque o vento me sacudiria a chuva sobre o prato. (come).
ITELVINA
(comendo tambem) Que triste tempo para viajar!...
LIBORIO
Não tanto assim... Em primeira classe vae-se agasalhado... Mas pergunto eu: a senhora por que vae?
ITELVINA
Porque não quero estar no Porto.
LIBORIO
Mas, visto que eu me retiro, a senhora fique.
ITELVINA
Sosinha?
LIBORIO
Não: com seu pae e com o defunto Macario.
ITELVINA
Acha que é de bom gosto fazer-me troça?
LIBORIO
Pois não me disse ainda ha pouco que o amava?
ITELVINA
O senhor não me acreditou. Conhece-me bastante para saber que eu não sou mulher que ame quem a ultraja... Quer beber? (deita-lhe vinho no copo) Beba, ande. Ora vá!...
LIBORIO
(erguendo-se) Muito obrigado (Vae pegar do seu copo de sobre a jardineira e bebe).
SCENA XII
Os mesmos e Sebastiana
SEBASTIANA
(entrando pelo fundo com um prato) Fil-a esperar, minha senhora: mas a causa foi o senhor que me mandou buscar um trem (a Liborio:) Já lá está.
LIBORIO
(pousando o copo) Ah! bem! (saudando) Minha senhora!
ITELVINA
(a meia voz) Deante da creada, não. (alto) Sáe, Sebastiana.
SEBASTIANA
(pondo o prato sobre a jardineira) Sim, minha senhora. (Sahe pelo fundo levantando a terrina e os pratos servidos).
LIBORIO
Agora, se me dá licença... (faz mensão de sahir).
ITELVINA
Peço-lhe que se demore um momento... O meu fim não é fazer a tal scena das pazes, descance. Mas, como não nos veremos mais é necessaria a ultima explicação.
LIBORIO
De que serve isso?
ITELVINA
De mais a mais, sobra-lhe tempo para jantar aqui ou na estação. (Servindo-o) Quer uma aza de perdigoto?
LIBORIO
O certo é que as emoçoens tem-me extenuado... Tomarei um pãosito; mas deixemo-nos de explicações, se faz favor... (Pega d'um prato e pão e vae sentar-se á sua meza, a comer).
ITELVINA
(passados instantes) Confesso que fui violenta, arrebatada; mas o senhor julga-se innocente?
LIBORIO
De modo nenhum. Eu pratiquei o enorme e condemnavel crime de me apresentar á senhora em fórma de carta a participar um enterro. Confesso, contrito, a culpa. Se me levassem a uma policia correccional e o juiz me perguntasse: «O snr. Liborio é réo?» Eu respondia: «Sou réo, snr. juiz!»
ITELVINA
O senhor prestou-se a uma ridicula mistificação, uma fraude ultrajante, odiosa, só com o fim de dilacerar uma mulher.
LIBORIO
ITELVINA
Então que foi?
LIBORIO
O caso é este. Macario tinha-me dito o diabo a quatro da senhora. Ora eu tenho cá para mim que quanto mais mal se diz de uma mulher, mais se deseja ser amado d'ella. A alma do homem é assim formada de estupidez e capricho...
ITELVINA
Huum! (Depois de um curto silencio) Quer beber? (Enche o copo).
LIBORIO
(erguendo-se) Agradeço (vae á jardineira) Muito obrigado, querida senhora! (Bebe e torna a ir sentar-se, levando o copo).
ITELVINA
(tendo bebido) Sempre o senhor me collocou n'uma situação bem exquisita! Eu julgava-o o assassino de Macario; e, n'esta persuasão, o meu dever qual era? que me cumpria fazer?
LIBORIO
Mandar chamar o chefe da policia.
ITELVINA
Eu conheco lá policias...
LIBORIO
Em vez d'isso, pensou lá comsigo: «Como é um scelerado, cazo com elle. Se o mettesse na Relação, elle poderia fugir vestido de mulher; mas, cazando com elle, é o mesmo que pôl-o na Penitenciaria, d'onde não se foge facilmente.
ITELVINA
(erguendo-se e vindo ao meio) E isso é tão verdade que o senhor gosa a liberdade de retirar-se quando quizer.
LIBORIO
Mas pergunto eu: tenho liberdade para offerecer a outra o nome que lhe dei? Posso mentir, enganar... e mais nada. Com toda a certeza, heide esquecêl-a; mas hade levar tempo... Não me fingo mais forte do que sou... Esta manhan ainda eu a amava... Como os homens são, senhora!... As mulheres, ás vezes, agradam pelos seus defeitos... e a senhora estava na conta. A senhora chorava de raiva; e eu ao deixal-a, chorava imbecilmente de saudade... d'amor! (Ergue se) Estupida confissão, mas verdadeira!... (Passa á esquerda) Ah! Como os homens são bêstas! Graças vos sejam dadas, Senhor! Isto acabou-se! (Itelvina, sem lhe responder, corre á janella que abre).
ITELVINA
(atirando dinheiro á rua) Cocheiro, ahi tem 10 tostoens; vá-se embora.
LIBORIO
Como é isso? elle é o meu cocheiro.
ITELVINA
Liborio! eu amo-te!
LIBORIO
Como?
ITELVINA
Tu não te vaes embora!
LIBORIO
Não vou?...
ITELVINA
Peço-te perdão, peço-t'o de joelhos! (ajoelha).
LIBORIO
(ajoelhando-se tambem) Tu... de joelhos!
ITELVINA
Confesso que fui injusta.
LIBORIO
Sim... a fallar verdade... mas não...
ITELVINA
Perdôa-me!
LIBORIO
Perdôo... E o pé torcido? Destorceu-se?
ITELVINA
Estou boa de todo.
LIBORIO
Minha esposa!
ITELVINA
Meu marido! (abraçam-se sem se levantarem).
SCENA XIII
Liborio, Itelvina, Barnabé e Sebastiana
BARNABÉ
(entra pelo fundo e recúa) Elles lá se estão a trincar um ao outro!
LIBORIO
(erguendo-se) Está enganado... não nos trincamos.
ITELVINA
(o mesmo) Meu pae, eu adoro o meu marido!
BARNABÉ
Ora ainda bem!
LIBORIO
Aqui entre nós, eu creio que ella está de todo desméxicada.
BARNABÉ
Antes isso, meus filhos, antes isso... Eu vinha annunciar-lhes que me installei definitivamente no Candal.
SEBASTIANA
(a Liborio) Meu senhor, a sege foi-se embora. Quer que se chame outra?
LIBORIO
Só se fôr para meu sogro que se muda, acho eu...
BARNABÉ
Effectivamente mudo para sermos todos felizes de uma assentada. Gosto do Candal. Tenho lá para me entreter o castello do rei mouro, os armazens de Villa Nova. Nos armazens... oh! isso lá é que ha fontes sem ser moiras; fontes christans... christans talvez de mais, por serem muito baptisadas... E depois a serra do Pilar, logares historicos, etc. Vocês cá ficam muito felizes...
ITELVINA
Sim, meu pae, muito felizes... (abraça estremecidamente o marido).
LIBORIO
(com ternura) Então, esta noite, não me penduras a bota nem escondes o chinelo?
ITELVINA
(com meiguice) Não.
LIBORIO
Nem torces um pé?
ITELVINA
Tambem não...
BARNABÉ
Bem! Regalem-se por cá. Lua de mel á portugueza... e nada de Mexico...