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O Assassino de Macario: Comedia em tres actos cover

O Assassino de Macario: Comedia em tres actos

Chapter 87: Barnabé e Liborio
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About This Book

The play unfolds in an elegant setting, introducing Barnabé, who expresses frustration over his servant Sebastiana's tardiness. As he prepares for the day, he reflects on a dream about fishing and his aspirations for marriage. The dialogue reveals a humorous dynamic between Barnabé and Sebastiana, highlighting themes of laziness, domestic life, and the absurdity of dreams. The interactions are characterized by witty exchanges that explore the characters' personalities and their social roles, setting the stage for comedic situations that arise throughout the three acts.

ACTO TERCEIRO

SCENA I

Liborio e Barnabé (ao levantar do pano, Barnabé está sentado no colchão, e Liborio, á direita sobre uma cadeira de braços, cahida. Depois de instantes de silencio, Liborio levanta-se e vae á janella).

LIBORIO

(examinando a rua) Nada, não vejo vir ninguem. Que horas são, snr. Barnabé?

BARNABÉ

Outra vez... Depois do nosso combate... singular, já me perguntou isso trez vezes.

LIBORIO

A quem heide eu perguntal-o? ao meu relogio? á minha pendula? Tudo aqui está desmanchado (á parte) como a cabeça de minha mulher (Levanta a cadeira).

BARNABÉ

Ha cinco minutos que eu lhe disse que eram 3 e 25; agora, por consequencia, são trez e meia.

LIBORIO

(passeando com grandes passos) Ella sahiu ás duas horas... (dirige-se a Barnabé) Como explica o senhor isto? Auzente á hora e meia! (Arruma os trastes).

BARNABÉ

Não que d'aqui de Malmerendas a Miragaya são dois kilometros. Dê-lhe tempo...

LIBORIO

Que lh'o dê? Ella toma o que quer! Fechar o pae e o marido para ir...

BARNABÉ

Minha filha é incapaz de tal...

LIBORIO

É capaz de tudo: é Mexicana, e basta.

BARNABÉ

Não o contrarío, para você não pegar de novo comigo. (Levanta-se e põe o colchão sobre o leito).

LIBORIO

Ah! o senhor tem magnificas ideias! Que eu era pae! Esta só pelo diabo! eu podia lá ser pae, homem!

BARNABÉ

E eu podia lá imaginar que o senhor depois de casado?... Emfim, o que eu lhe disse era para o applacar...

LIBORIO

E para applacar minha mulher disse-lhe que o Macario era vivo. Foi isso?

BARNABÉ

Está claro; as minhas intençoens fôram sempre boas... eu não tive culpa, se o senhor é um marido... distincto.

LIBORIO

Que horas são?

BARNABÉ

(tirando o relogio pacientemente) Trez e trinta e dous minutos. Outra vez. O melhor é ficar com o relogio na mão, (fica assobiando) até o senhor acertar o seu.

LIBORIO

O senhor assobia?

BARNABÉ

Então o senhor quer que eu chore? Deixe-me assobiar, homem! Ha paixoens d'alma que não desafogam se não pelo assobio... situaçoens crueis em que um homem sente a necessidade de estar sempre não só a assobiar, mas até a apitar.

LIBORIO

Tem rasão. Quando se possue uma filha como a sua, e uma esposa como a minha, todas as manifestaçoens do assobio e do apito são permittidas. (Barnabé continua a assobiar) Tem rasão. Assobie á sua vontade... use de todos os instrumentos de sôpro... Desabafe, snr. Barnabé, que eu faço o mesmo. (Assobia tambem. Ouve-se ruido de passos). Sio... escute...

BARNABÉ

Será?... (rumor na fechadura).

LIBORIO

É ella!

BARNABÉ

Prudencia, snr. Liborio, prudencia...

LIBORIO

(sentando-se n'uma cadeira á esquerda, e pegando de um jornal de sobre o fogão) É ella... (atira os pés para cima de uma cadeira).

BARNABÉ

(á parte) Elles vão-se agatanhar!... se eu podesse tingar-me...

SCENA II

Os mesmos e Itelvina (Abre-se a porta do fundo precipitadamente. Itelvina entra muito agitada, fita o pae e o marido, tira o chaile e o chapeu que atira sobre a cama; depois, desce, torna a fitar o marido e o pae, e diz a Barnabé):

ITELVINA

Meu pae! deixe-nos sós. (Barnabé, sem responder, safa-se apressadamente pelo fundo).

SCENA III

Liborio e Itelvina (Itelvina está momentos sem fallar, olhando para o marido que a não encara; depois faz um gesto de impaciencia e diz:)

ITELVINA

Vi Macario. Não estava só... Estava com uma creatura com um penteado de estardalhaço, muito estapafurdio. Iam sentar-se á meza... e eu puxei pela toalha e quebrei tudo... (Movimento de Liborio, que logo se riprime, e retoma a sua apparente tranquilidade). Levantaram-se ambos e avançavam para mim; eu fiquei de braços cruzados, serena, immovel, encarando-os assim! Depois affastei-me lentamente, sem dar palavra, e sahi! (Silencio. Itelvina dá uns grandes passos) Ah! o que são os homens! o que são os homens! (Torna para o marido) Por que é que o senhor me annunciou a morte d'elle? (Silencio) Eu sei-o, disse-m'o meu pae... foi elle, esse miseravel que assim o quiz, não foi? O infame Macario escarneceu o meu amor, ludibriou a minha angustia! Ah! é incomprehensivel! é execravel! (Pega da cadeira em que o marido tem os pés e senta-se ao lado d'elle) Como é que nós havemos de matar Macario?

LIBORIO

(agitado, erguendo-se) Que diz?

ITELVINA

(fazendo-o sentar-se) Ambos nós andamos mal, Liborio. Eu cuidei que tu o matáras... Não se falle mais no passado... acabou-se... Agora, unamo-nos para a vingança... Como é que se hade assassinar Macario?

LIBORIO

(erguendo-se) A senhora terá o diabo no corpo?

ITELVINA

Se estivessemos na minha patria, eu não o consultava; mas aqui, os homens que fizeram as leis, reservam para si o monopolio da vingança, e a honra de uma mulher nada importa, se não implica com a honra do homem. Pois então, snr. Liborio, visto que me esposou, a minha honra é a sua. Um pulha, um sacripanta escarneceu sua mulher... cumpre-lhe evitar que elle o escarneça tambem a si... (com ternura) Mata-o! filho! mata-o!

LIBORIO

(á parte) Arreda! estou em braza!

ITELVINA

(formalisada) Dar-se-ha caso que o senhor, escravo de vãos prejuizos, não queira attentar contra a vida d'elle sem expor a sua? Se é isso, esteja descançado. Se Macario o matar, eu não lhe sobreviverei, nem elle, por que morrerá ás minhas mãos; matal-o-ei, matal-o-ei, e depois lá nos veremos... no ceu! (Apontando-lhe para o ceu, bate-lhe com a outra mão no hombro).

LIBORIO

A senhora com toda a certeza está doida!

ITELVINA

Doida?

LIBORIO

Então a senhora quer que eu vendime o Macario por que elle não quiz cazar comsigo... Tomára eu obrigal-o a cazar...

ITELVINA

Senhor! veja lá o que diz!

LIBORIO

Olhe, menina; isso que a senhora me propõe já Hermione o propoz a Orestes em uma tragedia de Racine, e sabe o que fez a canalha da Hermione, depois que o parvo do Orestes matou Pyrrho? Poz-se a chorar por Pyrrho, e mandou o Orestes á fava. Aqui tem a gratidão das mulheres...

ITELVINA

Por tanto, recuza?

LIBORIO

Redondissimamente. (á parte) Isto é que é o chic da patifaria!

ITELVINA

Bem! Eu pedia-lhe a cabeça de Macario para salvar a sua... Você não quer? não quer? não se falla mais n'isso.

LIBORIO

Isso que quer dizer... explique-se!

ITELVINA

Macario recuou deante dos laços indissoluveis; mas amava-me, estou certa d'isso, e eu... ainda o amo.

LIBORIO

(levantando os dois braços) Que diabo!

ITELVINA

E visto que o senhor desculpa o proceder passado de Macario, terá de desculpar tambem o futuro...

LIBORIO

(agarrando-a pelos braços) Mulher!... Ah! tu pensavas que...

ITELVINA

Largue-me!

LIBORIO

Amas Macario?

ITELVINA

Você magoa-me!

LIBORIO

Os indigenas do Mexico que é o que fazem ás mulheres que se parecem comtigo?

ITELVINA

O senhor está-me a quebrar os braços...

LIBORIO

Póde ser; por que em Portugal, nós os homens, ao lado da lei, tambem temos a força.

ITELVINA

Isso é uma covardia!

LIBORIO

Não sei se é; mas eu, se houvesse de matar alguem, não mataria o Macario...

ITELVINA

Ai! (Cahe de joelhos).

LIBORIO

Olhe bem para mim, senhora! (Ella quer morder-lhe a mão) e não môrda! Se cuidou que cazava com um cordeirinho, mude de opinião a meu respeito. Este homem que se chama Liborio, nascido no Porto, no Poço das Patas n.º 610, é de per si só mais feroz que todos os leopardos do Mexico... Não môrda, ouviu?

ITELVINA

Ai!

LIBORIO

Por emquanto, deixo-a viver; mas tenha juizo, muito juizo, ou dou-lhe a minha palavra de honra que não tardarei a passar a segundas nupcias! (Deixa-a).

ITELVINA

(conserva-se um instante immovel, como humilhada de sua fraqueza; relança á volta de si olhos furiosos, depois levanta-se de um pulo, exclamando:) Ah! a faca de mato! (Corre para o gabinete da toillete).

LIBORIO

Bem sei... (Vae atraz d'ella, e fecha-lhe a porta por fóra logo que ella entra).

ITELVINA

(fechada) Abra, abra a porta!

LIBORIO

(pegando do chapeo) Medite, senhora, que eu passados tres dias, volto cá. (Sahe pelo fundo).

ITELVINA

(batendo na porta) É infame, é abominavel! Snr. Liborio! Olhe que quebro a porta. (Pancadas cada vez mais fortes) Abra-me a porta; peço-lhe que me abra a porta por quem é! Oh! que vil, que indigno procedimento!

SCENA IV

Itelvina (fechada) e Barnabé

BARNABÉ

(entrando pelo fundo) Ora aqui está! Em quanto eu estive aqui fechado, o Braga vendeu a casa da Carriça... Tenho de procurar outra... (Itelvina bate á porta do gabinete. Barnabé que está perto, recua assustado) Que diabo é isto?

ITELVINA

Abra-me a porta!

BARNABÉ

A minha filha fechada! (alto) Tu que fazes ahi?

ITELVINA

Abra, meu pae, abra!

BARNABÉ

Mas como foi isto? (Vae para abrir).

ITELVINA

Foi meu marido... Abra que eu lhe contarei.

BARNABÉ

(retirando-se) Teu marido!... diabo! diabo! isso é mais serio...

ITELVINA

Então, abre?

BARNABÉ

Minha filha, um sôgro não deve intervir entre marido e mulher.

ITELVINA

Então não abre?

BARNABÉ

Procedo como fino politico... Mantenho-me na neutralidade, na não intervenção.

ITELVINA

Mas eu suffoco!... (Grando tropel dentro).

BARNABÉ

Não suffocas, não... Isso passa!... (á parte) Ella arromba o sobrado!... (Sahe).

ITELVINA

(batendo sempre) Meu pae! meu pae! Foi-se?... Socorram-me! Acudam-me!

SCENA V

Sebastiana e Itelvina (Sebastiana entra pela direita, trazendo pratos, talheres, pães e guardanapos)

SEBASTIANA

A voz da senhora no gabinete de vestir... (Pousa o que traz sobre o marmore do fogão). É a senhora?

ITELVINA

Abre, Sebastiana, abre a porta.

SEBASTIANA

Ahi vou, ahi vou. (Abrindo) Que foi isto?

ITELVINA

Péga! (Dá uma bofetada em Sebastiana).

SEBASTIANA

Ah! a senhora bate-me?

ITELVINA

(percorrendo o theatro furiosa) Ó raiva! ó furor!

SEBASTIANA

Se eu soubesse que estava fechada...

ITELVINA

Perdôa-me, perdôa-me, Sebastiana... É a colera, são os nervos... (Dá-lhe dinheiro) Pega lá, guarda...

SEBASTIANA

Obrigado, minha senhora! (á parte) Ella é muito boasinha! (Põe a meza na jardineira).

ITELVINA

(cahindo n'uma cadeira á direita) Tudo que me succede é incrivel! é estupido! Este homem que eu julgava um choninhas, um maricas, um fracalhão, agarrou-me, e prostrou-me supplicante! Elle furioso, parecia-me até bonito! (Voltando-se para Sebastiana que põe a meza) Que estás a fazer?

SEBASTIANA

Ponho a meza, senhora.

ITELVINA

Aqui?!

SEBASTIANA

A senhora esqueceu-se das ordens que me deu esta manhan?

ITELVINA

Ah! sim, sim, esta manhan... então ainda eu me preoccupava com pieguices... Mas agora... (Ouve-se a campainha) Tocaram.

SEBASTIANA

Vou vêr. (Sahe pelo fundo).

ITELVINA

() Não póde ser meu pae nem meu marido... elles não tocavam. Se fôsse elle... ah! talvez seja... Macario! Quem sabe se a minha presença, despertando-lhe lembranças, acordou a sua paixão... Ah! se fôsse elle, se fôsse elle...

SEBASTIANA

(entrando pelo fundo. Traz uma garrafa, copos e um papel) Senhora, é um homem, enviado pelo snr. Macario, com este papel.

ITELVINA

(pegando no papel com anciedade) D'elle? dá cá, dá cá. (Passa para a direita, em quanto Sebastiana põe a garrafa e os copos sobre o gueridon. Á parte) Ah! não me enganei! Elle ama-me!... Triumpho, em fim!

SEBASTIANA

(á parte) Ella que terá?

ITELVINA

(lendo) «Anno do Nascimento de... 1885, aos 24 dias de... a requerimento...» Hein? papel sellado! (lendo) «A requerimento do snr. Macario dos Anjos, eu, official de justiça abaixo assignado, citei a snr.ª D. Itelvina Barnabé para pagar a quantia de 64$460 réis de porcellanas e crystaes quebrados, etc. etc. etc.» Ah!... (Cahe em uma cadeira á direita e fica silenciosa).

SEBASTIANA

(que tem continuado a pôr a meza, corre para ella) Ai! meu Deus! a senhora achou-se mal?

SCENA VI

Os mesmos e Barnabé

BARNABÉ

(entrando cautamente pelo fundo e vendo Sebastiana que encobre a senhora) Sebastiana! A senhora ainda está no gabinete?

ITELVINA

(indo para o pae) Meu pae!

BARNABÉ

(querendo safar-se) Olha!...

ITELVINA

Venha cá!...

BARNABÉ

Eu volto logo.

ITELVINA

Fique, meu pae. Vae-te embora, Sebastiana.

SEBASTIANA

Sim, minha senhora. (Sahe pelo fundo).

BARNABÉ

Vou-te contar... Descobri outra quinta no Candal.

ITELVINA

Meu pae, eu volto para o Mexico.

BARNABÉ

Com teu homem?

ITELVINA

Já não tenho homem.

BARNABÉ

Não tens homem? Então Liborio o que é? Parece que tens razão... Elle para homem parece-me muito atrazado... Tu lá sabes...

ITELVINA

Fujo de Portugal, das suas leis, do seu codigo, dos seus costumes (ironicamente) e da sua justiça...

BARNABÉ

Mas, desgraçada, tu vaes encontrar a mesma coisa no Mexico.

ITELVINA

No Mexico?

BARNABÉ

Portugal não tarda a lá chegar com a sua influencia, com os seus jornaes...

ITELVINA

Irei para a China.

BARNABÉ

Não sabes que Portugal está em Macáo! Basta lá estar o Camoens na gruta.

ITELVINA

Vou para o Japão.

BARNABÉ

Estão lá missionarios portuguezes... os jesuitas que tem um olho muito fino...

ITELVINA

Irei para uma ilha deserta. (Passa para a esquerda).

BARNABÉ

Ah! sim! se achares uma... Ilhas desertas são hoje rarissimas... Não se apanha meia...

ITELVINA

O pae vae comigo?

BARNABÉ

Eu!

ITELVINA

É indispensavel...

BARNABÉ

Nunca! Pede-me o que quizeres; mas viver só comtigo, isso, nunca!

ITELVINA

Não importa. Vou sosinha. (Repassa para a direita).

BARNABÉ

Filha!... juisinho, filha.

ITELVINA

Eu já não tenho pae... nem marido... nem familia. Parto! adeus! (sahe pela porta da direita).

BARNABÉ

(vendo-a sahir, depois diz tranquillamente) Fallaram-me d'uma casinha no Candal, e, se não fôr humida, tem muitas commodidades. Fiquei de me encontrar com o agente ás cinco horas, e...

SCENA VII

Barnabé e Liborio

LIBORIO

(entrando pelo fundo, sem vêr Barnabé, e olhando para a porta do gabinete que está aberta) Ah! já a soltaram! Sim... definitivamente é a melhor resolução... (Vendo Barnabé) Olá! o senhor!

BARNABÉ

Eu ia sahir.

LIBORIO

Eu tambem parto.

BARNABÉ

E para onde vae?

LIBORIO

Isso é que eu não sei; sei que vou para muito longe. (Passa á esquerda).

BARNABÉ

Muito longe?

LIBORIO

Se vir sua filha, diga-lhe que morri.

BARNABÉ

(tranquillamente) Está bem; direi.

LIBORIO

Diga-lhe que me matou Macario--dê-lhe esse regalão.

BARNABÉ

Está dito. Vá descançado.

LIBORIO

Vou arranjar a mala. (Entra no gabinete).

BARNABÉ

(vê-o sahir e ata o seu monogolo) É no Candal, suburbios de Villa Nova de Gaya; visitarei os armazens. Gaya dizem que tem um castello feito por um rei Mouro, e uma fonte celebre com uma agua muito fina, que seria a melhor bebida do mundo, se não estivessem ali perto as garrafeiras de 1815. Logo ali ao pé está o convento da serra, um logar historico... É um bello arranjo... com repuxo. (Desapparece pelo fundo--A scena fica vasia).

SCENA VIII

Liborio e Itelvina

ITELVINA

(entrando pela direita com uma malêta) Creio que deixei aqui o meu chaile e o meu chapeu (Põe a malêta sobre a meza).

LIBORIO

(sahindo do gabinete com a mala) Onde diabo deixei eu a minha Guia de viajantes?

ITELVINA

(achando o chaile e o chapeo sobre a cama) Cá estão.

LIBORIO

(achando a Guia) Ella aqui está.

ITELVINA

(parando junto d'elle) Ah!... o senhor...

LIBORIO

(surprehendido) Ólé!... a senhora.

ITELVINA

Você parte?

LIBORIO

Parto.

ITELVINA

É boa! temos a mesma ideia!

LIBORIO

Tambem vae?

ITELVINA

Sim senhor... As ideas encontram-se.

LIBORIO

Muito bem; mas, embora se encontrem as ideas, é necessario que nós nos desencontremos. Para onde vae?

ITELVINA

Para onde o senhor não fôr.

LIBORIO

Temos o mesmo itinerario. (Assenta-se perto da jardineira, tendo a mala sobre os joelhos cujas correias afivela, depois de lá ter mettido pequenos objectos que tirou do marmore do fogão).

ITELVINA

Eu vou para o sul.

LIBORIO

Paizes quentes... vae muito bem. N'esse cazo, tomarei o caminho de ferro do norte.

ITELVINA

Ás mil maravilhas.

LIBORIO

Ora olhe... (consulta o Guia) Segue para Lisboa?

ITELVINA

Sigo no expresso.

LIBORIO

Ás 7 da tarde.

ITELVINA

Tão tarde!

LIBORIO

Vejamos a linha do norte. Quatro e quarenta e cinco... que zanga!

ITELVINA

D'aqui até lá, que se hade fazer?

LIBORIO

Uma ideia que o estomago me inspira. Estou em jejum. Jantarei antes de partir.

ITELVINA

Na estação de Campanhã? Pois vá!... Eu faço o mesmo.

LIBORIO

(a sahir com a mala) Adeusinho, e estimo que coma com bom appetite.

ITELVINA

Da mesma sorte. (Vão ambos a sahir pela porta do fundo, e param, cedendo a passagem um ao outro cortezmente). Faz favor.

LIBORIO

Queira passar, minha senhora...

SCENA IX

Os mesmos e Sebastiana

SEBASTIANA

Aqui está a sopa. (Passa por deante de Liborio e colloca a terrina sobre o gueridon).

LIBORIO

A sopa!... Como cheira bem!

SEBASTIANA

Está uma delicia, meu senhor! (sahe pelo fundo).

ITELVINA

(á parte) Uma senhora sosinha n'um restaurante...

LIBORIO

(aproximando-se da meza) Que aromatica!...

ITELVINA

(á parte) O que eu devo fazer é deixar-me estar (Depõe a malêta, o chaile e o chapeo).

LIBORIO

(largando a mala) Se eu tomasse um caldo...

ITELVINA

(indo á jardineira, e achando Liborio a destapar a terrina) Então sempre se resolve?...

LIBORIO

Ah!... é que eu... como o outro que diz...

ITELVINA

Sim... eu tambem reflecti que jantar sosinha n'um restaurante... Repara-se, não é verdade?

LIBORIO

(pegando da mala e passando para a direita) Tem razão e eu cedo-lhe a sopa.

ITELVINA

Então o senhor... não come!

LIBORIO

Boa viagem. (sahe pelo fundo).

SCENA X

ITELVINA

(só, parece muito agitada, e observa se Liborio não volta) O tempo deve estar entroviscado... Cá o sinto nos nervos! (Senta-se á esquerda da jardineira, e serve-se da sopa atabalhoadamente; come em silencio) Esta sopa é detestavel! e depois não tenho appetite nenhum! (Arremessa a colher) Que é o que eu vou fazer a Lisboa? É uma tolice. Viajar, para quê? Lisboa já eu conheço... Se eu fôsse para o norte... (Erguendo-se raivosa contra si) Oh! Itelvina! tu és incrivel!... fazes coisas!... Eu fui muito injusta... porque elle amava-me... Meu pae foi o causador de tudo... Para que lhe disse elle... «Fez bem em matar Macario»? Oh! com certeza, teria elle feito uma boa acção, e a minha maior injustiça foi eu querer castigal-o por isso... Papel sellado!... que patife!...

LIBORIO

(fóra) Vae ahi á Batalha chamar o trem, depressa.

ITELVINA

É a voz d'elle!... tornou!...

SCENA XI

Itelvina e Liborio

LIBORIO

(entrando pelo fundo) Queira perdoar, minha senhora! Chove a cantaros; hade consentir que eu espere o trem que mandei buscar.

ITELVINA

Póde esperar, e como está em jejum, e a sopa está excellente... se quer...

LIBORIO

A sopa cheira bem... muito bem... Isso é verdade.

ITELVINA

Se não receia que o envenene...

LIBORIO

Oh!... (reconsiderando) Em fim... (jovialmente) visto que a senhora tambem come...

ITELVINA

Então sente-se.

LIBORIO

Pois sim... Nada, não quero... Tenho visto muitas comedias em que esposos zangados commettiam a imprudencia de comer juntos, e á sobremeza tinham a desgraça de fazer as pazes... Eu não quero que a senhora se persuada...

ITELVINA

Sem cerimonia... Não quer?

LIBORIO

Não duvido... mas peço licença para comer a minha sopa, longe, acolá, sobre aquella meza (Leva para a meza da direita o seu talher e prato; á parte) Antes quero isto.

ITELVINA

Á sua vontade... talvez estivesse mais seguro no páteo.

LIBORIO

Isso não, porque o vento me sacudiria a chuva sobre o prato. (come).

ITELVINA

(comendo tambem) Que triste tempo para viajar!...

LIBORIO

Não tanto assim... Em primeira classe vae-se agasalhado... Mas pergunto eu: a senhora por que vae?

ITELVINA

Porque não quero estar no Porto.

LIBORIO

Mas, visto que eu me retiro, a senhora fique.

ITELVINA

Sosinha?

LIBORIO

Não: com seu pae e com o defunto Macario.

ITELVINA

Acha que é de bom gosto fazer-me troça?

LIBORIO

Pois não me disse ainda ha pouco que o amava?

ITELVINA

O senhor não me acreditou. Conhece-me bastante para saber que eu não sou mulher que ame quem a ultraja... Quer beber? (deita-lhe vinho no copo) Beba, ande. Ora vá!...

LIBORIO

(erguendo-se) Muito obrigado (Vae pegar do seu copo de sobre a jardineira e bebe).

SCENA XII

Os mesmos e Sebastiana

SEBASTIANA

(entrando pelo fundo com um prato) Fil-a esperar, minha senhora: mas a causa foi o senhor que me mandou buscar um trem (a Liborio:) Já lá está.

LIBORIO

(pousando o copo) Ah! bem! (saudando) Minha senhora!

ITELVINA

(a meia voz) Deante da creada, não. (alto) Sáe, Sebastiana.

SEBASTIANA

(pondo o prato sobre a jardineira) Sim, minha senhora. (Sahe pelo fundo levantando a terrina e os pratos servidos).

LIBORIO

Agora, se me dá licença... (faz mensão de sahir).

ITELVINA

Peço-lhe que se demore um momento... O meu fim não é fazer a tal scena das pazes, descance. Mas, como não nos veremos mais é necessaria a ultima explicação.

LIBORIO

De que serve isso?

ITELVINA

De mais a mais, sobra-lhe tempo para jantar aqui ou na estação. (Servindo-o) Quer uma aza de perdigoto?

LIBORIO

O certo é que as emoçoens tem-me extenuado... Tomarei um pãosito; mas deixemo-nos de explicações, se faz favor... (Pega d'um prato e pão e vae sentar-se á sua meza, a comer).

ITELVINA

(passados instantes) Confesso que fui violenta, arrebatada; mas o senhor julga-se innocente?

LIBORIO

De modo nenhum. Eu pratiquei o enorme e condemnavel crime de me apresentar á senhora em fórma de carta a participar um enterro. Confesso, contrito, a culpa. Se me levassem a uma policia correccional e o juiz me perguntasse: «O snr. Liborio é réo?» Eu respondia: «Sou réo, snr. juiz!»

ITELVINA

O senhor prestou-se a uma ridicula mistificação, uma fraude ultrajante, odiosa, só com o fim de dilacerar uma mulher.

LIBORIO

Não foi isso.

ITELVINA

Então que foi?

LIBORIO

O caso é este. Macario tinha-me dito o diabo a quatro da senhora. Ora eu tenho cá para mim que quanto mais mal se diz de uma mulher, mais se deseja ser amado d'ella. A alma do homem é assim formada de estupidez e capricho...

ITELVINA

Huum! (Depois de um curto silencio) Quer beber? (Enche o copo).

LIBORIO

(erguendo-se) Agradeço (vae á jardineira) Muito obrigado, querida senhora! (Bebe e torna a ir sentar-se, levando o copo).

ITELVINA

(tendo bebido) Sempre o senhor me collocou n'uma situação bem exquisita! Eu julgava-o o assassino de Macario; e, n'esta persuasão, o meu dever qual era? que me cumpria fazer?

LIBORIO

Mandar chamar o chefe da policia.

ITELVINA

Eu conheco lá policias...

LIBORIO

Em vez d'isso, pensou lá comsigo: «Como é um scelerado, cazo com elle. Se o mettesse na Relação, elle poderia fugir vestido de mulher; mas, cazando com elle, é o mesmo que pôl-o na Penitenciaria, d'onde não se foge facilmente.

ITELVINA

(erguendo-se e vindo ao meio) E isso é tão verdade que o senhor gosa a liberdade de retirar-se quando quizer.

LIBORIO

Mas pergunto eu: tenho liberdade para offerecer a outra o nome que lhe dei? Posso mentir, enganar... e mais nada. Com toda a certeza, heide esquecêl-a; mas hade levar tempo... Não me fingo mais forte do que sou... Esta manhan ainda eu a amava... Como os homens são, senhora!... As mulheres, ás vezes, agradam pelos seus defeitos... e a senhora estava na conta. A senhora chorava de raiva; e eu ao deixal-a, chorava imbecilmente de saudade... d'amor! (Ergue se) Estupida confissão, mas verdadeira!... (Passa á esquerda) Ah! Como os homens são bêstas! Graças vos sejam dadas, Senhor! Isto acabou-se! (Itelvina, sem lhe responder, corre á janella que abre).

ITELVINA

(atirando dinheiro á rua) Cocheiro, ahi tem 10 tostoens; vá-se embora.

LIBORIO

Como é isso? elle é o meu cocheiro.

ITELVINA

Liborio! eu amo-te!

LIBORIO

Como?

ITELVINA

Tu não te vaes embora!

LIBORIO

Não vou?...

ITELVINA

Peço-te perdão, peço-t'o de joelhos! (ajoelha).

LIBORIO

(ajoelhando-se tambem) Tu... de joelhos!

ITELVINA

Confesso que fui injusta.

LIBORIO

Sim... a fallar verdade... mas não...

ITELVINA

Perdôa-me!

LIBORIO

Perdôo... E o pé torcido? Destorceu-se?

ITELVINA

Estou boa de todo.

LIBORIO

Minha esposa!

ITELVINA

Meu marido! (abraçam-se sem se levantarem).

SCENA XIII

Liborio, Itelvina, Barnabé e Sebastiana

BARNABÉ

(entra pelo fundo e recúa) Elles lá se estão a trincar um ao outro!

LIBORIO

(erguendo-se) Está enganado... não nos trincamos.

ITELVINA

(o mesmo) Meu pae, eu adoro o meu marido!

BARNABÉ

Ora ainda bem!

LIBORIO

Aqui entre nós, eu creio que ella está de todo desméxicada.

BARNABÉ

Antes isso, meus filhos, antes isso... Eu vinha annunciar-lhes que me installei definitivamente no Candal.

SEBASTIANA

(a Liborio) Meu senhor, a sege foi-se embora. Quer que se chame outra?

LIBORIO

Só se fôr para meu sogro que se muda, acho eu...

BARNABÉ

Effectivamente mudo para sermos todos felizes de uma assentada. Gosto do Candal. Tenho lá para me entreter o castello do rei mouro, os armazens de Villa Nova. Nos armazens... oh! isso lá é que ha fontes sem ser moiras; fontes christans... christans talvez de mais, por serem muito baptisadas... E depois a serra do Pilar, logares historicos, etc. Vocês cá ficam muito felizes...

ITELVINA

Sim, meu pae, muito felizes... (abraça estremecidamente o marido).

LIBORIO

(com ternura) Então, esta noite, não me penduras a bota nem escondes o chinelo?

ITELVINA

(com meiguice) Não.

LIBORIO

Nem torces um pé?

ITELVINA

Tambem não...

BARNABÉ

Bem! Regalem-se por cá. Lua de mel á portugueza... e nada de Mexico...

FIM